24.5.19

As Eleições Europeias e os Ilusio-malabaristas

Sempre que sou abordado em peditórios de rua, procuro saber quem está por detrás deles para, tendo em conta a credibilidade que lhes está associada, decidir se hei-de dar a minha contribuição ou passar de largo.Imagine-se, agora, que um belo dia me aparece pela frente um Grupo Excursionista a pedir o meu óbulo, mas dando-me razões para suspeitar de que, afinal, o dinheiro irá direitinho para um tal Grupo de Teatro de Marionetas. Ora, sabendo eu que se trata de entidades completamente diferentes, é natural que questione o solicitante acerca do descaminho do meu dinheiro, até porque, entre a próxima passeata dos excursionistas e a exibição das marionetas, mediará quase meio ano.Imagine-se, então, que recebo como resposta que «étudo a mesma coisa, os corpos gerentes até são os mesmos, pelo que é natural que, ao dar para o peditório de agora, esteja, na realidade, a dar para o próximo».

Obviamente, a rábula é uma metáfora do que sucederá nas próximas EUROPEIAS, se o voto que nelas vamos dar vier a ser contabilizado como se fosse para as LEGISLATIVAS, numa repetição do que se passou em 2004 com Durão Barroso e, de certa forma, com Guterres, quando, dois anos antes, o PS perdeu as autárquicas. Em ambos os casos, tratou-se de deserções imperdoáveis, pois essas duas personagens, a quem o povo havia confiado o GOVERNO do país, pegaram nos votos colocados numa urna e fizeram-nos aparecer noutra, num exercício de prestidigitação que Luís de Matos não desdenharia.E o pior é que, quanto às eleições deste ano, há boas razões para recear que algo de semelhante poderá suceder, pois já ouvimos, de-viva-voz, António Costa, Rui Rio e Nuno Melo afirmarem que «as eleições EUROPEIAS são para APROVAR ou CENSURAR o GOVERNO»; ou seja: umas “primárias” que eles inventaram, sem nos explicarem com que legitimidade o fizeram.
Acresce a isso que os acontecimentos do início deste mês não são de molde a fazer-nos pensar que eles arrepiem caminho — o que será perverso, pois, numas EUROPEIAS, só seria desculpável centrar as atenções para a actuação do GOVERNO se a EUROPA não enfrentasse questões bem graves: a começar pelo défice de natalidade — que, a par do envelhecimento da população, acarreta a necessidade de imigração, que, por sua vez, facilmente alimenta o nacional-populismo e a xenofobia, como se vê em muitos países europeus. E embora, até à data, Portugal tenha estado imune aos aspectos mais extremos desses fenómenos, o “inverno demográfico” (que é o mais grave problema europeu dos últimos tempos) não dá mostras de vir a ser enfrentado pois, para os actuais políticos, o mundo termina na ponta do seu nariz, e o longo-prazo nas eleições seguintes. 

E problemas europeus é o que não falta: ele é o Brexit, os refugiadosa recessão sempre possível, os portugueses espalhados por essa Europa fora, a defesa europeia, a pressão da China e dos EUA, o dinheiro dos contribuintes europeus que pode deixar de vir, a PAC que tantos recursos absorve, os possíveis impostos e FA comuns, a volatilidade do turismo...para já não falar dos problemas climáticos, do facto de a Europa depender das importações de energia em mais de 50%... e por aí fora.
Então porque é que, acerca dessas questões, pouco ou nada ouvimos aos que agora nos pedem o voto? Será que acham que não vale a pena perder tempo com eleitores que, na sua maioria, votarão apenas segundo as suas preferências partidárias?Não sei. Mas sei que os valores da abstenção (que todos choram com lágrimas de crocodilo) só têm a ver com a sensação da inutilidade do voto, a par do descrédito da classe política, onde não escasseiam malabaristas — como os deste “peditório” para o qual, segundo dizem, não podemos deixar de dar.
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“Correio de Lagos” de Maio 2019

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Luther King a lutar contra a despromoção

Por Joaquim Letria
Vamos conversar sobre futebol para não cairmos na fantochada da política e deslizarmos para a armadilha das eleições europeias. Mas também podem estar descansados que não vou atraí-los para os escândalos das arbitragens nem para o fim do campeonato nem para a final da Taça de Portugal. Vou chamar-lhes a atenção para aquilo de que ninguém fala e nos pode fazer sorrir.
Raramente tenho paciência para assistir a um jogo inteiro de futebol pela televisão, e ir ao estádio, que era o que durante muitos anos eu fazia e apreciava, deixou de ser uma hipótese a considerar por causa do incómodo e excitação dos doentinhos da bola. os fans dos verylights e a selvajaria das claques.
Assim, passei a ver os resultados no telemóvel e os resumos na TV, quando me lembro, e ocasionalmente escuto os relatos dos jogos pelas rádios. E confesso que este é o meu meio preferido, porque os relatores conseguem criar uma excitação e um prazer com o entusiasmo dos seus relatos que aqueles jogos sem interesse nenhum que vemos pela TV até parecem animados e entusiásticos.    
É precisamente através destes relatos que me dei conta dos nomes e pseudónimos que muitos jogadores adoptaram assim me surpreendendo como aconteceu no fim de semana passado quando descobri que Luther King luta num clube português por não descer de divisão e Jefferson tem estado lesionado mas alinha orgulhoso na equipa principal do Sporting.
Conheço muitos casos de jogadores que adoptam os nomes de grandes figuras antigas do futebol. Por isso ouvimos vários Pelés a jogar em diversos campeonatos, a transalpina glória do antigo Pizzi a alinhar pelo Benfica numa versão mitigada e há pelo menos um ou dois Platinis a jogarem por aí. A coragem ainda não chegou a Maradona, Messi ou Ronaldo, mas vão ver que será uma questão de tempo. Agora grandes figuras da História e da Humanidade, como é o caso de Luther King, é uma surpresa e faz-nos recear o aparecimento de muitas outras grandes figuras. Que tal um campeonato recheado de Gandhis, Mandelas, Mao Tse Tung e Churchills? E Estaline e Trotsky a alinharem na segunda divisão, e Marx, Engels e Lenine a naturalizarem-se para poderem jogar na nossa selecção e Rosa Luxemburgo a alinhar pela equipa feminina do Sporting de Braga, actual campeã nacional?!
Esta delícia é mais detectável na Rádio do que na TV ou nos jornais. Por isto também prefiro os relatos radiofónicos. A gente sabe que muitos destes nomes também têm origem nas favelas e nos bairros problemáticos da América Latina onde os pais alimentam os maiores sonhos para o futuro dos seus filhos, enquanto outros vêm da admiração por certas figuras. Há por aí uns Adolfos de quem a gente desconfia, mas não há nenhum Nasser, Sadat, Sadam ou Gadhafi. Enfim, se prestarem a mesma atenção aos nomes dos jogadores de futebol que os viciados nas apostas dedicam aos nomes dos cavalos podem encontrar alguns motivos para apreciarem ainda mais os nossos campeonatos e ligas de futebol.
Publicado no Minho Digital

