27.7.20

Deixei, ontem, passar o que, para mim, deveria ser o DIA DE PORTUGAL, o dia do começo da portugalidade.

Foto de Bruno Januário
Por A. M. Galopim de Carvalho
Reza a história que no dia 25 de Julho de 1139, fez ontem, precisamente, 891 anos, D. Afonso Henriques e os homens de armas que o acompanharam desbarataram os sarracenos na batalha de Ourique, sendo esse o dia em que nasceu Portugal. Curiosamente esse é também o dia do nascimento (25 de Julho de 1109) deste que foi o nosso primeiro rei que recordo na conversa ficcionada que tive com ele, no castelo de Lisboa.
(in “Conversas com os Reis de Portugal – Histórias da Terra e dos Homens”, Âncora Editora, 2013)

— Na tomada deste castelo, em 1147, contei com a preciosa ajuda de uma armada da 2ª Cruzada, em trânsito para o Médio Oriente, constituída por ingleses, normandos, alemães e flamengos. A conquista de Lisboa aos mouros era fundamental ao meu reconhecimento como rei, por parte do papa Inocêncio II. Assim, convenci os chefes militares desta armada de que era tão importante libertar a Península do domínio islâmico como fazê-lo na Terra Santa. Prometi terras aos que desejassem fixar-se aqui. Autorizei-os a saquear o que quisessem e pudessem e a levar os cativos que entendessem. A mim, o que mais me interessava era o domínio da cidade. Os sitiados não resistiram ao cerco que lhes fizemos e a praça acabou por cair nas mãos dos cristãos.

— Na História que se ensinava entre nós, foi Martim Moniz que, atravessando-se na porta do castelo, permitiu que os camaradas de armas pudessem transpô-la, atitude de coragem e abnegação, que lhe custou a vida. Foi mesmo isso que aconteceu ao nobre cavaleiro? – perguntei com respeito. – Faço esta pergunta porque há quem diga que o desgraçado foi empurrado.

— Eu não presenciei nem tive conhecimento de qualquer situação que testemunhe esse eventual feito. Trata-se, certamente, de um episódio inventado ou não, narrado pela tradição popular, a que Alexandre Herculano deu o valor de uma lenda. São vários os episódios lendários, com esse cariz nacionalista, aproveitados pelos “fabricantes da história oficial do Estado Novo”, como escreveu o historiador e jornalista João Ferreira, visando estimular o fervor patriótico das nossas crianças, a partir dos bancos da escola. A narrativa mais plausível é a do Cruzado Osberno. Disse ele que a rendição do castelo ocorreu no seguimento do assalto feito com uma torre móvel.

Ao olhar a paisagem, o monarca comentou, aparentemente interessado em mudar de assunto:

— Não há comparação entre as serranias verdejantes que temos aqui, no Minho, e as planuras, tantas vezes, ressequidas, do Sul do país.

— É verdade, mas ficai sabendo que serranias assim, e até mais alterosas, também as houve por lá. Acontece, porém, que a erosão, ao longo de milhões de anos, reduziu-as àquelas planuras que nos permitem o ver ao longe que temos no Alentejo. A ciência dos dias de hoje, nomeadamente, aquela que dá pelo nome de Geologia, possibilita a compreensão das transformações das paisagens no decurso do tempo e esse tempo, sabemo-lo desde finais do século XVIII, mede-se por milhões e milhões de anos, nada comparável aos seis mil anos de idade da Terra que então vos era ensinado e imposto pela Sagrada Escritura.

— Sou muito velho, sabes. Sobre mim já passaram quase novecentos anos, dos quais apenas setenta e seis como habitante deste planeta, entre os vivos do século XII. Os restantes, mais de oito séculos, percorri-os como esta espécie de fantasma que tens a teu lado, com todas as capacidades que a ficção consente. Assisti, sem qualquer possibilidade de intervenção, ao desenrolar da sociedade, desde os eventos mais simples e visíveis aos mais complexos e reservados. Presenciei, impotente, os acontecimentos que determinaram o curso da História. Sem que ninguém me veja, assisto a uma reunião de governantes, por mais sigiliosa que ela seja. Presencio as conversas envolvendo, muitas vezes, assuntos de segurança do Estado. Sei o que dizem e fazem os homens e mulheres das espionagens e contra-espionagens, e entro na intimidade de qualquer pessoa ou família, mas é um saber que fica só para mim. Percorro bibliotecas e museus, e consulto os livros e os documentos que quiser. Conheço todos os esquemas de corrupção e de enriquecimento ilícito que estiveram e estão na base de muitas fortunas, mas não tenho qualquer capacidade de intervenção. Sei como subiram na vida muitos ilustres cidadãos deste País.

— Nós suspeitamos, mas nunca se prova nada.

