16.4.08

Miguéis

Por Joaquim Letria
O "PÚBLICO" dedicou-lhe agora um livro biográfico e há dias deu-lhe uma página com o título “O autor (quase) desconhecido”.
É verdade. José Rodrigues Miguéis, para quem não saiba, ou o conheça mal, é um grande escritor com lugar de honra na Literatura portuguesa.
Dei por ele ainda eu era adolescente, lendo, antes de qualquer outro, o “Homem sorri à morte com meia cara”. E fiquei tão fascinado por esta prosa que depressa encontrei “Leah e outras Histórias” e todo o resto, e soube o que havia a saber deste homem franzino, pequeno, modesto, de olhos míopes, leais, confiantes.
Uma tarde, à porta do Hotel Reno, na Avenida Duque D’Ávila, já ele podia visitar a Pátria:
- O senhor é José Rodrigues Miguéis, não é?
Ele embaraçado e a mulher a sorrir:
- Sou, sim!
Balbuciei palavras tontas, de admiração. E vi-o comover-se.
A prosa de Miguéis é presença obrigatória no “atelier” de “Escrita Criativa” numa universidade onde dou aulas. Poucos nos ensinam tanto como ele.
«24 Horas» de 11 Abr 08

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11 Comments:

Blogger Buriti said...

José Rodrigues Miguéis é, de facto, um dos nossos melhores escritores do século XX. A Ditadura não gostava dele e hoje, o esquecimento (ou desconhecimento) deve-se ao triunfo da ignorância que resplandece no país. Se Rodrigues Miguéis fosse hoje vivo, certamente que teria muita material sobre o qual escrever.

17 de abril de 2008 às 22:09  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Pode ser algo mais prosaico:

Nos últimos dias, ao procurar os livros dele, falei com livreiros e editores, perguntado-lhes o que é que justifica a escassez de livros de JRM.

A resposta foi unânime:
A pessoa que ficou herdeira dos direitos de autor não chega a acordo com os editores no que toca ao preço a pagar. Além do mais, não é um autor que venda muito.

Ora, e como ainda falta uma eternidade para que a obra caia no domínio público, isso limita muito o que se possa fazer. Divulgar literatura sem haver livros disponíveis... pode não ser impossível, mas é difícil.

18 de abril de 2008 às 00:32  
Blogger antónio m p said...

A quem o diz... Um dia tive que fazer uma prova dramática num concurso para realizador (RTP) e resolvi adaptar o conto "Uma Viagem ao Porto" do JRM. Isto porque gosto muito da escrita do J. R. Migueis e porque amo o Porto. O meu entusiasmo foi tanto que "ultrapassei" o JRM. A consequência, como acontece muitas vezes nas ultrapassagens, foi que me ia estampando. Moral da história: JRM pode não ser "O" maior, mas é inultrapassável.
Cumprimentos. / amp

18 de abril de 2008 às 00:40  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Dos diversos contos que li dele, «Uma Viagem ao Porto» também me encheu as medidas. E não é por eu ser do Porto, porque o essencial da história decorre no caminho...

A outra, em que o autor trepa ao zimbório do Palácio da Pena, também é uma maravilha.

18 de abril de 2008 às 08:45  
Blogger mir said...

Caro C. Medina,
O post de Lobo «... Divulgar literatura sem haver livros disponíveis... pode não ser impossível, mas é difícil...» toca a questão de fundo: numa carta dos anos 40 da ed. Cor (dirigida lit, então por Natália Correia) ao JRM sobre a publicação em Portugal das suas obras, dizia-se que elas vendiam muito lentamente, sendo esse um dos motivos para as dificuldades da publicação de novos textos do escritor... esta «coisa» difícil de definir chamada cultura dos Portugueses nunca mereceu um homem e escritor da estirpe do JRM...
P.-S. Os gringos, mesmo sem saber ler português, fizeram-no cidadão honorário de N.-Y. ainda em vida do homem... por cá - o habitual silêncio da ignorância e/ou da inveja

19 de abril de 2008 às 17:18  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Mir

Correcção (sem importância):

A frase «... Divulgar literatura sem haver livros disponíveis... pode não ser impossível, mas é difícil...» não está no post de Lobo mas sim num dos meus, das 12h32m de ontem.

Entretanto, consegui encontrar uma livraria onde há alguns livros de JRM. Já estão velhinhos, mas comprei os que pude.

Vou lá voltar, e depois de comprar o resto, digo onde foi...

:-)

19 de abril de 2008 às 17:28  
Blogger mir said...

C. Medina:
peço desculpa pelo lapso. Já agora clarifico o aspecto a que eu reagi, usando o fragmento da frase que, afinal, era sua: a questão não me parece que seja a carestia dos direitos de autor ou o preço dos livros (eles hoje são publicados com os mesmos critérios de quem vende sapatos ou chouriços), antes o facto de o público que lê alguma coisa neste país não ter a cultura básica para reconhecer no JRM um dos maiores escritores lusófonos do séc.XX. Para os leitores tugas bastam as charupadas alambicadas das novelas pink do 'Sei-lá', a prosa turístico-cultural-coronel-Tapioca dos M.S. Tavares; e se a mais chegar a sofisticação literária, os cús-de-Judas e mais adjacências entronizadas pela Crítica e o Círculo de Leitores will do the job.

