9.12.08

Dito & Feito

Por José António Lima
JOSÉ SÓCRATES decidiu afrontar directamente Cavaco Silva e abrir uma nova fase, conflituosa e atritiva, no relacionamento do Governo com a Presidência da República. Ao confirmar sem qualquer alteração o Estatuto dos Açores, apesar das repetidas objecções e avisos do Presidente, Sócrates colocou uma pedra irremovível sobre a tão celebrada doutrina da ‘cooperação estratégica’ entre Belém e S. Bento. Do ponto de vista institucional, o gesto de Sócrates revela autismo e falta de sentido de Estado. Porque a maioria dos constitucionalistas e até proeminentes figuras do PS já reconheceram que Cavaco tem razão e que o novo Estatuto dos Açores introduz uma alteração que limita, ainda que pontualmente, os poderes presidenciais. Teimar no contrário é obstinação irresponsável.
Do ponto de vista político, este braço-de-ferro é insensato e gratuito. Se Sócrates pretende com tal provocação a Belém abrir uma frente de combate com o Presidente eleito pela direita para compensar e recuperar o desgaste à esquerda – provocado pela contestação dos professores nas ruas, o apoio aos banqueiros e o desemprego a aumentar – então arranjou um pretexto incompreensível para a maioria dos cidadãos. Arrisca-se mesmo a que o eleitorado central, zeloso da figura presidencial e avesso a radicalismos irreflectidos, lhe tire o tapete na hora do voto. Se o chefe do Governo e líder do PS visa apenas, com esta desautorização ostensiva do Presidente, encenar um acto de exercício do seu poder face a Belém, então é porque a arrogância política já lhe toldou a razão e a previsão das consequências dos seus gestos.
Sócrates veio também anunciar, esta semana, que em 2009 as famílias portuguesas «vão ganhar poder de compra, como os funcionários públicos, como não ganhavam há muitos anos», devido à baixa das taxas de juro, do preço dos combustíveis e da inflação. Ora, com uma Europa a sofrer o auge da crise em 2009 e a economia portuguesa em estagnação (em estagnação não, que é palavra superiormente não autorizada: em crescimento próximo do zero), é preciso Sócrates ter perdido a noção da realidade para fazer este discurso aos portugueses.
O primeiro-ministro, com a sua afronta ao Presidente e este optimismo irrealista, mostra que vive já noutro planeta. Preocupante.
«SOL» de 6 de Dezembro de 2008

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4 Comments:

Blogger Sepúlveda said...

Ai, quantas vozes se levantaram histericamente quando Santana Lopes disse que "acabou a austeridade". E que era impensável dizer-se aquilo e que o homem tinha que cair. E caiu.

E lá estamos nós sempre à espera do salvador da pátria, que há de vir... esperemos que sim.

9 de dezembro de 2008 às 14:20  
Blogger Sepúlveda said...

Este comentário foi removido pelo autor.

9 de dezembro de 2008 às 14:20  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Entre outras coisas, a diferença entre um verdadeiro estadista e um político-de-meia-tijela vê-se pela forma como encara o longo-prazo.
Sócrates, como se sabe, vive obcecado pelo imediato - para ele, tudo o que vá mais longe do que as eleições de 2009 interessa pouco ou nada.

A fazer-se-lhe a vontade, os Presidentes da República (este e os futurs, atenção!) passam a ter mais dificuldades em dissolver a Assembleia Regional dos Açores do que a da República - um absurdo que Sócrates defende a troco de um par de deputados na próxima legislatura.

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Mas não esqueçamos que, embora actualmente recuem, numa 1ª fase TODOS os partidos se mostraram a favor dessa aberração.

9 de dezembro de 2008 às 14:53  
Blogger Fartinho da Silva said...

José Pinto de Sousa apenas demonstrou a sua enorme ignorância uma vez mais. Nada a que o país não esteja já habituado e, infelizmente, conformado.

9 de dezembro de 2008 às 16:42  

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