22.6.24

Grande Angular - E não se pode proibi-las?

Por António Barreto

Moralmente, o método das escutas policiais, judiciais e outras está condenado. Politicamente, não é apreciado, mas defendido sem prazer. Judicialmente, é aceite. Os que o praticam, em princípio os magistrados judiciais e do Ministério Público, polícias, militares e outros funcionários, aceitam e defendem a sua aplicação. Já as escutas privadas, isto é, praticadas por qualquer cidadão, empresa ou agência, são condenadas e proibidas: são ilegais e apenas defendidas por quem as pratica.

 

As pessoas que defendem o recurso às escutas de Estado têm argumentos conhecidos. Sem elas, muitos crimes teriam sido cometidos. Com elas, é possível orientar as investigações. Graças a elas, podem provar-se crimes. São maneiras de controlar o mercado de droga, o terrorismo e o crime financeiro. São os melhores instrumentos para investigar a corrupção. São indispensáveis para castigar o crime fiscal e financeiro. Finalmente, são essenciais para a segurança do Estado.

 

Nada disto está demonstrado. Nem está provado que, sem as escutas, não haveria outros meios de investigação e prevenção. Como não se conhecem os casos que só foram detectados graças às escutas. Mas sabe-se dos casos em que o sistema de escutas não preveniu. Como, por exemplo, os actos de terrorismo de Nova Iorque, Paris, Londres, Madrid, Moscovo, Israel e outros.

 

É possível que nos argumentos favoráveis às escutas haja uma qualquer verdade. Mas também podemos dizer que há milhares de crimes para os quais as escutas de nada serviram. Como seria interessante saber que crimes foram evitados e quantos criminosos foram condenados graças às escutas. Dizer que são úteis não basta. É necessário demonstrar que o foram e como eram o único meio existente.

 

É possível que haja crimes prevenidos graças às escutas. Mas não sabemos se outros meios não teriam dado os mesmos ou melhores resultados. Nem sabemos, em toda a sua extensão, os prejuízos causados à população, os atentados cometidos contra os cidadãos, os abusos praticados e os casos de ameaça, chantagem e extorsão de que muita gente pode ser vítima de quem abusa das escutas. Em poucas palavras, se há benefícios, é seguro que são obtidos a custo elevado, a expensas dos direitos dos cidadãos.

 

Há países, de regimes autoritários, onde se vigiam os cidadãos. Todos. Na rua, no banco, na escola, em casa, no emprego, no estádio e no bar. De cada um, sabe-se o nome, a conta bancária, a família, os amores, os divertimentos, o cadastro e as dívidas. Assim como as preferências estéticas, políticas, sexuais e gastronómicas. Basta andar na rua para ser identificado. Em países democráticos, onde existem os meios para fazer as vigilâncias que se quiser, há limites na lei, mas pratica-se igualmente. Com menor intensidade. Mas, pouco a pouco, com receio do terrorismo, dos narcotraficantes, dos vendedores de sexo, dos intermediários de mão-de-obra, do crime organizado, dos manipuladores da bolsa, vão-se admitindo excepções e novos meios de vigilância. É verdade que também se aprovam leis de protecção de dados pessoais. Mas sempre com falhas e excepções.

 

Na verdade, por cada escuta “útil”, deve haver milhares “inúteis”, isto é, a pessoas inocentes, sobre assuntos indevidos. As escutas resultam sempre de “varrimentos” intensos. Parece que as que não são necessárias para os casos em questão são destruídas. Parece, não é certo nem seguro, como se tem visto nos últimos anos. Mas por que razão alguns indivíduos (funcionários, magistrados, oficiais, técnicos, polícias…) terão a cobertura da lei para escutar, apreciar, decidir, destruir e conservar o que muito bem entendem?

 

As escutas telefónicas têm características especiais. Para que resultem, são necessários milhares de escutas, dezenas ou centenas de pessoas, temas e assuntos diversos, com vida privada, comercial, política, cultural e o resto. Para uma chamada útil, com informação verdadeira, é necessário ouvir dezenas de pessoas e milhares de chamadas. Centenas de inocentes têm de ser escutados. Cria-se um ambiente permanente de suspeição.

 

Como é sabido, os grandes peritos em escutas não são só os espiões e as policias das ditaduras. São também das democracias. Pergunta-se: quem escuta os escutadores? Quem vigia os vigilantes? Não é possível deixar de lado todos os que nada têm a ver com nada. Nem os inocentes. Só depois de escutados e vigiados é que se sabe se dezenas ou centenas de pessoas estão ilibadas ou não. Além de que as escutas são um belo exemplo do paradoxo da ausência. Não estar referido numa escuta não quer dizer que seja inocente. Um silêncio ou uma ausência não são alibis. Falar sem nada dizer não quer dizer que se esteja inocente ou culpado.

 

As escutas permitem guardar dados para chantagem. Servem para ameaçar outras pessoas que nada têm a ver com o crime. As escutas deixam traços que tornam possível a sua utilização para outros fins. Que permitem a devassa pública. As escutas podem ser destruídas ou mantidas, a coberto da lei, por quem tem força e poder. As escutas permitem uma selecção dolosa de pessoas e de conversas. Por cada pessoa escutada, suspeita, são dezenas ou centenas de outras, inocentes, que são “apanhadas na rede”. Não é moralmente aceitável que, por um possível culpado, se atente contra os direitos de dezenas ou centenas de inocentes.

 

Não parece haver argumentos suficientes para justificar o recurso às escutas. Nem para demonstrar que os benefícios são superiores aos inconvenientes. Parecem inúteis os esforços para reparar o irreparável, para garantir e controlar o recurso a escutas. Há mais de trinta anos que se tenta encontrar a solução ideal: legislação mais apertada, escutas sob reserva, autorização de magistrados, licença de transcriação só para as seleccionadas entre milhares, com e sem destruição decidida por magistrado. É um sem fim de soluções para um problema que as não tem. Todo o contorcionismo jurídico para garantir a bondade das escutas e impedir o abuso tem-se revelado inútil. E nem sequer é possível demonstrar que as escutas deram vantagens à liberdade, aos direitos dos cidadãos, à vida humana e à privacidade.

 

Meias garantias não chegam. Tal como a tortura, o assassinato, a pena de morte, a prisão sem culpa formada e a prisão perpétua, também as escutas exigem uma clara definição: ou é ou não é. Se não há escutas, não há possibilidade de traficar e ameaçar com uma coisa que não existe. Sem escutas, não há mercadoria para tão vil negócio. A proibição total, pura e simples, parece ser a única solução justa e eficaz. Com garantias para os cidadãos. Não resolve todos os problemas. Mas pelo menos elimina alguns. E protege as liberdades.

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Público, 22.6.2024

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21.6.24

APOKÁLYPSIS



Por A. M. Galopim de Carvalho

Quem estudou História sabe que sempre foi assim.

A par da sólida, distraída e despudorada riqueza, 

sobrevive a mais triste, indigna e irremediável pobreza. 

Sempre assim foi e sempre assim será. 

Mas virá um dia, 

não sei quando, mas virá, 

em que, esgotados os recursos do planeta,

exaurido pela sobreexploração a que estamos a assistir, 

os pobres, com séculos de experiência na pobreza, 

levarão a palma na luta pela sobrevivência

 

Esta dolorosa desigualdade continua sem dar sinais de diminuir, 

numa sociedade onde a riqueza do planeta, a ciência e a tecnologia 

têm tudo o que é preciso para a erradicar.

O mundo das finanças ainda não percebeu que este drama vai ter um fim. 

Não sabemos quando, mas vai ter. 

Mais próximo do que se possa imaginar.

 

Então, ricos e pobres serão iguais, mas na pobreza.

