14.12.18

A assobiar ou a ouvir o cochicho

Por Joaquim Letria
Vocês repararam bem naquela notícia que dizia que o presidente da Câmara do Montijo abre e lê a correspondência de todos os seus vereadores e de outros!? Notícia, aliás, que o distinto autarca não só confirmou como justificou, qualificando a sua decisão e acção como um muito democrático gesto em favor da transparência!? Pois!
No Montijo, o PS, agremiação a que pertence o cavalheiro, tem fama e proveito da maior seriedade, desde que ali perto o procuraram atingir com a vergonha do Free Port. Se bem se recordam, o Free Port é um enorme out let de luxo em Alcochete, que fica próximo do Montijo, cujo pagamento da licença para a construção numa antiga fábrica de pneus uns senhores ingleses diziam ter sido feito por baixo da mesa àquele senhor que deixou o país na miséria e hoje diz viver com o dinheiro que um amigo do coração  lhe dá para poder habitar na casa dum bilionário angolano muito amigo dum primo também arguido no processo da Operação Marquês. Agora andam a ver se atingem a agremiação com os negócios do novo aeroporto e a transferência da base aérea, tudo a verificar-se precisamente no Montijo do Sr. Canta.   
Além de ler a correspondência dos outros, este ilustre autarca do Montijo, Nuno Canta de seu nome, também manda apagar as gravações das sessões camarárias dando origem a uma grande trapalhada com as actas.
Que engraçado que eu acho observar a democracia e ver  o respeito constantemente manifestado e seguido pelas leis do nosso país, assistindo à tranquilidade com que grandes democratas como estes cometem irregularidades e crimes, ficando uns  a assobiar para o lado e outros  a ouvir alguém a trautear o  cochicho.
E agora pergunto eu: violação de correspondência não é um crime previsto na lei?! O Ministério Público anda distraído?! Os juízes continuam em greve, que não deviam fazer mas que é mais do que justa?!
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13.12.18

E a derrocada aconteceu como eu previra

Foto: Sintra Notícias
Por A. M. Galopim de Carvalho
Na sequência do alerta que lancei no passado dia 16, o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, com base na vistoria conjunta desta Câmara, da Agência Portuguesa do Ambiente IP e da Capitania do Porto de Cascais, acaba de proferir o Despacho nº 65-P/2018. Que reza:
“Determino o imediato encerramento da arriba sul da Praia Grande do Rodízio (Sintra) devendo os serviços dotar de imediato as necessárias medidas de execução do presente Despacho.
Paços do Concelho de Sintra, 28 de novembro de 2018
Assina o Presidente, Dr. Basílio Horta
A escada foi fechada no dia 29 e, no dia 30 deu-se a derrocada,
mesmo por cima do patamar concebido como ponto de observação das pegadas, mas, felizmente, a escada já estava interdita ao trânsito. 

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Allah Akbar!

Por C. Barroco Esperança

“A jihad [guerra santa] é o teu dever sob qualquer governante, seja ele ímpio ou devoto” (hadith, geralmente invocado para justificar ataques aos infiéis e apóstatas).
“Deus é grande” não é só o grito selvagem que precede uma carnificina, é a apoteose da demência mística, o sintoma da intoxicação divina pelo mais boçal dos livros sagrados.
Deus podia ter sido uma ideia interessante, mas converteu-se num pesadelo cujo nome, em árabe, remete para o mais implacável dos homólogos que alimentam o proselitismo dos desvairados da fé. Alá consegue ser o pior dos avatares monoteístas.
O islamismo, plágio tosco do judaísmo e do cristianismo, ditado pelo arcanjo Gabriel ao “beduíno analfabeto e amoral”, como lhe chamou Atatürk, ao longo de vinte anos, entre Meca e Medina, deu origem à mais sombria mutação do deus abraâmico.
O islamismo já foi mais tolerante do que o judaísmo e o cristianismo, o primeiro com a única vantagem de não ser prosélito, mas a decadência da civilização árabe transformou o monoteísmo do condutor de camelos no mais implacável e anacrónico dos três, e fonte da raiva e ressentimento contra o Ocidente.
Hoje, o cristianismo, impregnado pelo Renascimento e o Iluminismo, graças à repressão política do clero, é a religião mais pacífica, apesar do aguerrido proselitismo de algumas Igrejas evangélicas e de raras seitas católicas radicais.
O primarismo ideológico da religião, que se fundamenta em cinco pilares pueris e cuja violência seduz cada vez maior número de pessoas, exige vigilância policial e impõe um combate ideológico determinado, sem medo das fatwas e do clero que expele versículos e hadiths nas mesquitas e transmite os alegados ensinamentos do profeta nas madraças.
A Europa, onde progressivamente recruta bandoleiros de deus, deve obrigar ao respeito pelo ethos civilizacional que a moldou e defender a laicidade sem contemplações com a pedofilia, a poligamia, a opressão da mulher e outras taras especialmente islâmicas.
Podem os crentes rezar as 5 orações diárias, urinar em sentido contrário ao das orações, manter o ódio ao toucinho e aos cães, mas não podem atropelar, esfaquear ou explodir infiéis numa demencial orgia mística que lhes assegure a viagem rumo ao Paraíso.
O respeito pelos Direitos Humanos é a exigência comum a todos os homens e mulheres, sem qualquer discriminação, nesta Europa que afrouxa a defesa dos seus valores.

