15.9.19

Grande Angular - Incríveis e Inesquecíveis

Por António Barreto
Deveríamos ter ficheiros de pérolas, sejam boas ideias, sejam dislates. Pensamentos elevados ou deslizes inacreditáveis. Feitos inesquecíveis ou obras incríveis! Neste fim de legislatura, a poucas semanas de eleições, há momentos inolvidáveis. Aqui ficam, para registo e anedotário.
A propósito de umas dezenas ou talvez centena e meia de pinturas, fotografias e esculturas do património do Estado, a Ministra da Cultura Graça Fonseca foi peremptória: “As obras de arte não estão desaparecidas. Não sabemos é identificar o sítio onde estão”! Ainda hoje não sabemos. Mas podemos dormir descansados: não estão desaparecidas! Disse ela.
Como se sabe, os serviços públicos em geral, os de atendimento ao cidadão em particular, entraram em colapso. Na maior parte dos casos, das consultas médicas aos passaportes, da Segurança Social às Escolas, os prazos esticam e não são cumpridos, as filas de espera arrastam-se. Sensível ao problema, depois de ter estudado e de se ter informado junto dos seus serviços, a Secretária de Estado da Justiça Anabela Pedroso disse a verdade e explicou o essencial do problema: “As bichas para obter cartões de cidadão existem por culpa dos Portugueses que vão à mesma hora, aos mesmos locais e ainda por cima antes da hora de abertura das lojas”! Podemos ter a certeza de que a autora de tão brilhante e certeira explicação pensa também que é necessária uma reforma de mentalidades!
A situação na saúde pública é, como se sabe, difícil. Escasseiam os meios, faltam médicos e enfermeiros, muitos profissionais são atraídos por ofertas de emprego no privado ou no estrangeiro, a desorganização do sector é crónica e a redução das horas de serviço foi fatal. Houve fricções e conflitos. E greves, especialmente de enfermeiros. No Verão, as maternidades e outros serviços viram-se na obrigação de recusar ou transferir doentes. Depois de séria averiguação, a Ministra da Saúde Marta Temido tranquilizou os cidadãos: “Nenhuma maternidade dos hospitais de Lisboa vai fechar durante o Verão. O que vai acontecer é que uma em cada quatro vai ficar rotativamente desactivada durante um período”. Um primor de trompe-l’oeil.
AJustiça é fonte inesgotável de surpresas. Sócrates e o Grupo Espírito Santo também. Mas, por vezes, tem-se a sensação de que as surpresas ultrapassam os limites do aceitável. A ponto de não se perceber por que razões ninguém, na organização judiciária, no Ministério Público, no legislador, no executivo ou até na Presidência da República, é capaz de contrariar, por obras ou por palavras, certas decisões e alguns procedimentos. O último em data diz respeito ao Juiz Rui Rangel. Sob suspeita de vários crimes, incluindo de corrupção, sob averiguação e à espera de pronúncia há mais de um ano, o Juiz da Relação foi suspenso durante longo período. Como nada se resolveu entretanto, o Juiz regressou às suas funções e já recebeu vários processos, ou antes, já lhe couberam em sorteio processos delicados, entre os quais dois que envolvem corrupção, o da “Máfia do Sangue”, com a Octapharma, empresa que deu emprego a José Sócrates; e o da “Operação Marquês”, em curso há vários anos e que visa quase duas dezenas de pessoas, entre as quais os dirigentes do Grupo Espírito Santo e José Sócrates. Este caso é mais um golpe na Justiça com incalculáveis consequências.
nova comissão Europeia, que ainda não foi aprovada pelo Parlamento, começou muito bem. Paritária, como mandam a moda e as regras do dia. E com inovações na designação dos pelouros que nos deixam a sonhar. Não fosse sinal de complacência, teríamos vontade de rir. Pensando em todos os que não tiveram oportunidade de ver estas pérolas, relembro os títulos de uma dezena deles: Comissária da Protecção do Modo de Vida Europeu, Comissário da Economia ao Serviço das Pessoas (ou que Funcione para Todos), Comissária da Demografia e da Democracia, Comissário para as Relações Interinstitucionais e Prospectivas, Comissário para as Parcerias Internacionais, Comissário da Gestão de Crises, Comissário da Política de Vizinhança e Alargamento, Comissária da Igualdade, Comissária para a Coesão e Reformas e Comissária dos Valores e da Transparência. Alguém citou, a este propósito, o Ministério dos “Silly Walks” dos Monthy Pithon: tem absolutamente razão!
Como é evidente, todos os comissários europeus são importantes. E todos os países europeus têm razões para se orgulhar dos seus comissários. Não excessivamente, pois cada país tem um, mas o suficiente para se sentir fazer parte do clube. Durante ou no fim do mandato, logo se verá se desempenham bem as suas funções. As esperanças em Elisa Ferreira são justificadas, dado que é pessoa com valioso currículo. Mas os Portugueses em geral, incluindo notáveis políticos, não se coíbem de dizer que a “nossa” Comissária tem um pelouro formidável, que a “nossa “ vai poder ser favorável a Portugal e que a “nossa” nos vai ajudar! É tão saloio afirmar essas coisas! A “nossa” será uma excelente comissária, cumprirá o seu dever e distinguir-se-á na Europa justamente se for capaz de exercer as suas funções com isenção e sem preferência pelo seu país de origem, tal como a lei exige, os costumes impõem e a honra aconselha!
Rui Rio não quer ser deputado! Quer é ser Primeiro-ministro! Percebe-se a segunda parte, não se entende a primeira. Não quer ser deputado? Por que concorre ou se candidata? Como em Portugal não é necessário ser deputado para ser Primeiro-ministro, podia perfeitamente ficar de fora. Mas não, resignado, acabou por aceitar. Foi o coroar de uma campanha estranha. Desvalorizou as eleições, garantindo que tudo o que se diz em campanha não é para ser levado a sério! Deveria querer referir-se aos adversários, mas, evidentemente, ficou incluído. Na tentativa de se mostrar honesto e racional, virtudes louváveis, desmontou a argumentação eleitoral, minimizou os programas e desdenhou quem anda em campanha! Dia após dia, contra ventos já desfavoráveis e em circunstâncias difíceis, Rui Rio deu o golpe de misericórdia no seu partido.
Também incrível e inesquecível, não sabemos ainda se pelas boas ou pelas más razões, Jerónimo de Sousa, secretário-geral do Partido Comunista Português, fez, na televisão, um inédito elogio ao Parlamento, à Assembleia da República e aos deputados. Citando expressamente as funções dos deputados como representante do povo, louvou e sublinhou a responsabilidade do deputado no exercício das suas funções. Sinceras ou não, é o que veremos com o tempo. Mas estas declarações quase fazem esquecer aqueloutras de Catarina Martins, igualmente inesquecíveis, segundo as quais o Bloco de Esquerda era social-democrata.
Público, 15.9.2019

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14.9.19

No "Correio de Lagos" de Ago 19

«Considerando apenas os “grandes fogos” (mais de 100 ha), a área ardida, em Portugal e nos últimos 30 dias, foi superior à de Espanha, França e Grécia juntas»
(Lab. Fogos Univ. Trás-os-Montes e Alto-Douro)
QUANDO chega a “época dos fogos”, a conversa é sempre a mesma e inclui, invariavelmente: as alterações climáticas, o desordenamento florestal, os pirómanos, os “negócios do fogo”, a Protecção Civil, o SIRESP, os concursos para os meios aéreos, a actuação dos bombeiros, os eucaliptos... além das mais diversas descoordenações, incompetências e corrupções — sem contar com as intermináveis reportagens das TV, pontuadas por intervenções de políticos que, entre uma e outra lágrima de crocodilo, nos garantem que “a culpa é do governo anterior”. 
Mas, e salvo melhor opinião, a floresta arde, porque não pode deixar de arder: as árvores estão lá, mas não os seus donos; o mato está lá, mas não quem o roce; já não há cabras, essas incansáveis sapadoras; o alarme, quando é dado, é muitas vezes tardio, por falta de quem o dê a tempo; os que acorrem em pessoa já são poucos e idosos — e por aí fora, porque o país, como sucede no mundo todo, deixou de ser “rural”: os poucos que ainda por lá andam estão sem forças, já que os outros há muito debandaram dessas paragens. E quanto a reverter o irreversível... responda quem souber.
A propósito disso, vale a pena ler o que Tolstoi escreveu em “Guerra e Paz”, faz agora 150 anos, acerca do famoso incêndio de Moscovo, quando, em finais de 1812, Napoleão ocupou a cidade:

