20.11.20

E QUE TAL O USUFRUTO?

Por Joaquim Letria

Aqui há tempos, o deputado do Chega André Ventura quis fazer graça propondo a devolução da sua colega parlamentar do Livre Joacine Katar Moreira ao seu país africano de origem. Naturalmente que lhe caíram em cima acusando-o de racismo, xenofobia e populismo que são territórios que o antigo comentador de futebol da CMTV atravessa com grande à vontade na sua vida política.

Obviamente que aquilo não foi mais do que uma piada às exigências da senhora que gaguejou com veemência exigindo que Portugal devolvesse aos países africanos que colonizou os bens que de lá trouxe.

Porém, a verdade é que reclamações como as da Joacine e promessas de devoluções se tornaram habituais e actualmente podem ser encontradas nos meios de informação de todo o mundo. Recordo-me de quando ainda havia paz no Iraque e visitei um par de vezes aquele que foi o seu extenso e belo território de haver iraquianos que me diziam “vamos mostrar-lhe os sítios. As peças têm de as ir ver no British Museum". E era verdade…a começar em toda a Mesopotâmia e a acabar nos jardins suspensos da Babilónia.

Anos mais tarde a minha profissão levou-me a acompanhar a guerra e a ver o saque miserável do Museu de Bagdad, onde havia mais modelos e réplicas de gesso do que peças verdadeiras que foram roubadas pelos americanos quando derrubaram Saddam.

Também vi os restos da maravilha que era Palmira antes de ser destruída por aquela invenção terrorista dos americanos que ainda hoje se chama Daesh e que continua activo, designadamente no Norte de Moçambique e em quase toda a região de Cabo Delgado, que em 1975 percorri a pé, acompanhando o presidente Samora Machel na sua marcha de regresso.

As delícias do antigo Egipto e sua civilização também continuam hoje no British Museum de Londres que por essas e por outras bem merece, pelo menos, uma visita de três dias.

O engraçado é que muitos Estados africanos, muitos deles governados por corruptos, e outros atravessando cruéis guerras civis, começaram a querer as suas coisas de volta. Mas dos colonizadores, moita-carrasco à excepção da Holanda, cujos dois maiores museus, detentores de cerca de 100 mil peças, disseram que sim senhor mas reivindicando o usufruto, ou seja, isto é vosso, mas nós continuamos a mostrar as peças aqui. Um verdadeiro usufruto…

Será interessante ver como isto acaba, ainda que o desfecho não seja provavelmente para o nosso tempo. Para já, o Rijksmuseum e o Tropenmuseum de Amsterdam já declararam que apoiam esta proposta do Conselho de Cultura Nacional. Este sistema, a vigorar nos Países Baixos, poderá servir de exemplo para outros países europeus que mantêm entre as suas riquíssimas colecções objectos que há muitos anos vêm sendo reclamados pelos países de origem. A ver vamos…

Publicado no Minho Digital

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1 Comments:

Blogger José Batista said...

Naturalmente, as peças foram roubadas dos países que as possuíam. Porém, a realidade actual mostra-nos a miséria desses países, tantos deles sujeitos às mãos de horrendos ditadores. Em termos práticos: se todos os materiais fossem devolvidos de que modo iam ser conservados e preservados? Os países roubados poderiam exigir aos países que os roubaram a construção dos museus nos seus próprios territórios, como paga pelo usufruto dos seus bens culturais durante décadas ou séculos. Mas como obrigá-los? E no caso de Portugal, dada a pobreza em que vivemos (ocultada pelos fluxos de dinheiro europeus) era inútil, porquanto não temos para mandar cantar um cego.
O que não anula a ilicitude da posse.

22 de novembro de 2020 às 19:05  

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