17.9.14

Sol & Sombra

Por José António Lima
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SOL
João Marques Vidal
Ficou evidente, com a leitura do acórdão e das sentenças do processo Face Oculta, que os juízes do Tribunal de Aveiro confirmaram no essencial a excelência da investigação judicial e da análise criminal que fora liderada por este procurador de Aveiro (agora à frente do DIAP de Coimbra) e pelo inspector da PJ Teófilo Santiago. Só faltou que tivessem a mesma comprovação e sequência judicial as certidões que então extraiu e incriminavam o primeiro-ministro da altura, José Sócrates. Mas a qualidade e a coragem da investigação do caso Face Oculta, face ao poder socrático então todo-poderoso, ficarão como momento alto da sua carreira.
Carlos Moedas
É obviamente uma pasta de segunda linha da Comissão Europeia a que lhe calhou em sorte no elenco Juncker (na qual terá mesmo que reportar a uma vice-presidente). Mas depois de 10 anos com a presidência de Barroso na Comissão seria sempre difícil a Portugal manter um estatuto de primeira grandeza. E a pasta da Investigação, Ciência e Inovação, além do tão falado superorçamento de 80 mil milhões, é uma oportunidade para o promissor ex-secretário de Estado Adjunto de Passos Coelho se tornar uma figura influente em Bruxelas.
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SOMBRA Paulo Bento
Ironicamente, quatro anos depois, é forçado a abandonar a liderança da Selecção quase nas mesmas circunstâncias que o seu antecessor Carlos Queiroz em 2010: logo após o começo desastrado de um grupo de apuramento para o Europeu. Entretanto, conseguiu duas qualificações sofridas de Portugal e os seus momentos altos foram chegar à meia-final do Euro-2012 e o inesquecível play-off com a Suécia (graças a uma enorme exibição de Ronaldo). O ponto mais baixo foi esta derrota impensável em casa com a Albânia. Mas o problema da Selecção reside mais na falta de qualidade da base de recrutamento de jogadores para a necessária renovação da equipa nacional do que nas capacidades deste ou doutro seleccionador.
Armando Vara
Com o seu amigo Sócrates no Governo subiu alto no mundo empresarial e financeiro, da CGD ao BCP. Mas nunca se livrou da imagem de ser mais um comissário político e um gestor de influências do que um administrador respeitado - e a sentença do processo Face Oculta só veio confirmar essa ideia.
«SOL» Set 14

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27.8.14

Nas eleições do PS vale tudo menos tirar olhos?

Por José António Lima
Jorge Coelho bem avisava, há uma semana, o que se podia esperar das eleições internas no PS: «Vai ser uma campanha dura, não vai ser para andar aos abraços e a trocar elogios». O pessoal socialista escusava era de levar tão a peito essa dureza, numa campanha que tem sido uma sucessão de falcatruas, golpadas, fraudes, expulsões e toda a sorte de ilegalidades. No PS, neste confronto entre António José Seguro e António Costa, parece que vale tudo menos tirar olhos.
Se não vejamos. Em Braga, foram subitamente pagas as quotas, há anos em atraso, de 2.294 militantes (incluindo mortos, emigrantes e acamados) por alguém que gastou nessa zelosa tarefa mais de 123 mil euros (que não é quantia fácil de tirar do bolso com tanta generosidade). Face aos protestos de alguma vozes bracarenses, que pediram a investigação do caso e a suspensão do processo eleitoral, a direcção de António José Seguro não só desautorizou esses protestos e mandou prosseguir as eleições como recusou – pela voz do secretário nacional do PS, Miguel Laranjeiro – esclarecer quem tinha pago esses 123 mil euros… em nome do «sigilo bancário».
Em Coimbra, entretanto, também foi pedida a suspensão das eleições na distrital por os cadernos eleitorais estarem falsificados. Em 2011 foram inscritos como militantes centenas de pessoas com moradas e locais de trabalho falsos – falcatruas que foram denunciadas pela militante Cristina Martins, o que lhe valeu há meses a expulsão pela direcção nacional do PS. Manuel Alegre falou, então, de «delírio persecutório» e acrescentou que «os responsáveis por essas falsificações é que deveriam ser expulsos, e não ela». Agora é António Campos, militante n.º3 do PS, que diz que só resta «recorrer aos tribunais» e colocou uma providência cautelar para suspender as eleições de 6 de Setembro.
Assim vai o PS de António José Seguro, que continua a falar todos os dias de transparência, respeito pela legalidade e ética democrática. Vê-se.
Quando, em Braga, é uma figura com o currículo de Mesquita Machado a denunciar «irregularidades grosseiras» está tudo dito. O PS faz lembrar um filme de Scorsese: Tudo Bons Rapazes.
«SOL» Ago 14

