17.9.07

O DALAI LAMA

Por Pedro Lomba
EM 1950, o regime de Mao Tsé-Tung invadiu o Tibete e transformou-o numa província chinesa. Não se sabe ao certo quantos tibetanos fugiram e continuam a fugir, nem quantos morreram em consequência da repressão que se seguiu. Alguns números cuja exactidão não garanto apontam para uma diáspora de algo como dois milhões de tibetanos e um total de 1,2 milhões de mortos. A política da China para o Tibete tem sido uma tentativa constante de assimilação da sua identidade cultural, religiosa e linguística. O Tibete é ainda o melhor exemplo de como o regime chinês não abandonou os pressupostos de homogeneização que criminosamente iniciou durante a Revolução Cultural.
Ao recusarem qualquer direito dos tibetanos à autonomia, a preocupação central do regime de Pequim foi sempre que o Tibete se afastasse da autoridade e influência do Dalai Lama, visto como um fanático religioso, um produto do Ocidente para desestabilizar a China e um inimigo do desenvolvimento das populações do Tibete. Sabendo que a religião pode servir para alimentar uma identidade nacional, a China tratou de promover o ateísmo no Tibete e, sempre que necessário, não hesitou em interferir na "soberania" religiosa do Dalai Lama, escolhendo directamente os sucessores da hierarquia do budismo lamaísta. Depois, empenhou-se em favorecer a imigração de chineses, com o objectivo declarado de fazer dos tibetanos uma minoria no seu próprio território e facilitar assim a assimilação.
Mas o que verdadeiramente inquieta Pequim é o "ocidentalismo" que acompanha o Dalai Lama e que a China vê como perigoso para o regime. Nas últimas décadas, o Dalai Lama afirmou-se como um líder espiritual dentro do Ocidente, em parte graças ao seu pacifismo e à sua filosofia de meditação que não diferem, à superfície, do pacifismo e das inúmeras correntes de espiritualidade que proliferam no nosso Ocidente deprimido e exausto. O mundo despojado e meditativo do Dalai Lama atrai muitos ocidentais, como se pode ver pela "adesão" ao budismo lamaísta, pelos restaurantes e pelas associações, pelos cursos disto e daquilo, pelos milhares de simpatizantes e curiosos. E é, de facto, o oposto do regime de obediência que a China impõe aos chineses.
Perante isto, não admira a insistência do Governo chinês para que Portugal recusasse uma recepção oficial ao Dalai Lama. A política da China para o Tibete também se explica pela sua recusa mais vasta de um Ocidente indisciplinado e individualista e pela sua resistência à modernização. Para a China, o Dalai Lama é um símbolo, mesmo involuntário, mesmo inexacto, de uma transformação a evitar. Infelizmente, ao decidir que devia prevalecer aqui real-politik, o Governo português mostrou que não percebeu isto.
«DN» de 13 de Setembro de 2007-[PH]

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4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

"O que diz ou não diz", o senhor Batista Bastos sobre a questão do Tibete?

17 de setembro de 2007 às 17:00  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Caro "anónimo",

Reencaminhei o seu comentário a Baptista-Bastos. No entanto, poderá colocar-lhe a questão directamente, escrevendo-lhe para b.bastos@netcabo.pt

17 de setembro de 2007 às 17:16  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Baptista-Bastos envia a seguinte resposta ao "anónimo" das 17h:

--


Digo ao «anónimo» correspondente que é uma vergonha para o País, não para o Executivo, que a não tem, para não aludir outras «ausências». E que é uma indecência a atitude dúplice do PCP. Mas convém também saber qual é o Tibete defendido pelo Dalai Lama: o antigo ou o «recauchutado»?

Obrigado por escrever.
Apreciaria melhor que assinasse.
Baptista-Bastos

17 de setembro de 2007 às 20:32  
Anonymous Anónimo said...

A ignorância manifestada por alguns jornalistas e outros comentadores da blogosfera em relação ao Tibete é realmente constrangedor, o caso presente do Pedro Lomba parece-me ser mais o do exercício da mentira e das meias verdades ou meias mentiras.

Para Pedro Lomba parece que a história do Tibete começou em 1950, para trás fica um longo vazio.
Tibete está ligado à China desde o século VI, sendo mais claro a partir do século XIII a subordinação do Tibete aos sucessivos governos da China, evidenciando-se na presença de representantes do poder central em Lhasa; na nomeação e julgamento de funcionários locais; no envio de tropas para defender as fronteiras e manter a ordem interna; na condução centralizada das relações exteriores; na imposição de leis, decretos e regulamentos; na realização de censos demográficos; na cobrança de tributos; na redefinição de órgãos e divisões administrativas internas. É importante ressaltar também que, desde o século XIII, nenhum país reconhece o Tibete como um Estado separado da China.
Outra prova da incorporação do Tibete à China é a participação de delegados tibetanos em órgãos executivos e legislativos do poder central, desde a dinastia Yuan.
Marco Pólo, nos seus escritos das viagens, refere o Tibete como uma província chinesa.
Diz Pedro Lomba;” Sabendo que a religião pode servir para alimentar uma identidade nacional, a China tratou de promover o ateísmo no Tibete”, esta afirmação é grosseira e caricata. Seria melhor o senhor Lomba ir estudar a história recente da China, porque o combate à religião e outros tipos de crendice não se verificou só no Tibete mas por toda a China durante a revolução cultural, pode-se apoiar ou criticar essa fase da história deste país, agora transformar estas acções como especialmente dirigidas a uma determinada região é pura grosseria.

