10.9.11

A macacada

Por Antunes Ferreira

OS NOSSOS ancestrais bíblicos estão cada vez mais descredibilizados. O casal que foi alegadamente expulso do Paraíso terreal pelo Deus omnipotente e omnipresente, que desde o princípio era o Verbo, entrou em derrapagem total, caiu no plano inclinado, não devido à insinuosa mas perigosa serpente, muito menos da maçã, meio utilizado para o pecado original ter homiziado Adão e Eva.

Já não bastava ter aparecido um tal Darwin a defender que os homens (e, naturalmente, as mulheres) descendiam dos macacos (e, obviamente das macacas); outros apóstatas se lhe seguiram, ajudando a dar como falsa a teoria do livro do Velho Testamento. Perdeu-se o respeito, a consideração, a estima pelas páginas que ensinavam que o tal Deus criara o homem à sua semelhança e, by the way, fabricara a mãe Eva a partir de uma costela do pai Adão.

De provocação em provocação, cientistas de renome, em especial os arqueólogos antropólogos, vá de desencantar ossos das mais diversas dimensões e feitios, em cata dos seres que eram realmente os avoengos desta gente que nós somos. E, acredite-se ou não, provocaram uma verdadeira revolução, sobretudo a partir do momento em começaram a tentar descobrir a altura mais ou menos precisa em que os símios passaram a hominídeos, ainda sem usar gravata, muito menos Ipads.
Estava-se nisto quando a revista Science de anteontem publicou um artigo naturalmente científico em que era dada ao Mundo a novidade de que o possível ancestral do género homo era o Australopithecus sediba, sujeito que se balançava nas árvores como um chimpanzé, mas tinha dedos longos e hábeis para fabricar ferramentas, além de pés híbridos para caminhar erecto.

Até agora, acreditava-se que o primeiro fabricante de tais apetrechos fosse o Homo habilis. Os estudos de 21 ossos de mão fossilizados encontrados na Tanzânia, que datam de 1,75 milhão de anos atrás, a isso tinham levado. No entanto – as adversativas são lixadas - um exame mais pormenorizado de dois esqueletos parciais fossilizados do citado Australopithecus sediba descobertos na África do Sul em 2008, sugerem que estas criaturas, que habitavam o planeta há 1,9 milhão de anos, elaboravam ferramentas e… quiçá até mesmo antes.
Após analisar a mão mais completa encontrada até agora, os especialistas concluíram que o Australopithecus sediba tinha um polegar extra-longo e dedos fortes, que teria usado para fabricar ferramentas, apesar de ainda ter um cérebro pequeno, similar ao do macaco. E não vale a pena sublinhar que se tratava de uma fêmea, porque as defensoras da igualdade plena ainda me levavam al paredón.

Pelos vistos, o Sr. Charles Robert Darwin não errara muito quando em meados do século XIX convenceu a comunidade científica da ocorrência da evolução e enunciou a teoria para explicar como ela se dá por meio da selecção natural e sexual. Pelo naturalista britânico fora dada a primeira grande machadada no casal pecador. Agora, os paleoantropólogos até já falam em fermentação evolutiva. A Lucy foi destronada.

Está-se, assim, perante o exemplo mais gritante do que é a cena com milhões de anos que preparou a famosa macacada protagonizada pelos seres humanos.

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1 Comments:

Blogger José Batista said...

Calma, Antunes Ferreira, calma. O que ensino aos meus alunos não é propriamente que Darwin tenha defendido que "os homens descendiam dos macacos", mas antes que homens e macacos descendem de ancestrais comuns. O que não é exactamente a mesma coisa...
Os macacos actuais também são um produto (aleatório...) da evolução.
Já o casal bíblico Adão e Eva só poderia entender-se simbolicamente. Se não fosse assim, a Igreja teria que admitir que a multiplicação dos seres humanos, a partir do casal inicial, exigiria o acasalamento entre irmãos e irmãs e/ou ou entre pai e filhas e/ou entre a mãe e os filhos (machos). O que colocaria problemas terríveis à genealogia bíblica e descrições correlativas... Este é um modo de abordagem que também costumo aplicar com os meus alunos...
Quanto às descobertas paleontológicas, elas estão na origem de teorias que fazem destronar outras teorias, e que hão-de durar até serem também reformuladas ou substituídas. É o caminho da ciência na procura da verdade, que, sobre qualquer assunto,não temos a certeza de alcançar. O que não diminui, e muito menos põe em causa o valor da ciência. Donde, a ciência não precisa nada, nem ganharia, em ter como objectivo provocar a Santa Madre Igreja ou outra instituição qualquer...
Julgo.

10 de setembro de 2011 às 10:40  

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