9.9.08

«Acontece...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho

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Mataram a tartaruga, esfolaram a tartaruga e o menino chora, encostado ao irmão. Que comentário lhe merece esta cena da vida real?
Haverá prémio(s), como sempre em livros, para o(s) texto(s) mais interessante(s) que nos chegar(em) até às 20h do próximo dia 15, segunda-feira.
NOTA: Esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.
Actualização (17 Set 08/8h40m): foi decidido atribuir o 1.º prémio a Mateso e prémios de mérito a Bernardo Moura e Fernando Sousa. Pede-se, pois, aos 3 que contactem sorumbatico@iol.pt nas próximas 48h indicando as moradas para envio dos prémios. Obrigado a todos!

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9 Comments:

Blogger EboRâguebi said...

A Fome é Negra!

9 de setembro de 2008 às 19:18  
Anonymous Anónimo said...

Horrivel.
A criança demonstra puros sentimentos, que os adultos perderam com a obsessão do dinheiro facil.
Na cabeça da criança não existe razão que justifique a morte.

9 de setembro de 2008 às 21:39  
Anonymous Anónimo said...

A vida é dura. Poderia mesmo argumentar que quanto mais cedo tomarmos consciência da dor que é viver, mais cedo deixaremos de pensar e consequentemente de sofrer... Poderia mas não argumento.
Pensar, chorar (e sofrer até!) é algo que nos torna mais fortes. Mais capazes.
Que sorte tem o menino em chorar!
Assim descobre que tem no ombro do irmão uma terra de conforto...

9 de setembro de 2008 às 22:32  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Aqui deixo alguns comentários extra-concurso:

Como as duas imagens fortes da fotografia são a tartaruga morta (ou em vias de o ser) e a criança a chorar, a nossa reacção é relacionar ambas as realidades.
Mas será que a criança chora com pena do animal? Ou, simplesmente, costumava brincar com ele e lamenta o brinquedo perdido?
Ou chora por outro motivo qualquer?

Podemos até ser perversos e pensar que alguém lhe disse: «Portaste-te mal e não vai comer nada daqui!».

Não se riam, pois nada disso é disparatado.
Nós, urbanos, é que estamos habituados a depararmo-nos com animais já mortos.
Mas no mundo rural raramente é assim. A morte do animal que se vai comer é praticada pelo próprio interessado no alimento ou por alguém próximo. Esse acto é presenciado pelas crianças desde que nascem, e não exerce, sobre elas, a mesma repulsa que exerce sobre nós.

Poucas cenas haverá tão horrorosas como a "matança do porco".
E, no entanto, só é "horroroso" para nós, citadinos.
Raras serão as crianças de aldeia que se impressionam com isso. O que ali as pessoas vêem é o alimento que vem a caminho. E quanto maior for a escassez (e até a fome), menor será o choro pelo falecido.
No limite (ou as mais das vezes...), há até alegria - porque a Natureza nos fez omnívoros.

10 de setembro de 2008 às 10:25  
Blogger Luisa said...

ter o privilégio de comer, beber, tomar banho, correr, brincar, gritar, andar à porrada, ser abraçado, beijar, viver muito e longamente, ainda que por necessidade, não tem necessariamente que calcinar em nós a empatia com o que nos rodeia, mesmo que para termos nós os outros, (pessoas ou seres vivos), deixem de ter. Acho que essa empatia equivale a saber dar valor e não implica necessariamente entrar em lamechices pouco práticas - luxo esse a que se podem e devem dar as crianças.
Para mim, os dois meninos, falam assim:
[o que chora]- coitada da tartaruga, que maus!...
[o que abraça] - foi uma boa tartaruga, vai alimentar a aldeia! Então, tu gostas de tartaruga!, não chores...
[o que chora] - não gosto, não gosto mais! Nunca mais como tartaruga!
[o que abraça] - nem com um bocado de banana frita, cheirosa e quentinha ao lado? Hmmm... e o cheirinho do caldo enquanto coze? Que bom... Há quanto tempo não comes? Não tens fome? Já só há pitangas, vais ter de comer pitangas todos os dias a todas as refeições enquanto nós comemos tartaruga! E depois vão acabar as pitangas também, vais morrer de fome, se não morreres antes de diarreia.
[o que chora]- Não!... [deixando de chorar]Olha, pões-me um bocadinho, só da ponta da barbatana no prato? As tartarugas não precisam da ponta das barbatanas p'ra viver... pois não?
[o que abraça] - Não, está descansado. Agora vai lavar as facas dos homens e depois vai ajudar as mulheres a preparar a festa, hoje temos música e dança!

