6.7.20

No "Correio de Lagos" de Jun 20

Já aqui temos referido que Lagos não está muito bem servida de carregadores para veículos eléctricos, pelo que se saúda vivamente a instalação deste, de 22 kVA. Segundo nos informou a UVE (Associação de Utilizadores de Veículos Eléctricos), trata-se do Posto LGS-0005 e faz parte de um programa nacional de instalação de carregadores semelhantes, em todos os municípios nacionais. 
Normalmente, a sinalização vertical (que aqui existe) é complementada por outra, horizontal (pintura no solo, de cor azul, contendo o logótipo de VE em tinta branca). Mas isso não será o mais importante, pois o posto já figura em todos os “electro-maps”. O importante é a informação da UVE segundo a qual, não havendo cancela no parque de estacionamento (como é o caso), este é gratuito desde que o carro esteja a carregar.

Etiquetas: ,

5.7.20

Grande Angular - Os valores sumiram

Por António Barreto
Classicamente, a ideia era “cherchez la femme”. Hoje, já não é assim. Mesmo nos casos em que se sabe que “la femme” anda por ali, essa não é a questão. O verdadeiro problema é “onde está o dinheiro?”. Assim mesmo. Dito à bruta. Como nos barbeiros, nas redes sociais e nos táxis. “Onde está o nosso dinheirinho”? Em geral, não há resposta. Quem a poderia dar, empresários, governantes e jornalistas, não querem saber, escondem, têm medo de perguntar, receiam desvendar… E os contribuintes são inundados de expressões malditas: vamos investigar “até às últimas consequências”, “doa a quem doer”. Depois, segue-se o silêncio. Ou a confusão criada pelos novos enigmas dos “activos”, das “mais valias” e das “perdas de valor”. Assim se criou um dos mais opacos universos que se imagina.
Verdade é que não percebemos o que se passa. Há poucas pessoas que nos expliquem com honestidade e clareza. Não há muitos jornalistas que perguntem nem investigadores capazes de esclarecer os “problemas sistémicos” e o “enquadramento”. O universo político financeiro é o mais espesso e o mais censurado que se conhece.
Ainda por cima, quem se envolve nestas questões tem marca. Envolvimento de interesses. Simpatia partidária. Dependência económica e publicitária. Hipoteca ideológica. Se, em muitas matérias de interesse colectivo, é possível encontrar quem preste o serviço de explicar, nestes assuntos financeiros, com ramificações políticas, pessoas nessas condições são quase inexistentes. Quem se aventura a explicar bem, entre outros, o BES, o BPN, a PT, a EDP, a TAP, o BANIF, a REN e o MONTEPIO, assim como as PPP, sabe que, algures, podem ser pesadas as represálias no emprego, na publicidade e na informação.
Vivemos em sociedade muito divida, mais do que parece à primeira vista. As ideias do “caldeirão central” e do “consenso” são geralmente falsas. Quem tem opinião sobre os bancos e as empresas, sobre os negócios dos privados e do Estado, tem uma visão previsível. E os partidos não ajudam muito. À direita, gostam de justicialismo, mas sentem que têm telhados de vidro. À esquerda, está-se sempre pronto a condenar os privados, a fim de desculpar os políticos. À direita, a regra que tudo define é a empresa privada, à esquerda é a nacionalização e o Estado. Qualquer plano de esquerda começa e acaba sempre com a nacionalização. Nos caos mais duros, próprios ao BE e ao PCP, a inspiração é mais radical: liquidar a empresa privada. Em contraste, qualquer plano de direita para a economia e os serviços vive da empresa privada, com recurso ao Estado para os prejuízos, as contingências e os imponderáveis. 
Quem ganhou e quem perdeu com a gestão pública da TAP, seguida da privatização manhosa, corrigida de modo a que não ficasse só pública, nem só privada? Quem ganhou com as centenas de milhões que circularam em poucos anos com estas operações?