Ponte Europa / Sorumbático

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7.12.18

Fazer Mais e Melhor

Por Joaquim Letria
Escrever no Minho Digital vai sendo cada vez mais exigente e prazenteiro porque, como nas equipas de futebol, os craques vão chegando, treinando, conquistando lugares na titularidade e quem aqui já não tem canelas, o melhor é ficar no banco e ver jogar até que o “Mister” os mande entrar, se assim entender.
Eu gosto desta exigência ou, como dizem os comentadores e os radialistas, desta pressão que, obrigando-nos a ser todos melhores, nos ajuda a elevar o nível da equipa e a aumentar o gosto e a procura do público.
No caso do Minho Digital permitam-me que cumprimente o nosso “mister” Manso Preto por ter posto a jogar duas estrelas em que acreditou e a quem reconheceu valor inegável e imediato: a jovem Vanessa Reitor que dá cartas com um grande sorriso e ideias bem arrumadas e o experiente Jack Soifer, que escreve bem do que muito sabe, sem dúvidas, rodriguinhos e com verdade. Dois grandes craques que darão muito que falar no futuro e que me dão o prazer de alinhar a seu lado neste Minho Digital que vai alargando a sua influência e número de leitores graças à visão estratégica e experiente do seu Director.
E aqui estou eu neste triste cinzento suburbano em que habito. Com a alegria que o MD me faz chegar através das suas colunas digitais e que aqui deixo registada e com a tristeza e preocupação pelo futuro do martirizado Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo, que apesar de monumento nacional leva décadas de abandono e foi gravemente afectado pela tempestade Leslie. A gestão é do município, mas a Direcção Geral do Património Cultural promete ajudar. Ali funciona um dos mais vibrantes projectos culturais portugueses com reconhecimento internacional na sua multidisciplinariedade. Dezenas de programadores e directores de companhias de artes performativas com reconhecimento e prestígio em todo o mundo ali se acolhem, entre os seus pares.
Oxalá haja a vontade, a ideia prática e o desejo de recuperar e fazer ainda mais e melhor. Sentimentos que palpitam neste jornalzinho online, como eu dizia no início desta crónica.
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6.12.18

Jornalistas – Apesar de…, apesar de…, apesar de…

Por C. Barroco Esperança
Sem jornalismo independente não há democracia e, sem o contributo de jornalistas para a investigação dos factos, não há notícias nem opinião pública esclarecida.
Por muito que surpreenda ainda é dos EUA que nos chegam notícias fiáveis e os jornais mais independentes. The New York Times e The Washington Post resistem à campanha de Trump contra eles, com uma tenacidade sem paralelo.
Foi The Washington Post que conseguiu, secundado pelo New York Times e o britânico The Guardian, transformar o assassinato do seu jornalista saudita, Jamal Khashhoggi, no consulado do seu país, em Istambul, numa notícia à escala global.
Sem a coragem e independência dos jornais referidos, a morte e o desmembramento do jornalista, a mando do núcleo do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, estaria esquecido o contrato de promessa de compra e venda de armas com os EUA, avaliado em 110 mil milhões de dólares (cerca de 96.000 milhões de euros) e que representa o melhor seguro de vida de Mohammed bin Salman, o príncipe-herdeiro que mantém o apoio de Trump e assassina os rivais, enquanto conduz o genocídio dos iemenitas.
Desta vez, a Turquia também estava interessada na denúncia do crime, por interesses de Erdogan, o déspota que em março do corrente ano tinha presos 270 jornalistas, além dos desaparecidos, mas a notícia não teria o mesmo eco sem os referidos jornais. Este crime ter-se-ia diluído no turbilhão dos casos diários, e os aliados de Riade seriam poupados à divulgação da infâmia de tão comprometedoras ligações.
O que faz a força e a independência desses jornais é o facto de as receitas provirem dos leitores, de que dependem, e não do Estado ou de empresas de outras áreas de negócios.
A desculpa da nossa cumplicidade com a morte dos jornais que dão notícias, em vez de opiniões pagas, está na substituição da informação, que custa dinheiro e sacrifica vidas, por mentiras grátis.
Não faltam jornalistas capazes de correrem riscos e de se empenharem na descoberta da verdade, minguam leitores que queiram pagar por isso. E quando os jornais morrem, é a verdade que vai a enterrar, é a opinião pública que fica mais vulnerável, é a consciência cívica dos povos que amolece, enquanto ficamos reféns de centrais tóxicas da Internet.
Sem jornais independentes, e credíveis, não teria podido escrever este texto.

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30.11.18

E o Telefutebol, hem !?

Por Joaquim Letria
A semana passada diverti-me aqui a falar do compadrio entre políticos, jornais, Rádio e Televisão. Mal sabia eu que o estava a fazer nas vésperas do Dia Mundial da Televisão, um festejo ordenado pelas Nações Unidas.
Sem ir em festas nem correr atrás dos foguetes deixem-me hoje queixar-me da pouca vergonha em que o Futebol transforma a Televisão. Garanto-vos que pouca gente gostará mais do que eu dum bom jogo de futebol. Comecei a ver quando era miúdo e fugia à GNR para dentro dos campos de futebol pelados, naqueles tempos ainda não se gastava milhões a fazer estádios.
E quando não podia ir ou estava longe, colava o ouvido ao rádio e “via” um jogo muito melhor do que aquele que se vislumbrava num campo graças ao entusiasmo e talento dos relatores. Claro que com o advento da televisão passei a ver grandes jogos e outros que me podem interessar na TV. E ainda hoje subscrevo camais de desporto que maioritariamente me trazem jogos interessantes e actualidade desportiva que nos dizem respeito e assim cumprem a sua tarefa e obrigação.
Até aqui, tudo bem. Agora quando busco informação, opiniões, comentários e notícias do que se passa no País e no Mundo e só encontro meia dúzia de fulanos aos berros numa algazarra que tem muito pouco a ver com o futebol, tenham paciência!
A gente leva com antigos futebolistas, dirigentes derrotados, treinadores desempregados, árbitros reformados, deputados de gravata de cor clubística, ex-ministros e uns cavalheiros que se dizem adeptos por alma de quem? E não estão lá só um bocadinho. Estão lá a noite toda, que Deus os proteja.
Percebo que falar de teatro, cinema, bailado, andebol, ginástica rítmica, motociclismo, voleibol, padel, remo ou rugby exige que alguém saiba alguma coisa disso e o público se interesse. Mas levar com as intrigas, os valores das transferências, a vida particular das mulheres não será demais!?  – e também já vamos no Futsal e no Futebol de Praia, enquanto as nossas mulheres vêem galas, concursos, novelas e programas que parecem concursos de cancro entre as TVs e respectivas concorrências.
Os jovens já não vêem TV. Os velhos vêem dramas de fazer chorar as pedras das calçadas. Agora usarmos a TV como um instrumento positivo que nos informe, forme e divirta parece ser muito difícil. Mas podem crer que, com gente capaz, até é muito fácil.
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O ALERTA TEVE A RESPOSTA CERTA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Na sequência do alerta que lancei no passado dia 26, o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, com base na vistoria conjunta desta Câmara, da Agência Portuguesa do Ambiente IP e da Capitania do Porto de Cascais, acaba de proferir o Despacho nº 65-P/2018. Que reza:
Determino o imediato encerramento da arriba sul da Praia Grande do Rodízio (Sintra) devendo os serviços dotar de imediato as necessárias medidas de execução do presente Despacho.
Paços do Concelho de Sintra, 28 de novembro de 2018
Assina o Presidente, Dr. Basílio Horta

