22.6.18

MILAGRE, SABE-SE LÁ

Por Joaquim Letria
De há uns tempos para cá que ninguém fala, dá conta ou se maravilha com milagres. Muito menos se estes acontecem num fim de semana ou coincidem com os destemperos futebolísticos que tanto entretêm a nossa querida Comunicação Social. Foi o caso deste  que, tarde e a más horas, vos dou conta, penitenciando-me pelo atraso, embora hoje, estando eu longe dos media, me possam ser relevados os “deadlines” ultrapassados.
Então foi assim: no sábado em que o Real Madrid conquistou a sua 13ª liga dos Campeões da Europa, derrotando um Liverpool de choroso guarda-redes, muito infeliz nos lances de golo consentidos, uma refugiada procedente da Líbia deu à luz um robusto rapaz de dois quilos e oitocentos em pleno Mediterrâneo a quem pôs o nome de Milagre.
O Mundo a que o rapaz chegava encontrava-se concentrado no que acontecia no final da Champions, e assim continuaria até também ter de se preocupar com o futuro de Cristiano Ronaldo. Mas naquele momento em que Milagre dava os seus primeiros vagidos nós víamos comovidos o guarda-redes do Liverpool chorar enquanto pedia perdão aos adeptos que generosa e desportivamente lhe perdoavam, aplaudindo-o no estádio.
Entretanto, a bordo do “Aquarius” , o barco de busca e resgate da “SOS Mediterrâneo” onde a mãe acabava de parir, tudo decorria normalmente e todos festejavam o feliz desenlace, embora ninguém se preocupasse com o futuro da mãe e nascituro neste nosso estranho mundo. É evidente que também aqui o importante é o instante e o imediato, a vida pode esperar.
Imaginemos agora, em plena especulação, que esta criança vai ser um artista de valor mundial, um cientista com importantes descobertas para a humanidade, um matemático que descobre o teorema da verdade, o paradigma da justiça e consegue encontrar a verdadeira equação da felicidade!?
Sabe-se lá! Desconhecemos o verdadeiro desperdício de vida e de futuro nas crianças armazenadas em campos, exploradas na apanha do lixo, exploradas no tráfico humano, a morrerem de fome em África e vítimas da guerra um pouco por toda a parte. Diria que não sabemos nem queremos saber porque o que nos preocupa é a infelicidade do guarda-redes do Liverpool e o futuro do Cristiano Ronaldo. O resto, logo se vê.

Publicado no Minho Digital

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21.6.18

O desprezo pelo futuro

Por C. B. Esperança

A minha geração é a última que vive melhor do que as anteriores e ninguém se preocupa com o futuro dos filhos ou a herança que vai deixar aos netos.

O consumo não é apenas a vertigem de quem mede o prazer pelos benefícios imediatos, é a bitola com que cada um disputa a superioridade a que se julga com direito. Há quem considere ilimitados os recursos do Planeta e seja alheio à imensa maioria, sem acesso a água potável, ar saudável, alimentos ou saúde, sem paz, nem sequer direito à vida.
Quem tira um curso e adquire conhecimentos à custa do investimento de todos, julga-se no direito de não retribuir. Somos o produto do logro que julga imparável o crescimento e inesgotáveis os recursos, legítima a acumulação de bens e tolerável a pobreza.
A bomba demográfica continua a explodir e a multidão de miseráveis cresce. A cegueira de governantes cujo poder lhes garante a impunidade arrasta-nos para o abismo e deixa-nos impotentes face à dimensão da tragédia que já está aí, o ar cada vez mais poluído, a água a rarear, os mares a morrerem, os desertos a avançarem e os refugiados a abalarem aflitos para países onde as súbitas alterações, étnicas e culturais, estimulam o confronto, fomentam o medo e conduzem à exclusão e à barbárie.
O bem-estar é tanto mais precário quanto menos forem os favorecidos e tão mais injusto quanto menos sustentável. Há uma correlação direta do fosso que se agrava entre países ricos e pobres, e o que separa as pessoas dentro de todos e cada um deles.

Quando as exigências têm por base mais a inveja do que as necessidades e se ignoram os que não podem sequer gritar, atraem-se os vendavais que varrem os benefícios que o acaso e as circunstâncias permitiram.

O castigo raramente é aplicado a quem merece, e serão os vindouros a sofrer o que nós fazemos, a carecerem do que esbanjámos e, sobretudo, do que não nos esforçámos por lhes deixar, ar, água, segurança, emprego, saúde e alimentos.
Herdam arsenais destruidores, se não forem utilizados antes, e os maus exemplos com que os países ricos vivem o presente, indiferentes ao futuro, de que se desinteressaram, e à obsolescência do modelo económico em que insistem.
A minha geração negou a felicidade como herança.  

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18.6.18

Analfabetos ao poder!


Já não digo que, entre as duas palavras, devia haver uma vírgula.
Apenas acho que o "C" devia ter cedilha...