Nesse futuro, um diamante vale menos do que um copo de água.

Nesse futuro, os pobres estarão em vantagem 

porque ganharam toda a sabedoria de viver nessa condição

 

O Mundo tem de dar uma volta!

Muito grande! 

Mais cedo ou mais tarde, mas vai dar. 

E será com muito sofrimento, 

mas vai dar.

 

Liberto do “Homo sapiens”,

O Mundo irá renascer

para um novo ciclo de milhares de milhões de anos.

Talvez possa gerar um novo ser

mais inteligente do que “esta coisa” que somos nós,

em sucessivos ensaios e erros

apenas regulados pelas leis da física e do acaso.

Para tal só necessita de tempo.

E isso não lhe irá faltar.

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ESCULTURA MEDIEVAL, A ARTE E AS PEDRAS.



Por A. M. Galopim de Carvalho

À semelhança da pintura, a escultura medieval aparece associada à construção religiosa românica, visando, não só a decoração das igrejas, mas, sobretudo, educar religiosamente os fiéis marcados pelo analfabetismo próprio desse tempo. Foi, em especial, nas igrejas contruídas em locais de passagem, ao longo do caminho de peregrinação em direcção a Santiago de Compostela, que surgiram as primeiras esculturas deste estilo. É o que se pode ver em França, em Espanha e no norte de Portugal.

Há as esculturas incorporadas na parte exterior, sobretudo, no tímpano do portal, mostrando, logo à entrada da igreja, cenas da Bíblia e outras evocativas do inferno, onde prevalece a ideia do eterno castigo dos pecadores e de que, mais importante do que a vida terrena, é a salvação da alma. Como na pintura, as dimensões das figuras dependem da sua importância hierárquica. No interior da igreja, é, sobretudo nos capiteis das colunas que encontra lugar a escultura como forma de decoração, numa profusão de figuras, muitas vezes, fantásticas.

Na segunda metade do século XIII e primeira metade do XIV, distinguiram-se, como centros produtores ou escolas de escultura, Coimbra. Lisboa, Évora e Batalha. Houve mais algumas, mas menos importantes, como a de Santarém. Entre os principais materiais utilizados, ganharam estatuto de qualidade pedra de Ançã, o lioz e o mármore, embora, por vezes, também fosse utilizada a madeira. 

A pedra de Ançã é um calcário do Jurássico médio, com cerca de 75 milhões de anos, de textura muito fina, compacta e homogénea, sem veios. Particularmente macio, tem características óptimas para o trabalho de escultura. Deixa-se cortar facilmente e permite a execução de rendilhados ornamentais de grande pormenor e finura. No que se refere à cor, varia entre esbranquiçada e branco-amarelada, raramente branco-azulada. Tendo sido explorada e usada desde o tempo da ocupação romana, a utilização da pedra de Ançã na arte escultórica ganhou relevo a partir do século XIV, sendo de destacar o portal e o púlpito da igreja de Santa Cruz, em Coimbra, e o túmulo da Rainha Santa Isabel, no Convento de Santa Clara, a Nova, na mesma cidade. A sua grande qualidade como pedra trabalhável a ponteiro e a cinzel espalhou-a por Espanha e por vários países da Europa. 

Uma curiosidade relacionada com esta pedra, tem a ver com o nome da cidade de Cantanhede, na vizinhança do local da sua exploração. Cantanhede radica no baixo-latim cantonieti, o lugar onde se explorava pedra de cantaria. Por sua vez, cantaria deriva de canto, do latim canthus, com o significado de pedra

Lioz é o nome que, na nossa gíria do sector industrial e comercial, é dado aos calcários do Cretácico superior, com cerca de 95 milhões de anos, da região de Lisboa-Pero Pinheiro. O termo tem origem no francês antigo liois (hoje liais), que quer dizer pedra rija. Este calcário, próprio de um mar pouco profundo, de águas límpidas e mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do Verão, foram essencialmente edificados por um tipo de bivalves, de conchas mais espessas do que as das ostras, conhecidos por rudistas. Estes organismos recifais, característicos desse período, cobriram os fundos litorais e, proliferando uns sobre os outros, construíram, camada após camada, os estratos de calcário que ainda podemos ver em Lisboa, por exemplo, sob o aqueduto das Águas Livres, na Avenida Calouste Gulbenkian, ou na base do bairro dos Sete Moinhos, à entrada de Lisboa pela ponte Duarte Pacheco. O lioz ocorre em cores variadas, entre esbranquiçados, beijes, amarelados, rosados e avermelhados. O mais branco foi a pedra usada em termos de cantaria ao serviço da arquitectura urbana, vulgar e monumental, de todas as épocas, a partir da Idade Média, em especial na cidade de Lisboa, em palácios, igrejas, fontes e chafarizes. Na primeira metade do século XIX, o lioz, nas suas diversas, cores, foi a pedra escolhida na reconstrução e enriquecimento de altares-mores de igrejas e de outros espaços interiores, em pavimentos e revestimento de paredes, como os das Bibliotecas do Convento de Mafra e joanina de Coimbra. Muita desta pedra trabalhada, nomeadamente padieiras e ombreiras, arcos e pelourinhos, foram transportados para diversas regiões do antigo Império Português.

O mármore, no dizer dos geólogos. Foi um calcário d o final do Ordovícico, com cerca de 450 milhões de anos, transformado por metamorfismo. É, pois, uma rocha metamórfica de grão fino a grosseiro, essencialmente constituída por calcite, por vezes com bandeado de óxidos de ferro, amplamente usada em construção civil e em estatuária. Acrescente-se que a calcite é um mineral constituído por carbonato de cálcio, a mesma substância química das conchas e outros restos esqueléticos. Nos domínios industrial e comercial, mármore é toda rocha susceptível de serração e polimento. Na Antiguidade, era toda a pedra usada em cantaria. 

Foram muitos os oficiais, alguns deles verdadeiros artistas, que trabalharam nestas escolas. Um ou outro “assinou” as suas obras, mas a maioria não inscreveu na pedra algo que os permita icentificar.

Um dos que temos registo, foi Mestre Pero, aragonês, no século XIV. Ao certo, só sabemos que nos chegou do lado de lá da fronteira, talvez de Aragão, mas havia quem dissesse que fosse originário de Castela. Sabemos que que viveu grande parte do seu tempo entre nós, que a sua actividade começou em Coimbra. nos anos de 1330, e que teve um papel de grande relevo na renovação da escultura gótica em Portugal. Fez desaparecer a rigidez tão característica da escultura românica, tornando as estátuas mais naturais, esguias e com mais movimento. Relativamente às arcas tumulares, introduziu um novo tipo, em forma de paralelepípedo assente sobre leões. Grande parte da sua obra foi realizada na sua oficina em Coimbra, não se sabendo, ao certo, o que foi o seu trabalho pessoal e o dos oficiais seus colaboradores. Foi possível atribuir-lhe várias obras em diversos locais do território nacional. Foram muitas e de entre elas, estou a recordar-me do túmulo de D. Isabel de Aragão, a Rainha Santa, como é mais conhecida entre nós., considerada a sua obra-prima, 

Os túmulos de Dona Inês de Castro e do rei D. Pedro I são duas magníficas peças esculpidas num calcário muito homogéneo e macio da região de Coimbra, muito provavelmente, a chamada pedra de Ançã. São a demostração perfeita da escultura gótica, cuja autoria continua desconhecida. Há quem os atribua a artistas franceses. Mas também há quem defenda serem expressão da escultura tumular portuguesa da segunda metade do século XIV. Foram mandadas executar por d. Pedro I, já ele estava na posse do trono de Portugal. Terminado o túmulo de Dona Inês, em 1360, ordenou que o colocassem no braço sul do transepto e que trasladassem para ele os restos mortais da sua rainha, até então sepultados em Coimbra. De seguida, ordenou que se fizesse um túmulo semelhante para ele e determinou este fosse colocado frente ao de sua amada esposa, para aí repousar e a poder olhar, de frente, no dia da ressurreição dos mortos. 