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22.8.14

Marinho Pinto na Casa dos Segredos

Por José António Lima
Dois meses depois de ter sido eleito para o Parlamento Europeu, Marinho Pinto veio revelar que abandonará o cargo já em 2015, cumprindo apenas um dos cinco anos do seu mandato. 
«Tenciono candidatar-me à Assembleia da República, onde faço mais falta para resolver os problemas políticos dos portugueses», confessa com a sua habitual modéstia. «Isto sem prejuízo de, depois, poder também candidatar-me às presidenciais» que ocorrem logo daí a três meses, avisa Marinho. E fica a sensação de que poderá ainda concorrer à presidência da Liga de Futebol, que está vaga, ou a um lugar de destaque na Casa dos Segredos. Qualquer coisa que lhe dê notoriedade, audiências e visibilidade pública. Sabe-se que o ex-bastonário dos advogados gosta de subir a qualquer palco e de se mostrar ao povo.
Ora, Estrasburgo tem palco, mas não lhe dá grandes hipóteses de protagonismo, sendo ele apenas mais um no meio de 751 figurantes que compõem o PE. Ao perceber isso, Marinho Pinto ainda mal chegou e já está de saída. À primeira vista, faz lembrar as eurodeputadas socialistas Ana Gomes e Elisa Ferreira que, em 2009, concorreram em simultâneo às europeias e às autárquicas, sabendo que só poderiam cumprir um desses cargos.
Mas, num segundo momento, Marinho torna inevitável a comparação com Fernando Nobre. Que deixou uma votação presidencial episódica subir-lhe à cabeça e, apesar de encher os seus discursos de proclamações éticas e declarações de princípios, viria a desistir do seu lugar de deputado mal viu que não conseguia ser eleito presidente da AR e que não teria o protagonismo prometido.
Tal como Nobre, Marinho tem feito a sua curta carreira na política à base de um posicionamento pseudo-independente, supostamente antissistema, em tom justiceiro e de cariz populista, sem ideias políticas mas com muitas denúncias de interesses e injustiças. Rende dividendos e dá votos, mas esgota-se e esvazia-se em pouco tempo.
Marinho Pinto argumenta que vai abandonar o seu lugar em Estrasburgo porque «os problemas nacionais são mais graves que os europeus». Sem esquecer, claro, no seu caso, que os problemas pessoais ainda são mais graves que os nacionais.
«SOL» Ago 14

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12.6.14

O caminho das pedras de Seguro

Por José António Lima
O cargo de líder da Oposição é «o mais difícil lugar da vida política», como reconhece o próprio António Costa. E António José Seguro esteve quase a tornar-se o primeiro líder da Oposição em Portugal, ao fim de 30 anos, a conseguir chegar a primeiro-ministro resistindo à dura travessia de todo o ciclo de mudança de poder. Esteve quase, mas... Seguro pode, pois, queixar-se, como fez há dias, de ter andado estes últimos três anos «a percorrer o caminho das pedras» para agora, ao aproximar-se o final desse penoso percurso, aparecer outro a tirá-lo do lugar. E tem até razões para criticar o timing oportunista de Costa, que recusou em 2011 e em Janeiro de 2013 disputar a liderança do PS, para só avançar neste momento, já na recta final para as próximas legislativas, evitando o desgaste de três anos a penar na Oposição. Do que Seguro não se pode queixar é de não ter conseguido fazer do PS uma alternativa política credível – e apetecível para os portugueses – a uma maioria PSD/CDS debilitada por três anos de troika e austeridade. Incapacidade sua, pura e simples. Que Costa, após o frouxo resultado das europeias, soube explorar com apurado instinto político e sentido de oportunidade. Seguro acabou por reagir ao repto de Costa da pior das formas, visivelmente acossado, com uma fuga para a frente e umas primárias tiradas à pressa da cartola, apenas para ganhar tempo. Se dentro do aparelho do PS, que Seguro ainda controla razoavelmente, já parecia improvável resistir numa votação à onda de apoio a Costa, então ao alargar para o exterior, em primárias, a base de votantes, as suas hipóteses ainda serão mais diminutas. É o que se chama adiar a derrota. E é curioso recordar o que Seguro dizia, em 2011, a Assis sobre este tema: «Nós, em Portugal, com a tua proposta de primárias, íamos permitir que os eleitores do PSD, do PCP, do BE também escolham» a liderança do PS. E, de facto, não custa admitir que, em teoria, ainda possamos ver Marco António Costa, que controla facilmente 20 mil ou 30 mil bases nortenhas do PSD, a mobilizá-las para votar Seguro nas primárias socialistas de Setembro. Mesmo a um ou dois euros por cabeça não sai nada caro. 
«SOL online» de 9 Jun 14

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5.6.14

PS, Lisboa e a amnésia de João Soares

Por J. António Lima
Com a luta pela liderança como pano de fundo, no tiroteio de acusações e contra-acusações que entretanto se desencadeou no interior do PS, apareceu João Soares a culpar António Costa de uma «crise de egocentrismo e sebastianismo» e de «chantagem» por querer desalojar António José Seguro de secretário-geral do partido. 
João Soares aproveitou, depois, para confessar que votou Costa em Lisboa, nas autárquicas de Setembro de 2013, e avisar solenemente: «Não estou disponível para que alguém em quem votei entregue a Câmara a outro qualquer», no caso  ao n.º 2 da CML, Fernando Medina.
É um argumento respeitável. Mas extraordinário vindo de quem vem: não foi João Soares, em 1995, o Fernando Medina de Jorge Sampaio quando este lhe entregou a presidência da Câmara de Lisboa para se candidatar a Belém? Há amnésias muito convenientes.
«SOL online»

