24.2.11

Discrepância

João Paulo Guerra

EM PORTUGAL, nos últimos tempos, enquanto se liquida a democracia económica e social, a democracia política também vai perdendo qualidade e rigor. E até sobre questões tão sensíveis e essenciais, como as eleições e o rigor de resultados eleitorais, vão pairando nuvens de incertezas e dúvidas.
Aconteceu recentemente que o mapa oficial dos resultados da eleição presidencial de 23 de Janeiro, em reunião da Comissão Nacional de Eleições com seis presenças, registou dois votos a favor, duas abstenções e a dois votos contra, sendo aprovado pelo voto de qualidade do presidente, ao que dizem os jornais para não pôr em causa a data prevista para a tomada de posse de Cavaco Silva. O mapa tinha erros e omissões de monta, como sugeria a própria votação da CNE e veio agora a verificar-se e a ser corrigido pelo Tribunal Constitucional.
Já se sabia que em Portugal, de eleição para eleição sobrevivem ou renascem cada vez mais eleitores fantasma nos cadernos eleitorais. Não há governo que não prometa exterminar os olharapos, lobisomens ou papões eleitorais, mas os fantasmas são bem mais persistentes. E agora, a eleição de 23 de Janeiro revelou que também há votantes e votos fantasmagóricos, que aparecem e desaparecem. A recontagem exibiu diferenças na ordem das várias dezenas de milhar de votos. Os políticos, as instituições chamam-lhes discrepâncias, como lhes poderiam chamar desencontros, desfasamentos, incoerências. Mas chamem-lhes o que chamarem, o que é certo é que a divergência era da ordem dos 114 mil eleitores e dos 60 mil votos, inscritos a mais num lado, atribuídos a omissões, esquecimentos e erros informáticos, com montantes de modo algum negligenciáveis. Enfim, são coisas que acontecem, neste país onde não acontece nada.
«DE» de 24 Fev 11

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1 Comments:

Blogger JMG said...

Que diabo será democracia económica e social? Ah já sei, é quando os esquerdista de todos os bordos impõem a sua crença nos méritos da igualdade material entre os cidadãos, a despeito da outra democracia, a que é "só" política.

24 de fevereiro de 2011 às 22:53  

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