A rara qualidade da pedra usada permitiu que as faces dos túmulos fossem minuciosamente decoradas com os brasões das respectivas famílias, cenas bíblicas e motivo vegetalistas e geométricos. 

Num contraste imenso com a escultura em granito, como a que se praticou, na mesma época, no Norte de Portugal que, por mais que os artistas quisessem, a dureza e a granularidade desta pedra não lho consentia. Por exemplo, em Lamego podemos observar excelentes túmulos em granito, como é o de D. Pedro, Conde de Barcelos, filho natural de D. Dinis, no mosteiro de S. João de Tarouca, esculpido no século XIV.

Nas imagens:

Em cima, o túmulo de Inês de Castro, esculpido e calcário de Ançã.

Em baixo, o túmulo de Pedro Afonso, conde de Barcelos, esculpido em granito.

 

 

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19.6.24

PINTURA MEDIEVAL, FRESCOS E ILUMINURAS




Por A. M. Galopim de Carvalho

É do conhecimento comum que a evolução histórica da Idade Média decorreu sob a poderosa e, tantas vezes, severa tutela da Igreja Católica. Nesse tempo e numa sociedade em que o povo era analfabeto, a pintura foi uma das vias usadas no Cristianismo, para ministrar o ensino da religião cristã, dos seus dogmas e do código moral. Relativamente à pintura tida por românica, é consensual que esta expressão demonstra o poder da Igreja Católica, na Idade Média. Poder que continuou a estar patente nos estilos, que lhe sucederam. O estilo românico na pintura vigorou na maior parte da Europa medieval, e resume-se, essencialmente, aos frescos pintados nas paredes interiores de igrejas, mosteiros e conventos e às iluminuras. 

Total ou parcialmente apagados pelo tempo, por vandalizações ou outras causas, a imensa maioria dos frescos românicos, perderam-se para sempre e o mesmo aconteceu a muitos frescos góticos. Os poucos que sobrevivem são, por isso, preciosos testemunhos, não só da arte de então, mas também e sobretudo, das mensagens que transmitiam. Na imensa maioria, religiosas, os seus autores não ficaram registados. Nesse tempo, a totalidade do povo não sabia ler nem escrever. Fazer fiéis devotos e doutriná-los nos preceitos da Santa Madre Igreja era, não só do interesse do clero, como no da nobreza, que os explorava. Concebidas para analfabetos e feitas por encomenda dos dignitários do clero, estas pinturas representam, sobretudo, passagens da Bíblia, da vida de Cristo e dos Santos e outros ensinamentos do foro teológico. O analfabetismo e a servidão sempre se complementaram.

A pintura românica é descritiva e mais simbólica do que realista, revela uma interpretação mística da realidade, não usa perspectiva nem profundidade, deforma as figuras representadas, e dá, a todas, as mesmas feições convencionais, aumentando o tamanho das que há interesse em salientar. Cristo, por exemplo, é representado maior do que as outras figuras, a fim de realçar a sua importância e divindade. Como uma das características principais desta pintura, destaca-se o uso de cores puras e fortes, sem meios-tons nem recurso a luz e sombras. Embora relativamente raras, há as chamadas pinturas de cavalete, sobre tábuas de madeira, quase sempre destinadas à ornamentação de altares.

Com nomes a registar na pintura medieval destacam-se dois florentinos que fizeram história. Um foi Giotto de Bondone (1267-1337), natural de uma aldeia a norte de Florença, o outro foi Cenni di Pepo (1240-1302), de seu nome, mais conhecido pelo apelido artístico de Cimabué.

Do primeiro, a Adoração dos Reis Magos, é obra muito divulgada em postais de Boas Festas natalícias. Trata-se de um dos ainda bem conservados frescos na Capela Arena, em Pádua, na Itália, cuja decoração, com abundantes cenas de educação religiosa cristã, é considerada o maior trabalho de Giotto. A Estrela de Belém pintada no topo do fresco da Adoração dos Reis Magos, pode ser a imagem do Cometa Halley, que ele teve oportunidade de ver, aquando da sua passagem, em 1301.

Atribui-se a ele, embora sob reserva, a autoria da série de frescos que descrevem a vida de São Francisco de Assis, no tecto da Basílica que tem o seu nome. Dizem os historiadores que, embora influenciado pela arte que se praticou em Bizâncio e pelos frescos góticos franceses, Giotto foi precursor da pintura renascentista. Ele foi, por assim dizer, o elo entre as pinturas medieval bizantina e a que carateriza o Renascimento. A sua obra é marcada pela humanização da figura dos santos, numa notável antecipação humanista que, em termos de importância, coloca o Homem no centro do mundo, uma corrente filosófica, o Antropocentrismo, que só se afirmou no Renascimento, com inúmeros pensadores. Diz a história que Giotto começou a desenhar ainda em criança, quando era um pastor de ovelhas e que, como arquitecto, chefiou a construção da Catedral de Florença.

Com nome grande na arte do mosaico, Cimabué foi pintor de frescos e em telas, na transição do Bizantino para o realismo das figuras humanas, mas ainda não conseguiu dar a ilusão da profundidade do espaço. Na continuação da via para educar um povo, maioritariamente analfabeto, nos preceitos da Fé, os temas principais das suas pinturas são cenas e personagens do Cristianismo. Cimabué teve o mérito histórico de ser o descobridor e o mestre do jovem pastor Giotto, em Florença.

Saiba-se que o adjectivo bizantino alude à antiga cidade de Bizâncio e que Bizâncio evoca Bizas, rei na época dos argonautas, na mitologia grega. O mesmo adjectivo qualifica as manifestações artísticas próprias do Império Bizantino, entre os séculos V e XV. A cidade de Bizâncio, depois Constantinopla (Istambul, desde 1930) foi a capital do Império Romano do Oriente e o mais importante centro artístico deste período.

Autêntica preciosidade, a iluminura é uma outra expressão da pintura românica, arte que se prolongou no estilo gótico, se lhe seguiu. Manifesta-se sob a forma de ilustração sobre pergaminhos soltos ou sobre as páginas de livros manuscritos. Era executada, sobretudo, nos mosteiros, por monges iluministas. Estes verdadeiros artistas anónimos deixaram-nos testemunhos da sua virtuosidade, quer em grandes livros litúrgicos, quer em outros encomendados por clientes da nobreza e da burguesia rica. Na transcrição de livros, os copistas deixavam espaços para que os iluministas fizessem as ilustrações, os cabeçalhos, os títulos ou as letras capitais, ou seja, as maiúsculas com que se iniciava um texto. Mais tarde, a iluminura gótica atingiu um grau de pormenor, perfeição e beleza que influenciou muitos pintores.

A temática é quase exclusivamente cristã. Nos raros casos em que se trata de temas profanos, revela propósitos moralizadores. Nestas iluminuras transparecem, por vezes, traços da chamada “arte insular,” produzida nas ilhas Britânicas após a queda do Império Romano, visíveis nos entrelaçamentos de estilizações fantasiadas de animais e plantas, influências do estilo moçárabe, onde o desenho do arco mourisco é frequente, e, ainda, a tradição cristã com a herança figurativa pagã patente nos bestiários, entendidos como uma espécie de catálogos manuscritos, realizados por monges católicos, durante a Baixa Idade Média, geralmente usados com propósitos moralizadores, contendo informação sobre animais reais e fantásticos. 

