3.10.15

OS OBREIROS DA GEOLOGIA PORTUGUESA (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho

Wilhelm Ludwig von Eschweg (1777-1855)

Também conhecido por Barão de Eschwege, engenheiro de minas, geólogo, geógrafo, metalurgista e arquitecto de nacionalidade alemã, deixou obra de nomeada em Portugal e no Brasil. Detentor de formação académica de invulgar eclectismo, muito em moda na intelectualidade europeia do século XIX, os seus conhecimentos alargaram-se ao direito, à economia política, à geografia, à silvicultura e à arquitectura paisagista.
Contratado pela Coroa portuguesa para proceder a prospecções mineiras no país, acabou por assumir o cargo de Intendente-geral de Minas e Metais do Reino, sucedendo a José Bonifácio de Andrade e Silva. Como tal, Eschweg administrou a mina de ouro da Adiça (Mina do Príncipe Regente, Almada) e percorreu o país e parte das colónias, com vista ao estudo das respectivas potencialidades mineiras e das técnicas de exploração e administração desse sector de uma actividade económica nascente. No decurso deste seu trabalho, recolheu informação geológica e paleontológica de grande importância na época.
Em 1810, juntou-se à Coroa, entretanto sediada no Brasil, tendo procedido, em moldes científicos inovadores, à primeira exploração geológica naquela vastíssimo território, inovando a uma elevada craveira, que fez história, a exploração mineira e a metalurgia. Nesta colónia, Eschweg desempenhou os cargos de Intendente das Minas de Ouro, de Curador do Real Gabinete de Mineralogia do Rio de Janeiro e de professor de Engenharia Mineira, de reconhecido prestígio, na Academia Militar das Agulhas Negras, (a primeira escola de engenharia no Brasil) tendo aí incrementado, ao mais alto nível, o ensino da matemática e da física.
Durante a sua estadia em Portugal, Eschwege catalogou inúmeros aspectos da mineralogia e da geologia portuguesas, tendo publicado diversas obras de carácter científico, com destaque para “Memória Geognostica ou golpe de vista do perfil das estratificações das differentes róchas, de que he composto o terreno desde a Serra de Cintra na linha de noroeste a sudoeste até Lisboa, atravessando o Tejo até á Serra da Arrabida, e sobre a sua idade relativa”, publicada no Tomo XI da Academia Real das Ciências de Lisboa, em 1831.
Como arquitecto, o seu nome ficou ligado ao projecto do Palácio Nacional da Pena, na Serra de Sintra, que teve a seu cuidado, a convite de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, marido da rainha D. Maria II.

Alexandre António Vandelli (1784-1862)

Nos Aditamentos ou Notas que escreveu em alusão à Memória Geognostica, de Eschwege, 1831, este lusobrasileiro, filho de Domingos Vandelli revela o que, ao tempo, se fazia em Portugal no domínio da mineralogia, da geologia e da paleontologia, dando, assim, satisfação a um pedido do Barão, entretento regressado à Alemanha, por ter sido demitido por D. Miguel do cargo de Intendente Geral de Minas e Metais do Reino, em Junho de 1829,
Nestes seus escritos, Alexandre Vandelli, que é considerado o iniciador da paleontologia dos vertebrados em Portugal, fala, em especial, dos “terrenos primitivos” da Serra de Sintra (granito e outras rochas ígneas); da “formação secundária” (calcários, grés, argilas, etc. do Jurássico e do Cretácico) que a rodeiam, e dos basaltos aflorantes em muitos locais da região de Lisboa. Dá particular atenção às “petrificações”, com destaque para as conchas e restos de Gryphites, Coralites e Hippurites (rudistas) em calcários da “formação secundária”; às encontradas na “formação terciária” a norte e a sul do Tejo, nomeadamente, conchas de Turritellas, Terebratulas, Belemnites, Helices, Melanamonas, Cardias, Orthoceras, Encrinites, etc.), alternado com bancos de ostras, e, ainda, aos dentes de esqualos, restos de vértebras de peixes e um crâneo de um provável cetáceo.

