22.6.10

Homenagens

Por João Paulo Guerra

NÃO HÁ RAZÃO para criticar o prof. Cavaco Silva por não ter estado presente no funeral do único Prémio Nobel da literatura portuguesa.
Nada mais falso que unanimidades de fachada e o chefe de Estado limitou-se a reafirmar, pela ausência, que não faz parte daquele mundo e que não se sente presidente de todas as manifestações da sociedade que engrandecem os portugueses. Aliás foi sob a chefia de Governo exercida por Cavaco Silva que um romance de Saramago foi censurado da lista dos candidatos portugueses ao Prémio Literário Europeu e ninguém poderá crer que uma decisão de tal responsabilidade tenha pertencido a um obscuro subsecretário de Estado cujo nome já ninguém recorda, ou a um secretário de Estado mais lembrado pelos pontapés na cultura que por outra coisa qualquer. (...)
Texto integral [aqui]

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6 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

De facto, Cavaco Silva não é pessoa muito dada a coisas da literatura, pelo que deve ter ficado grato ao destino por se poder 'baldar' a uma homenagem a Saramago.
Este, por sua vez (e esteja lá onde estiver...) também há-de ter ficado grato com a ausência...

Fica apenas por dizer um pormenor:

A chamada "Segunda-Figura-do-Estado", Jaime Gama, também andava pelos Açores, e também não apareceu.

Embora esteja abaixo de Cavaco na hierarquia do Estado, é só 'um degrauzinho' - mas dele quase não se falou...

22 de junho de 2010 às 13:27  
Blogger GMaciel said...

"Têm razão todos aqueles que desconfiam das homenagens"

E Saramago era um deles.


A ausência daqueles que por inerência de cargo deveriam estar presentes, apenas comprova a sua pequenez. Esta, a pequenez de quem se crê maior do que é, dá-nos a dimensão da nação que tais representantes escolhe.

22 de junho de 2010 às 17:46  
Blogger Elisa said...

Concordo inteiramente consigo Carlos Medina Ribeiro. E se por um lado Cavaco deveria estar presente, por outro seria duma hipocrisia gritante ter comparecido. Quanto a Jaime Gama, esse é bem capaz de vir a afirmar lamentar imenso não ter ido até porque fica bem no figurino! Agora Saramago é um herói até para aqueles que nem fazem a mínima ideia do que escrevia ou das suas opiniões políticas.
A hipocrisia impera!
E também acho que Saramago até agradeceria a ausência de Cavaco Silva.

22 de junho de 2010 às 20:08  
Blogger António Viriato said...

Discordo.
Faz parte da ideologia esquerdista dominante criticar e até exibir desprezo intelectual em relação a Cavaco Silva e ao mesmo tempo defender e incensar conhecidas vulgaridades tidas por bem-pensantes, invariavelmente do mesmo espectro político.

Custou-lhes a eleição de Cavaco Silva, em 2006. Quereriam talvez reeleger Mário Soares pela terceira vez Presidente da República ou, quem sabe, torná-lo Presidente vitalício, Catedrático da Presidência, ainda que para isso houvessem primeiro de ensandecer o Povo, para lá do imaginável.

Agora, sonham em eleger Alegre, reencarnado socialista, depois de desavindo com Soares, mas significativamente reconciliado com aquela também destacada figura do socialismo moderno, que tem nome de filósofo helénico, de quem ainda há alguns anos Alegre discordava politicamente de modo profundo, conforme afirmava em momentos de maior exaltação.

O ódio político é tal que nem deram pela falta de Gama, essa outra eminência socialista de peso, segunda figura hierárquica do Estado, nem, com tanto engulho, lograram lobrigar a figura do Presidente do PSD, lá no Alto de S. João, presente-ausente, como sempre permanecerá naquelas mentes sumamente perspicazes e comprovadamente generosas, como soem ser as das nosssas personalidades politicamente correctas.

A realidade, para esta gente, sempre foi um embaraço, porque só lhes costuma atrapalhar os escorreitos raciocínios previamente confeccionados e geralmente festejados, segundo a velha e boa doutrina, por algum tempo escondida, mas felizmente nunca esquecida, nem desaprendida.

Todavia, não desesperemos. Deus é paciente e compassivo e também para eles, afinal, criou o seu infinito Perdão, ao contrário do que entendia Saramago, bom escritor, até Mestre, na difícil arte narrativa, mas política e religiosamente equivocado. Paz à sua alma.

Saudações Cordiais, em especial para o amigo Medina, mas também para o cronista emérito JPGuerra.

