20.8.08

«Acontece...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho

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Uma mesa e duas cadeiras vazias numa cidade de Israel. Fazemos-lhe a seguinte proposta: ponha ali duas pessoas e invente para elas uma situação ou um diálogo.
Haverá prémios (em livros, como sempre) para os textos mais criativos que venham a ser afixados até às 12h da próxima terça-feira, dia 26.
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Actualização (26 Ago 08): desta vez, a atribuição dos prémios foi particularmente difícil! Foi decidido premiar: JSA, CNS, Cristina, Bernardo Moura, Fernando Sosa e Mateso. Pede-se-lhes, pois, que, nas próximas 48 horas, contactem sorumbatico@iol.pt, escrevendo em assunto «Acontece de 20 Ago 08»

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11 Comments:

Blogger JSA said...

[Conversa iniciada dois minutos antes da fotografia ser tirada]

Dois judeus ortodoxos:
1º - Que calor...
2º - É verdade. Felizmente daqui a duas horas começa o Shabbath.
1º - Verdade. Mas estes jovens daqui não respeitam a nossa religião.
2º - É verdade. Nota este aqui ao lado, de máquina na mão e com a namorada. Espero que não vá ao templo daquela forma.
1º - Possivelmente não, não julguemos agora.
2º - Mas... e a máquina fotográfica? Não tem ar de a ir largar antes do pôr do sol.
1º - E depois?
2º - Davi Rabinowitz, esqueceste-te das leis do Senhor? O que dizem elas sobre actividades criativas no Shabbath?
1º - Acho que estás a ir longe demais. Ele não estará exactamente a fazer arte.
2º - Talvez não concorde que aquilo seja arte, mas ele parece pensá-lo. Nota os ângulos que usa.
1º - É jovem...
2º - Já teve o seu Bar Mitzvah, não há razão para dar essa desculpa.
1º - Que queres fazer então? O Yom Kippur ainda vem longe.
2º - Podemos ir-nos. Ele está a ver se nos fotografa. Sempre lhe negamos a quebra desta lei.
1º - (Risos) Sempre o mesmo, meu velho Shlomo. Muito bem, faça-mos isso.
2º - Vamos então.
[um minuto mais tarde, depois de o jovem disparar a câmara]
1º - Afinal não era a nós que ele queria fotografar. Parecia ser antes a mesa e as cadeiras.
2º - Um falha grave. O Senhor lhe perdoe.
1º - Shlomo, juro que com a idade esrtás cada vez mais rabugento. Serias capaz de criticar a tua mãe por ela ligar o fogão para o jantar um segundo depois do pôr do sol.
2º - Falando nisso Davi, vamos. Ela fez hoje de manhã uns mohn kihels que me parecem deliciosos. Se a apanhar em flagrante a quebrar o Shabbath ainda a convenço a dar-nos uns já hoje.
1º - A tua própria mãe de 92 anos. Shlomo... Que Chutzpah...

20 de agosto de 2008 às 14:05  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Prémios:

Dado que uma parte da acção de «A Relíquia» se passa por aqueles lados, essa obra de Eça será um dos prémios possíveis.

Em alternativa: o romance «Areia Pesada», de Anatoli Ribakov.

20 de agosto de 2008 às 20:48  
Blogger R. da Cunha said...

Vai ser ali, mesmo ali (como diria o professor Hermano Saraiva), que a senhora Tzipi Livni e o seu homólogo palestiniano vão sentar-se, a tomar um chá, e começar a desenhar a paz. Devem estar a chegar e o chá já está a ferver, na loja em frente.

20 de agosto de 2008 às 23:26  
Blogger CNS said...

Posso sentar-me aqui? Na sua mesa? Posso sentar-me aqui, mesmo em frente a esses seus olhos perdidos que me parecem verdes. Ou é esta luz desmaiada de fim de tarde que os fazem desta cor? Posso sentar-me aqui? E pedir um chá? Ou talvez não pedir nada. Ficar aqui a vê-la fumar esse cigarro. Lentamentamente enquanto finge não olhar para essas fotagrafias em cima da mesa. Essas que tirou a preto e branco. Porque toda a gente sabe que o preto e branco é mais dramático. Mais real. Para que o outro lado do mundo, que pensa ser dono da origem das cores censurar o cinzento em que se tornou a morte. A que se repete em todos os cantos das horas que correm nestas ruas. Posso mesmo sentar-me aqui? Não se importa? Ainda bem que não. Os seus olhos, que me parecem mesmo verdes não se assustam comigo. Talvez já me tenha visto um vez. Provavelmente mais. No instante que precede ao fechar do diafragma. Sim, era mesmo eu. Conhece de cor o meu rosto sem rosto. Que se confunde com os vossos que se crêem vivos. Que a vida como a conhecem não passa de uma crença alimentada de fronteiras de medo. Gosto da indiferença com que me olha. Como se não me conseguisse ver. Aqui. Sentada. Mesmo à frente dos seus olhos que me parecem verdes. Sentada à espera que me faça aquela pergunta que lhe assalta o pensamento no instante imediatamente antes de adormecer. Olhe-me agora e pergunte:
“ Morte, acreditas em Deus?”