Os mosteiros de Santa Cruz de Coimbra, de São Mamede do Lorvão e de Santa Maria de Alcobaça guardam preciosos manuscritos Românico. De entre eles ficaram na História da pintura portuguesa do século XII, o “Livro das Aves”, a “Bíblia de Santa Cruz de Coimbra” e o “Apocalipse do Lorvão”.


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15.6.24

Grande Angular - O trivial. O fútil. E o disparate.

Por António Barreto

Um auspicioso novo canal de televisão, NOW, especializado em informação e com muita política, inicia actividades. Será seguramente mais um contributo para a democracia. Este canal e os que já cá estavam contam agora com vários políticos, antigos e futuros Primeiros-ministros, ministros, deputados, eurodeputados, autarcas, secretários de Estado e até um cardeal. É provável que seja este um percurso especialmente português. Talvez não haja no mundo um outro país onde os trajectos políticos passam obrigatoriamente pela televisão. Já não se sabe muito bem se a TV é o ponto de partida ou de chegada de uma carreira política!

 

O comentário na televisão já “fez” vários primeiros ministros, pelo menos um Presidente da República e muitos governantes, assim como secretários-gerais e presidentes dos partidos. É provável que a política ganhe alguma coisa com isso. Não é certo nem seguro, mas um superior grau de transparência pode ajudar à virtude. Com uma ressalva: o debate político resvala para os canais de televisão e abandona o parlamento e as assembleias. O que se ganha em visibilidade perde-se em legitimidade, dado que as escolhas televisivas dependem de outros factores (audiências, dinheiro, cunhas, talento, beleza, boas maneiras e publicidade…) que não da legitimidade democrática. Pode ser esse o destino da democracia, quem sabe! 

 

Onde se perde seguramente é na informação. A força da independência e da integridade profissional, o “ethos” jornalístico e a inspiração do serviço público desaparecem. Este percurso é bom para a transparência, é mau para a legitimidade política e é desastroso para a independência da informação. Também se pode dizer que é mau para a racionalidade. A televisão, a proximidade, o “lá em casa” e as emoções do directo são adversários sérios da razão. Mas também é verdade que a política nunca foi só razão. Muito pelo contrário.

 

O Cursus honorum e a carreira política incluem agora obrigatoriamente a televisão. Os tempos do escritório de advogados, da empresa, do sindicato, da Igreja e da Maçonaria já lá vão. A escrita também morre devagar. A televisão e o respectivo comentário já #deram” governantes e autarcas sem fim. Do debate ao monólogo e à prédica, o comentário (político, cultural ou desportivo) é o que dá oportunidade para falar de tudo. Aliás, já não se trata de comentário, mas sim de acção, de protagonismo, de acto. Quem está ali, na televisão, não comenta, age. 

 

Políticos e comentadores (são os mesmos) entretém-se com as hipóteses, os jogos florentinos, as minas e armadilhas, as cenas de ópera e os quadros de vaudeville…. Situação como a que vivemos nestes dias é ideal para a televisão, para os debates e para o teatro de revista. Infinitas são as hipóteses. Grave é o facto de cada vez mais haver dois governos em funções, o executivo propriamente dito e o de assembleia. Talvez se possa mesmo acrescentar um terceiro governo, o presidencial. O governo pretende executar, mas é cada vez mais o legislativo que se ocupa dessa função. O Parlamento pretende legislar, mas é a oposição que se ocupa dessa tarefa. Já se percebeu que vai dar asneira. Da grossa.

 

Entretanto, quase não há tempo para sentir que o ridículo mata. O logotipo da bandeira nacional e da República Portuguesa foi o mais recente exemplo! A edição PS era moderna, digital e basbaque. Inclusiva, dizem, sem sinais colonialistas. Antes das eleições, a velha edição patriótica, com quinas e esfera armilar, foi reivindicada pelo PSD. Depois, a nova edição do PSD é patriótica nas cores, mas inclusiva na ausência de símbolos. Já não são precisos os votos, foram-se as quinas. E que mais teremos? Tempos houve, bem mais divertidos, em que se propunha colocar na bandeira o boné frígio, o triangulo maçónico, a cruz de Cristo, as cavacas de Rezende e talvez o bacalhau à lagareiro. Agora, são propostas de simplicidade digital e de alusão subconsciente à pátria!

 

Já houve quem (António Alçada Baptista, pouco culpado de ser perigoso esquerdista) propusesse, bem mais ajuizadamente, que se alterasse o hino nacional, a “Portuguesa”, com as suas declarações guerreiras. “Às armas! Às armas! Sobre a terra e sobre o mar! Pela pátria, lutar! Contra os canhões, marchar, marchar” … Tinha mais razão do que estes novos “inclusivos”. Mas apanhou na cabeça do país inteiro.

 

A esquerda ridícula tentou abolir o colonialismo da bandeira. Achou que era a boa altura, à mistura com o anti-racismo. A direita ridícula achou por bem reagir, Protestou. Antes das eleições, tratavam as esquerdas de traidoras.  As esquerdas ridículas preparavam-se para se venderem no altar profano dos apátridas. As direitas ridículas logo se apresentaram ao serviço para salvar a pátria. Depois das eleições, não se sabe bem porquê, as direitas sanearam o ultraje dos socialistas, mas abdicaram do regresso à bandeira, e encontraram um meio termo, um pouco digital, um tanto moderno, conservador quanto basta, simples no que parece, destituído de significado, baço, como gostam os que não têm rosto nem cabeça. Nem coração, pelos vistos.

            

Entretanto, as esquerdas tentaram não comemorar Camões, que nasceu há 500 anos. Quase iam conseguir. As direitas, agora no governo, inventaram apressadamente um programa de festividades. Mas apagam Vasco da Gama, que morreu há 500 anos e era, ao que eles julgam, mais racista e esclavagista do que Camões. Acontece que este cantou aquele, com dedicação inspirada! Camões não merecia que esquerdas e direitas lhe fizessem uma moeda com cara sem rosto!

 

A agressividade com que os nacionalistas lutam contra os republicanos é tal que parecem perder a cabeça e o tino. Nunca se lhes ouve uma palavra sobre Camões ou Gama, sobre a bandeira ou a esfera armilar. Para já não falar dos campos verdes e do sangue dos heróis! Esquecem que esta bandeira é já por si lesa pátria e mata reis, pois deveria ser azul e branca. As direitas ganham as eleições e depois têm receio do que prometeram. Já que têm o governo nas mãos, porquê ganhar mais inimigos? Assim foi que encontraram soluções mornas para Camões, frias para Gama e turvas para a bandeira! Assim é que a bandeira nacional, produto republicano, é festejada pelos nacionalistas e conservadores. O hino nacional, a “Portuguesa”, produto jacobino, com laivos anticolonialistas, é defendido por conservadores e nacionalistas! O mundo às avessas! 

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Público, 15.6.2024

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13.6.24

FRANÇOISE HARDY (1944-2024)


Por A. M. Galopim de Carvalho

Nunca pensei que a morte de Françoise Hardy me tocasse tão fundo como me tocou.

Sessenta anos volvidos sobre a minha estadia em Paris, nos anos em que ela foi a grande revelação na música francesa, igualando em audiência os maiores desse tempo, esta sempre jovem como eu a guardei num recanto da memória, desaparecera completamente do meu mundo, ao contrário do que aconteceu com Gilbert Bécaud, Yves Montand, Jacques Brel, Juliette Gréco, Charles Aznavour, Nana Mouskouri, George Moustaki (nunca apreciei Édith Piaf) e mais um ou dois que nunca deixei de ouvir. 

