28.2.26

Grande Angular - Açores à vista!

Por António Barreto

Ao longo das últimas semanas, o movimento de aviões americanos na Base das Lajes, nos Açores, intensificou-se. Aumentou o número de aviões a aterrar e descolar e cresceu a diversidade de aeronaves a utilizar a base. Não só passaram os aviões já conhecidos, como apareceram vários F-35 mais sofisticados. Além disso, surgiram as enormes aeronaves mais ou menos misteriosas com colossais cargas de material e equipamento e não se sabe que mais. Umas fizeram breves pausas, por horas ou dias, outras estacionaram por períodos consideráveis. Como o espaço aéreo é livre, muito deste movimento foi fotografado por residentes, turistas e curiosos. Não é possível, felizmente, esconder o que salta aos olhos e o que voa diante de nós.

 

Chamadas a esclarecer, as autoridades pouco disseram. Como têm aumentado as ameaças americanas e a tensão com o Irão, todo este movimento foi considerado como estando evidentemente ligado a esses factos. Não se tratava claramente de trânsito para a Gronelândia, muito menos para a Venezuela ou Cuba. A opinião interessada, alguns políticos ou militares, assim como especialistas e jornalistas, quiseram saber mais e insistiram. Além de tentar saber de que se tratava, o interesse residia nas condições de utilização. Teria o governo americano informado o português? Teria pedido autorização? Tratava-se de material de guerra? De equipamento? De abastecimentos? Para onde se dirigiam as aeronaves? Legítimas ou não, mas justificadas, estas perguntas não obtiveram resposta. Durante dias, o governo esquivou-se.

 

O Presidente da República diz que acompanha de perto a questão, que o governo vai informando e que não vale a pena fazer especulações. Segundo os jornais e as televisões, o Ministro da Defesa, Nuno Melo, declarou que “a utilização da Base aérea das Lajes não é da sua tutela”! O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, diz que as escalas de aviões de guerra norte-americanos na Base das Lajes, com destino ao Médio Oriente, “têm sido autorizadas nos termos gerais do acordo” entre Portugal e os Estados Unidos. Terá também dito, segundo alguns jornais, que esses voos “não necessitam de autorização prévia, mas sim tácita”! Também terá dito que o uso da base das Lajes se faz “exclusivamente, como tem de ser, de acordo com o tratado que existe entre os dois países”. Nova fonte acrescentou que “o Ministro dos Negócios Estrangeiros confirma que, nas últimas semanas, aumentou o movimento de aviões norte-americanos nos Açores. O Governo garante que a utilização da Base das Lajes está a ser feita no âmbito do Acordo de Portugal com os Estados Unidos”.

 

Já no ano passado, aquando de movimentos pouco usuais de aviões americanos, o governo tinha metido os pés pelas mãos. Começou por garantir que não se tratava de armamento, nem de material de guerra, mas que eram “só” caças, neste caso F-35, uma das mais avançadas armas do mundo! Também nessa altura, o Ministério dos Negócios Estrangeiros esclareceu a opinião pública, afirmando que tinha havido uma “falha interna de comunicação na autorização da passagem dos aviões pelos Açores”. Praticamente ninguém ficou convencido. Mas, entre eleições, o governo descansou.

 

Em ambas as situações, criou-se a dúvida, que cresceu e persistiu. O governo português foi esquecido e afastado dos processos de informação e tenta esconder o incómodo? O governo não sabia que era obrigatório informar previamente (Artigo VIII do Tratado) ou pedir autorização (Nº 4 do Artigo I do Acordo)? Será que o governo está mesmo convencido de que os americanos não têm de informar nem pedir autorização? Ou foi informado e não quer parecer associado às intenções e aos gestos do governo americano? Há alguma relação entre estes factos e a atitude do governo português, que chegou a encarar a hipótese, mas acabou por recusar participar na colossal fantasia de Donald Trump que é o seu “Conselho da Paz”?