«As [suas] causas não podem imputar-se concretamente a ninguém. Moscovo ardeu porque se encontrava colocada em tais condições que qualquer outra cidade construída em madeira devia arder de forma análoga, independentemente de poder ou não recorrer às suas 130 bombas. Moscovo devia arder porque os habitantes partiam. Era tão inevitável como a inflamação dum monte de aparas sobre o qual, durante vários dias, caíam faúlhas. Uma cidade construída de madeira, na qual, mesmo quando ali se encontravam os proprietários e a polícia, se produziam todos os dias incêndios, não podia de maneira alguma deixar de arder quando já não havia habitantes (...). O patriotismo feroz de Rostoptchine e a selvajaria dos franceses não entram aqui para nada. Moscovo ardeu por causa dos cachimbos, das cozinhas, das fogueiras, da falta de cuidado dos soldados habitantes, mas não proprietários das casas. Mesmo se houve incendiários (...) não é possível pô-los em causa, porque, sem eles, teria sido a mesma coisa. Por lisonjeiro que seja para os franceses acusar a ferocidade de Rostoptchine e para os russos a barbaridade de Bonaparte, ou, mais tarde, pondo um facho heróico nas mãos do seu povo, não se pode deixar de ver que tal causa imediata de incêndio não podia existir, porque Moscovo devia arder, como deve arder toda a cidade, fábrica ou casa cujos amos partiram (...). Moscovo foi queimada pelos habitantes, é certo, mas por aqueles que partiram e não por aqueles que ali ficaram».
CONCLUSÃO: Diz-se que “O Homem só aprende por catástrofes”, mas não faltam casos em que nem com elas aprende — e a prova de que o flagelo dos fogos é um deles é que esta crónica é, quase sem tirar nem pôr, a que publiquei em 14 de Agosto de 2010 no blogue ‘Sorumbático’ (sorumbatico.blogspot.com).

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13.9.19

Uma Minhota à frente do Teatro Nacional de São Carlos

Por Joaquim Letria
Uma minhota das Caldas das Taipas, concelho de Guimarães, vai dirigir o Teatro Nacional de São Carlos a partir de Outubro! ! Aleluia!
Elizabete Matos, hoje uma soprano portuguesa altamente apreciada e reconhecida no panorama operático internacional, vai reduzir as suas participações no rico reportório que interpreta por todo o mundo para se dedicar à direcção do Teatro Nacional de São Carlos. E não deixa de se mostrar ambiciosa e, com essa sua ambição, de despertar sonhos de muitos milhares de amantes da música e de espectadores do Teatro Nacional de São Carlos, entre os quais me incluo.
Elizabete Matos quer o São Carlos de regresso à ribalta internacional. Todos nós, os que adoramos aquele teatro e o respeitamos, assim desejamos. Foi lá que ouvi a Maria Callas, o  Di Stefano , o Alfredo Krauss, a Renata Scotto, a Kiri Tikinawa, a Joan Sutherland e o Plácido Domingo, entre outros, cantarem pela primeira vez na minha vida.
Foi em São Carlos que aprendi o respeito devido às grandes óperas e pelos grandes teatros de ópera que viria a conhecer – O Metropolitan Ópera House de Nova York, o Deuthsche Oper de Berlim, o La Scala de Milão, o Fénix de Veneza, um conjunto de belas e únicas salas a que o Teatro Nacional de São Carlos pertencera por direito próprio e que muito o fazia ser respeitado em todo o mundo.
Elizate Matos quer ser uma directora presente, portanto ali se instalará para harmonizar e gerir as complexidades da Opart (organismo de produção artística), a Orquestra Sinfónica Portuguesa (residente), apaziguar os artistas portugueses que não tiveram acesso aos principais papeis, apoiar a Companhia Nacional de Bailado, tudo isto num período conturbado da vida deste teatro com graves problemas por resolver entre o seu pessoal, todo ele muito mal tratado durante toda a última década e com um maestro e programador estrangeiro que, ironicamente, derrotara Elizabete no último concurso de há quatro anos, para agora atirar a toalha ao chão e confessar que já não queria continuar depois de não ter cumprido aquilo a que se propusera, por culpa não inteiramente sua.
Vamos portanto ver aquilo  que Elizabete Matos é capaz de fazer à frente do Teatro Nacional de São Carlos. E vamos desejar que  esta figura doce mas poderosa, amante das grandes personagens de Wagner, que contracenou com Jose Carreras, Placido Domingo, Leo Nucci e muitos outros, que estudou piano e violino em Braga antes de partir para o estrangeiro com uma bolsa de estudo da Fundação Gulbenkian e se tornou na cantora lírica portuguesa mais apreciada na actualidade  vai fazer com o maior desafio da sua vida artística.
Desejemos-lhe as maiores felicidades!
Publicado no Minho Digital

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12.9.19

O Papo-Seco (Crónica)

