Adérito Sedas Nunes
Por Maria Filomena Mónica
ONTEM, enviaram-me uma carta com um selo no qual aparece um rosto
junto a uma revista intitulada Análise
Social. No canto direito, em letras pequeninas, surge o nome da pessoa,
Adérito Sedas Nunes. Foi ele quem, faz agora cinquenta anos, criou a disciplina
da Sociologia em Portugal.
Há pessoas que mudam as nossas vidas: o Adérito, como insistia em
ser tratado, foi uma delas. À partida, tudo nos separava, mas tornámo-nos
amigos. Conheci-o, em 1974, no gabinete onde ainda hoje trabalho. Disse-me que
gostaria de me convidar para sua assistente na Universidade. Respondi-lhe que,
não tendo terminado a tese de doutoramento em Oxford, não me sentia preparada,
mas acabou por me convencer.
Em Março de 1974, começámos a dar aulas no recém-criado ISCTE. A
cadeira que me foi atribuída chamava-se «Demografia, Povoamento e Recursos
Humanos», um eufemismo para significar «Introdução à Sociologia». Dado a mesma
tratar, na aparência, de assuntos demográficos, mandei os alunos ler o
capítulo, de «O Capital», sobre o Exército Industrial de Reserva. No dia
seguinte, o Adérito informou-me ter eu, na aula, um informador da PIDE. Ri-me.
Aconselhou-me a não brincar com coisas sérias.
Sem que disso tivéssemos conhecimento, íamos atravessar um
vendaval. Ainda os capitães de Abril andavam com cravos nas metralhadoras e já
ele e eu havíamos sido eleitos, em Assembleia-Geral de Escola, para um Conselho
Directivo, onde tínhamos de nos sentar ao lado de estudantes mal encarados.
Quanto percebi que iria ser obrigada a dar notas a grupos de trabalho, saí.
Para mim, foi simples; não para ele. Odiou a sua passagem pelo
poder, como ministro, como, antes, detestara a presidência da Junta Nacional de
Investigação Científica e Tecnológica. Pelas boas e más razões, não apreciava a
luta política. Gostava de permanecer em casa a ler, e de ir, à tarde, até ao
Gabinete de Investigações Sociais, o organismo por ele fundado com dinheiro -
pouco - da Fundação Gulbenkian.
A sua grande obsessão era a integração do organismo que criara na
Universidade. Foi por esta altura, no início dos anos 1980, que, aos Sábados,
começou a vir lanchar a minha casa. O pretexto era o chá que eu servia, «Earl
Grey», mas a intenção era discutir a institucionalização do GIS. Eu temia
possíveis desvios burocráticos, ao que ele contrapunha a necessidade de o seu
gabinete se dotar de um «quadro» de investigadores. Em 1982, nascia o ICS.
É difícil exagerar a importância que a Análise Social, por ele fundada em 1963, teve no panorama
intelectual português. Lendo-a agora, noto o quanto o Adérito foi importante
para a sua qualidade. No fim da vida, a depressão, que há muito o consumia,
agravou-se. Numa das nossas últimas conversas, insisti para que voltasse à
escrita. Por esta altura, andava fascinado pela História, tendo-me dito que
gostaria de escrever uma obra intitulada «Livres e Iguais». Não chegou a
começá-la. Em 1991, com apenas 63 anos, deixou-se morrer.
«Expresso»
de 24 Nov 12
Etiquetas: FM
1 Comments:
Gostei muito do texto. Agradecido.
Dei os meus primeiros passos na Sociologia e no conhecimento científico lendo os livros do Prof Adérito Sedas Nunes.
Tenho algumas revistas Análise Social. Do melhor que se faz em Portugal.
Li já alguns trabalhos seus. Tornaram-me mais pessoa.
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