Diz Lomba; “a China (…), não hesitou em interferir na “soberania” religiosa do Dalai Lama, escolhendo directamente os sucessores da hierarquia do budismo lamaísta”, novamente Lomba denota ignorância ou a prática da mentira descarada. Em meados do século XVIII, a corte Qing determinou que o sétimo Dalai-Lama assumisse a liderança do governo local do Tibete. Porque o Dalai-Lama e o Panchen-Erdeni acumulam funções religiosas e políticas, a escolha de seus sucessores passou a depender de confirmação final pelo governo central da China. A escolha e a entronização do actual Dalai-Lama foram confirmadas pelo governo nacionalista da República da China em 1940.

Pedro Lomba ignora ou omite que foi a Grã-bretanha quem em 1913 ocupou o Tibete, tentando impor à China o Tratado de Lhasa e a Convenção de Simla, que retiraram o controle efectivo da China sobre esse território.

Diz Pedro Lomba;” Mas o que verdadeiramente inquieta Pequim é o "ocidentalismo" que acompanha o Dalai Lama e que a China vê como perigoso para o regime. Nas últimas décadas, o Dalai Lama afirmou-se como um líder espiritual dentro do Ocidente, em parte graças ao seu pacifismo e à sua filosofia de meditação, ora vejamos alguns exemplos do pacifismo do Dalai:

“Durante o seu domínio, este e os anteriores «Dalai Lamas» transformaram o Tibete numa teocracia irracional, e durante mais de 500 anos impuseram ao povo tibetano (que obviamente nenhuma palavra tem a dizer sobre o assunto, muito menos votar), um Chefe de Estado, precisamente o «Dalai Lama», cuja «legitimidade» lhe advém de ser nada mais nada menos do que a «reencarnação» do «Dalai Lama» anterior.
E durante meio milénio, quem se atrevesse a contestar esta irracionalidade era perseguido e enclausurado, frequentemente por toda a vida.”

“A teocracia imposta no Tibete pelos sucessivos «reencarnados» chegava ao ponto de legislar e determinar ao povo a frequência, a forma e até as posições em que deviam ter relações sexuais, e tudo aquilo que deviam comer e a forma de o cozinhar.(…),se à hora do almoço um determinado monge com apetite decidisse entrar numa casa para comer, os seus habitantes, por muito pobres ou miseráveis que fossem, eram obrigados a prescindir da comida de toda a família e a entregá-la ao monge até ele estar perfeitamente saciado.”

“Os crimes mais severos, entre os quais se contava, por exemplo, o desrespeito de um camponês ao seu senhor feudal, o proprietário das terras onde trabalhava e a quem devia obediência incondicional e absoluta, ou a adoração de divindades proibidas e consideradas demoníacas, ou ainda a blasfémia contra as divindades "oficiais", eram punidos com o arrancar de um ou dos dois braços, ou de um ou de ambos os olhos, consoante a gravidade da ofensa.”

Quem quiser mais alguma coisa sobre a actividade deste simpáticos e pacíficos cidadãos pode ir a; http://rprecision.blogspot.com/2007/09/o-dalai-lama-ou-quando-uma-reputao-nos.html

Por fim e para determinadas pessoas cuja opinião prezo e que vejo embarcar neste embuste que é o Dalai Lama, aqui fica mais um exemplo da sua bondade:

“Há seis anos fazia parte de uma Associação de Amizade Portugal - Tibete e ajudei a preparar a primeira visita de Dalai Lama.
Existia alguma tensão entre aqueles, como eu, que estavam nessa Associação por razões de cidadania e de defesa dos direitos humanos e os que tinham uma visão religiosa da questão e do visitante. Nessa disputa verifiquei as minhas irremediáveis dificuldades com a lógica do multiculturalismo.
Na véspera da visita exibiram um filme de alguém que tinha ido a Dharmsala. Um excesso panegírico, como convinha, mas com uma cena que não mais esquecerei: as pessoas que visitavam Dalai Lama jorravam-se aos seus pés. Algumas até beijavam devotamente os ditos. Senti-me agoniado. Bem sei que a nossa ordem civilizacional é diferente mas um homem arrastando-se pelo chão é o mesmo em todo o lado.
Após a visita deixei a Associação.”

* Publicado no Correio da Manhã

18 de setembro de 2007 às 00:35  

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