Quem ganhou e quem perdeu com a gestão do BPN? Por que se decidiu que a sua falência teria problemas sistémicos? Qual foi a vantagem da nacionalização se o banco acabou no que acabou, com milhares de milhões a pagar pelos contribuintes? Como se perdeu valor com o BPN? Quem roubou no BPN? Onde está o dinheiro? Sumiu?
Quem ganhou e quem perdeu com o BES, com este que parece ser o maior golpe sórdido da história da economia e das finanças portuguesas, onde está o valor destruído, o valor perdido, o valor desviado e o valor açambarcado? Desapareceu?
Quem ganhou e quem perdeu com a destruição da PT, uma das melhores empresas portuguesas, mais enérgica, com mais capacidade de inovação e projecção externa? É verdade que muito cedo se verificou uma tendência para empregar consultores familiares de políticos, parentes de empresários e associados a banqueiros, o que não ajuda muito ao escrutínio… Mas era, apesar de tudo, uma das raras realizações empresariais portuguesas dignas de nota e mérito. Era…
Quem ganhou e quem perdeu com a transformação da EDP naquela que será talvez a maior e mais poderosa empresa portuguesa, agora chinesa, recheada de rendas de Estado, amiga de políticos, empregadora de celebridades de esquerda e de direita, com uma especial experiência no mercado de influências?
Como é possível que as histórias destas empresas sejam contadas com ardil: por gente de esquerda que detesta a propriedade privada e geme de amor pela gestão pública; ou por gente de direita que procura desculpas para qualquer gesto de protecção do lucro privado a que preço for. Como é possível que seja tão difícil encontrar quem, com espírito independente e sem preconceito comunista ou capitalista, se dedique a estudar e a contar estas histórias?
Alguns dos poucos livros interessantes sobre os “negócios” da nacionalização e da reprivatização são escritos por militantes de esquerda que odeiam a iniciativa privada e o mercado. Os poucos livros interessantes sobre estes negócios escritos por autores que aceitam a propriedade privada têm o triste condão de serem herméticos, tecnocratas e esconderem parte da verdade, justamente a mais sumarenta.
Portugal perdeu décadas com a ditadura. Com a guerra colonial, perdeu quinze anos e quase uma dezena de milhares de vidas. Com as nacionalizações, Portugal perdeu tempo e riqueza. Com as privatizações e as reprivatizações, Portugal perdeu mais tempo e valor. Quanto dinheiro e quantas pessoas se perderam para prolongar a guerra em África? Quantas vidas se perderam para descolonizar da maneira que se fez? Quanto dinheiro e quanta riqueza os Portugueses perderam para nacionalizar e reprivatizar? A TAP faz parte desta história de desastres, é uma saga, um folhetim, uma telenovela…
Em quase todos os negócios importantes realizados em Portugal nas últimas décadas e envolvendo grandes projectos, fusões de empresas, nacionalizações e reprivatizações, Portugal ficou a perder alguma coisa e os Portugueses ficaram a perder muito. Conhecem-se alguns casos, muito poucos, de grandes investimentos ou transacções que resultaram e os contribuintes, os accionistas e os trabalhadores ficaram a ganhar, mas são tão poucos! Na maior parte dos casos, os contribuintes ficaram a perder.
A saga da TAP é um bom exemplo da promiscuidade de interesses, da fraqueza negocial de Portugal e da debilidade das instituições com a missão de fiscalizar e avaliar. Assim como do pensamento dogmático em vigor, à esquerda como à direita, relativamente aos grandes problemas nacionais. Haverá certamente alguém que, um dia, fará a história verdadeira da TAP, mas será seguramente tarde de mais! Até esse dia, teremos de viver com este mito e este nó cego.
Público, 5.7.2020