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30.5.14

Costa e o sobressalto do PS profundo

Por José António Lima 
Na noite eleitoral de domingo, o PS interiorizou a convicção de que nunca chegaria ao poder com a liderança de António José Seguro. 
Se, após três anos de austeridade e nas mais adversas circunstâncias sociais e eleitorais sentidas por um Governo, o PS apenas atingia 31,5% dos votos e mal se distanciava (menos de quatro pontos) da desgastada coligação no poder, isso só podia demonstrar uma evidência: em 2015, nas legislativas, Seguro não chegaria lá.
Foi este sentimento de frustração partidária e inconformismo das bases socialistas que empurrou António Costa, de vez, para se candidatar à liderança do partido. E a verdade é que Costa, com todas as suas qualidades e defeitos (como a sua conivência com os piores abusos e despesismos do socratismo), vem trazer outra dinâmica política e outra energia partidária ao PS. E à própria vida política do país, que parecia ter caído num beco de minorias sem saídas. 
É certo que Seguro se rodeou, estatutária e formalmente, de precauções que dificultam Congressos antes das legislativas que o possam remover da liderança. Mas o sobressalto que o resultado das europeias provocou no PS profundo – dos militantes ao aparelho das distritais – fala mais alto do que essas formalidades. E já tem um novo líder: António Costa. Também em política, o que tem que ser tem muita força.
«Sol-online» - 27 Mai 14

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10.5.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
Tudo indica que dois partidos, PS e CDU, vão subir a sua votação nas europeias do dia 25, enquanto os outros três - os coligados PSD e CDS, mais o BE - verão descer claramente tanto os seus votos como os eurodeputados eleitos.
Não é, pois, por acaso, que PS e PCP têm vindo a endurecer o tom das críticas mútuas e os contra-ataques de campanha. Jerónimo de Sousa, neste fim de semana, chegou ao extremo de dizer que seria “mau para a democracia” e a colocaria “em risco” se os portugueses dessem o seu “voto de descontentamento ao PS”. Ao mesmo tempo, António José Seguro apelava ao voto útil da esquerda no “único projecto responsável” e à “concentração de votos no PS”. Em causa está a hipótese de os 10.º ou 11.º eurodeputados do PS se perderem para os 3.º ou 4.º eleitos da CDU. Ou vice-versa.
Neste contexto, de que lado se coloca Mário Soares com o seu incansável activismo frentista?
No 25 de Abril, enquanto Seguro e o PS celebravam a democracia parlamentar, Soares estava no Largo do Carmo, de braço dado com os capitães inadaptados, o PCP e a esquerda radical. E afirmava que aquela era “a única e verdadeira comemoração”.
E se o PS continua a pedir legislativas antecipadas e ordeiras para substituir o Governo, Soares proclama que Passos e Portas “vão ter que sair à força” e que “da próxima vez vai a mal”.
Já quando o PS se demarca de qualquer pedido de perdão ou corte da dívida, Soares garante que “a dívida não é pagável” e que “o manifesto dos 70 é altamente patriótico”, em sintonia com o discurso do PCP.
Eis como se lançam a confusão e as maiores divisões na base eleitoral dos socialistas. Só falta ver Soares, como Jerónimo de Sousa, a jurar que não houve qualquer cerco à Assembleia Constituinte em Novembro de 1975. E que nem sequer havia Parlamento... 
«SOL» de 2 Mai 14

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1.5.14

«Dito & Feito»

Por J. António Lima
Falta apenas um mês e um dia para os portugueses serem chamados a votar nas eleições europeias. E se há dois resultados facilmente previsíveis - uma abstenção acima dos 60% (é assim, em europeias, desde há 20 anos, nas últimas quatro eleições) e uma vitória do PS - já a amplitude e a margem do triunfo socialista podem surpreender muitos. E obrigar a uma sensível alteração do discurso político a partir do próximo dia 26 de Maio.
Já se sabe que os eleitorados aproveitam muitas vezes as eleições europeias para mostrarem o seu desagrado aos governos em funções. E Portugal não tem sido excepção: foi assim com Sócrates em 2009 (perdeu com uns quase humilhantes 26,5%), com a dupla Barroso/Portas em 2004 (minguaram, em coligação, para 33,3% e ficaram a mais de 11 pontos do PS) e até com Cavaco Silva (que, em 1989 e 1994, viu fugirem-lhe nas europeias 15 a 20 pontos das maiorias absolutas que ia alcançando nas legislativas).
Ora, é de esperar que seja de igual ou ainda maior dimensão a punição eleitoral da coligação PSD/CDS após três anos de austeridade, troika, cortes e empobrecimento generalizado. E que António José Seguro, não obstante a frouxidão e inconsistência política da sua liderança, leve o PS claramente acima dos 40% de votos, deixando a dupla Passos Coelho/Paulo Portas no limiar dos 30%, a mais de 10 pontos de distância.
Se for este, como é muito provável, o resultado da noite de 25 de Maio, regressará com estrondo o cenário de uma possível maioria absoluta do PS nas legislativas de 2015. Obrigando a uma rápida revisão do tão repetido discurso do “obrigatório entendimento alargado” entre PSD, PS e CDS, do “amplo consenso” e do inevitável “bloco central, aberto ou disfarçado” pós-legislativas, que vem sendo feito pela generalidade dos comentadores políticos, passando até pelo Presidente da República e pelo presidente da Comissão Europeia.
Ou seja: o PS, mesmo com Seguro, poderá chegar à maioria absoluta e dispensar mais amplos consensos. Já o PSD e o CDS poderão ter que repensar as vantagens (e as desvantagens) de perderem as legislativas de 2015 sozinhos... ou coligados.
«SOL» de 24 Abr 14