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23.5.19

Eleições europeias_2019

Por C. Barroco Esperança
Nunca as eleições europeias foram tão importantes como as atuais e tão desinteressantes como as tornaram os candidatos a eurodeputados.
Os portugueses, sobretudo os europeístas convictos, os que não se refugiam na desculpa de quererem a União Europeia, mas não esta, como se a que existe não resultasse das escolhas eleitorais dos países que a integram, sentem-se frustrados com os temas alheios ao nosso futuro comum.
A UE não pode alhear-se da guerra comercial entre os EUA e a China nem da influência de Trump e Putin a favor da extrema-direita. Enquanto a Polónia e a Hungria arruínam o Estado de direito democrático, estas eleições passam ao lado dos direitos humanos, das alterações climáticas, da erradicação dos paraísos fiscais, da imigração de que necessita e da exigência de respeito, a quem chega, pelo seu ethos civilizacional.
Os candidatos estão mais empenhados nas lutas internas dos seus partidos nacionais do que na afirmação de posições ideológicas perante os grandes problemas que ameaçam a Europa e o Mundo.
A defesa, o comércio, a diplomacia, a segurança social, a paz e a posição da UE perante os grandes blocos e as suas ambições geoestratégicas estiveram ausentes da campanha, como se a UE estivesse condenada a ser um satélite americano, chinês ou russo.
A defesa da ONU, única instituição capaz de garantir um módico de justiça nas relações internacionais e na defesa da paz, é abandonada, quando está ameaçada pelos interesses dos piores dirigentes políticos do Planeta que a pretendem minar e dominar.
Portugal perdeu o TGV quando eram fartos os apoios financeiros e a UE tinha melhores dirigentes, agora está à mercê da chantagem que as empresas de transportes rodoviários queiram fazer e com maior dificuldade em reduzir o consumo de combustíveis fósseis.
Revejo-me como europeu português na defesa da civilização e da cultura da Europa, na promoção dos direitos humanos, solidariedade e paz que só a coesão da UE assegura, e, sobre isso, os candidatos nada disseram para que cada eleitor pudesse decidir o voto.
Já é tempo de os Governos deixarem de acusar a UE pelas medidas impopulares que as crises cíclicas do capitalismo obrigam a tomar, e os eurodeputados nada dizem sobre as medidas que propõem para superar a próxima crise ou transformar o modelo que a rege.
Uma coisa é certa, seremos todos cada vez mais dependentes uns dos outros e não são os nacionalismos exaltados que preservam a paz e evitam a catástrofe provocada pelo aquecimento global, a poluição, as armas nucleares, a escassez de recursos, a falta de alimentos e água e a bomba demográfica que não para de explodir.
Não é com o imediatismo da conquista do poder em cada um dos países que se resolve a precipitação no abismo para que o nosso modelo de sociedade de consumo nos conduz.
A campanha eleitoral para a UE foi a oportunidade perdida para discutir e pensar uma alternativa que pode já não chegar a tempo.
Sinto-me dececionado, e sei que Portugal ficaria pior fora do que dentro da UE.

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22.5.19

Apontamentos de Lagos

Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Maio 19

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20.5.19

MISTER CATARINA

Por Joaquim Letria
Confesso-me freguês das séries da RTP2.Foi aí que há uns meses vi uma interessantíssima série norueguesa (os nórdicos têm cada vez mais qualidade) cuja história era uma mulher que treinara equipas femininas de futebol e, de repente, recebe um convite dum clube da primeira divisão para ser treinadora da sua equipa principal.
Esta é a linha mestra e muito interessante da história da série que mostrava episódios muito bem feitos onde se via , para lá das rotinas dos jogos e dos treinos dirigidos por uma mulher, num lugar sempre e só ocupado por homens, toda a complexidade da função, neste caso envolta nas dificuldades que naturais preconceitos geram, a nível de equipa, jogadores, estrutura do clube, accionistas e, sobretudo, adeptos e claques, incluindo também os adversários, todos eles ainda dominados por preconceitos e sentimentos a serem ultrapassados.
Achei uma bela ideia, gostei da realização e da direcção de actores e pronto, não falaria mais nisso, julgava eu, depois de ter guardado na memória esta série que se chama “Jogar em Casa” e que era protagonizada pela Helena Mikkeison, uma óptima actriz. Mas eis-me a falar nisso  porque a realidade superou a ficção, e logo em Portugal!  
 Catarina Lopes aceitou comandar os homens da primeira equipa do Beneditense (da Benedita) que disputa o campeonato distrital de Leiria, tornando-se na primeira mulher portuguesa a desempenhar tais funções e, certamente, a tornar-se uma raridade na Europa e no mundo. E aí a temos a mandar numa molhada de matulões…
É a primeira mulher que ocupa estas funções numa equipa dos campeonatos nacionais. E eu interrogo-me sobre como é que os seus jogadores lhe chamarão. Mister Catarina ou Mister Lopes? Ou na linguagem do nosso futebol vamos passar a ouvir também Miss e Mrs.?
Um dia destes vou à Benedita ver um jogo da  equipa da Catarina. Gostaria que ela subisse o Beneditense de divisão, que lhe confiassem um clube mais visível e adoraria vê-la a mandar num  clube da Liga. A sério! Quanto mais não fosse para demonstrar uma vez mais, e para sempre, que ninguém trava as mulheres e que a realidade tem, muitas vezes, muito mais imaginação do que a ficção.
Publicado no Pasquim da Vila   