Etiquetas:

4.7.20

No "Correio de Lagos" de Jun 20

No decorrer das últimas semanas, as passadeiras para peões têm sido objecto de uma intervenção generalizada, tendo em conta, nomeadamente, as necessidades das pessoas com dificuldades de visão e de locomoção. Sendo essa, também, uma das nossas grandes preocupações, estaremos atentos ao desenrolar dos trabalhos, pois esperamos que, numa fase posterior, sejam intervencionados os passeios — referimo-nos aos que estão em mau estado, aos que têm largura insuficiente e aos que estão permanentemente obstruídos com carros, mesmo em zonas onde não escasseiam lugares gratuitos.

Etiquetas: ,

3.7.20

Eu não dizia?

Por Joaquim Letria
Recordam-se de eu aqui pôr em causa aquelas declarações optimistas de que no fim da pandemia íamos todos ser bonzinhos uns para os outros? Bom, ainda estamos infelizmente longe do fim desta praga e reparem já nas asneiras que andamos a fazer sem respeito pelos outros nem pela respectiva segurança.
Só para não perdermos mais tempo vou aqui enumerar apenas alguns episódios demonstrativos do que acabo de dizer. Em Carcavelos, no Concelho de Cascais, mais de mil jovens tiveram de ser retirados do areal da respectiva praia onde bebiam, dançavam e escutavam juntos música que eles próprios faziam ouvir. Na zona das docas, em Lisboa, a PSP teve também de intervir para dispersar uma multidão de centenas de pessoas que ali organizavam a sua festa. Em várias praias da Arrábida, em Setúbal, novos exemplos.
No Campo da Carrasqueira, em Braga, a polícia também teve de dispersar mais de 200 pessoas. No vizinho Campo das Hortas igualmente teve de haver intervenção policial pelos mesmos motivos. No Porto, na Cordoaria, centenas de pessoas festejavam num ajuntamento. Vila de Conde também assistiu a idênticas manifestações irresponsáveis. Em Odiáxere, no Concelho de Lagos, no Algarve, uma festa no Salão Nobre do Clube Desportivo de Odiáxere já teve como resultado mais de 100 pessoas infectadas. A Direcção do Clube pede humildemente desculpa pelo sucedido, alega que foi enganada pelos organizadores, que alugaram o salão para uma festa de aniversário de 20 pessoas (limite máximo autorizado por lei) e que assistiu à invasão de mais de uma centena de pessoas. Diga-se, em abono da verdade, que foi a própria Direcção do Clube que chamou as autoridades para acabarem com a festa.
No meio disto tudo vemos o Presidente da República, o da Assembleia da República, os ministros da Educação e da Saúde e o presidente da Câmara de Lisboa baterem os pezinhos de contentes por irmos ser os senhorios da fase final da Champions. O chefe do Governo convida-nos a passear na Baixa de Lisboa como nunca a vimos e a fazermos compras.
Eu só pergunto onde a pandemia e nós vamos parar, com milhares de fanáticos a acompanharem as oito equipas que vêm jogar em Lisboa, mesmo que não lhes abram os estádios como já começam a dizer que pode bem acontecer. Será que esta gente não viu o que sucedeu em Nápoles, após a final da Taça de Itália, com milhares de “tiffosi” que só tinham visto o jogo pela televisão? E cá não vai acontecer a mesma coisa com os milhares de fanáticos desembestados sem controle a saírem dos aeroportos?
Sinceramente que não sei o que mais dizer, depois de me explicarem que a PSP não é repressiva, que se limita a ser didáctica. Nem uma multazinha, já que ninguém vai passar a noite no xilindró? Deus nos proteja, juntamente com os médicos, enfermeiras e técnicos de saúde que são os únicos em quem podemos confiar.
Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

2.7.20

Notas Soltas

Por C. B. Esperança
EUA – A morte do negro, George Floyd, por polícias de Minneapolis, foi a repetição da crueldade policial no caldo de cultura de um país incapaz de lidar com as diferenças. Trump, com insensibilidade e racismo, acirrou a violência das manifestações.

Portugal – A banalização da tortura e assassinato do negro G. Floyd terá levado o MP a não recorrer da ausência de prisão efetiva para qualquer dos 18 agentes da esquadra de Alfragide, acusados de racismo e tortura, e o deputado fascista a justificar a violência?

Brasil – Tudo o que podia correr mal, correu efetivamente mal e da pior maneira (lei de Murphy), e os brasileiros não mereciam que a incompetência, corrupção e cretinismo do PR atingissem grau tão elevado, nem que o seu Governo fosse tão nocivo.

Donald Trump – A péssima atuação na pandemia e política externa e a leviandade com que reagiu aos protestos e à violência, surgidos após o assassinato de George Floyd, não o derrotam. Ganhou as eleições com menos 3 milhões de votos do que Hillary Clinton.

Turquia – A perseguição à oposição autárquica e parlamentar aumenta. O Parlamento expulsou três deputados da oposição, dois da esquerda kurda e um social-democrata, condenados por terrorismo e divulgação de segredos, habitual, logo detidos pela polícia.

Guerra fria – Repete-se novo ciclo de terror entre as duas superpotências que disputam a hegemonia, EUA e China, num imparável duelo comercial que pode passar da guerra fria à luta armada, onde se confrontam um ditador absoluto e um absoluto irresponsável.

Olof Palme – Defensor dos direitos humanos, dos sindicatos, sistema de saúde público, cuidados infantis, segurança social e habitação, foi assassinado há 34 anos. Identificado o falecido assassino do PM sueco, terminou o mistério e ficou impune o homicida do saudoso social-democrata.

10 de Junho – A surpresa foi Tolentino Mendonça, português da diáspora, cardeal, que no seu discurso inclusivo cerziu uma notável peça literária, imaculada na forma, rica na substância, à altura do cidadão humanista, democrata e cosmopolita.

RTP-1 – A entrevista a Sérgio Moro, político venal que usou o cargo de juiz para fazer escutas ilegais, conspirar contra a democracia, combater o PT, que odiava, e prender Lula, que temia, foi a afronta à decência, frete ao corrupto e propaganda a quem não foi contraditado.

Mário Centeno – Visto pela revista The Banker, suplemento do Finantial Times, como o melhor ministro das Finanças da Europa, em 2019, houve, na AR, a tentativa tosca de uma lei ‘ad hominem’ para impedir o melhor candidato de ser Governador do BP.

Durão Barroso – Participou em 2003 na cimeira das Lajes onde se decidiu a invasão do Iraque. Admitiu este mês que, se fosse hoje, não tomaria a mesma decisão. Demorou 17 anos a reconhecer o crime e ainda convencido de que a sua decisão foi relevante.  