22 de junho de 2010 às 21:44  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Réplica de João Paulo Guerra a alguns comentários:

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Não é qualquer ideologia ou complexo esquerdista que despreza intelectualmente Cavaco Silva. É o próprio que, desde os tempos de primeiro-ministro, exibe um arrogante desprezo pelo intelecto. Lembremo-nos do homem que se gabava de não ler jornais e que nem se dava ao cuidado de saber quantos cantos têm os Lusíadas. Mas a maior manifestação de desprezo pela cultura do Prof. Cavaco foi atribuir a Santana Lopes a tutela da actividade cultural em Portugal.

Quanto à questão com Saramago, sejamos claros: o candidato presidencial Cavaco Silva perdeu votos católicos com a promulgação da lei do casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Foi admoestado pela hierarquia da Igreja e ameaçado de ter de enfrentar uma candidatura católica. Como recuperar esses votos? Desprezando uma vez mais o único Prémio Nobel português da Literatura, de quem a Igreja também não gosta.
São contas políticas de mercearia, mas é o que há.

J.P.G.

23 de junho de 2010 às 09:48  
Blogger António Viriato said...

Sem querer abusar da paciência dos meus anfitriões, acrescentarei ainda :

Tomo noto da explicação de JPGuerra, legítima, por certo, mas que não adopto, por maquiavélica.

Tenho Cavaco Silva por pessoa pouco dada a essas contorções políticas, mais típicas dos políticos oriundos da linha Estoril-Cascais.

Cavaco Silva, por esse mesmo facto, sempre foi desqualificado entre a classe política lisboeta, muito embevecida por imaginados pergaminhos familiares.

Daí que sistematicamente o classificassem como «o homem de Boliqueime», «o filho do merceeiro», etc., entre outras mimosidades com que certa esquerda-caviar o brindava, com indesfarçável arrogância supostamente intelectual.

Embora tenha votado várias vezes em Cavaco Silva, não me julgo obrigado a defendê-lo ou a justificar as suas opções, nem ele, de resto, precisaria desse meu voluntarismo.

Acresce que sempre ouvi da Esquerda comentários demasiado desdenhosos, por vezes a roçar o «racismo intelectual», quanto às lacunas culturais de Cavaco Silva, naturais, em quem traçou um percurso de vida mais profissional, no ramos das disciplinas económicas e financeiras, em que atingiu relevo incontestável, apesar da limitação cultural das suas origens, ao contrário das figuras mais festejadas das esquerdas, mais empenhadas nas acções político-culturais da oposição, mas com retaguardas asseguardas, já que contavam com Papás bem relacionados com os próceres da Ditadura, capazes de livrarem os meninos de certas «chatices», quando estas ocorressem.

As tão comentadas limitações ou lacunas culturais de Cavaco Silva são equivalentes às de muita outra gente das esquerdas, apenas as dele vistas com lupa e as dos seus pares esquerdistas ignoradas ou tornadas irrelevantes, como convém no acinte.

E aqui reside o ponto crucial da questão: a sistemática utilização de um viciado critério de avaliação das pessoas e das coisas traduzido na existência de dois pesos e duas medidas para apreciação de idêntico fenómeno, aliada à tal pretensão da superioridade moral das esquerdas, imaginada virtude própria, característica desse sector, hoje menos invocada, é certo, mas não menos presente na mentalidade destas famílias políticas.

Tornar-se-ia ocioso citar exemplos, tão frequente é o fenómeno.

Mas, regressando à nossa matriz cristã,que nos manda ser tolerantes com todos, incluindo com os prevaricadores que não reconhecessem tal princípio, muito menos o praticam, devemos perseverar nesse propósito, na esperança de que um dia a sua muralha de indiferença e de hostilidade, abra brechas oportunas, para daí se iniciar o seu sempre possível virtuoso caminho de redenção.

No contexto político em que nos encontramos, o valor de Cavaco Silva sobe forçosamente, muito para além dos seus próprios méritos, em confrontação com os dos seus pares.

Creio que muita gente assim entenderá também a questão.

Quanto às cerimónias fúnebres de José Saramago, reforço que me pareceram exorbitantes, pela carregada participação de membros do Governo e de representantes do Estado, coisa sobremodo irónica, a respeito de quem ao longo da sua vida tanto afrontou o Poder, além de que achei mais do que suspeita a declaração de apego à obra de Saramago de muitos desses participantes oficiosos, pouco notados por preferências literárias ou outras do foro cultural.

Peço desculpa pela extensão dos comentários e renovo as saudações aos anfitriões e demais leitores do Sorumbático.

24 de junho de 2010 às 00:07  

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