Por C. Barroco Esperança
Há, na vida dos países e na pacatez das pequenas povoações, figuras que são referências afetivas de uma época. O tempo encarrega-se de as esquecer como se não fosse rica a sua existência e estimulante o seu exemplo.
Em meados do século passado havia em Almeida um sapateiro estimado por todos, um homem sempre disponível para fazer um favor, e capaz de usar os sapatos de um cliente antes de lhe deitar as meias solas, para os devolver quando calhasse, ou de descalçar os seus para alguém que deles precisasse.
Os garotos guardavam-lhe a sapataria à espera do arco que restaria dos pneus gastos, de onde retirava os pedaços de borracha que ainda havia para o calçado que remendava. Às vezes queria o martelo para espetar os protetores e brochas, que aumentavam a duração das solas, e tinha de o pedir ao garoto que brincava com ele. Cada arco que sobrava fazia feliz um garoto, que percorria a vila a correr atrás da gancheta que o fazia rodar. Muito gostavam os garotos do Papo-Seco que um dia se admirou por eu lhe chamar Sr. Papo-Seco, tão pouco habituado à senhoria do tratamento.
As cartas chegavam-lhe com a simples referência, Papo Seco – Almeida, com o pedido de uma certidão de idade, certificado do registo criminal ou qualquer outro documento de que o remetente carecesse, vindo no interior com uma nota de 20 escudos cujo troco era o pagamento do que faria de graça.
Nas festas largava a sapataria para ser fogueteiro. Todos o conheciam e estimavam, na vila e no concelho. Era uma companhia apreciada pela boa disposição e simpatia.
O Abel Nabais, comerciante de Nave de Haver, perguntou-lhe um dia se gostava de ir a Lisboa, olha se gostava, e convidou-o para o acompanhar numa viagem que, em breve, faria para tratar de negócios. Na noite anterior mal dormiu, com medo de que o amigo se esquecesse ou o fizesse esperar quando chegasse de automóvel.
Manhã cedo, no dia aprazado, partiram os dois para a viagem cuja distância e demora só ao Papo-Seco não cansavam. Percorreram mais de oitenta léguas, cruzaram numerosas localidades, e o sapateiro viu o que nunca julgou existir, havia mundo fora de Almeida e do seu termo, maravilhado e feliz.
Da conversa do caminho não reza a história. À entrada em Lisboa, com silêncios que o condutor esperava, os olhos do Papo-Seco luziam e surpreendia-se com a quantidade de veículos que circulavam na capital, no pós-guerra. A certa altura, com cada vez mais automóveis e camionetes a circularem, exclamou, ó Abel tivemos sorte, …, viemos em dia de mercado.
No regresso a casa e à sapataria, não se cansava de falar das maravilhas que vira em Lisboa e da felicidade de uma viagem inesquecível, grato ao seu amigo Abel. Voltou ao trabalho, aos favores a amigos e desconhecidos e ao convívio dos conterrâneos.
No início da década de sessenta, quando o país iniciou a fuga à miséria, rumo a França, recebia vários os pedidos para dar dormida a desconhecidos na sua modesta casa, na Rua do Poço. Por lá passaram muitos emigrantes, sem lhes perguntar para onde iam ou de onde vinham, até que a Pide o foi buscar.
Sentiu-se uma ave engaiolada antes de começar a ser torturado para confessar quem era o chefe da alegada rede de emigração clandestina, como se ele conhecesse os interesses que moviam os passadores ou quem eram. Foi a segunda e última vez que se encontrou em Lisboa, então para ser agredido e intimidado, com o corpo dorido, noites sem dormir e violência que não compreendia, por ter dado guarida sem saber a quem.
Os esbirros que o levaram não pararam em Vilar Formoso, de cuja delegação provinham gritos que se ouviam nas imediações, receosos de que a sua popularidade levasse os fascistas locais a acudir ao homem bom, alheio à política, que ajudaria quem quer que fosse.
Muitos dias e noites depois, com nódoas no corpo e a sangrar por dentro, amargurado e sem compreender a vileza de que era vítima, mudo perante as ameaças, devolveram-no à procedência, sendo a generosidade o único crime que o comprometeu.
O Papo-Seco voltou a Almeida, mais sofrido e intrigado, sem perder aquele jeito de ser prestável, a reabrir a sapataria e a viver memórias amargas nos dias que ainda teve.
Quando chegou o 25 de Abril, na sequência da deliberação de uma assembleia popular, uma Comissão Administrativa sucedeu ao autarca fascista e, durante cerca de 15 meses, dirigiu o município, sem qualquer remuneração, empenhada nos destinos do concelho.
Foi numa das reuniões dessa comissão administrativa que o elemento mais idoso propôs o nome do Papo-Seco para a rua onde morou e acolheu emigrantes clandestinos, proposta aceite por unanimidade. Lá foi descerrada a placa toponímica que a edilidade do CDS, saída das primeiras eleições autárquicas, logo removeu, irritada com a razão da homenagem explícita na placa, na antiga Rua do Poço a cujo nome regressou.
Afinal, o Papo-Seco tinha nome e apelido, António dos Santos, o nome de um homem bom que se vai apagando da memória à medida que são cada vez menos os vivos que o estimaram.
Os nomes dos membros da Comissão Administrativa, a ata da sua eleição e as atas das deliberações seguiram o destino da placa toponímica do Papo-Seco, de cujo paradeiro ninguém sabe:
Rua António dos Santos
(Papo-Seco)
Vítima da Pide
Só resta a memória, cada vez mais débil, de um tempo exaltante em que a democracia andou à solta.
Ponte EuropaSorumbático

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11.9.19

AS ROCHAS, NUMA CAMINHADA DE MAIS DE 2000 ANOS

Por A. M. Galopim de Carvalho
Desde, pelo menos, a Antiguidade grega e durante séculos, o termo pedra tanto indicava uma rocha como um mineral. Hoje não confundimos e sabemos que, para termos uma ideia, ainda que básica, sobre as rochas, temos de saber o que são os minerais e, para sabermos algo sobre os minerais, não podemos prescindir de alguns conhecimentos sobre as rochas.
Todos falamos hoje de minas e minerais, com base num saber empírico e vulgar ligado à experiência quotidiana. Mina é uma palavra do vocabulário popular ligada a uma actividade tradicional. Quem vive no campo, sem a comodidade do abastecimento de água canalizada, sabe que uma mina de água é uma escavação na horizontal, feita numa encosta do terreno, a fim de captar a água que aí circula no seu interior. Palavra que se julga radicada na cultura céltica, trazida por um povo portador da metalurgia do ferro, mina significa escavação na terra. Minerar é, pois, escavar e mineral é o que da terra se retira por escavação. Minar é escavar e é, também, fossar e fossa é uma escavação. E é por isso que, no passado, até ao século XVIII, “fóssil” era todo o material (com excepção do orgânico) que se desenterrava ou extraía de dentro da terra (do latim "fossile", desenterrado), o que abrangia, não só os minerais e as rochas, como também os “petrificados” (nome que se dava aos fósseis, no sentido que hoje damos ao termo) e os achados arqueológicos.
No Livro das Pedras, de Aristóteles (384-322 a. C.), que se julga não ser da autoria deste filósofo e fundador do Liceu de Atenas, mas sim uma compilação das suas ideias feita por um anónimo, provavelmente um árabe posterior ao século IX, além de pedras comuns, distinguem-se gemas, metais e sais, e disserta-se sobre a influência dos astros, em geral, e do Sol, em particular, no nascimento destes objectos naturais. A sua visão acerca das “influências celestiais” era a de que, sob o efeito dos raios solares, certas exalações se escapavam para a atmosfera. Destas, as chamadas “exalações secas”, associadas às trovoadas, condensavam e caíam na Terra, sob as formas de chuva de pedra (granizo) e de pedras vindas do espaço (meteoritos). Segundo a mesma visão, havia outras exalações susceptíveis de gerar pedras, incluindo nesta designação rochas, minerais e fósseis surgidos e desenvolvidos à superfície e no subsolo, por efeito de “virtudes petrificantes” originárias do céu e dos diversos corpos celestes, nomeadamente os planetas e as estrelas, entre as quais o Sol tinha papel de destaque.
O seu discípulo mais notável, Teofrasto (372-287 a. C), continuador do dito Liceu, debruçou-se mais objectivamente sobre estes produtos naturais e, entre as várias obras que deixou, sobressaem vestígios de um tratado sobre as pedras. Tido como a primeira obra escrita neste domínio, envolve, ainda, minerais, minas e metalurgia. Deve-se a Teofrasto um esboço de classificação dos ditos produtos, com base nas respectivas utilidades. Entre eles, figuram o calcário, o xisto argiloso, o basalto, o pórfiro, o ofito (dolerito) e o mármore, indicando ainda as suas utilizações práticas na indústria e na arte.
Pouco mais de três séculos depois, Plínio, o Velho, (23-79 d.C.), o grande enciclopedista romano, baseia-se na obra de Teofrasto em muitas das suas alusões às rochas, ainda não designadas como tal, mas sim como pedras. Estes conhecimentos mantiveram-se até finais do século XV, em finais da Idade Média.
Na idade Média, o persa, Abu Ali al-Hussein ibn Abd-Allah ibn Sina (980-1037), mais conhecido por Avicena, médico, filósofo e alquimista de cultura enciclopédica, deixava-nos um outro tratado sobre as pedras, “De Lapidibus” (na tradução latina), do qual consta a primeira classificação dos objectos do chamado “Reino Mineral”, numa época em que, como se disse atrás, ainda se não fazia a distinção entre rochas, minerais e fósseis. Desta classificação constam quatro classes: “pedras e terras”, “minerais fusíveis e sulfurosos”, “metais” e “sais”.
No século XIII, também o dominicano Albert von Bollstadt (1206 -1280) se interessou pelas pedras no seu todo. Doutor da Igreja, foi figura grande no universo da ciência do seu tempo, o que lhe valeu ter ficado na história como Alberto de Colónia, Alberto Magno ou Alberto, o Grande. O seu livro “De Mineralibus et Rebus Metallicis”, escrito por volta de 1260 e publicado, pela primeira vez, em Pádua, em 1476 é, em grande parte e ao contrário do que era hábito, expressão das suas próprias investigações. Diz aí que as gemas diferem dos restantes minerais e pedras pelo seu maior conteúdo no “elemento água” (um dos 4 elementos atribuídos a Aristóteles - terra, água, ar e fogo) sendo, por isso, mais claras e transparentes, propondo a respectiva classificação pela cor. Ele tratou como minerais todo o tipo de pedras e os metais. Estudou as propriedades do enxofre e de muitos sais metálicos.
Na viragem da Idade Média para a Moderna, Agricola, médico alemão, de nome Georgius Bauer (1495-1555), reviu as classificações das pedras, elaboradas por Teofrasto, Plínio, o Velho, Avicena e Alberto Magno, enaltecendo os seus autores, distinguindo e designando por “mármores”, o mármore propriamente dito, o basalto antigo e o alabastro, e por “Pedras de construção”, o calcário e o arenito, nomeadamente o Bundsandstein, nome então atribuído ao arenito fino do Triásico germânico. Assinale-se que o basalto antigo (não o resultante das erupções vulcânicas que se podiam presenciar na região mediterrânea), já conhecido na Europa do Norte, não era associado ao vulcanismo. Referido então por “mármore negro”, como lhe chamou Plínio, este basalto era visto, erroneamente, como uma “rocha precipitada no fundo do mar”.
Entretanto, surgia em Itália, em 1596, o termo “granito”, radicado no latim granum, que significa grão, introduzido por Andrea Caesalpino (1519-1603).
Já no século XVIII, num período da história da Europa, em que os textos eruditos e, entre eles, os de cariz científica, eram maioritariamente escritos em latim, o teólogo e mineralogista alemão, John Lukas Woltersdorf (1721-1772), deixou cair o termo “pedra” e, pela primeira vez e, sob a designação latina de lapidis, considerou as rochas como uma classe à parte. Na sua classificação dos produtos do “Reino Mineral”, conhecida por Sistema Woltersdorf, divulgada em 1748, distinguiu sete classes: Terrae (terras), Lapidis (rochas), Salia (sais), Bitumina (betumes ou asfaltos), Semimetala (semimetais), Metala (metais) e Petrifada (“petrificados” ou fósseis, no sentido que hoje damos à palavra).
Da mesma época, a proposta de classificação do alemão Albert Frederic Cronstedt (1722-1765), conhecida por Sistema de Cronstedt (1771), introduziu o termo latino saxus, igualmente com o significado de rocha (saxa, no plural), definido como “o conjunto dos materiais que formam as grandes massas montanhosas”, exemplificados, entre outros, pelo “ofito” (dolerito), o “pórfido” (pórfiro) e o trapp (basalto). Valorizada pelas referências aos chamados “princípios constituintes” (os elementos químicos então possíveis de reconhecer), esta classificação estava ainda longe de abordar a verdadeira natureza das rochas e, assim, compreender os respectivos significados geológicos.
Uma década depois, o sueco Torbern Olof Bergman (1735 -1784), na classificação dos produtos do “Reino Mineral”, conhecida por Sistema de Bergman (1782), considerou nove classes: “ares”, “águas”, “enxofre”, “ácidos”, “alcalis”, “terras”, “substâncias metálicas”, “sais neutros” e “fósseis”.
Na última classe, a dos “fósseis” (no sentido que ainda se dava à palavra, isto é, como se disse atrás, todo o material que se desenterrava ou extraía de dentro da terra, do latim fossile, desenterrado) o autor incluiu as “pedras simples” (os minerais), as “pedras compostas” (as rochas) e os fósseis (no sentido que hoje lhe damos). Entre as “pedras compostas” distinguia as “pedras compostas cristalizadas”, onde se arrumavam granitos e gnaisses, as “pedras compostas empastadas cristalizadas”, representadas pelos “pórfidos” (pórfiros), as “pedras vulcânicas”, a que pertenciam as “lavas compactas e porosas”, os basaltos, o “rapilo” (lapili), a pozolana, a pedra-pomes, o vidro vulcânico (obsidiana ou Pechstein), as brechas vulcânicas, e, ainda, as “pedras compostas não cristalizadas”, como conglomerados e brechas de natureza sedimentar. Dado o carácter homogéneo, tanto o vidro vulcânico como o mármore, o quartzito, o calcário e alguns xistos não figuravam entre as rochas, mas sim entre os minerais. O livro onde Bergman divulgou esta sua classificação foi traduzido para português, em 1799, por Andrade Machado, com o título “Manual do Mineralógico ou Esboço do Reino Mineral”.