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29.11.18

Agitação social e incertezas

Por C. Barroco Esperança

Ai de quem cala o que sente e pensa, e diz o que julga que os outros gostam, mas pior é deixar-se manietar por constrangimentos sociais, calar-se por medo, deixar de abordar assuntos incómodos ou potencialmente geradores de crispação.
Quem emite opiniões tem o indeclinável dever de estar convencido de que as suas são as melhores, e deve estar disponível para aceitar que as opiniões contrárias podem ser tão razoáveis quanto as suas.
Há verdades que se calam para não desagradar, mentiras que não se contestam para não ofender, preconceitos que se toleram por comodidade. Numa sociedade democrática é a afirmação de todos e de cada um que forma o pensamento coletivo, e mal vai quando os que intervêm no espaço público se coíbem de abordar os temas incómodos. A opinião pública é a síntese dialética da opinião de todos, enquanto a opinião publicada é a que interessa a quem detém os órgãos de comunicação social e a quem os controla.
Tenho pensado muito na agitação social que irrompeu no País e na desfaçatez com que os responsáveis de muitas injustiças tomam a vanguarda na exigência da sua reparação.
Todas as greves admitidas no ordenamento jurídico português são legítimas, mas nem todas são justas e não faltam casos de oportunismo, de estratégias partidárias e de meras invejas profissionais.
Não conheço suficientemente cada sector profissional para fazer a destrinça, mas vejo a manipulação das Ordens a substituírem-se aos sindicatos e o aventureirismo das greves que não são mediadas por forças políticas responsáveis ou as que estas acabam a apoiar, para não perderem o comboio dos votos nas eleições que hão de vir.
Há uma turbulência desproporcionada que parece indiferente aos esforços do Governo quando comparado com a governação anterior, mas o regresso numa versão pior, a que darão origem, parece ser indiferente a muitos ativistas.


Há quem esqueça que o bem-estar relativo de que gozamos se deve à pobreza de outros países e à fome de milhões de pessoas, que a qualificação académica e profissional, que permite maior capacidade reivindicativa a alguns, se deve a escolas que todos pagamos, que a legítima melhoria que cada um pretende se faz com prejuízo de alguém.
Ninguém pensa no dinheiro que o País pede para manter a economia a funcionar e que o Orçamento não é elástico e que os credores avaliam os riscos. Mas será possível atender todas as greves sem arruinar o País?
Lembro-me de uma greve, assaz justa, no Reino Unido. Foi feita com notável coragem e determinação por mineiros cuja profissão era penosa e escassamente remunerada. Foi a perda dessa greve que originou vagas de desemprego, tragédias familiares, pobreza e o encerramento das minas.
A apoteose da insensibilidade social e a vingança teve na Sr.ª Thatcher a protagonista da regressão dos direitos dos trabalhadores de um lado e do outro do Canal da Mancha.
É a vida. E ninguém se recorda.
Ponte Europa / Sorumbático