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9.4.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
O que terá levado Durão Barroso a quebrar a regra, que há mais de nove anos impôs a si próprio, de não se pronunciar sobre questões da política interna portuguesa enquanto desempenhar as altas funções de presidente da Comissão Europeia? Barroso decidiu agora quebrar essa regra, com indiscutível impacto político e estrondo mediático - não poupou Sócrates por causa da bancarrota, Vítor Constâncio devido à falta de supervisão sobre o BPN, Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix por subscreverem o manifesto da reestruturação da dívida... e até Passos Coelho por ultrapassar certos limites com a sua política de austeridade.
Duas razões terão movido Barroso a esta contundente incursão na política interna. Por um lado, no momento simbólico em que termina o programa da troika, Barroso não quer ser visto em Portugal como um dos maus da fita (“isso é a única coisa que me magoa”, confidencia) e até descreve como esteve “uma hora ao telefone a convencer a chanceler Merkel a dar mais tempo a Portugal e a uma redução dos juros”. Traduzindo, em termos de imagem: Barroso não fugiu do país em 2004, foi, sim, assumir a difícil função de liderar os destinos da Europa; e não foi o polícia mau da troika que impôs a austeridade aos portugueses, mas o polícia bom que ajudou a salvar o país da insolvência.
Por outro lado, depois de Marcelo Rebelo de Sousa se ter reposicionado na corrida presidencial em pleno Congresso do PSD e de Santana Lopes ter revelado há dias a sua disponibilidade para essa mesma corrida, Barroso terá sentido que corria o risco de deixar que outros ocupassem por completo o palco. E decidiu marcar o seu terreno.
Fê-lo com a proposta apressada e abstrusa de um Presidente apoiado por PSD, PS e CDS. Apetece dizer que - com tanto e tão alargado consenso - qualquer dia é melhor voltarmos aos tempos da União Nacional, reduzindo ao mínimo o pluralismo e impondo a unicidade do pensamento político.
Barroso precisava de puxar pelo tema e colocá-lo em cima da mesa. Fê-lo com uma ideia tonta, mas que o posiciona como potencial candidato do centro político. Bem pode repetir que não tem qualquer intenção de se candidatar a Belém. Esta entrevista é o seu melhor e maior desmentido.
«SOL» de 4 Abr 14

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2.4.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
António José Seguro apostou numa táctica política com efeitos imediatos garantidos, mas difícil de sustentar para além do curto prazo: a de recusar quaisquer propostas de austeridade e de fugir a dizer que medidas aplicaria o PS no governo para baixar o défice e a dívida do país - compromisso que os socialistas assumiram como seu ao subscreverem o Tratado Orçamental.
O Governo propõe a convergência das pensões da CGA para baixar umas centenas de milhões de euros na despesa do Estado? O PS promete logo que reporá na íntegra o valor dessas pensões assim que chegar ao poder. A coligação PSD/CDS aplica a CES para ir buscar mais uns milhões nas receitas públicas? O PS não só instiga o TC a chumbar a CES como propõe mesmo reduções nas receitas do IVA e do IRS. Passos procura saber em que matérias será possível um entendimento de médio prazo na governação do estado? Seguro responde de imediato que há divergências insanáveis, sem especificar quais ou em quê.
Ora, “Seguro vai ter de dizer com clareza o que quer em relação aos grandes objectivos macroeconómicos para os próximos anos. Não basta dizer que há uma 'divergência insanável'. Os portugueses querem saber mais”. Quem assim avisa o líder do PS não é nenhum membro mais belicoso e politiqueiro do PSD ou do Governo. É o prudente e moderado Teixeira dos Santos, responsável máximo das Finanças na governação de Sócrates.
Todos sabem - a começar pelo conselheiro económico de Seguro, Óscar Gaspar, que resolveu falar com seriedade e clareza - que não será possível a curto prazo repor os cortes já feitos nos salários e pensões. Nem será possível que o PS tenha condições ou sequer a hipótese para o fazer quando regressar a S. Bento. Não chega, por isso, repetir balofamente todos os dias, como faz Seguro: “Queremos parar com os cortes, que já deviam ter parado há muito tempo, e iniciar a recuperação dos salários e das pensões dos portugueses”. Ninguém acredita.
Além do mais, até eleitoralmente a táctica de Seguro acaba por se virar contra ele e contra o PS. Nenhum português leva a sério o discurso de facilidades e do fim milagroso da austeridade que Seguro vem apregoando.
«SOL» 22 Mar 14

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30.3.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
Santana Lopes assegurava, há uns meses: “Escusam de inventar notícias e declarações de 'amigos', porque não é esse - uma candidatura presidencial -, de todo, o meu caminho”. Agora, veio avisar que, afinal, pode ter “em abstracto, várias condições para exercer funções como essa” de Presidente da República. E até se deu ao trabalho de enumerar, uma a uma, as suas valências para o cargo, como se estivesse a preencher um CV para concorrer a uma vaga em Belém: “Conheço muito bem o poder local, a Cultura, as misericórdias, o Estado, já fui deputado europeu, até já fui presidente de um clube de futebol…”. Em suma, “com o conhecimento que tenho de Portugal, não sei se sou eu que estou em melhores condições”, mas “o meu partido, se tiver dois ou três ex-líderes como candidatos, não deve apoiar nenhum”.
Eis Santana Lopes no seu melhor. Acreditando que Marcelo Rebelo de Sousa acabará por recuar no momento da decisão e que Durão Barroso não conseguirá ultrapassar a desmotivação das sondagens desfavoráveis, Santana ocupa desde já o espaço potencialmente deserto do centro-direita antes que outros se lembrem de avançar.
Oproblema de Santana são três. E quase inultrapassáveis. O primeiro é que só teria condições para avançar por falta de comparência dos verdadeiros candidatos. Como ele próprio reconhece: “Se houvesse uma situação excepcional. Marcelo não ir, Durão não ir, ninguém ir e haver uma oportunidade”.
O segundo problema é o reverso do seu preenchido currículo, pois não foi famosa a sua passagem por várias funções. Saiu mal da Secretaria de Estado da Cultura, saiu pessimamente do curto desempenho como primeiro-ministro e até da presidência do clube de futebol, o Sporting, saiu antecipadamente e em ambiente pouco favorável.
O terceiro problema é que Santana Lopes, a culminar a sua atribulada passagem por S. Bento, conduziu o PSD a uma das suas mais penosas derrotas eleitorais de sempre, fazendo cair o partido para 28,8%. Ainda hoje as sondagens - que o colocam, invariavelmente, no último lugar das preferências, a par com José Sócrates - revelam os anticorpos que deixou na maioria do eleitorado. E, quanto a isso, não há mesmo volta a dar…
«SOL» de Mar 14