10 de setembro de 2008 às 12:10  
Blogger EboRâguebi said...

Já deixei o meu comentário. Mas, ao ler os Vossos, lembrei-me da minha infância.

Filho de Alentejanos, fui nascer à Ilha Terceira. Muito novo conheci, a Vila de Redondo, "terra" de meus pais, assisti a "minhentas" matanças do porco, chorei em todas elas! Porquê? Não era eu que tinha a "matadeira" na mão.
Passaram-se 40 anos. Graças a Deus.

10 de setembro de 2008 às 15:10  
Anonymous Anónimo said...

Há meses que o calor era intenso. A água e comida começavam a escassear. A população ia-se ajudando. Uns cediam água, outros entregavam cereais e no meio da praça racionavam os bens para os que mais necessitavam.
Os garotos subiam aos coqueiros e apanhavam tantos quanto podiam, mas já não restavam muitos...
Flap, um dos garotos mais traquinas da aldeia, contudo considerado muito bom rapaz devido ao seu enorme espírito de partilha para com os outros, resolveu encher o estômago de côco e durante muito tempo nem podia olhar para um coqueiro que sentia logo vontade de vomitar.
Eram três da tarde e Flap brincava junto à água com um pau e corria. De repente, vê ao longe uns pescadores a voltarem da faina com algo grande, dentro do pequeno barco, fazendo com que o mesmo quase se afundasse. Curioso, esperou. Quando o barco acabou de ser puxado para a praia, ele foi a correr ver do que se tratava. Era uma tartaruga enorme, como jamais tinha visto. De imediato começou a correr para a povoação. Lá chegou e gritou no meio da praça: “Venham à praia!Venham ver o que apanharam!"
A população, curiosa, lá começou a dirigir-se para a praia e juntaram-se em redor do bicho, lançando comentários e elogios aos pescadores.
Flap juntou-se ao irmão mais velho a ver os homens a preparar a tartaruga para ser cozinhada. De repente, agarrou-se ao irmão e chorando exclamou: “Não vou poder comer. A carapaça parece-me metade de um côco gigante. Ai! Ai!“.

10 de setembro de 2008 às 15:25  
Blogger Mateso said...

Zuri me leva!

