22.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21


Em relação
a João Cutileiro, não falta quem, melhor do que eu, diga o que tem de ser dito, pelo que me pareceu interessante uma abordagem diferente, mostrando como a sua obra é por vezes tratada na nossa cidade. Para isso, seleccionei cinco apontamentos que me parecem ser mais do que simples ‘fait-divers’, na medida em que documentam situações lamentáveis que bem poderiam ser evitadas.


I — QUANDO, em 2014, me deparei com o ‘ex-libris’ da cidade no estado que a primeira imagem mostra, fui pessoalmente à Junta de Freguesia para solicitar que se providenciasse a necessária limpeza, aproveitando para mostrar imagens de situações semelhantes, com destaque para um gigantesco ‘tag’ feito na muralha quinhentista, precisamente num dos seus panos mais visíveis.
Fui muito bem recebido e, no primeiro caso, a “desejada” limpeza do “Desejado” lá foi feita... ao fim de 40 dias. No entanto, como os ‘artistas do gatafunho’ não desarmam, em 2016 houve segunda vandalização, e ainda uma terceira em 2018 (cujas imagens aqui se omitem por falta de espaço), levando-me até a pensar se não se estaria perante algo como uma intervenção de arte BIENAL...
Quanto ao gatafunho da muralha, ele desapareceu também, embora dessa vez graças à acção do sol e da chuva — mas ambos os casos deram origem a uma proveitosa troca de ‘e-mails’ com a “Associação Socioprofissional dos Guardas-nocturnos de Lagos”, que me elucidou acerca da legislação feita para punir os autores dos grafitos selvagens, onde estão previstas coimas que — imagine-se! — podem ir até aos 25 mil euros.

II — OUTRA peça emblemática é o conhecido torso feminino que dialoga connosco deitado no pavimento da Rua da Porta de Portugal. Ora, sendo esta disposição uma opção do artista, facilmente se compreende que sirva aos cães para demarcarem o seu território, ou até de assento para passantes fatigados. Resta saber se a sua utilização como apoio de gradeamentos de obras (de preferência sinalizadas com o dístico “Lagos dos Descobrimentos”, como é o caso que a imagem mostra) também arrancaria um sorriso ao escultor. É possível que sim...

III — QUANTO à imagem do jovem a esvaziar a bexiga no painel “Alcácer Quibir”, a cena pode ser revoltante, mas nada tem de surpreendente pois, ali a dois passos, o recanto por baixo da Janela de D. Sebastião funciona há anos como WC público — com urina, fezes, grafitos e lixo. Aliás, já é proverbial a tolerância dos poderes públicos lacobrigenses para com tudo o que de degradante se passa nessa zona, pelo que é impossível, para quem estima a cidade, andar por aqueles lados sem ficar indignado — um assunto que, pela sua gravidade, não pode deixar de ser debatido nas eleições autárquicas que terão lugar ainda este ano.

IV — A FOTO seguinte mostra o sentido de oportunidade de alguém que aproveitou a imagem do painel intitulado “Lagos e o Mar” para colocar a personagem a adorar um anemómetro — aparelho que veio a ser retirado, porventura no seguimento de um “apontamento” publicado neste jornal.

V — JÁ AGORA, e vá lá saber-se porquê!, esse mesmo painel de MÁRMORES aparece referido, na placa de inauguração, como sendo de AZULEJOS — um mistério que nem o arquitecto coordenador do projecto me conseguiu esclarecer, no decorrer de uma proveitosa conversa que tivemos acerca de todo aquele espaço. Nesse seguimento, também se mostrou esperançado em que venha ali a ser colocada uma réplica da outra placa (que, na senda do que sucedeu ao velho coreto, há muito sumiu sem deixar rasto), onde constavam nada menos do que os nomes do Projectista, do Empreiteiro Geral e da Fiscalização! Claro que a pretensão é mais do que legítima, mas, se fosse comigo, aproveitava o murete onde ela esteve para esperar sentado.

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21.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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20.2.21

Grande Angular - Saudades da luta de classes

Por António Barreto

A pandemia e os seus efeitos, assim como os processos de combate, a organização dos serviços e a eficácia das medidas tomadas, ocupam os nossos dias, os jornais, as redes e o espaço público. É normal. Fala-se de mais e surgem multidões com uma competência médica e cientifica inesperada. Tanta gente tem tantas opiniões definitivas sobre estes assuntos! Mesmo nestas circunstâncias é razoável que o tema seja a principal preocupação de todos, pessoas, organizações e jornais. Ainda por cima, com a acumulação de incerteza, de ineficiência e de erros, é compreensível que quase não se discuta outra coisa.

Mesmo assim, vivemos tempos em que novas polémicas se instalam, desenvolvem e sobem de tom. Ou antes, velhos preconceitos e antigas irracionalidades renascem. Fascismo e antifascismo, racismo e anti-racismo, antigas rivalidades, estão de novo presentes. Mesmo estando hoje desadequados à sociedade portuguesa, absolutamente fora de tempo e questão, sendo indignos disfarces para outras lutas e infames pretextos para envenenar as relações sociais e políticas, estes dilemas ocupam o espaço que deveria ser de razão e liberdade. Há fascistas em Portugal? Certamente. De todas as condições. Há racistas em Portugal? Não há dúvidas. De todas as cores. Devem a democracia, a razão e a liberdade combater essas pessoas e esses valores? Seguramente e sem hesitação. Mas o que fazem os que se classificam como antifascistas e anti-racistas é tão nefasto à liberdade quanto os adversários. A peste não se combate com a cólera.

Quando as coisas correm mal, mesmo muito mal, o pior vem ao de cima. Os espectros que actualmente ameaçam a paz em Portugal, os vultos que rondam as ruas e os campos são as causas erradas. Não a pandemia, não a desigualdade, não a pobreza, não a incerteza económica e social, mas sim o fascismo e o antifascismo, o racismo e o anti-racismo.

Em tempos de crise, há quem culpe os estrangeiros. É sempre assim, há séculos. Doença ou greve, fuga de capital ou conspiração, terrorismo ou desordem, tudo vem com os estrangeiros. Porque eles tomam conta dos nossos empregos, casam com as nossas mulheres, ficam com os nossos homens, ocupam as nossas casas, trazem valores deles para as nossas escolas, não respeitam as nossas tradições nem as nossas leis. São estrangeiros e abusam da nossa hospitalidade. Aprenderam a viver à custa dos subsídios do Estado, não pagam impostos, só têm direitos, não querem ter deveres. Se não se sentem bem, deveriam ir-se embora. Para o seu país.

E depois há os que além de serem estrangeiros são negros, amarelos ou castanhos. Asiáticos ou ameríndios. Árabes ou chineses. Sem falar nos judeus e nos muçulmanos. São duplamente nocivos. Não respeitam as nossas tradições e querem impor as deles. Desprezam as nossas leis e querem forçar as suas regras. Com os seus deuses, as suas comidas, as suas famílias, as suas regras de casamento e educação, não fazem esforços para se integrar. Forjam casamentos contratados, vendem crianças e adolescentes, trocam pessoas por fortunas, tratam mal os animais, vivem fechados nas suas comunidades, só tratam dos seus e sujam o espaço público de todos e o nosso em particular. Oprimem os seus e não querem saber da democracia.

