26.4.05

Entes Queridos

Fui ao velório e funeral do familiar dum amigo meu. Descobri que há boas razões para a velha frase de humor negro “não me ria tanto desde a morte do meu pai”.
Os Portugueses estão a ficar divertidos nas ocasiões fúnebres, talvez porque esta seja uma das raras oportunidades para dizerem bem de alguém, por pouco tempo, tendo sempre à vista o desgosto no qual se podem refugiar, a qualquer momento.
Os assaltos são excelente desculpa para não haver velórios longos. Às nove e meia está tudo na rua a caminho dum bar ou de casa. O velório foi reduzido para algo entre as sete e as dez, mas com este bom tempo e os dias compridos, às oito já estamos despachados, “ obrigado, não se incomode mais, por amor de Deus, obrigado por ter vindo”.
Se não antecipamos a chegada ao cemitério, já lá não fomos para nada, pois é uma febre de enterra, enterra, que vem já outro a seguir. Aliás, nas sacristias e nas chegadas aos cemitérios tem de se ter muita atenção, pois pode muito bem acompanhar-se o funeral errado, se só conhecermos o falecido ou lá estivermos por amizade a um único familiar discreto daquele ente querido.Macacos me mordam se este não é um grande momento em Portugal para dois nichos de mercado: o das limusinas, champanhe, guardas-costas, tudo de aluguer – as pessoas adoram - e o da revista social, só funerais, papel “couché”, mas tudo a preto e branco. A “Caras” do adeus...Há freguesia para tudo. E neste ramo, há todos os dias...

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4 Comments:

Blogger Pólux said...

Sublimemente refinado. Gostei muito. Não só deste texto como dos restantes da tríade.

Já agora, e ainda a propósito de velórios, trago aqui um bem sucedido para o velado (que tive o prazer de conhecer), na ilha descoberta por Pedro Escobar e João de Santarém.

O homem que assistiu ao seu velório

Roça Porto Real, Ilha do Príncipe, a meio de um domingo abafadiço e tempestuoso de Dezembro.

Manhã alta, abateu-se sobre a roça uma forte chuvada equatorial, acompanhada de intensa e ininterrupta trovoada, como é costumeiro naquele mês em todo o arquipélago. Fortes rajadas de vento e chuva açoitam as casas, as pessoas e as árvores. Dentre estas destacam-se meia dúzia de palmeiras em leque na azáfama de refrescarem os céus na sua qualidade de eternas abanadoras. Da terra quente e amolecida evolam-se cálidos vapores que se misturam com as emanações provenientes dos secadores de cacau, café e copra, impregnando a atmosfera electrizada de uma mescla inebriante de aromas agridoces e quentes.

Na pequena e alva capelinha da roça vela-se um morto. É o Pedro, figura carismática da Ilha. O rosto do defunto, lívido e sereno, vincado por enormes rugas e encimado por escassa cabeleira grisalha, dá-lhe o ar tranquilo de quem cumprira na Terra a humilde missão com que a mãe natura presenteia os simples: viver em paz para consigo e para com os outros.

Pedro ultrapassara há muito os oitenta anos. Negro descendente dos antigos escravos levados à força de Angola para S. Tomé e Príncipe pelos colonizadores portugueses, este octogenário era uma autêntica biblioteca de lendas e feitiços da África misteriosa. Dizia-se descendente de reis, e afirmava que os Portugueses, de quem por vezes dizia gostar, se enganaram ao trazer do outro lado do mar para S. Tomé, como escravo, um rei seu avoengo.

Diariamente, era vê-lo a caminhar pelos tortuosos e sombrios atalhos da floresta, para encurtar a meia dúzia de quilómetros que mediavam entre a roça e a cidade de “Santintoino”, como Pedro chamava à minúscula cidade de Santo António do Príncipe.

Seu Pedro tinha um terrível vício: não podia ver vinho ou cachaça à sua frente. A coisa acabava sempre da mesma maneira. Ou ele embocava no vinho ou na cachaça, ou estes desembocavam nele.

Já perdido de bêbado, falava horas a fio da sua Mãe e trauteava as cantigas que ela lhe ensinara em criança e recontava as histórias que aprendera em menino. Depois, apoiado na sua bengala, regressava pelo mesmo caminho, aos trambolhões pelo mato dentro, em demanda da roça. Quem por ele passasse, ouvia-o recontando a si mesmo e pela enésima vez, um arremedo da história da “Bengala Mágica e do senhor Tartaruga”.

Mas voltemos ao velório.

Eram mais de uma centena os acompanhantes, dos quais pouco mais que duas dezenas conseguiram acomodar-se na capelinha. A maioria abrigou-se debaixo dos telheiros de zinco dos secadores de cacau das proximidades, ao lado da secular e gigantesca mafumeira, a cuja sombra os trabalhadores se acolhiam para conversar e beber nos domingos e outros raros momentos de descanso, evitando assim que os raios inclementes do Sol do Equador queimassem ainda mais a já tão crestada pele dos seus musculosos corpos de bronze.