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28.11.18

TURISMO DE NATUREZA E GEOTURISMO

Por A. M. Galopim de Carvalho
Estive ontem, a convite da organização, no “Congresso, Ciência, Cultura e Turismo Sustentável”, a decorrer na Academia das Ciências de Lisboa e confirmei com satisfação que a Geologia, tão mal tratada que sempre foi no nosso ensino, começa a ter expressão a nível nacional, com destaque para a divulgação promovida pela Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva, através de alguns dos seus Centros de Ciência e do seu programa Geologia no Verão, e dos Geoparques da UNESCO em Portugal, onde a cultura geológica, a 
Geoconservação e o Geoturismo ganham visibilidade.
O texto que aqui trago hoje é uma adaptação actualizada do que 
publiquei no Jornal “Tempo Livre”, do INATEL, nº 3, Jan-Fev, 2017, sob o título “Turismo de Natureza”.
Mais de mil milhões de turistas percorrem o mundo, fruindo o que cada um deles procura, gerando um potencial económico de valor amplamente reconhecido, nomeadamente, no emprego, no comércio, indústria e serviços que o suportam.
Devido ao clima, à História, à cultura, ao bom acolhimento e à simpatia natural e espontânea do povo português, à gastronomia regional e, ainda, à sua posição geostratégica, Portugal é actualmente um dos destinos turísticos mais procurados. O número de turistas que anualmente recebe nunca foi tão grande.Só no primeiro semestre do ano que passou, bateu todos os recordes, com mais de 8,5 milhões.
Entre as diversas motivações dos que nos visitam, debruço-me, em particular, sobre o Geoturismo (uma parte substancial do Turismo de Natureza menos divulgada) que,por razões ambientais, culturais, pedagógicas e económicas, entendo dever ser devidamente promovido.
No Turismo de Natureza, em assinalável desenvolvimento no nosso país, compete-me, pois, chamar a atenção para a vertente geológica da natureza sempre arredada das preocupações e do conhecimento de quem decide nestas matérias.
O convite oficial ao Turismo de Natureza que, naturalmente, inspira as agências de viagem, não deve ficar-se, pois e apenas, como tem sido a prática entre nós, pela observação da paisagem pela paisagem, sem terem conta o respectivo suporte geológico, ouda elevada diversidade de habitats naturais, com observação de aves e outras espécies. 
Territorialmente pequeno, Portugal tem grande diversidade geológica o que determina uma igualmente grande variedade geomorfológica e elevada diversidade de geossítios e geomonumentos, sendo insignificante o número dos oficialmente reconhecidos e classificados.
Há, pois, que dar relevo condizente com as respectivas importâncias a ocorrências como, entre outras, o Complexo Metamórfico da foz do Douro, o Polje de Mira-Minde (Alcanena), as Pedras Parideiras, na Serra da Freita, as Buracas do Casmilo (Condeixa-a-Nova), o Vale do Lapedo (Leiria), a Conha de São Martinho do Porto, os Monumentos Naturais do Cabo Mondego, das Portas de Ródão e das Pegadas de Dinossáurio da Serra d’Aire e de Sesimbra, as de Vale de Meios (Santarém), ainda por classificar e proteger, o Campo de Lapiás da Granja dos Serrões (Sintra), a Arriba Fóssil da Caparica, a Pedra Furada em Setúbal, a Rota da Conheiras de Vila de Rei, a Livraria do Mondego (Penacova), o Pulo do Lobo, os Passadiços do Paiva, a Ponta da Piedade, em Lagos, a Discordância Angular da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) e a grande e belíssima diversidade de geossítios e geomonumentos próprios da natureza vulcânica dos arquipélagos dos Açores e da Madeira.
Criado sob a égide da Comissão Nacional da UNESCO, em 2011, o Fórum Português de Geoparques Mundiaistem apoiado a entrada de Geoparques Nacionais que pretendam integrar a Rede Mundial de Geoparques. São membros deste Fórum, sob a coordenação daComissão Nacional da UNESCO, o Geoparque Naturtejo da Meseta Meridional, o Geoparque Arouca, o Geoparque Açores e o Geoparque Terras de Cavaleiros e outros em projecto.
Tendo por objectivos promover o desenvolvimento de novos Geoparques em Portugal, fornecendo-lhe apoio técnico e científico, coordenando iniciativas conjuntas e avançando com projectos, tendo em vista a valorização do nosso património geológico,o Fórum Português de Geoparques Mundiais da UNESCO, com o apoio de alguns dos colegas da minha e de outras Universidades, é uma importante mais valiana incrementação, não só do Turismo de Natureza, em geral, como também da Geoconservação e do Geoturismo, em particular.
Uma outra mais valia para a Geoconservação e o Geoturismo, com relevância científica e pedagógica, são os Centros de Ciência Viva do Alviela, de Estremoz, do Lousal, dos Açores e da Madeira.

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27.11.18

“TERRA- ROSSA”

Por A. M. Galopim de Carvalho
Sugiro ao leitor que, antes de ler este texto, leia ou releia o post MÁRMORE, de ontem.
Por agora, restrinjo-me ao solo (o chamado solo ferralítico dos pedologistas) e à capa barrenta de intensa cor vermelha que cobre e caracteriza a região de Estremoz- Borba-Vila Viçosa, geologicamente marcada pela presença de mármore calcítico, ou seja, o mármore essencialmente formado pelo mineral calcite (CaCO3, um carbonato de cálcio), como é o da pedreira que ruiu em Borba.
“Terra- rossa” é a expressão italiana aceite internacionalmente para referir um solo característico das regiões de clima mediterrâneo, de intensa cor vermelha, como é o do sul de Portugal. Trata-se de toda uma capa barrenta, incluindo o solo agrícola, composta essencialmente por barro ou argila, neste caso, uma ilite, e sesquióxido de ferro (Fe2O3, o conhecido ocre vermelho).
Toda esta capa é o que fica como resíduo insolúvel, de um inimaginável volume de mármore dissolvido pelas águas pluviais ao longo de um período de tempo que vai muito para lá da história dos homens. Estas águas ao atravessarem a atmosfera, incorporam o dióxido de carbono (CO2) sempre aí presente, adquirindo capacidade de dissolução do carbonato de cálcio da calcite.
É esta acção dissolvente que gera a “terra-rossa” e toda a variedade de aberturas e espaços vazios (algares, grutas, galerias e outros) bem conhecidos dos espeleólogos.
Na origem do calcário que, por metamorfismo, se transformou em mármore, além da sedimentação biogénica e/ou quimiogénicas do carbonato de cálcio, houve sedimentação detrítica de argila (via de regra, um silicato hidratado de alumínio e potássio) e uma contaminação por ferro, que poderá ter continuado nos processos geológicos posteriores, ou seja, a diagénese e o metamorfismo. É este ferro que, ao oxidar-se (o clima na região é suficientemente seco), gera o referido sesquióxido. 
Impregnada por um certo teor de água e sujeita à vibração de uma rodovia pavimentada a cubos (ou paralelepípedos) de granito, como foi o caso da derrocada na pedreira, esta capa barrenta entrou numa espécie de liquefacção e desmoronou, arrastando consigo as pedras e os blocos que envolvia e, tragicamente, o troço de estrada, com as lamentáveis consequências conhecidas.
Comum, não só na região mediterrânea, mas também na África do Sul, Califórnia, Austrália, entre outras, a “terra-rossa” possui boas características de drenagem, sendo considerado um bom solo para a produção de vinho. 
Para compreender melhor o processo que gera a “terra-rossa”, recuemos ao século XVIII.
A descoberta do oxigénio em 1774, pelo clérigo inglês Joseph Priestley (1733-1804), e o seu reconhecimento como o elemento mais abundante da crosta terrestre, associada à evolução da química analítica, na sequência dos trabalhos do francês Antoine Lavoisier (1743-1794) e dos suecos Carl Wilhelm Scheele (1741-1786) e Torbern Bergman (1749-1817) e de outros notáveis químicos da época, conduziram a que a composição química das rochas passasse a ser expressa em óxidos. Tais análises forneciam as percentagens ponderais de, como então se dizia, 
”terra siliciosa” (sílica, SiO2), 
“terra argilosa” (alumina, Al2O3), 
“ocres” (óxidos de ferro ferroso e férrico (FeO e Fe2O3), 
“cal” (CaO), 
“soda” ou “alcali fixo mineral” (Na2O), 
“potassa” ou “alcali fixo vegetal” (K2O), 
“magnésia” (MgO), 
“titânia” (TiO2),
“anidrido fosfórico” (P2O5),
“ar ácido” ou “ácido aéreo” (CO2). 
água (H2O), 
Este modo de caracterizar a composição química das rochas foi decisivo no avanço do seu estudo (a petrologia). Assim, para quem sabe lidar com as cifras resultantes destas análises químicas, face à composição química de um mármore, expressa em % de óxidos,
SiO2 - 3,3
Al2O3 - 0,08
MgO - 16,6 
K2O - 0,01
Fe2O3 - 0,03 
CaO - 38,1 
Deduz imediatamente que há ali sílica (SiO2), alumina (Al2O3) e potassa (KO) a revelarem a presença de argila (ilite), sílica ainda a dizer que também ocorre ali algum quartzo de neoformação, e de sesquióxido de ferro.
.
Nota:
Se o clima fosse mais húmido gerar-se-ia um hidróxido de ferro (FeO(OH)), como a goethite e outros, de cor amarelo-acastanhada o conhecido ocre amarelo. A limonite, que muitos aprenderam no liceu, é essencialmente uma mistura de hidróxidos de ferro e argila.