Somos nós os europeus verdadeiros, senhores de um passado, mestres da descoberta. Filhos e herdeiros de uma longa história, de uma velha tradição, não podemos deixar que nos destruam costumes, regras e crenças. Fomos generosos a ponto de deixar entrar estrangeiros, minorias, negros e árabes, mas eles não se querem integrar nem respeitar as nossas leis. Por isso temos de restaurar a nossa pátria, reconsiderar as nossas tradições e exigir respeito, sem o que terão de ir embora, até porque muitos vieram com mentira, não são refugiados, não são exilados e não são perseguidos. Uns procuram trabalho, outros nem sequer, entregam-se a actividades ilegais, a comércio ilícitos, conspurcam as ruas e as instituições. Não é verdade que somos todos iguais. Quem não está bem que se retire. Não sou racista. Até tenho amigos pretos.

É por isso que combatemos os “supremacistas” brancos. Nós, portugueses de outra etnia, imigrados, minoritários, africanos, estrangeiros, brancos solidários com as minorias e que denunciamos a superioridade dos brancos, dos antigos colonialistas, dos esclavagistas e dos nostálgicos do fascismo. São esses brancos que nos exploram, abusam das nossas mulheres, tentam vender-nos droga, não nos pagam a horas e quando pagam são salários de miséria. Não nos admitem nas suas escolas nem nos seus hospitais, não cuidam dos nossos velhos, pagam mal as pensões e quando as coisas não correm bem para eles, por causa deles, a primeira coisa que lhes ocorre é dizer-nos “vão-se embora”. Nem sequer percebem que muitos de nós, cada vez mais, nascemos aqui. Por isso, exigimos medidas contra os racistas, contra os que, no espaço público, alimentam o ódio contra os estrangeiros, querem restaurar as glórias do colonialismo, a força dos conquistadores, os direitos ilimitados dos brancos e dos poderosos sobre os trabalhadores. Exigimos que nos devolvam o património que nos roubaram durante séculos. E que a história seja expurgada do racismo e do colonialismo.

Estes confrontos envenenam a vida política portuguesa. Destroem a inteligência e o sentido de comunidade solidária. Estes episódios fazem-nos ter saudades da luta das classes! Dos tempos em que as lutas se desenrolavam à volta de questões políticas, económicas e sociais de grande importância e de relevo para a direcção de uma sociedade e para a afirmação de um poder! Dos debates em que estavam em causa o poder político, as relações entre o capital e o trabalho, a propriedade dos meios de produção e a repartição do produto e do rendimento. Dos combates em redor da organização do Estado, da defesa nacional, da paz e da guerra e da segurança colectiva. Saudades dos tempos em que se lutava por valores essenciais da política, do trabalho e do emprego, dos direitos dos trabalhadores e dos patrões, das obrigações e dos deveres de cada um e de todos! Saudades das lutas pelos serviços de saúde e de educação e pelos direitos e deveres dos idosos! Dos tempos em que a liberdade e a democracia estavam no centro das discussões e das lutas e não eram consideradas, como hoje, hábitos adquiridos e secundários ao lado da importância decisiva de símbolos, da memória e da culpa.

Público, 20.2.2021

 

19.2.21

LIMPAR A CABEÇA E FAZER O CORPO PAGAR

Por Joaquim Letria

Parece que foi ontem que eu saía às duas da manhã duma segunda sessão duma Revista do Parque Mayer, perfeitamente a tempo de encontrar cafés abertos com gente a conversar e a máquina dos expressos ainda ligada.

Depois dum café e de dois dedos de conversa, saltava-se gostosamente de cabaret em cabaret. Encontrávamos aí as habituais e os habituais, é verdade que se bebia bem mas ninguém picava os braços e os afectos, por um lado, e a luxúria por outro, entretinham-nos até bem dentro da madrugada, muitas vezes até de manhã.

Eu não era um desses fregueses de mercearia de bairro que, uma vez por semana, vive a aventura das grandes superfícies. Compartia com naturalidade essa promiscuidade das pequenas multidões com o gosto de desfrutar o prazer mais íntimo das pequenas lojas.

Nunca fui um incapacitado face à mais complicada adaptação de limpar a cabeça e fazer o corpo pagar o ócio, a aventura, o prazer, a dúvida e viver a vida. Era a nossa vingança da infelicidade da vida do pára-arranca, da tristeza, do abandono, das incertezas. E vai ser essa a nossa vingança daquilo que a vida nos inflige hoje, logo que a maioria de nós conserte a sua vida.

Já devem ter reparado que só muito raramente escrevo algo relacionado com a pandemia que tanto nos faz sofrer, mas recuso-me a cantar no coro de todos os que se substituem aos médicos, aos economistas, aos sociólogos, aos políticos, criando um ambiente que tanto faz sofrer, muitas vezes dizendo coisas sem fundamento mas que contribuem para a neurose e o sofrimento mental que tanta gente afecta.

Deixem os médicos e enfermeiros derrotarem a doença, os políticos fazerem o seu trabalho mesmo com algumas asneiras difíceis de aceitar que, essas sim, devem ser denunciadas, mas permitam que se pense noutras coisas, não nos imponham o lado mau de tudo o que temos de resolver no dia-a-dia das nossas vidas. E o pesadelo do futuro logo se verá.  Mais vale pensarmos assim do que submetermo-nos á monstruosa crueldade a que nos sujeitam sem nos deixarem outra saída que não seja não pensar em mais nada que não seja a desgraça desta situação.   

Transportar todo o passado livre e feliz para a nossa vida de hoje deixa-nos um mau gosto na boca e desenha-nos um sorriso triste na cara. Mas há que acreditar que tudo aquilo de que nos lembramos e os pequenos prazeres que ainda não se apagaram voltarão a ser possíveis e que ganharemos força e vontade para ajudar, estimular e conseguir levar até á vitória aqueles outros de todos nós que vão vencer este maldito tempo e que ultrapassarão as marcas mais graves que a doença nos vai deixar.

Publicado no Minho Digital

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18.2.21

A absolvição de Trump é uma tragédia para a democracia

Por C. B. Esperança

A absolvição no Senado, onde eram necessários 2/3 dos senadores para a condenação, foi trágica para a democracia.

Não bastaram quatro anos de pregação do ódio, de afronta às instituições democráticas, de rutura com acordos internacionais assinados pelo Estado americano e as tropelias do homem sem ética, sem coerência, sem sentido de Estado e em permanente conflito com a verdade.

Viu condenar os amigos na duvidosa eleição que o levou à presidência, por perjúrio na trama russa no resultado eleitoral, assistiu à permanente debandada dos seus mais fiéis servidores quando um módico de dignidade os assaltou e manteve-se cobarde e mitómano durante todo o mandato no persistente abuso dos poderes presidenciais e na obstinada manutenção no poder para desacreditar e destruir a democracia.

Perdidas as eleições fez tentativas grosseiras para se manter no poder, desde pressionar um governador para lhe inventar uns milhares de votos até ao falhado golpe de Estado no assalto ao capitólio, dirigido por ele através dos média e das redes sociais. Quis que a eleição ignorasse as urnas, primeiro por fraude, depois pelos tribunais. 

No Supremo nomeou 3 juízes vitalícios, dois deles de forma insólita, o primeiro porque o Partido Republicano impediu Obama de o nomear por estar a cerca de 1 ano do fim do mandato e a última quando ele próprio já estava em campanha eleitoral.     