Até meados do século XIX o estudo das rochas limitava-se: à identificação, dos respectivos minerais, à vista desarmada ou com o auxílio de uma simples lente de aumentar 10 vezes ou pouco mais; à descrição da textura, ou seja, o arranjo espacial dos respectivos minerais, tendo em conta as suas dimensões, forma e orientação; e à quantificação rudimentar dos seus constituintes químicos, na medida dos conhecimentos de então.
Em 1858, o geólogo inglês Henry Clifton Sorby (1826 -1908) abriu as portas ao estudo das rochas em termos modernos, pela adaptação, ao microscópio óptico, de um dispositivo (nicol) que permite operar com luz polarizada. O microscópio assim equipado passou a ser apelidado de polarizante ou petrográfico. Nasce aí a petrografia, a disciplina científica que visa a identificação dos minerais constituintes das rochas e a caracterização das respectivas texturas com vista às suas descrição e classificação no contexto da imensa variedade de tipos rochosos. Foi a petrografia que permitiu o estudo das rochas com dimensão de ciência, a que foi dado o nome de petrologia, um tema a desenvolver mais adiante.

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10.9.19

O NEGÓCIO DA LÍNGUA

Por Ana Cristina Pereira Leonardo
Escrevo poucas horas antes de ter início no Brasil uma discussão sobre a eventual revogação do Acordo Ortográfico de 1990. 
O debate terá lugar na Comissão de Educação da Câmara de Deputados e resulta de um requerimento do deputado de centro-direita Jaziel Pereira (Partido da República), subscrito por Paula Belmonte do Partido Cidadania, antigo Partido Popular Socialista e, antes disso, Partido Comunista Brasileiro. A justificação foi que “o acordo para unificação ortográfica da língua portuguesa nos países lusófonos não alcançou a eficácia esperada”. 
Antes que alguém se lembre de colar a oposição ao AO às forças de Darth Vader e ao mais serôdio obscurantismo – afinal, Bolsonaro também disse qualquer coisa contra – recordem-se as palavras do insuspeito Paulo Franchetti em 2012, dirigia então o crítico e professor de literatura a Editora da Unicamp, órgão da Universidade Estadual de Campinas. 
Dizia ele: “O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado.” 
Mais à frente: “O resultado foi uma norma cheia de buracos e defeitos, de eficácia duvidosa. (…) Nem mesmo agora, a ortografia em cada um dos países será unificada, pois a possibilidade de grafias duplas permite inclusive a construção de híbridos. E se os livros brasileiros não entram em Portugal (e vice-versa) não é por conta da ortografia, mas de barreiras burocráticas e problemas de câmbio que tornam os livros ainda mais caros do que já são no país de origem”. 
Pegando o boi pelos cornos, acrescentou: “Mas o acordo interessa, é claro, a gente poderosa. (…) No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didáticos. Se cada casa brasileira que tem um exemplar do Houaiss, por exemplo, adquirir um novo (…), não há dúvida que haverá benefícios comerciais para a editora e para a Fundação Houaiss – Antônio Houassis, como se sabe, foi um dos idealizadores e o maior negociador do acordo. O mesmo vale para os autores de gramáticas e livros didáticos”. 
Por cá, silêncio sobre a negociata. Os ministérios dos Negócios Estrangeiros, da Cultura e da Educação nem se dignaram responder ao grupo de trabalho da Assembleia da República que avaliou (sem conclusões oficiais) o impacto da aplicação do AO. 
Parafraseando Camus: quando todos formos analfabetos, será a democracia.
"Expresso" de 7 Set 19

