20.11.07

O triunfo de Fedúncia da Costa

Por Appio Sottomayor
NO PRECISO DIA em que me dirigia à centenária “Ginjinha” do Largo de S. Domingos para comprar uma garrafinha do precioso líquido – que me estava em falta na magra garrafeira – soube, pela rádio e pelo DN, que a casa tinha sido fechada.
Aquela “Ginjinha” exibe há largas décadas, nas portas e num quadro lateral, uma original publicidade à casa, toda ela em verso. O autor das rimas foi o jornalista e autor teatral Eduardo Fernandes, mais conhecido pelo cognome de Esculápio (pai de vários filhos, entre os quais outro Eduardo Fernandes, advogado e actor de cinema, “mau da fita” em “A Canção de Lisboa” e galã em “Maria Papoila”).
Ora o Esculápio e um pintor cujo nome ignoro deixaram nas portas do pequeno estabelecimento, de um lado um tal Mateus, que era “um chochinha, mais feio que um camafeu, magro, tísico, um fuínha”, por nunca ter bebido na vida “nem um copo de ginjinha”. Contrastava com o irmão; este, conhecedor das virtudes do licor, era forte e gozava de saúde; do outro lado, exibe-se
*****Dona Fedúncia da Costa
*****Delambida e magrizela
*****que fez, de ser tola, uma aposta:
*****Diz que ginjinha nem vê-la
*****Porque, coitada, não gosta!
Em contrapartida, a ama de um reverendo apresenta um aspecto “tremendo” e saudável porque o colorido líquido faz parte dos seus usos diários!
A jornalista Luísa Botinas não entrou em pormenores na sua reportagem, indicando as causas exactas do encerramento da casa. Mas deu uma deixa, que ouvi repetida por muitas bocas entre a vizinhança: não há ali casa de banho.
Se assim for – isto é, se não houver razões mais directas e fundamentadas – parece tratar-se de um manifesto exagero, quase de um fundamentalismo. Para que raio quer um cliente (que por ali passa e só vê um balcão pequeno, quanto basta para lhe servirem um copinho “com” ou “sem”) uma casa de banho? Porque não instala a Câmara por ali os sanitários práticos e higiénicos que se vêem por essa Europa e que em Lisboa não abundam?
Toda a gente de bom senso gostaria de estar grata à ASAE e, de um modo geral, a quem defende a nossa saúde. Mas parece haver às vezes uns laivos de recta pronúncia e legalismo cegos. Será o caso?
Para já, a ideia que fica é que Dona Fedúncia da Costa, ao cabo de tantos anos, ganhou a partida: Ginjinha nem vê-la . Ela não gosta...
«Sorumbático» - 20 de Novembro de 2007

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14 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Já existe uma casa de banho pública a 30 metros da ginjinha. Junto à paragem de autocarro. Bem moderna e auto-limpante. Não estou a ser irónico. É a sério.

20 de novembro de 2007 às 15:30  
Blogger Enigma said...

Segundo a legislação vigente,todos os estabelecimentos de bebidas e/ou restauração (odeio este termo) têm que possuir instalações para os funcionários, e que constam de vestiário e casa de banho, pelo que presumo que a casa de banho em falta seja esta destinada ao pessoal, mesmo que haja apenas um funcionário. Aliás, como no estabelecimento em causa não há mesas, não haverá em princípio permanência prolongada de clientes, pelo que não é exigível instalações sanitárias para estes.

20 de novembro de 2007 às 15:55  
Anonymous Anónimo said...

Nestas coisas que metem ASAE, em geral ela tem razão.
E digo que tem razão em termos legais, formais, etc.

O que choca o cidadão-comum é o «8 ou 80» em que vivemos:
Mais depressa arranja sarilhos o dono da "Ginjinha" ou a senhora das Bolas de Berlim do que os criminosos que poluem o Alviela ou a Ribeira dos Milagres ou enchem o país com urbanizações clandestinas.

A anedota suplementar está relacionada com as sucessivas notícias que nos dão conta de que os autos levantados pela ASAE não têm seguimento, por dificuldades burocráticas.

20 de novembro de 2007 às 16:07  
Anonymous Anónimo said...

quando por lá passei há tempos, reparei que os copos eram lavados à torneira, sem detergente nem nada. Não será isto uma boa razão?

20 de novembro de 2007 às 17:51  
Anonymous Anónimo said...

Normalmente, a ASAE fecha os estabelecimentos provisoriamente (indicando quais as falhas que notou), e regressa mais tarde para ver se já está tudo bem.
No caso de as anomalias terem sido corrigidas, o estabelecimento reabre.

E está correcto que assim seja.

Resta saber, pois, se o fecho da "Ginjinha" foi um fecho desse género ou se foi definitivo.

A crónica dá a entender que teria sido definitivo, o que leva a crer que estaria em causa uma anomalia impossível de corrigir com alteração de procedimentos (como lavagem dos copos).

