14.5.10

Adeus a Saldanha Sanches

A PRIMEIRA VEZ que ouvi falar do Saldanha Sanches foi em finais de 1964, numa aula de Desenho no IST, tinha eu uns 17 anos acabados de fazer. A meu lado, um colega mais velho (que, ao contrário de mim, estava já batido nas lutas estudantis que marcaram essa época), falou-me dele e do julgamento que, nesse mesmo dia, ia decorrer na Boa-Hora.
Ouvi tudo com atenção e interesse, mas o coração apertou-se-me quando ele me desencaminhou para o acompanhar na manifestação anti-fascista que, como era hábito nessas alturas, iria decorrer nas proximidades do tribunal.
Não fomos muito longe pois, quando chegámos ao Rossio, já a PIDE e a polícia de choque tratavam - com o zelo e a eficiência que tem de se lhes reconhecer... - da 'limpeza' da zona.
Refugiámo-nos, então, no Café Gelo, onde nos sentámos, tentando fazer um ar de clientes. Mas não conseguimos enganar ninguém, a começar pelo empregado de mesa que, algum tempo depois (e sem que lhe tivéssemos dito nada...) veio ter connosco e nos sussurrou: «Pirem-se agora, que "eles" já aí não estão» - "Eles" eram os agentes da PIDE, que ele bem conhecia e andavam por perto, à caça...
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O tempo passou, e só voltei a ouvir falar do Saldanha Sanches 10 anos mais tarde, quando vim a saber que andava pelo MRPP, um agrupamento que, pelo menos para mim, era mais do que irritante e com quem tive problemas graves durante o período do PREC.

Mas o tempo não pára e, quando muito mais tarde vim a descobrir que éramos vizinhos, apercebi-me também que as suas crónicas no Expresso eram particularmente interessantes, embora nem sempre concordasse com elas. Escrevi-lhe, pedi-lhe autorização para as afixar no Sorumbático, e pouco tempo depois, numa das poucas vezes que falei com ele (na Livraria Barata), convidei-o para 'contribuidor' do blogue. Aceitou e, a partir daí, e com intervalos de 2 ou 3 semanas, enviava-me os textos (ultimamente num raio de formato 'docx' que ao princípio me fez a vida negra!); e eu, depois de os afixar em seu nome, reencaminhava-lhe os comentários que sei que apreciava - e a que, por vezes, respondia.

Pois agora, aos 66 anos, o Saldanha Sanches deixou-nos.

Roubo, já agora, as palavras de Paulo Ferrero, do blogue O Carmo e a Trindade, onde eu também escrevo de vez em quando: «Apenas falámos pessoalmente uma vez, para grande pena minha. Mas do seu percurso público, e das nossas trocas de mails sobre um assunto chamado Lisboa, retenho o homem bom, lúcido, disponível, jovem e de sentido de humor. A Avenida de Roma, Lisboa e o país, esses acabam de ficar muito mais pobres. E este blogue ainda mais».

C. Medina Ribeiro

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CREIO QUE SEJA a primeira vez que nos morre um companheiro de escrita neste blogue de opinião e seguramente desassombro que é o Sorumbático.

Ficamos confrontados com a fraqueza da nossa corporalidade e a efemeridade da vida.
Aqui pugnamos todos os dias pela opinião livre e assumida, pela guerra ao mau gosto, à indiferença, à injustiça e ao desgoverno.
Sempre o JLSS lutou e percorreu esses caminhos.
Era um prestígio ombrear em opinião com ele neste espaço.
Revíamos conceitos e púnhamos em causa ideias que ele esclarecidamente escalpelizava, sem nunca perder o sentido da justiça fiscal e social que sempre o caracterizou.

Muitas vezes, depois de o ler fiquei a pensar diferente e mais elucidado sobre o complexos assuntos da economia, das finanças e do quotidiano leve que nos castiga de taxas e impostos que não compreendemos.
Há qualquer coisa de simbólico e quase irónico - num negro humor que ele próprio saberia saborear,- no facto do seu passamento se dar entre noticias de agravamentos sem precedente na esfera fiscal.
Agora, que seria tão importante saber a sua opinião esclarecida e sempre militante, precisamente agora, vai faltar-nos esse artigo, essa ironia crítica, esse superior entendimento.