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19.5.19

Grande Angular - Estado frágil, país vulnerável

Por António Barreto
Já se sabe que o Estado português não é forte, mas é gordo. Pesado. Lento. E presa fácil. Os últimos anos têm sido confirmação dessa verdade. Pode dizer-se últimos quatro anos, de socialistas e esquerdas. Últimos oito, se acrescentarmos a aliança PSD/CDS. Ou mesmo catorze, com os seis dos socialistas de Sócrates. Não vale a pena tentar culpar o “governo anterior”, como eles próprios fazem. Já se percebeu que é receita gasta. O estado a que chegámos traduz um processo de deterioração política e institucional para o qual têm contribuído governos, parlamentos e muito mais gente. Só que, se não serve dizer que “são todos culpados”, também não vale diluir as responsabilidades. Para cada caso, é sempre possível designar no espaço e situar no tempo. Sem isso, não há remédio.
Jamais saberemos se a acumulação de casos na comunicação se fica a dever a coincidências ou ao ano eleitoral. É possível que esta última seja a hipótese adequada. Mas isso faz parte da democracia. Quando há eleições, ajustam-se contas, fazem-se promessas, castiga-se e recompensa-se. E também há quem se vingue.
Bastou um homem e a sua singularidade para deixar em crise as instituições nacionais, os órgãos de poder, a banca, os jornais e as televisões. Um só homem, apoiado em peritos na utilização do Estado e do direito, consegue pôr em cheque o sistema de justiça e vários governos. Um especulador, especialista em despertar a libido dos ministros, foi capaz, com a promessa de dar lustre artístico ao governo, de conquistar a idolatria dos clientes, a cumplicidade do governo e o silêncio das instituições artísticas do país. Usou e foi usado, mas imprimiu o seu toque especial.
Um outro homem, apoiado num partido, com a colaboração de ministros, advogados e predadores de várias origens, exerceu seis anos o cargo de Primeiro-ministro e deixou marca profunda na história da vilania política, enfraqueceu as instituições, transformou políticos em agentes sem mérito nem qualidade, mas com uma capacidade de impostura só comparável à sua covardia.
Outro homem, com família, reputação e fortuna, soube condicionar a seu proveito a economia do país, as suas finanças e muitos políticos, conseguiu contribuir decisivamente para a destruição ou a alienação da banca portuguesa e de algumas das melhores empresas, numa acção única da história do país, só talvez comparável aos estragos feitos pelas revoluções. 
Há mais casos que ensombram e atormentam os nossos dias. Greves de camionistas que, em poucos dias, deixaram uma sensação de pânico. Ameaça permanente de incêndios que revela a falta de previsão, a preparação da última hora e a dependência de traficantes. Adquirido em suspeitíssimas circunstâncias, o sistema de comunicações de segurança revela-se incapaz de dotar o país daquilo para que foi encomendado, eficiência na emergência. Um roubo de material de guerra levado a cabo em estranhas condições que deixaram as Forças Armadas em questão, o governo em cheque e as polícias em crise. As comissões de inquérito parlamentar, neste caso sobre questões de energia, aprovam o que a maioria quer e lhe convém.
Este breve catálogo peca por defeito. O pior nem é a gravidade dos crimes e do abuso. O pior é que a sociedade, o Estado e as instituições permitem o que nos acontece. Assim se revela a incapacidade de regular e vigiar. A ausência de instituições livres e eficientes. A morosidade das polícias e dos tribunais. A miopia de muita imprensa. A facilidade com que as elites económicas, políticas e artísticas se deixaram aliciar e seduzir. A covardia ou a cupidez de muitos que vão sempre sabendo o que se passa, mas calam ou só revelam quando lhes convém. A falta de agilidade dos organismos públicos incapazes de reagir prontamente. O pior é que as instituições políticas e judiciárias não estão à altura dos criminosos.
O nepotismo faz evidentemente parte da teia complacente. As famílias dos ministros, mulheres e maridos, filhas e filhos, genros, irmãos, netos e sobrinhos, estão incluídos. É estranho que a esquerda, ainda por cima a esquerda democrática, que tanto diz lutar pela igualdade, contra o nepotismo das aristocracias, pelo laicismo, pela neutralidade do sangue e da condição social, é estranho que esta esquerda seja cúmplice. Tinha de ser a esquerda democrática que viria, com hipocrisia, a valorizar a conjugalidade na política e a defender o velho principio da moral corrupta e do nepotismo: “Não é por ser da família de alguém, que uma pessoa pode ser penalizada!”.
Não são só as famílias, nem os políticos. Perto deles, a par deles, às suas ordens ou no seu comando, estão os escritórios de advogados poderosos, com meios e pessoas, com reputação e força, conhecedores de segredos de pessoas, de partidos e de empresas. Apoderaram-se do Estado e dos ministérios, recebem encomendas para contratos, acordos, cadernos de encargos, PPP, operações financeiras, defesa do Estado contra privados e defesa dos mesmos privados contra o mesmo Estado. Esta espécie de Mamelucos do direito exerce hoje tanta ou mais influência do que grupos privados, sindicatos, partidos políticos, igreja católica ou maçonaria!
O que também enfraqueceu o Estado democrático foram as privatizações e as reprivatizações que moldaram a política e a economia das duas últimas décadas. Feitas aparentemente pelas boas razões, por espíritos liberais, concebidas para libertar a sociedade e a economia, levadas a cabo com as melhores intenções expressas, acabaram por ser o leilão histórico de empresas, a destruição de algumas, a alienação irreflectida de outras e a entrega de poderes a grupos de predadores nacionais e estrangeiros. Assim se liquidaram, alienaram ou miniaturizaram empresas e sectores como os telefones, os cimentos, a electricidade, os petróleos, a rede eléctrica, o gás, os correios e outras.
Catervas de políticos à solta, bandos de capitalistas (nem todos empresários…) e de traficantes de influência (nem todos ilegais…), associados a advogados e seus escritórios, ligaram-se ao poder político com mais profundidade e mais intimidade do que o Estado Novo salazarista ou o comunismo de Cunhal e Gonçalves e estreitaram o seu conúbio com dois partidos, o PS e o PSD. Governam a sociedade e a política. E até agora não encontram diante de si instituições livres, independentes e eficazes que lhes ponham travão. É o que faz um país vulnerável.
Público, 19.5.2019 

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17.5.19

Recôndita Harmonia

Por Joaquim Letria
Nunca perdi o gosto muito particular pela Rádio, não só o de trabalhar nela, de que tenho muitas saudades, mas também de a ouvir. Todos os dias, pela manhã cedo, ou à noite, antes de dormir, tenho o hábito de ouvir Rádio, por muito mal que ela possa ser feita – e é – por as vozes não serem adequadas, pela montagem ser descuidada e sem gosto, por não haver regularmente a identificação de estação – o que nos leva muitas vezes a estar a escutar não sabemos quem nem o quê, nesta Rádio dos nossos dias.
A Rádio continua a ser para mim, eu que trabalhei em todos os meios de comunicação social, uma grande paixão repartida com o sortilégio do anonimato e velocidade das agências de notícias. Mas se tivermos paciência, soubermos procurar e houver bons profissionais – e há – vale a pena ligarmos o receptor e fecharmos os olhos para escutar.
Tenho uma aparelhagem topo de gama em que podia ouvir Rádio, mas só a utilizo para escutar CDs ou estações mundiais via internet. Prefiro, no entanto escutar a Rádio de que gosto através de pequenos transístores que tenho espalhados pela casa e através dos quais ouço emissões boas e más, quase como dantes em onda curta se ouvia a BBC ou a Rádio Moscovo. Foi num desses pequenos transístores que a Antena 2 (“A Rádio que Toca”, como eles dizem ) me deu a ouvir uma emissão dum programa da saudosa Maria Helena de Freitas, numa actual emissão dum programa de memória. E foi assim que de olhos cerrados ouvi aquela ilustre senhora contar-nos o libreto da Tosca, recordar-nos Puccinni e falar-nos dos intérpretes que eram Montserrá Caballé e José Carreras e explicar-nos o significado da maravilhosa ária Recôndita Harmonia saída do génio de Puccinni.
Verdade que a TV (através do Mezzo e do Intermezzo) nos oferecem jóias musicais. Mas infelizmente, pelo desfasamento dos tempos e dos meios técnicos que havia e há, nem sempre podem fazer aquilo que Maria Helena de Freitas fazia e a Antena 2 faz, e que é animarem a nossa memória e enriquecerem o nosso conhecimento.
A memória rica da Antena2 assenta no espólio da antiga Emissora Nacional que nos punha a ouvir música e teatro radiofónico da maior qualidade. Que saudades eu tenho da beleza e do conhecimento que aqueles programas nos transmitiam. Que bom e que saudades de ouvir representar Cármen Dolores e escutar Raul de Carvalho a contracenar com Eurico Braga, a música de Luis de Freitas Branco, o emocionante concurso internacional de piano Viana da Mota, transmitido em directo ao longo de três dias, a Callas a cantar em São Carlos, os comentários de Maria Helena de Freitas, de Francine Benoit e de João de Freitas Branco e a vozes únicas e irrepetíveis de D. João da Câmara e de Maria Leonor. Uma saudade tão grande como a sentida por David Mourão Ferreira, Vitorino Nemésio, João Vilarett, Amália Rodrigues, António Pedro e Homem de Melo que nos apareciam na RTP. Tudo isso veio ao de cima com aquela Recôndita Harmonia, sem razão nenhuma para assim acontecer, a não ser pelo sortilégio em que a Rádio é capaz de nos mergulhar.
Publicado no Minho Digital