COVID-19 – As manifestações de imprudência e de verdadeiro desafio às advertências das autoridades de saúde põem em perigo os prevaricadores, sabotam as medidas sanitárias e são um crime contra quem acaba contagiado devido à incúria e leviandade.

El País – O mais influente diário ibérico tem novo diretor, Javier Moreno, substituindo Soledad Gallego-Díaz. Com o predomínio de jornais de direita, o regresso do ex-diretor, que o deslocara do centro-esquerda para a direita, é um erro, mas o capital não dispensa a opção que lhe convém.

Vandalismo – Um pouco por todo o mundo, sob o pretexto da luta contra o racismo, já se derrubaram e mutilaram estátuas, algumas de grande valor patrimonial, numa onda de destruição gratuita que revela ignorância, insensibilidade e banditismo.

Pandemia – O coronavírus está “em aceleração” e “o mundo encontra-se numa nova e perigosa fase”, adverte o diretor-geral da OMS, porque «o vírus continua a propagar-se rapidamente, continua mortal e a maioria das pessoas suscetíveis à infeção”.

União Europeia – Apesar das resistências de alguns países à solidariedade que devem a países com economias mais débeis, ganha consistência a certeza de que a sobrevivência está na unidade e a Sr.ª Merkel tem sido a voz mais poderosa e lúcida dessa convicção.

Guiné-Bissau – A agravar a situação de um espaço tribal, empobrecido e flagelado pela droga, insegurança e corrupção, onde a falência do Estado é total, a COVID-19 encontra aí populações indefesas para uma das suas maiores devastações.

Inovação – Portugal passou de país moderadamente inovador para o dos “inovadores fortes”, no relatório European Innovation Scoreboard (EIS). A avaliação de 27 indicadores colocou o país numa posição de destaque, resultante do desempenho na área da inovação.

Israel – Indiferente aos apelos da ONU, o plano de anexação da Cisjordânia é mais um fator de perturbação no Médio Oriente e um obstáculo à paz. O nacionalismo teocrático viola o direito internacional e inviabiliza impunemente o Estado da Palestina. 

ONU – David Beasley, diretor executivo do Programa Mundial de Alimentação, avisou que o impacto económico da pandemia pode duplicar o número de pessoas que sofrem com a fome no mundo. E não se vislumbram medidas que atenuem as desigualdades.

Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) - O bispo José Ornelas, eleito presidente da CEP, foi uma vitória da ala liberal. A sua afirmação, “Não veria mal a possibilidade de termos padres casados dentro da nossa Igreja.”, rompe com o habitual conservadorismo.

França – A onda verde da segunda volta das eleições municipais foi a melhor novidade das eleições marcadas por uma abstenção sem precedentes. Candidaturas de esquerda e, sobretudo, ecologistas conquistaram a presidência dos principais municípios. 

Etiquetas:

30.6.20

No "Correio de Lagos" de Jun 20

Etiquetas: ,

O PORTUGAL QUE AINDA SOMOS

Por A. M. Galopim de Carvalho
A propósito do momento político que estamos a viver pergunto: como é que a democracia consente o crescimento de um poder que a irá destruir? O protagonismo que, em especial, as televisões estão a dar ao partido neonazi (a cumprir muito bem o seu papel) está a dar-lhe, precisamente, o que ele pretende: - crescer.
A resposta só pode ser uma: elevar o nível cultural e civilizacional dos cidadãos.
“Fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz”, está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos.

Basta ler os textos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. A verdade é que continuamos a ser um povo em que ainda são muitos os desinteressados pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e outro venenos, e em que muitos militantes e a maioria dos simpatizantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias. Basta, aquando dos congressos partidários, estar à entrada e entrevistar os participantes que vão chegando.