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9.9.19

No "Correio de Lagos" de Ago 19

No passado dia 15 de Abril, a poucos passos da Repartição de Finanças, uma camioneta, ao fazer marcha-atrás, derrubou um candeeiro de iluminação pública. As pessoas que por ali estavam nada sofreram para além do susto, mas o mesmo não se pode dizer da máquina de lavar/secar que levou com ele em cima. 
 E pouco mais haveria a comentar para além do “são coisas que acontecem” se, 4 meses passados, o toco que sobrou não exibisse 6 espigões ferrugentos, ornamentados com dois ou três palmos de fita de faz-de-conta. 
 Ora e se, no mês passado (e a propósito dos cães à solta), se falava, neste jornal, da vacina contra a RAIVA, aqui o que vem à colação é a do TÉTANO. Tirando isso, não há problema: já estamos vacinados.
"Correio de Lagos" de Ago 19

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8.9.19

Grande Angular - Servir o Povo, servir a Democracia

Por António Barreto
Como é sabido, as razões pelas quais um cidadão vota e escolhe os seus eleitos são muito variadas. Instinto de classe, cor da camisola ou rotina atávica são algumas delas. Também há quem se queira vingar e castigar quem está no poder. Ou quem queira prejudicar e votar contra. Há quem vote na esperança de ter emprego. Como há quem escolha pela cara, pelo nome e pela personalidade. E certamente outras razões. Mas podemos ter a certeza de que, em tempos de democracia de massas, de privilégio da imagem, de promoção de produto e de propaganda desenfreada, o conteúdo das políticas é um dos menores critérios de escolha. Muitas vezes, o nome é o mais importante. Vota-se em alguém, pessoa ou partido, porque é alguém que queremos que governe. E não há mal nisso.
Os debates públicos ou televisivos estão praticamente mortos, perde-se dinheiro e tempo, os políticos estão ali com mais cuidados e receios do que com intenções e ideias. Todos querem mais ou menos tudo e o seu contrário. Naquelas dezenas de minutos automáticas e cronometradas, sem conteúdo nem improviso, com pouca sinceridade e muito fingimento, os chefes marcam pontos se não fizerem asneira. Mais do que a democracia, a honra e a competência, são as agências de comunicação que tratam das eleições e das campanhas.
Estas próximas eleições são muito interessantes. E decisivas. Como todas as outras… Os candidatos pensam que se trata de eleições essenciais. Os cidadãos que votam, cerca de metade, também. A outra metade nem se preocupa. Na verdade, são eleições que vão ditar o destino das alianças das esquerdas e das direitas. Assim como a capacidade que o nosso país tem para enfrentar graves problemas imediatos da União Europeia, da democracia, da aliança ocidental, do endividamento e do crescimento económico. Mas, pela sua urgência e pelas suas consequências na vida dos cidadãos, a grande questão actual é a dos serviços públicos. De todos os serviços e de todo o atendimento dos cidadãos pelas estruturas da Administração.
Os serviços públicos têm vindo, há quase uma década, a decair de modo sustentado. Como sempre, nestas coisas, as causas são várias. A dívida do Estado contribuiu de modo decisivo. Demagogia política e corrupção ajudaram. A atracção de profissionais pelo estrangeiro ou pelos sectores privados aumentou de modo significativo. A primeira fase da política de austeridade, com assistência internacional, provocou enorme desgaste. A segunda fase de austeridade, já sem assistência e com algum crescimento, não deixou de criar dificuldades e sobretudo de impedir a recuperação da qualidade e da eficiência. A incompetência de alguns dirigentes políticos e mesmo de altos funcionários de certas administrações ajudou ao declínio. As medidas de reversão parcial de rendimentos poderão ter aliviado a situação económica de bom número de pessoas, mas desviou recursos. A redução dos horários de trabalho de algumas categorias de funcionários, em particular de médicos e enfermeiros, criou uma situação de real carência, não compensada pelo recrutamento necessário de uns milhares de funcionários.
Ao lado de êxitos e melhoramentos indiscutíveis, assim como de bastante sorte com a conjuntura europeia, o presente governo não conseguiu melhorar a qualidade e a eficiência dos serviços públicos. Perdeu muito tempo a queixar-se do governo anterior, mas não conseguiu fazer melhor. Interessou-se pela política pura, com resultados positivos, mas não teve engenho nem competência para acudir aos serviços públicos, à saúde, à educação, à segurança social, ao atendimento público em serviços notariais e de registo e a toda uma longa série de serviços para os quais as filas de espera são hoje uma realidade generalizada.
Em número, comprimento e duração crescentes, as filas de espera constituem supostamente um mecanismo igualitário, isto é, colocam todas as pessoas em condições iguais perante o serviço ou a instituição. Sabemos que é uma expectativa errada. As filas de espera prejudicam toda a gente, muito especialmente quem trabalha, quem vive longe, quem tem pouca instrução, quem não conhece “pessoas” e quem não sabe os circuitos. Mais ainda: hoje, as posições em fila de espera são negócios. Compram-se e vendem-se senhas para obtenção de números. Quem pode pagar a secretários, empregados, criadas, dependentes em geral e desempregados em particular consegue evidentemente lugar na fila mais depressa e em melhores condições. Como se sabe, as filas de espera para a maior parte dos serviços públicos são hoje frequentadas desde muito cedo, às primeiras horas da madrugada, seja por quem precisa, seja por quem vai buscar senhas para vender. Mais do que da ineficiência, as filas de espera são hoje o pior retrato da desigualdade.
Pode pensar-se que existem, socialmente, questões muito mais importantes. Mas é difícil ver quais. As dificuldades dos serviços públicos e a ineficácia do atendimento ao público são actualmente factores de desigualdade social e de opressão do mais fraco. Ter acesso rápido, pronto e eficiente aos serviços de saúde, de educação, de segurança social, de licenciamento, de identidade e outros é um critério de qualidade da democracia. Ser atendido de modo simples e humano pelos serviços públicos significa muitas vezes ter meios de defesa da sua dignidade.
O problema é que governos e partidos têm geralmente preferência por tratar do acesso e do atendimento de grupos profissionais concretos. Ou de empresas e instituições com poderes e importância. Mais negativas ainda são as políticas e as medidas orientadas para resolver problemas de quem já tem força ou privilégios. Um governo que responde a sindicatos e confederações, em detrimento das populações, é um governo que, por razões eleitorais ou de interesses, prefere as corporações, em prejuízo dos cidadãos. Um governo que deixa deteriorar os serviços públicos, o atendimento e a resposta a todos os cidadãos está a aumentar a desigualdade social e a agravar a condição do mais fraco. Um governo que se interessa mais e ouve melhor os funcionários e a Administração e que não resiste a quem se manifesta está a contribuir para a desigualdade social. Um governo que escolhe as políticas de classe e de corporações lesa os cidadãos, sobretudo os mais fracos. Um governo que privilegia quem vocifera prejudica quem sofre.
Público, 8.9.2019