Ali perto, por entre o ribombar dos trovões, ouvia-se a vibração profunda e monótona de um tambor, dando a conhecer a triste nova aos habitantes das imediações. O eco dolente do instrumento de percussão, devolvido pelas escarpas do fronteiro Pico do Papagaio, onde a fúria dos raios se descarregava sobre árvores e penhascos, confundia-se com a mensagem longínqua e dolorosa dada pelos tambores da vizinhança.

Várias carpideiras trajando negras capulanas faziam ouvir os seus gritos lancinantes, chorando sentidamente o amigo e contador de histórias e de lendas, enquanto os homens, de semblante triste, conversavam em voz alta e embebiam-se em aguardente. No ar, um pivete a álcool afastava os pernilongos da malária que, apesar da sua hora de ataque ser lá mais para a tardinha, zumbiam próximo, atraídos pelo cheiro quente do suor dos corpos, por confundirem provavelmente o crepúsculo com a obscuridade provocada pela tempestade do meio-dia.

O vento quente e húmido, acompanhado de alguns pingos de chuva, entrava inclemente pelos respiradouros superiores da capelinha, enfunando paramentos e cortinas, e fazendo bater porta e janelas, enquanto trovões pavorosos faziam estremecer a terra. Por seu lado, o som grosso e metálico da chuva fustigava de forma infernal os vidros das janelas e os telhados de zinco próximos, aliando-se ao choro agudo e cortante das pranteadeiras. Dir-se-ia que a natureza, que por certo teria as suas razões, mostrava uma inusitada indignação pelo passamento de um dos seus mais humildes constituintes.

Mas eis que de forma súbita e inesperada, a natureza concede tréguas, cessando a chuva, o vento e a trovoada. São assim os tornados que assolam aquela zona de África. Acto contínuo, ouve-se um sucessivo pigarrear procedente da zona do caixão aberto, enquanto o “morto”, de olhos esbugalhados e agora sanguinolentos, tenta erguer-se e sentar-se no interior do ataúde. Não o consegue, o esquife balança, desequilibra-se e acabam por cair ambos com fragor no chão de cimento e ocre vermelho da capela.

As carpideiras e os restantes acompanhantes que se encontravam na igrejinha – ah pernas para que vos quero! – Saíram de supetão e em altos gritos de terror, e nem pararam junto dos que estavam sob os telheiros contíguos à capela, a conversar e a beberricar. Desapareceram por detrás das palmeiras e bananeiras que bordejam o terreiro da roça. Os do exterior, sem saber do que se tratava, petrificados, nem se mexeram. Até que o Pedro, que continuava com os olhos arregalados e tumefactos, apareceu à porta da capela. Nesse momento, aconteceu o esperado. Todos os circunstantes bateram à sola, desaparecendo num ápice pelo mesmo caminho trilhado pelas carpideiras.

E seu Pedro, muito calmamente, voltando ao interior da igrejinha, apanhou do chão a sua inseparável bengala, que mão caridosa, ou antes supersticiosa, colocara dentro do féretro para o morto se apoiar no outro Mundo, e saiu da ermida, dirigindo-se calmamente para o seu humilde casebre.

Escusado será dizer que nessa noite ninguém dormiu. Depois de, a medo, todos os acompanhantes, ou melhor, todos os fugintes terem regressado ao terreiro e confirmado, pelo administrador da roça, que Pedro estava realmente vivo e que não houvera macumba, decidiram fazer festa rija.

A aguardente de cacau fluía pelas gargantas sequiosas, o batuque, ritmado, repercutia-se pela floresta de jacas e cipós, enquanto o eco era devolvido pelas encostas abruptas do Pico do Papagaio, como se lá estivesse instalado outro grupo de batuqueiros. Os trabalhadores cabo-verdianos ajudavam à festa, ensaiando mornas com a ajuda dos seus banjos e guitarras. Estava todo o mundo em festa, e a cada momento iam chegando gentes de outras roças. Toda a gente comia, bebia e dançava, pois o caso não era para menos.

No dia seguinte, foi solicitada na roça a presença do delegado de saúde e médico para toda a Ilha, o qual não pudera na devida altura pronunciar-se sobre as causas do “óbito” do Pedro, por ter ficado retido em S. Tomé, dado que o avião da carreira entre as duas ilhas não pôde descolar devido ao tornado.

O veredicto do médico foi que seu Pedro se encharcara tanto em vinho e cachaça, que entrou em estado de coma profundo e hipotérmico. Como ficou hirto e frio desde a noite de sexta-feira, o enfermeiro do hospital, na ausência do delegado de saúde, arriscou declarar não restarem dúvidas de que Pedro estava morto.

O Pedro contador de histórias e de mitos recheados de macumba, morreu alguns anos depois, já perto dos noventa anos.
Pedro Couto

27 de abril de 2005 às 09:04  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Caro Pedro,

A história que conta é deliciosa.
Obrigado, parabéns e um abraço
do
CMR

27 de abril de 2005 às 09:49  
Blogger Joaquim Letria said...

Bela história e que bela descrição.Obrigado pelo seu comentário e, principalmente , pela narrativa que muito enriquece este blog.
JL

27 de abril de 2005 às 11:14  
Blogger Pólux said...

Agradeço a Carlos Medina Ribeiro e a Joaquim Letria a gentileza e amabilidade que ressaltam dos seus comentários ao meu escrito.
Pedro Couto

27 de abril de 2005 às 22:59  

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