27.6.11

Só risos

Por João Paulo Guerra

AS FOTOS do Conselho Europeu do final da semana passada mostram que o neófito primeiro-ministro português aprendeu depressa a primeira lição de comportamento político da casta que regula a Europa: sorria, ou ria-se mesmo, está a ser fotografado e/ou filmado.

É um enigma, de que já aqui dei conta por mais que uma vez, mas que agora ganha ainda mais acuidade: porquê e de quê se riem os líderes desta desgraçada Europa, velho continente da civilização e da cultura, que esta casta de políticos levou ao desastre que se vê? Pois é. Mas conselho após conselho, desacordo após desacordo, fracasso após fracasso, ameaça após ameaça, chantagem após chantagem, eles riem. E Passos Coelho, chegado de fresco, lá está nas fotos do último Conselho a rir, entre o riso cínico do Sr. Sarkozy e o riso balofo da Sra. Merkel.

Mas riem-se de quê? De Portugal que já lhes caiu nas mãos, que já é governado por eles e que tem um governo que politólogos ouvidos pelo Público consideram "mais troikista que a troika"? Da Grécia, espremida pelas agências de ‘rating' e pela Comissão Europeia, umas e outra pisando "os limites da democracia", como considerou Maria João Rodrigues? Nada disso.

Os governantes da Europa riem-se dos europeus. Riem-se porque governam, desgovernando, a Europa - são eles que governam e conduzem a Europa ao desastre, não são os cidadãos europeus. Riem-se porque sendo uns medíocres - há algum conservador europeu actual da estatura de Helmut Kohl, ou algum socialista da dimensão de Jacques Delors? - chegaram ao topo da sua mediocridade rodeados de benesses. A Comissão do Dr. Barroso que o diga. Riem-se porque liquidaram a Europa social antes dela existir e porque a seguir vão liquidar a Europa democrática. Só resta saber quem será o último a rir.
«DE» de 27 Jun 11

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5 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Ainda recentemente li (mas já não sei onde...) que há um fenómeno curioso relacionado com as fotos de pessoas que sabem que estão a ser fotografadas:

Seja qual for a situação em causa, o fotografado acha que deve sorrir - e é isso que, em geral, faz.
E isso chega a suceder em situações dramáticas, quando há razões para tudo menos para sorrir.

27 de junho de 2011 às 12:00  
Blogger José Batista said...

Começo por pedir desculpa.
CMR, se o entender elimine este meu comentário.

Mas, eu acho que os líderes (?) europeus se riem da merda que são e da merda que fazem.
Só isso.

27 de junho de 2011 às 12:28  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Caríssimo J. B:

A palavra vem no dicionário e é perfeitamente legítima - não só como designação de "excremento", como também no sentido que referiu...

27 de junho de 2011 às 12:47  
Blogger GMaciel said...

Caro JPG, infelizmente, eles, ou outros no seu lugar, rir-se-ão sempre.

A não ser que haja, de facto, uma convulsão social de tal ordem que descambe numa guerra civil em larga escala. Mas nesse caso, lamento mas tão depressa ninguém rirá.



Caro amigo J.B. (aproveito a boleia do Medina Ribeiro),

Nunca digo palavrões "da pesada", até porque a melhor educação é feita pelo exemplo e tenho um filhote que, embora maior, não está habituado a ouvi-los, pelo que também não os diz - pelo menos à nossa frente. :)

Contudo, "merda" sai-me muitas vezes e nestes últimos seis anos nem imagina quantas. Mas, e aproveitando de novo a boleia do CMR, este termo deixou de ser um palavrão para se constituir, por mérito próprio, num adjectivo qualificativo.

:)))

27 de junho de 2011 às 13:02  
Blogger José Batista said...

Fico satisfeito por não levaram a mal.

Na realidade não tenho por hábito expressar-me em calão fora do contacto de um núcleo muito restrito de pessoas.
E quando os meus alunos se descuidam, particularmente dentro da sala de aulas, sou muito severo nas advertências que, normalmente, faço assentar nas seguintes razões:
- as (outras) pessoas têm direito a não serem incomodadas com qualquer deselegância da nossa parte, seja de linguagem ou outra;
- não há qualquer necessidade de usar termos impróprios para nos exprimirmos em qualquer circunstância;
- e não ficamos com a boca doce depois de pronunciarmos qualquer palavra menos própria.

Porém, há momentos em que as imprecações ou as palavras duras são a forma mais autêntica e imediata de libertar o que nos vai na alma.
E isso também lhes digo.

E, até hoje, sempre os tratei e fui tratado com asseio.
Com os meus filhos é a mesma coisa.
Com as pessoas deste blogue, de quem me habituei a gostar, também quero que seja.

27 de junho de 2011 às 19:50  

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