28.3.26

Grande Angular - A pesada mão invisível

Por António Barreto

O Tribunal Constitucional está incompleto, espera… O Conselho de Estado, incompleto, talvez paralisado, espera… Os Conselhos Superiores das magistraturas, inacabados, esperam… O Provedor de Justiça, inexistente, espera…. Várias entidades reguladoras esperam…. Diversos organismos de fiscalização esperam…. Todos esperamos. Estamos perante um início, um vulto de crise das instituições. A causa está no Parlamento, que não cumpre os seus deveres. A responsabilidade está nos partidos, que não desempenham com lealdade as suas funções.

 

O Governo do PSD não se decide. Quer sol e chuva. Governar ora com o Chega, ora com o PS, ora com ninguém, à espera de drama que o favoreça. Procura voluptuosamente o ponto de crise, a ruptura que lhe permita ser derrubado, culpando os outros. Esta não é uma maneira de servir o país.

 

O PS, em crise de letargia unânime, não consegue optar entre a oposição, a neutralidade ou a situação. Queria ser chamado, mas não é. Gostava de ser designado como principal oposição, mas não foi. Não consegue escolher entre social-democracia e liberalismo, nem entre América e Europa, muito menos entre esquerda e direita. Caminha, como um sonâmbulo, para a sua irrelevância.

 

O Chega limita-se a fazer aquilo que sempre fez: provocar. Envenena os outros, esperando. Quer conquistar lugares. Mas age como se não quisesse. Sabe que a sua importância depende do facto de estar cá fora a perturbar. Sabe que se for integrado no sistema perderá o balanço e a mola. Exige lugares, mas, se não lhos derem, ganha duas vezes, exige e queixa-se.

 

Os partidos não se dão conta de que o tempo corre contra eles. A impressão crescente é a de que não são capazes de resolver. Pior ainda: a sensação é a de que é por sua culpa que as coisas correm mal. Não conseguem eleger os seus representantes? É porque há gato. Há interesses inconfessáveis. Há manobras perversas que explicam. Há ambições ilegítimas que dominam.

 

Até o lado partidocrata do sistema político está em causa. Quando se diz que a Assembleia da República vota, deve dizer-se os partidos votam, não a Assembleia. Isto é, os dirigentes partidários, não os deputados. Quando os partidos tiverem decidido quem querem eleger para os órgãos em falta, os deputados, mesmo em voto secreto, votam de acordo com os seus chefes. Já aconteceu, mas são raras as vezes em que os deputados agem livremente em voto secreto. Geralmente, a disciplina reina. O voto, dentro de duas ou três semanas, será um revelador do estado de saúde dos partidos. O Chega reclama a representatividade. O PS invoca um pretenso equilíbrio político.

 

A concepção socialista deste “equilíbrio” é estranha. Ao reclamar contra a eventual eleição de um juiz do Chega, com os favores do PSD, os socialistas dizem que se rompe o equilíbrio, que se trata quase de um golpe constitucional. Dado o actual panorama, bem vista a composição do Parlamento, não parece insensato que haja uma inclinação à direita. Ora, o PS já denunciou a quebra do equilíbrio instaurado há anos e que repartia os juízes equitativamente entre o PSD e o PS. Não se percebe a noção que os socialistas têm desse equilíbrio. É uma “mão invisível” que ordena a vida política desde há quarenta anos? São “direitos adquiridos” do PS, válidos em qualquer evolução eleitoral? É um “sopro divino” que trata o PS com especial favor?

 

Como se faz um equilíbrio democrático sem critérios verificáveis? Como se estabelece esse equilíbrio sem os votos dos cidadãos? Quando o PS ou o PSD tiverem 10% dos votos, o equilíbrio mantém-se? Mesmo se outros partidos tiverem 40%? O nascimento deste “equilíbrio” não tem origem em acordo de cavalheiros ou em altruísmo político. Foi um tratado puro e duro, no mútuo interesse, numa altura em que vingava uma espécie de “bipartidarismo”. Este deixou de existir. É patético tentar mantê-lo, quase constitucionalmente, sem os votos soberanos. Aliás, esse equilíbrio invisível foi desrespeitado quando se tratou de derrubar governos minoritários ou quando se criou a “geringonça”.