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17.6.18

Sem emenda - Simplex e proximidade nas Laranjeiras

Por António Barreto
Um dia de Junho. Dias depois da organização do festival da Eurovisão, ainda os Portugueses estão felizes com a sua modernidade. Dias antes do início do campeonato do mundo de futebol, no qual Portugal participa após um enorme esforço de talento. Ao mesmo tempo, no Terreiro do Paço, um zepelim anuncia no céu mais um avanço do Simplex na humanização dos serviços públicos.
Na Loja do Cidadão das Laranjeiras, em Lisboa, às oito da manhã, as filas de espera contam com umas centenas de cidadãos de todas as cores, feitios e idades. Alguns chegaram às cinco e meia, para marcar vez. Outros às sete, para tirar a senha. Quando a Loja abre, há longas filas de pessoas. Algumas já não serão atendidas nesse dia.
A Loja, realização de um governo socialista, logo adoptada por todos os governos desde há vinte anos, poderia ter simplificado a vida a milhões de pessoas. Uma só ida para resolver vários problemas. Alta eficiência. Absoluta coordenação entre serviços e total comunicabilidade entre instituições, dizem as leis e a propaganda. Rapidez e prontidão. O cidadão pode ali tratar da Segurança social, do Cartão do cidadão, do SEF, dos papéis para casar, do passaporte, da ADSE, da Carta de condução, do Registo criminal, das Pensões, dos Impostos, das certidões de registo civil e ainda da EDP, da NOS, dos CTT, da CGD, da Via Verde… Foram numerosos os benefícios. Há testemunhos a demonstrar os progressos conseguidos. Mas, como tantas vezes acontece, a rotina e a propaganda levam a melhor. Uma visita às Laranjeiras dá o sentido da realidade. A miséria institucional está à espreita.
Depois de horas de espera na rua, os cidadãos obtêm as senhas. Quem estava ali desde as 7H00, só às 9H10 obteve senhas com números de 95 a 150, conforme os serviços. Quem tentou às 10H00 já não conseguiu! Como era sexta-feira, “Venha segunda”! Não há maneira de obter, dias antes, as senhas com datas. Por vezes, são precisas três horas de espera só para saber o que é preciso.
Há gente a mais. Poucos funcionários para aquela gente toda. Pessoas sentadas no chão. Muitas de pé. Não há cadeiras que cheguem. Nem espaço. Em dia de chuva e frio ou de calor a 30º a situação é aflitiva.
É frequente haver problemas de tradução, de compreensão e de literacia. Em salas com centenas de pessoas, mais de metade são estrangeiros. Africanos, árabes, paquistaneses, chineses, tailandeses e o mais que se queira. Muitos brasileiros. Da Europa oriental já há poucos.
Em certos guichés, como no da Segurança social, para cerca de cem pessoas, há dois funcionários, uma para o atendimento geral, outro para aos prioritários (doentes, idosos, deficientes, grávidas…). Duas horas depois, há três funcionários para o atendimento geral, um para os prioritários. E mais pessoas à espera. Às 10H20, foi chamada a senha A034. Às 11H58, a A062. Ainda faltam 90!
Em poucas horas os funcionários ficam exaustos e nervosos. Uns mal dispostos, outros desesperados. Os cidadãos também. Seguir os números das senhas permite perceber quanto tempo de espera se tem diante de si. Quem chegou às 7H00 e obteve senha às 9H10 foi recebido às 14H50!
Na NET não há indicações sobre o que é necessário preparar, o que faz com que muitas pessoas, depois de passarem horas à espera, ficam a saber que têm de voltar. Como fazem os que trabalham com horários rígidos e não têm folga? E os que não têm em casa uma reformada, um velhote ou um desempregado para tratar destas coisas?
Os grandes sistemas tecnocráticos sustentáveis e as plataformas digitais ultramodernas, todos nossos amigos, todos de grande proximidade, têm o pequeno defeito de não perceber que há gente no fim da linha, que há pessoas de carne e osso, por vezes com pouca cultura e menos escolaridade, outras vezes com escola e leitura, a quem estes sistemas nada dizem. São pessoas que pedem ajuda. Pessoas a quem as Laranjeiras trouxeram promessas. Mas que, sem humanidade, não conseguem derrubar os muros da desigualdade. Pior: da indiferença.

DN, 17 de Junho de 2018

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Turistas em fila de espera, Martim Moniz, Lisboa – Foi há pouco tempo, três anos, e era assim. Os eléctricos, designadamente o 28, estavam em ascensão. O turismo também. Muitos “amarelos” estavam já destruídos, abandonados, vendidos… Mas ainda sobravam os suficientes para a ressurreição. Hoje, não há eléctrico que não esteja sempre esgotado, cheio, à cunha. E muita fila de espera. Em Portugal (e noutros países imprevidentes, deve dizer-se…) é sempre assim: algo com êxito? Fila de espera. Uma coisa interessante? Fila de espera. Cuidado de saúde, segurança social, um procedimento administrativo, uma certidão? Fila de espera. O problema é que as filas de espera para a Arena e o Rock in Rio, por exemplo, são facultativas e dependem da escolha de cada um. Enquanto as filas de espera para os transportes públicos, a Segurança Social e o Centro de Saúde são necessidades, frequentemente urgências e muitas vezes desespero.