Daniel Sharpe (1806-1856)
Comerciante inglês, com negócios em Portugal, grandemente interessado nas ciências da Terra, foi um dos pioneiros da cartografia geológica portuguesa, ao publicar, em 1841, a primeira carta geológica dos arredores de Lisboa, em complemento do trabalho The Geology of neighbourhood of Lisbon e, em 1849, a primeira carta geológica dos arredores do Porto. Estudou em pormenor o Silúrico e o Carbónico do Buçaco e descreveu fósseis de São Pedro da Cova, de Valongo e das formações mesozóicas a norte do Tejo, tendo descrito diversas espécies novas para a ciência. Foi um dos precursores da geologia estrutural ao defender que a direcção dos esforços compressivos responsáveis pelos enrugamentos tectónicos é perpendiculares aos planos de clivagem. Conheceu Carlos Ribeiro (1813-1882), estabelecendo com ele uma frutuosa relação que criou as bases da estratigrafia portuguesa.
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Bernardino António Gomes (1806-1877)

Pioneiro da paleobotânica em Portugal, é, sobretudo, lembrado como médico e botânico de grande prestígio. O seu trabalho no estudo da flora fóssil ficou perpetuado na publicação “Vegetais Fósseis: Flora fóssil do terreno carbonífero das vizinhanças do Porto, Serra do Buçaco, e Moinho da ’Ordem próximo a Alcácer do Sal”, editada em 1865, e marcou o início da paleobotânica em Portugal.
Na sequência da Revolução Liberal de 1834, a reforma do ensino de Passos Manuel extinguiu o Colégio dos Nobres, em Lisboa, dando nascimento, em 1837, à Escola Politécnica (devidamente equipada com os seus estabelecimentos anexos, entre os quais o antigo Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico), onde passou a haver, de facto, o ensino da Mineralogia em simultâneo com o da Geologia. As colecções mineralógicas do antigo Colégio dos Nobres, bem como as da Academia Real das Ciências, do Real Museu da Ajuda e da Intendência Geral de Minas e Metais do Reino, uma vez reunidas, passaram a constituir o importante acervo da Escola Politécnica, sendo hoje parte integrante do Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Estas colecções cresceram bastante em virtude de colheitas sistemáticas no continente e nas então colónias, no decurso das chamadas “viagens filosóficas”.
No Porto, a então Academia de Marinha e Comércio deu lugar à Academia Politécnica, onde a Mineralogia e a Geologia, tiveram lugar de destaque, constituindo-se aí o que poderíamos definir como o embrião da engenharia mineira portuense.
Para além dos estabelecimentos de ensino superior que serviram de base às actuais Faculdades de Ciências de Lisboa, Porto e Coimbra e dos então Instituto Industrial do Porto (o actual Instituto Superior de Engenharia do Porto) e Instituto Industrial e Comercial de Lisboa (o actual Instituto Superior Técnico), merece destaque, como instituição responsável pelo desenvolvimento da Mineralogia e da Geologia portuguesas, a Comissão Geológica do Reino, criada em 1857, embrião do actual Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), última das múltiplas designações oficiais desta prestigiada instituição, a saber:
Comissão Geológica do Reino, de 1857 a 1869; Secção dos Trabalhos Geológicos, de 1869 a 1886; Comissão dos Trabalhos Geológicos, de 1886 a 1882; Direcção dos Trabalhos Geológicos, de 1882 a1899; Direcção dos Serviços Geológicos, de 1899 a 1901; Comissão dos Serviços Geológicos, de 1901 a 1917; Serviços Geológicos de Portugal, de 1917 a 1993; Instituto Geológico e Mineiro (IGM), de 1993 a 2002; Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (INETI), de 2003 a 2007; e, finalmente, Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), de 2007 ao presente.

Oswald Heer (1809-1883)
Doutor em medicina, este eclesiástico suíço, professor na Universidade de Zurique, foi botânico e paleobotânico de muito mérito, lembrado como um pioneiro neste domínio. Deixou obra importante sobre a flora fóssil do Terciário da Suíça, da Groenlândia e de Portugal, num trabalho que publicou em 1881, sob o título Contributions à la flore fossile du Portugal, numa edição da Secção dos Trabalhos Geológicos de Portugal.

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1 Comments:

Blogger Henrique ANTUNES FERREIRA said...

Medinamigo

Que me perdoe o Galopim, mas JÁ ACABOU O DIA DE REFLEXÃO!!! (00:27) Vou VOTAR COSTA!!!


Abç do Leãozão

4 de outubro de 2015 às 00:38  

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