 

É natural que o Chega queira aproveitar, mesmo se detesta a Constituição. É natural que o PSD hesite entre essa ou a outra solução, a do PS. O problema é que não se trata de questão constitucional ou de espírito transcendente. Na verdade, é uma pura questão de escolha. Dado que compete ao PSD escolher, é a esse partido que incumbe o ónus de optar. Quer uma aliança séria, com conteúdo, prioridades, participação no governo e responsabilidades nas instituições, com o Chega ou com o PS? À direita ou à esquerda? Quer um bloco central? Quer uma coligação do centro democrático? Ou quer toda a direita? Com quem quer partilhar responsabilidades nacionais? Conforme a escolha, faz todo o sentido que um acordo desse género inclua convergência de esforços nas eleições de representantes do Parlamento nas instituições. Em qualquer caso, compete ao PSD tomar a iniciativa.

 

Se o PSD decidir ficar sozinho e prosseguir esta via de oportunismo manso e de inocência manhosa que consiste em fazer maioria ora com uns, ora com outros, na esperança de os acusar de serem as forças de bloqueio e os travões às suas reformas, se for esta a sua escolha, terá de pagar a factura. Quando o Chega e o PS perceberem de vez que estão a ser manipulados e que já não há esperança de ver o PSD convertido a uma variedade do interesse nacional, então nessa altura cairão governo e parlamento. O que se seguirá? Já sabemos. Eleições, dissolução, instabilidade.

 

A democracia é assim: escolhem-se os parceiros com quem se fazem maiorias, governos e políticas. Se houver acordo entre o PSD e o Chega, que seja de política geral e inclua governo. Da mesma maneira, se for entre o PSD e o PS. A alternativa é simples: ou um ou outro, com governo e legislatura. Não há volta a dar. O resto é oportunismo. É mau governo. É mau serviço prestado ao país. Os três, PSD, Chega e PS, precisam de se olhar melhor ao espelho. Eles não sabem, não se dão conta do mal que estão a fazer ao país e à liberdade.

 

Parece evidente que a melhor solução é a da maioria formada pelos PSD e PS, com partilha de governo, comunidade de questões constitucionais, coesão política e união de objectivos. Estes dois partidos conhecem-se bem. Ambos querem genuína estabilidade. Nenhum tem qualquer ideia subversiva. Mesmo o seu histórico de aproveitamento partidário é conhecido por ambos, o que ajuda.

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Público, 28.3.2026

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25.3.26

VULCANOLOGIA PARA JOVENS EXPLORADORES


Uma pérola no domínio da vulcanologia, ao serviço dos professores e alunos,

Escrita e ilustrada por quem sabe.

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23.3.26

Acerca do cinismo...

 

Portanto, ao mesmo tempo que Portugal ajuda a Ucrânia a defender-se da Rússia,  dá dinheiro a esta para atacar aquela...
Mas o absurdo não termina aqui: dos 2 gasodutos construídos para alimentar a Europa a partir da Rússia, o submarino foi sabotado, mas o outro continua a funcionar... e atravessa a Ucrânia...
Aliás, a mesma Europa já fez saber que está a tratar de ficar independente energicamente da Rússia, mas isso só acontecerá lá para 2028...
Os EUA, por sua vez, continuam a comprar combustível nuclear aos russos, numa percentagem de, pelo menos, 25% (António Vidigal refere mesmo 70%)... 

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21.3.26

Grande Angular - Os amigos e os outros

Por António Barreto

O estudo da “Action for Democracy” e o trabalho do Público e de Pedro Guerreiro são estímulos à reflexão, sobretudo quando as coisas estão difíceis. Estes trabalhos fornecem comparações muitos interessantes e ajudam a responder a perguntas necessárias. Quem são os nossos amigos? Os democratas têm sempre razão?