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16.5.19

A União Europeia, os impostos e a justiça social

Por C. Barroco Esperança
É irrelevante defender que os bancos, seguros, comunicações, saúde e ensino podiam e deviam ser, não em exclusivo, essencialmente estatais, em particular, aeroportos, portos, e redes viárias. No entanto, querer tudo ao mesmo tempo não é uma utopia, é um erro que pode ter efeitos contraproducentes.
Nenhum país é autossuficiente para poder definir a sua política, sem constrangimentos que a geopolítica impõe. A necessidade de integrar grandes blocos é evidência óbvia.
Sem União Europeia não teria sido possível aplicar uma multa de 2,42 mil milhões de € à Google por violar as regras de concorrência no serviço de compras online. A aplicação de multas milionárias a gigantes tecnológicos que vendem bens e serviços, como Apple, Starbucks, Amazon ou McDonald's, não seria possível a um único país e, muito menos, a países cujas máquinas fiscais são inaptas para tributar os gigantes tecnológicos.
A competição fiscal entre países, dentro da UE, levou esta a deixar de cobrar mais de 5 mil milhões de euros de impostos ao Faceboock e à Google, entre 2013 e 2015, através do domicílio na Irlanda. A competição fiscal entre membros do mesmo espaço político e económico acaba por ser ruinosa para todos.
Ainda não foi descoberta forma mais eficaz de corrigir ou atenuar desigualdades sociais que não seja através de impostos. E será também através deles que passará o combate às alterações climáticas que a simples necessidade de respirar e de beber água tornam cada vez mais urgentes.
A Europa está numa encruzilhada da qual só sai pelo aprofundamento da união política, económica e social ou pela nociva e perigosa desintegração cujo rombo mais devastador foi desferido pelo leviano referendo britânico em marcha turbulenta para o Brexit. Sai o país com maiores tradições democráticas e fica um gigantesco enclave de reacionarismo católico integrista, hostil ao europeísmo e habituado ao autoritarismo, a Polónia, entre outros de menor dimensão.
O combate à desertificação, às alterações climáticas e à poluição, bem como a procura de energias alternativas e a defesa da vida no Planeta, não estão ao alcance de um único país, são tarefas que exigem o empenhamento coletivo.
A Europa nunca possuiu tanta riqueza como hoje, mas nunca teve tão parcos recursos com que contar no futuro. A bem ou a mal, vai ter de pensar na herança que deixará às gerações que privou do que lhes era devido.

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13.5.19

SEM IDENTIFICAÇÃO DE CHAMADA

Por Joaquim Letria
Alguns “call centers” e certos serviços comerciais deixam-nos doidos e impacientes, ainda que eu tenha muito respeito por quem me fala para vender, oferecer, regatear ou discutir coisas e loisas das marcas que usamos.
Este meu respeito é motivado pelo facto de muitas e muitos dos meus antigos alunos em Universidades onde dei aulas ganharem a vida  e a possibilidade dum curso superior trabalhando nesses call centers,  ou sendo caixas de supermercados. 
Por princípio eu não atendo chamadas sem identificação. Se repararem nos anúncios classificados, já nem as trabalhadoras do sexo atendem chamadas dessas. Todos queremos, e bem, saber quem vem lá ou ficar a saber quem era.
Pois por não atender chamadas dessas, durante mês e meio recebi no meu iphone 17 tentativas de anónimos por dia. Uma praga! E se tentava atender, ninguém respondia. Fui a uma loja da marca da minha operadora, à assistência ao cliente, a um especialista de computadores e telemóveis, a uma loja de paquistaneses no corredor duma estação de metro, e nada! Estive quase a deitar fora o meu iphone, a  comprar um andróide e a mudar de operadora.
Andava eu nas minhas lamúrias a propósito, e encontro um colega que me diz: ”Vamos falar com este meu amigo que trabalha com o Xamix.  A verdade é que o Xamix sabe tudo, por muito que devesse não saber…
Foi remédio santo: a origem das impertinentes chamadas era da minha própria operadora que queria vender-me um produto novo e não dava conta de que o seu computador na sua programação originava este incómodo insuportável a um seu próprio cliente.
Como sou prático e odeio discussões, expliquei-lhes e mudei de operadora só para castigar os irresponsáveis funcionários e directores daquela que eu usava há quase dez anos. E lembrei-me que ao fim de 15 anos também mudara de outra que me mentira e tentara aldrabar-me com uma história mal contada de fidelização. Agora vamos ver… como não há mais, se esta não se portar bem, subscrevo outra… no estrangeiro.
Publicado no Pasquim da Vila   