 

Qual é o enquadramento político e jurídico de todo este caso? Os tratados, no espírito e na letra, separam dois tipos de operações: NATO e fora da NATO. Para as do âmbito NATO, não é necessária autorização prévia, nem sequer conhecimento.  A informação decorre de procedimentos técnicos, próprios das regras constantes da Aliança. Para o âmbito fora da NATO, tudo é diferente. É necessária comunicação prévia com pelo menos 72 horas. Se for urgente, pode ser menos, mas tem de ser “com o prazo máximo possível” e é necessária autorização prévia. Não é essencial dizer quais e quantos aviões, nem para onde vão ou o que carregam (equipamento, bombas, munições ou abastecimento). Mas os americanos têm de informar sobre a operação e pedir autorização. A ocorrência actual é evidentemente fora da NATO, até porque ninguém, nesta organização, sabe o que se passou.

 

Salvo melhor informação, ou salvo prova em contrário, o governo português foi ultrapassado e esquecido, ou antes, ignorado. Foi-lhe mesmo ocultada a operação. O governo português reagiu mal. Confusamente. Com frases dos ministros que ficarão para a história da tentativa de garantir que não foram desprezados. Nos últimos dois anos, o comportamento do governo relativamente ao uso da Base das Lajes, assim como ao material e aos aviões que por ali passam, foi de molde a desconsiderar toda e qualquer instituição. Mentiu, negou, refutou, confessou, apurou, desmentiu, corrigiu, disfarçou, encobriu, ocultou e admitiu.

 

O que parece ser a verdade, até confirmação ulterior, é que o Governo americano utilizou a Base das Lajes as vezes que quis e entendeu, em operações fora do quadro da NATO. Na maior parte dos casos, se não mesmo em todos, o Governo americano nada disse antecipadamente ao Governo português. Isto, no quadro da melhor atitude política de Donald Trump: quem tem poder, exerce-o, não partilha nem negoceia. Quem tem meios e força militar nada tem a dizer aos seus aliados. Como os aviões se vêem e até são fotografados, o Governo português começou a corar, gaguejar e dar o dito por não dito. Mas a verdade é que nada sabia. Não só o Governo americano nada disse, como o Governo português não teve força, nem dignidade ou independência para dizer “Assim, não!”, muito menos para exigir comunicação prévia e pedido de autorização, em conformidade com os tratados.

 

Trump faz o que sabe e em que acredita. Quem tem força, manda. Quem pode, faz. Quem tem poder, força, dinheiro e armas vai em frente e não dá cavaco. Trump só respeita quem se faz respeitar. E Portugal não se fez respeitar.

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Público, 28.2.2026 

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21.2.26

Grande Angular - Liberdades, crianças e adultos

Por António Barreto

Acaba de ser aprovado um projecto de lei que proíbe o acesso de menores a um certo número de redes sociais. O projecto é do PSD e teve votos a favor do PS e do PAN. Votaram contra o Chega e a Iniciativa Liberal. Abstiveram-se o PCP, o Livre, o Bloco e o CDS. No essencial, condiciona-se o acesso às redes sociais por parte dos menores de 16 anos (antes era de 13), deixando para decisão parental a possibilidade de autorizar abaixo daquela idade. O projecto foi aprovado na generalidade, falta agora a votação na especialidade, o que pode ainda mudar muitas coisas. Conforme está, o projecto é feito de boas intenções e ideias erradas. Confere poderes excessivos ao Estado, a quem permite a interferência na vida pessoal e na esfera íntima dos cidadãos. Será ainda um formidável incentivo ao desenvolvimento de canais ilegais e de sistemas clandestinos.

 

Entre os motivos invocados contam-se o sexo, a pornografia, a violência, o ódio, o racismo, a xenofobia, assim como o encorajamento ao vício do álcool, da droga e do jogo digital. Os defensores de legislação contra as redes invocam ainda, em prioridade, a solidão, a neurastenia, o desleixo, a depressão e a tendência para o suicídio de que os jovens clientes das redes dariam provas.

 

Invoca-se o papel do Estado na protecção das crianças e dos adolescentes e na luta contra comportamentos desviantes. Também se sugere que o Estado tem de se esforçar por lutar contra os riscos de doenças mentais (indolência, depressão, perda de auto-estima) e de tendências suicidárias.

 

Temos ainda, em paralelo, a discussão sobre o uso de telemóveis e tabletes nas escolas. Deverá o Estado ter o direito e o dever de impor a sua regra? Pode o aluno usar telemóvel na sala de aula? E nos corredores e recreios? E computadores, com ou sem ligação externa? As duas questões devem ser separadas. Na verdade, a instituição escolar deve impor a sua disciplina, dentro das quatro paredes, não cá fora. Já o acesso às redes é outra matéria.