 

Os “meus amigos”, aqueles com quem gosto de conviver e com os quais posso ter alianças, são os países ou Estados democráticos. Onde há liberdade. E respeito pelas pessoas e seus direitos. Não hesito, nem tenho dúvidas. Mas sei que até os meus amigos fazem disparates e coisas inadmissíveis. Como o governo americano, sob Trump, como o governo israelita, com Netanyahu. Como, aliás, cuidadas as proporções, o governo português, com Montenegro, Passos Coelho ou Costa. Não é por fazerem certas opções que deixam de fazer parte do grupo dos “amigos”. Os que não são “amigos”, que poderão ser “inimigos” ou “adversários”, podem até ter razão uma vez, não é por isso que passam a ser amigos.

 

O mundo está dividido. Entre democracias e não democracias (autocracias, ditaduras, teocracias, plutocracias…). Tudo somado, tenho a percepção de que as democracias são cada vez menos. E que, nestas, o número de não democratas é cada vez maior. Lamento que nos últimos anos as democracias estejam a perder. Porque alguns deixaram de o ser. Porque outros deixaram de o desejar. Porque outros tentam aproximar-se de ditaduras. E porque mesmo dentro das democracias antigas, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália, apareceram movimentos e aventureiros antidemocráticos. Tal como no meu próprio país.

 

Muitos que vivem em democracia ficam complacentes com todas as formas de antidemocracia que vigoram. Olham para as questões de género, de raça, de cultura, de nacionalidade e de etnia seja com desprezo reaccionário, seja com indulgência covarde. Observam, com atávico respeito, os Estados muçulmanos, nunca democráticos, sempre machistas, geralmente autoritários e muitas vezes fanáticos. Olham para o mundo abdicando dos seus valores, porque assim acham mais confortável: o russo cruel e conquistador, o americano imperialista e bélico e o israelita vingativo são admirados ou perdoados. Finalmente, criticam a uns o que desculpam a outros. O que se detesta na Rússia, admira-se em Israel. O que se critica em Gaza, perdoa-se na Ucrânia. O que se aceita na China, critica-se nos Estados Unidos. “Dois pesos e duas medidas” é a fórmula mais simples para caracterizar a abdicação de tanta gente na Europa.

 

A ideia de que o império russo poderá um dia ser democrático e pacífico é uma ilusão. Imaginar os regimes islâmicos como entidades democráticas e respeitadoras dos direitos humanos é miopia. Considerar que o império chinês é democrático é estrabismo mental. Os valores orientais, as tradições chinesas, a herança cultural africana, as crenças islamistas, os usos indianos e os costumes ameríndios têm as suas grandezas, a sua beleza e o seu direito à existência. Mas, das suas tradições, não fazem parte os direitos dos cidadãos. Podem ter importância estética, religiosa, até humana, mas deles não vem a democracia. Esta é europeia e ocidental e está sob ameaça.

 

Muitos democratas portugueses erram… Quando consideram progresso ceder à ordem civilizacional de Estados não democráticos. Quando imaginam que o afastamento de estrangeiros pode ser via de progresso. Enganam-se quando aderem ao fascínio pelo poderoso e anafado. Enganam-se quando imaginam que é progresso aderir aos valores cruéis dos povos que desprezam mulheres, maltratam crianças, odeiam velhos e detestam opiniões livres. Enganam-se quando aderem aos costumes dos povos opressores. Enganam-se quando desprezam a cultura ocidental por a considerar mãe dos defeitos humanos. Como se enganam os que são incapazes de criticar os americanos quando estes desprezam os aliados. Enganam-se os que criticam ferozmente os americanos pelas intervenções militares e desculpam ou aceitam as intervenções militares russas, iranianas…. Enganam-se, mas é exactamente o que pensam.