A Revolução de Abril, escancarou as portas, os portões e as janelas ao conhecimento dos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas a grande maioria do povo (a maioria que dá vitórias em eleições) continua a viver de costas voltadas para estes valores, entretida com futebol e três televisões que nos entram portas adentro, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós, que “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da incultura em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo. É de justiça dizer que não é o que se passa com a RTP2, com propostas muito louváveis, mas que, infelizmente, não conseguem captar audiências.
Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que “a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja “munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”, a verdade é que, com as sempre existentes, mas raras excepções, são muitos os rapazes e as raparigas, que pouco ou nada leram, que chegam à universidade, falhos de todas as culturas, sem saberem escrever português.
Entre os objectivos da referida escolaridade pretende-se que o jovem, cumprida a escolaridade obrigatória, “seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”, mas basta ver a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para constatar a falência deste nobre propósito.
Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a “colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”. Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem.
Ninguém da geração dos homens e mulheres com mais de 60 anos duvida que a revolução iniciada com o 25 de Abril nos trouxe grandes progressos materiais e sociais, por demais apontados pelos profissionais do comentário e das análise políticas, aos quais não pretendo acrescentar nada que eles não saibam. Mas há um sector para o qual basta estar atento para se ter opinião. Pouco ou nada mudámos nas mentalidades.
Vimos um vislumbre de um real propósito de elevação do nível cultural dos portugueses no fugaz e efémero programa da 5ª Divisão de Estado-Maior-General das Forças Armadas, logo após a Revolução dos Cravos, chefiada pelo saudoso primeiro-tenente médico Ramiro Correia, mas não vimos nada que se lhe comparasse em nenhum dos governos constitucionais destes quarenta e quatro anos de democracia. À semelhança do sempre esquecido mundo rural, as nossas cidades têm, ainda, uma lamentável percentagem de analfabetos funcionais, a par de uma classe média a que a escola deu diplomas mas não deu cultura nem o gosto pelo saber, marcada pela iliteracia de quase tudo, alienada, como disse atrás, pelo futebol e pelos programas televisivos de entretenimento que nos impõem e nos entram pela casa dentro a toda a hora.
Com um povo assim, não admira assistir ao crescimento, ou melhor, ao reaparecimento da extrema direita, a mesma que matou a democracia e nos privou da liberdade e nos manteve em pobreza nos quarenta anos do Estado Novo. Basta pensar em Trump e Bolsonaro para ver como é que um povo inculto se deixa arrastar por populismos e tudo o que eles escondem.
A classe política, particularmente interessada nas lutas pelo poder, esqueceu de facultar, aos cidadãos, cultura civilizacional e humanística, Assim, continuamos a ser o mesmo povo que, embora materialmente mais avançado, permanece maioritariamente alheado dos valores da democracia e do conhecimento científico e cultural, o mesmo povo que a minha geração viu encher Praças, como a do Comércio, em Lisboa, ou a da Liberdade, no Porto, com vivas a Salazar.
Termino com outra pergunta: como é que, em democracia. um partido antidemocrático, que, todos sabemos, nega a liberdade, pode crescer e, até, conquistar o poder? Foi o que aconteceu na Alemanha, em 1933

Etiquetas:

29.6.20

REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DA GEOLOGIA NO BÁSICO E NO SECUNDÁRIO

Por A. M. Galopim de Carvalho