 

Um metediço papel do Estado, assim como a sua intervenção abusiva, é o traço principal do projecto que foi, curiosamente, pouco debatido na sociedade. Parece que só o Parlamento e os partidos têm interesse na matéria. Também é verdade que, a seu favor, esta disposição parece ter, em Portugal e no mundo, a cumplicidade das esquerdas e das direitas. Mas lamenta-se esta espécie de confiança nos critérios do Estado, a quem se atribui o poder de definir regras gerais para comportamentos privados, normas universais para atitudes particulares.

 

Além disso, proíbe-se o que se aceita com toda a facilidade nos canais de televisão e da NET. Sexo, pornografia, excesso de violência, assédio, consumo de droga e álcool, banditismo no futebol, poder excessivo do dinheiro, perseguição ideológica, racismo e exploração: tudo isso é visto quotidianamente nos canais de televisão. Combater na escola o que se aceita na sociedade é cínico e inútil.

 

Todo o diploma transpira excessiva confiança no Estado, nas decisões burocráticas, nas definições políticas de categorias morais como o discurso de ódio ou a violência verbal. O diploma transpira hipocrisia ao condenar, a uns, o que autoriza a outros e constitui, para os mais novos, um exemplo sedutor e atraente: pornografia, jogo, alcoolismo e violência.

 

Será preferível confiar nos pais, mesmo sabendo que estes podem ser virtuosos ou trastes, como toda a gente. São os pais que dão telemóveis aos filhos, tabletes, consolas e jogos e televisão a qualquer hora. São os pais que esperam que os filhos estejam ocupados, com redes ou televisão, enquanto eles vão às suas vidas. São os pais que iniciam os filhos em filmes eróticos e em desportos violentos, em jogos e distracções arriscadas. São os pais que se desinteressam dos filhos, que querem que os deixem sossegados, que desejam ir a festas e entregam os filhos à selva das redes sociais. São os pais que iniciam os filhos nas redes violentas, no futebol, na pornografia e no jogo. Mesmo assim, mesmo sabendo que os pais não são virtuosos, é mil vezes preferível confiar nos pais do que no Estado.

 

O dilema é terrível. Ou se confia nos pais, sabendo que muitos são eles próprios passivos ou coniventes com a violência e a pornografia, o vício e o jogo. Ou se entrega a educação ao Estado e a outras instituições públicas, assim destruindo a família e a liberdade individual. Mesmo sabendo que “o Estado” não é uma abstracção: quem está ao seu serviço são as mesmas pessoas, os mesmos pais.

 

Esta lei parte de princípios tão errados! O Parlamento e o Estado são virtuosos e que sabem o que é bom para as crianças e os adolescentes. O Estado é servido por funcionários cultos, moralmente confiáveis e cientificamente habilitados. Todos os pais são imorais. Os pais não têm autoridade e os filhos fazem deles gato sapato.

 

É verdade que há muitos pais que praticam, consomem e são exemplos de violência, de sexo, de vício, de álcool e de jogo. Mas esse não é um problema das redes e dos telemóveis, nem dos computadores. Será talvez um problema da Justiça, do bairro, da empresa e da família. Não se vê que a lei possa definir os comportamentos, a não ser os tipicamente ilegais e criminosos.

 

É certo que há inúmeros estudos a tentar demonstrar os malefícios das redes, dos telemóveis e dos computadores. Mas também é verdade que há estudos a demonstrar que não, que esses efeitos não são verdadeiros. Se forem verdadeiros, daí não se pode concluir que então o Estado deve controlar as redes. Porque também se deveria controlar os efeitos das redes nos próprios pais. E os efeitos, conhecidos e aceites, do álcool, do futebol, do jogo, da televisão e da droga no comportamento dos pais.

 

Deveria deixar-se aos pais o essencial da educação, que sejam eles a determinar o que é bom e o que é mau para os seus filhos. Apraz-me acreditar em que o Estado não deve ditar as regras do meu comportamento, nem zelar pela moralidade dos meus costumes. Estou convencido de que deve haver, nas escolas, regras de conduta que definem, não a moral, nem a estética, mas o normal funcionamento e o bom ambiente de trabalho. Tenho para mim que as redes e afins, verdadeiras sarjetas da sociedade, devem ser combatidas pelos cidadãos, não pelo Estado.  