A instigações do assalto ao Capitólio e as cinco mortes ficaram impunes por cobardia de senadores que perderam a dignidade com medo de com da vingança dos eleitores de Trump nas suas reeleições.

Trump acabou a indultar os crimes dos seus amigos e familiares e acabou ele próprio absolvido no Senado que manchou a sua dignidade e a das instituições democráticas dos EUA, num péssimo exemplo para o mundo.  

O Partido Republicano, hoje dominado por seitas e organizações de extrema-direita não foi sempre menos democrático do que o seu rival, era apenas mais liberal na economia. Hoje, tão mal frequentado, é cada vez menos recomendável.

Joe Biden, no curto espaço do seu mandato, tem cumprido de forma digna as promessas que fez, sendo-lhe difícil restaurar a autoridade moral perdida e a confiança dos países onde o Estado de Direito define as democracias.

Ponte Europa /  Sorumbático 

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17.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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16.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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15.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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14.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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13.2.21

Grande Angular - As duas esquerdas

Por António Barreto

Não é inevitável, mas tudo leva a crer que, dentro de poucos meses, se abra o debate sobre as alianças políticas. Dado o afastamento dos governos de iniciativa presidencial e de unidade nacional, as hipóteses são conhecidas: esquerda contra direita? Bloco central?

Com o que sabemos hoje, não será exagerado prever que a decisão pertencerá sobretudo à esquerda, ao PS em particular. É verdade que a pandemia tem provocado uma enorme erosão do governo, mas também é certo que a direita não parece beneficiar dessa evolução. Cumprida ou não a legislatura até ao fim, a mais importante decisão será a que diz respeito às esquerdas: unidas ou separadas?

Esquerdas sempre as houve, duas ou mais. O que as define e divide é o essencial da política, como a liberdade e a democracia. Nas questões sociais (saúde, educação, segurança social, trabalho…) pode haver diversidade, mas não separação definitiva. É a política que as divide, não o social nem a economia, muito menos a cultura. São poucos os critérios decisivos. A democracia e o respeito pelas regras democráticas vêm à cabeça. Estas constituem os principais elementos definidores da democracia: igualdade de estatuto e de direitos entre cidadãos; direito de voto em eleições periódicas e regulares; quem ganha eleições governa e respeita quem perde; garantia de liberdade de expressão; e instituições livres. Isto é o fundamental. As variantes adjectivas, democracia “cultural”, “social” ou “económica”, por exemplo, são outras coisas. Em geral, fantasias.

O entendimento da liberdade individual é outro critério. Quando a liberdade e a dignidade da pessoa humana começam no indivíduo, estamos numa esquerda. Quando a liberdade individual está submetida à “liberdade colectiva”, quando os “direitos individuais” dependem dos “direitos colectivos” e quando é o “colectivo” que determina a amplitude do “individual”, estamos noutra esquerda. Uma e outra são incompatíveis, a não ser com enorme dose de oportunismo.

O papel da iniciativa privada pode ser mais um critério. A esquerda democrática ou a social-democracia respeitam e dão uma larga margem à iniciativa privada. A esquerda radical, comunista, socialista e revolucionária, não lhe confere qualquer papel, tolera-a a contragosto ou elimina-a. 

Há uma esquerda que pretende controlar a iniciativa privada. Os socialistas e os sociais-democratas andam por aí. O princípio é simples: o poder político tem o primado sobre o poder económico. Há outra esquerda que quer simplesmente acabar com a iniciativa privada, a não ser que seja pequena, pobre e obediente. Os famosos “pequenos e médios” (agricultores, camponeses, comerciantes, industriais…) formam essa iniciativa privada tolerada e dependente.

Há uma esquerda que aceita a economia de mercado, o capitalismo, a livre empresa, os empresários e a iniciativa privada, mas entende que toda esta realidade deve ser compensada, contida, regulada ou equilibrada pela política e pelo Estado Social. Enquanto há uma outra esquerda que tem como objectivo último a destruição do capitalismo, da iniciativa privada, das empresas, das classes proprietárias, da banca, dos seguros e dos serviços privados de saúde e educação.

 

Costuma referir-se outros critérios como a igualdade social e económica, o papel do Estado, a centralização do poder, a regionalização e outros. Mas não são realmente conceitos que identificam ou distinguem. Revelam simplesmente a variedade programática das tendências. Por exemplo, a esquerda democrática, em Portugal, já foi centralista e adversária da regionalização; agora ainda é centralista, mas já é favorável à regionalização. Quanto à esquerda comunista, sempre foi fortemente centralizadora, mas também, paradoxalmente, defensora da regionalização.

Outros critérios importantes são a nação e a identidade nacional. Constituem distinção importante entre esquerda e direita, mas não muito para as duas esquerdas. Conforme os tempos e as necessidades, há nacionalismo, patriotismo e internacionalismo numa ou noutra esquerda, ou nas duas. Ou em nenhuma. A União Soviética, por exemplo, era ferozmente nacionalista e proclamadamente internacionalista.

Novo critério ainda, o da religião. Os republicanos, os maçónicos e os jacobinos, que frequentam com assiduidade o socialismo e a social-democracia, não gostam em geral da religião, receiam-na, utilizam-na quando lhes convém, adulam-na quando precisam, hostilizam-na quase sempre. Já os comunistas, conservadores como são, respeitam a religião enquanto estão na oposição. Se um dia chegam ao poder, perseguem-na.

Interessante é perceber que o que distingue as duas esquerdas não é o que separa a esquerda da direita. Com efeito, o papel do Estado, por exemplo, pode ser defendido com ferocidade por correntes da esquerda, mas também da direita. Os fascismos, o nazismo e as ditaduras ibéricas eram favoráveis ao papel dominante do Estado, tal como a esquerda radical, sempre, e a esquerda moderada por vezes. A regionalização também não é carácter distintivo: tem os favores de várias correntes de direita e várias de esquerda.

O que separa realmente as duas esquerdas é a liberdade e a democracia. É verdade que ambas dão mais importância à igualdade do que à liberdade. Ambas preferem o Estado e o poder político às empresas e ao poder económico. E ambas privilegiam o Estado como fornecedor dos serviços de educação e saúde. Mas há diferenças fundamentais entre as duas esquerdas: a liberdade individual e a democracia.

O PS parece ter renunciado definitivamente à ambição maioritária. O que quer dizer que a sua política de alianças passou a ser a pedra de toque. Aliança com o centro e a direita social-democrata ou democrata-cristão. Ou aliança com a esquerda radical, não democrática e revolucionária. Esta parece ser a mais provável. O que tem o mérito de obrigar a uma discussão séria sobre os limites dessa aliança, o seu objecto e o seu horizonte. 

Como é sabido, o Estado democrático é, para os comunistas e talvez também para o Bloco, etapa ou fase de transição. O que vem a seguir, mais ou menos socialista, mais ou menos comunista, mais ou menos ditadura do proletariado, mais ou menos democracia avançada, é uma grande incógnita. Que precisa urgentemente de esclarecimento. Em tudo o que é essencial, os direitos individuais, o Estado, a democracia, a defesa nacional e a propriedade, a separação entre as duas esquerdas é total, o obstáculo é intransponível. A não ser que uma abdique a favor da outra.