Mesmo durante os 40 anos em que ensinei nas licenciaturas em Geologia, na Faculdade de Ciências de Lisboa e nas Universidade do Algarve e dos Açores, e na licenciatura em Geografia na Faculdade de Letras de Lisboa, nunca deixei de estar muito próximo das nossas escolas, agora ditas do básico e do secundário. Quer como orientador de estágios pedagógicos, anos a fio, quer proferindo palestras e dando aulas, a convite dos professores, por todo o País, de Norte a Sul, nas Ilhas e, até, em Macau. Continuo a fazê-lo por dever cívico, independente de tutelas, pelo que me sinto capacitado para partilhar com os leitores as reflexões que aqui deixo à atenção dos interessados.
Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior da Geologia estão ao nível dos que caracterizam os países mais avançados, é confrangedor assistir à iliteracia neste domínio do conhecimento da quase totalidade dos portugueses, incluindo os das classes sociais ditas cultas, e constatar a pouquíssima importância, nos ensinos básico e secundário, deste mesmo domínio científico, essencial como motor de desenvolvimento, mas também como componente da formação cultural do cidadão.
De há muito que venho alertando, em textos escritos e em conversas públicas, para a pouca importância dada ao ensino da Geologia nas nossas escolas dos ensinos básico e secundário. Isto porque, em minha opinião, quem decide sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, parece desconhecer que a geologia e as tecnologias com ela relacionadas estão entre os principais pilares sobre os quais assentam a sociedade moderna, o progresso social e o bem-estar da humanidade. 
As minhas repetidas e insistentes diligências junto dos sucessivos governantes, no sentido de inverter esta deplorável situação, nunca surtiu efeito, o que é desesperante e lamentável.
Exceptuando aqueles que, por formação académica e profissional, possuem os indispensáveis conhecimentos deste interessante e útil ramo da ciência, a generalidade dos nossos ministros, secretários de estado e deputados não conhecem nem a natureza, nem a história do chão que pisam e no qual assentam as fundações dos edifícios onde vivem e trabalham. Uns mais, outros menos, sabem o que neste território se passou desde a fundação da nacionalidade, centenas de anos atrás, mas muitíssimo pouco ou nada, sobre os milhões de anos de história deste torrão que é o nosso. 
Não sabem que o lioz, ou seja, a pedra calcária usada na cantaria e na estatuária de Lisboa e arredores, nasceu num mar que aqui existiu há cerca de 95 milhões de anos, um mar muito pouco profundo e de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Não sabem que o basalto das velhas calçadas da capital brotou, como lava incandescente, de vulcões que aqui extrudiram há uns 70 milhões de anos, nem que o granito, a pedra que integra o belo barroco da cidade invicta, tem centenas de milhões de anos. Não imaginam que o Tejo já desaguou mais a Sul, por uma série de canais entrançados, numa larga planura entre a Caparica e a Aldeia do Meco. Não sabem que a serra de Sintra é o que resta de uma montanha bem mais imponente e ignoram que, por pouco, não rebentou ali, há uns 85 milhões de anos, um grande vulcão. 
Sou levado a pensar, e não estou só nesta ideia, que grande parte da confrangedora situação que caracteriza o ensino da Geologia em Portugal radica, precisamente, no conjunto dos que, pedagogicamente têm assessorado o Ministério da Educação neste domínio. Nunca conheci nenhum destes elementos, mas é a eles e, também, necessariamente, a quem lhes foi dando posse, que se deve este estado de coisas que, oiço dizer, não é exclusivo da disciplina pela qual me venho batendo há décadas.
É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si meia dúzia de professores desta disciplina capazes de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino desta área curricular, a começar nos programas, passando pelos livros e outros manuais escolares, pela formulação dos questionários nos chamados pontos de exame e, a terminar, na conveniente formação dos respectivos professores.
A imagem que aqui mostro (capa de uma publicação do Gabinete de Avaliação Educacional, do Ministério da Educação) confirma o que ando a dizer há anos: Mercê dos programas, dos manuais usados, das orientações superiores e do tipo de exames, os professores, em vez de poderem ensinar e formar cidadãos, são levados a "amestrar" os alunos a acertar nas questões que lhes são colocadas nos exames. É bom para as estatísticas, mas é mau para os alunos e para o País