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Público, 21.2.2026

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14.2.26

Grande Angular - Nova etapa, nova vida

Por António Barreto

A intervenção nocturna de Luis Montenegro, durante as emissões dos resultados eleitorais, ficará na história como um dos piores exemplos de carácter. O que ele fez é de mau perdedor e de oportunista. Tentou pôr ovos nos ninhos dos outros. Tentou tirar os louros a quem os ganhou. Deu os parabéns a quem não foi à festa. Propagandeou o governo e as suas próprias decisões durante 10 minutos, tentou ocultar as eleições e os seus resultados, mal felicitou o vencedor, não se despediu convenientemente de quem termina, não saudou os concorrentes e não agradeceu a quem ganhou e a quem perdeu. Não ofereceu o seu apoio.

 

Despedimo-nos, já com saudades, do Presidente Marcelo. Saúda-se a eleição de António José Seguro, de bom agoiro. Sem grande esforço, apenas continuando a ser o que sempre foi, pode o novo Presidente contribuir de modo efectivo para os alicerces de uma solução estável e eficiente. Os portugueses mostraram que queriam a democracia e que eram capazes de, à margem das vontades expressas pelos grandes partidos, derrotar tentativas antidemocráticas. Num frente-a-frente com a democracia, Ventura foi derrotado de modo contundente. Nem que fosse só por isso, os portugueses merecem respeito e soluções políticas que lhes dêem alguma esperança. E um futuro decente.

 

O clima político é favorável. Portugal é um país ferido, magoado pelos vendavais e pela destruição de bens, de projectos e de vidas. Os portugueses necessitam de enorme esforço financeiro, de engenharia, de socorro, de saúde, de transporte, de reconstrução… A ideia de que Portugal necessita de “proximidade” é demagógica e tola. Portugal necessita de acção rápida, muito rápida. Quando se vê, hoje, em 2026, numa obra do metropolitano em plena construção, um cartaz dizendo “inauguração em Abril de 2023”, percebe-se rapidamente do que Portugal necessita. O ambiente é favorável, mas os dirigentes políticos necessitam perceber que, mais do que aproveitar a onda, a acção tem de ser mais honesta do que nos tempos em que as contas partidárias eram o único critério de êxito político. 

 

A demissão de Maria Lúcia Amaral (que foi, na Academia, no Tribunal Constitucional e na Provedoria de Justiça, uma das mais formidáveis servidoras do Estado que Portugal conheceu em décadas) parece ter marcado um ponto de mudança. Coincidiu com esse facto a transformação dos governantes em agentes de viagem, curandeiros e publicitários. A evolução dos acontecimentos trouxe-nos espectáculos desmoralizadores. O governo, sem candidato à presidência e com a neutralidade do primeiro ministro, optou pelo silêncio. Pouco depois, sob pressão dos vendavais, preferiu a palavra e a viagem. Foi fartar, vilanagem… Em cada canal, um ministro. Em cada ministro, um guarda-chuva. O entendimento que certas pessoas, especialmente ministros, têm da proximidade (palavra chave da nova democracia) traduz-se em visitas aos locais, desfiles junto dos desastres, conversa encenada com idosos ou feridos, uma mão protectora numa cama de hospital e um tabuleiro com refeição frugal numa fila de espera. Por cada visita a um local ou cada presença “no terreno”, seguem jornalistas, mais uns tantos autarcas e dirigentes locais, sem falar nos coletes da protecção de alta visibilidade. Momentos houve em que era possível, nos quatro canais de informação, ver outros tantos ministros a dizer as banalidades habituais. É bem visível toda a diferença entre estar presente e mostrar-se, ou entre ajudar e desfilar. É tão chocante ver Ventura distribuir garrafas de água antes das eleições, como ver Montenegro pisar a lama depois.

 

O novo presidente da República pode ser um factor favorável. O governo minoritário não é solução. O Chega, preparado para a perturbação, para não dizer chantagem, não é receita. Um partido socialista torturado entre a oposição e a colaboração, não é futuro. A fusão entre a direita democrática e a não democrática, assim como entre a esquerda democrática e a não democrática, é o desastre. A aliança entre o PSD e o Chega tem tudo para levar ao drama. As tentativas de governar “à la carte”, um orçamento com este, uma lei laboral com aquele, o serviço de saúde com um e a segurança social com outro, apenas produzem incerteza.