Dizia eu que esta então embaixadora da canção francesa voltou subitamente ao meu mundo de hoje, não a jovem intérprete de “Tous les garçons et les filles de mon âge”, que tantas vezes ouvi no nosso apartamento no saudoso Hotel Blanadet, no 51 Rue Monge, mas a octogenária, que disse adeus ao mundo, após doloroso sofrimento.

Esta notícia do falecimento da compositora e cantora pop deu-me a consciência de como o tempo devorou 60 anos das nossas vidas, o que, convenhamos, não pode deixar de nos tocar.

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10.6.24

Que viva a Europa!

Por António Barreto

Grande Europa! Bela Europa! Europa complexa e difícil! Europa forte e frágil, vulnerável e resistente! Europa quase sempre em risco diante do adversário de fora, do inimigo vizinho e das ameaças de dentro! Europa a viver um dos seus mais difíceis momentos da história recente, depois da segunda guerra, Europa com guerra ao lado da sua União, às suas portas, dentro do seu continente! Europa sempre a sofrer dos ataques dos seus tradicionais inimigos, dos impérios que a rodeiam! Europa que criou, adoptou ou desenvolveu, mais do que qualquer outro continente, o que de melhor a humanidade fez na história, das artes à ciência, da cidade ao campo, das viagens aos descobrimentos, da máquina ao espírito, da democracia aos direitos humanos, da liberdade à diversidade humana!

 

A Europa que hoje foi a votos é uma Europa ferida, amedrontada, perseguida, frágil por dentro, vulnerável por fora, invejada, atacada e ameaçada. Será que a Europa tem os meios suficientes para resolver e superar as crises que criou, as que deixou criar e as que lhe trouxeram de fora?

 

Estas eleições permitem todas as leituras, nacionais e europeias. Conforme os países, as direitas ganharam e perderam, as esquerdas perderam e ganharam. Algumas extremas-direitas subiram, outras desceram. Aumentou a fragmentação política da Europa, alargou-se a diversidade das comunidades nacionais e ficaram ainda mais marcadas as diferenças políticas entre países. Confirma-se uma vez mais que a fraqueza da Europa, a sua diversidade, as suas diferenças e os seus contrastes, é a sua riqueza, o que faz do continente uma civilização invejável.

 

Confirmou-se que as ameaças actuais são das mais graves que a Europa conheceu nas últimas décadas. As percepções europeias das migrações são perturbadoras. O receio de desordem interna aumenta. Os sentimentos nacionais sentem-se ameaçados. A agressividade nacionalista procura caminhos. A Europa está ameaçada pelo afastamento americano. A Europa está posta em perigo pelo imperialismo agressivo russo. A Europa está fragilizada pela guerra no Próximo Oriente. A Europa não tem defesa capaz, nem unidade à altura dos grandes cionflitos. A Europa perdeu grande parte da sua indústria e da sua energia. A Europa… ou se refunda ou se destrói.

 

A Europa é uma obra de arte de política, de engenho, de cultura e de civilização. Mas é frágil porque se deixou acomodar. Será a Europa capaz de resolver os problemas que criou e que deixou que a viessem perturbar? Será que a democracia é capaz de resolver os problemas que ela própria criou? Estas últimas eleições europeias nada resolveram, não definiram caminhos, não encontraram soluções. Mas avisaram! Chamaram a atenção! Os Europeus têm poucos anos, muito poucos, para encontrar o seu caminho, a sua defesa, a sua unidade e o seu programa. Têm poucos anos, muito poucos, para consolidar a sua diversidade, sem destruir a sua história. Para refundar a sua dimensão continental, sem perder de vista a sua variedade nacional. Para reforçar a sua liberdade, sem perder o seu espírito.

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Público – 9 de Junho de 2024

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8.6.24

Grande Angular - Há liberdade de expressão a mais?

Por António Barreto

É tão curioso que, após 50 anos de liberdade, se discuta novamente e com acidez a questão da liberdade de expressão! Tudo parece ter começado com os limites à liberdade de expressão que, segundo alguns, o Parlamento deveria tolerar aos seus deputados. Mas a questão vem de trás e é velha. E talvez eterna. Nos últimos meses e anos, foram vários os momentos em que o problema se levantou. Umas vezes, por causa dos segredos de Estado. Outras, pela inconveniência das instituições. Outras ainda porque não se deve “dizer mal” de alguém. Ainda há as coisas que não se devem dizer porque “fica mal”. Ou porque envolvem preconceito. Ou porque traduzem opiniões mal vistas por certos grupos da sociedade. Sem falar nos segredos de empresas, de marcas e de contratos. A todos estes casos, a resposta adequada é não! Nada justifica a repressão da liberdade de expressão.

 

Os “limites à liberdade de expressão” não são limites à liberdade de expressão. O que alguns designam por “limites” deveriam ser castigos ou punições por calúnia, mentira, obstáculo à justiça, difamação ou erro intencional. Nada disso deveria ser punido por excesso de liberdade de expressão, mas sim pelos méritos ou deméritos próprios. Caluniar e ofender outrem, afirmar falsidades sobre alguém, errar propositadamente para prejudicar alguém, enganar outras pessoas, ludibriar a justiça e quaisquer actos semelhantes devem ser punidos pela legislação sobre direitos humanos, sobre o dever de respeito pela verdade, sobre a calúnia e a difamação e sobre os danos causados a outrem, não por uso da liberdade. Desvendar factos da vida pessoal e privada de alguém não é abuso da liberdade de expressão, é, isso sim, atentado ao bom nome e à reserva da vida pessoal. Mesmo a calúnia, um dos casos mais difíceis de avaliar, deve ser punida por prejudicar alguém, não por uso da liberdade de expressão.

 

A liberdade de expressão é um bem, uma virtude, um direito, uma qualidade que só poderá ser reprimida por um bem, uma virtude, um direito ou uma qualidade de valor superior. Não se vê o que este poderia ser. A pátria? A família? O poder? As empresas, os partidos, os clubes desportivos? Não vejo quem represente valores superiores aos da liberdade.

 

Além desse facto simples, outro elemento contribui para o estatuto especial da liberdade de expressão. Esta também é instrumental, isto é, condição das outras liberdades, meio de luta por outros direitos. Sem liberdade de expressão, não é possível obter e lutar pelos direitos e liberdades dos cidadãos. É a liberdade de expressão o mais forte instrumento de luta e de respeito pela democracia.

Recentemente, a liberdade de expressão tem vindo a ser invocada a propósito de preconceitos. Como é evidente, os preconceitos e as aleivosias ficam com os seus responsáveis. As generalizações preconceituosas são defeitos de inteligência entre os piores que se conhecem. Os Judeus isto, os Negros aquilo, os Muçulmanos aqueloutro. Ou os Brancos, já agora. Para não falar dos Turcos, dos Americanos, dos Chineses e dos Ciganos. Além destes grupos nacionais ou étnicos, há ainda os homossexuais, as mulheres, os burgueses, os comunistas, os fascistas, os alentejanos e os galegos. Não faltam grupos sobre os quais não haja regularmente generalizações estúpidas, preconceitos vis e vociferações imbecis. Temos de viver com isso, se queremos viver com a liberdade de expressão. Ninguém precisa de licença para insultar, nem sequer para defender a virtude. E ninguém tem autorização para limitar a liberdade de expressão de outros. Nem sequer para defender o bem.

 

A admitir limites, o grande problema consiste em determinar as permissões e as proibições. Quais são as generalizações admitidas e as condenadas. Brancos? Pretos? Amarelos? Ou então burgueses, fascistas, nazis ou comunistas? Em segundo lugar, ainda mais difícil, quem define os limites? Políticos? Polícias? Igrejas? Professores? Sindicatos? Juizes? Jornalistas? Terceiro, onde se estabelecem as regras? No Parlamento? No Governo? Na presidência? No partido? Nos jornais? Na loja? Na igreja?