21 de agosto de 2008 às 22:27  
Blogger Cristina said...

E a perna balança, os dedos tamborilam sobre o tampo da mesa, impacientes, inquietos.
A cadeira da frente permanece vazia: virás, não virás?
Será como ontem? Como há uma semana? Como há um mês?...
Talvez esta seja uma espera das de vida inteira...
Eu estou cá.Estou sempre cá.
Disse-te que não acredito em diferenças, barreiras ou circunstâncias. Mesmo vendo a cadeira vazia à minha frente. Apesar da cadeira vazia à minha frente.
Estou cá, está bem?
Garanto-te que são os meus dedos que estão impacientes, não sou eu. Não me obedecem, sabes?
Estou aqui. Discretamente. Só os meus dedos e a minha perna me denunciam.
Descansa. Ninguém me vê: só mesmo o vazio da cadeira da frente tem olhos para mim.

21 de agosto de 2008 às 23:16  
Blogger Bernardo Moura said...

Fugi ao pedido e não escrevi um diálogo.
Como vi o post há uns dias e de repente apeteceu-me participar, não me recordei que teria de ser um diálogo.

Aqui deixo o que escrevi:


Três e meia da tarde e a temperatura obrigava a um repouso.
Uns gozavam a sesta, outros liam e alguns recordavam sem nostalgia o passado e sorriam.
Poucos eram os que se tinham habituado ao silêncio das tardes, noites e manhãs. Gozavam-no como ninguém, por vezes sentiam e comentavam com outros que parecia um sonho.
A paz tinha aparecido há cerca de três anos.
Novos e bons hábitos se tinham enraizado na sociedade. Um deles era o convívio no café após a sesta, que proporcionavam grandes gargalhadas, jogatinas, lanches e muitas tertúlias sobre a vida. As crianças brincavam na rua junto à entrada do café com berlindes, piões e jogos de grupo.
Sentada numa cadeira da esplanada Yahweh recordava a sua infância. Não tinha sido fácil, pelo contrário. Tinha sido dura, traumatizante. Guardava memorias horríveis e no entanto ao olhar as crianças, as pessoas que riam dentro do café, pensou: “ Tudo passou! Tudo melhorou! Viverei bem! O meu passado? Esse, vou fingir que foi um livro que li, não gostei e queimei! “.

Não sinto que este texto seja bom.
Gostaria é que a realidade em Israel fosse outra.

Um abraço,

Bernardo

25 de agosto de 2008 às 13:55  
Blogger Carlos Azevedo said...

Dois israelitas (não interessa o sexo ou a idade), de pé, a olhar para a mesa:

- Está tanto calor! Sentemo-nos e tomemos qualquer coisa.
- Achas seguro?
- Porque dizes isso?
- Não sei. Tenho sempre medo de estar parado. Sinto-me um alvo...
- Não penses nisso. Se pensares assim, não vives.
- E nós vivemos? Com este medo permanente?
- Vivemos. Aqui, pelo menos, ainda se vive.

25 de agosto de 2008 às 15:33  
Blogger Fernando Sosa said...

- Então Nabucodonosor, como vai essa saúde?
- Tudo bem Alex Magno. Também me pareces em forma. Que queres pedir?
- Pode ser Ούζο para não variar muito. Então, aqui pela zona tudo na mesma?
- Sabes como é Magno, esta terra não conhece paz há uns milénios...
- É verdade, mas nos nossos tempos não havia ONU. Quando em 331 a.C. conquistei a Palestina ninguém me sancionou!
- Eu sei, quando ganhei a corrida com o Egipto para obter parte do Império Assírio também fiquei descansado. Mas parece-me que há algo que não sabes: os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas são também os países que mais armas vendem.
- Mas isso não faz sentido algum! E este pessoal ainda tem a lata de nos chamar primitivos!