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25.11.18

Mármore

Por A. M. Galopim de Carvalho
A trágica derrocada na pedreira de Borba trouxe à boca dos portugueses a palavra “mármore”. Será que os nossos decisores políticos, os nossos jornalistas e comentadores de serviço e o cidadão comum sabem o que é o mármore?
Aproveitemos então a triste oportunidade para falar desta rocha ou desta pedra, como preferirem.
Muito antes de existir a ciência que dá pelo nome de Geologia e muito antes dos geólogos compreenderem e descreverem o metamorfismo, a palavra latina “marmor” já figurava entre os romanos 
Ao tempo de Agricola, o médico alemão, de nome Georgius Bauer (1495-1555), que reviu as classificações do romano Plínio, o Velho, (23-79), do persa Avicena (980-1037) e do dominicano alemão Alberto Magno (1193.1280), mármore, era toda a pedra susceptível de ser usada em cantaria. Eram “mármores” o calcário, o alabastro, o basalto (“mármore negro”, como lhe chamou Plínio), o arenito fino do “Buntsandstein” (ou Triásico germânico) e o mármore propriamente dito (o da pedreira de Borba, agora tão falada). 
Mesmo hoje, entre nós e em termos comerciais, no sector das pedras ornamentais, ainda se classificam como mármores as rochas que permitem o corte e o polimento
Para falarmos de mármore temos, primeiro, de falar de calcário. Isto porque, na generalidade e em traços muito gerais, o mármore não é mais do que calcário transformado (metamorfizado) por efeito de aquecimento e compressão sofridos no interior de uma cadeia de montanhas em formação.
Para o geólogo, mármore é uma rocha resultante do metamorfismo de um calcário. Para o construtor civil é uma da muitas rochas ornamentais existentes no mercado.
- E o que é e como se forma o calcário? – Pergunta quem não sabe.
A imensa maioria dos calcários, como os que temos aqui no Cretácico de Lisboa e Pero Pinheiro (o conhecido lioz), e no Jurássico das Serras d’Aire e Candeeiros, Arrábida e do Barrocal algarvio, é gerado em mares muito pouco profundos das latitudes intertropicais, de águas límpidas e mornas, como por exemplo os das Caraíbas do Golfo Pérsico e da Grande Barreira de Coral, no nordeste australiano (Queensland). Estes mares são propícios à formação de corais e de uma grande variedade de invertebrados (bivalves, gastrópodes, ouriços e estrelas do mar, crustáceos, briozoários, foraminíferos e outros) construtores de esqueletos de natureza calcária, e se certas algas, ditas coralígenas, igualmente construtoras de esqueletos de natureza calcária. 
Na grande maioria dos casos, é a acumulação dos restos esqueléticos (inteiros, fragmentados e/ou pulverizados) deste organismos, todos eles formados por carbonato de cálcio (aragonite e/ou calcite) que, depois de intensamente compactados e consolidados, dá origem ao calcário.
Foi assim no passado e é o que está a acontecer nos dias de hoje nos citados mares quentes da Terra?
Um parêntesis para dizer que aragonite e calcite são duas formas (ou dois minerais) diferente de carbonato de cálcio, sendo que a segunda é mais estável, razão pela qual, com o passar do tempo, a aragonite se transforma em calcite, o mineral essencial do calcário, dito calcítico, e do mármore que, igualmente, podemos dizer calcítico. Isto porque também há mármores dolomíticos.
Para falarmos do mármore alentejano (grande riqueza nacional no sector da Indústria extractiva), temos de recuar a um oceano antigo, que aqui existiu há mais de três centenas de milhões de anos, e admitir que houve, neste local do território, mas a uma latitude mais baixa (como a dos actuais mares tropicais), um mar litoral propício à proliferação de organismos, bem diferentes dos actuais, mas todos eles construtores de esqueletos de natureza calcária. 
Foi durante a formação da grande cadeia de montanhas (orogenia varisca ou hercínica de há 380 a 280 milhões de anos, no final da era paleozóica) que, entre outras rochas, deu origem aos xistos, grauvaques, quartzitos e granitos que formam a ossatura da Península Ibérica, que nasceu este mármore, por transformação do dito calcário. 
Numa descrição mais pormenorizada podemos dizer que o mármore calcítico, como o que temos em Estremoz-Borba-Vila Viçosa, os de Viana do Alentejo ou os de Trigaches tem estrutura granoblástica, isto é, apresenta grãos minerais (calcite) aproximadamente todos do mesmo tamanho (equidimensionais) e sem orientação. 
Menos importantes, mas contemporâneos e tendo sofrido as mesmas vicissitudes, temos, ainda, no Alentejo, os mármores de Sousel, Elvas, Escoural, Alvito e Ficalho. Merece, ainda, referência o mármore branco de Vimioso (esgotado), em Santo Adrião, no Nordeste transmontano.
Menos comum, o mármore dolomítico resultou do metamorfismo de dolomitos (rochas sedimentares essencialmente formadas pelo mineral dolomite, o carbonato de cálcio e magnésio). Como mármore dolomítico merce destaque a chamada “pedra cascável”, subjacente aos mármores calcíticos de Estremoz-Borba-Vila Viçosa.
Com nomes consagrados na indústria e no comércio nacionais destacam-se os mármores:
- na região de Vila Viçosa: Branco Estatuária, Branco Anilado, Creme Lagoa, Rosa Aurora e Rosa Venado.
- na região de Estremoz: Branco Corrente, Branco Rosado e Creme Venado.
- na região de Borba: Ruivina Escuro, Creme do Mouro, Rosa de Rosal e Rosa Venado:
- na região de Escoural: Verde Escoural.
- na região de Viana do Alentejo: Verde Viana.
- na região de Trigaches (Beja): Cinzento Anegrado, Cinzento Claro
- na região de Serpa: Verde Ficalho
Notas:
Diz-se marmoreado ou marmóreo, o que lembra o mármore, na cor, no frio, na insensibilidade.
Marmorite é um produto fabricado, destinado pavimentos e revestimento de paredes. Consiste, geralmente, numa mistura de fragmentos de rochas diversas (mármore, calcário e outras) aglutinados por um cimento. Uma vez seco, é serrado, polido e usado em pavimentos, à semelhança das rochas ornamentais.
Lisboa, 25 de Novembro de 2018

