18.9.20

ADORO A ANGELA MERKEL

Por Joaquim Letria

Sei que muita gente vai estranhar, mas tenham paciência. A verdade é que adoro a Angela Merkel. É verdade e não é de agora. É um amor antigo. Porquê? Perguntar-me-ão. E eu posso responder.

Antes de mais, garanto-vos que não é pela sua figura redondinha, nem pelos seus olhos azuis, tão pouco pelo blazer e calças a condizer com que alterna, dia sim dia não, nas suas aparições públicas, nem só pela sua inegável inteligência e capacidade de trabalho. Também não é pelas fotografias antigas onde mostra um corpinho bem trabalhado pela ginástica da RDA.

Os 35% de alemão que ainda consigo compreender através do muito pouco que resta daquilo que estudei e aprendi ajudam muito. A sua voz bem colocada e expressiva e o seu alemão educado convencem-me, ao ouvir e entender aquilo que ela diz e as coisas que defende. Sem esquecer a sua postura. Recordem só o modo como anunciou a confirmação de envenenamento de Navalny, a forma como tal comunicou à NATO e à União Europeia, sem se esquecer, e mencionando a propósito, as autoridades russas com as quais contactou.

Este meu amor por esta alemã da antiga RDA talvez tenha nascido em mim por volta de 2014. Porquê? Talvez porque se dizia muito mal dela, mas porque foi uma verdadeira estadista que nesse ano mostrou ter mais compreensão e uma política consequente para com os milhões de migrantes e refugiados que na Europa procuravam uma réstia daquilo que os seus países destruídos e perdidos na guerra e na fome lhes negavam.

Foi nessa altura que Angela Merkel acolheu milhões de desgraçados, os ajudou, lhes deu uma orientação e fê-los ainda acreditar na possibilidade dum futuro, abrindo-lhes as portas da Alemanha e recusando-lhes mais desgraça a qual todos nós, europeus, fingíamos ignorar, olhando para o lado, assobiando e dizíamos desconhecer.

No ano passado, entre 2018 e 2020, Angela Merkel acolheu mais um milhão de afegãos, iranianos, sírios, líbios e africanos do sub-Sahara. E já este ano, há poucos dias atrás, disse numa corajosa entrevista que hoje voltaria a fazer exactamente a mesma coisa que fez até aqui se tal fosse preciso.

Gosto daquele negócio da Alemanha com a Turquia de Erdogan, que recebe dinheiro para reter em campos miseráveis emigrantes de modo a estes não virem também para a Europa! Evidentemente que não gosto. Mas Ângela Merkel, de quem dizem tanto mal, é a única estadista da União Europeia que merece respeito e admiração. E se duvidam, recordem-se dos Rajoy, dos Hollande, dos Petri, das Teresa May, dos Tsipras e Varoufakis e de outros desaparecidos cujos nomes nem nos lembramos nem sequer merecem que os pronunciemos. É por estas e por outras que eu gosto tanto da Ângela Merkel. Adoro-a!

Publicado no Minho Digital

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2 Comments:

Blogger Carlos Esperança said...

Há muto que a designo pela «última grande estadista da Europa» e não é da minha família política.

18 de setembro de 2020 às 23:17  
Blogger José Batista said...

Certo. Porém, eu ainda não consegui esquecer-me daquelas afirmações de que os portugueses (e outros cidadãos dos países do sul da Europa) tinham muitos dias de férias e trabalhavam poucas horas por dia. E do seu ministro das finanças de então, tão seguro como insensível na sua cadeira de rodas.
Naturalmente, por comparação com as nulidades políticas do presente e do passado recente da Europa sai muito a ganhar. Ressalvo, no entanto, que gosto da (actual) presidente da Comissão Europeia.

20 de setembro de 2020 às 16:32  

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