-Zuri me leva, me leva. Maínha não gosta de Thembi, não gosta, não. Maínha matou a Bunmi de Thembi, puquê Zuri, puquê? Bunmi era velhinha e boínha. Bunmi era amiga de mim. Puquê. Zuri? Maínha não é boa, não…
Os soluços são profundos, vêm da lonjura do pequenino coração. Thembi leva as mãozinhas papudas aos olhos salpicados de lágrimas. O ranho espreita, a par da baba, que escorre pelos cantos da boquita prenhe de infância. Enterra a tristeza no corpo de Zuri, o irmão. A camisa, farrapo branco, descai-lhe pelo corpo roliço, cor de chocolate. Nas pernas e pés, a areia fina e branca cola-se como se fosse lantejoulas do mar. Thembi está muito triste. Mataram a sua Bunmi. E ainda lhe roubaram o casaco castanho de quadrados cor do velho Tamu. Tamu, o coqueiro ou antes o castelo, onde Thembi e Bunmi descansavam depois das grandes cavalgadas pela praia. Tamu sempre desgrenhado, por causa do vento, que soprava do mar azul-verde. Tamu, que quando estava triste, deixava cair sempre uma grande nyembeti verde e pesada, que ele, Thembi abria e bebia com gula. Ah, que bom e depois aquele cansaço redondo que o deixava zonzo. Afinal, Thembi era só um mininho piquinino.E o olho fechava de mansinho e dormia. Bunmi, ali ao lado, quietinha, com a pata direita mesmo encostadinha à bochecha como numa espécie de cafuné. Como Thembi gostava. Sentia que o azul de cima e o de baixo entravam assim no seu coraçãozinho, enchiam-no de lindeza dando-lhe uma quentura que o fazia feliz. Mais tarde, quando a tarde entreabria a porta à noite, e a lengalenga dos pescadores começava a ouvir-se vinda do mar, bem como o chapinhar dos remos na água lisa, numa canção de despedida ao espírito do azul-verde, que se ía deitar. Thembi abraçava a sua Bunmi, deixava-a olhar bem para ele, e corria para a pequena floresta logo depois da praia. Thembi suspira e de novo as lágrimas espreitam.
Thembi, pedaço de chocolate doce, recorda aquele outro dia, quando ele e Bunmi brincavam nas águas lisas espelhadas de azul-verde, e, de repente, viram “a mulher peixe”. Bunmi, rápida, nadou para perto dele. Mulher peixe é sereia. E sereia encanta. Não fosse ela roubar o seu pedacinho de chocolate quiçá enfeitiçá-lo. Tartaruga tem muitos anos de mundo- água. Viu coisas que gente nem sonha. O paraíso, lá no fundo é de cores vivas, mais lindas que as de cá, mas tem também muitos perigos. E Bunmi sabe o que a “mulher-peixe” já fez aos homens e aos outros meninos quase homens. Não vá ela, desta vez, querer um minino mesmo. Thembi olha para os cabelos verdes e longos da sereia, os olhos são esquisitos, têm o mundo de coral neles, agarram a alma da gente. O minino sente, sente que a sereia o puxa, puxa. Está já rodando o corpinho na sua direcção, atraído pelos cabelos, pelos olhos, pelos seios verdes, cheios e redondos que lhe lembram os de maínha, assim soltos e opulentos. Lambe os beiços pensando no alimento, e mais um pé que mexe, a água faz ondinhas finas, devagarinho. Bunmi, que também de mansinho se tinha aproximado, dá-lhe uma vigorosa patada que o deixa meio zonzo. O encanto quebrou. A mulher-peixe gemendo volta a mergulhar e Thembi fica ali, zonzo, olhando no vazio. O que passou? Bunmi tão boínha bateu nele? O que passou? Depois Bunmi empurrou-o para o areal. Naquele dia não houve brincadeira. Tamu, o castelo ficou vazio, naquela tarde esquisita. Thembi foi para casa. Maínha estranhou vê-lo assim de cedo. Olhou, remirou mas nada disse, quando o viu deitar-se na esteira, e dormir toda a tarde. Maínha desgostava de Bunmi. Maínha enciumava-se da amiga, Thembi sabia. Estava muito quente, lembra, e doía a cabeça. O dia recolheu-se quando sol se deitou no mar. A noite calçou as estrelas e os sonhos vieram brincar na esteira de Thembi lambuzando-o de centelhas doces.
No outro dia, o sol amanheceu dourado na ilha, como todas as manhãs. Ouro líquido derramado no areal branco e nas águas lisas. Thembi saltou da esteira, esfregou os olhitos, coçou a cabeça e chegou-se perto de Maínha que aquecia o mata-bicho. Beberricou o líquido, lambeu o doce no pão, e devagar, devagarinho foi-se escapulindo. Assim que se achou fora da aldeia, desatou numa corrida desenfreada em direcção à praia. Bunmi já o esperava. Não devia ter dormido muito, porque a cabeça estava inquieta, pequenina, rodando de um lado para o outro, e os olhos grandes, redondos, estavam inchados. Bunmi estava em desassossego, sentiu. Ajoelhou-se, pôs os bracitos roliços à volta do pescoço e deitou a cabeça no casaco de quadrados. Assim ficaram ,um longo tempo, ouvindo-se no silêncio do coração.
E Thembi escutou:
“Há muito, muito tempo, quando as tartarugas se passeavam em bandos no azul-verde, e as ostras também vinham brincar com elas numa roda grande, se ouvia as vozes dos peixe-palhaços, dos peixe-anjos e a dança das anémonas e a cor vestia o azul-verde num turbante colorido. Tão lindo. Só quando o peixe-crocodilo vinha, ou o tubarão, é que tudo fugia e se encapotar no muro de coral, bem escondidinhos à espreita. Logo, vinham para cima rindo, outra vez. Era um tempo feliz. Mas um dia, uma sinhôa de nome Bilkis, de um reino de longe, Sabá diziam chamar-se, visitou o Bazaruto. Era bela. A sua pele ébano puro, brilhante, cabelos negros, olhos enormes. Tão bela que as nossas danças e brincadeiras se quedaram ao vê-la. As ostras, meio tontas, abriram a boca e mostraram o seu tesouro. Bilkis ao ver tantas e lindas pérolas, imperiosa, exigiu-as. Ao mar redes e redes foram lançadas, as pobres primas ostras, foram apanhadas, desventradas e depois de roubadas, algumas devolvidas, outras comidas. A raiva tomou conta de nós. E chamámos o espírito do mar. E chamámos o vento, mais a chuva e o trovão. Chamámos toda a noite. Chamámos. E na manhã seguinte quando a bela Bilkis, nua, se veio banhar no azul-verde, os espíritos agarraram-na, amordaçaram-na e levaram-na para o fundo. O castigo foi grande, muito. Já Bunmi era avó, quando viu a nova Bilkis. Já não era bela, já não era mulher, era sereia, era a” mulher peixe.” Desde então ela vem sempre que cheira inocência. Por isso, meu pedacinho de chocolate, por isso eu te bati ontem. Não esqueças nunca: Cucurira chimunanga, manguana chinowiq , que é como quem diz ,se criares uma árvore com espinhos, amanhã picar-te-ás. “
Thembi recordou tudo isto entre soluços, muita tristeza. De cabeça ainda afundada na barriga de Zuri, o belo, Thembi, o forte, despregou o olho lentamente, e olhou. Viu-a nua, despida do seu belo casaco de quadrados castanhos, que desaparecera. Jazia, ali, entre as pernas dos pescadores mais as de Maínha. Até Tamu deixara que os seus cabelos tapassem o areal, uma espécie de cama para a sua amiga Bunmi. Quis gritar, chorar, berrar. Quis tudo, mas o som não saiu. Ficou mudo, trémulo, assim dorido de sentir. E enquanto a tristeza o tomava, uma voz, aquela que Bunmi fazia ouvir, aquela que vinha do coração e lhe dizia:”Pedacito de chocolate estou no teu coração, sempre. Fecha a boca, os olhos, vês… Sorri… Sorri…”
-Zuri me leva!