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UMA REFLEXÃO ANTIGA


Por A. M. Galopim de Carvalho

A tragédia na pedreira de Borba, que muitos anteviram, mas que ninguém acautelou, não deve nem pode ser usada como arma no debate político. Fazê-lo não é sério. Não é sério nem aceitável porque a verdadeira culpa só pode ser imputável a todos os que, ao longo do tempo, tiveram ali e no governo central responsabilidades como decisores.
Podemos ainda dizer convictamente que parte dessa culpa e de muitas outras está no nosso grande e triste atraso civilizacional, todos os dias demonstrado, onde o compadrio, a corrupção, a iliteracia generalizada da população, o baixíssimo nível do sistema educativo, a impreparação da maioria dos políticos e a inoperância do sistema judicial são a regra.
Como escreveu ontem Pacheco Pereira, no Público, “Está toda a gente indignada com o “falhanço do Estado” no caso da estrada que ruiu matando pelo menos cinco pessoas. E devem estar não tanto pelo “falhanço do Estado”, porque, para além de ser um falhanço, o falhanço é a regra. A excepção é as coisas funcionarem bem — ou seja, dito à bruta e sem rodriguinhos, Portugal é um dos países mais atrasados da Europa”. 
Na realidade, somos um povo que, “com excepção dos seus imediatos interesses, não quer saber muito disto é até colabora participando na pequena corrupção, na fuga aos impostos, nos pequenos truques quotidianos com o ambiente, a qualidade dos alimentos, as obras na casa, etc., etc. Só se preocupa com a pátria pelo futebol e de resto manifesta uma indiferença cívica total. (Pacheco Pereira).
Em repetição do que já aqui escrevi, a propósito da crise dos professores, a nossa classe política, no seu todo, a quem os Militares de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada” entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos cultura civilizacional. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a educação e a justiça. 
Mais de quatro décadas, de liberdade em democracia, completamente desperdiçadas.
Este triste acontecimento leva-me a trazer ao presente  uma reflexão que conheci estar na mente de um dos meus antecessores e mestres, o professor Carlos Romariz Monteiro, reflexão que subscrevo e que tem a ver com a absoluta necessidade de incluir um geólogo ao serviço das Câmaras Municipais.
Se, por lei, os nossos municípios fossem obrigados a ter, pelo menos, um geólogo nos seus quadros de pessoal, arranjava-se emprego a mais de trezentos profissionais. Profissionais que procuram no estrangeiro um lugar onde possam desenvolver uma actividade científica e/ou económica de grande qualidade, pois, de grande qualidade é a sua preparação.
Acontece, porém, que a cultura geológica da imensa maioria dos nossos políticos, dos Presidentes da República aos das Juntas de Freguesia mais esquecidas, passando por Primeiros Ministros, Ministros, Deputados e Presidentes de Câmaras, é praticamente nula, ou seja, permita-se-me o exagero, zero!
Restringindo-me agora especificamente, à generalidade dos nossos autarcas municipais, quase todos homens e mulheres acomodados aos aparelhos partidários, sabemos que não dispensam, e bem, o trabalho de juristas e economistas. Muitos têm, e bem, arquitectos e arquitectos paisagistas, ao serviço da autarquia, pois são eles que sabem de urbanismo e dos sempre necessários jardins e outros espaços verdes. Vão conhecendo, e bem, o valor da Arqueologia, porque os respectivos profissionais souberam afirmar-se como detentores de um importante saber que rende. Mas desconhecem, e mal, a importância da geologia, mostrando uma desoladora insensibilidade para os problemas ligados a esta disciplina científica.
Planos Municipais de Ordenamento do Território, em toda a diversidade dos conhecimentos que exigem, sismicidade e risco sísmico local e regional, vulcanismo e suas manifestações secundárias (nos Açores), construção civil, sempre problemática em vertentes instáveis e em leitos de cheia, rodovias municipais, pontes e pequenas barragens, captação de águas subterrâneas, aterros sanitários e lixeiras, pedreiras, minas, escombreiras associadas e contaminação de solos e de aquíferos são alguns dos problemas que só a geologia sabe resolver com competência fiável.
Como remate desta reflexão, repito o que, há décadas, ando a dizer: «o nosso sistema educativo nunca deu e continua a não dar a devida importância ao ensino da Geologia». Rapazes e raparigas marcados pela consequente impreparação, são hoje homens e mulheres desconhecedores das suas reais importância e beleza.
Lisboa, 25 de Novembro de 2018

