23.9.17

T U C –T U C S

Por Joaquim Letria
Pode ser que me engane, mas Lisboa está a ficar uma perigosa mistura. Hoje é um terço do pior de Bombaim, com um terço do mau de Bangkok e outro terço do caos de Phnom Penh. E com uma séria agravante: a dos políticos locais apregoarem aos quatro ventos que em todo o Mundo nos acham fantásticos e que Lisboa está na moda.
Se hoje precisássemos dum emblema para Lisboa ele seria, sem sombra de dúvida, um tuc-tuc. Claro que os políticos nunca andaram de triciclo aberto e motorizado, e preferem referir-se àqueles eléctricos articulados e suburbanos como “metro de superfície”, uma espécie reduzida do “metro do Porto”. Mas gabam os tuc-tucs como sendo “um enorme sucesso”.
No fado antigo Lisboa “cheirava a Lisboa” e era “menina e moça”. Agora cheira a perfume do chinês e parece uma velha gaiteira com tendência para piorar, como aquelas velhas que querem parecer que têm 14 anos de idade. Verdade que Lisboa abarrota de turistas, que estes parecem ter descoberto a civilização do Ramsés e que gostam do que fazem e do que vêem.
Mas é importante reconhecer a realidade: Lisboa deve ser hoje a cidade mais barata da Europa, os portugueses são simpáticos e, por um bambúrrio de sorte é uma das poucas capitais europeias sem terrorismo e, certamente, é a única que oferece passeios de tuc-tuc e excursões de “hyppobus”, aquela geringonça anfíbia que sai da estrada e entra no rio para gáudio dos turistas que nele viajam de câmaras e telemóveis em riste, soltando ruidosos “uaus”.
Adoro Bombaim, Bangkok e Phnom Penh e não dispenso passar por elas sempre que vou a Seoul, Saigão ou Hanói. Mas encontrar só o pior que estas cidades têm, logo ao virar da esquina e falado em português, irrita-me solenemente.
Também não há dúvida que a oferta cultural de Lisboa é hoje muito variada e completa, na música, no teatro, nos museus, nas galerias de arte e na gastronomia. Mas isso é mérito de todos aqueles que, como os surfistas, procuram aproveitar esta onda e fazer pela vida, honra lhes seja!
O perigo maior é a parolice dos políticos de Lisboa pegar de estaca e eles conseguirem intrometer-se no turismo do Alto Minho. Se isso acontecer, corremos o risco de ver os minhotos obrigados a organizar passeios de carros de bois e a alugar burros para animadas burricadas, invadidos  por italianos, belgas e franceses em pelo, de malga de vinho verde em punho, a gritarem de satisfação nas novas praias naturistas! Que Deus nos proteja!
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Publicado no Minho Digital

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