 

Tanto os nossos amigos como os outros: todos devem ser criticados. Os Governos americano, israelita, russo e iraniano devem ser criticados, nenhum merece perdão. Mesmo se uns pertencem ao mundo das democracias. Os governos destes últimos Estados amigos passarão e, um dia, reencontraremos as democracias com as quais partilhamos valores. Quanto aos outros, que também passarão, não é provável que dêem lugar a Estados democráticos. Há povos, países e Estados assim: quase nunca aspiraram à democracia, sempre tiveram aversão pelas sociedades livres, detestam as políticas liberais, não conhecem os direitos dos cidadãos e abominam a cultura livre.  Por isso, nunca compreendi que um “progressista” pudesse reservar as suas fúrias para a crítica aos americanos e aos europeus, deixando em silêncio Estados que militam contra a democracia em qualquer parte do mundo.

 

O Presidente Trump tem dado mostras de comportamento imperialista. Além de desencadear guerras perigosas, despreza os aliados, desrespeita o direito internacional e prepara-se para destruir o que sobra da NATO. Por pior que seja, não basta para considerar os Estados Unidos da América uma ditadura ou um inimigo. A seu tempo, o povo americano dirá o que pretende a seguir. A Grã-Bretanha saiu da União Europeia, a Hungria aproxima-se da Rússia e a Espanha prefere fazer caminho solitário. O que precede enfraquece o campo da democracia, mas não é suficiente para que os países em questão deixem de ser nossos amigos.

 

Netanyahu, Trump, Orbán, Erdogan, Putin ou Xi não erram, são o que são. Põem deliberadamente em causa o direito internacional e procuram estabelecer novas relações de força. Uns fazem parte do mundo democrático, outros não. Uns podem ser postos na rua pelos seus povos, outros não. Todos merecem ser criticados. Mas não se pode confundir quem vive na liberdade dos seus povos com quem a suprime. É por isso que, mau grado críticas e contestação, uns são amigos, outros não.

 

Há ricos e pobres. Brancos e negros. Cristãos e muçulmanos. Judeus e gentios. Hindus e budistas. Cosmopolitas e nacionalistas. Imperialistas e submissos. Capitalistas e trabalhadores. Desenvolvidos e atrasados. Um sem fim de diferenças e divisões. Mas há uma divisão que se sobrepõe a todas: entre democratas e não democratas. Entre quem vive em liberdade e quem vive em ditadura. Entre quem elege os seus governantes e quem os sofre. Entre quem tem liberdade de expressão e quem vive na censura. Esta é a divisão que me importa mais do que todas.

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Público, 21.3.2026

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20.3.26

Pergunta de algibeira

 

Há aqui alguma coisa que não está bem. O que é?

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14.3.26

Grande Angular - Inevitável

 Por António Barreto

Há palavras proibidas em política. Pela simples razão de que falham quase sempre no seu propósito. Inevitável é uma delas. Tal como impossível, inescapável e infalível. Além de outras. Mas o sentido é o mesmo. Quando tudo leva a crer que vai ser assim, não é. Quando é certo e sabido que não pode acontecer, vai ser. Na verdade, são termos usados para reforçar as nossas esperanças, não as nossas certezas. São palavras que servem para reforçar a nossas previsões, não para garantir a profecia. Com essas expressões, queremos contribuir para que sejam verdadeiras ou mesmo o contrário, para assustar e fazer com que não o venham a ser. 

 

Tudo isto para sublinhar uma afirmação simples: é inevitável que este governo chegue ao fim antes do prazo; que haja eleições antecipadas; ou que haja novo governo com o Parlamento actual; ou finalmente que haja uma coligação capaz de governar o país com maioria e eficácia.

