11.3.11

Sobressalto

Por João Paulo Guerra

O “DIREITO à indignação” pregado por Mário Soares contra um governo do PSD, em 23 de Setembro de 1994, do alto da crise da Ponte 25 de Abril, leva resposta devolvida ao remetente pelo destinatário de então, o professor Cavaco Silva. O correio laranja levou 18 anos a entregar a resposta, registada sob a designação de "sobressalto cívico".
Percebe-se a ideia, mas a expressão é dúbia. "Sobressalto" é um termo que tem um conteúdo de susto, de imprevisto, de improviso e de surpresa que provavelmente não estão no espírito do autor do rifão. E "sobressalto cívico" contém em si algum contra-senso. Será um acometimento civil, uma surpresa patriótica, um improviso de cidadania. Mas, como disse, entende-se a ideia. Quer dizer que se acabou a cooperação e vem aí a confusão institucional, mais ainda com apelo à participação civil, ao povo, às vozes da rua. À ‘outrance' como dizem os franceses, a invocação do "sobressalto cívico" neste preciso momento significaria um convite à participação nas manifestações dos precários, sábado que vem, tal como Mário Soares, em Setembro de 1994, se colocava ao lado dos manifestantes do buzinão.
Agora, porém, o protesto é bem mais generalizado. Também há novas portagens a pagar, mas há sobretudo desemprego e emprego precário, cortes salariais e saque fiscal, extinção de direitos e pensões reduzidas, empobrecimento e desespero. E há um grande sentido da injustiça e da desigualdade que grassam, pano de fundo onde cai muito bem a palavra de ordem proclamada do alto do poder para a cabeça da manifestação: "há limites para os sacrifícios".
Não tivesse toda a política governamental o ámen de Belém e estava encontrada uma alternativa de poder. Assim só está descoberto o caminho do sobressalto.
«DE» de 11 Mar 11

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2 Comments:

Blogger GMaciel said...

o cómico da situação, se rir fosse possível, é que Cavaco, o pai do despautério em que Portugal se tornou, ocupou o espaço discursivo da esquerda.

Simplificando e visto pelos olhos de quem a canga pesa já demais e anda farto de conversas da treta (ou seja, o povo na sua generalidade): Cavaco fez eco da opinião de muito português, enquanto a esquerda vai fazendo eco de canções.

Infelizmente, Cavaco 1 - esquerda 0

11 de março de 2011 às 14:55  
Blogger António Viriato said...

Confiemos em que a era dos róseos socialistas esteja prestes a terminar.

Alguns já terão mesmo entrado em sobressalto, mas ainda porventura durarão mais algum tempo, não muito, queira-o o Deus, que, como sói dizer-se, demora mas não falta.

Soares e a sua apregoada estima do «direito à indiganação» poderiam agora manifestar-se, não tivesse o aludido apelo sido mais do que uma encenada manobra destes inefáveis «socialistas» tão do gosto dos actuais bem pensantes e bem instalados da bem vasta rósea família.

Parece finalmente estar a soar a hora da encantadora despedida...

Assim seja.

14 de março de 2011 às 01:59  

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