Grande Angular - O Poder – 1
Por António Barreto
Vivemos tempos estranhos. Nem sempre felizes. Mas ameaçadores. E perigosos. O poder tudo domina. A luta pelo poder. A conquista do poder. A manutenção do poder. Há uma espécie de cinismo, de crueza, neste mundo dominado pelo poder, mas, aparentemente, recheado de causas, bandeiras, preocupações e solidariedade. Até os bons sentimentos são ridicularizados. Os governos, os políticos, os jornalistas e os académicos vivem obcecados com o poder. Empresários, cientistas, sindicalistas e escritores vivem condicionados pelo poder. O dos outros, que denunciam, e o deles próprios, que festejam.
Alguns dirão que o poder é natural, próprio da Humanidade, dos homens e das mulheres. Que foi assim desde sempre. Diz-se que não há história sem poder e sem luta por ele. Que o poder é próprio da vida e das sociedades. Que, sem poder, as sociedades depressa caem no caos e na violência. Verdade. Parte da verdade. Há mais e talvez mais importante: o progresso na história também é o de fazer com que haja mais qualquer coisa do que o poder. Com que o poder sirva para algo. Que o que se faz com o poder seja mais importante do que o próprio poder. Que faz com que se tenha uma ideia forte de que o poder deve servir para se alargar a outros, a muitos, a todos, também aos que o não têm. É como a guerra. Sempre houve, dizem. Verdade. Mas é melhor lutar pela paz.
Por isso, atormenta ver quem faz política ocupar-se cada vez mais do poder. E quem comenta a política comentar cada vez mais o poder. Aflige ver todos os dias os que cultivam o poder por si próprio e para si próprios. É o que acontece, apesar de todas as advertências, a começar pela de Acton: “O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente”. “Sobretudo os que o não têm”, acrescenta logo o cínico Andreotti.
A corrupção gerada pelo poder é evidentemente um grave e sério problema. Esta é um dos grandes inimigos da liberdade e da democracia. Mas o pior de tudo no poder e no seu exercício é o efeito demolidor da decência humana e do conteúdo moral dos nossos comportamentos. O poder tem muitas vezes, quase sempre, esta consequência, a de extinguir os valores morais da sociedade e das comunidades. Ao poder forte e assertivo, auto-suficiente e agressivo, desculpa-se muito, tudo.
É provável que as últimas décadas da história do mundo tenham sido marcadas por esforços raros ou inéditos de estabelecimento de sociedades mais decentes. Antes, uma série de horrores terá marcado a evolução da humanidade, desde as consequências do capitalismo, da revolução industrial e do colonialismo imperialista, até às insanidades das ditaduras comunista, fascista e nazi, passando pelas piores guerras que o mundo conheceu. Seguiram-se décadas em que o estabelecimento da paz foi a prioridade. Mas também o entendimento entre as nações e os Estados. As grandes organizações internacionais surgiram no século XX. As alianças consolidaram-se, mais as defensivas e as comerciais do que as agressivas. Os organismos regionais estabeleceram-se, com relevo, para nós, da Comunidade Europeia. Pela paz ou pela luta, reconheceram-se mais de 150 novos Estados independentes, o que poderia significar algum crescimento da dignidade dos povos. A democracia guindou-se à altura de regime favorito, com mais mérito, com mais apelo. Todos queriam ser democráticos, ou parecer democráticos, mesmo os que não o eram.
A paz no mundo, a democracia na nação e o bem-estar em casa: esperanças que alimentavam as sociedades. Sem falar na liberdade e na igualdade, valores que pareciam ocupar os espíritos e as políticas. A entrada do novo século foi de uma absoluta frieza. Gradualmente, as democracias recuaram no mundo, a liberdade também. As hipóteses de guerra aumentaram. Assim como os conflitos armados. A procura de dinheiro, poder, armas e recursos naturais é agora epidémica. Lentamente, os valores que faziam de nós melhores pessoas, como, entre outros, a paz, a liberdade e a solidariedade, esmorecem. A força destruidora do dinheiro impõe-se. A busca ansiosa de poder domina as nossas comunidades. Democracias e ditaduras aprendem a conviver. Gente decente trata e coexiste com terroristas, ditadores e assassinos. E com traficantes de tudo, droga, armas, mulheres, crianças e trabalhadores.
A história contemporânea parece ser uma caminhada rápida para a concentração de poder. Nunca como hoje tão poucos bilionários detiveram uma percentagem tão elevada da riqueza do mundo inteiro. Nunca tão poucos políticos e militares tiveram tanto poder de massacre, destruição, invasão e agressão. Nunca como hoje houve tantos poderes incontestados, ilimitados e louvados. A China, a Rússia e a América são governadas por aparelhos de poder destinados a aumentar o poder dos chefes sobre os cidadãos e do país sobre outras nações. Nunca como hoje se assistiu a esta exibição obscena de poder económico e empresarial, tal como é demonstrado por umas poucas dezenas de conglomerados financeiros que regem e regulam o mundo. Até a América, grande bastião da liberdade, parece soçobrar.
Pelo que se vê ainda em quase todos os países africanos e em muitos latino-americanos e asiáticos, a concentração do poder em poucas mãos é a tendência dominante. Ditaduras carismáticas ou sanguinárias seguem esse caminho. Há três ou quatro décadas, muitos Estados reclamavam uma designação de democracia, até a incluíam nos seus nomes formais. Era uma aparência, um disfarce ou um engano, mas essa força iconográfica traduzia qualquer coisa. República democrática disto ou daquilo. Para já não dizer República democrática e popular daqueloutro. Actualmente, nem isso, nem a reclamação formal tem atractivo. A virtude, hoje, pode residir aí mesmo, no poder, sem adjectivos e sem concessões.
Desaparece um dos sonhos da humanidade, o de esperar que o poder das sociedades, das nações, das empresas e dos exércitos sirva para alargar as suas bases, aumentar o número de detentores e democratizar as formas de o exercer. Desaparece o sonho de fazer o bem com o poder, de dar de comer a quem tem fome e agasalho a quem tem frio. Desaparece o ideal de diminuir os que não têm qualquer poder, os “sans culottes” e os sem abrigo e de aumentar os que têm um qualquer poder, meios para viver, recursos para progredir e fazer filhos. Desaparece a esperança de dar de beber água potável a Africa, terra fértil à América Latina, emprego a tanta gente e paz a tantos países. Fica o deserto. E chamam-lhe poder.
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Público, 9.5.2026
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