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7.9.19

Contra a maioria absoluta

Por Carlos Fiolhais
Assistimos a uma disputa política com poucas novidades. São os mesmos a fazer o mesmo da mesma maneira. Cada vez menos gente acredita nos mesmos, tal como revela a crescente abstenção. Nas legislativas de 1975 foi de 8,5%, nas de 2015, foi de 44,1%, a mais alta de sempre. Nas europeias é diferente, mas nas últimas a abstenção foi de 69,3%! Existe o risco de uma maioria absoluta formada pelas pessoas que não querem saber. Esse absentismo é particularmente notório entre os jovens. 
As pessoas não querem saber, porque não se revêem nos maiores partidos. Que estes funcionam em circuito fechado é bem nítido no modo como foram escolhidos os candidatos a deputados. No PS António Costa quer, pode e manda, fazendo escolhas que o partido aceita sem pestanejar, até porque o PS não passa actualmente de uma máquina de poder que distribui benesses e mordomias. No PSD Rui Rio quer, mas não pode nem manda. A luta que os carreiristas “laranjas” lhe movem deve-se precisamente à ânsia de manutenção das suas regalias. 
Os eleitores não têm verdadeiramente escolha, pois encontram escolhas já feitas. Eu, por exemplo, recuso-me a escolher em Coimbra entre Marta Temido, a ministra da Saúde que assiste impávida ao descalabro do Sistema Nacional de Saúde, e Mónica Quintela, a advogada que se tornou mediática por defender um afamado criminoso. As duas podem ter ligação a Coimbra, mas nenhuma delas tem defendido a região: a primeira não tem sido capaz de decidir construir uma nova maternidade e à segunda não se conhece uma opinião sobre os graves problemas locais. Que escolha pode fazer um jovem em Coimbra? Como pode ele inuenciar o futuro de um sítio onde tem tão pouco futuro devido à manifesta centralização do país? 
Era preciso uma reforma do sistema político, algo de que os partidos fogem como o diabo da cruz. Henrique Neto, que foi do PS muitos anos (saiu em 2017), descreve muito bem a circularidade do sistema, em artigo no Diário de Coimbra de 2/Setembro: “O secretário-geral escolhe os dirigentes das federações, os autarcas e os deputados da sua cor e estes elegem e protegem o secretário-geral.” Num quadro como este não admira que a corrupção e o nepotismo cresçam e, por isso, os cidadãos se alheiem. Neto dá um exemplo: “Que o próprio presidente do PS tenha toda a família e alguns amigos com empregos no Estado dá-nos uma ideia do sucesso partidário do modelo eleitoral.” Costa é um resultado perfeito do actual sistema, no qual ingressou em pequenino, e a última coisa que quer é mudá-lo. Desdenha da maioria absoluta, mas quer evidentemente comprá-la: basta ler Maquiavel para saber que o Príncipe anseia pelo poder absoluto. Por outro lado, Rio tem algumas ideias sobre a reforma do sistema político, no sentido de aproximar eleitos e eleitores, e merece crédito por isso: propõe alterar a forma de eleição dos deputados, limitar os mandatos e reduzir o número de deputados, para além de promover a ética na política. Mas está cheio de contradições e, apunhalado pelos mais próximos, não terá grande sorte. Pode não acreditar em sondagens, mas que las hay las hay
A campanha eleitoral vai ser, está a ser, mais do mesmo. Ruído e pouca pedagogia. Não mobiliza ninguém, porque já ninguém acredita nos políticos prossionais. A “geringonça” que tem sido responsável pela governação apresenta-se completamente desengonçada. O que os partidos da “geringonça” dizem uns dos outros mostra como estão fora dos gonzos. Se querem continuar a governar, deviam estar unidos no essencial e não estão. Tacticista como é, Costa encontrará uma solução qualquer, nem que tenha de criar um serviço nacional de saúde para cães e gatos. 
Merecerá o PS uma maioria absoluta, que poderá obter com 39%? Claro que não. Basta pensar, para além da degradação na Saúde, nas desilusões na Educação, na Ciência e na Cultura. Com um sistema político tão depauperado, concentrar ainda mais poder num líder e no seu séquito seria empobrecer a democracia. Não me vou abster no dia 6 de Outubro, para impedir a outra maioria absoluta, a da abstenção, que seria um mal maior para a democracia. Existem pequenos partidos, nalguns casos com propostas interessantes. Se conseguirem eleger deputados o Parlamento será mais plural e, portanto, melhor. 
Público 5 Set 19

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6.9.19

Uma Mulher de quem nos podemos orgulhar

Por Joaquim Letria
Umas crónicas atrás desafiei os meus queridos leitores a apostarem comigo se não seria a Dra. Elisa Ferreira a escolhida para o cargo de comissária europeia por Portugal. Se tivéssemos apostado, eu tinha ganho.
Não estou a gabar-me, pois mais não fiz do que confiar no que conhecia do currículo de múltipla competência de uma experiente mulher que já esteve no parlamento europeu mais de 12 anos, foi ministra por três vezes, administradora da Fundação Gulbenkian e vice-governadora do banco de Portugal, agora avaliada por uma notável presidente alemã que é formada em Medicina, mãe de 7 filhos e tem anos de Bruxelas e Estrasburgo, além de ter sido ministra de Ângela Merkel.
Conheci a Dra. Elisa Ferreira ainda ela não tinha sido ministra a convite de António Guterres que a integrou no seu governo. Convivi episodicamente com a Dra. Elisa Ferreira ao longo da sua carreira. Jamais vi nela vaidade, manobrismo, servir-se do seu partido e não ocupar um cargo sem ser por espírito de servir. Se me pedem para definir Elisa Ferreira em três palavras, só posso dizer seriedade, competência e simpatia. Uma raridade…
Escrevo hoje esta crónica não só por Elisa Ferreira merecer, mas também porque me custa ver como há políticos rasteiros que não são capazes de calar o despeito e esconder a inveja. Refiro-me a esses do mesmo do partido de Elisa Ferreira que já andam por aí a dizer que ela foi escolhida por ser mulher.
Não, meus senhores! Foi por outras coisas… foi por não se dedicar à intriga política, por não se ter sujo no governo de Sócrates, por não ter arruinado a ferrovia nem ter sido incapaz de recuperar os prejuízos dos grandes incêndios e deixar o país sem infra-estruturas que hoje o melhor ministro deste governo tenta remediar.
Elisa Ferreira é uma mulher frontal e que arrisca. Recordo-me da sua derrota digna nas eleições para a Câmara do Porto, não posso esquecer a sua voz desafiante dos poderes de Bruxelas contra as políticas de austeridade, enquanto tantos outros abanavam o chocalho ou pediam para ir para o FMI. Sinceramente, fico feliz por ver Elisa Ferreira a ser promovida por mérito a um lugar que também teve um brilhante mandato do Dr. Carlos Moedas.
Publicado no Minho Digital

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5.9.19

XISTO, UMA PEDRA, NO FALAR DAS GENTES, TRANSFORMADA EM ROCHA, NOS MANUAIS DE ENSINO.