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20.3.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
Até parecia que Cavaco Silva tinha descoberto e anunciado um cataclismo político. A esquerda entrou em alerta vermelho e não se conteve a zurzir o Presidente.
“As palavras do PR confirmam que não há fim do programa de ajustamento”, escandalizou-se Marisa Matias em nome do Bloco de Esquerda. “Cavaco Silva veio proclamar que, durante os próximos 20 anos, o país e os portugueses vão ter de se sujeitar a andar com a pulseira electrónica”, indignou-se Jerónimo de Sousa falando pelo PCP.
Mas por onde têm andado Marisa Matias e Jerónimo de Sousa? Aterraram agora no país vindos de Marte ou da Coreia do Norte? Não sabem que está há muito estipulada a monitorização da troika em Portugal até 2035, quando (e se) estiver reembolsado 75% do empréstimo concedido ao país? Só descobriram agora que as exigências de rigor por parte dos nossos credores irão continuar muito para lá de 2014 e do '1640' de Paulo Portas?
Cavaco limitou-se a recordá-lo, como aviso à navegação, no prefácio do seu livro Roteiros VIII. Não foi novidade. Tal como não foi novidade insistir na preferência por uma saída com um programa cautelar. Já o havia deixado bem claro na sua mensagem de Ano Novo. E também não foi novidade exigir um consenso de médio prazo sobre a política económica a PS, PSD e CDS. Há muito que vem batendo nessa tecla e, na crise de Julho de 2013, o PR até chegou a prometer ao PS a antecipação de eleições a troco desse consenso.
O que pode ser novo é Cavaco insistir nestas questões sabendo de antemão que continuará a bater com a cabeça na parede. No dia seguinte à divulgação do prefácio, António José Seguro repetiu que o PS não entrará em qualquer consenso antes das legislativas de 2015. Dois dias depois, foram o Eurogrupo e a ministra das Finanças a confirmarem que a solução será uma saída limpa e não um programa cautelar. O Presidente continuará, pois, nestas matérias, a falar sozinho.
O que é mesmo novidade, no reino cavaquista, é ver dois assessores de Belém e Manuela Ferreira Leite a assinarem um manifesto da esquerda radical como se não fosse nada. Os assessores foram rapidamente exonerados. Manuela continua a ser uma dilecta e cada vez mais embaraçosa pupila de Cavaco.
«SOL» de 14 Mar 14

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13.3.14

«Sol & Sombra»

A semana vista por José António Lima
SOL
Cristiano Ronaldo
Já tinha ultrapassado Eusébio, agora suplantou Pauleta e tornou-se o melhor goleador de sempre da Selecção nacional. Quando ainda tem pela frente mais quatro ou cinco anos de carreira, já bateu praticamente todos os recordes - e, com 110 internacionalizações, o próximo será ultrapassar o único futebolista à sua frente: Figo, com 127. Mais do que os seus sucessivos recordes, impressiona o alto nível a que sempre joga: é raro o encontro em que não deixe a sua marca e em que o seu talento não faça a diferença. Seja no Real Madrid ou na Selecção portuguesa.

SOMBRA
Alberto João Jardim
Está complicado o final do seu ciclo político e a sua atribulada sucessão numa Madeira superendividada e num PSD-M que Miguel Albuquerque partiu ao meio. Agora, é Belém que não lhe permite a artimanha de se fazer substituir a poucos meses das eleições regionais de 2015. E é Passos Coelho quem lhe propõe ser n.º 2 na lista do PE - a ele que só admite ser n.º 1 seja do que for e que não se vê em menos do que comissário europeu. Mas que, limitado e debilitado no seu poder regional, já não consegue evitar estas desconsiderações políticas. Mudam-se os tempos...
Catarina Martins
A co-líder do Bloco faz, recorrentemente, intervenções na fronteira do intolerável, a roçar a ofensa e que tentam atingir o carácter e não as ideias dos seus adversários políticos - o que só degrada o debate político e parlamentar. Como aconteceu ao atirar repetidas vezes à cara de Passos Coelho que 'a sua palavra não vale nada'. Quando este - com toda a legitimidade - recusou retorquir, a bancada do Bloco de Esquerda reagiu como virgens ofendidas. Duplicidade e descaramento não lhes faltam...
Pinto da Costa
Há pouco mais de um mês, dizia, com a certeza da sua infalibilidade, que renovaria de imediato o contrato do treinador Paulo Fonseca se ele terminasse nesse dia. Agora, acaba de despedi-lo - assumindo que foi um erro de gestão contratá-lo para suceder a Villas-Boas e Vítor Pereira. Um ano para esquecer no Dragão.
«SOL» - 7 Mar 14