De resto, a dita 'élite' portuguesa desde sempre desdenhou ou silenciou a importância de Miguéis; aliás, com recurso ao hábito tão português, de sabor necrológico, da mania da celebração das efemérides - 'para que não se pense que se esqueceram os mortos': assinalado o centenário no Borda d'Água cultural, bota-se meia dúzia de luminárias academicamente autorizadas a confirtmar num colóquiozinho que ele efectivamente foi Grande, publicam-se as respectivas Actas num catálogo subsidiado pela fundação ou organismo oficioso de serviço e regressa-se a casa com a alma gratificada com mais uma contribuição para a alta cultura nacional... É claro que se algum incauto tiver a veleidade de buscar algum texto do «grande» escritor numa das grandes livrarias da cidade irá escorregando no manto diáfano da fantasia...até desembocar nos alfarrábios das Escadinhas do Duque (e muita sorte!).

O silenciamento em Portugal sempre acompanhou JRM, desde que ele decidiu deixar o torrão luso, nos anos 30, até final da vida: à excepção da admiração genuína da N. Correia e de alguns outros (por ex., o J.G.Ferreira), os bem-pensantes da literatura e do jornalismo tuga (esquerda e direita, tanto faz!) - ou o ignoraram ou, na melhor das hipóteses, condescenderam com algumas recensões de jornal, na maioria míopes; mesmo nas páginas do Diário Popular e do Diário de Lisboa, nos idos 60-início de 70, onde ele tinha alguns jornalistas «admiradores», o homem passou por inúmeras dificuldades e desconsiderações ao tentar publicar alguns dos seus textos literários (de grande qualidade). Qual a razão disto? Contos largos, de resto, mais ou menos sabidos por todos os que vivem na realidade tuga de sempre. O próprio JRM contava que um alto funcionário da PIDE o acusara de ele ser «um gajo que fora lá para fora dizer mal da Pátria». Penso que esta acusação ainda hoje explica o silêncio em torno dele: ela sintetiza o entranhado rancor português que inveja e nunca 'perdoa' aqueles que, tendo talento, tiveram a coragem para sair.

19 de abril de 2008 às 21:42  
Blogger Joaquim Letria said...

Fico contente por uma croniqueta de tabloide reproduzida aqui gerar tanta recordação de JRM,sem dúvida um dos maiores escritores portugueses e da lingua portuguesa dos dois ultimos seculos.
Mir tem razão.É por aí que vou e mais me inclino e motivou a minha nota.Aliás nunca entendi o modo como procuravam esconder as suas croniquetas de tabloide nos ultimos anos da sua vida no Diario Popular.Parecia lá haver paginadores e programadores que não gostariam de JRM.Alias, ainda hoje,há gente que foi do Popular que evita falar em JRM, mesmo tendo, em certos casos,ligações à literatura.Eu tenho pena de JRM não ter escrito no jornal onde eu trabalhava...
No Diario de Lisboa era diferente.Mario Neves era um verdadeiro amigo de jrm, Alvaro Salema igualmente e Urbano Tavares Rodrigues e José Cardoso Pires admiravam-no.A Manuel da Fonseca ouvi eu elogios aos seus contos.
Enfim, essa do custo dos direitos custa a engolir.Então e os outros todos, nacionais e estrangeiros, são de borla?!Naquele encontro fortuito com Migueis, o único na minha vida e que demorou escassos minutos, percebi, e ele falou-me no prazer de ser reconhecido na rua, como foi o caso, o que nunca lhe sucedera.E estava sinceramente comovido.Então e ia exigir direitos incomportáveis para a sua obra, um homem modesto e digno que gostaria que os seus compatriotas a conhecessem?!
De aplaudir o esforço de Medina Ribeiro e a sua busca incessante por alfarrabistas.Devo-lhe mais essa...se precisar de ajuda para chamar a atenção para Miguéis e para a sua obra, não hesite.
Um abraço do
Joaquim Letria

20 de abril de 2008 às 14:24  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Escreve J. Letria: «Então e ia exigir direitos incomportáveis para a sua obra...?»

RE: O que eu escrevi, no comentário das 12h32m de anteontem, não se refere ao JRM mas sim a «A pessoa que ficou herdeira dos direitos de autor»
__________

Agora que os tenho na mão, já posso dizer onde encontrei os volumes que me faltavam (de um total de 16 que me indicaram):

Foi na Barata da Av. de Roma e na Bertrand do Chiado, em Lisboa...

20 de abril de 2008 às 14:46  
Blogger Carlos Botelho said...

Já agora, deixem-me indicar também a livraria da Estação da Fertagus de Entrecampos e a Byblos. E também haverá umas coisas na (nova e pequena) Arco Íris.

21 de abril de 2008 às 00:49  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Carlos Botelho,

Não sei se estamos a falar da mesma BYBLOS pois, como atrás digo e poderá confirmar, a loja das Amoreiras indica, no seu site, ZERO existências - pelo menos até 6ª-feira passada.

Mas o pior é que é falso, pois, afinal, até tem alguma coisa!

Mas - pior ainda! - quando lá fui, pessoalmente, buscar os 2 volumes de «O Milagre segundo Salomé» (que, afinal, já diziam que tinham)... só havia o 1.º volume!

Tudo o que digo foi visto e confirmado com uma funcionária, ao balcão da loja. Abóbora para esse serviço!

21 de abril de 2008 às 09:52  

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