Posso entrar nos arquivos de tribunais, ministérios, polícias e serviços secretos e observar tudo o que entender. Faço-o a qualquer hora, sem ter de pedir licença. Não preciso de luzes acesas nem de chaves para abrir portas, armários, cofres ou gavetas. Nas Universidades de todo o mundo frequentei e frequento, a meu belo prazer, as lições dos grandes mestres, qualquer que seja a língua falada, actualizando constantemente os meus conhecimentos. Nesta minha condição de morto-vivo, que agora só tu vês e ouves, tenho, mesmo, o dom da ubiquidade. Posso estar aqui e ali, ao mesmo tempo.

— Isso dá-vos uma sabedoria e um poder imensos. – Comentei, entusiasmado com aquela perspectiva de conhecer mais do que a escola e o liceu me haviam ensinado.

— De facto, assim é, mas isso não serve a ninguém. Na realidade, não existo. – Contrapôs el-rei, em tom de certa resignação.

— É pena. – comentei.

— Acompanhei a evolução da nossa língua, desde o dialecto romance, ao português que actualmente se fala e escreve. Assisti, impotente à feitura e à aprovação desse aborto que é o novo acordo ortográfico.

— São muitos os portugueses ilustres e mestres da língua portuguesa que, em vão, tentaram impedir esta imbecilidade de quem o concebeu e dos políticos que o aprovaram. 

— Mas, perdoe a minha ignorância, D. Afonso, diga-me o que é o dialecto romance. 

— É uma espécie de neo-latim a partir do qual evoluíram o português, o galego, o catalão e o castelhano. Enquanto criatura viva não fui homem de muitas letras, embora a minha educação tivesse estado a cargo de um ilustre e muito instruído rico-homem, de seu nome Egas Moniz. Só depois de me libertar da vida terrena, comecei a interessar-me, verdadeiramente, pelas coisas do saber.

— Esse dialecto era o que então se falava e escrevia no noroeste da Península Ibérica?

— Era exactamente o que eu falava, mas não escrevia, simplesmente, porque, no meu tempo, ler e escrever era arte de muitíssimo poucos. Conquistar terras a Leão e Castela e, sobretudo, aos sarracenos foi o lema da minha vida. Não foi por acaso que fiquei para a História como “O Conquistador”. E uma vez que alcancei a independência do meu reino, sou lembrado como o fundador da nacionalidade.

— No meu tempo de escola – interrompi – isso era ensinado logo na primária. Mas falai-me desse homem que sempre me despertou grande curiosidade, talvez devido àquele episódio da ida a Toledo, à presença de D. Afonso VII, acompanhado da mulher e dos filhos, descalços e de corda ao pescoço. Ensinaram-me que, com esse gesto, Egas Moniz visou apresentar-se ao rei de Leão e Castela como penhor do juramento de fidelidade e vassalagem que fizera em vosso nome, na sequência do cerco a Guimarães, e que vós não haveis honrado.

— Bom, como é que eu hei-de explicar? – Começou o monarca, procurando as melhores palavras. – Devo dizer que, nesse tempo, o Condado Portucalense era uma dependência do reino de Leão. No que se refere ao episódio do meu aio, de corda ao pescoço, isso é o que se diz. Eu não estive presente e, em rigor, não posso confirmá-lo. Nessa altura vivíamos em Coimbra. Como deves imaginar, uma viagem de ida e volta entre as capitais dos dois reinos, com os meios de transporte desses anos, não era empresa fácil e necessitava de muito tempo. Não havia a rapidez de comunicações que caracteriza a sociedade do desenvolvimento que é a vossa. No Portugal de hoje, um ministro faz um gesto feio, na Assembleia da República, levando os dedos à testa, como que a chamar cornudo a um deputado, e, meia hora depois, corre o mundo no YouTube e nas televisões de todos os países.

— Convenhamos que sim. — Anuí, curioso de ouvir o fim daquela dissertação do primeiro rei de Portugal.

— Acontece que, em boa verdade, o episódio alegadamente atribuído ao meu aio, não é sustentado por documentos com valor histórico. É mais uma lenda, mas esta com um final feliz. Comovido por tamanha prova de honradez, conta-se que o meu primo, então autoimposto imperador de Leão e Castela, lhe concedeu perdão e o mandou em paz, de regresso a casa. Devo acrescentar que Egas Moniz era membro de uma das mais distintas famílias da nobreza de Portucale.

— Portucale era, afinal o Condado Portucalense?!

— Sim, esse território do noroeste da Hispânia, embrião do Portugal que fundei, situava-se na antiga província romana de Galécia e tinha por capital Bracara Augusta, a grande cidade de Braga dos dias de hoje. Este território, como deves saber, foi um reino dos suevos, povo germânico antigo, vindo da região de entre os rios Elba e Oder, na Alemanha, e que aqui se instalou nos séculos V e VI, na sequência das chamadas invasões bárbaras, sendo que se dava o nome de bárbaros aos povos estrangeiros ao império romano.