Nabucodonosor dá um gole curto na sua Coca-Cola. O raio da bebida não lhe sabia bem, facto que ele estranhou por tanta gente a beber. Nisto ocorre-lhe um pensamento que decide partilhar com Alexandre:
- Desde 722 a.C. até 1948 não existiu Israel. Como é que eles podem reclamar uma terra tanto tempo depois?
- Pois não sei. Estes tipos são tão israelitas como os franceses são gauleses ou os portugueses lusos. É tudo folclore e política.
- Se o Salazar não fosse torto teriam adoptado Angola como pátria... Tipos estranhos!
- Olha! Deixa lá isso agora. Vai ali o Imperador Romano Adriano. É ele não é? Ali do outro lado da rua.
- Ah sim! O tipo que em 135 d.C. tornou Jerusalém em Colonia Aelia Capitolina, sem deixar entrar nenhum judeu durante um bom tempo.
- Lá estás tu com isso outra vez... Deixa-te de política e vamos mas é chamar o tipo e o curdo para uma suecada!
- Que curdo?
- O Saladino pah! Quem mais poderia ser?

De facto, perante tamanha teia política/bélica daquela região do globo é bem mais fácil olhar para o lado do que debater o assunto seriamente. Há muitos políticos contemporâneos que também preferem uma bela cartada...




PS: é de referir que todas as personagens têm o seu espaço na História Mundial e que a parte correspondente a Angola é apenas especulativa.

25 de agosto de 2008 às 21:10  
Blogger Mateso said...

O Candelabro Dourado.

Eça nico-doces, esticado, augusto e elegante lança um olhar supérfluo ao ambiente. Há um pouco de déjà vu, que o torna afectado pelo excesso de trejeito. Porém lá no fundo, bem no fundo, brilha e rebrilha a pupila numa ironia captada ao pormenor. O nosso homem pára, e com um movimento todo ele em estribilho de dernière mode, sorrindo, aqui e ali, senta-se na mesa da esquerda mesmo junto ao passeio, aliás a única, mesmo ali defronte do táxi branco, um Mercedes forte de som rouco, apanágio de um motor fiável. Eça, cofia o bigode, encosta a bengala, sacode a ruga imperceptível da calça riscada e pega no monóculo, já em desuso mas tão chic. A tarde é morna. O calor veste o ar que sopra em brisa fugaz. Não pode varrer o tempo. Olha em redor, o caos organizado, próprio de quem está sempre em guarda. -Desde os idos de 1900, que o mundo que é mundo não muda mesmo - pensa o nosso elegante.
Uma dama de tons ocres aproxima-se. Sobressai-lhe o cinzento e o branco da cabeça. Há algo de imponente, e todavia de doce no feminino, que o olha desassombrada. Dizem que se chama Meir, Golda. Não possui o encanto franzino do personagem sentado, antes a solidez da luta perspicaz da vida. O nosso elegante levanta-se quando a dama se aproxima. Inclina-se respeitosamente. Sentam-se. Sorriem e estendem as mãos que se tocam. Um arrolhar de sons florescidos em lábios sorridentes, o eco perceptível da conversa é carregado pela onda de som até mim.
- Shalom meu querido Eça, há que séculos o não via nem ouvia…Finalmente ei-lo entre nós.
-Minha querida Golda, continua sempre a afável. Um autêntico maná saído do Yom Kippur…
Golda solta uma forte e saborosa gargalhada. Depois recompondo-se, diz ainda, com as lágrimas a redobrarem-lhe o brilho das pupilas.
-Ó meu querido Eça, já sentia falta do seu humor corrosivo. Ai a falta que me tem feito, nem calcula.
-Pois, minha querida não me parece. Pelo reboliço que tem feito, não me parece que tenha tido tempo para se sentir infeliz…
-Não seja impertinente.
-Impertinente, eu? Já me parece um dos conselheiros lá do meu burgo… adiante. Mas Golda diga-me lá, porque é que anda nesse afã, que até me aprece o corridinho do Algarve…São as anexações, as guerrinhas, as perseguições, as extradições, um corre-corre de atropelos que me espantam.
-Ora, ora meu caro, vê-se mesmo que não conhece a nossa Torá. ”Porque Yah escolheu para si Yaacov e a Israel para seu tesouro particular” (salmo 135:4) …
-Não me diga, minha querida…- e o nosso querido Eça, deixa cair o monóculo, pestaneja, não do sol, mas da aberração e meio incrédulo, olha rispidamente a sua interlocutora acrescentando:
-Ora Golda não me faça crer, que todo este zurzir de pessoas, todo este fogo de raiva, todo este mal -estar no mundo, toda esta onda de ódio, todos os massacres que espirram sangue, infectando o ar de todos nós, a putrefacção dos sentimentos nobres, a primeira noção de irmão, companheiro, enfim o principio do homem, é pura e simplesmente retalhada e vituperada numa interpretação não humana mas antes politica. Não queira, minha querida, fazer-me acreditar que a sua Torá diz isso. Esta instabilidade na chave do mundo debita-se, porque algures, alguém acéfalo fez uma leitura de acordo com a sua necessidade bélica, política ou económica, jamais humana!
-Eça, meu amigo, mundo que é mundo, político que é político interpreta sempre de acordo com o que vai no gabinete. O gabinete, o partido, os homens, a politica, os interesses, o prestígio, o poder em resumo são a nossa Menorah. O querido amigo ainda é muito inocente, pese toda a sua diatribe linguística, o seu fino humor, a sua perspicácia, o seu savoir faire de mundo.
-Mas, Golda… embora laico, embora cínico, embora impuro, recordo sempre que matar os “homens e as mulheres de Amalek” significa a destruição. Porém não são os “filhos de Amalek” as sementes de dúvida que nos varrem a mente, não mais que os elos de cepticismo, de paixões abortadas, de ódios viscerais, de pensamentos néscios aviltantes na essência, de quereres retorcidos pelo ferro da vida, de tudo o que não somos e gostaríamos de ser, que perdido se torna na nossa negação de vida, são esses os”filhos de Amalek” que carece alojar no retábulo da criação, em vez de o depurar em acto de barbárie.
- “Isso se escreverá para a geração futura; e o povo que se criar louvará Yah”.- Belo, meu caro, e escandalosamente no silêncio quase tórrido do meio-dia lança ao ar uma gargalhada de desdém ao mesmo tempo que bate palmas.
-…?
-Oiça e memorize. Não seja pio, não seja crédulo, não seja sonhador. Eu e tantos outros políticos, tantos outros homens deste mundo, aos quais cabe a tarefa de gerir a vontade dos outros homens, simplesmente nos guiamos por este lema: “O mundo é de Deus, mas Ele aluga-o aos valentes”. Pode-lhe parecer cru, bárbaro mas no nosso mundo, neste mundo, que mesmo ao meu lado gira na sua fealdade de alma, naquele onde se mata, se morre, se nasce e se vive. Nesse mesmo, onde você e eu nos sentamos numa mesa de uma foto desbotada de vida, nesse mundo, dizia-lhe eu, nem já não existe espaço nem vento de concórdia, existem antes rios de desejo, águas de poder, ondas de aviltamento. A nossa recriação humana dos sete vícios. A Menorah moderna.
O sol a pique desfaz uma, não duas, pequenas sombras. Uma miragem, que em breve se desvanece, apenas coloco os meus óculos. Tudo está imutável. A terra continua a respirar.