Público, 13.2.2021

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12.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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MEMÓRIAS E SAUDADES

Por Joaquim Letria

Esta coisa de viver meio confinado e com justas preocupações pela saúde de familiares e amigos leva-nos a fugir, de vez em quando e quase sem dar por isso, para memórias e saudades, algumas das quais são recordações distantes que regressam sem explicação.

Foi deste modo estranho que dei comigo a lembrar-me agora dos franceses a perorarem em Hanói, território da francofonia, com cabo-verdianos e guineenses a observarem aquela comunidade presunçosa de intelectuais, através da qual eu soubera que o meu amigo Emmanuel Dongala, um dos melhores escritores da língua francesa do século XX, encontrara os braços abertos de Philip Roth que o despachou para a paz do Bard College, em Massachusetts.

Foi aí, não muito longe de Boston, que Emmanuel passou a viver com um visto que o reconhecia como Professor Universitário Convidado. Ali, no meio do verde da relva e do vermelho escuro dos tijolos, deixando perder a vista atrás de irrequietos esquilos, Dongala voltou a ensinar Química e Literatura Africana de Língua francesa.

Dongala, que conhecia a minha paixão por Brazzavile, onde nos conhecêramos, dera-me notícias tristes sobre o estado daquela que outrora fora uma das mais bonitas, delicadas, acolhedoras e cosmopolitas capitais de África e que então fora reduzida “a escombros, só escombros, faz lembrar Berlim em 1945”, dissera-me ele. ”Dos milhares de livros da minha biblioteca não salvei muitos mais do que uma dúzia”, acrescentou, explicando que naquele tempo houvera cinco meses de combates com milhares de mortos pelas ruas e que ele e sua família se salvaram por mero acaso.

Conhecera Dongala pouco antes de ele ter ido a Paris apresentar o seu último livro, “Os Putos Nascem das Estrelas” onde conta a história do Congo. O escritor optara por apresentar essa narrativa através do olhar falsamente inocente duma criança.  O autor de “Uma espingarda na mão e um poema no bolso” não tinha intenções de saír de Massachusetts. Hoje perdi-o de vista, sei que continua por lá, mas tenho saudades daquele bom amigo com quem viajei por África. Oxalá tudo esteja bem com ele e que todos aqueles que puderem que o leiam.

Publicado no Minho Digital

11.2.21

A liberdade de expressão, a ética e os Médicos Pela Verdade

Por C. Barroco Esperança

Não sei como conciliar a defesa da liberdade de expressão, que passei a vida a defender, e a condenação de médicos que negam o interesse do uso generalizado de máscaras, dos testes da Covid-19, da gravidade da pandemia e lançam dúvidas sobre as vacinas.

grupo Médicos Pela Verdade suspendeu a participação nas redes sociais e o e-sítio em que exerciam a sua ação deletéria. Fizeram-no, acusando que vivemos em ditadura, que a liberdade de expressão é desrespeitada, que foram perseguidos, o que é provável, com a ameaça de que vão repensar a forma de divulgarem o que chamam ciência. Parecem virologistas da escola de infeciologia de Trump e da de epidemiologia de Bolsonaro. 

O alarme social que esse grupo de médicos provocou levou a Ordem a abrir processos disciplinares contra os seus membros. Espera-se que, no intervalo das entrevistas contra o Governo e, em especial, contra o ministério da Saúde, o Bastonário informe o país sobre o andamento do inquérito e, a seu tempo, sobre as conclusões e eventuais sanções disciplinares.

Se esses Médicos Pela Verdade fossem uma seita religiosa, um grupo de jogadores de bisca lambida ou de jogadores de chinquilho, sem exercerem medicina, nada haveria a opor, estavam ao mesmo nível do que juram que a Terra é plana e o Sol gira à sua volta.

Ora, os médicos devem respeitar “o estado da arte”, isto é, exercer segundo o que a arte médica, de acordo com os conhecimentos científicos, determina em cada momento. Não duvido do mediatismo que esperavam com a negação da realidade atual da ciência, mas já causaram graves danos ao combate à pandemia e à mortalidade.

Quem confia nos médicos, como deve e convém, ficou perplexo e foram devastadoras as consequências no aumento da ansiedade e do medo nas pessoas.  

Os referidos médicos não se limitaram a colocar as dúvidas entre especialistas, foram os divulgadores de mentiras, que o estatuto profissional tornou credíveis, para a população. 

É natural que a OM oculte os resultados do inquérito, que os que ora dizem ser vítimas de perseguição e sofrimento fiquem impunes, porque que as Ordens se substituíram aos sindicatos e os Bastonários se converteram em sindicalistas e militantes partidários, e a deontologia parece ter sido exonerada.

Está em causa a saúde dos portugueses e, se o Estado está tolhido pelas corporações, os cidadãos devem escrutinar as Ordens e exigir que cumpram as obrigações disciplinares.

Foto e link: Observador

Ponte Europa Sorumbático

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7.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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Ainda pior!



Num comentário afixado no perfil de Carlos Fiolhais ficamos a saber que a manipulação ainda é pior do que a referida no 'post' anterior, pois os dados (3,21 e 3,44) são de dias diferentes!!!
Aqui ficam os correctos, na mesma escala manhosa.


Desonestidade pura, ou a falta de uma boa 4ª-classe?



O valor numérico indicado na barra da direita é 7% superior ao seu equivalente na da esquerda, mas o "grafista" arranjou uma escala manhosa que lhe permitiu converter os 7% num valor mais "conveniente"...
Aliás, na imagem de baixo até nem figura a escala!
*
ACTUALIZAÇÃO (7 Fev 21): o PS apagou esta vergonha da sua página.

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6.2.21

Grande Angular - Cuidado com as ambições!

Por António Barreto

Um boato corre o mundo: foi a pandemia que derrotou Donald Trump. A vida política é feita destas pequenas verdades e destes grandes boatos, assim como de rumores académicos, disfarçados de rara sabedoria. Inventados por gente esperta, são depois retomados nas redacções dos jornais e nos canais de televisão. Assim se chegou à certeza de que a pandemia tem potencialidades políticas inesperadas. Logo se começou a pensar que é preciso agir depressa para aproveitar o momento. De imediato se começaram a fazer cálculos para as mais insensatas aventuras, para o que políticos portugueses rapidamente se prepararam.

Está estabelecida a ideia de que “quanto pior melhor”. Se tudo correr mal nos hospitais e nos centros de saúde, perde o governo e ganha a oposição. Como de facto muito não está a correr bem, os políticos de oposição sentem que têm de estar atentos. Não só os actuais dirigentes, mas também os candidatos. As direcções partidárias do PS, do PSD, do CDS, do Bloco e até, imagine-se, do PCP são vítimas da pandemia.

Assim é que, dentro dos partidos, começou a temporada de luta e caça. Até no PS, que deveria estar mais empenhado em tratar do governo e do país, apareceram as primeiras “movimentações”. Nos outros partidos, vai haver luta pela liderança antes do Inverno. Na previsão de que, até lá, se confirme a perda de reputação de António Costa e do seu PS. Desde a votação do orçamento que se percebeu que a maioria estava desfeita. Bloco e PCP fazem contas à vida e percebem, com as presidenciais, que o seu futuro está periclitante. Foi quanto bastou para que a competição interna desse sinais de aquecimento. No PSD, que nunca deixou de estar em guerra consigo próprio, revelaram-se já ambições inesquecíveis.