 

As respostas a estas perguntas são, em geral, as mais vagas que se pode imaginar. Diz-se que a definição pertence ao bom senso e à sensatez. Aos costumes e à moral. À opinião pública e outras vacuidades. A verdade parece ser mais simples e mais difícil. Não há limites para a liberdade de expressão. Quem usa da liberdade de expressão para fazer mal, mentir, caluniar e prejudicar, deve ser julgado, contrariado e condenado por isso mesmo, pelo mal que faz, pela mentira, pela calúnia e pelo prejuízo, não pelo “abuso” da liberdade de expressão. Se eu der voz a preconceitos e generalizações, devo ficar com as consequências, mas não se vê quem possa definir as generalizações aceitáveis e as condenáveis. Se alguém disser “não gosto de ciganos”, “não gosto de capitalistas”, “os monopolistas devem ser banidos”, “os trabalhadores são preguiçosos” … que fazer? Mandar prender? Processar em tribunal? Quem se queixa? E se alguém se referir negativamente aos Israelitas ou aos Palestinos? Além de se proibir dizer “mal”, também se deve proibir dizer “bem”? Há limites? Fronteiras? Quem as define? Quem traça os critérios?

 

Quando se fala em liberdade de expressão, termos e conceitos muito em voga são os que consistem em generalização social, biológica, racial e étnica. Como definir os limites e as fronteiras? O que é ou não é aceitável? “Os americanos (ou chineses, ou russos…) querem mandar no mundo”! Permitido? Os “alemães ocuparam a Europa”, ou “os russos invadiram a Ucrânia”. Pode dizer-se? Os “israelitas massacraram palestinos” ou os “palestinos assassinaram judeus”?  Pode afirmar-se? Os “vietnamitas derrotaram os americanos”. Pode dizer-se? Os “americanos (ou russos, ou chineses…) são imperialistas”. Pode declarar-se?

 

Quem contesta expressões do género: as tradições imperialistas dos ingleses, colonialistas dos portugueses, despóticas dos russos, autoritárias dos chineses, conquistadoras dos árabes, fanáticas dos islamistas e opressoras dos católicos, entre tantas outras? É tão ridículo condenar estas expressões, como considerá-las verdadeiras. Os portugueses conquistaram, colonizaram, escravizaram, dominaram e exploraram milhões de indígenas de África, das Américas e da Ásia. Pode dizer-se? Mas também o fizeram, com a mesma ou maior intensidade, entre outros, os ingleses, os chineses, os árabes e os russos. O que se pode ou deve dizer?

 

Há muita gente que gostaria de estabelecer, para os outros, cânones e códigos de conduta. Há demasiada gente que tem uma concepção parcial da liberdade de expressão. Quem sabe se também de outras liberdades e outros direitos.

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Público, 8.6.2024

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5.6.24

Um tempo de Teocentrismo


Por A. M. Galopim de Carvalho

Comecemos por lembrar que a Idade Média decorreu entre o final do Império Romano, em 476 d.C., quando o Imperador Rómulo Augusto abdicou a favor do chefe militar, de origem germânica, Flávio Odoacro, e a conquista de Constantinopla pelos otomanos, em 1453. E recordar também que há consenso em dividir este período, de cerca de dez séculos, em dois: o designado por Alta Idade Média, que decorreu entre o século V e o X, e o conhecido por Baixa Idade Média, que se estendeu do século XI ao XV. 

O uso da expressão Idade das Trevas, como sinónima de Idade Média, é uma forma demasiado injusta. Adoptada pelos humanistas do século XVII, que, abusivamente, generalizaram toda a civilização da Europa, do século V ao século XV, como um tempo de escuridão e de ignorância. Com esta expressão, proposta pelo cardeal e historiador, Caesar Baronius, em 1602, pretendeu-se realçar a "escuridão" deste período relativamente ao que o antecedeu e ao que se lhe seguiu. Expressões como Idade das Trevas, para uns, ou “Noite de dez Séculos”, para outros, evoca o contraste visual entre a luz e a ausência dela, ou entre o dia e a noite. Para eles, este período da História situava-se entre a “luz” da Antiguidade Clássica e a do Renascimento. Mas se, relativamente a este período, tivermos em atenção o papel das Universidades no avanço do conhecimento, a sofisticada e apuradíssima tecnologia dos relógios mecânicos, a avançadíssima arquitectura das catedrais góticas, a tradução dos textos clássicos pelos árabes e o papel dos monges copistas, esta expressão é demasiado injusta. 

 

A Idade Média foi um tempo de Teocentrismo (de Theós, palavra grega para dizer “Deus”), em que Deus estava no centro do mundo, em que a veneração a Ele e o temor do Seu castigo eram uma constante na sociedade. A importância da Igreja Católica era imensa e a Fé inspirava e determinava os mínimos atos da vida cotidiana. Amestrados na ideia de que a Igreja era a intermediária entre Deus e os homens, os fiéis aceitavam que a graça divina só seria alcançada através dos sacramentos e das normas morais ensinadas nas Santas Escrituras. Neste quadro, o clero foi a classe social atuante na formação do saber e da mentalidade medievais onde, acima de tudo, imperava a crença num Deus todo poderoso e justiceiro e o temor pelo Inferno, impelindo os fiéis a renunciarem aos prazeres mundanos, em busca da salvação das suas almas.

A palavra inferno chegou-nos do latim Infernus que, por sua vez, deriva de inferus, com o significado de “o que está abaixo”. Inferno era. então, algo situado nas profundezas da Terra, onde filósofos gregos, como Eratóstenes de Cirene (285.194 a.C.) e outros tinham defendido a existência do que se chamava, “fogo central”, ideia já generalizada nesses tempos e que a ciência acabou por confirmar.

Durante os dez séculos o clero esteve sempre no topo da hierarquia social. Os gregos tinham a palavra klerós para designar o conjunto de sacerdotes, palavra que o latim converteu para cleru, onde a fomos buscar, com o significado do conjunto dos membros da Igreja. Logo abaixo do clero, situava-se a nobreza e, na base desta pirâmide, estavam os servos, os únicos que trabalhavam e sustentavam as duas classes superiores. Desta sociedade faziam também parte os vilões, entendidos como indivíduos livres que, temporariamente, ofereciam a sua força de trabalho a um senhor feudal. Estavam livres dos vínculos servis tradicionais e, assim, podiam transitar por onde lhes aprouvesse. Embora escassos, sem grande, havia ainda os escravos, geralmente homens e mulheres cativos, na sequência de actos e guerra, que ficavam reféns de múltiplos trabalhos domésticos. 

Dominando sobre tudo e todos Papa, na qualidade de Sumo Pontífice, ocupava a Cathedra Petri (Cadeira de São Pedro). Na expressão Sumo Pontífice, o elemento sumovem do latim summus, refere “o topo”, “o mais importante”, e pontífice radica na palavra latina, pontifex que, na origem, significava “construtor de pontes”. NAntiguidade romana, pontífice era um membro do principal colégio de sacerdotes, (Collegium Pontificum), cujo líder era o Pontifex maximus, inicialmente um posto religioso (pagão), usado depois pelo imperador romano.