 

O mais provável é que, dentro de horas ou dias, se iniciem as grandes manobras da política portuguesa dos próximos tempos. O Chega quer derrotar ou armadilhar o governo, afim de o substituir ou com ele partilhar funções. O Governo quer durar anos, a fim de ganhar daqui a três, votando até lá ora com o Chega ora com os socialistas. Estes vão fazer a demonstração da sua moderação, aprovando ou criticando, sem nunca contribuir para derrubar. Queiramos ou não, infelizmente, estas vão ser as tarefas e as prioridades. Inúteis.

 

Era evidentemente bom que o governo durasse três anos e que a solução tivesse futuro. Seria bom que os esforços feitos no imediato, para reconstruir, fossem anunciadores de um novo clima político. Já é lugar comum, mas é certo que os próximos anos de Portugal, da Europa e do mundo serão perigosos. É certo e sabido que a União Europeia vai conhecer transformações difíceis. Os preços da energia vão subir, os dos alimentos ainda mais. As pressões da imigração vão ser cada vez mais fortes. Toda a instabilidade política será severamente castigada pelas populações. Tal como outros países, Portugal necessita de estabilidade, de firmeza de liderança, de democracia e de respeito pelos direitos dos cidadãos. Os nossos métodos de vida em comum precisam ser revistos, com relevo para a eficácia, o controlo de gastos e de obra, a prevenção e a fiscalização. Os portugueses precisam de viver com horizontes superiores a meses, sem o sufoco da demagogia e do curto prazo.

 

Chamem-lhe o que se quiser. Central, com ou sem bloco. Coligação ou aliança. Pacto ou confluência. O nome é trivial. O que interessa realmente é o governo de duração garantida, de maioria inequívoca e de programa moderado. Capaz de criar estabilidade política e de reorientar recursos. Decidido a dirigir operações de inquérito competente às obras e às despesas. Sempre com debate esclarecedor e sempre com a democracia a funcionar. 

 

Reparar os estragos, ajudar os feridos, sarar os magoados e reconstruir o país devastado vai demorar semanas e meses. Reconstruir ainda mais. Prevenir e corrigir necessita de muitos anos e décadas. Por isso era bom começar já.

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Público, 14.2.2026

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7.2.26

Grande Angular - O dever de servir

Por António Barreto

As últimas eleições autárquicas, legislativas e presidenciais, realizadas em menos de um ano, tiveram, cada uma, os seus centros de interesse e os seus temas de luta política. Umas vezes, eram diferentes, de uma eleição para outra. Outras vezes, eram os mesmos, até sem qualquer espécie de relação com o sentido principal da eleição em causa. Em todas se falou, por exemplo, de imigração, de corrupção e de justiça, são os sinais dos tempos. Com ou sem sinceridade, a propósito ou não, eram problemas de actualidade que não podem ficar excluídos de um debate eleitoral. Mas há um tema que foi central em todas as eleições, mesmo a despropósito. Como também é primordial nos debates parlamentares, nas visitas presidenciais ou nas assembleias municipais. E recorrente na imprensa, nas televisões e nas redes sociais. Trata-se, evidentemente, dos serviços públicos e de utilidade pública. De tudo quanto pode ser abrangido por essa designação genérica. Que inclui aspectos essenciais da nossa vida, como a saúde, a educação e a segurança social. Mas também os cuidados com os deficientes, os idosos e os inválidos. Assim como os serviços de justiça, dos registos, do notariado, da burocracia e da imigração. Além do atendimento relativo aos grandes serviços de telefone, correios, gás, água e electricidade. Para já não falar dos evidentes, constantes, essenciais e sempre críticos transportes públicos. Em praticamente todos estes serviços, sectores, instituições e empresas, vive-se, há bastantes anos, em crise cada vez mais aguda.

 

As filas de espera na saúde são conhecidas. Agora, foram ofuscadas pelos partos em ambulância assistidos por bombeiros sempre generosos, mas nem sempre qualificados. Ou por mortos à espera de admissão. Ou pela necessidade de fazer centenas de quilómetros para uma emergência. A saúde em Portugal, dominada retoricamente pela ideia do Serviço Nacional de Saúde, é um dos principais factores de promoção da desigualdade social e da injustiça em Portugal.