A verdade é que o governo e as autoridades sanitárias não têm desempenhado as suas funções com eficácia. Antes pelo contrário. Mostraram hesitação, ignorância e medo. Revelaram prepotência e capricho. Deram provas de uma obscena inclinação para a propaganda política. Deixaram vir à tona do discurso toda a sua aversão à sociedade e à economia privadas. Ganharam terreno as alucinadas veleidades do PCP e do Bloco que sonham com a destruição pura e simples do mundo privado.

As autoridades enganaram-se com as máscaras, o plano de vacinas, a duração e as regras do confinamento, os comércios a fechar, o ensino à distância, o teletrabalho e a colaboração com os hospitais privados. Falharam nas previsões. Mesmo sabendo, como os socialistas dizem há anos, que o Serviço Nacional de Saúde estava com enormes faltas de pessoal, instalações e equipamento, não foram tomadas medidas suficientes, mal se soube o que aí vinha. Erraram para além do admissível numa área particularmente sensível, a do racionamento e das prioridades das vacinas.

Exageraram nas facilidades e no optimismo quando deviam ser firmes nas regras e nos costumes. Tentaram manipular as taxas e as estatísticas, como fazem os ditadores. Exageraram nas conferências de imprensa ou nas conversas de vão de escada, deram avalanches de pormenores técnicos, logo contrariados no dia seguinte, afogaram a opinião pública, confundiram os cidadãos com excesso de informações inúteis, ocultaram sistematicamente os números simples e reveladores em proveito das enxurradas de equações e taxas. Conduziram uma política de comunicação errada. Informação a mais. Pormenores técnicos a mais. Política a mais. Ideologia a mais. Auto-suficiência a mais. Foram meses que poderão servir, dentro de anos, nas escolas de comunicação, como exemplos da arte de errar e manipular.

Portugal já revelou os melhores resultados do mundo, está agora na fase dos piores resultados do mundo! A chegada de equipas médicas das Forças Armadas alemãs, com material e equipamento, foi festejada como uma vitória diplomática. Foi gesto único ou quase em toda a Europa. A recepção no aeroporto foi um triunfo. Só que o facto não foi apenas visto com reconhecimento. Levou toda a gente a concluir o inevitável: a situação é pior do que se pensava, está tudo mais grave do que se imaginava.

As mudanças de regras e de critérios relativamente às vacinas, a denotar demagogia e propaganda, constituíram os momentos mais confrangedores desta opereta. A elaboração das listas dos “vacináveis” é um monumento à incompetência. Mais de oitenta anos? Mais de 65? Mais de 50, mas com doenças? Que doenças? E os políticos? Os governantes e os deputados? E os profissionais de saúde? E os cuidadores? E os autarcas? E os habitantes dos lares? E os responsáveis das IPSS? 

Desorientação convida a sonhar e crise acelera as ambições. Que fazer? Convocar eleições? Dissolver o Parlamento? Demitir o Governo? Nomear um governo de iniciativa presidencial? Obrigar a um governo de unidade nacional com todos os partidos? Forçar um bloco central com o PS e o PSD? Exigir uma coligação formal com de toda a esquerda? Estamos no domínio da fantasia. Os especialistas em artes e manhas políticas sabem tanto ou mais do que os especialistas em máscaras cirúrgicas e em marcas de vacinas.

Reformar? Sim. Mudar um ministro? Com certeza. Demitir um director? Sem dúvida. Criar um serviço mais competente, menos político, menos partidário, mais isento e mais operacional? Sem hesitações.

Mudar o governo? Fazer novo orçamento? Repartir cargos pelos diferentes partidos? Distribuir os directores pelos partidos apoiantes? Voltar aos debates programáticos no Parlamento? Nem pensar nisso! Não há tempo, nem necessidade. Nem se compreenderia uma monumental perturbação política no meio da pandemia, da terceira ou quarta vaga. A não ser que se pretenda pura e simplesmente esquecer a democracia, congelar direitos e deveres, impor autoridade sem limites…

Faça-se o que tem de ser feito neste maldito ano. Mude-se um ou vários ministros. Secretários de Estado. Comissários e directores gerais. Alterem-se procedimentos. Acabe-se com o discurso ridiculamente propagandístico. Recorra-se cada vez mais aos profissionais e aos cientistas. E sobretudo vacine-se o país! Quando chegarmos a um equilíbrio sanitário, a um controlo eficaz e a uma relativa imunidade de grupo, nessa altura terão tempo para fazer eleições, recompor maiorias e governos, derrubar presidentes e secretários-gerais, ajustar contas, derrotar com seriedade os extremos, elaborar plataformas pré-eleitorais adequadas e conhecidas a sufragar pelo eleitorado… E sobretudo terão salvado vidas.

Público, 6.2.2021

 

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5.2.21

O QUE JOÃO VILLARET NOS TROUXE

Por Joaquim Letria

Na quinta-feira da semana passada, a RTP2 mostrou um maravilhoso programa sobre João Villaret. Mas se rever e ouvir aquele artista extraordinário que nos enchia de felicidade era um privilégio, recordar o que foi a RTP do tempo da outra senhora é um espanto, para nós que nos recordamos e para aqueles que nunca a viram mas assim podem ficar com uma vaga ideia.

Ainda há pouco tempo o primeiro-ministro brincava com aquela frase que a RTP usava “Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos”. Mas ele não faz ideia dos milagres que os técnicos e engenheiros faziam naqueles barracões alugados no Lumiar onde funcionavam os estúdios da RTP até muito depois do 25 de Abril.

Estou à vontade a escrever isto porque embora tivesse lá alguns amigos a trabalhar (José Mensurado, Baptista Bastos, Fernando Lopes, João Moreira, etc.) a RTP para mim era um instrumento da ditadura que eu combatia. E isto era principalmente verdade na informação e no teor dos telejornais, mas há que reconhecer que a programação, a concepção da grelha de programas, tinha uma qualidade inigualável e incomparável para os dias de hoje como parte do programa sobre João Vilaret não pôde deixar de demonstrar.

As histórias contadas por Vilaret – maravilhoso aquele passeio nocturno pela Rua do Arsenal com António Boto e Fernando Pessoa — a paixão que ele tinha pelo Teatro e por Sarah Bernhardt a quem referia em quase todos os programas, a sua revelação da poesia e de brasileiros grandes escritores da língua portuguesa pouco lidos entre nós naquele tempo, como Manuel Bandeira e outros, valiam mais do que alguns cursos universitários dados à pressa que por aí há.

Mas como ignorar os programas de Vitorino Nemésio, José Hermano Saraiva, de David Mourão Ferreira, de António Pedro, extraordinário fundador do Teatro Experimental do Porto, do engº Sousa Veloso que nos metia a lavoura em casa, a única Maria de Lurdes Modesto que nos ensinava as artes da culinária, o programa de João Vilaret, maravilhoso e aguardado por milhões de admiradores que dele se despediram num fantástico funeral que encheu Lisboa de lágrimas, o maestro Vitorino de Almeida a falar-nos desde Viena e as maravilhosas gravações de ópera do São Carlos e do Trindade, o arquitecto Nuno Portas a falar-nos do urbanismo e de Lisboa, os excepcionais programas sobre os primórdios do cinema de António Lopes Ribeiro, acompanhado ao piano pelo maestro António Melo.