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4.3.14

«Dito & Feito»

Por J. A. Lima
Não é prática habitual os ex-líderes aparecerem nos congressos partidários e, menos ainda, irem lá fazer intervenções políticas. Nem sequer nos congressos do PSD, que por vezes nos reservam inesperadas surpresas, tem sido esse o hábito. Em regra, os ex-líderes coíbem-se de se intrometer num palco que deve pertencer ao líder em exercício. Não foi isso, no entanto, o que aconteceu nesta reunião, que se esperava previsível e pacata, do PSD no Coliseu de Lisboa.
Quando passos Coelho tratava tranquilamente da sua renovação na continuidade, eis que começam a surgir ex-líder atrás de ex-líder do PSD, revezando-se na ocupação das cadeiras ao lado da sua. «Havia uma série de pessoas que não eram para vir, o aniversariante julgava que não vinham e, de repente, começou a aparecer tudo», descrevia, divertido e entre muitos risos da plateia, Santana Lopes, precisamente um dos ex-líderes que não resistiram ao apelo das «razões afectivas» para ir ao Coliseu.
E, além de aparecerem sem aviso prévio, quase todos fizeram questão de subir ao palco e falar sem limites de tempo. Só Marques Mendes não discursou. Luís Filipe Menezes, numa penosa explanação, dedicou-se à minuciosa autópsia da sua própria derrota autárquica no Porto. Santana Lopes interveio para comprovar que continua «a andar por aí» e que era bom não o esquecerem. Mas quem arrebatou os congressistas e pôs a sala a aplaudir de pé foi Marcelo Rebelo de Sousa.
Desfiando histórias e memórias dos seus 40 anos de militância no partido, irónico e de improviso, despertando risos e emoções, desarmando as vozes e sectores que convivem mal com a liberdade de criticar, lançando algumas farpas ao CDS e reparos paternais a Passos, Marcelo tornou-se a estrela deste Congresso. Depois de se ter deixado condicionar em excesso pelo parágrafo do «catavento» da moção de Passos Coelho, voltou a ganhar espaço de manobra política para as presidenciais. Se quiser, tem o partido a seus pés. Volta a depender apenas de si próprio e da sua vontade.
Por seu lado, Passos Coelho que terá pensado surpreender e marcar o Congresso com a improvável ressurreição de Miguel Relvas viu-se completamente ultrapassado. Pelo 'furacão Marcelo' e restantes ex-líderes.
«SOL» de 28 Fev 14

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1.3.14

«Dito & Feito»

Por J. A. Lima
António José Seguro já lidera o PS há mais de dois anos e meio, mas continua a transmitir a imagem de um líder politicamente frágil e a prazo. Seguro vence mas não convence, como nas eleições autárquicas ou nos congressos socialistas. Vai à frente mas não há meio de se destacar com clareza, como nas sondagens. Fala muito e sobre quase tudo, mas não consegue apresentar uma alternativa de Governo fundamentada e credível. Como se não bastasse, é um líder acossado dentro do seu próprio partido.
Seguro teimou e insistiu, ao longo de mais de um ano, na estratégia errada de pedir eleições antecipadas, ficando sem discurso político quando essa hipótese saiu de cena após a crise de Governo no Verão de 2013. Desde então, Seguro especializou-se e enquistou-se na 'política do contra', radicalizando gratuitamente à esquerda o discurso do PS.
O novo mapa judiciário fecha umas dezenas de tribunais com movimento mínimo? O PS promete reabri-los quando um dia voltar ao Governo... e até propõe a criação de um insólito 'tribunal gold' para investidores ricos. Cortaram-se quatro feriados? O PS compromete-se a repô-los. A maioria quer acordo para uma reforma do IRS? O PS está contra. Os juros da dívida portuguesa continuam a baixar? O PS critica o facto de ainda serem tão altos. O Governo admite um programa cautelar? O PS exige uma 'saída à irlandesa'.
Seguro critica tudo, recusa tudo, está contra tudo. Até contra um simples entendimento de regime a médio prazo em questões tão elementares como a dívida ou a despesa do Estado - como se o PS não pensasse chegar ao Governo nos próximos anos.
Mas este radicalismo na oratória não garante a Seguro sossego ou tréguas no interior do PS. Carlos César e António Costa não lhe poupam críticas públicas à moleza da liderança e elevam-lhe a fasquia nas próximas europeias para uma “vitória clara e significativa”, ao nível dos 44% de Ferro Rodrigues em 2004. Santos Silva já assume, sem rodeios, que “estas europeias serão determinantes para a liderança do PS”.
E Seguro conseguiu até colocar o seu melhor candidato às europeias, Francisco Assis, a ameaçar “saltar fora” do barco face à indefinição do líder. Era difícil fazer pior.
«SOL» de 21 Fev 14

