25.7.09

Julho e Agosto, S.A.

Por Antunes Ferreira

É POR ESTA ALTURA DO ANO que adoro estar na minha cidade, Lisboa. Julho e Agosto, S.A. são, para mim, meses obrigatórios na capital. Algarves? Estranjas? Termas? Montanha? Campismo? Que é isso tudo, comparado com a tranquilidade ulissiponense? Faz muito calor por cá? Faz muito mais em Ryade. Até mesmo em Moura. Sem dúvidas de qualquer espécie. Há muita poluição? Não se vá muito mais longe. E em Atenas? O Barreiro não conta.

Refiro-me, sem margem para hesitações, à circulação rodoviário/citadina. Ainda que não só. Mas, para mim que faço parte dos cidadãos membros fundadores do Grupo dos que Abominam Engarrafamentos & Correlativos, GAEC, esta é uma circunstância determinante e incontornável na paixão de ficar em Lisboa quando os outros a abandonam, temporariamente embora. (...)

Texto integral [aqui]

NOTA (CMR): atenção ao post seguinte, em que se anuncia um prémio relacionado com o presente texto.

Actualização (29 Jul 09/10h): o júri decidiu atribuir o 1.º prémio a Armindo Guimarães e prémios-surpresa aos outros 4 concorrentes. Têm todos 24h para contactarem sorumbatico@iol.pt indicando morada.

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5 Comments:

Blogger Joana Luz said...

Tal como Antunes Ferreira, sempre gostei de passar os meses de Julho e Agosto em Lisboa. Os melhores meses, sem dúvida, para desfrutar da minha Lisboa! Era uma maravilha ir ao cinema (sem filas para comprar bilhete), ir a um qualquer centro comercial durante o fim-de-semana, ir a um hipermercado ou ter a segunda circular livre e desimpedida a ponto de “pisar o risco” no que toca à velocidade. Chegar ao trabalho e não ter de procurar um buraco para enfiar o carro, mas ter tantos lugares à escolha que até ficava indecisa onde o colocar (podendo até optar por um dos poucos lugares com sombra quase o dia inteiro). Isto são exemplos de situações que são de facto um privilégio de quem opta por ficar em Lisboa em Julho, mas sobretudo em Agosto, dando quase a sensação de termos a cidade toda por nossa conta!
Pelo que vejo, nos últimos 2 ou 3 anos, já não se assiste a uma tão grande debandada de lisboetas (de gema ou não) nos meses que refiro...provavelmente o poder de compra e a já tão falada crise têm aqui muito peso no que toca à escolha do local de férias, no entanto, se ainda hoje vivesse em Lisboa continuaria a passar estes meses a trabalhar e a disfrutar da minha cidade.
Agora que vivo numa cidade algarvia que vive do turismo, Julho e Agosto são dois meses de enorme afluência de turistas (nacionais ou estrangeiros) e sabem qual é a minha vontade? Pirar-me para Lisboa. Só não o faço quando não posso, tal é a balburdia que esta pacata cidade vive! Ir às compras é uma loucura, estacionar o carro fora da muralha (já nem falo no centro da cidade) é uma aventura, ir à praia sem que alguém venha estender a toalha quase em cima de nós é caso raro por esses meses! E o mais engraçado é que os alfacinhas se topam à légua! É verdade e não é pelo modo de falar! Esta gente vem de férias para relaxar e descansar, mas em vez disso ainda stressa mais! Condução agressiva e a “queimar” a traseira do carro da frente é o que mais se vê, estacionar em locais que não lembra ao Diabo também é um fartote (como se os que cá moram já não inventassem lugares de estacionamento suficientes), no supermercado quase nos abalroam com os carrinhos e na fila da caixa quase se pegam porque os dois chegaram primeiro! Enfim.... Dão-me licença que faça as malas e vá para a minha terra?! pelo menos lá estou mais sossegada até ao fim do próximo mês!

26 de julho de 2009 às 11:47  
Blogger Maria said...

Lisboa Julho e Agosto

Julho, Agosto e Domingos de manhã, Lisboa volta a ser, um pouco a minha Lisboa. Ouvem-se os sinos, o Tejo tem mais brilho, as belas ruas da baixa, podem-se palmilhar sem pressas nem encontrões. Volta a sentir-se o cheiro dos cafés, os poucos eléctricos tocam campainhas, pode-se olhar uma montra sem entrar para comprar, só para ver. As ruas atravessam-se sem olhar, como eu gosto. E, de novo as gaivotas de Lisboa voam felizes, porque é o dia delas. Ouve-se de novo o seu guincho, que sabe a gargalhada.
No Rossio vazio de gente, os pombos pairam em festa. A velhinha com o saco de milho ou restos de pão, chama-os e eles vêm.
Pode-se ver inteiro o Nacional, a Estação, as fontes, às vezes as floristas, que talvez sejam Júlias. Compra-se um jornal e lê-se sentado num banco. Não há apitos estridentes de buzinas, nem ruído de motores.
Calor? Mas que calor? É de manhã, Domingo, Julho ou Agosto e o Tejo, refresca os olhos e o corpo. E perco-me a olhar o Tejo. Imagino os golfinhos de outrora, os cacilheiros. Depois subo o Chiado como dantes. Um cauteleiro aproxima-se com a “grande”, um aleijado pede esmola...
E agora reparei, que esta Lisboa, a minha, a que ainda sonho, já não existe.
De repente, aparece gente estranha, numa mistura de raças e nacionalidades, há drogados e sem abrigo por todo o lado.
Volto a ouvir o barulho habitual, a apanhar os encontrões habituais.
E é Domingo de manhã, Julho ou Agosto.