E a somar a tudo isto não esqueçamos as gloriosas “Noites de Teatro” com os melhores actores portugueses, as “Noites de Cinema”, e para rematar, no meio de muitas outras coisas que injustamente estou a esquecer, a Telescola, onde muita gente aprendeu a ler, a escrever e a ter noções de história, geografia e português assistindo no Salão Paroquial ou no Café porque pouca gente tinha televisão em casa. Tudo isto Villaret nos trouxe e a RTP2 nos mostrou. Se não viu, ande para trás, se puder, e veja!

Publicado no Minho Digital

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4.2.21

As vacinas e os oportunistas

Por C. B. Esperança

Quando se acusam de corrupção os políticos, como se fossem uma espécie de celerados, num país de débil cultura cívica e de duvidosa probidade, recordo sempre os pedidos de que ouvia falar na infância, para um lugar de contínuo, polícia ou porteiro de Banco.

Hoje, na ansiedade de uma vacina que pode salvar vidas, vejo os pequenos decisores de lares, hospitais ou instituições prioritárias na vacinação, a incluírem os primos, os filhos e os amigos numa renúncia ao pudor e afronta à dignidade cívica.

São da massa de que eram feitos os próceres da ditadura cujo ADN anda aí na cadeia de transmissão do oportunismo, traficância e troca de favores, sem ética, pudor ou medo.

A veniaga seduz os pequenos decisores, arruína a honra de provedores de santas casas, a santidade de párocos de província, a idoneidade de autarcas de obscuras localidades, e a inveja move os que mais gritam, consome os mais fracos e dilacera os que, em silêncio, ruminam ódio.

É nestas situações de ansiedade e medo que uma legião de delatores está disponível para a denúncia, em gritos estridentes ou na cobardia da carta anónima, na exposição pública da indignação ou no lamento hipócrita bafejado em surdina.

Em quase 46 anos de democracia mudaram pouco os hábitos, a mentalidade e o civismo de um povo que parece regredir a cada sobressalto e regressar à indignidade sempre que a ocasião surge.

O favor da dose da vacina para amigos e familiares, obtida por nepotismo do decisor ou fraude de um imaginativo burocrata é a metáfora inequívoca do país que não deixámos de ser e teimamos em continuar.

Não é apenas o vírus que nos mata, é a falta de decoro que nos faz morrer de vergonha.

Ponte Europa / Sorumbático

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1.2.21

Na "Nova Costa de Oiro" de Jan 21

 

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31.1.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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30.1.21

Grande Angular - Corrigir erros, conhecer diferenças

Por António Barreto

Foi um erro, fruto da demagogia, não ter considerado o Chefe de Estado, o Presidente do Parlamento e o Primeiro-ministro como entidades ou personalidades a serem prioritariamente vacinadas. Foi também erro, algures entre a estupidez e o disparate, corrigir aquele com outro erro, alargando a muitas centenas o número de “políticos” a vacinar com prioridade. Como é um erro deixar na impunidade uns autarcas e uns funcionários malandros que se vacinaram ilicitamente.

No que toca à eficácia da vacinação, a União Europeia começou bem o processo de cooperação e acabou por falhar quando chegou à prática. A União está pior do que a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, Israel e outros. Será que chegaremos um dia a perceber porquê? Como se não bastasse, Portugal é um dos países em pior posição na União Europeia. Depois do “milagre português”, chegou evidentemente o desespero. Saberemos um dia porquê?

Foi obviamente um erro não criar hospitais exclusivamente destinados ao COVID. Como foi um erro não reservar hospitais para todas as doenças menos o COVID. A separação poderia ter evitado muitos dos problemas de engarrafamento e eficácia. E de humanidade, com certeza. Saberemos um dia por que foram cometidos estes erros? E por que não foram corrigidos a tempo?

Foi um erro separar os profissionais de saúde públicos e os privados. Por que demorou tempo a corrigir? Por que não se corrigiu ainda tudo? Por que se mantém esta separação entre profissionais dos sistemas públicos e privados? Por que não se pensa que os doentes são os mesmos, seres humanos que não merecem ser separados entre públicos e privados? Alguém fará um dia autocrítica? Alguém tentará explicar como foi possível?

Foi um erro separar instituições educativas privadas e públicas. Foi um erro proibir os docentes de contactar os alunos, de conversar com eles e de levar a cabo iniciativas pelas redes sociais. Foi um erro clamoroso interromper o ensino à distância. Por que demorou tanto tempo a corrigir? Será que saberemos um dia porquê?

É um erro incompreensível as autoridades sanitárias deixarem correr os boatos e os “palpites” relativamente às máscaras. Há muito que lhes compete serem assertivas quanto às qualidades de cada marca. Por que razão é este o seu comportamento? Ignorância? Cumplicidade? Saberemos um dia as razões para tal comportamento impróprio?

Foi um erro grave não ter planeado, há muitos meses, uma organização capaz de dar conta das chegadas de ambulâncias aos hospitais. É cada vez mais evidente que a indignidade das filas de espera, durante dezenas de horas, em frente dos hospitais (sobretudo do Santa Maria, em Lisboa), resulta de mau planeamento e de incapacidade de organização.

Tão bom quanto corrigir erros é estudar e perceber o que se passa. É natural que se ouçam histórias, corram boatos e se tenham certezas sobre o que há a fazer. Em períodos de crise como este, a rondar o drama nacional e social, surpreendente seria o contrário, que se falasse sempre com propriedade e racionalidade.

Uma das questões mais abordadas é a da desigualdade social como causa e efeito da doença. Como toda a gente quer ter ou quer que se saiba que tem compaixão, é fácil condenar a desigualdade. Assim, as maiores vítimas da pandemia seriam os velhos, os deficientes, os internados em lares, os pobres, os sem abrigo, os toxicodependentes, os imigrantes ilegais, os habitantes dos bairros degradados, os inquilinos dos bairros sociais e os residentes em bairros étnicos comunitários. Além destes, grupos mais largos estariam igualmente incluídos no número de pessoas mais expostas à infecção, com mais dificuldades de tratamento e menor acesso às instituições: operários fabris, empregados de comércio, encarregados de limpeza, funcionários de transportes públicos e outras profissões.

É também geralmente aceite que os mais ricos e os que usufruem de profissões e cargos com mais poder sofrem menos os efeitos da doença e têm acesso a melhores instituições. Estariam nessa situação, com menores possibilidades de serem contaminados, os que têm casas maiores, quem possui um carro para cada membro da família, quem não usa meios de transporte colectivos, quem pode faltar dias ou semanas ao trabalho e quem tem meios para tratar da roupa e das compras sem se misturar com as pessoas em geral… 

Ninguém duvida ainda de que é favoravelmente tratado e atendido quem conhece bons médicos, quem pode recorrer a hospitais mais bem equipados, quem é utente de instituições sem lotação esgotada e quem frequenta hospitais sob menor pressão.