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22.2.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
Passos Coelho congratulou-se publicamente, esta semana, por o défice português em 2013 ter sido “inferior ao da Espanha e da Irlanda”.
E acrescentou, com mal contida satisfação: “E o défice estrutural, excluídos os movimentos cíclicos da economia, terá sido pouco superior a 3%”. Sabendo-se que o défice real de 2013 terá ficado em 5,2% (cálculo da ministra Maria Luís Albuquerque), Passos Coelho terá descontado a esse valor cerca de 2% (de subsídios de desemprego pagos a mais por se viver em recessão, além de contribuições sociais e receitas fiscais a menos pela mesma razão) para chegar ao seu 'défice estrutural' à roda de 3%.
O que Passos Coelho se esqueceu de dizer, em contrapartida, é que esse défice só foi atingido graças a sucessivos e cumulativos cortes em salários e pensões do funcionalismo público, ao congelamento de progressões nas carreiras em vigor desde 2010, ao aumento de impostos como a sobretaxa de 3,5% sobre o IRS ou à tão falada CES dos pensionistas, entre outras medidas.
Medidas que, no seu conjunto, representam cerca de 5 mil milhões de euros, o equivalente a 3% do PIB. E que, segundo o próprio primeiro-ministro, não são medidas definitivas e estruturais de consolidação orçamental mas apenas provisórias. “Muitos dos cortes realizados pelo Governo são transitórios. Na medida em que dependerão da forma como a nossa economia vier a recuperar”, garantiu há duas semanas Passos Coelho. Ou seja, excluída a recessão e os movimentos cíclicos da economia, com a devolução destes cortes aos bolsos dos portugueses, o verdadeiro 'défice estrutural' saltará automaticamente para um patamar acima dos 6%...
É este o resultado de o Governo não ter feito uma redução estrutural e real da despesa do Estado, de tudo serem medidas transitórias, provisórias e temporárias - ou o que se lhes quiser chamar para passarem no estreito crivo do TC e sossegarem o arisco e refractário eleitorado do centro.
E, no que toca à receita do Estado, Paulo Portas já veio prometer “dar início a uma moderação do IRS em 2015”, ano de eleições legislativas. Por este caminho, o tal 'défice estrutural' volta aos 6% ou 7% já daqui a dois anos. Transitoriamente, claro. 
«SOL» de 14 Fev 14

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5.2.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
Com o abandono de Marcelo Rebelo de Sousa da corrida às presidenciais de 2016, continuam em cena dois candidatos de primeira linha, António Guterres e Durão Barroso, e dois candidatos de segunda linha, António Costa e Rui Rio.
Sabe-se que Guterres e Barroso só decidirão daqui a um ano, no início de 2015 - depois de avaliarem a evolução da economia do país no pós-troika, as sondagens e etc. - se irão ou não ser candidatos a Belém. Apesar de ambos fazerem constar, através dos seus círculos de influência, que estão muito distanciados e desinteressados de tal objectivo.
Sabe-se, por outro lado que, se Guterres quiser passar de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados para Presidente de Portugal, Costa não se atravessará no seu caminho. E que, se Barroso melhorar as sondagens e decidir trocar a presidência da Comissão Europeia pela Presidência da República, Rio não terá quaisquer veleidades de avançar.
Mas o facto é que, ainda assim, há uma razoável probabilidade de Guterres e Barroso se colocarem de fora. Como Marcelo. O que provocaria a maior desgraduação política das presidenciais em 40 anos de democracia.
A eleição presidencial em Portugal tem sido uma espécie de consagração de carreira de políticos com um vasto e reconhecido currículo. Mário Soares fora um destacado opositor da ditadura, a principal figura da vitória da democracia sobre os totalitarismos de esquerda, fundador e líder do PS, várias vezes primeiro-ministro. Jorge Sampaio fora a face da resistência estudantil contra a ditadura na crise de 1962, líder do PS e presidente da Câmara de Lisboa. Cavaco Silva fora líder do PSD e primeiro-ministro ao longo de uma década de desenvolvimento do país.
Já António Costa e Rui Rio nunca foram primeiros-ministros ou, sequer, líderes partidários. Nunca foram postos à prova nesses cargos de elevado desgaste de popularidade, têm estado preservados em funções secundárias. De Rio mal se conhece um pensamento político estruturado e diferenciado. De Costa sabe-se que apoiou a triste governação de Sócrates até ao último minuto.
Há, pois, o sério risco de um preocupante downgrade político nas presidenciais de 2016.
«SOL» 31 Jan 14

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28.1.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
Passos Coelho pode manifestar surpresa, mas não inocência, pela reacção de Marcelo Rebelo de Sousa ao desistir da corrida à Presidência de 2016. O palavreado sobre as presidenciais que Passos Coelho decidiu inserir na sua moção de estratégia, além de politicamente insólito e arrevesado, visava claramente uma figura - a de Marcelo.
Escrever que o candidato a apoiar pelo PSD não deve ser “um catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político” só podia ter o propósito de dar uma alfinetada política em Marcelo e tentar condicioná-lo. O efeito foi tal e tão imediato que terá superado as expectativas do próprio Passos.
Sabe-se que o primeiro-ministro nunca morreu de amores por Marcelo e vice-versa - desde os tempos já remotos de Passos na JSD e da liderança de Marcelo no PSD, no final dos anos 90. Mas Passos, em nome dos interesses do PSD, não devia esquecer que Marcelo era, de longe, o candidato melhor colocado do centro-direita às próximas presidenciais. E, sobretudo, não pode vir agora afirmar, com ar de anjinho, que ficou “muito surpreendido” e que o perfil que provocatoriamente traçou na sua moção “não ofende ninguém nem exclui ninguém”. Poupe-nos a hipocrisia.
Quanto a Marcelo, deu o exemplo de Manuel Alegre em 2006 para dizer que não queria “dividir o eleitorado” do PSD e do centro-direita - e assim justificar a sua repentina e prematura saída de cena. Podia ter dado outro exemplo presidencial do PS, o de Jorge Sampaio, que lançou a sua candidatura em Fevereiro de 1994 e soube impô-la, com convicção, contra tudo e contra todos - contra a vontade da direcção do PS, do então líder António Guterres e do Presidente Mário Soares. E, como se sabe, Sampaio ganhou.
Um candidato presidencial não se desvia nem desiste do seu caminho por causa de vozes alheias ou por embirrações de dirigentes partidários. E, muito menos, por parágrafos em moções de estratégia.
Marcelo mostrou que, ao contrário do que se pensava, não queria mesmo ser candidato a Belém. E que só estava à espera de um pretexto para se afastar da corrida. Passos deu-lhe esse pretexto. Ou não foi bem assim?
«SOL» de 24 Jan 14

