20.9.07

A QUADRATURA DO CIRCO

Shopping syndrome

Breve discorrência sobre o olhar triste das pessoas
Por Pedro Barroso
NÃO É FÁCIL ENCONTRAR uma Edding 1200 n.º 1 preto grosso.
A busca prolonga-se pelas papelarias de maior cachet e abundância e por vezes não há mesmo. E não temos nem explicação de quando haverá, nem esperanças de saber.
O empregado, pobre dele, não sabe. Não está sequer interessado, não lhe pagam para saber. Está ali há sete horas em pé. O miúdo esta noite não deixou dormir ninguém. Tomara ele que as canetas todas do mundo desaparecessem.
Mas enfim, prosseguimos a nossa busca, cada um do seu lado do desejo de alcançar.
Tentamos também em alternativa um Solid marker opaco da Sakura. Deixa um traço irregular, tipo cera, coisa artística. Parece uma boa escolha; mas não têm preto, o que é estranho. Só vermelho. Ele ri-se, o sacana. E eu fico com o trabalho por acabar. Chiça.
Quando a impressora cínica nos dá sinal, é tramado – já estamos sem tinta. Ora bem. Paramos tudo e temos absolutamente de encontrar aquele tinteiro. Mas tentar por vezes encontrar o tinteiro Epson TO611 torna-se um pesadelo. Não há. Caras de pau.
Vamos a uma grande superfície especializada em informática e a secção de consumíveis está fechada para balanço. “Venha amanhã...”
Dóceis, obedecemos. Na manhã seguinte insistimos junto da indisposta funcionária que nos diz que, se realmente as prateleiras estão vazias, é porque não há. E mais não nos sabe adiantar. Perdão; ainda ouço – “parece que já foram encomendados” – rosnado entre dentes, num esgar, já de partida.
Coisas que se dizem e nada consolam; e também nada significam, afinal.
Lembro com angústia o pesadelo que passei para conseguir uma anilha sincronizadora de 3ª para um velho Austin Maxi 1750 que possuí há três vidas atrás. Foram meses de choro e mendicidade, junto de primos, afilhados e amigos de funcionários de lojas de peças de automóveis que pudessem ou soubessem dar uma informação sobre o paradeiro de tal raridade. E alvíssaras, muitas alvíssaras, quando, numa manhã de nevoeiro se consegue, como se fosse o triunfo na Champions, algo que tem apenas uns magros centímetros de envergadura!
Por vezes menos, sabe-se lá,… uma lente para implantar no olho de um paciente em espera há doze anos; um parafuso para a armadura dos óculos que nos dá a volta à cabeça antes de dar as voltas ao devido sítio, porque não há.
“Tem aqui este que quase servia, mas depois tem de ajustar a porca com contra porca, ou talvez pôr uma anilha; mas vê-se logo que nunca vai ficar perfeito, enfim… o senhor é que sabe…”
E nós, analfabetos e distantes, no mais parvo dilema da vida, no meio de um agreste mundo hostil, que nos trata mal e nos persegue, em malapata, azar, coincidência, prejuízo, infortúnio, revés ou tudo isso junto, sem saber o que fazer.
E o mundo enorme e incompreensível, nada fácil, maldisposto, agressivo e sem graça nenhuma à nossa volta. E as caras de toda essa gente tão cheias de “não temos!”.
As grandes superfícies são em geral sádicas. Obrigam-nos a percorrer quilómetros em procura de um item que, na prateleira do Sr. Antunes do meu velho bairro de menino era só estender a mão e pronto; estava ali. Comércio de bairro, os senhores calculam.
Tudo ali. Naquela Babel de caixas e caixinhas e caixotes, sacos, bidões e armários bonitos com mil gavetas e prateleiras. E com um sorriso!... Que saudade.
- Se não tiver aqui Milenium o senhor procure no piso de cima, mas olhe, não tenho a certeza posso estar enganado, se calhar é no piso de baixo…
E nós, na dúvida, olhamos o hieroglífico ponto onde uma pretensa planta nos houvera de esclarecer. Pondo os óculos e esforçando-nos por encontrar, num mundo de siglas e riscos confusos, alguns indícios decifráveis, num mapa escrito para gente com menos 5 dioptrias que nós. Tudo inútil. Ficamos na mesma e, afinal de contas, onde estará a porcaria do Banco?!
E já ninguém nos sorri. As pessoas andam todas agoniadas, indispostas, desconfiadas, ácidas, revoltadas. Querem ter o ordenado do Vítor Constâncio, sem o ónus do seu penteado, evidentemente. E não têm.
Por isso o mundo ficou, de repente, hostil e maldisposto no meu país.
Eu pedi pressa na moldureira e ela retorquiu-me com um olhar suburbano, cansado e pobre, que me deu pena. Que “estava ali ainda não tinha almoçado e o patrão não lhe pagava mais por isso”. E eu calei-me, solidário e subitamente triste também.
E ali ao lado, reparei então que o suor e a gordura dos fritos escorriam no rosto da menina dos hambúrgueres. Seria linda e elegante se não fosse isso. Obrigada a usar um quico horroroso na cabeça, em vez da grinalda que lhe pertenceria por mérito próprio. Ela, que tanto sonhou um dia ser bailarina.
A sensação que tenho é de que, se perguntarmos hoje em dia por alguma coisa que não saibamos, já lá vai o tempo da extrema solicitude. Vão responder-nos com pressa, mal e desajeitadamente, com olhos baços de tanto pensar no lado negro das suas vidas.
O homem do táxi. O sujeito a quem encomendei a porta. O polícia de turno. O senhor das tintas. O padeiro. O “homem de rua” ou o “senhor de escritório”. O comerciante ou o funcionário. Todos. Sei lá. Talvez eu, também.
Uma coisa é certa. A felicidade não anda a passar por aqui. E a qualidade do serviço ressente-se. O aviamento humano da ternura. O sorriso normal da felicidade e do humor estão moribundos. Este não anda a ser o meu país.
Estou de relações cortadas com este Portugal. A Pátria que conheci e amei – a de Deuladeu e Mem Ramires, de Eça, Camões, Vergílio Ferreira, Pessoa, Salgueiro Maia… – está amancebada com uns senhores que não conheço.
Não gosto que me ande a fazer isto na minha cara. Arrufos de velhos amantes.
Talvez um dia o Sr. Antunes regresse, com a sua inefável loja.
E o nosso mundo regresse à normalidade afável que outrora lhe conheci. E o sorriso regresse à cidade nova.

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1 Comments:

Blogger R. da Cunha said...

Infelizmente, o sr. Antunes, que enviuvara cedo, já se foi e não deixou descendência. A loja é, hoje, uma boutique fina, com umas meninas finas também (tipo net-cabo) do anúncio. Mas temos o e-qualquer coisa e resolvemos o problema facilmente, salvo se formos infofórbicos (parafraseando o C. Medina Ribeiro), que é o mais certo e, então, não há mesmo solução. É que já quase nem há daquelas feiras onde a gente experimentava vários pares de óculos até que acertava nuns com que se via qualquer coisa. Claro que , esteticamente, deizavam a desejar, mas também não se pode ter tudo, não é?

20 de setembro de 2007 às 23:24  

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