16.4.08

A vitória dos porcos

Por Baptista-Bastos
NÃO É SURPREENDENTE a vitória de Berlusconi. Ele representa o que há de pior na política: grosseria, ignorância, mentira, má-fé, soberba e desprezo. Mas o seu opositor mais bem colocado, o pusilânime Veltroni, não é carne, nem peixe, nem arenque vermelho. Além do que, com notória ausência de ideias e de ideais, contrabandeou como suas algumas das promessas eleitorais de Il Cavaliere. O caso italiano reflecte a crise ideológica na Europa, tanto à esquerda como à direita. Ambas demonstram ser incapazes de elaborar uma política de civilização, que se oponha a este tipo de aventureirismo e aos perigos daí decorrentes.
Retomo uma pergunta formulada por Elio Vittorini (Il Politecnico - Setembro de 1945) no debate que manteve com Palmiro Togliatti: "Que faz a cultura pelo homem que sofre? Procura consolá-lo." As frases possuem uma actualidade excruciante: consolar é o contrário de resolver. Se convoco Vittorini para o texto é porque o grande escritor foi o chefe de orquestra de um pensamento aberto ao dinamismo das ideias, e a Itália intelectual o palco no qual se dirimiram questões fundamentais para o futuro da liberdade e da democracia.
Mas a Europa está exausta. E a Itália é um dos resultados dessa exaustão. Os debates sobre política e cultura ausentaram-se do tablado. A pobreza do pensamento europeu explica, em grande parte, a ascensão de uma classe dominante marcada pela incultura. O efeito nefasto deste vazio procriou governantes de incertas convicções e ambígua ideologia, incapazes de separar os diferentes aspectos da realidade. Veltroni proclama os estremecidos desejos de "renovar a esquerda". Já sabemos no que vão dar essas aspirações: à mutilação das raízes.
Naturalmente, precisamos de uma "outra" esquerda; mas, também, de uma "outra" direita. O recenseamento das abdicações mútuas (da direita e da esquerda) produziu populistas sem escrúpulos e um rol infindável de crimes.
Nem revolta nem revolução. O que se nos propõe como realidade está repleto de logros, embustes e ilusões. Em nome da "democracia liberal" (que mais não é do que "democracia financeira") há a intenção de se instaurar e consolidar uma ordem despótica. Não há alternativa, proclamam. Há. Desde que a regulação dos conflitos admita que as formas de infelicidade social têm origem nas deformações políticas.
Silvio Berlusconi reaparece por impossibilidade de uma esquerda cuja deriva ultrapassa qualquer capacidade de cálculo, e de uma direita doente de domínio e defensora de doutrinas obsoletas. O que nos remete para o problema da democracia. Que está em perigo, não só em Itália. Basta que olhemos em volta: a grosseria espezinha qualquer tipo de civilidade. É a vitória dos porcos, como escreveu Orwell.
«DN» de 16 Abr 08

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3 Comments:

Blogger Nuno Castelo-Branco said...

Quando aqueles selectos clubes de senhores se reuniam há 150 anos e decidiam acerca do resultado das eleições a realizar, faziam-se como "partido".O alargamento do sufrágio e a nova caracterização dos grupos, trouxe-nos o mito dos partidos de quadros e partidos de massas. O simples facto desta evolução natural pelo alargamento da base, deve ter levado muitos a considerar um hipotético triunfo dos porcos. O mesmo se está a passar nos nossos dias. Os partidos não são os mesmos e as sociedades estão hoje muito diferentes daquilo que foram. A própria "máquina net", mas telemóveis, tv cabo, etc, fizeram despontar uma outra realidade. Os "partidos" ainda não perceberam o completo esbatimento dos velhos conceitos esquerda-direita (que existem, sendo diferentes daquilo que foram). O resultado está à vista.

16 de abril de 2008 às 19:16  
Blogger César said...

"Mas a Europa está exausta. E a Itália é um dos resultados dessa exaustão. Os debates sobre política e cultura ausentaram-se do tablado".

Não é a Europa que está exausta. É a definição de "esquerda" e de "direita", numa democracia em que o que interessa há muito é o capital, e a ideologia ficou posta de parte.

Porque não se pode exactamente chamar "ausência de debate sobre política e cultura" no contexto actual. A blogosfera não será certamente tudo, mas é muito mais do que existia há alguns anos atrás.

18 de abril de 2008 às 15:00  
Blogger César said...

Pois, vi agora que foi exactamente o que disse o Nuno Castelo-Branco, por outras palavras.

18 de abril de 2008 às 15:04  

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