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12.5.19

Grande Angular - Europa, sem ilusões

Por António Barreto
Há dias, este jornal publicou uma carta comovedora. Foram 21 os Chefes de Estado europeus que se dirigiram aos cidadãos do continente, exortando-os a amar a Europa e a votar nas eleições. Como é sabido, declarações deste género só se fazem quando as coisas ameaçam correr mal. Geralmente, correm mesmo. Eram só os 21 Presidentes da República. Os monarcas, também chefes de Estado, estavam ausentes, o que é incompreensível, ou foram excluídos, o que é inadmissível. Eram países sem importância, como a Bélgica, a Dinamarca, a Espanha, a Holanda, o Luxemburgo, o Reino Unido e a Suécia.
O texto é curioso. É uma profissão de fé na Europa. Chefes de Estados que já se detestaram e guerrearam inúmeras vezes juntaram as suas vozes em prol da Europa. É bonito ver! Tão bonito quão inútil! Eles imploram votos e pedem entusiasmo: é quase tudo o que não vão ter! A crise da Europa e as crises na Europa não se resolvem com mais Europa, o que é o mesmo que dizer com mais crise! Nem com Ágapes ou Credos.
Apesar das enormes taxas de abstenção, o pensamento dominante na Europa é de que é possível, com educação e propaganda, aumentar a participação. Entre os mitos virtuosos relativos à União, contam-se o da cidadania e o da democracia. Ora, não existe uma cidadania europeia, nem uma democracia europeia. Há cidadãos nacionais na Europa, tal como há democracias na Europa. 
Uma ideia fixa é a de que existe uma identidade europeia, quando é evidente que existem identidades nacionais, possivelmente em bom convívio com a Europa, mas uma identidade europeia é uma invenção. Outra ideia persistente é a de que a Europa deve estar próxima dos cidadãos, resolver os problemas das pessoas e ser sentida como uma realidade na vida quotidiana de todos. Se assim for, as crises desaparecerão, o nacionalismo será derrotado, os fanatismos serão combatidos e os inimigos da Europa poderão ser destroçados. Os europeus perceberão a bondade da ideia europeia. A União será uma realidade quase familiar. São estas as ilusões que abundam no nosso continente, as mesmas que poderão liquidar tão interessante criação como a União!
As crises europeias, segundo os ortodoxos, resultam do facto de não haver suficientemente Europa. Daí a solução conhecida de “Mais Europa”, com o que as dificuldades aumentam. Sempre que surge um problema, seja uma mera questão de identidade e de autonomia, de imediato aparecem os sacerdotes europeus a bramar contra o nacionalismo e assim se dá, ao contrário do esperado, mais força ao nacionalismo.
A Europa ainda é invejável pela cultura, pela protecção social, pelos direitos dos cidadãos e pela paz. Mas já não o é na ciência, na tecnologia, na inovação, na economia, na produtividade, na defesa e na força política no mundo. Destruir as grandes conquistas europeias, que são conquistas dos Estados e das nações, significa simplesmente desistir do que a Europa tem de grande e importante, a sua variedade, a autonomia dos seus países e a identidade dos seus Estados e cidadãos.
A democracia e a liberdade têm geografia. Talvez, dentro de uns séculos, seja diferente. É possível. Mas, para já, quem defende a liberdade, a democracia e os nossos direitos são os Estados nacionais que conhecemos, com os seus parlamentos, os seus tribunais, as suas forças armadas e as suas polícias. E até com as suas alianças internacionais, como a NATO e a UE. São os Estados e as nações que garantem direitos e liberdade. Quem quiser reclamar Justiça, segurança, direitos fundamentais, protecção e solidariedade, dirige-se ao Estado nacional.
Alguém sensato acredita que um Parlamento com 750 deputados, vindos de 28 países e falando 24 línguas oficiais seja capaz de defender os direitos dos cidadãos? Alguém se revê num Parlamento em que os deputados não são reconhecidos pelos seus eleitores, não representam pessoas e não tem meios para cuidar das liberdades e dos direitos dos europeus?
Alguém sente como seu um Parlamento com enorme capacidade de dissolução dos problemas e das diferenças, onde qualquer mudança à direita num país é compensada por igual mudança à esquerda noutro país? Se, dentro de uma semana, Portugal fizer uma viragem política, logo a Lituânia compensará, votando de outra maneira. Aquela assembleia não é um Parlamento, é um lugar geométrico e um passatempo. Ou Cafarnaum, cidade de esperança, destruída na confusão.
Haverá alguém capaz de dizer o nome de cinco comissários? Ou de enumerar os países membros? Ou de citar os nomes de três presidentes da Comissão? Ou de saber as diferenças entre o presidente do Conselho, o presidente do Parlamento e o presidente da Comissão?
Aideia de que há uma só União, a que temos, é uma ideia despótica, como sempre que existe um dilema. Querer uma União diferente da que temos, menos federal, menos unitária e mais variável não significa ser nacionalista, fascista, xenófobo e anti-europeu. Há várias Europas e várias Uniões possíveis. Com e sem nações. Com e sem federação. Com e sem geometria variável. Com ou sem euro e Schengen. Com e sem fronteiras abertas a terceiros. É detestável a ideia de que só existe uma Europa, uma só União, uma só modalidade! Isso é puramente totalitário! Existem mutas Europas possíveis, tudo depende das escolhas, da força dos países, da convergência ou divergência de vontades maioritárias.
É verdade que a União está sob ameaças. Dos seus rivais, Rússia, China e Estados Unidos. Dos seus inimigos, nacionalistas de extrema-esquerda e de extrema-direita. Sobretudo de si própria, dos que insistem em dizer que a União se deve construir contra os Estados, contra as identidades nacionais e as pátrias.
Como já toda a gente percebeu, nas próximas eleições europeias, apesar de tantos candidatos dizerem com ar seráfico que querem “discutir a Europa”, a verdade é que se vai votar nacional, Lisboa, Paris, Londres, Madrid, Barcelona, Roma e Milão. Mas, como o voto não tem efeitos, a maior parte dos eleitores não vai votar. Os que, nesse dia, o fizerem, votarão por causa dos imigrantes, da corrupção, dos bancos, do salário mínimo, da saúde, das filas de espera, dos atrasos na justiça, da criminalidade, dos incêndios, do racismo, da violência doméstica e da pobreza. Quem votará por causa das directivas europeias e das estruturas de decisão?
Quem realmente pode destruir a Europa e a sua União é quem se revela intolerante e autoritário, quem utiliza a Europa contra a identidade nacional. Quem se limita a acreditar. Quem sonha com sociedades sem geografia e sem identidade. E quem fantasia com países sem cultura e sem autonomia. Quem cultiva a pior das armas: as ilusões. 
Público, 12.5.2019 

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11.5.19

O FALHANÇO DO NOSSO SISTEMA EDUCATIVO

Por A. M. Galopim de Carvalho
“Promover a reflexão sobre os acontecimentos actuais, fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz”. São palavras de UNESCO, atiradas ao vento que, infelizmente, muitíssimo pouco ou nada no têm tocado.
Tudo o que nelas se pretende promover está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos programáticos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. Mas a verdade é que continuamos a ser um povo maioritariamente desinteressado pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e em que a maioria dos simpatizantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias.
O Primeiro Ministro António Costa tem perfeita consciência desta  “vergonha nacional” (palavras minhas) quando diz: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
A Revolução de Abril, escancarou não só as portas, como os portões e as janelas, ao conhecimento nos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas vivemos 45 anos, praticamente, de costas voltadas para estes valores, entretidos com futebol, lutas entre os aparelhos partidários, e três televisões, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós, que “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da incultura em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo, sem ter aproveitado o prazer de saber e com isso ter participado numa sociedade melhor.
Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja “munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”, a verdade é que (só falo da experiência que tive) são muitos os rapazes e as raparigas, que pouco ou nada leram, que chegam à universidade falhos de todas as culturas, sem saberem escrever português.
Os teóricos que aconselham os governos pretendem (ilusoriamente e estou em crer que sem convicção) que o jovem, cumprida a escolaridade obrigatória, “seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”, mas basta ver a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para constatar a falência deste nobre propósito.
Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a “colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”. Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante e se manifesta como se vê nas lamentáveis e degradantes “Queima das Fitas”, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem.
É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino.
Os professores devem saber muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos tantas vezes estereotipados, deficientes e acríticos manuais de ensino. Para tal, necessitam de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm. Há, pois, que libertá-los das tarefas que não sejam as de ensinar e rever toda a política dos ditos manuais, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e à correspondente supervisão;
É necessário e urgente fomentar, como inerência de cargo, a dignificação e o respeito pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar, e que a Escola recupere todas as competências fundamentais à disciplina, aqui entendida como observância às regras democraticamente estabelecidas. 
A remuneração dos professores tem de ser compatível com a sua real importância na sociedade. Um professor universitário (que é avaliado, pelo menos três vezes ao longo da carreira) não é nem mais nem menos importante do que uma educadora de infância ou de um professor ou professora do ensino básico ou do secundário. Por outro lado há que resolver o grave problema da colocação de professores, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias
É, pois, preciso e urgente que a pasta da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos respectivos titulares, como nas dotações orçamentais que permitam dar às escolas as necessárias condições de trabalho.
Em suma, é preciso e urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver vontade política (despida de constrangimentos partidários) para promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial” poderosa e nebulosa, de há muito, instalada.