DN de 17 Jun 18

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15.6.18

NUS

Por Joaquim Letria
Os espanhóis têm o viño de Verano que é uma espécie de água pé às três pancadas destinada a ser bebido sem exigências e a acompanhar comida insípida e incolor desta estranha época primavera-verão.
Com a proximidade do estio e seus abençoados calores, os media abrandam nos escândalos e não resistem a dedicar-se aos conselhos dietéticos das suas e seus leitores, ouvintes e espectadores. Antes de mais, vêm os avisos nutricionistas, geralmente acompanhados pelas moradas de alguns ginásios com PTs (treinadores personalizados) frequentadores das páginas da Imprensa cor-de-rosa por saírem com esta e com aquele.
Mil e uma maneiras agradáveis de perder quilos, adelgaçar a cintura, estreitar as ancas, derreter as nádegas. A seguir vem a ameaça gritada do cancro de pele, ordens para nos untarmos com todas as loções e cremes protectores, ungindo-nos religiosamente para não sermos sacrificados aos malefícios da diferença real da hora solar nem sermos engolidos pelo buraco do ozono.
Quero eu dizer com estas divagações que de meados da Primavera até ao fim do Verão, os media entendem que o corpo humano desnudado e na sua melhor forma de apresentação, é um factor muito positivo para as respectivas vendas e audiências. Ou seja, as direcções e administrações dos media sabem melhor do que ninguém que os seus consumidores gostam de ver corpos bonitos e, de preferência, desnudados.
O fenómeno não é de hoje. Nem esta preferência deve ser condenada. O pincel florentino de Cosimo Tori, o “Bronzino” (1503-1572) mostrou-nos o encontro entre Eros e Afrodite dum modo único, inesquecível e irrepetível. A comunicação de Tori é capaz de ser mais lenta do que os pixels de agora. Mas é mais profunda e eficaz.
Os corpos é que são definitivamente diferentes. A carne de hoje afirma a sua prioridade com o despudor da decadência de quem não viveu o apogeu, descuidada da harmonia e desproporcionalidade que domina o exibicionismo sexual do pintor toscano.
Importantes segmentos da sociedade afluente gostam de se comportar desta maneira – exibindo o corpo e babando suas alegadas proezas e conquistas sexuais. É interessante verificar como através dos tempos aqueles que dominam os outros procuram que a coisa pública se passe cada vez mais em privado, enquanto os simplesmente notáveis adoram tornar públicas as suas coisas privadas.

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14.6.18

A menina do cartaz e a eutanásia

Vera Guedes de Sousa é uma aluna de medicina que se tornou conhecida por empunhar o cartaz onde se exonera a inteligência e se apela ao medo. Pode vir a ser uma razoável médica, mas será uma medíocre cidadã e excelente rata de sacristia.
Quando um assunto tão sério, em que se trata da morte, não é discutido, e apenas serve para assustar os incautos, como outrora se aterrorizavam os crentes com as labaredas do Inferno, não estamos no domínio do racional, entramos no terrorismo psicológico.
É tão legítimo defender uma posição como a sua contrária, embora, no que diz respeito à eutanásia, se confronte um direito individual, que não obriga ninguém, com a decisão de quem impõe a todos a sua própria convicção.
O chumbo legislativo, em que pesaram mais os cálculos eleitorais e as guerras internas do ainda maior partido parlamentar, do que as convicções individuais, não extinguiu o problema nem tornou irreversível a solução.
Raras matérias são tão transversais a todo o espetro político e tão diversas as posições dentro de cada partido, e não se pode honestamente dizer que a eutanásia não tenha sido amplamente discutida nos órgãos de comunicação social, nas missas e na sociedade.
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13.6.18

AÇORDAS, MIGAS E CONVERSAS

A lançar dia 16, em Évora, na Mantearia do Ludgero.

Nestas conversas cabe tudo. Além dos saberes de uma culinária tradicional e caseira, cabem relatos ou crónicas de situações vividas e presenciadas, experiências de profissão, intervenções cívicas, ensaios, reflexões que vão da política à filosofia, passando pela arte, com humildade e simplicidade, na perspectiva de ensinar e explicar a quem não sabe. Conversas, como as que habitualmente se têm à mesa, em almoços e jantares de família, entre parentes ou amigos, ou entre colegas de profissão, estão aqui, a par de outras, como aquelas que tivemos, eu e os meus companheiros, com os camponeses, em ocasiões do campismo selvagem que fazíamos nos terrenos das herdades rurais, em noites de Verão, petiscando e confraternizando, onde os saberes próprios das vidas deles se misturaram com os nossos, adolescentes a estudarmos na cidade.

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