Etiquetas:

28.6.20

Grande Angular - Corrupção e democracia

Por António Barreto
Notícias recentes, quase em sequência, marcaram a retoma gradual de actividade na área da Justiça. Depois de uma espécie de hibernação misteriosa, os processos relativos ao BES, a Sócrates, à EDP, às Parcerias Público Privadas e a outros temas delicados deram sinais de vida. Ainda nos encontramos em fase de intensidade processual, de recursos, de diligências de recusa e de manobras de diversão, mas houve movimento, o que de imediato se saúda.
Directa ou indirectamente, estão em causa aspectos essenciais da vida portuguesa: a corrupção, o nepotismo, o tráfico de influências e o favoritismo. São problemas fáceis de avaliar: todos são contra. Quando aprofundamos um pouco, damo-nos conta de que quase todos são contra os pecados dos outros! Os dos próprios, simplesmente, não são pecados. A corrupção do adversário é péssima, a do aliado tem explicação. O nepotismo dos rivais é condenável, o dos amigos tem justificação. O tráfico de influências dos concorrentes é detestável, o dos correligionários é confiança política.
O pior de tudo é a banalização da corrupção. A normalidade do nepotismo. A democratização do tráfico de influências. Por outras palavras, o que se faz não é corrupção, não é nepotismo, nem é tráfico de influências. Terá outros nomes: eficácia, confiança política, prontidão, proximidade, justa recompensa e até direito legítimo. Mas, muitas vezes, não são. Trata-se de eufemismos destinados a encobrir realidades bem mais sórdidas.
Ora, é esta normalidade que está na origem e na perenidade da corrupção habitual e da justiça impotente. É, por exemplo, uma tradição consolidada: o uso do poder político para fazer e desfazer empresas ou fortunas, obter concessões e autorizações, proporcionar empréstimos e alimentar grupos económicos!
A democracia encontrou uma fórmula consagrada, “é o poder político que manda no poder económico”. “O primado do poder político” faz com que se admita um poder político discricionário relativamente ao poder económico. Ou ao poder social ou cultural, se é que tais entidades existem. O “primado do poder político” poderia entender-se como o “primado do soberano”, ou da decisão do povo, mas não como o primado funcionários, deputados ou membros do governo. Na verdade, o primado do soberano não é a mesma coisa do que o primado do burocrata executivo.
Em ditadura ou em democracia, com economia de mercado ou sob dirigismo estatal, os procedimentos informais, a meio caminho entre o nepotismo e a corrupção, sempre informaram a sociedade e a política portuguesas. Nunca ou raramente a justiça foi intolerante, quase sempre a religião foi condescendente e jamais a política condenou tais comportamentos. As famílias e as profissões também não. Os adversários deste sistema, que os há, são tantas vezes impotentes! E os progressos, por vezes reais, tão lentos!
Absolutistas e liberais; monárquicos e republicanos; católicos e maçónicos; democratas e socialistas; fascistas e comunistas; todos aceitaram regras ocultas de base. Primeira: é o poder político que define, alimenta e protege o poder económico. Segunda: o trânsito entre o poder político e o poder económico é fácil. Terceira: um partido político vencedor de eleições tem o direito de recorrer à “confiança política”, a fim de proceder a nomeações, conceder autorizações e tomar iniciativas de investimentos. Quarta: os processos de corrupção e nepotismo têm desculpa, se for para o “bem comum”, como sejam a criação de emprego, a promoção de minorias e a protecção do sistema político.
poder político tem usado todos os dispositivos imagináveis: roubo, esbulho, expropriação sem indemnização ou com esta calculada pelas autoridades… Alvarás, autorizações, licenças para criação de empresa, ocupação de posição no mercado, protecção da concorrência, “condicionamento” industrial, financiamentos bonificados e fixação de margens: todos estes mecanismos elaborados para conter o mercado, regular a concorrência, evitar as falências ou os desastres económicos, tiveram como resultado favorecer grupos do poder económico e interesses de titulares de poder político. O “cambão” empresarial e a “confiança política” são as duas grandes chagas da sociedade, da economia e da política.
Os últimos anos, talvez duas ou três décadas, têm assistido a algumas iniciativas (leis, instituições, regras europeias…) no sentido de “moralizar” os ímpetos, mas nunca erradicaram as tradições que criaram o Estado fazedor de poder económico, nem o poder político de “confiança”. A categoria espanhola dita dos “amigos políticos” é exactamente isso, a “confiança política”. Só que em Portugal a “confiança política” figura explicitamente nas regras e na tradição.
Mais do que o interesse imediato ou a ambição, mais do que o bairrismo dos vizinhos ou a parceria dos cúmplices, há um espírito e um clima que inspiram comportamentos perante os quais soçobra a lei. Os ricos pensam que tudo lhes é permitido, por serem ricos. As “pessoas bem” acham que devem ter o que querem, porque é assim. Os militantes dos partidos, sobretudo os que ganham eleições, entendem que a democracia é isso mesmo, uma distribuição de despojos. Os sindicalistas crêem que a democracia foi feita para os trabalhadores, o que se deve traduzir em vantagens. Os católicos aceitam que o povo de Deus deve receber os devidos benefícios, porque é natural que assim seja. Os maçons não têm Deus nem Mestre, mas devem ter privilégios, porque deles é a virtude cívica. A esquerda entende que a política deve comandar a economia. A direita não acha errado que a política se possa submeter à economia.
É este espírito que faz com que seja natural que os seus ajudem os seus. Que as tribos e as comunidades tenham a sua força. Jovens, mulheres, negros, velhos, doentes, trabalhadores, minorias e cultos acreditam piamente que todas as medidas e todos os gestos que desfaçam desigualdades e que promovam antigos oprimidos e explorados têm absoluto fundamento.
O problema é ter a certeza de que, quando não houver tribos nem comunidades, quando não houver pessoas do mesmo grupo ou com a mesma crença, quando só houver gente da mesma condição, quando tivermos a igualdade total, nessa altura, estaremos a viver em plena ditadura totalitária. E teremos uma sociedade sem corrupção. E sem liberdade.
Público, 28.6.2020

Etiquetas:

27.6.20

«É a Economia, estúpido!» (*)

EMBORA a C. M. de Lagos tenha decidido que os parques infantis e biossaudáveis deviam encerrar para evitar a propagação do Coronavírus, o certo é que os três do Parque da Cidade se mantiveram escancarados até ao dia 6 de Maio, como aqui se referiu no mês passado. 

Como se não bastasse terem decorrido sete longas semanas desde a declaração do Estado de Emergência até que fossem colocadas fitas dissuasoras, ainda foi possível assistir à sua remoção por grupos de ADULTOS, que se permitiram fazê-lo ostensivamente! 

A partir daí, a situação foi-se sempre degradando, com os parques a serem utilizados como se não estivéssemos até em Estado de Calamidade — tudo facilitado pelo facto de, já há anos, terem sido quebrados os fechos das portas dos parques infantis.