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10.5.19

Os Chibos são uns heróis

Por Joaquim Letria
Guardo a imagem da Dra. Ana Gomes em pose com o rapazinho Rui Pinto a quem foi entregar o prémio europeu de melhor bufo.
Estes bufos, agora, são chamados “whistlle blowers”, literalmente “os sopradores de apitos”, ou utilizando o nosso calão tradicional, aqueles que “põem a boca no trombone” denunciando pessoas e situações com contrapartidas por parte de quem os quer ouvir, negociando com as autoridades, no caso de terem sido apanhados a praticarem crimes Se falarem não serão condenados ou dão-lhes uma pena levezinha.
Rui Pinto tentou abotoar-se com uma pipa de massa e húngaros, alemães e franceses já o tinham abarbatado, mas ele trocava tudo por bufar estes e aqueles com o que diz que sabe, e diz que sabe muito.    
Quando havia actividades políticas contra a ditadura, na clandestinidade, falar na polícia, mesmo sob tortura, era bufar. Alguns não aguentaram a brutalidade da tortura física, ou iam-se abaixo com golpes psicológicos, ou sucumbiam às alucinações provocadas pela tortura do sono e os seus camaradas puniam-nos com o desprezo e o ostracismo de que não se recuperava.
” Fulano falou!” A gravidade de falarem é que metiam outros camaradas na cadeia e destruíam as estruturas da luta, montadas com grande sacrifício e trabalho, além da moralmente imperdoável colaboração com o inimigo contra os seus.
Hoje, que não há presos políticos em Portugal, o bufo perdeu a antiga identidade que tivera na ditadura. Bufos também eram todos os que iam denunciar colegas de trabalho, homens e mulheres que interessassem às polícias, conversas de café, suspeitas infundadas, etc. Mas no mundo daqueles que fogem à justiça, mas mantêm códigos de honra (ainda há quem os tenha), bufar é chibar e um bufo passou a ser um chibo, merecedor do mesmo desprezo devido aos bufos de antigamente.
Mas hoje, polícias, magistrados e políticos, mesmo os que se dizem democratas, estão de acordo que é mais fácil prender para investigar do que investigar para prender. E desse esquema faz parte aquilo que todos eles chamam de “delação premiada”. Ou seja, aquilo que a Ana Gomes anda alegremente a premiar.
Uma coisa são os casos de Assange e Snowden, que tiveram a coragem de revelar ao Mundo grandes crimes contra povos e contra a humanidade, correndo o risco de serem presos ou mortos. O resto são estes rapazinhos que puserem a boca no trombone, mesmo com inverdades, contra quem queremos ou nos convém.  A esses, a gente dá-lhes um prémio e chama-os de heróis.
Publicado no Minho Digital

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9.5.19

Apontamentos de Lagos


Colaboração no COREIO DE LAGOS de Abril 2019
Publicado pela mesma Câmara Municipal que corta as árvores da cidade às dúzias de cada vez... 
(Este ano, logo a seguir ao Dia da Árvore, foram 35 seguidas!)

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A crise académica de 1969, a greve e outras greves e crises

Por C. Barroco Esperança

Quando em 17 de abril de 1969 não foi concedida a palavra ao presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins, que a solicitara numa cerimónia académica, presidida pelo lacaio de Salazar, Américo Tomás, abateu-se a repressão policial contra os estudantes. Seguiram-se a greve e a falta aos exames pelos alunos que contestaram a ditadura e acabaram presos e mobilizados para a guerra colonial, que lhes interrompeu os cursos.
Neste ano, a pretexto do cinquentenário, tem vindo a ser comemorada a data – e bem –, na homenagem que é devida, pela coragem, aos que ousaram desafiar a ditadura e a sua feroz repressão enquanto ainda andam por aí os que, por convicção fascista, traíram.
Pela importância do movimento académico na luta contra o fascismo, compreende-se a omissão das lutas dos trabalhadores e oposicionistas, em geral, e dos comunistas e anarquistas, em particular, vítimas de ainda maior e mais violenta repressão.
Lamento, na evocação da crise de 1969, o facto de não ter sido utilizada para associar, na recordação desta corajosa luta académica, as que a precederam. Já não digo que se recuasse à heroica luta da greve de 1907 contra a ditadura de João Franco, mas a todas as que desgastaram o consulado salazarista.
Em 1962, a crise académica, começada em Lisboa, foi um dos principais momentos da luta dos estudantes universitários portugueses contra a ditadura. O I Encontro Nacional de Estudantes acabou por se realizar em Coimbra e os dirigentes da AAC acabaram na prisão e no exílio com a feroz repressão a ser exercida sobre todos, desta vez incluindo, pela primeira vez, alunas que foram presas na PIDE de Coimbra, por não haver cadeias políticas para mulheres.
O futebol, instrumento de alienação do salazarismo, teve momentos épicos através da Académica cujos atletas eram maioritariamente estudantes universitários que arriscaram o que para muitos era o único recurso para um curso superior.
Seria ingratidão não aludir à corajosa luta dos estudantes-atletas no final da taça de 1969 que, em solidariedade com os dirigentes que viriam a ser expulsos da Universidade, viram negadas sucessivas formas de manifestação de luto académico.
Acabaram por entrar em campo, no Jamor, com a capa pelos ombros e o emblema traçado por adesivo, em sinal de luto. Nas bancadas os estudantes empunhavam cartazes hostis ao regime que passaram de mão em mão, num desafio à ditadura.
Finalmente, por ser um episódio quase desconhecido e de grande relevância cívica, deve ser lembrado que os jogadores da Académica, já em 1967, no Torneio Internacional  de Caracas, homenagearam Simão Bolívar em cujo monumento depuseram uma coroa de flores.
A equipa, acompanhada pelo grande jornalista e democrata Carlos Pinhão, viu o ato ficar perpetuado no jornal “A Bola”, então um baluarte da democracia que, perante a desatenção da censura, perpetuou o nobre ato democrático.
Por gentileza de um dos participantes deste feito, que nunca mais seria alheio à defesa da democracia, aqui fica o recorte que a ignorância do censor, sobre a figura de Simão Bolívar, deixou passar nas páginas honradas do jornal desportivo.
(Ler legenda - foto canto inferior esquerdo)