26 de julho de 2009 às 21:41  
Blogger Jose Martins said...

Ai como eu adoro (como o Dr.Antunes Ferreira em Lisboa os meses de Julho e Agosto) passar em Banguecoque o ano Ano Chinês e os longos feriados.

A cidade, sei lá de mais 12 milhões, é toda minha...

Todo o mundo "cavou" para o exterior e circulo na "City of Angels" à vontadinha sem tráfego automóvel.

27 de julho de 2009 às 02:01  
Blogger Armindo Guimarães said...

Embora não seja alfacinha e nem sequer viva em Lisboa, compreendo o Antunes Ferreira e não sou eu, tripeiro de gema, que lhe vai estragar os planos invadindo a capital nos meses de Julho e Agosto.

À tranquilidade olissiponense do Antunes, eu gosto é de apreciar de palanque e de copo de ginjinha com elas na mão, o ambiente efervescente do Rossio à porta de “A Ginjinha”, enquanto o senhor José me engraxa os sapatos e não raras vezes até as meias quando a sua atenção profissional é desviada por mor daquela africana de curvas sensuais ou daquela indiana bonita cujo sari solto e colorido deixa adivinhar divinas formas sensuais que abrem o apetite de qualquer um que saiba que mais adiante, nas Portas de Santo Antão, frente à antiga sede do Glorioso e a poucos metros do Coliseu, existe a Casa do Alentejo cuja fachada não condiz com a beleza arquitectónica que possui no seu interior onde por razoável quantia os nossos sentidos degustativos podem ser postos à prova com a riqueza da cozinha alentejana em tempos improvisada por motivos de tanta carência. À saída pode ler-se num cartaz: “ALENTEJO – uma Região, um Povo, uma Cultura”, e alguém, quiçá depois de bem comido e bem bebido (juro que não fui eu), completou: “…uma Anedota”.

Depois da Casa do Alentejo, ando meia dúzia de metros rumo a outra casa, a “Ginja sem Rival”, desta vez para um “Eduardinho” como digestivo, ou, como opção, andar mais uns poucos metros e saborear um “Pirata” nos Restauradores, após o que estou preparado para, em jeito de passeio higiénico, tomar uma bica no Chiado à mesa com o Fernando (o Pessoa), seguindo depois pela rua Augusta até à praça do Comércio para apreciar as obras do costume ou então, feito gaivota (que não Fernão Capelo), atravessar o Tejo de cacilheiro onde me espera “O Grande Elias” com uns atractivos caracóis bem regados com umas imperiais bem espremidas.

E como entretanto é hora da janta, é certo e sabido que estarei lá onde as liras singelas tangem. E no silêncio da velha Lisboa um tripeiro irá lembrar o alfacinha Antunes Ferreira.

Essa é a Lisboa que eu gosto.

27 de julho de 2009 às 14:02  
Blogger dana_treller said...

Era eu moça mocinha, pouco conhecedora do conceito citadino (tendo sido criada numa aldeia perdidas em terras nortenhas), quando dita o destino que Lisboa seja a minha casa.

A princípio tudo assustou: transito selvagem; semáforos estragados e passadeiras fantasma que servem de desculpa aos sustos que os automobilistas até têm gosto em pregar; a multidão que sai do metro na paragem de ligação e que se dirige em rebanho para a outra linha; as ruas cheias de gente diferente; as milhentas lojas com os artigos mais inesperados à disposição... Mas o que mais me assustou foi o anonimato... A capacidade que esta cidade tem de, no centro do país, no meio de uma multidão, fazer com que alguém desapareça... Ninguém conhece, ninguém cumprimenta, ninguém pede desculpa quando nos empurra. Foi assim que conheci Lisboa. Foi nessa Lisboa que aprendi que para se ser notada tem que se fazer a diferença.

Depois aprendi que havia mais: o Bairro Alto e o melting pot que consegue produzir sob o pretexto de animação nocturna; a cultura que só não nos entra pelos olhos se os fecharmos (sim, há muita oferta); e os cantinhos pequeninos da cidade (desde a calçada do Duque, à Casa dos Bicos; dos jardins de Belém aos da Estrela, entre outros) que me fizeram ama-la como a amo hoje...

Aprendi que Lisboa respira vida, mas que esta respiração tem um ritmo sazonal que também aprendi a apreciar. Durante grande parte da semana (grande parte do ano), Lisboa vive polipneica - devido à azáfama vizinha que a invade todos os dias de manhã. Mas alguns dias por semana (aos fins de semana, nomeadamente) e durante as chamadas "férias grandes" (num ou noutro fim de semana prolongado é também notório), Lisboa respira de alívio.

Perde-se o tumultuo mas não se perde o encanto. E é com o tumultuo que esse encanto mais brilha, pois Lisboa é como um qualquer Workoholic: não consegue estar sossegada por muito tempo.

Lisboa brilha a cada feira do livro, em cada noite de marchas; Lisboa festeja com cada vitória da selecção nacional e com o final do campeonato; Lisboa acolhe manifestações e reclamações, alegrias e desilusões... Lisboa apadrinha todos os desterrados que lá moram e ajuda a crescer todas as crianças que (como eu) por lá aprendem a ser alguém.

Não é perfeita, mas é nossa. A Lisboa que amamos, à imagem de cada um de nós todos os dias é refeita.

28 de julho de 2009 às 18:21  

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