No âmbito da Igreja, pontífices, eram aqueles a quem se reconhecia o papel de construírem uma ponte entre o efémero e o eterno. Sumo Pontífice evoca sua singular condição de chefe do colégio daqueles a quem Jesus Cristo chamou para serem os seus apóstolos (do grego, apóstolos, que quer dizer “enviado”, “mensageiro”), detentor das “chaves do Reino dos Céus”. No concílio de Florença, realizado em 1439, estabeleceu-se que o Sumo Pontífice “possui o primado sobre todo o Universo e que ele é o sucessor do bem-aventurado Pedro, príncipe dos apóstolos”. Assentou-se, ainda que “ele é o Vigário (do latim vicarius, como o significado de representante) de Cristo e cabeça de toda a Igreja, pai e mestre de todos os cristãos, tendo recebido de nosso Senhor Jesus Cristo, na pessoa do bem-aventurado Pedro, o pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, como se encontra nas actas dos concílios ecuménicos e nos sagrados cânones”. 

Nesses anos, o Papa, na inquestionável qualidade de Deus na terra, dominava, não só na religião, como na sociedade e na política, com poderes para excomungar qualquer um que se afastasse das leis de Deus e investir, coroar e destituir reis. Isso aconteceu, por exemplo, com D. Afonso Henriques, confirmado rei de Portugal, pelo Papa Alexandre III, através da bula Manifestis probatum, em 1179, e com D. Sancho II, excomungado e destituído, como rex inutilis, pelo Papa Inocêncio IV, através da bula Grandi non immerito,de 1245.

Para um bom entendimento do discurso é importante saber que igreja vem do grego ekklesia, através do latim ecclesia, que significa reunião, assembleia. Designa um edifício destinado a reunir pessoas, mas o seu âmbito alargou-se ao de uma instituição. Católico chegou-nos do grego katholikós, através do latim catholicus, que quer dizer universal, e Papa, do latim, papa, termo carinhoso alusivo a pai. 

 

Não obstante o espartilho do Teocentrismo, o Cristianismo foi o motor da vida cultural na Europa ocidental. Este motor teve início com o surgimento de mosteiros como o da Ordem de São Bento, uma das mais importantes ordens monásticas do mundo, fundada em 528, por Bento de Núrsia (480-547), sendo que Núrcia é uma comuna italiana da região da Úmbria. Lembrado, entre as mais importantes figuras do Cristianismo, este religioso concebeu e pôs em prática a Regula Monasteriorum (Regra dos Mosteiros), que escreveu na abadia de Monte Cassino, em Itália. Esta regra, que tem o seu nome, é um dos mais valiosos e utilizados regulamentos da vida monástica e que serviu de inspiração de muitas outras comunidades religiosas. Influenciou marcadamente o modo de vida da Europa ocidental, exercendo uma influência pautada por um estilo rígido, mas sem as mortificações vindas de trás, que entendeu serem incompatíveis com a Fé.

Mosteiro é a forma mais corrente de dizer monastério, palavras que fomos buscar ao grego, monasterion. Por seu turno, monasterion é uma palavra composta pelos termos monos, que quer dizer “sozinho” (originalmente todos os monges cristãos viviam em solidão), e pelo sufixo -terion, que alude a “lugar para fazer algo”. Mosteiro é, pois, um edifício, geralmente construído fora das cidades, habitado por uma comunidade de monges ou monjas, votados à oração e ao trabalho que assegure a sua subsistência. Por outras palavras, é uma instituição edificada que alberga uma comunidade de monges ou de monjas, levando uma vida de oração e trabalho, em completo afastamento da sociedade. Por vezes, de grandes dimensões, os mosteiros espalharam-se por toda a Europa medieval. 

Quando tutelados por um abade, os mosteiros designavam-se abadias. Abadia era, pois, uma comunidade conventual ou monástica da Igreja Católica, sob a tutela de um abade que, em princípio, a dirigia com a dignidade espiritual de pai ou de mãe (madre) dessa comunidade. 

 

 

Se a abadia for de monjas, não falamos de abades, mas sim de abadessas. Diga-se que a palavra abade radica no latim abbasabbatis que, por sua vez, deriva do aramaico, abba, que significa pai. Diga-se, ainda, que aramaico é uma língua semítica, falada pelos arameus, um povo da antiga região de Aram, no centro da Síria.

O título de abade teve a sua origem nos mosteiros da Síria, no século IV, tendo-se espalhado pelo Mediterrâneo oriental e adoptado na generalidade da Europa para referir o governante de um dado mosteiro. No início, por influência de determinadas passagens da tradução latina da Bíblia, a palavra abade era usada como título de respeito para qualquer monge, mas rapidamente começou a ser utilizado exclusivamente para alguns superiores monásticos. Em Portugal sempre foi um título considerado de respeito para qualquer monge. 

No contexto religioso, convento (do latim conventum, com o significado de assembleia) refere, habitualmente, um edifício com os mesmos fins dos mosteiros, mas edificados no interior das cidades. Os romanos tinham a expressão Conventum juridicum, para designar a assembleia onde os cidadãos se reuniam para fins relacionados com a justiça. 

Durante o crescimento das cidades, a Igreja sentiu necessidade de criar um novo tipo de comunidade religiosa, não enclausurada como era a dos mosteiros, mas sim, procurando estar mais inserido junto aos novos centros urbanos. Excepção feita à explicação etimológica, não há, praticamente, distinção ente convento e mosteiro. Por exemplo, o convento de Cristo, que fica fora da cidade de Tomar, devia dizer-se Mosteiro de Cristo, o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, devia chamar-se Convento de Santa Cruz.

Um outro membro da comunidade cristã é o frade, definido como um membro de uma ordem religiosa mendicante, que vive normalmente num convento. Há os que são elementos da Igreja, que dizemos clérigos, e os que o não são, a que chamamos leigos. A palavra frade radica no latim frater, que significa “irmão”. Todos têm o título de frei, termo apenas usado como anteposto ao nome do frade. Por exemplo, dizemos frei Brás para referir o frade Brás. O feminino de frade é freira, já o masculino freire, geralmente só se emprega se o frade pertencer a uma ordem militar.

 

Bento de Núrcia, canonizado em 1220, pelo Papa Honório III. desenvolveu um espírito de equilíbrio e de discrição que atraiu um grande número de fiéis para a vida monástica. Participou na fundação de vários mosteiros que adotaram a denominação original, posteriormente à sua morte. No século XII, já era grande o número de Mosteiros Beneditinos neste lado da Europa. Foi 

São Bento é venerado não apenas por católicos, mas também por ortodoxos e anglicanos, que é lembrado como patrono da Alemanha e que o Papa Paulo VI o designou “Patrono da Europa”. 

Na sua Regula, entre outros aspectos, São Bento determinava, com especial chamada de atenção, que os monges se dedicassem ao estudo e ao ensino, se fixassem num dado local e prestassem obediência ao abade fizessem votos de pobreza e de castidade, praticassem a hospitalidade e a caridade, trabalhassem, a fim de garantirem a sua subsistência, e rezassem. Todos os monges cristãos começaram por ser eremitas que se reuniam, semanalmente, numa igreja para assistir à Santa Missa, onde ouviam a palavra de Jesus e recebiam a Comunhão, cuja palavra radica no latim, communio, que ignifica “comunidade”, “associação”, “participação mútua”.

