Grande Angular - Nova etapa, nova vida
Por António Barreto
A intervenção nocturna de Luis Montenegro, durante as emissões dos resultados eleitorais, ficará na história como um dos piores exemplos de carácter. O que ele fez é de mau perdedor e de oportunista. Tentou pôr ovos nos ninhos dos outros. Tentou tirar os louros a quem os ganhou. Deu os parabéns a quem não foi à festa. Propagandeou o governo e as suas próprias decisões durante 10 minutos, tentou ocultar as eleições e os seus resultados, mal felicitou o vencedor, não se despediu convenientemente de quem termina, não saudou os concorrentes e não agradeceu a quem ganhou e a quem perdeu. Não ofereceu o seu apoio.
Despedimo-nos, já com saudades, do Presidente Marcelo. Saúda-se a eleição de António José Seguro, de bom agoiro. Sem grande esforço, apenas continuando a ser o que sempre foi, pode o novo Presidente contribuir de modo efectivo para os alicerces de uma solução estável e eficiente. Os portugueses mostraram que queriam a democracia e que eram capazes de, à margem das vontades expressas pelos grandes partidos, derrotar tentativas antidemocráticas. Num frente-a-frente com a democracia, Ventura foi derrotado de modo contundente. Nem que fosse só por isso, os portugueses merecem respeito e soluções políticas que lhes dêem alguma esperança. E um futuro decente.
O clima político é favorável. Portugal é um país ferido, magoado pelos vendavais e pela destruição de bens, de projectos e de vidas. Os portugueses necessitam de enorme esforço financeiro, de engenharia, de socorro, de saúde, de transporte, de reconstrução… A ideia de que Portugal necessita de “proximidade” é demagógica e tola. Portugal necessita de acção rápida, muito rápida. Quando se vê, hoje, em 2026, numa obra do metropolitano em plena construção, um cartaz dizendo “inauguração em Abril de 2023”, percebe-se rapidamente do que Portugal necessita. O ambiente é favorável, mas os dirigentes políticos necessitam perceber que, mais do que aproveitar a onda, a acção tem de ser mais honesta do que nos tempos em que as contas partidárias eram o único critério de êxito político.
A demissão de Maria Lúcia Amaral (que foi, na Academia, no Tribunal Constitucional e na Provedoria de Justiça, uma das mais formidáveis servidoras do Estado que Portugal conheceu em décadas) parece ter marcado um ponto de mudança. Coincidiu com esse facto a transformação dos governantes em agentes de viagem, curandeiros e publicitários. A evolução dos acontecimentos trouxe-nos espectáculos desmoralizadores. O governo, sem candidato à presidência e com a neutralidade do primeiro ministro, optou pelo silêncio. Pouco depois, sob pressão dos vendavais, preferiu a palavra e a viagem. Foi fartar, vilanagem… Em cada canal, um ministro. Em cada ministro, um guarda-chuva. O entendimento que certas pessoas, especialmente ministros, têm da proximidade (palavra chave da nova democracia) traduz-se em visitas aos locais, desfiles junto dos desastres, conversa encenada com idosos ou feridos, uma mão protectora numa cama de hospital e um tabuleiro com refeição frugal numa fila de espera. Por cada visita a um local ou cada presença “no terreno”, seguem jornalistas, mais uns tantos autarcas e dirigentes locais, sem falar nos coletes da protecção de alta visibilidade. Momentos houve em que era possível, nos quatro canais de informação, ver outros tantos ministros a dizer as banalidades habituais. É bem visível toda a diferença entre estar presente e mostrar-se, ou entre ajudar e desfilar. É tão chocante ver Ventura distribuir garrafas de água antes das eleições, como ver Montenegro pisar a lama depois.
O novo presidente da República pode ser um factor favorável. O governo minoritário não é solução. O Chega, preparado para a perturbação, para não dizer chantagem, não é receita. Um partido socialista torturado entre a oposição e a colaboração, não é futuro. A fusão entre a direita democrática e a não democrática, assim como entre a esquerda democrática e a não democrática, é o desastre. A aliança entre o PSD e o Chega tem tudo para levar ao drama. As tentativas de governar “à la carte”, um orçamento com este, uma lei laboral com aquele, o serviço de saúde com um e a segurança social com outro, apenas produzem incerteza.
O mais provável é que, dentro de horas ou dias, se iniciem as grandes manobras da política portuguesa dos próximos tempos. O Chega quer derrotar ou armadilhar o governo, afim de o substituir ou com ele partilhar funções. O Governo quer durar anos, a fim de ganhar daqui a três, votando até lá ora com o Chega ora com os socialistas. Estes vão fazer a demonstração da sua moderação, aprovando ou criticando, sem nunca contribuir para derrubar. Queiramos ou não, infelizmente, estas vão ser as tarefas e as prioridades. Inúteis.
Era evidentemente bom que o governo durasse três anos e que a solução tivesse futuro. Seria bom que os esforços feitos no imediato, para reconstruir, fossem anunciadores de um novo clima político. Já é lugar comum, mas é certo que os próximos anos de Portugal, da Europa e do mundo serão perigosos. É certo e sabido que a União Europeia vai conhecer transformações difíceis. Os preços da energia vão subir, os dos alimentos ainda mais. As pressões da imigração vão ser cada vez mais fortes. Toda a instabilidade política será severamente castigada pelas populações. Tal como outros países, Portugal necessita de estabilidade, de firmeza de liderança, de democracia e de respeito pelos direitos dos cidadãos. Os nossos métodos de vida em comum precisam ser revistos, com relevo para a eficácia, o controlo de gastos e de obra, a prevenção e a fiscalização. Os portugueses precisam de viver com horizontes superiores a meses, sem o sufoco da demagogia e do curto prazo.
Chamem-lhe o que se quiser. Central, com ou sem bloco. Coligação ou aliança. Pacto ou confluência. O nome é trivial. O que interessa realmente é o governo de duração garantida, de maioria inequívoca e de programa moderado. Capaz de criar estabilidade política e de reorientar recursos. Decidido a dirigir operações de inquérito competente às obras e às despesas. Sempre com debate esclarecedor e sempre com a democracia a funcionar.
Reparar os estragos, ajudar os feridos, sarar os magoados e reconstruir o país devastado vai demorar semanas e meses. Reconstruir ainda mais. Prevenir e corrigir necessita de muitos anos e décadas. Por isso era bom começar já.
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Público, 14.2.2026
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