12.2.08

Ilogismo romântico

Por Nuno Crato
NÃO CORREU DA MELHOR MANEIRA, na semana passada, a estreia da ópera de Emmanuel Nunes.
Numa iniciativa inédita, a peça foi transmitida em directo do São Carlos para 14 palcos distribuídos pelo país. Ao longo das quatro horas do espectáculo, contudo, o público foi abandonando as salas. Segundo um diário, a ópera «encheu (e esvaziou) teatros».
No rescaldo da aventura, alguns musicólogos criticaram a escolha da obra, dizendo que foi um mau serviço prestado à música. Mas houve quem depreciasse o abandono do público, dizendo que o mesmo «sempre se passou com as obras novas». Não é verdade! Basta relembrar a estima que Bach teve em vida, os sucessos populares de Mozart ou as fantásticas reacções de apreço às inovadoras sinfonias de Beethoven.
Sabemos que algumas obras artísticas foram de início mal recebidas, vindo posteriormente a impor-se à apreciação dos críticos e do público. Mas alguns críticos portugueses resolveram virar a lógica do avesso, pensando que o desinteresse do público é prova da qualidade de uma obra.
Na base deste duplo ilogismo está a teoria romântica do artista incompreendido, lançada por Richard Wagner em meados do século XIX. O artista, por estar à frente do seu tempo, nunca poderia ganhar o aplauso dos contemporâneos.
A falácia é óbvia. Neste aspecto, como noutros, a arte distingue-se da ciência. Enquanto a produção científica singra por descobertas novas, a produção artística não tem um caminho para compreensão progressivamente melhor da realidade.
Não tem sentido dizer que a «Mensagem» é um avanço em relação a «Os Lusíadas», mas pode dizer-se que a mecânica quântica é um progresso em relação ao atomismo rudimentar de John Dalton.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 9 de Fevereiro de 2008

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