Ponte EuropaSorumbático

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6.5.19

QUANDO JORGE AMADO ANDOU POR AQUI

Há uns anos, estava eu na livraria Barata, em Lisboa, procurando leitura para essa noite, quando me deparei, inesperadamente, com o “Navegação de Cabotagem”, de Jorge Amado, que nunca lera; e imagine-se a minha surpresa quando, ao folheá-lo, vi que tinha uma dedicatória do autor a uma senhora muito conhecida, datada do dia do lançamento que ali mesmo decorrera, mais de 20 anos antes! E melhor ainda: ao lado desse, um outro exemplar, dedicado a uma outra personagem ainda mais famosa! Claro que lhes dei logo destino e novo dono, pelo que os tenho agora aqui comigo, fazendo inveja a todos aqueles a quem conto a história, para a qual nunca encontrei uma explicação totalmente plausível.
Passaram-se anos até que eu pegasse na obra mas, depois de a ler, só lamentei não o ter feito há mais tempo — pois, terminado em Junho de 1992 (pouco antes do 80.º aniversário do autor), é um extenso repositório de memórias deliciosas, abrangendo um período de mais de meio século e peripécias vividas em todo o mundo; de entre essas, muitas são as passadas em Portugal, país que ele adorava e conhecia bem, mas onde, durante a ditadura, esteve impedido de entrar.
Uma delas foi quando, em 1976, já gorducho e sexagenário, veio até aqui, às Terras do Infante, travestido de turista ianque em férias — de bermudas, camisa às florinhas, sandálias e boné de marinheiro — e foi visitar a fortaleza de Sagres com a família. 
Ao chegar, eis que uma barraca de guloseimas e frutos secos lhe chama a atenção. Aproxima-se e, sem dizer palavra, tira um figo do monte e trinca-o, deliciado.
— Good? – pergunta-lhe o vendedor, confirmando, mesmo sem querer, que o disfarce é bom.
— Good! - responde o nosso amigo, entrando no jogo, e continuando a saborear o fruto.
Então, o outro, porventura achando-se muito engraçado, decide comentar em voz alta, para quem o quer ouvir:
— Estás gordito, hem, filho da puta?
Responde-lhe uma gargalhada dos circunstantes, a que se segue o grande embaraço do comerciante, vendo-se apanhado em falso e sem fazer a menor ideia de que o “fdp” é o autor da “Gabriela” que, à época, já toda a gente conhece.
Não se fica a saber, por esse livro, se alguma vez o autor de “Jubiabá” chegou a vir a Lagos, mas uma coisa é certa: se hoje em dia cá viesse, a realidade lacobrigense não lhe seria estranha; e digo isso pelo que se lê em “Terras do Sem Fim”, um romance de grande dramatismo acerca do cacau, com os “coronéis” a matarem-se uns aos outros para conquistar as matas virgens — nas quais, depois de mortos os homens, se matavam as árvores para plantar o precioso arbusto. 
E é a meio da obra que Jorge Amado intercala duas páginas de humor com sabor tipicamente lacobrigense: uma vez por ano, no Dia da Árvore, um dos arboricidas locais juntava as criancinhas da escola, dava-lhes uma prelecção sobre o valor das árvores (depois de um hino cantado em louvor da Natureza), e punha-as a plantar um arbustozinho raquítico — certamente com a presença de algum fotógrafo, para a publicidade no boletim lá da terra.
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“Correio de Lagos” – Abril 2019

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5.5.19

Grande Angular - Saúde e política

Por António Barreto
É legítimo pensar que o PCP e o BE pretendem acabar com a saúde privada. Até chegar esse dia, procuram percorrer os caminhos estratégicos dos passos graduais. Primeiro proíbe-se isto, depois aquilo, até à vitória final. É o seu mais legítimo direito. Não gostam da saúde privada, não entendem que assim se possa tratar bem de doentes, acham que só o público gere e trata bem. Pensam que a saúde não é um negócio e que não se pode ganhar a vida com a saúde dos outros. Para eles, a saúde privada prejudica a saúde pública. Se o público trata mal, é por causa dos governos e do sector privado. A ideia de que a saúde privada deve ser liquidada não é original: estes partidos pensam o mesmo da educação, da segurança social, da água, da electricidade, dos caminhos-de-ferro, dos correios e de quase tudo. Não há verdadeiramente novidade.
Conforme os tempos e as conveniências, o PS acolhe todas as hipóteses para organizar a saúde, com especial afecto pelo Serviço Nacional de Saúde. As sensibilidades que existem dentro do partido dão para tudo. Há os que querem estreita colaboração entre público e privado. Os que querem separar as águas, mantendo ambos sectores activos. E os que querem deixar os privados longe, em áreas residuais ou em condomínios de ricos.
O PSD e o CDS, com diferenças de pormenor, aceitam o serviço público, uns mais por resignação, outros por suave convicção, nunca foram persuasivos nas suas declarações favoráveis ao SNS e exibem uma preferência marcada pela saúde privada.
É pena que quase ninguém defenda um sector público forte, ao lado de um sector privado consistente. Geralmente, entre nós, quem quer um forte, quer liquidar o outro. Ou espera que os outros sejam fracos.
Adiscussão sobre a lei de bases da saúde é bem vinda. Permite esclarecer opiniões. O momento, em cima de eleições, não é o melhor. Os ânimos estão acesos, o argumento eleitoralista domina. Como vivemos em tempos de adversários, esquerda contra a direita, a saúde não vai ficar a ganhar. A nova lei de bases, se houver uma e se for declarada constitucional, não vai durar muitos anos. De qualquer modo, o mais importante na saúde não é de todo a lei. É o orçamento, o investimento, a organização hospitalar e dos centros de saúde, a exclusividade dos médicos, a humanização dos cuidados e a prontidão do atendimento.
Aparentemente, o caso mais polémico é o das parcerias público privadas, de que Portugal é, previsivelmente, o campeão do mundo! PSD e CDS querem que seja possível. O PS admite, diz que não gosta muito, mas esteve em quase todas. O PCP e o BE querem proibir. É mais um debate bem português. A proibição é o essencial. Uma boa lei, em país civilizado, deixaria as hipóteses em aberto aos governos e aos partidos que, conforme os votos, fariam o que desejassem fazer. 
As PPP da saúde são poucas, talvez quatro. Umas correm bem, outras mal. Não merecem este barulho todo. É certo que não deveria haver PPP em quase nada. Mas a verdade é que as PPP dos últimos trinta anos e que incluem os sectores ferroviário, rodoviário, portuário, de saúde, de segurança e outros, foram uma solução de espertinhos para adiar défices, como foram a porta de entrada para enorme quantidade de negócios ruinosos para o Estado. Este paga a mais, controla a menos, reserva para si as cláusulas de risco, remete para os privados os benefícios e assinou misteriosos contratos com cláusulas secretas. As PPP para a saúde deveriam ser revogadas, tal como, aliás, a maior parte das outras, se não mesmo todas, dado que se revelaram um péssimo negócio para o Estado e uma escola de promiscuidade para muita gente. 
OSNS deve ter gestão pública, é um princípio evidente. Não faria qualquer sentido subalugar este serviço a entidades privadas cujos objecto e orientação são diferentes da lógica essencial do serviço público. Deve ter meios e exclusividade, com autonomia e responsabilidade.
A existência de instituições privadas é essencial, como exigência de liberdade e democracia; como termo de comparação entre sistemas; como fonte de desenvolvimento; e como condição para a livre escolha, mesmo sabendo que esta liberdade de escolha não beneficia toda a gente de igual modo.
Parece inquestionável que possa haver convenções leais entre organizações públicas e instituições privadas, no quadro dos subsistemas e de contratos públicos, como a ADSE, os militares e outros. As convenções contribuem para a liberdade de escolha. Esta deveria ser virtude estendida a todos os portugueses. Os sistemas de convenção deveriam ter organizações de supervisão de confiança e não incompetentes como foi o caso durante os anos de facturação exagerada, só possível com a conivência das entidades públicas pagadoras.
A dedicação exclusiva ao serviço público, por parte de médicos e enfermeiros, deveria ser a regra, com efeitos benéficos para as instituições e para os utentes, como se vê nos poucos hospitais em que tal é adoptado.
Indispensável, sem exigir qualquer nova lei, é um grande desenvolvimento do SNS, das suas capacidades técnicas, da prontidão, do conforto e da humanidade das suas unidades e dos seus profissionais! Uma revisão radical dos sistemas de filas de espera e de marcação de consultas e de cirurgias é tarefa urgente, pois vivemos num país cruel, em que os atrasos são marcas de uma enorme desigualdade social.
Há quem queira destruir as instituições privadas de saúde, como aliás querem liquidar os privados das escolas, dos seguros, dos serviços públicos e, mais tarde, da economia! É lamentável verificar isto, meio século depois de fundada a democracia. Mas a vida reserva-nos estas surpresas. Governo, socialistas, comunistas e bloquistas juntam esforços contra os médicos e os enfermeiros, contra a ADSE, contra os seguros de saúde e contra as clínicas e os hospitais privados. É evidentemente uma luta política que nem sequer se desculpa por ser ano de eleições. Foi-se longe de mais. O SNS e as instituições públicas de saúde já sofriam uma enorme pressão por falta de investimento e menor qualidade de serviços. Há miséria na saúde desde os tempos da troika, agravados agora pelo socialismo. O SNS não precisava desta crise exclusivamente política. Precisava, isso sim, de cuidado.
Público, 2.5.2019 

