17.2.09

Espera

Por João Paulo Guerra
Muito se falou, nas autárquicas de 2005, do caso dos candidatos arguidos. Há quatro anos, o então líder do PSD ousou afrontar o populismo dos que pretendiam fazer-se julgar pelos eleitores, em vez dos tribunais.
EM 2005, O LÍDER DO PSD perdeu câmaras mas ganhou autoridade moral que, aliás, não lhe serviu de nada porque a moral foi revista em baixa pela política portuguesa. Agora, a dirigente que faz figuração de líder do PSD e da oposição não tem esses pruridos.
De 2005 para 2009, eles aí estão, os mesmos e mais alguns, com os respectivos casos pendentes. Pelo natural passo de caracol da justiça portuguesa ou por manobras dilatórias dos arguidos, há casos que não deram um passo em frente em todos estes anos, embora alguns casos tenham dado vários passos atrás. A notícia de que a Relação de Lisboa confirmou a decisão de julgar Isaltino Morais por corrupção, abuso de poder, fraude fiscal e branqueamento de capitais é exemplar. Há quatro anos estava-se no mesmo pé mas uma instância mais abaixo. Talvez para as autárquicas de 2013 haja uma decisão do Supremo e, para as de 2017, um acórdão do Constitucional. Ou talvez tudo isto prescreva. Ou até pode acontecer que o burro fale. Não sabem a história? Eu conto.
Num reino antiquíssimo, um homem, condenado à morte, pediu clemência ao rei até que conseguisse o objectivo da sua vida: ensinar o seu burro a falar. O rei suspendeu a execução por 5 anos, mas os acusadores do condenado não o largaram: "Estás tramado. Encontramo-nos daqui a 5 anos no patíbulo". Ao que o homem respondia falando consigo mesmo; "Em cinco anos, pode ser que eu morra de morte natural. Pode ser que morra o rei. E até pode acontecer que o burro fale". É disso que Portugal está à espera.
«DE» de 16 de Fevereiro de 2009; cartoons cedidos pelo autor, Sergei.
Passatempo: em colaboração com João Paulo Guerra, o melhor comentário que seja feito a esta crónica (até às 20h de sábado, 21 Fev 09) será premiado com um exemplar de «O Regimento dos Espectros».
Actualização (23 Fev 09/13h28m): o júri decidiu premiar Joana e Alex-HAL, a quem se pede que, nas próximas 48h, escrevam para sorumbatico@iol.pt indicando moradas para envio.
NOTA: Até ao momento, não foi possível obter a opinão do autor da crónica. Se ela vier e não coincidir com a do júri, serão atribuídos prémios adicionais - o que será anunciado no post habitual intitulado "passatempos em curso".
Actualização (26 Fev 09/19h00m): o autor também votou em Joana.

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5 Comments:

Blogger Táxi Pluvioso said...

Não vale a pena esperar tanto tempo: o burro falará!

17 de fevereiro de 2009 às 14:33  
Blogger Carlos Antunes said...

Mas então ainda não sabem que o burro é uma espécie protegida no nosso país?
Vai daí que por estes dias, se alguém se propuser a ensinar um burro a falar ainda se veja a braços com um subsídio e possa ir alardear pela Europa (ou um qualquer país tropical...) o seu empreendorismo!
Talvez o projecto se venha a chamar "Isaltino - Oeiras cais para a frente" e até se possa renomear o animal, em vez de Equus asinus, teremos o Ecos asinus!

17 de fevereiro de 2009 às 14:50  
Blogger Vanessa Casais said...

Chega a ser escandalosa, não a corrupção dos presidentes de algumas câmaras que acaba por ser um pouco apartidária, mas antes a defesa incondicional dos mesmos por parte da população. O apoio justifica-se pela “obra feita” e pouco importa se se saltaram alguns trâmites legais ou burocracias dispensáveis, o que importa é que se construiu, se fez, e a população só tem com isso a ganhar. O que Isaltino tem de diferente é encarnar um dirigente com aura de Robin dos Bosques, é merecer as luvas, os sacos coloridos e as contas no país dos chocolates por ter elevado Oeiras a um género de península com governo autónomo. O apoio também ele apartidário, porque aqui vota-se no homem, é cego. Não é necessário que o Sr. Presidente se esconda, fuja para o Brasil, Isaltino estava eleito antes de concorrer e tão pouco precisaria de imunidade política porque mesmo quando as coisas correm menos bem basta ter alguma fé que os burros lá acabam de uma forma ou de outra por falar, não fossemos nós um país de milagres religiosos e de processos que caducam.

17 de fevereiro de 2009 às 21:57  
Blogger MTeresa said...

Somos um povo de brandos costumes e de encolher de ombros... vamos assistindo a todas as situações inaceitáveis (corrupção, impunidade perante a justiça - no caso de processos que prescrevem de tanto que esperam para serem julgados, etc) como se de uma novela se tratasse, pois tais como a novela todas estas situações acabam para entreter o povo e distraí-lo do que realmente interessa: emprego, saúde e educação, qual destas áreas a que está pior!!
Pode ser que um dia o burro fale e a galinha ganhe dentes e o povo se mexa e acabe com este hipnotismo colectivo!!

18 de fevereiro de 2009 às 00:47  
Blogger Mg said...

Nem de propósito!

Um tanto ou quanto sem querer, o Ministério Público de Torres Vedras acaba de abrir a caixa de Pandora e de nos dar a receita para um julgamente célere que (eventualmente, e a provarem-se os factos) levará à condenação de tantos e tantos autarcas, e não só, do nosso burgo.

Ofereçam-lhes um Magalhães (porque está na moda e porque a máquina é jeitosa), cujo desktop seja constituído por imagens "pornográficas" (julgo ter sido este o termo utilizado pelo MP), e verão que em menos tempo do que o Diabo demora a esfregar um olho não haverá Moral (ou Morais), nem milagres de Fátima que salvem esta gente.

O processo será sumário (ou sumarissímo, consoante os casos) e a Lei será aplicada, na justa medida, doa a quem doer.

Mais a sério: a sociedade civil já se apercebeu que todos os processos que envolvam arguidos que ainda sejam detentores de cargos, independentemente da sua natureza, são adiados "ad aeternum", porque o estatuto é uma coisa bonita e não se deve mexer com pessoas que zelam por interesses (de quem, é o que resta saber).

É assim com autarcas, é assim com dirigente desportivos, é assim com políticos no geral, é assim com construtores civis, é assim com todo e qualquer um que navegue em mares de lobbies, interesses e influências.

É assim a "palhaçada" que por cá se vê e que eu, em respeito pelos meus concidadãos, e porque estes também se merecem distrair da(s) miséria(s) do dia-a-dia, estou disposto a fazer de conta que não existe... mas só até à próxima Quarta-Feira.

21 de fevereiro de 2009 às 15:21  

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