Grande Angular - Inevitável
Por António Barreto
Há palavras proibidas em política. Pela simples razão de que falham quase sempre no seu propósito. Inevitável é uma delas. Tal como impossível, inescapável e infalível. Além de outras. Mas o sentido é o mesmo. Quando tudo leva a crer que vai ser assim, não é. Quando é certo e sabido que não pode acontecer, vai ser. Na verdade, são termos usados para reforçar as nossas esperanças, não as nossas certezas. São palavras que servem para reforçar a nossas previsões, não para garantir a profecia. Com essas expressões, queremos contribuir para que sejam verdadeiras ou mesmo o contrário, para assustar e fazer com que não o venham a ser.
Tudo isto para sublinhar uma afirmação simples: é inevitável que este governo chegue ao fim antes do prazo; que haja eleições antecipadas; ou que haja novo governo com o Parlamento actual; ou finalmente que haja uma coligação capaz de governar o país com maioria e eficácia.
O Presidente Seguro disse, logo na tomada de posse, que esperava ou desejava que não houvesse eleições legislativas antes de tempo, isto é, antecipadas. Gostaria, pelos vistos, que a legislatura terminasse dentro do prazo. Fez muito bem. Tem toda a razão, apesar de sabermos que não depende só dele. Mas noto que ele não disse que gostaria que este governo durasse até lá. Ficou em aberto a hipótese de, com este parlamento, se organizar um governo diferente, nomeadamente um governo de coligação.
Um governo minoritário é sempre errado. É ou tem ar de provisório. Destina-se em geral a ser demitido, na esperança de que novas eleições tragam uma maioria. O PSD e o PS que o digam, pois navegaram por essas águas, às vezes com proveito. A grande esperança de um governo minoritário é a de, depois de gastar tudo, ser “injustamente” derrubado, caminhar para novas eleições e então ganhar a maioria. O governo minoritário é o de quem não quer partilhar ou dividir, quer tudo para si e seus apaniguados. Serve para incomodar os adversários, para fazer de vítima das oposições e para permitir gastar o erário público prestando poucas contas. Tem como beneficiários ou destinatários os seus militantes e os seus simpatizantes, tudo menos reformar com peso e medida, pensar a prazo e tomar conta das necessidades do país. Apesar de já ter tido boas opiniões e sinceros defensores, mas inexperientes, o governo minoritário foi sempre engano ou falsidade. É geralmente hipócrita e cínico. Nunca deixa de ser malandrice habilidosa. É um disfarce de serviço e sacrifico, é mera artimanha. Destina-se a obter vantagens próprias e exclusivas. É tudo, menos serviço ao país e ao povo.
Muitos portugueses, uma grande quantidade de jornalistas e quase todos os comentadores têm uma afeição especial pelos governos minoritários, eventualmente a prazo. É a sua vida. Calcular, fazer cenários, estudar as artes e as manhas dos políticos. Prever as tácticas possíveis, tropelias e alçapões, são actividades lúdicas, por vezes interessantes, geralmente irresponsáveis e diletantes. Mas é infelizmente muito de que vive a política. E a política de governo minoritário nem se fala!
Considerar a bondade e a utilidade de um governo minoritário, hoje, em Portugal, é incompreensível. Só mesmo por ganância e ambição. Nem se fala da situação internacional. A Europa tem estado a perder pontos, tanto militares como políticos, económicos, sociais e culturais. Pior ainda, o mundo ocidental tem estado a perder. Primeiro, porque a divisão entre Estados Unidos e Europa é perigosa, mas aparentemente irreversível. Segundo, porque o mundo democrático, tanto o real como o fictício (o que aspira, mas não é) tem estado a recuar, em força e segurança, mas também como modelo para outros povos. Terceiro, porque a crise económica e financeira, incluindo a dos preços da energia, está para ficar e afecta países como o nosso de modo radical. Quarto e finalmente, porque os perigos de enormes guerras regionais ou multinacionais são cada vez maiores, dividem o mundo, antagonizam países e destroem o direito internacional: o bastante para que cada país reforce os seus meios de estabilidade, defesa e segurança. Tudo isto, que nos escapa, mas nos fere, recomenda ao fortalecimento da democracia, dos direitos dos cidadãos, da consolidação das instituições e da coesão política e nacional. Nada disto aconselha aos jogos florais da política caseira nem às palhaçadas de bairro que tanto animam muitos políticos. Nunca, como hoje e desde há oitenta anos, vivemos com tão grandes ameaças, tão próximos dos desastres e de suas consequências. Mesmo que se evite o pior, o que aí vem não se recomenda.
Nem é preciso invocar a situação internacional e os iminentes perigos. A situação nacional e as suas debilidades são suficientes para exigir, das autoridades, dos partidos, das instituições e das empresas, um esforço especial de clarividência e de cooperação. Apesar de progressos localizados ou passageiros, Portugal tem dado sinais crescentes de fragilidade e de declínio. A vida nas cidades, a qualidade do espaço público e o uso de transportes colectivos transformam-se em pesadelos. A segregação entre ricos e pobres aumenta. O falhanço dos serviços públicos, nomeadamente da saúde, com especial sofrimento dos pobres e das classes médias e trabalhadoras, é abominável. Portugal dos fogos e dos incêndios, dos vendavais e das inundações, é o nosso Portugal de hoje, frágil, inquieto e temeroso. O ambiente moral tem-se degradado, com a ascensão dos ricos e dos favorecidos, em detrimento de todos os outros. A proliferação do populismo mais demagógico e irracional que se pode imaginar não é antídoto, antes faz parte desta espécie de crise deslizante.
O que tem de se fazer na legislação laboral, na reorganização do Serviço Nacional de Saúde e na recuperação e desenvolvimento dos transportes públicos, não é compatível com as minas e armadilhas dos governos minoritários. O que se deve fazer para reformar a Justiça não é simplesmente possível sem uma corajosa legislação e uma ousada colaboração com magistrados e advogados, impossíveis de se encontrar com governos de brincar. Tudo o que é importante e urgente exige governo maioritário e responsável, empenho do Parlamento, sintonia do Presidente da República e colaboração das instituições. Com todo o respeito pelos direitos dos cidadãos e das oposições. Nem mais. Nem menos.
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