12 de setembro de 2008 às 16:05  
Blogger Fernando Sosa said...

Ao contemplarmos tal imagem podem-se cruzar vários pensamentos: se formos mais dados ao ambientalismo estaremos a ver a carnificina de um belo ser; no caso de alguém prepotente, avistará apenas o chamado Terceiro Mundo; se nos interessarmos por outras culturas, depressa associaremos a fotografia a uma determinada tradição… No entanto, desta vez prefiro centrar-me num aspecto diferente – não que outros também não dirijam para aí o seu raciocínio –, escolho a Criança.
Não precisa ser a que chora desmazeladamente, nem tão pouco a que a reconforta: falo da Criança que tanto pode ser negra como de outra cor qualquer, tobaguense ou francesa, pobre ou mais afortunada, etc. Quero assim aproveitar para tocar num assunto que tanto me transtorna, me chega até a repugnar. É o conceito adquirido pela sociedade ocidental de que a vida humana não vale o mesmo em todo o Mundo, neste caso concreto a vida e alegria da Criança. Por exemplo, será que as crianças que morreram no fatídico 11 de Setembro de 2001 foram em maior número do que aquelas que têm morrido no Iraque desde a 1ª Guerra do Golfo até agora? Nem perto disso. Aliás, em termos estritamente numéricos, as cerca de 3 mil (foram lançados muitos palpites sobre o verdadeiro número) vítimas do 11/09/01 são como uma migalha comparando com o que se tem verificado no Iraque há já quase duas décadas. Para muitos estas minhas afirmações são bárbaras e uma afronta, mas a verdade é que não me limito a olhar aquilo que a televisão me concede, nem muito menos uso palas.
É claro que num só ataque fazerem-se tantas vítimas e destruírem-se símbolos da única superpotência mundial é algo aterrador e, mais do que isso, verdadeiramente condenável. Mas então e destruir um país com milhões de habitantes, quer através da acção directa da guerra, quer através de embargos?
Mas voltando aos seres inocentes e sagrados que deveriam ser as crianças, nunca saberemos ao certo quantas faleceram e vão definhando Iraque fora. Numa altura em que se fazia sentir cruelmente a miséria junto das crianças iraquianas através do já referido embargo, mais concretamente em 1996, Madeleine Albright, então embaixadora dos EUA na ONU, foi entrevistada por Leslie Stahl (CBS). Uma parte do diálogo, pelos mais atentos ainda relembrada, saltou à vista. Quando interrogada sobre a necessidade de morrerem meio milhão de crianças vítimas do bloqueio, Albright respondeu da seguinte forma: “Foi uma escolha difícil, mas pensamos que o preço a pagar vale a pena.” Será que os familiares destas crianças têm a mesma opinião?! Como é possível chegar a esta fereza?!

Perdoem a minha insistência em relacionar tal foto com aspectos bélicos e políticos. Mas é somente por achar que todas as crianças deste Mundo merecerem educação e saúde que lhes permitam serem melhores do que os seus bárbaros antecessores.


"A criança é o pai do homem."
William Wordsworth

15 de setembro de 2008 às 19:29  

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