O alojamento é igualmente causa de desigualdade social perante a pandemia. Está favorecido quem vive em bairros saudáveis, com espaços públicos arejados, com esplanadas abertas e recreios espaçosos; quem não frequenta supermercados, muito menos filas de espera. Sofre evidentemente quem vive em bairros sociais sobrelotados, em comunidades promíscuas e em bairros degradados. Diz-se que há mais doença em meios segregados, em comunidades ciganas, negras ou asiáticas, em bairros operários ou de pescadores...

Consta que os ricos perdem facilmente a cabeça com festas. Parece que as celebridades comemoram aniversários e juntam-se nas quintas e condomínios. Mas é mais plausível que os que mais sofrem são os que têm de trabalhar nas fábricas, quem usa os transportes públicos, quem frequenta centros comerciais, quem tem casas pequenas, quem não tem ajuda para tratar dos velhos, quem tem de ir aos lares tratar dos parentes e quem tem pouca informação.

Em poucas palavras. A pandemia bate mais nos mais pobres. A doença mata mais os mais fracos. O COVID infecta mais quem menos tem: fortuna, poder, conhecimentos, nome, estudos, metros quadrados…

Como se sabe isso? Por dedução. Certo. Mas seria bom estudar. Quem realmente corre mais riscos? Quem é mais infectado? Quem tem acesso menos pronto e rápido? Quem morre mais? Ricos? Pobres? Remediados? Classe média? Citadinos? Rurais? Residentes nas periferias e nos bairros étnicos? Famílias grandes ou pequenas? Gente com ou sem estudos? É o que importa saber com o rigor possível, sem fantasias. É trabalho para a Administração Pública, a Academia e o jornalismo. 

É muito difícil estudar estas realidades. Em muitos casos, terá de se estudar por vias indirectas e aproximações. Mas tem de se fazer. É necessário tratar de todos, sem olhar a quem. É preciso salvar vidas, sem conhecer o nome. Mas também é bom saber o que se passa, para poder agir e prevenir.

Público, 30.1.2021

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29.1.21

BEM PODÍAMOS APRENDER COM ESTA MIÚDA SUECA

Por Joaquim Letria

Quatro meses depois de ter recebido um milhão de euros do Prémio Gulbenkian para a Humanidade Greta Thunberg já doou metade.

Com critério, informação e seriedade, a fundação da jovem escandinava e quem a assiste a gerir a sua organização têm ajudado quem precisa e vão estudando os próximos actos de molde a contribuir para diminuir as necessidades e as injustiças pelo mundo fora.

Foi assim que já atribuíram e entregaram 500 mil euros em quatro meses a quem, em seu entender, os merece, neste caso a uma dezena de organizações não governamentais que se dedicam seriamente a causas ambientalistas e humanitárias em diversos pontos do globo com particular incidência no hemisfério Sul.

A Campanha SOS Amazonas, promovida pela Fridays For Future Brasil e a Stop Ecocide Foundation, que se dedicam ao combate ao COVID 19 na Amazónia e a tornar o Ecocídio um crime internacional, foram as duas primeiras ONGS apoiadas pela Fundação Greta Thunberg com 10 mil euros cada uma.

Um valor equivalente foi dividido pela BRAC Bangladesh, a Goonj, a Action aid India e a Action Aid Bangladesh que ajudam milhares de desalojados nas regiões afectadas pelas inundações. Em África três outros movimentos receberam auxílio da Fundação Thunberg: a Red Cross, a Red Crescent, a Oil Change International e a Solar Sister, as quais dividiram 150 mil Euros para projectos de apoio a comunidades afectadas por catástrofes climáticas, outros de energias renováveis e de formação de mulheres que estão a criar empresas movidas a energia solar na Tanzânia e na Nigéria.

Para a Fridays For Future das Maurícias Greta doou 10 mil euros de modo a poderem adquirir equipamento para remover as enormes manchas de crude derramado no Verão passado pelo cargueiro japonês que encalhou ao largo daquelas ilhas provocando um desastre ecológico.

A jovem sueca não se cansa de repetir que “as mudanças só acontecem se continuarmos a pressionar, se continuarmos a ser muito, muito incómodos e não deixarmos de repetir as coisas vezes e vezes sem conta”.

A verdade é que esta miúda sueca de 17 anos e quem a acompanha conseguiram chamar a atenção do mundo e prestar ajuda a quem precisa, sempre atenta  e a lembrar que “a mudança do sistema e a mudança de comportamentos são duas faces da mesma moeda”.

Ao ver este exemplo, trabalho, contas prestadas e claras, utilidade, serviço, organização, seriedade e eficácia lembro-me da vergonha, entre muitas outras,  que cobre o nosso Estado e algumas autarquias nos fogos de 2017, com más contas, desrespeito por  quem precisa e ausência de seriedade. Cá só ouvimos falar de milhões ainda que depois não saibamos onde param. A Fundação Thunberg distribui aos milhares para serem bem empregues e sem possibilidade de alguém os abarbatar. Bem podíamos aprender com esta miúda  de 17 anos…

Publicado no Minho Digital 

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28.1.21

Eleições, abstenções e leituras eleitorais

Por C. B. Esperança

Há quem procure deslegitimar os atos eleitorais denegrindo os resultados e o mérito dos eleitos com base nas abstenções, apoucando o valor do sufrágio e corroendo os valores democráticos.

O voto, não sendo obrigatório, é um dever, e o civismo mostra-se no seu cumprimento. Quem não vota não conta, e perde o direito moral de contestar os resultados. Portugal é uma democracia recente onde, mesmo em clima de pandemia, as restrições de liberdade exigem o escrutínio parlamentar pluripartidário.   

As democracias não se avaliam pela percentagem de votantes, mas na prática de valores que as definem. O respeito pelas leis, a igualdade de tratamento para todos os cidadãos, a proteção das minorias e o respeito pelos adversários são exigências democráticas cujo modelo existe nos Estados de direito democrático.

Que as democracias são frágeis, ao contrário das ditaduras, vê-se pela facilidade com que os ditadores se servem da liberdade para subverterem e confiscarem o poder. Ficará na memória o assustador exemplo de Trump. As eleições democráticas só não garantem o espírito democrático dos eleitos.

Mas vejamos as últimas eleições portuguesas. A enorme quantidade de emigrantes, que normalmente não votam, as pessoas confinadas, e os mortos que costumam permanecer nos cadernos eleitorais, porque o número influencia as remunerações dos autarcas, já justificavam uma elevada abstenção. A garantia da reeleição do PR, que aconteceu com todos os antecessores, e a popularidade de Marcelo retiraram o interesse competitivo.

Mesmo assim,

No dia de eleições, em clima de medo pandémico, com as TVs a anunciarem máximos de infetados e mortos, com as previsões a colocarem nos 30% o número de votantes, com chuvas intensas em alguns períodos do dia, quase 40% de eleitores, em relação aos números registados nos cadernos eleitorais, foi boa participação. Mas, fosse qual fosse o número dos abstencionistas, não são estes que decidem, são os que votam.

A desvalorização das eleições, com base nas abstenções, é intolerável, o que não impede o dever de incentivar a participação eleitoral e de incrementar a votação eletrónica. 

Ponte Europa / Sorumbático

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27.1.21

Os "prioritários"


QUANDO se soube que os citrinos evitavam as mortes por escorbuto (funcionando, de certa forma, como vacina...), o capitão Cook decidiu distribuir limões pela tripulação.

