3.3.08

Uma ASAE para os transportes

Por Alice Vieira
HÁ ANOS QUE DEIXEI de ter automóvel e não lhe sinto a falta. Ando muito a pé e, evidentemente, de metro, de autocarro, de táxi, de comboio, de camioneta - e de avião quando a viagem é longa. Confesso que o barco não se encontra no rol das minhas preferências, porque enjoo nem que seja numa viagem do Cais do Sodré ao Ginjal.
Pior: enjoo mesmo naqueles barcos transformados em restaurantes à beira rio! Mal ponho lá o pé, começo logo a ver chão a mais na minha frente, e é o desastre anunciado.
E é com a autoridade que me dá o facto de ser utente diária de transporte público que eu gostava de saber se não haverá por aí uma qualquer entidade reguladora do seu grau de degradação.
Calculo que haja.
Tem de haver.
Assim como há uma ASAE castigadora, tem de haver uma congénere que, com a mesma fúria purificadora, se debruce sobre esta desgraça em que os transportes se vão transformando.
Claro que o problema não é de hoje, mas vai-se avolumando com o correr dos anos e, de repente, nós que vamos aguentando, aguentando, aguentando – chega um dia em quem desatinamos porque é impossível aguentar mais.
Aqui há dias regressava eu de Santo André, a meio da tarde, na camioneta que vinha de Sines para Lisboa. Pois tive de andar a saltar de fila em fila, simplesmente porque quase todos os lugares estavam avariados. Quer dizer: alguém (sabe-se lá quando…) se tinha sentado, se tinha recostado para trás e, ao sair, o assento encravara e não tinha conseguido voltar ao seu lugar. Quem se sentava atrás, tinha de ir as horas todas da viagem com o banco da frente praticamente ao colo. E isto quase fila sim fila não.
Quem me visse naquele saltitar, e não soubesse do que se passava, possivelmente pensaria que eu tinha feito alguma promessa de experimentar todos os lugares daquela camioneta.
E o que é mais grave é que isto não é caso único – já para não falar da sujidade dos lugares e do chão...
E os táxis?
Já experimentaram entrar num deles, estacionado numa praça, aí pelas cinco da manhã? Garanto-vos que é uma sensação inesquecível.
A sensação de entrar num cubículo onde um homem, compreensivelmente encasacado por causa do frio, esteve a dormir a noite inteira sem abrir uma nesga da janela.
Estão a ver o ambiente?
Melhor: estão a cheirá-lo?
Eu sei que ninguém gosta de trabalhar a essa hora, eu se pudesse também não os incomodava tão cedo, juro, e de certeza que não o faço para me ir divertir ou brincar ao Carnaval.
Mas se estão ali para prestar um serviço (e serem, obviamente, pagos por ele) têm de o fazer com um mínimo de rigor e qualidade. É claro que não espero que eles tomem a liberdade de pensar que me apetece algo, como o Anselmo do anúncio – mas gostava, sinceramente gostava, de não ter de fazer todo o percurso até Santa Apolónia com aquele cheiro que parece uma estranha mistura de suor e alho a entrar-me por todos os poros.
Como em tudo, há sempre as excepções. Mas são tão raras, tão raras que eu agora, por mais esforços que faça, até nem me lembro de nenhuma.
«JN» de 2 Mar 08. A imagem é do arquivo Humor Antigo, Ano de 1933

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1 Comments:

Blogger Blondewithaphd said...

ASAE para os transportes já!
Confesso-me uma "carroaólica" impenitente (acho que o meu Português hoje está uma vergonha!) mas:
- o ensebado dos corrimãos (aquelas coisas onde nos agarramos) do metro e dos autocarros causam-me um nojo danado;
- os táxis com assentos de cabedal engordurado e pegajoso pelo calor mais nojo me dão;
- o gasóleo queimado dos transportes com avarias nos carburadores (ou lá o que é) é das coisas mais poluentes que me tem sido dado experimentar na vida;
- aquela ideia de agora terem mudado os bilhetes de metro em Lisboa e já não se usar a ranhura deixou-me paralisada à procura de instruções na sexta-feira (eu que não andava de metro há cerca de uns três/quatro meses vi-me a tentar decifrar como é que se entrava);
- e mais, com a bilheteira automática avariada e sem ninguém no cubículo de atendimento senti-me a coisa mais desgraçada desta vida (I mean, eu só queria um bilhete!).
ASAE para os transportes, please!

4 de março de 2008 às 16:57  

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