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Apontamentos de Lagos

Enquanto no caso de Borba o governo diz que "Aquilo é com a Câmara", em Lagos a Câmara diz que "Aquilo é com o Governo" — e estamos assim há quase 10 anos!

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23.11.18

A TV que querem que a gente veja

Por Joaquim Letria
Uma boa parte da minha vida profissional em Inglaterra e Portugal foi passada a produzir, editar e apresentar notícias, debates e entrevistas na rádio e na televisão. Felizmente que não me fiquei só por aí, mas quase 20 anos de audiovisual e um conhecimento experimentado do que é Política e Comunicação autorizam-me a falar-vos acerca da nossa TV, ainda que não me considere um crítico encartado.
Não vou perder tempo a analisar este meio que vai a caminho da extinção. Hoje, abaixo dos 30 anos de idade, já ninguém vê televisão, as notícias estão nos telemóveis e os mais velhos refugiam-se no cabo e nas séries para escapar do castigo que as estações portuguesas nos inflingem. No meu caso, para saber o que se passa, vejo a BBC, a Al Jazeera, o Russian Times, a France24, os venezuelanos, os cubanos e o ISNews dos israelitas. Os americanos, com quem tanto trabalhei e aprendi, não valem hoje a pena de perder tempo com eles. E não é pelas “fake news” do Trump…
Gostaria de vos falar hoje da promiscuidade entre os partidos, os políticos, os jornais e as estações de rádio e TV que nos impede de ter uma visão imparcial e credível da vida política nacional e do que se passa nas relações internacionais. As notícias, fornecidas em telejornais de hora e meia e duas horas, misturadas com festivais de culinária, notícias do entretenimento e mais futebol, são comentadas e esclarecidas por mãos cheias de políticos.
Ora vejam só quem são os comentadores das nossas três estações de televisão:
Manuela Ferreira Leite, Luís Marques Mendes, Paulo Portas, Fernando Medina, Carlos César, Marisa Matias, Francisco Louçã, Fernando Rosas, Santana Lopes, José Miguel Júdice, Rui Pereira, Morais Sarmento, Bagão Félix, André Ventura, Jorge Coelho, Lobo Xavier, Pacheco Pereira, Hélder Amaral, Bernardino Soares, José Eduardo Martins, Francisco Assis, Silva Pereira, etc.,etc.. Estes são apenas alguns dos políticos avençados e bem pagos pelas nossas TVs para em horário nobre ajudarem a formar a opinião pública.
Permitam-me que pergunte onde está a opinião independente e séria que nos é devida, para além daquela que nos chega da Manuela Moura Guedes, Ana Leal, Sousa Tavares, Sandra Felgueiras e ainda de mais uns quantos cuja independência escorre pelos fios da teia que disfarçadamente os liga aos partidos, através da qual são marionetas nas TVs, rádios e jornais e por toda a parte por onde vendem o peixe que lhes mandam vender.
Eu, que sou discípulo e admirador de Sir Robin Day, e muito aprendi com David Frost, Johnny Carson e Michael Parkinson, pergunto onde está aquilo que nos é devido pela informação das TVs portuguesas.  E  fujo para as séries da Netflix e as entrevistas  do Hard Talk na BBC ou do Larry King no Russian Times a fazer hoje interessantes entrevistas tal qual fazia na CNN.
Publicado no Minho Digital

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22.11.18

Espanha – o aniversário da morte de Franco

Por C. Barroco Esperança
Este 20 de novembro foi um dia de êxtase para os órfãos do maior genocida fascista do século XX. No Vale dos Caídos a fila de devotos foi prestar homenagem ao mais frio e cruel ditador da história da Península Ibérica.
No 43.º aniversário da morte de Franco, o nacional-catolicismo orou em êxtase e exalou ódio contra quem recusa o cadáver a dominar o espaço da humilhação dos defensores da República, e onde sucumbiram escravizadas milhares de vítimas. Foi a última romagem de aniversário ao Vale dos Caídos. No monumento da vingança contra os vencidos e da exaltação franquista ocorreu a derradeira homenagem ao ditador, em apoteose fascista.

Na localidade de Cuenca, um deputado (conselheiro) da autarquia fez-se acompanhar da foto do ditador e da bandeira da Espanha franquista com “Gracias Franco!”, a celebrar o aniversário.
Em Saragoça, os franquistas colocaram a bandeira da Falange na imagem da Virgem do Pilar, o que obrigou a diocese a declarar que aconteceu sem a sua autorização.
Há 43 anos morreu bem ungido, muito rezado e excelentemente sufragado, rodeado de sotainas e de incenso, o general que durante quatro décadas semeou o terror e o luto.
No dia do soturno aniversário El Periódico de Catalunha anunciou que a neta de Franco é dona, desde 2003, do edifício onde funcionava um bordel, na Avenida madrilena das Delícias, de onde a Polícia Nacional libertou, em 13 de novembro, 23 mulheres que se prostituíam e deteve 17 proxenetas de uma organização criminosa que ali as explorava, na vivenda de Mariola Martínez-Bordiú Franco.