25 de agosto de 2008 às 21:30  
Blogger nmps said...

O M. estava a acabar de fazer o chá quando ouviu o sr. P.
-Veja lá, não abuse no limão!
seguindo-se
-Bom dia sr.T., não há forma de se ver daqui o sol!,
pelo que M. pôs mais água ao lume para o chá do Sr.T.
Enquanto a água não fervia, M., dirgindo-se para a porta afim de servir o Sr. P., viu o sr. T. acenar ao companheiro e sentar-se, batendo a mão na mesa com força enquanto lhe dirigia o olhar.
-Está vindo, já ouço a água a ferver,
disse o Sr. P. já servido,
-Quanto ao meu chá, Sr. M., fique sabendo que tem limão a mais. É que nem há forma do Sr. acertar nem do meu companheiro sentar-se em silêncio.
O M. voltou com o chá do Sr. T. e, enquanto se afastava, ouviu-o escrever morse na mesa. Há mais de vinte anos que o M. assistia a estes encontros e diz-se que, já antes, o seu pai servia chá a estes dois velhos. Passavam maior parte do tempo em silêncio, sendo que o sr. P., parecendo mais introvertido por se manter sempre muito quieto na cadeira, falava mais do que o outro, enquanto o Sr. T. apresentava-se mais expansivo, gesticulando verborreicamente se lhe dirigissem a palavra, mas não falava muito.
Em boa verdade, não sendo raro, também não era frequente sentarem-se na única mesa do café do M. de onde se via o sol, acontecia às vezes. Mas quando acontecia, a cena terminava, invariavelmente, com o sr. P. levantando-se e vociferando agarrado à sua bengala
-Não se pode falar consigo... O Sr. não diz nada que se entenda!
enquanto o sr. T., ora batia com o pé esquerdo no chão ora com a mão direita na mesa, intervalando com uma mímica impercpetível enquanto fixava o outro. Pudera não ser assim, pensava o M., se um era cego e o outro surdo-mudo.

26 de agosto de 2008 às 10:53  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

O prazo (12h) terminou.

Agora aguardemos a decisão do júri - uma tarefa que se adivinha tarefa espinhosa!!

26 de agosto de 2008 às 12:16  

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