24.1.06

A propósito de um herói anónimo

CLARO que estas situações são mais-do-que-dramáticas, mas isso não impede que refira aqui o que relatava o saudoso «Diário de Lisboa» depois de entrevistar um homem que salvou muitos que se queriam lançar do Viaduto Duarte Pacheco: tendo pouco que fazer, ele costumava andar por ali, de um lado para o outro... e às vezes deparava com suicidas que de imediato tentava salvar.
Garantia ele que «já os topava»... Aproximava-se então o mais que podia e, quando conseguia conversar com eles, lá arranjava artes de evitar o pior - pelo menos ali e nesse dia... Ficavam-lhe sempre muito gratos e, frequentemente, até lhe pagavam (com) um copo!
No entanto, a cena mais espantosa passou-se com um desesperado que já estava suspenso pelos dedos quando o benemérito chegou e o puxou com força.
Assim que se viu salvo, o outro virou-lhe as costas; e, enquanto se afastava, ia esfregando o braço e resmungando:
-Arre, que me aleijou!

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Tenho uma vaga ideia de ter lido isso que aqui conta, já há muito tempo. O CMR tem um GRANDE arquivo e/ou uma GRANDE memória!!

R.S.Neto

24 de janeiro de 2006 às 18:11  
Anonymous Anónimo said...

Isto lembra-me uma história que se passou em familia. Uma prima minha, ainda muito pequena, engasgou-se com um rebuçado e estava a ficar roxa, até que o meu pai resolveu retirar-lhe o rebuçado metendo o dedo em forma de gancho na garganta e retirou-lhe o rebuçado. A primeira coisa que a minha prima disse: "Magoaste-me!", toda zangada!

24 de janeiro de 2006 às 19:08  
Anonymous Anónimo said...

o mais engraçado é pensar: será que se "salva" alguém do suicidio?
porque se o objectivo de alguém é a morte, e alguém o priva de alcançar o seu fim, será que a seus olhos está a ser "salvo"? ou estarão apenas a prolongar-lhe a angústia?
é uma boa questão, mas admito que não conheço a(s) resposta(s)...

24 de janeiro de 2006 às 23:54  
Anonymous Anónimo said...

No caso relatado, o suposto suicida que resmunga com quem o salva é porque na altura em que tomou a iniciativa de saltar estava, se é que se pode descrever desta forma, completamente embriegado com a ideia de por termo à vida. A partir do momento que alguém, ou neste caso, o dito homem o salva, ele fica revoltado por não ter atingido o seu fim e o seu instinto é "descarregar" sobre quem não o deixou concluir "algo" a que ele se tinha comprometido fazer, consigo mesmo. Não sei se estarei a ser muito explicito, mas acho que dará para compreender o que quero dizer.

25 de janeiro de 2006 às 09:32  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

De facto, não sei se se poderá dizer "salvar" um suicida.
No entanto, o que me dizem é que, quando alguém é salvo in-extremis fica (pelo menos na altura...) satisfeito.

Quando alguém salta de um ponte e vai a meio da queda, se tiver um pára-quedas... abre-o.

Possivelmente, é a "amigdala" (um órgão responsável pelas acuações mais primitivas)que toma conta do cérebro e acciona o instinto de sobrevivência, sobrepondo-se ao desíginio consciente oposto.

25 de janeiro de 2006 às 09:46  

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