Para completar as homenagens lia-se no diário El País: “A lei dos meninos roubados teve início esta terça-feira durante a tarde no Congresso com a unanimidade dos 344 deputados presentes e um emocionado aplauso de reconhecimento de todo o hemiciclo, sem cores políticas, aos representantes das associações de vítimas.  E também com algumas novidades relevantes.». Averigua-se mais uma repulsiva conduta franquista.
Enquanto os fascistas prestam a mórbida homenagem ao assassino, a Espanha começa a sentir vergonha e a reparar o passado.

O cadáver de Franco vai ser removido, o difícil é arrumá-lo.
Ponte EuropaSorumbático

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21.11.18

Apontamentos de Lagos

Praia de D. Ana - Junho 2013
Novembro 2018
Novembro 2018

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A VASSOURADA QUE TARDA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Tenho vindo a “encher”, como dizia a minha Mãe, quando as asneiras, que eu repetidamente fazia, passavam das marcas. As nossas televisões entram-nos em casa e enchem-nos com horas e horas de alienação. Os incêndios florestais, as ilegalidades no Benfica, os mistérios de Tancos, o terrorismo de Alcochete e as prisões do ex-presidente do Sporting e do líder da claque Juve Leo  e, agora, o IVA das touradas e a “crise” nas fileiras socialistas.
Percebo toda esta estratégia das televisões privadas ao serviço, que estão, de interesses e ideologias contrárias às do PS e dos seus aliados no Parlamento. Mas já não entendo uma actuação muito semelhante por parte da televisão pública. «Com amigos destes, não precisamos de inimigos» diz o povo.
Quem me lê em todos fóruns em que escrevi e escrevo e quem me ouve sabe do meu apoio à actual solução governativa e a António Costa, político que conheço há muitos anos, que estimo e que contou com o meu voto, quer na Câmara Municipal de Lisboa, quer no Governo da Nação. Também conhece a minha absoluta independência dos aparelhos partidários, estruturas fundamentais de democracia, onde a política tem sido adaptada ao sabor de interesses, nem sempre confessados. 
Posta esta ressalva
Ocorre-me trazer hoje aqui estas palavras do nosso Primeiro Ministro, em finais de 2016, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto. Disse, preto no branco:
Uma afirmação que vem ao encontro do que, há muito, ando a dizer e que, para infelicidade de todos nós, não passou de palavras e a verdade é que não vejo qualquer propósito de alteração (eu gosto de dizer “vassourada”) no ministério da tutela.
Por todo o lado, oiço dizer que, à semelhança de outras tutelas, a educação está sujeita à “ditadura das finanças” (leia-se Centeno), mas eu gostava de acreditar que o Primeiro Ministro tem uma explicação credível para esta nódoa da nossa democracia.

Lisboa, 18 de Novembro de 2018

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20.11.18

UMA TRISTEZA E UMA VERGONHA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Que infelicidade caiu sobre uma significativa parcela do nosso povo, que rejeita, com o sorriso da ingenuidade ou da iliteracia, tudo o que convide a pensar, a reflectir, com verdadeiro conhecimento de causa, sobre o mundo que o rodeia. Um mundo, tantas vezes, nas mãos de políticos incompetentes e oportunistas de que a nossa sociedade está cheia, onde, de há muito, impera o vírus do futebol profissional e, agora, o dos admiráveis, tentadores e universalíssimos smartphones.
Uma parcela que bebe toda a alienação que lhe é servida de bandeja por uma comunicação social, em grande parte, prisioneira de interesses ligados ao grande capital?  
No que respeita o nível e exigência de ensino nas nossas escolas, não aprendemos nada com o ideal da Instrução Pública posto em prática na primeira República.No preâmbulo do Decreto de 29 de Março de 1911, lê-se  “Portugal precisa de fazer cidadãos, essa matéria-prima de todas as pátrias”. Cidadãos, diga-se, no verdadeiro sentido da palavra, tal como os gregos antigos a criaram nas suas“polis” (as cidade-estado, comoAntenas, TebasEspartae outraspara referir ospolítikoi”ou seja, os homens livres e iguais,verdadeiros protagonistas da demokratia”(palavraconstruída a partir dos elementos“demós”, povo, e “kratós”, poder) que ali se viveu e onde a fomos buscar. Foi, ainda, na Grécia que, por volta do século VI a.C., nasceuphilosophia”, outra palavra que anda na boca de toda a gente, mas que nem todos sabem que quer dizer “gosto ou amor pelo saber”, e que foi criadacom base nos elementos “philo“ (amor, gosto, interesse) e “sophia” (saber, conhecimento).
Não são, pois, polítikoi”, isto é, cidadãos no verdadeiro sentido da palavra,os mais de 50% de portugueses que se abstém de exercer o dever cívico votar, um acto elementar em demokratia”.
Não aproveitámos nada da verdadeira liberdade, em democracia, que nos foi oferecida, de mão beijada, pelos capitães de Abril. Mais de quatro décadas, em que o “gosto pelo saber” foi institucionalmente substituído pela preocupação das estatísticas, visando o “sucesso escolar”. Recuámos, mesmo, em relação ao tempo de Salazar e Caetano.
Neste quadro decepcionante todos perdemos. Perdem os professores, maltratados e amarrados que estão a ditames que não controlam, perdem os alunos e, em consequência, perdemos todos e perde Portugal. 
Uma tristeza e uma vergonha
Lisboa, 18 de Novembro de 2018

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