— E, evidentemente, o termo Portucale está na base do nome do nosso País. 

— Portucale radica no latim “portus”, que significa porto, e em “Cale” ou “Gale”, antigo nome de Vila Nova de Gaia.

— A certa altura abandonastes Guimarães?!

— Sim, já homem feito. Aos 22 anos transferi-me para Coimbra, cidade que elevei à condição de capital do que viria a ser o meu reino.

— Mas essa decisão tem a ver com as difíceis relações com a vossa mãe e com Fernão Peres de Trava?!

— As desavenças com minha mãe começaram cedo, tinha eu 11 a 12 anos, por incitamento do Bispo D. Paio Mendes. Minha mãe tinha uma relação muito próxima com o partido dos Trava, interessados em anexar o condado que herdei de meu pai, no que tinha a franca oposição deste prelado. Em resultado desta oposição, D. Paio Mendes afastou-se para a Galiza, levando-me consigo. Foi nessa altura, ainda criança, que fui armado cavaleiro.

— A certa altura aparece na história um vosso primo.

— Acontece que por morte de minha tia, Dona Urraca, irmã de minha mãe, sucedeu-lhe o filho, D. Afonso VII, que pretendeu impor o seu poder a toda a Hispânia não ocupada pelo Islão. Autointitulou-se imperador, com poderes sobre o condado de meu pai, impondo que lhe prestasse vassalagem. Eu recusei essa dependência e ele cercou Guimarães. Foi então que o meu devotado aio e alferes-mor, sem o meu consentimento, lhe prometeu a minha lealdade como vassalo. Lealdade que, como seria de esperar, não cumpri minimamente. Foi esta minha rebeldia que, como já referi, levou Egas Moniz àquela nobre atitude de que tanto se fala.

— Mas as dissidências com a vossa mãe continuaram?! 

— Em 1128, data que não esqueço, os exércitos às ordens de minha mãe e de Fernão Peres de Trava combateram contra as minhas tropas nos campos de São Mamede, aqui, nos arredores desta cidade e, felizmente para o futuro Portugal, foram vencidos.

— Foi a partir de então que assumistes o governo do condado?

— É verdade. A minha estratégia passou a ser negociar com o papa a autonomia da nossa Igreja e o reconhecimento do condado como reino. Mais de uma década volvida, em 1139, venci os sarracenos no confronto militar que a História imortalizou com o nome de Batalha de Ourique. 

— Diz-se que não foi em Ourique do Baixo Alentejo.

— Não. Não foi aí, mas a verdade é que já não me lembro onde foi travada, tantas foram a pelejas em que me envolvi. Tenho uma ideia que foi próximo de Lisboa, mas já não sei em que sítio. Não me lembro da identidade dos infiéis contra os quais lutei. Só sei que os desbaratei. Sei também que essa vitória, que teve grande repercussão na Europa cristã, foi decisiva para os meus propósitos. 

— E foi mesmo essa vitória que abriu as portas ao reino de Portugal.

— Isso é verdade. De imediato, autoproclamei-me rei dos portugueses, tendo recebido a coroa das mãos do arcebispo de Braga, D. João Peculiar. Muito antes de ser confirmado pelo papa, eu já era, de facto, o detentor do poder militar e político de Portugal.

— No tempo de escola do meu avô e do meu pai falava-se do Milagre de Ourique.

— Essa foi uma história inteiramente forjada pelos monges do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no século XV, durante a guerra de D. João I com Castela, e que resistiu ao tempo como uma lenda.

— Diz essa lenda que, na véspera da batalha, Jesus vos apareceu.

— Há diferentes versões com o mesmo tema central. Nós, portugueses e cristãos, era em nome de Cristo que combatíamos os infiéis. Portanto, éramos aliados na mesma luta e, assim, houve quem se lembrasse de dizer que o filho de Deus entendeu interceder a nosso favor. Uma das versões reza que, a meio da noite, um raio de luz me mostrou Jesus crucificado que me disse que eu iria vencer essa batalha e muitas outras. No século XIX, Alexandre Herculano, contra a oposição cerrada de alguns conservadores, denunciou esta mistificação. Mais tarde, os já citados “fabricantes da história oficial do Estado Novo” introduziram-na nos livros escolares. A batalha de Ourique e o milagre que lhe foi associado criaram uma ideia mítica sobre a origem de Portugal e sobre a transcendência da minha missão com o rei fundador do país que vos leguei.

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1 Comments:

Blogger 500 said...

Que boa descrição de uma história da História de Portugal!
Apreciei que o Afonso I não aprecie o AO90.

28 de julho de 2020 às 18:30  

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