 

O Presidente Seguro disse, logo na tomada de posse, que esperava ou desejava que não houvesse eleições legislativas antes de tempo, isto é, antecipadas. Gostaria, pelos vistos, que a legislatura terminasse dentro do prazo. Fez muito bem. Tem toda a razão, apesar de sabermos que não depende só dele. Mas noto que ele não disse que gostaria que este governo durasse até lá. Ficou em aberto a hipótese de, com este parlamento, se organizar um governo diferente, nomeadamente um governo de coligação.

 

Um governo minoritário é sempre errado. É ou tem ar de provisório. Destina-se em geral a ser demitido, na esperança de que novas eleições tragam uma maioria. O PSD e o PS que o digam, pois navegaram por essas águas, às vezes com proveito. A grande esperança de um governo minoritário é a de, depois de gastar tudo, ser “injustamente” derrubado, caminhar para novas eleições e então ganhar a maioria. O governo minoritário é o de quem não quer partilhar ou dividir, quer tudo para si e seus apaniguados. Serve para incomodar os adversários, para fazer de vítima das oposições e para permitir gastar o erário público prestando poucas contas. Tem como beneficiários ou destinatários os seus militantes e os seus simpatizantes, tudo menos reformar com peso e medida, pensar a prazo e tomar conta das necessidades do país. Apesar de já ter tido boas opiniões e sinceros defensores, mas inexperientes, o governo minoritário foi sempre engano ou falsidade. É geralmente hipócrita e cínico. Nunca deixa de ser malandrice habilidosa. É um disfarce de serviço e sacrifico, é mera artimanha. Destina-se a obter vantagens próprias e exclusivas. É tudo, menos serviço ao país e ao povo.

 

Muitos portugueses, uma grande quantidade de jornalistas e quase todos os comentadores têm uma afeição especial pelos governos minoritários, eventualmente a prazo. É a sua vida. Calcular, fazer cenários, estudar as artes e as manhas dos políticos. Prever as tácticas possíveis, tropelias e alçapões, são actividades lúdicas, por vezes interessantes, geralmente irresponsáveis e diletantes. Mas é infelizmente muito de que vive a política. E a política de governo minoritário nem se fala!

 

Considerar a bondade e a utilidade de um governo minoritário, hoje, em Portugal, é incompreensível. Só mesmo por ganância e ambição. Nem se fala da situação internacional. A Europa tem estado a perder pontos, tanto militares como políticos, económicos, sociais e culturais. Pior ainda, o mundo ocidental tem estado a perder. Primeiro, porque a divisão entre Estados Unidos e Europa é perigosa, mas aparentemente irreversível. Segundo, porque o mundo democrático, tanto o real como o fictício (o que aspira, mas não é) tem estado a recuar, em força e segurança, mas também como modelo para outros povos. Terceiro, porque a crise económica e financeira, incluindo a dos preços da energia, está para ficar e afecta países como o nosso de modo radical. Quarto e finalmente, porque os perigos de enormes guerras regionais ou multinacionais são cada vez maiores, dividem o mundo, antagonizam países e destroem o direito internacional: o bastante para que cada país reforce os seus meios de estabilidade, defesa e segurança. Tudo isto, que nos escapa, mas nos fere, recomenda ao fortalecimento da democracia, dos direitos dos cidadãos, da consolidação das instituições e da coesão política e nacional. Nada disto aconselha aos jogos florais da política caseira nem às palhaçadas de bairro que tanto animam muitos políticos. Nunca, como hoje e desde há oitenta anos, vivemos com tão grandes ameaças, tão próximos dos desastres e de suas consequências. Mesmo que se evite o pior, o que aí vem não se recomenda. 

