29.1.10

O mundo de pernas para o ar

QUANDO ouvimos um aluno chumbado a dizer que quem o reprovou é ignorante, quando ouvimos um réu condenado a garantir que o juiz não percebe nada de leis, ou quando ouvimos um dirigente de um clube derrotado a jurar que o árbitro é mercenário - quase já nem ligamos mas, na realidade, é ridículo ver um avaliado a travestir-se de avaliador.
Na mesma linha, leiam-se as palavras - de rara finura, como sempre! - escritas por Ana Gomes no seu blogue pelo facto de as agências de rating não estarem a apreciar devidamente a evolução das nossas finanças:

«(...) Por isso a regulação e supervisão financeiras são urgentes e têm de incluir a disciplina, a responsabilização e a punição desta corja mercenária de pseudo-especialistas que se armam em avaliadores da capacidade de endividamento de países. Uma corja que continua a fazer mossa, porque há comentadores politicos e economicos palermas, ignorantes ou mal-intencionados que continuam a ... dar-lhes crédito!»

10 Comments:

Blogger GMaciel said...

"a regulação e supervisão financeiras são urgentes e têm de incluir a disciplina, a responsabilização e a punição desta corja mercenária de pseudo-especialistas "

Pois claro. Mas então e o ... o coiso... ai, como é que ele se chama? Ah, sim, o Vitor Constâncio?

Está bem, abelha!

29 de janeiro de 2010 às 20:35  
Blogger R. da Cunha said...

Independentemente do tipo de escrita (e não me refiro apenas aos acentos ou vírgulas), tendo a subscrever o artigo de Ana Gomes. Que fez aquela gente para prever o descalabro dos bancos americanos? Sim, porque as empresas de rating também notam as empresas, nomeadamente os bancos. Neste assunto não há inocentes nem virgens.

29 de janeiro de 2010 às 21:44  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

À parte os termos grosseiros (ao nível de taxista de aeroporto, a que há muito nos habituou) até pode estar cheia de razão, mas pode dizer-se que é parte interessada no assunto em causa - aquilo a que se chama «juiz em causa própria».

Ou seja: A.G. coloca-se (como, aliás, ultimamente tem feito o governo) no papel do avaliado que quer avaliar o avaliador porque não gostou da avaliação.

E essa posição é sempre frágil e chocha - mas cada um dá o que tem...

29 de janeiro de 2010 às 21:53  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

... mas podemos esquecer a opinião de uns e de outros, e pensarmos pela nossa cabeça:

Pelo caminho que as finanças levam (e que está à vista de todos), quem é que estará mais próximo da verdade:

Quem diz que é preciso ter cuidados redobrados (com as nossas finanças e economia), ou quem, ao invés, diz que está tudo cada vez melhor - e que os que dizem o contrário são "uma corja" de incompetentes?!

29 de janeiro de 2010 às 21:58  
Blogger Ribas said...

Dado o caminho que as nossas finanças levam e atendendo às previsões da nossa economia a médio e longo prazo, é inegável que a razão está do lado das empresas de rating.
Agora, parece-me um contra senso que essas avaliações levem à baixa da notação e aumentem o preço do crédito, pelo menos do crédito contraído antes da última avaliação, uma vez que só vêm acrescentar mais dívida à dívida sob forma de juros, obrigando a um esforço ainda maior do país para equilibrar as contas públicas.
Seria mais aceitável que as consequências dessas avaliações se repercutissem na cedência de empréstimos futuros. Não se pode condenar nenhum banco de tomar precauções quando vai emprestar o seu dinheiro, mas já se pode condenar, quando um banco se aproveita da situação difícil de um cliente, para aumentar os juros e o valor do reembolso.
Isso roça a agiotagem.

29 de janeiro de 2010 às 23:02  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

No «Público» de hoje:

«O governador do Banco de Portugal disse hoje ter ficado surpreendido com o valor do défice das contas públicas de 9,3% do PIB em 2009 e avisou que “os próximos anos serão mais difíceis” do que o esperado ao nível do esforço de consolidação orçamental.

Vítor Constâncio destacou a evolução do défice como “o primeiro ponto negativo” da proposta orçamental apresentada pelo governo na terça-feira e afirmou que "ninguém esperava este aumento".

"Penso que o próprio Ministério das Finanças terá ficado surpreendido com a evolução [do défice público] nos dois últimos meses do ano”, afirmou hoje Vítor Constâncio (...)»

30 de janeiro de 2010 às 13:06  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

As agências de 'rating' espalharam-se ao comprido quando não previram a crise internacional, mas o que se passa por cá deve estar ao nível de qualquer estagiário:

===
O défice anda pelos 3% ou é mais alto (por volta do triplo)?

Prevê-se que dívida suba ou desça?

O desemprego aumentará ou diminuirá?

Os investimentos previstos (como autoestradas e TGV) são rentáveis e reprodutivos - ou, ao invés, serão como os estádios do Euro 2004?

Os portugueses irão passar a poupar, ou continuarão a endividar-se?

O Estado tenciona passar a pagar a horas ou não?

Quando há conflitos com maus pagadores, a Justiça funciona?

A Administração Pública passará a ser mais eficaz?

Os portugueses mais qualificados insistirão em emigrar, ou prevê-se que regressem?

Os imigrantes continuarão a regressar aos seus países, ou prevê-se que venham mais, ajudando a equilibrar as nossas contas?

Quantos corruptos (sem serem da arraia-miúda) estão na cadeia?
O que se prevê para lutar - mas a sério! - contra a corrupção?

Etc

30 de janeiro de 2010 às 13:20  
Blogger Ribas said...

Boas perguntas para o Oráculo de Pytos...

30 de janeiro de 2010 às 14:49  
Blogger Manuel Brás said...

Pudera!

À orgia de verbosidade
brilhante de exuberância
reúne a infelicidade
para além da tolerância.

Falando do dispensável
esquece-se o essencial,
tornando-se tão cansável
o discurso prudencial.

Tanta gente espantada
por contas descontroladas,
numa postura atada
a ideias assoladas.

30 de janeiro de 2010 às 16:59  
Blogger Nuno Sotto Mayor Ferrao said...

É verdade Carlos Medina Ribeiro, hoje o mundo está de pernas para o ar por uma razão muito simples: todos sentem legitimidade em reivindicar direitos, mas ninguém quer cumprir as obrigações... Este fenómeno é uma verdadeira "obscenidade moral", passse a expressão. Essa é uma das lições históricas da nossa contemporaneidade! Em todo o caso, o importante no caso dos políticos não é que respondam a técnicos, porque o predomínio da tecnocracia tem afastado os cidadãos dos políticos. O que verdaderamente importa é a rectidão moral dos políticos e o seu dever de se afatarem das artes do marketing...

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrao
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

31 de janeiro de 2010 às 00:55  

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