A vida é isto mesmo. Hoje um, amanhã outro, todos partiremos sem excepção.
E a luta pela liberdade, igualdade e fraternidade, essa continuará no coração de outros homens de bem que hão-de vir como o Saldanha Sanches foi. Que de símbolo estudantil, a referência antifascista a esclarecido intelectual com 66 anos apenas nos deixa mais pobres e menos apoiados no nosso quotidiano viverzinho, perplexos perante tanto castigo sem apelo, nós que apenas desejamos trabalhar, pensar e ser felizes.

A sua palavra sempre nos ajudou a esclarecer. Não mais isso pode acontecer.
Fica a memoria do homem, ora amargo, ora paternal, que nos iluminava o mundo árido dos números e nos falava de justiça no intervalo das horas difíceis de um viver prematuramente interrompido.
Abraçamos-te, companheiro e professor de todos nós, como compete.

Pedro Barroso

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7 Comments:

Blogger GMaciel said...

Recebo a notícia por aqui e pergunto-me, terei lido bem?

Nunca sei o que dizer nestas alturas porque por experiência própria sei o quanto soam a palavras de conveniência. Seja, mas com toda a minha sinceridade: os meus sentimentos à famíla e a todos quantos privaram com Saldanha Sanches. Não posso avaliar a vossa perda, mas posso afirmar a minha pois era uma voz que eu escutava e respeitava.

14 de maio de 2010 às 14:20  
Blogger Monchique said...

Era Professor Universitário por valor académico; era sábio da área dos Direito Fiscal; era contundente, mas certeiro e sibilino; foi da esquerda esquerdista, mas soube compreender a mudança; nada tinha a ver comigo politicamente, mas era um gosto ouvi-lo discorrer. Portugal ficou mesmo mais pequenino.

14 de maio de 2010 às 16:15  
Blogger Carlos Esperança said...

O Sorumbático perdeu um colaborador e Portugal um defensor da ética republicana, da decência e da luta contra a corrupção.

Nós sentimos tristeza. Os que lhe negaram a cátedra talvez sintam vergonha. E os traficantes de influências ficam um pouco mais aliviados.

14 de maio de 2010 às 19:00  
Blogger R. da Cunha said...

Enontro-me na mesma siauação de GMaciel. Nunca encontro as palavras certas.
Vai fazer falta.

14 de maio de 2010 às 19:25  
Blogger lino said...

Eu gostava de o ouvir e de o ler. Certeiro e sem o bota-abaixismo de um tal Medina Carreira.

14 de maio de 2010 às 19:36  
Blogger fios de renda said...

Só conheci Saldanha Sanches das intervenções que fazia ocasionalmente nalgum canal televisivo. Mas gostava de o ouvir. Há vozes que desaparecem e não sabemos onde encontrar a clareza que elas continham.

15 de maio de 2010 às 08:07  
Blogger Nuno Sotto Mayor Ferrao said...

Caríssimo Carlos Medina Ribeiro,

Presto também aqui a minha homenagem ao Professor Saldanha Sanches pelas suas palavras de sempre interventiva cidadania que radicava numa imensa sabedoria, numa alma generosa e num acutilante sentido crítico face à corrupção, às malhas permissivas da administração fiscal e à política fiscal. Capaz de um cativante sentido de humor que imprimia às suas intervenções públicas nos meios de comunicação social a muitos assuntos aparentemente demasiado técnicos. Foi um dos nossos fiscalistas mais atentos à justiça social, embora alguns o vissem como um perigoso "esquerdista" pelo seu passado de militância política de luta contra a Ditadura. Teve um papel de cidadania exemplar nas denúncias públicas que fez durante o regime democrático actual.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

15 de maio de 2010 às 23:40  

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