Por A. M. Galopim de Carvalho
Antes de ser pedra, o xisto foi poeira de argila misturada, sobretudo, com quartzo pulverizado durante os processos de erosão e transporte. Levada pelos rios a caminho do mar profundo, onde foi vasa (lama) e onde, com o passar dos milhões de anos, petrificou, esta poeira transformou-se em xisto argiloso. Diga-se que, no falar dos geólogos, o termo “xisto” (do grego, xystós, fender), dito isoladamente, é ambíguo. Tem de ser precisado com o adjectivo “argiloso” porque há outros xistos que, tendo começado por ser argilosos, deixaram de o ser, na sequência de transformações no âmbito do metamorfismo. A forma lamelar (como nas micas) das minúsculas partículas argilosas determinou a fissilidade ou xistosidade desta rocha, quando o sedimento, que começou por ser, ficou sujeito a compressão. Esta característica que se revela pela aparência folheada e pela facilidade com que se deixa abrir segundo os correspondentes planos, está na base do termo brasileiro, folhelho, sinónimo do nosso xisto argiloso. 
É, sobretudo, no centro de Portugal, entre Castelo Branco e Coimbra, uma região do soco antigo marcada geologicamente pela presença significativa do Complexo Xisto-grauváquico, de idade câmbrica, que se situa a chamada Rede das de Aldeias de Xisto, que integra 27 aldeias, distribuídas por 16 concelhos.
A aldeia de Piódão, na Serra do Açor, concelho de Arganil, publicitada turisticamente como a “Aldeia Histórica de Portugal, é considerada uma das mais significativas desta relação do Homem com esta pedra e, sem dúvida, uma das mais belas do País. Com esta rocha, em tosco e de obtenção relativamente fácil, as populações rurais, desde as mais primitivas, construíram pelas suas próprias mãos, sem qualquer intervenção de engenharia ou arquitectura, muros, choças, cabanas, habitações e outras obras,
Nos dias de hoje e numa intervenção de pendor artístico, que pouco ou nada tem de rural, o xisto guindou-se a material de eleição de uma corrente arquitectónica moderna, especialmente posta em prática em vivendas. 
Um esclarecimento adicional e importante
Na verdade, a par do xisto, que deu nome sonante a estas aldeias, há sempre, mas sempre, uma outra, nunca falada, mas muito mais importante, quer em termos de solidez da pedra (mais coesa e rígida) usada nas ditas construções, quer em termos da respectiva quantidade. Essa outra pedra chama-se grauvaque, um nome que a geologia foi buscar ao alemão, “Graywacke” (termo introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Otto Lasius) que significa pedra cinzenta.
Enquanto que “xisto” é uma palavra antiga e de uso popular, em Portugal, “Grauvaque” é um jargão do foro geológico, só aqui chegado com os nossos geólogos pioneiros de finais do século XIX. Não admira, portanto, a omissão desta importante rocha nas referidas construções e no discurso a elas alusivo.
Mas o que é o grauvaque?
É umarocha sedimentar arenítica, coesa, com mais de 15% de matriz (muito fino), ocupando praticamente todos os vazios. Os grauvaques são rochas exclusivamente marinhas profundas, próprias do Paleozoico e do Precâmbrico. A sua génese está associada a um tipo particular de correntes marinhas que promovem uma alternância de deposição de materiais finos (argila e silte), de que resultam os xistos, e materiais arenosos que dão origem ao grauvaque.
Se quiser ir um pouco mais adiante, saiba que o grauvaque é um arenito impuro, de granularidade variável (de grãos finos a grosseiros), que contêm quartzo (20 a 50%), feldspatos sódicos e/ou potássicos, micas, litoclastos siliciosos, pelíticos e, muitas vezes, vulcaníticos. No cimento, além de minerais argilosos, com destaque para a ilite e a clorite, é comum a presença de carbonatos (calcite e/ou dolomite), sílica e óxidos de ferro. Da matriz faz parte uma fracção primária, sinsedimentar, e uma outra, secundária, pós deposicional, resultante de alterações de grãos minerais e líticos mais ou menos instáveis, no decurso dos processos diagenéticos tardios e metamórficos. 

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No "Correio de Lagos" de Ago 19

Faz dois meses que aqui nos insurgimos contra o vergonhoso espectáculo que, todos os anos por essa altura, o Parque de Campismo (municipal!) exibe, e que a foto da esquerda documenta. 
Há poucos dias, e porventura ao som do ‘slogan’ “mais vale tarde do que nunca”, lá substituíram três das muitas bandeiras que lá estavam. As outras, por sinal de países de cidadãos europeus que nos visitam, continuam no seu processo de degradação. 
Alguém devia explicar aos responsáveis (?!) que, se há coisa com que não se brinca, é com os símbolos nacionais. 
Mas haja quem o faça, pois nós já desistimos — é que andamos a tentar explicar isso desde 2015, pelo que o mais que podemos fazer é oferecer, do nosso bolso, o dinheiro necessário para que não nos envergonhem ainda mais.
"Correio de Lagos" de Ago 19

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O Acordo Ortográfico de 1990 (AO-90) e a incurável azia

Por C. Barroco Esperança

Quem conhece a única grande alteração e uniformização da língua portuguesa, efetuada pela Reforma Ortográfica de 1911, não devia solidarizar.se com manifestações de raiva que a perda de algumas consoantes mudas e outras alterações tímidas provocaram numa sociedade avessa à mudança, independentemente da validade dos argumentos.

O misoneísmo, palavra cunhada pelo psicologista italiano César Lombroso, esse horror à novidade, está bem entranhado nos portugueses.
A Reforma Ortográfica de 1911, a primeira iniciativa de normalização e simplificação da escrita da língua portuguesa, foi profunda em Portugal, numa altura em que o Brasil facilmente a aceitou e as colónias não participavam.
Tenho enorme consideração por muitos dos que não toleram as pequenas alterações que o AO-90 introduziu, sobretudo quando se trata de cultores da língua, de prosa imaculada na sintaxe e na ortografia que mantêm, mas vejo neles a mesma exaltação de Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoais cuja ortografia que estes defendiam repudiariam agora.
A ortografia é uma convenção imposta por lei sem sanções penais, salvo para os alunos, que se arriscam a reprovar se não escreverem como está oficialmente determinado.
Aos autores da Reforma Ortográfica de 1911, que hoje já ninguém contesta, coube-lhes pôr fim à anarquia ortográfica do país, com 80% de analfabetismo, quando os países do norte da Europa tinham entre 2% e 10%, e normalizar a ortografia. Eminentes filólogos discutiram se deviam seguir o modelo francês, fortemente dependente da etimologia, ou o espanhol e italiano, que seguiam de perto a oralidade.
Optaram por revogar falsas etimologias e, condescendendo com a origem das palavras, deram especial preferência à oralidade, caminho que embora tímido esteve presente no AO-90.
Há muito que as palavras homógrafas não são necessariamente homófonas, mas duvido que os críticos mais cultos tenham dificuldade em distinguir a fonia da que perderam os acentos e cujos exemplos caricaturais não passam disso mesmo.
Lamentável é ver as redes sociais, até jornais, com inúmeros detratores do AO-90, que explodem de raiva na mais boçal prevaricação ortográfica e ignorância de elementares conhecimentos básicos do idioma cuja ‘nova’ ortografia condenam sem respeitarem a anterior.
Definida uma grafia, que alguns julgam facultativa, depois de vários anos a ser ensinada de acordo com a lei, qualquer tentativa de regresso é o apelo à anarquia ortográfica e um rombo na estabilidade do idioma e das normas jurídicas que o definem.
Já é tempo de os jornais que cultivam o imobilismo subversor da legalidade ortográfica se submeterem.
Deixemos a Bolsonaro, esse vulto da cultura luso-brasileira, a iniciativa de revogar um acordo que exige a anuência de todos os que o celebraram.
Ponte Europa / Sorumbático

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4.9.19

No "Correio de Lagos" de Ago 19

É raro o mês em que não temos a lamentar o desaparecimento de árvores na cidade — ou porque caem ao menor sopro de vento, ou porque são cortadas sob os mais variados motivos e pretextos. No que respeita às do Parque da Cidade, que “morrem como tordos”, o caso mais frequente relaciona-se com a rega de superfície, dado que a água é absorvida pela relva, não se infiltrando na terra, o que desincentiva as raízes a crescer.

Mas, e para além das incansáveis motosserras, há outros motivos para o desastre, como aqui mostrámos, em Abril de 2017: tratava-se de um pinheiro adulto, vizinho deste, onde era visível o motivo da sua morte: raízes curtas e enrodilhadas— que é o que sucede às das árvores que estão demasiado tempo nos viveiros, em vasos que as impedem de se desenvolverem.
Desta vez, quando vimos por terra o mais belo pinheiro do Parque, ainda pensámos que talvez uma grua lhe pudesse acudir, endireitando-o, mas o que lá apareceu, dois dias depois, foi um camião-grua para levar a “lenha” — ostentando, nas portas, a divisa “Município de Lagos + Sustentável”...
Como alguém disse: «Só não vamos legar às gerações futuras um mundo sem árvores, porque, num mundo sem árvores, não haverá gerações futuras». Mas, na nossa sociedade egoísta e imediatista, quem é que se preocupa com isso?!