 

Nem é preciso invocar a situação internacional e os iminentes perigos. A situação nacional e as suas debilidades são suficientes para exigir, das autoridades, dos partidos, das instituições e das empresas, um esforço especial de clarividência e de cooperação. Apesar de progressos localizados ou passageiros, Portugal tem dado sinais crescentes de fragilidade e de declínio. A vida nas cidades, a qualidade do espaço público e o uso de transportes colectivos transformam-se em pesadelos. A segregação entre ricos e pobres aumenta. O falhanço dos serviços públicos, nomeadamente da saúde, com especial sofrimento dos pobres e das classes médias e trabalhadoras, é abominável. Portugal dos fogos e dos incêndios, dos vendavais e das inundações, é o nosso Portugal de hoje, frágil, inquieto e temeroso. O ambiente moral tem-se degradado, com a ascensão dos ricos e dos favorecidos, em detrimento de todos os outros. A proliferação do populismo mais demagógico e irracional que se pode imaginar não é antídoto, antes faz parte desta espécie de crise deslizante.

 

O que tem de se fazer na legislação laboral, na reorganização do Serviço Nacional de Saúde e na recuperação e desenvolvimento dos transportes públicos, não é compatível com as minas e armadilhas dos governos minoritários. O que se deve fazer para reformar a Justiça não é simplesmente possível sem uma corajosa legislação e uma ousada colaboração com magistrados e advogados, impossíveis de se encontrar com governos de brincar. Tudo o que é importante e urgente exige governo maioritário e responsável, empenho do Parlamento, sintonia do Presidente da República e colaboração das instituições. Com todo o respeito pelos direitos dos cidadãos e das oposições. Nem mais. Nem menos.

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Público, 14.3.2026

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7.3.26

Grande Angular - Crise: fonte e remédios

Por António Barreto

É inquietante este ambiente de crise que se vive em Portugal. O espectro da instabilidade paira sobre o país. No seu bairro, os cidadãos sentem-se inseguros, ou antes, sem certezas. A falta de esperança parece residir em cada rua. Todos parecem acreditar em que o governo volta a cair em breve, que haverá talvez eleições, quem sabe se delas alguma coisa resulta, tal como nas últimas. Um Presidente da República tem vontade, mas não tem poder. O Parlamento está insuportável de baixa qualidade de debates e de falta de produtividade legislativa. E, quando parece trabalhar muito, trabalha mal e aos berros. O poder actual, social democrata, está ameaçado por si próprio. O Primeiro Ministro pede ansiosamente três anos e meio, para o que nada faz. O poder alternativo, socialista, está débil. O poder contra o sistema, populista, é ele próprio crise e instabilidade, é esse o seu programa. A três, não se entendem. A dois, não conseguem. A um, não vence.  Vai haver crise? Talvez. Quando? Não se sabe, mas brevemente. Porquê? Esta é a questão.

 

Estamos, pois, instalados na crise ou nas suas vésperas. Será crise social e económica? Não é. A emigração para o estrangeiro voltou a funcionar como válvula de segurança, até por excesso, dado que faltam centenas de milhares de trabalhadores. Os imigrantes, apesar das dificuldades, suas e nossas, são fonte de acalmia, não há pressão salarial, não há tensão sindical, não há ambiente de greve. O poder de compra tem subido, pouco, muito pouco, mas alguma coisa. O emprego está no máximo. Não faltam os abastecimentos. Os preços sobem muito, mas aguentam-se, assim se vivendo pior, talvez, mas não tão mal como isso. Os serviços públicos (transportes, saúde, educação, atendimento publico, habitação) estão em péssimo estado, talvez mesmo em degradação, mas a esses os portugueses estão infelizmente habituados.

 

A demografia também não está muito bem, mas não parece ser causa de crise política. Cresce o número de idosos, ainda por cima mal tratados e mal protegidos. Há crianças a menos, o que não tem efeitos políticos a curto prazo. Há muitos estrangeiros, com problemas, mas sem força. Há muitos portugueses emigrantes, o que retira força e mobilização. As comunidades urbanas desfazem-se a olhos vistos, com a degradação imobiliária, os custos absurdos da habitação e a fuga para as periferias sem identidade nem coesão. Os bairros e os centros históricos entraram em declínio, entre o abandono, o desleixo e o turismo errático. Tudo isto faz uma má sociedade e um país triste, mas não faz uma crise política.

