17.10.15

OS OBREIROS DA GEOLOGIA PORTUGUESA (4)

Por A.M. Galopim de Carvalho

                           Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado (1835-1908)

Sucedendo a Carlos Ribeiro na chefia da Comissão Geológica do Reino, este notável pioneiro da geologia em Portugal procedeu aí, durante o seu mandato, entre 1882 e 1908, a consideráveis avanços em prole deste domínio do saber científico e tecnológico, entre os quais ganham relevo o ter privilegiado o trabalho de campo, na prática geológica (contrariando assim uma tradição, vinda do século XVIII, marcada de propósitos coleccionistas, iniciada com os gabinetes de história natural) e a criação, em 1833, das Comunicações da Secção dos Trabalhos Geológicos, o primeiro periódico científico português especializado no citado domínio.
Foi interveniente activo nas transformações mais significativas do conhecimento geológico ocorridas no século XIX em moldes que transcendem o espaço nacional, num conjunto de realizações que lhe valeram o reconhecimento como membro de diversas sociedades científicas estrangeiras. A sua produção científica foi vasta e percorre os domínios da paleontologia e estratigrafia do Paleozóico, da cartografia geológica, da arqueologia e paleoantropologia e, ainda, os da geologia aplicada, nomeadamente nas áreas da hidrogeologia, da exploração mineira e da geologia de engenharia.
Juntamente com Carlos Ribeiro, iniciou a preparação da carta geológica geral de Portugal, na escala de 1:500 000, da qual foi feita uma primeira versão aguarelada, apresentada na Exposição de Paris, em 1867, ganhando uma medalha de prata. E publicada depois, em 1876.
Em colaboração com Paul Choffat, o colega suíço entretanto chegado a Portugal, participou na elaboração da Carta Geológica da Europa, na escala de 1:1 500 000, publicada em Berlim, em 1896, e na preparação de uma segunda edição da Carta Geológica Geral de Portugal. Galardoada com a medalha de ouro na Exposição Universal de Paris de 1900, esta carta (editada no ano anterior) manteve-se em uso até 1972, ano em que foi dada a público, pelos Serviços Geológicos da Portugal, uma terceira edição actualizada.
O seu trabalho, intenso e continuado, contribuiu, de forma decisiva, para consolidar os fundamentos da anteriormente referida Comissão Geológica, o actual Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), instituição nacional com mais de século e meio de trabalho respeitado dentro e fora das fronteiras.
Nery Delgado legou-nos um espólio científico e documental constituído por publicações, cadernos de campo, manuscritos, correspondência, mapas, gravuras e fotografias cuja importância ultrapassa as fronteiras do país e que pode ser consultado nos arquivos do citado LNEG. O reconhecimento do seu valiosíssimo trabalho está patente nas múltiplas condecorações, louvores e outras distinções, nacionais e estrangeiras, que recebeu.
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Jacinto Pedro Gomes (1844-1916)
Particularmente interessado pelas ciências naturais, este engenheiro de minas português, formado na Academia de Minas de Freiberga, em 1865, consagrava os seus tempos livres à mineralogia e petrografia, à geologia e, ainda, à botânica, e à conchiologia.
Em 1883 começou a trabalhar como naturalista do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico sediado na Escola Politécnica, em Lisboa, organizando e actualizando as colecções de minerais, rochas e fósseis. Colecções que se mantiveram expostas até 1978, ano do incêndio que, em grande parte, as destruiu.
Como engenheiro de minas e antes da sua entrada no referido Museu, estudou algumas minas de Portugal e Espanha e, em acumulação com o seu cargo de naturalista, foi o consultor da mina de carvão do Cabo Mondego. O estudo que então realizou sobre as pegadas de dinossáurios terópodes do Jurássico deste local foi pioneiro à escala internacional.
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Léon Paul Choffat (1849-1919)
Cidadão suíço radicado em Portugal a partir do ano de 1878, com geólogo da Secção dos Trabalhos Geológicos de Portugal. Convidado por Carlos Ribeiro, durante o Congresso Internacional de Geologia de Paris, em 1878, veio para Portugal a fim de, em especial, estudar a estratigrafia e a paleontologia dos terrenos jurássicos. Como professor de paleontologia animal na Escola Politécnica Federal de Zurique empreendera excursões geológicas no Jura francês, experiência que o habilitou com o capital científico posto em prática nos estudos que aqui levou a cabo.
.Durante quatro décadas, Choffat ofereceu à geologia portuguesa, então a dar os primeiros passos, o melhor do seu esforço e saber, que foi muito. Como homem de ciência e como cidadão tornou-se um dos vultos mais assinalados no Portugal de finais do século XIX e inícios do século XX.
A sua actividade científica está expressa em múltiplas memórias e comunicações publicadas pela respectiva instituição e em jornais e revistas da especialidade, nacionais e estrangeiros.
No conjunto dos seus trabalhos, Choffat estabeleceu a seriação estratigráfica dos terrenos mesozóicos do território português, descreveu a litologia e a fauna fóssil das diferentes assentadas e identificou as respectivas fácies. Propôs a criação do andar Lusitaniano para o conjunto estratigráfico Oxfordiano superior-Kimeridjiano, temporariamente aceite pelos seus pares. Definiu o andar que designou por Belasiano (termo entretanto caído em desuso), representado na região de Belas, nos arredores de Lisboa e que correspondente a parte do Cenomaniano. Deve-se-lhe ainda a separação entre o Trias e o Infralias, o levantamento da Carta Tectónica de Portugal e um interessante estudo sobre as estruturas geológicas a que chamou vales tifónicos.
No sector da geologia aplicada, são dignos de referência o seu “Étude Geologique du Tunnel du Rocio” (1989) e vários trabalhos de hidrogeologia visando abastecimento de água a Lisboa, Guarda, Guimarães e outras localidades do país, e estudos sobre as águas minerais dos terrenos mesozóicos, registados como alguns dos melhores trabalhos neste domínio.
A cartografia geológica mereceu-lhe particular atenção. Assim, de colaboração com Nery Delgado, procedeu à actualização da Carta Geológica de Portugal, na escala de 1/500 000, publicada em 1899, em substituição da que fora publicada por Carlos Ribeiro e Nery Delgado, em 1876. Deve-se-lhe, ainda, a realização dos trabalhos de campo que levaram à produção de várias cartas geológicas regionais, em escalas de maior pormenor, como as das regiões de Lisboa, Cascais Sintra, Loures, Leiria, Arrábida, Buarcos-Verride e Montejunto.
Doutor honoris causa, em 1892, pela Universidade de Zurique, Paul Choffat foi eleito membro de múltiplas academias e sociedades científicas de Portugal e da Europa.

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3 Comments:

Blogger JMG said...

Em prole?

17 de outubro de 2015 às 16:54  
Blogger 500 said...

Lapsos destes não escapam aos mais pintados.

17 de outubro de 2015 às 20:48  
Blogger José Batista said...

Quem (de há muito) conhece e aprecia a distinta prosa do Professor Galopim de Carvalho não tem dúvida de que se trata de um simples e inoportuno lapso.
Ou não pertencesse ele a uma prole de gente estudiosa e culturalmente multifacetada.
Mas, lá está: em manancial abundante de informação escorreita torna-se notada a mais inofensiva "mancha". O que, visto por certo prisma, chega a ser bom sinal. Ou seja: a certas pessoas exigi-se (apenas!) a perfeição.
Assim a exigisse cada um de nós a si próprio. Ou talvez não. Ou nem tanto...

17 de outubro de 2015 às 23:19  

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