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1.9.19

Grande Angular - Três Museus

Por António Barreto
Há décadas que intelectuais, artistas, políticos e militares, com relevo para historiadores e geógrafos, se queixam da ausência de um Museu dos Descobrimentos. Durante anos, o tema não era controverso, “apenas” faltavam edifícios à altura, material para lá colocar, orçamento, oportunidade e, como se diz agora, vontade política. Com um programa próprio, o belo Museu da Marinha está longe de satisfazer. O Padrão não cumpre os objectivos. A maravilhosa Torre de Belém e os imponentes Jerónimos não se destinam a museu, apesar de poderem dar uma ajuda. A Casa da Cordoaria está para ali à espera. Esquerda e direita comungavam na mesma intenção. Os nacionalistas pensavam mais em padrões, pelourinhos, caravelas, expansão da fé e glórias militares. Os mais materialistas cogitavam em mercados, matérias-primas, colonização e escravatura.
Hoje, a coisa fia mais fino. Há séria polémica. Os antigos defensores da liberdade transformaram-se em polícias e inquisidores. Descobrimentos e Descobertas deixaram de ser admitidos pelos bem pensantes, em detrimento de Colonização e Escravatura. O suposto ponto de vista das vítimas substituiu o alegado ponto de vista dos opressores. O lado negro das Descobertas foi transformado em lado primordial. A existir, o Museu é cada vez mais dos Escravos e cada vez menos dos Descobrimentos.
À ideologia dominante não ocorre que esse Museu deva ser de tudo o que explica, acontece e sucede aos Descobrimentos: de Camões à ciência, do colonialismo à globalização e do comércio à escravatura. Nada deve faltar a um Museu dos Descobrimentos, que recorda, estuda e comemora as mais importantes páginas da história de Portugal e que, como as histórias de todos os países, têm os seus lados negros e violentos, à mistura com empreendimentos excepcionais. Mas há muita gente que quer condicionar o pensamento contemporâneo, dominar a cultura actual, limitar as interpretações da história, determinar o que se deve estudar e regular o modo como se deve pensar.
Uns dizem com ar sério que não se deve fazer o Museu dos Descobrimentos, mas sim o da Escravatura ou do Colonialismo. A verdade é que, se existissem os dois, teríamos um país tolerante. Se existisse só um com os dois lados da questão, teríamos um país tolerante e inteligente. Se existir um em vez do outro, teremos um país intolerante e estúpido. Se não existir nenhum, como agora, então teremos o país habitual, envergonhado e ignorante.
Outros sugerem a construção de um Memorial dedicado à escravatura. Privado, da sociedade civil, da autarquia ou do Estado, qualquer solução pode ser boa e compreensível, desde que não seja alternativa fanática. O que se tem visto por aí com Museus e Memoriais do Antifascismo, da Resistência, da Liberdade e da República, não revela bons pergaminhos. O antifascismo e o anti-racismo têm sido consagrados em Portugal como sinónimos de liberdade e de democracia, o que não é verdade.
Negar o Ciclo dos Descobrimentos ou até o termo vulgar que ficou para a história é tão prepotente quanto negar a cobiça que coexistiu com esses descobrimentos. O que os marxistas contemporâneos, os anti-racistas com programa, os intelectuais do Bloco de Esquerda, os idiotas úteis e os correctíssimos cientistas de tantas disciplinas pretendem fazer com a cultura e a história é igual ao que fizeram os anteriores beatos, fascistas e sacerdotes do poder. São igualmente facciosos, intolerantes e fanáticos.
polémica dos museus foi recentemente enriquecida por uma nova história. A do Museu Salazar ou do Estado Novo. A ideia surgiu nas cabeças de familiares, de habitantes de Santa Comba e de Vereadores do mesmo município. Não se imagina o que será, dada a ausência de objectos interessantes. A maior parte do acervo do ditador ficou nos arquivos da Presidência de Conselho de Ministros, visto o senhor confundir intimamente a sua vida com a do seu país. Tal documentação, de grande valor, habita hoje, e muito bem, a Torre do Tombo. Mas tudo parece indicar que alguns munícipes querem explorar o turismo e as fontes de interesse daquele pobre concelho. Um Vereador chegou a dizer que o Museu Salazar era importante para a “sustentabilidade e a atractividade” do concelho!
Se a ideia, o trabalho, os custos e a responsabilidade são dos familiares, não se vê razão válida para impedir esse museu, tal como pretendem tantos peticionários indignados. Se esses esforços forem da Câmara, também não se vê argumento para impedir a obra, desde que haja democracia na decisão, o que é fácil obter por intermédio da vereação e da assembleia.
Mas o mundo é como é. Na praça pública, com argumentos pobres, multiplicam-se os pedidos para proibir esse museu. Proibir o Museu Salazar, tal como ele proibiu tantos? É essa a diferença entre os dois regimes, os que ele proibiu proíbem-no agora? O Estado democrático não deve financiar o Museu Salazar, mas também não deve proibi-lo. O Estado democrático não pode tratar Salazar tal como ele tratou a democracia: proibindo-a! Nós não podemos tratar Salazar tal como ele nos tratou a nós!
O Estado democrático pode financiar museus que tenham a liberdade como valor. Tal como pode financiar instituições museológicas relativas à independência nacional, aos feitos militares, às batalhas pela independência, à luta contra os opressores estrangeiros (mouros, franceses ou espanhóis, por exemplo), aos descobrimentos, à colonização, à monarquia ou à República. Como pode organizar instituições dedicadas ao estudo de fenómenos que são hoje questionados, como a Inquisição, a expulsão de Judeus, a escravatura, o encerramento das ordens e dos mosteiros, a expulsão dos religiosos, a censura ou a polícia política. Mas não faz sentido o Estado democrático apoiar iniciativas destinadas a louvar quem oprimiu a liberdade e quem lutou contra a democracia. Assim como não faz sentido que o Estado democrático proíba os privados, as pessoas e outras comunidades de festejar o que quiserem, desde que sem apoio do Estado.
O debate público sobre a criação de novos museus é revelador do estado de espírito dos povos e da sociedade. Mas temos obrigação de conhecer um pouco melhor a tentação totalitária que espreita em cada esquina. Sabemos que os museus podem não ser neutros. Que pode haver contrabando político e ideológico em centros de interpretação. Que o patriotismo pode esconder vícios e mitos nefastos. E que em nome da liberdade também se mata, oprime e proíbe. Como sabemos que em nome de Deus e da Pátria se cometeram inúmeros crimes. Tantos quantos foram cometidos em nome do mercado e da fortuna. Ou em nome da liberdade e da igualdade!
Público, 1.9.2019

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30.8.19

No "Correio de Lagos" de Ago 19

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As Flores de Putin

Por Joaquim Letria
A Europa necessita de estadistas que a orientem e não nos envergonhem como este bando da Rosicler que diz governar a União Europeia. São guardas-livros, uns, e outros nem isso. Uns e outros foram os partidos que lá os puseram. Agora começam a chegar as meninas das quotas que sempre dão melhor aspecto e trabalham como deve ser.
Por estas e por outras é que a gente olha para o Vladimir Putin e vê ali um estadista, educado, com experiência da vida e do mundo. Vem isto a propósito da audiência do presidente Macron nos Alpes marítimos onde o presidente francês e a sua mulher descansam na residência de férias.
Putin embaraçou o protocolo ao se apresentar com um ramo de flores nas mãos. Só à chegada compreenderam que o presidente russo levava a magnífica “corbeille” para a primeira dama de França, a quem elogiou o bronze que ela e o marido apresentam dos banhos de sol no Sudoeste francês. Em Bregançon, Macron estendeu a mão à Rússia, “profundamente europeia”.
Esta audiência de quatro horas e meia em que os dois chefes de Estado fizeram o “tour d’horizon” de questões tensas, como a Síria e a Ucrânia, bem pode substituir com vantagem a reunião do G7 em Biarritz, da qual Putin está excluído. Vladimir Putin entabulou uma elegante conversa em francês que também encantou Brigitte Macron que, se não tem ajudado o marido a chegar ao Eliseu, ainda era apelidada de pedófila por se ter casado com este seu ex-aluno que conheceu quando ele tinha 15 anos de idade. Se fosse cá, a pobre senhora ouvia logo “olha a professora a dormir com alunos menores!...”.
Putin falou com Macron e há pouco tempo também fora recebido por Angela Merkl, outra figura de estadista que honra a Europa de que temos saudades. É bonito ver que ainda há figuras notáveis na nossa velha Europa. Do mal, o menos…
Publicado no Minho Digital

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29.8.19

No "Correio de Lagos" de Ago 19

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