 

O desumano tratamento administrado pelas empresas de telefones, de correios, de água, de gás e de electricidade é crescente e de refinamento sádico. As avarias não reparadas, os equipamentos deficientes, os aumentos de preços injustificados e as esperas por atendimento são proverbiais. Uma sua grande especialidade reside nos “contratos de fidelização” (até vários anos) que são verdadeiros artifícios de exploração e escroqueria, autênticos expedientes para disfarçar a ilegalidade absoluta da prática de monopólio e de contrato leonino.

 

A destruição e a privatização hipócrita, integral ou parcial, de grandes empresas públicas dedicadas aos serviços, como nos casos dos petróleos, do gás, dos correios, dos aviões, das telecomunicações, da energia e da água são exemplos flagrantes do que se pode designar como decadência programada. 

 

Os transportes públicos ultrapassam qualquer esforço de ficção negativista ou de crítica descabelada. Atrasos, desconforto, exploração, aumento de preço, falta de higiene, insegurança e violência são as suas realidades quotidianas. Os transportes urbanos foram relegados para uma miséria indisfarçável. As redes de comboios nacionais, regionais e suburbanas foram abandonadas e negligenciadas talvez a favor dos automóveis, talvez por desprezo e incompetência e talvez por interesses ilegítimos. Certo é que os transportes de caminho de ferro de passageiros são o que há de mais próximo do inferno na terra. Tal, aliás, como os transportes aéreos, cujo retrato mais fiel é o dos aeroportos, com horas de espera para sair ou entrar no país, com desconforto crescente, com aumentos de preços impostos e horários inesperados e incertos.

 

Em muitas cidades, a começar por Lisboa, o espaço público é um dos mais confrangedores exemplos da decadência social e da miséria criados pelas novas miragens do turismo às dezenas de milhões, dos transportes improvisados, da rapidez na criação de falsos empregos e de empresas fictícias. Grande parte da Baixa de Lisboa, um dos mais belos tecidos urbanos públicos históricos da Europa, é hoje uma “terra devastada”, de destruição por desleixo e de ruína deliberada. O asseio público e os serviços de limpeza e manutenção atingem o grau zero decadência. Os centros históricos das cidades portuguesas, a começar por Lisboa, são cada vez mais territórios marginais e infernos sociais. Exemplos de desleixo e desmazelo. Casos flagrantes de marginalidade tolerada e fomentada.

 

A Administração Pública, o Estado, as autarquias e as empresas públicas têm-se revelado, ao longo das últimas décadas, desleixadas, incompetentes e sobretudo desinteressadas. A ideia de que pode haver dignidade e brio num serviço público é talvez cultivada, aqui e ali, por um funcionário, um cidadão, um técnico ou um trabalhador. Mas é valor com pouco eco e limitado interesse. E nenhum dever de organização, de cuidado e de humanidade. Pode tratar-se de mero desleixo. De obsessão propagandística. De absoluto desmazelo. De ausência de liderança. De incompetência. De voracidade e desejo de lucro. De falta de cultura e de ideal moral. Ou de tudo um pouco. Ou muito de tudo. Mas que ninguém duvide: esta absoluta falta de humanidade e de qualidade será um princípio de morte. A democracia e a liberdade terão cada vez menos pessoas que as defendam quanto menos razões tenham para viver com sentido social e com valor humano.

 

As inundações e os vendavais, as chuvadas e os deslizes de terra, foram outros tantos obstáculos, perigos ou desastres que a sociedade soube mal enfrentar, porque sobretudo quem tinha a missão de ordenar, inspirar, organizar e liderar não o fez, não soube fazer, não percebeu a tempo e não se sentiu empenhado. Para, tardiamente, tentar fazer propaganda.

 

Há cem, duzentos ou mais anos que a ideia de “servir o povo” ou servir a população alimentou programas políticos de esquerda ou direita, europeus ou asiáticos. Poderiam ser slogans sem consequência. Tratava-se por vezes de oportunismo político. Mas também de sentido de missão. E de responsabilidade pública. E de necessidade de dar espírito a quem pedia ou alma a quem oferecia humanidade. Cuidar do bem comum é talvez a missão mais elevada de qualquer funcionário, governante ou autarca. Entre nós, tem falhado.

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Público, 7.2.2026

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