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3.5.19

Os malandros dos grevistas

Por Joaquim Letria
Acho muita graça aos comentários dos políticos em particular e dos cidadãos em geral sobre as greves e os grevistas em Portugal. É muito engraçado ver como dum lado e doutro muitas vezes se mente e se esconde a incompetência própria e se reage mal contra os inconvenientes.
Centremo-nos em três greves recentes: a dos camionistas, a dos estivadores e a dos enfermeiros, para não irmos à greve dos professores que o Governo mantém em banho maria até enervar outra vez os estudantes, pôr os pais desnorteados e deixar os professores esgotados na época dos exames, sem necessidade nenhuma.
Todas estas greves patenteiam pouco bom senso, muitas vezes dum lado e do outro, revelando o mau carácter de uns e de outros, mas principalmente mostrando a impreparação de quem se arvora em patrão ou se julga poder público.
O êxito alcançado pela mediação competente e rápida do ministro Pedro Nuno Santos na greve dos camionistas podia ter acontecido muito antes dos incómodos e prejuízos causados por dia e meio de greve se quem encarregou Pedro Nuno Santos da solução da crise tivesse actuado com antecipação.
Talvez agora se convençam de que o Governo deve monitorizar e evitar situações que podem ter consequências graves para o público e estratégicas para a nação e escusava o próprio ministro de vir agora borrar a pintura falando da necessidade de “revisitar” a lei da greve.
As mentiras do Governo contra os enfermeiros foram lamentáveis e vergonhosas. Afinal não morreu ninguém por falta de cirurgias, afinal o crowdfund foi limpo e democrático, como ficou provado, sem ter por detrás tenebrosas organizações, empresas e partidos e mais não foi do que a imitação de financiamentos por fundos sindicais solidários como sucede por todas as partes pelo estrangeiro.
Os enfermeiros têm toda a razão para fazerem greve, como provam os milhares deles a exercerem com toda a dignidade e competência a sua profissão no estrangeiro, entre os melhores e mais bem pagos, com justiça e reconhecimento e sem terem de aturar políticos de meia tigela.
Recordemos a greve dos estivadores. Os políticos só fizeram alguma coisa quando a Volkswagen, com 20 mil carros por exportar, disse que o melhor era pensarem pôr a Auto Europa noutro país. Aí foi um “aqui d’el rei”, um “valha-nos nossa senhora”, mas até lá ninguém previu ou se antecipou mediando uma greve que afinal foi resolúvel em meia dúzia de dias e tinha sido facilmente evitável.
Por fim, temos a recente greve dos motoristas de transportes de matérias perigosas que em dia e meio a 100% de adesão deixou o país sem combustíveis, aviões a serem desviados a fim de se abastecerem no estrangeiro, forças de segurança apeadas e serviços de emergência sem saberem o que fazer, para além de centenas de milhares  de cidadãos e visitantes com as férias da Páscoa arruinadas Também isto não era previsível?! Não houve sequer um mísero secretário de Estado que pudesse ter pedido licença para falar e avisasse os ministros e primeiro ministro do que vinha lá? Por amor de Deus…
Recordo-me dos anos em que trabalhei com o general Eanes na Presidência da República, quando havia governos de iniciativa presidencial e em que situações como estas – na altura muito mais frequentes e graves — eram previstas, acompanhadas e ajudadas a serem resolvidas a tempo pelos patrões, pelos sindicatos e pelo governo, mediando-se entre as partes sem ingerências nem crises de incompetência como estas a que ultimamente assistimos.
Durante anos vivi em Inglaterra, sob Edward Heath e Harold Wilson, debaixo de conservadores e trabalhistas, e passei por greves que aqui pouca gente consegue sequer imaginar o que foram – a semana dos três dias, a greve do lixo, a greve dos transportes e a greve dos mineiros para não falar de muitas outras. Sempre ali ouvi aos ricos, à classe média e aos pobres uma única crítica às greves: contra aqueles que tendo poder não o utilizavam para evitar o mal da classe operária, o prejuízo da economia e a moléstia dos cidadãos.  
Lá, os grevistas recebiam ajudas dos sindicatos ou de fundos de solidariedade como o das nossas enfermeiras. Contra os grevistas, contra os piquetes de greves que não brincavam em serviço não ouvi nem uma palavra mesmo dos mais conservadores.
A imagem, acima de todas as outras, que conservo das greves no Reino Unido é a de uma senhora de meia-idade, passageira da primeira classe da British Airways, irrepreensivelmente vestida e calçada, subir a escada que fora montada para o porão do avião em que viajáramos e ali procurar – tal como eu e muitos outros -- a sua bagagem para podermos ir para casa, no meio duma greve de trabalhadores de terra dos aeroportos britânicos.
“Inacreditável como esta empresa obriga os seus trabalhadores a chegarem a este ponto. Coitados deles e de nós, entregues a esta gente”. Foram estas as suas palavras para mim, com um sorriso constrangido, quando descortinou as suas malas nas pilhas de bagagem do porão daquele avião. Nunca esquecerei estas palavras nem aquela senhora. A cena e a protagonista voltaram agora a estarem vivas quando assisti ao triste espectáculo dum ministro socialista a falar que “tem de se mexer” na lei da greve.
Publicado no Minho Digital

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