Eremita era o religioso que se isolava no deserto para orar e meditar em solidão. A palavra radica no grego erémos, que significa “deserto” “desabitado”, étimo que serviu de raiz ao termo latino eremita, com o significado de "morador do deserto", e à nossa palavra ermo, que quer dizer, deserto, no sentido de desabitado. Com o mesmo significado de eremita, anacoreta é a tradução para português da palavra grega anachoretés, nome dado a todoaquele que abdicou do mundo, que, por motivos religiosos, escolheu viver de forma solitária, entregando-se à penitência e à contemplação, “que se retirou”, “que abdicou do mundo". Os anacoretas eram monges dos primeiros tempos do cristianismo que, tendo por opção de vida, alcançar um estado de graça e pureza, viviam em retiro e solidão, dedicando-se à oração e à meditação. Um anacoreta de entre os mais conhecidos, foi Santo Antão do Egipto (261-356), o Eremita. Natural do Egipto, com grande destaque entre os chamados Pais do Deserto, de que foi fundador, sendo lembrado pelo seu papel no desenvolvimento da vida monástica. . Tendo passado grande parte da sua vida em solidão no deserto, terá sofrido, aí, toda a espécie de tentações diabólicas, às quais sempre resistiu, tornando-se um poderoso símbolo de renúncia à vida mundana e ao pecado. Pai de Todos os Monges, Santo Antão, também, conhecido por Santo Antão, o Grande, e, ainda, por Santo Antão, o Eremita, viveu mais de cem anos, 105, ao certo. Muito jovem, abraçou o Evangelho como único caminho para a salvação, desfez-se de todos os seus bens, que distribuiu pelos pobres, partindo, depois, para o deserto, onde iniciou uma inspiradora vida monacal. Importa saber que monacal é o qualificativo relativo a monge e que ambas as palavras têm origem no grego, monakhós, que quer dizer “solitário”, “o que vive só”. 

Mais tarde, os eremitas começaram a agrupar-se em pequenos recintos, chamados celas (do latim cella, com o significado de “pequeno compartimento”) e foi assim que em vários locais dos desertos do Egipto e de Judá, em Israel, surgiram as primeiras comunidades monásticas, sob a orientação de um Pai espiritual. E, daí, os nomes Pais do Deserto.

Originalmente, todos os monges cristãos eram eremitas, ou seja, volto a dizer, homens que, usualmente, por penitência, religiosidade, misantropia ou simples amor à natureza, viviam sozinhos, em um lugar isolado, longe do mundo, designado eremitério. 

Os Pais do Deserto tiveram uma enorme influência nos primeiros tempos do Cristianismo, que podemos dizer primitivo. Quer o monaquismo oriental, representado no Monte Athos, na Grécia, quer o ocidental, definido na Regra de São Bento de Núrsia, quer, em geral, todo o monaquismo medieval, revelam acentuada inspiração nas práticas iniciadas no deserto. Crenças religiosas recentes como o Metodismo, saído da Igreja Anglicana inglesa, o Evangelismo alemão e o Pietismo, do estado norte-americano da Pensilvânia, nascido na Igreja Luterana alemã, têm algumas das suas raízes nos Padres do Deserto. Também a Igreja Ortodoxa tem, nestes padres, as suas raízes. O Monte Atos, conhecido por "Montanha Sagrada", classificado como património mundial, pela UNESCO, deu espaço a uma vintena de mosteiros ortodoxos gregos, sob direta jurisdição do patriarca de Constantinopla.

 

Surgida por volta do século IV, na transição da Antiguidade para a Idade Média, a Patrística foi uma corrente filosófica cristã que consistia na defesa intransigente da fé no Cristianismo, na luta contra as ideias dos pagãos e dos hereges e na expansão do Cristianismo na Europa, numa atitude que vigorou até ao século VIII. Recebeu esse nome, dado que foi desenvolvida pelos primeiros Pais ou Padres Apostólicos da Igreja, também ditos Santos Padres porque todos foram canonizados, entre os quais, Santo Agostinho se destaca como o mais importante. 

Pagãos eram os seguidores das tradições e cultos politeístas, como eram os antigos romanos e gregos e, ainda, os povos do centro e do norte da Europa e os do Norte de África, antes da cristianização. A palavra radica no latim paganus, que significa “rústico” e “camponês”, por derivação de pagus, a “aldeia”.

Hereges ou heréticos são os seguidores da Heresia, entendida como uma doutrina que se opõe aos dogmas da Igreja. A palavra radica no grego, hairetikós, através do latim haereticus, que alude ao “verbo escolher”. Isto porque escolher foi o que os fariseus fizeram escolhendo caminhos religiosos diferentes. Diga-se, a propósito, que fariseus eram os judeus que se afastaram do catolicismo e enveredaram por outros caminhos. Foram, por exemplo, os criadores da instituição sinagoga, o lugar de ensino da religião judaica. E que sinagoga radica no grego synagogué, que significa “reunião”, “assembleia”.

 

Aurelius Augustinus, de seu nome, é mais conhecido entre nós por Agostinho de Hipona. Tasceu em Tagaste, em 354, e morreu em Hipona, em 430, onde foi bispo, duas velhas cidades da Argélia, então uma província romana. Homem apreciador dos prazeres mundanos, escreveu na sua autobiografia, "Senhor, concedei-me castidade e continência, mas não ainda”. Aos 32 anos, conforme seu próprio relato, aderiu à vida monástica, quando tomou contato com a história da vida de Santo Antão. Reflectindo e escrevendo, Agostinho de Hipona desenvolveu uma abordagem original à filosofia e à teologia, afirmando que a única verdade era a dos Santos Evangelhos e que a fé em Cristo era indispensável à liberdade do Homem. Desenvolveu o conceito de Igreja Católica como uma Cidade de Deus, espiritual, distinta da cidade terrena e material. São dele a doutrina do pecado original, e, deveras importante, a que estabelece em que condições morais se pode considerar a guerra como justa. Na Igreja Anglicana, ele é igualmente venerado como um Santo. Muitos protestantes, especialmente os calvinistas, consideram Agostinho como um dos pais teológicos da Reforma Protestante. 

A Cidade de Deus” e “Confissões”, são duas das suas obras fundamentais sobre o Cristianismo, ainda muito estudadas no presente. Nesse período, em que a palavra de Cristo alastrava pela Europa, era fundamental encontrar um discurso racional que a apoiasse, que explicasse a natureza do divino e a relação entre a fé e a razão. A par destas preocupações, havia que realçar a importância da moral na vida das populações, visando sempre a salvação da alma. Vivia-se, como disse, um tempo de transição entre a Antiguidade e a Idade Média em que o Cristianismo ainda não estava consolidado e em que os cristãos ainda eram vítimas de perseguições.

A obra deste religioso foi fundamental à consolidação da Igreja Católica, inspirada, sobretudo, na filosofia de Platão, afirmando ser a expressão da verdade que os filósofos gregos não conseguiram encontrar, pura e simplesmente, porque Deus não se lhes tinha revelado. Agostinho foi canonizado por aclamação popular e foi depois reconhecido como Doutor da Igreja, em 1298, pelo papa Bonifácio VIII. Nesse período de expansão do Cristianismo, a Igreja necessitava de argumentos filosóficos que apoiassem a sua doutrina e as suas verdades. 

Os Pais da Igreja eram figuras influentes e eruditas, que debateram e procuraram clarificar problemas teológicos, como a natureza de Deus, a relação entre a divindade e a humanidade de Jesus Cristo, o significado dos sacramentos e a natureza da salvação. Concentraram-se em interpretar e explicar as escrituras sagradas e desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento e na defesa da doutrina cristã. Escreveram tratados, cartas, sermões e outros textos teológicos que ainda hoje são estudados e valorizados por teólogos. Em síntese, pode dizer-se que a Patrística, além de uma filosofia, foi um período de reflexão teológica, debate intelectual e produção literária que teve um impacto duradouro no desenvolvimento e na disseminação da Fé cristã.

 

Nota: o sobrenome Hipona é, como em muitos santos, o nome da localidade onde se despediram da vida terrena. É, por exemplo, o caso do segundo nome do nosso Santo António, que nós apelidamos de Lisboa, mas que a Igreja, respeitando esta regra, apelida de Pádua, a cidade italiana onde ele faleceu.

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