 

A economia não está assim tão mal. Poderia estar melhor. Poderia ter salários superiores. Mais investimento externo. Mais empresários portugueses. Mais inovação. Mais acção e menos “estratégias”. Mas emprego, rendimentos e oportunidades não estão em crise verdadeira. Não há rivalidades e contradições sociais, nacionais, regionais e de classe que justifiquem crise. Não há os ingredientes clássicos, os representantes do grande capital, os dos monopólios, os da pequena burguesia, os das classes médias, os das classes trabalhadoras e os do mundo rural. 

 

As actuais crises sociais são terríveis e de efeitos arrasadores. Alimentam-se da droga e da corrupção para as quais a política do presente não tem solução. Residem na falta de segurança crescente, apesar de ainda não alarmante. São evidentes na habitação e no alojamento. Nas condições de vida dos ilegais e dos imigrantes. Na saúde desorganizada. Nas cidades devastadas, desleixadas, desconfortáveis, sujas, agressivas, desmazeladas e fúteis. Mas nenhuma destas se transforma em crise política e esta última em solução, em batalha eleitoral com sentido e futuro, em acordo entre partidos. 

 

Porquê, então, este sentimento de crise? Este ambiente depressivo que gera pessimismo e percepção da inutilidade do debate e da democracia? Porquê esta sensação de que não há estabilidade, não há propósito, não há substância e conteúdo e só há táctica, estratégia e cálculo?

 

O clima de crise política, mais uma vez, não tem origem na sociedade, na economia, na luta das classes, em conflitos regionais ou nacionais. Também não parece ter origem nas mais gritantes chagas da sociedade portuguesa actual, a corrupção, a justiça, a saúde e os serviços públicos. Nem sequer decorre da crise europeia e mundial de guerra, de fragmentação e de alteração de alianças. Não! O ambiente de crise reside na falta de maioria parlamentar e na aparência de eleições permanentes. Traduz-se na impressão de que a democracia é inútil. Mora nos agentes políticos, nos três principais partidos e nos seus dirigentes, nos deputados e nos governantes. Resulta da tensão pessoal dos dirigentes, presentes, passados e futuros. É efeito da intenção central dos dirigentes do sistema, mas também dos candidatos e dirigentes anti-sistema. Ventura é tão responsável por esta situação quanto Montenegro ou Carneiro e respectivas equipas dirigentes. O Chega é um produto da crise, não um remédio. Um sinal da crise, não uma luz.

 

Porquê então esta certeza de que a situação social dos pobres, dos remediados, das classes trabalhadoras, das classes médias baixas, dos doentes e dos idosos é a última preocupação das autoridades políticas? Talvez mesmo a preocupação que vem depois da última? Porque os projectos dos líderes e dirigentes, a ambição, a falta de maioria parlamentar e a ausência de determinação na procura de estabilidade vivem deste mito ou deste fantasma que é o da certeza de que a crise de todos é a nossa riqueza, o inferno dos outros é o nosso paraíso, a queda dos nossos rivais é a nossa ascensão.

 

Entrámos na era da segunda democracia. Com nova vida. Mas ainda é possível aprender ou recordar qualquer coisa. O primeiro mandato de Marcelo Rebelo de Sousa ficará talvez na história como a mais útil e sábia concepção das funções presidenciais: apoiar as instituições, ajudar os governos, suportar o parlamento, fomentar maiorias e ajudar à governabilidade. Na verdade, para lá da letra da Constituição, a função do PR não é a de ser mais uma instituição, mais um equilíbrio, mais um contrapeso, mais um fiscal e mais um supervisor. No nosso sistema, bom ou mau, bem e mal, as funções do Presidente da República deveriam sempre ser entendidas como apoio às instituições, não como substituto, rival ou adversário das instituições! São certamente as que melhor ficam na folha de serviços de um Presidente. E na nossa vida.

 

Público, 7.3.2026

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