No entanto, e prevendo que os marinheiros os recusassem (porventura por serem ácidos e desagradáveis), Cook decretou que só os oficiais teriam direito a eles.
Como previra, a tripulação revoltou-se, exigiu-os... e “venceu”... — ficando assim resolvido o problema com os possíveis “negacionistas” ainda antes de ter começado!

HÁ UMA outra versão da história, segundo a qual os marinheiros se revoltaram por duas vezes: a primeira, quando os mandaram comer os limões, e a segunda quando lhos recusaram.

MAS, para o caso, saber qual é a versão certa não é o mais importante. O que é importante é ver o que sucede quando questões como as da saúde são entregues a pessoas inteligentes e com capacidade de liderança e — claro — de previsão.

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23.1.21

Grande Angular - Paradoxos e disparates

Por António Barreto

O boletim de voto desta eleição presidencial vai transformar-se numa raridade documental, uma peça única na história política do mundo. Quase vale a pena ir buscar o boletim, não votar e trazer para casa tão singular espécie! O dito objecto tem oito nomes, oito fotografias e apenas sete candidatos! Como de costume, a logística, o procedimento administrativo e a regra jurídica levaram a melhor sobre a inteligência, a clareza e a sensatez. Houve tempo para rever, mas não se corrigiu. Sabia-se que estava estragado, mas não se reparou. Preferiu-se enganar, desnortear eleitores desatentos e encenar uma comédia bufa para salvar uma honra burocrática. Se houvesse um grupo de advogados atrevidos, teríamos talvez um processo de impugnação destas eleições! Felizmente, não vivemos na América…

Mais uma vez, um “dia de reflexão”! Novamente, dois dias em que não se pode falar de política, escrever sobre politica ou conversar publicamente sobre política. É talvez o dia mais político na vida de uma democracia, o dia de eleições! É seguramente o dia de mais intensas discussões políticas, de expressão de mais sólidos argumentos e de maior necessidade de informação e confronto, o dia em que vamos às urnas! Pois bem, em nome de princípios obsoletos, de regras despóticas, de medos covardes e de receios infantis, é nesses dois dias que não se pode falar, discutir, escrever, ler, ouvir e ver política e políticos! Nem realizar ou publicar sondagens, evidentemente. Não há maior atestado de menoridade passado aos portugueses.

A expressão “dia de reflexão” é duplamente ofensiva e idiota. Por um lado, pressupõe que todos os outros dias não são de reflexão! Por outro, implica que a reflexão dispensa conversa e leitura, exige mesmo silêncio e olhos fechados.

Uma tentativa de esclarecimento, junto da Comissão Nacional de Eleições, não resultou. Tratava-se de saber se a reflexão, o silêncio e a reserva se aplicavam apenas a matérias “presidenciais” ou se envolvia toda a política. Era necessário saber se os partidos com candidatos presidenciais tinham um tratamento diferente dos partidos sem candidatos. E se todas as questões políticas de que os candidatos falaram durante a campanha estavam abrangidas pela lei do silêncio… Ninguém aclarou tão fundadas dúvidas.

A campanha eleitoral foi miserável. De conteúdo, de forma, de assistência, de clareza de argumentos, de confrontos de ideias e de personalidades… Todos os assuntos actuais e urgentes (pandemia, educação, saúde e emprego, por exemplo) estavam fora da ordem do dia e dos debates, a não ser por evidente ardil demagógico. Ao mesmo tempo, a maior parte dos candidatos falavam justamente disso, das matérias que não dependem do Chefe de Estado. Foram reuniões macambúzias de candidatos taciturnos!

Rituais, entusiasmo, vivacidade, liberdade de movimentos, acesso aos meios digitais, facilidade de acompanhamento pela NET e interesse por uma campanha deste género: em qualquer destes tópicos, a campanha foi um desastre. Não serviu para nada. As hipóteses de tratar destas dificuldades eram todas, como se deve, proibidas. Alterar o dia das eleições? Não se pode, nem por uma questão de vida ou de morte. Permitir que os cidadãos votem durante três ou quatro dias? Nem pensar, é ilegal. Alterar a lei das eleições? Só depois de alterar a Constituição. Rever a Constituição, mesmo por causa de uma emergência nacional? Proibido! Recorrer a métodos excepcionais por motivos excepcionais? Interdito pela lei. Tudo previsto na lei, tudo previsto na Constituição, tudo preferivelmente proibido, tudo preparado pela melhor casta de portugueses, a dos advogados que se ocupam de política! Feliz o país que tão bons juristas tem! 

A votação antecipada ou em mobilidade foi mal organizada. Foram filas de espera de horas, ao frio e ao ar livre. Houve poucas mesas de voto, poucas salas, poucos locais e poucos dias de eleição, um só, neste caso. Houve muita gente que se deslocou e, depois de espera, se retirou.

A votação por correspondência, prevista há anos, experimentada em dezenas de países, não foi suficientemente utilizada, nem devidamente preparada. Há décadas em estudo, o voto digital, presencial ou não, continua a ser pouco ou nada utilizado.

Parece que apenas se verificou progresso e eficácia nalguns casos de voto a domicílio de pessoas infectadas devidamente registadas e previamente anunciadas. Salve!

Em reflexo de populismo barato e idiota, o Chefe de Estado, o Primeiro-ministro e o Presidente do Parlamento não foram vacinados, nem sequer considerados prioritários. Num país onde reina a cunha e o privilégio, falta coragem, por sentimento de culpa, para tomar decisões acertadas que impliquem diferença e distinção.

Dois autarcas, um de Reguengos de Monsaraz e outro de Arcos de Valdevez, arranjaram maneira de serem vacinados ao arrepio de todos os critérios, prioridades e regras! Invocaram, um, a sua qualidade de presidente de uma fundação, outro, uma sobra de vacinas! Os excessos provocam sempre as excepções ilícitas.

De acordo com o Ministério da Educação, os professores das escolas públicas estão proibidos de manter em aberto seminários, aulas por ZOOM, grupos de diálogo sobre assuntos escolares e discussões sobre matérias escolares.

Segundo o Ministério da Educação, os colégios privados estão proibidos de manter aulas, mesmo informais, pela INTERNET. Ou de organizar formas improvisadas de telescola da exclusiva responsabilidade de cada escola. Tal como os professores estão proibidos de manter e desenvolver, pela NET ou por telemóvel, conversas com os seus alunos, organizar actualizações, dar explicações e realizar debates.

De acordo com o Ministério da Saúde, os médicos, enfermeiros e outros profissionais dos hospitais e clínicas privadas não foram nem serão tratados e vacinados de modo igual aos médicos, enfermeiros e profissionais dos hospitais públicos.

Ao fim de um mês de vacinação, os centros de saúde não estão prevenidos nem ainda sabem o que os espera, não começaram a preparar-se para as tarefas mais difíceis, dos idosos, dos doentes prioritários e dos casos especiais. Quem se dirige a um Centro de Saúde fica sem resposta. Quem deseja saber em que grau de prioridade ou em que escala se encontra, fica ignorante. Os funcionários dos Centros de Saúde estão dependentes de uma estrutura muito centralizada, que se compreende, mas burocrática, o que não se aceita. Silenciosos, recatados, seguramente envergonhados, médicos, enfermeiros e funcionários dos Centros de Saúde respondem, a quem se lhes dirige: “Ainda não sabemos”.

Público, 23.1.2021

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