Terá sido isso?

20 de novembro de 2007 às 18:06  
Blogger A Vilhena said...

Se a ASAE fosse a Madrid... fechava(m) a ASAE

20 de novembro de 2007 às 20:07  
Blogger Luís Bonifácio said...

Noutro dia fui comprar sabonete líquido a um hiper-mercado. Não havia. Apenas encontrei umas embalagens que aparentavam ser sabonete líquido, mas diziam "Jábon liquido".

21 de novembro de 2007 às 00:15  
Blogger Luís Bonifácio said...

A verdadeira razão pela qual a ASAE encerrou a Ginjinha é que o seu director ao passar pelo largo de São Domingos não gostou de ver a sua avó (A Fedúncia) ser tão maltratada.

21 de novembro de 2007 às 00:17  
Anonymous Anónimo said...

Os portugueses são assim. Criticam a ASAE por tudo e por nada. Se não houvesse ASAE criticavam outra coisa qualquer por não haver uma instituição deste género...

Eu prefiro que haja uma ASAE que faça estas acções do que não haver nada. A cidadania também passa por estas coisas.

Estamos muito mal habituados...

23 de novembro de 2007 às 12:59  
Anonymous Anónimo said...

Acho que o leitor Duarte, no 3.º comentário, pôs o dedo na ferida quando escreve:

«O que choca o cidadão-comum é o «8 ou 80» em que vivemos:
Mais depressa arranja sarilhos o dono da "Ginjinha" ou a senhora das Bolas de Berlim do que os criminosos que poluem o Alviela ou a Ribeira dos Milagres ou enchem o país com urbanizações clandestinas».

23 de novembro de 2007 às 13:22  
Anonymous Anónimo said...

Será que fecharam a Ginginha porque as ditas têm ...caroço? As da minha avó tinham...agora as da Ginginha não sei. Há que proteger o consumidor! E se o bebedolas se engasgava com o caroço? Temos que ser protegidos a todo o custo . O Big Brother protege-nos mesmo contra a nossa vontade, porque nós pobres crianças não sabemos distinguir o que nos faz bem daquilo que nos pode matar!O perigo espreita...nos comes e bebes das feiras, nas bolinhas da praia, nas castanhas assadas em "páginas amarelas", na ginginha com caroço. Um dia chegará em que nasceremos envoltos numa bolha anti-séptica e, se por infelicidade, ou descuido da ASAE, entrarmos em contacto com um pindérico de um micróbio batemos logo a bota e vamos desta pra melhor. Haja bom senso! Cada vez que me falam na ASAE puxo logo de uma bolinha de Berlim! (ou de uma ginginha...ou de uma castanha encartuchada em folha de lista amarela...).
PS : Assim de repente, lembrei-me de um sítio onde a ASAE podia ir que me dava jeito .. à cozinha dos pastéis de Belém...fechavam aquilo de certeza, dentro do princípio de que o que sabe bem faz mal e eu emagrecia uns quilitos antes do Natal!

24 de novembro de 2007 às 23:13  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Maria Socretina:

Vai, decerto, apreciar a crónica de António Barreto no PÚBLICO de hoje...
Será afixada no SORUMBÁTICO, como habitualmente na 2ª feira - amanhã.

25 de novembro de 2007 às 08:55  
Anonymous Anónimo said...

Há algum tempo, ao andar num Lancia Aurelia de um primo meu, estranhei a falta de cinto-de-segurança e de retrovisores laterais coisas que, hoje, são obrigatórias. Então como é que o carro circulava - e 100% legalmente?!

O dono explicou-me, então, que os carros anteriores a uma determinada data (1968 ou 70, já não me lembro) estão dispensados de cumprir alguns requisitos. E no caso dele nem sequer havia (por motivos de construção) lugar para fixar os cintos, se os quisesse instalar.

Da mesma forma, certos estabelecimentos têm de ser encarados como históricos e acarinhados como tal (a "Ginjinha" é do século XIX), pelo que, embora tenham de satisfazer critérios mínimos de higiene, não se lhes pode exigir o mesmo que a um estabelecimento actual.
Quanto mais não seja, para não serem descaracterizados.

Seria o mesmo que exigir que o castelo de Almourol ou o Palácio da Pena cumprissem as leis actuais de construção de edifícios - sob pena de encerramento!

C.

25 de novembro de 2007 às 09:20  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

O júri decidiu premiar os dois últimos comentários, da autoria de "Maria Socretina" e de "C.", a quem se pede que contactem sorumbatico@iol.pt para que lhes seja enviada a lista de livros-prémio.
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Entretanto, em post afixado no dia 25, decorre (até ao dia 27)uma "Votação pelos leitores" que poderá vir a premiar um terceiro leitor.

26 de novembro de 2007 às 00:20  

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