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26.12.13

«Dito & Feito»

Por José António Lima
Rui Rio geriu durante 12 anos a Câmara do Porto. Impôs rigor nas contas do município, contrariou o despesismo e o endividamento reinantes em muitas autarquias (contrastando com o exemplo da vizinha e superendividada Gaia), fez finca-pé na separação de campos da política com outros poderes como o do FC Porto, enfrentou alguns lóbis e incompreensões dos meios artísticos, conviveu sempre mal com a liberdade crítica da comunicação social que lhe era desafecta, foi conquistando influência e mais votantes de eleição para eleição.
Mas, ao longo desses 12 anos, Rio raramente ultrapassou a sua condição regional e pouco revelou sobre um pensamento político mais amplo e estruturado: não ficaram na memória ideias ou intervenções suas sobre a crise da dívida, a dimensão do Estado social, a baixa produtividade da nossa economia, a sustentabilidade das pensões ou o federalismo na UE.
Essa indefinição, essa espécie de folha em branco programática, talvez tenha contribuído para Rio ter sido, agora, colocado na sebastiânica lista de promessas políticas com grande futuro. O curioso é que Rui Rio decidiu dar corda a esse sebastianismo e tem-se desdobrado em colóquios, conferências e monólogos em locais tão improváveis e politicamente tão surpreendentes como a Casa-Museu do pai de Mário Soares ou a Associação 25 de Abril.
E o que foi propor Rio a tão sugestivas audiências? Coisas tão populistas, demagógicas e inquietantes como cavalgar a onda de desancar nos partidos que “não põem cá fora o que a sociedade precisa”, apoucar os “políticos de hoje” que são de “qualidade inferior”, denegrir o “sector da Justiça que causa aflição” ou agitar o papão de “uma ditadura sem rosto ao virar da esquina”. Para obstar a tamanha degradação, Rio sugere receitas tão básicas e perigosas como as de “a abstenção eleger cadeiras vazias no Parlamento” ou “o voto obrigatório”. Tudo o mais no seu périplo conferencista são tiradas politicamente balofas dirigidas aos desencantados com os partidos.
Parece que Rui Rio, apesar desta vacuidade populista, tem ambições de chegar alto no partido e na política nacional. Porque não? Não chegou, também, Luís Filipe Menezes a líder do PSD? Tudo é possível.
«SOL» de 20 Dez 13

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21.12.13

«Dito & Feito»

Por José António Lima
No momento em que se celebra a grandeza da figura política de Nelson Mandela, a esquerda portuguesa não resistiu à tentação de utilizar demagogicamente a morte do líder sul-africano como arma de arremesso em mesquinhos ajustes de contas caseiros.
No Parlamento, o PCP, pela voz de António Filipe, apareceu a acusar Cavaco Silva de ter votado na ONU, em 1987 (quando era primeiro-ministro), contra uma resolução que exigia ao regime do apartheid a libertação incondicional de Mandela. Helena Pinto, do Bloco, apressou-se a acrescentar que “em 1987 Portugal estava do lado errado”. E foi quanto bastou para o tema alastrar em indignadas proclamações nas redes sociais e nalgumas rádios e televisões.
Acontece que, nessa ocasião, Portugal votou a favor uma resolução da ONU pela “eliminação do apartheid” e que pedia “a libertação imediata e incondicional de Nelson Mandela e de todos os outros presos políticos”. Apenas votou contra um outro documento que incitava à violência para derrubar o regime sul-africano. Recorde-se que, nessa altura, em 1987, as ex-colónias portuguesas vizinhas da África do Sul, Angola e Moçambique, estavam mergulhadas em violentas e intermináveis guerras civis.
Mandela conseguiu, também, essa proeza em que quase ninguém acreditava: substituir o mais odiado regime colonialista de segregação racial, o do apartheid, por uma democracia e em paz - sem mergulhar a África do Sul num banho de sangue, sem provocar a debandada em massa dos brancos como acontecera em todas as ex-colónias africanas, sem desencadear incontroláveis confrontos tribais e partidários pelo poder.
Mandela foi um exemplo único de luta pela liberdade, pela reconciliação, pela dignidade humana e pela convivência multirracial. Tornou-se o mais inspirador dos líderes da política contemporânea. Era, por isso, a figura mais admirada em todo o mundo, da América à China, da África ao Japão - por todas as raças, todas as religiões e todos os regimes. “Um gigante da História”, na feliz definição de Obama. Em Portugal, a esquerda do PCP e do Bloco quis reduzir essa dimensão de Mandela à pequenez das baixas querelas partidárias. Sem pudor. E sem sucesso. 
«SOL» de 13 Dez 13

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