.
INDIVÍDUOS como esses costumam argumentar que “morre mais gente de gripe sazonal” do que de Covid-19. Talvez não saibam que existem 7 coronavírus, 4 benignos e 3 letais. O da gripe sazonal faz parte dos primeiros, e para ele já existe vacina; ao invés, o da Covid-19 (o SARS-CoV-2) é um dos segundos, pelo que é incorrecto, quando não mesmo desonesto, considerar que se equivalem, não só em termos de SAÚDE, como de ECONOMIA.
.
IMAGINE-SE, p. ex., uma fábrica que faz parte de um “cluster” industrial, e onde aparecem uns quantos trabalhadores com gripe sazonal. O que sucede? Simples: irão para casa e voltarão quando estiverem recuperados; mas, entretanto, a actividade da empresa prosseguirá. E se, por qualquer motivo, um deles morrer? Bem... certamente, alguns colegas irão ao funeral e haverá uma referência no obituário da casa; mas, também nesse caso, a produção não deverá sofrer interrupções de maior.
Imagine-se agora que, em vez de uns quantos trabalhadores com a gripe sazonal havia um — e apenas um! — que morria com Covid-19.
Ah!, nesse caso, tudo seria bem diferente pois, como a doença só se manifesta ao fim de alguns dias, seria altamente provável que ele tivesse, entretanto, desencadeado uma cadeia de contaminações, e não apenas no seu local de trabalho; e então, com os testes e quarentenas que se seguiriam, tudo ficaria de pantanas, afectando inclusivamente a empresa-mãe, mesmo que nela não tivesse havido um único infectado.
.
TODOS sabemos que esse exemplo não é ficção. Mas então como se explica o referido estado-de-negação relativamente ao flagelo com que o mundo está confrontado?
As explicações são várias: antes de mais, existe a ideia generalizada de que a doença só é perigosa para os velhos; depois, surgiu uma barragem de “fake news” (com origem e motivações bem conhecidas), intimamente relacionada com o facto de a situação obrigar a uma escolha POLÍTICA entre SAÚDE e ECONOMIA — uma quadratura-do-círculo onde todos os países esbarram, pois sem saúde a economia fica fragilizada, e sem uma economia saudável não haverá dinheiro para a saúde. E isso tem levado muito boa gente a um estado de esquizofrenia, como quando, no dia 16 de Maio, António Costa apelou para que se saísse à rua, enquanto, no dia seguinte, uma resolução do seu Conselho de Ministros dizia exactamente o contrário! 
.
À DATA em que escrevo, a zona de Lisboa e Vale do Tejo debate-se com um inesperado surto de Covid-19 que se traduz em centenas de novos casos por dia. Pelo contrário, Lagos continua a ser poupada, uma realidade que para nós não tem preço, pelo que há que a preservar a todo o custo, evitando facilitismos tontos, pois o perigo continua à espreita, não faltando quem queira vir para cá — menos por amor à nossa terra do que para usufruir das vantagens de um “porto seguro” que, até agora, Lagos tem sido.
-
(*) – Frase criada por James Carville, o estratega da campanha de Bill Clinton nas eleições de 1992 contra George Bush (pai).
____

C. Medina Ribeiro
“Correio de Lagos” de Jun 20

Etiquetas: ,

26.6.20

UMA AULA MAGISTRAL

Por Joaquim Letria
Marcelo Rebelo de Sousa deu uma aula sobre cidadania na actual Telescola, transmitida pela RTP. Tal como um aluno diligente assisti à aula do Chefe do Estado. E gostei muito. Pelo conteúdo da mensagem, pela forma de apresentação e pelo que este simples gesto encerra. Foi uma aula magistral.
Aprendi alguma coisa nova? Talvez não, mas arrumei ideias, confirmei juízos e apreciei a atitude do Presidente da República ao se disponibilizar a colaborar numa aula para os portugueses mais jovens e para aqueloutros, como eu, que admirando-o fizeram questão de assistir. https://www.youtube.com/watch?v=BptdR-W893o
Como se poderia esperar, surgiram logo os críticos a dizer mal. Natural. E o que é que eles dizem? Antes de mais que Marcelo nem a Telescola desdenha para fazer a sua campanha eleitoral. Depois, que os jovens alunos, coitados, tiveram de aturar o Presidente a falar de coisas fora do currículo das disciplinas que ali estudam por aquele meio de ensino à distância. E disseram mais umas coisas que o bom senso e a boa educação aconselham a não reproduzir. Imagino o chorrilho das redes sociais… 
Que mais posso eu acrescentar? Bom, para começar que Marcelo falou, dum modo muito interessante, da vida, das dificuldades e das experiências de vida que os mais jovens estão a ganhar para toda a sua existência ao viverem os tempos difíceis que atravessamos sem fim à vista e, perante tal realidade qual o espírito e o comportamento que os deve marcar. Coisas de que muitas vezes pais e professores se esquecem de falar.
Marcelo não fez campanha, foi didáctico e interessante, como de resto sempre foi na sua vida de Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. E comunicar também nunca foi um problema para ele, como nos podemos recordar dos seus comentários durante anos na TV.
Houve ainda quem dissesse que a experiência da Telescola actual vai tão mal que teve de recorrer à ajuda de Marcelo neste acto de propaganda. Nada mais falso: o êxito das aulas do tele ensino é tal que ultrapassa as audiências do programa da Cristina Ferreira e do Manuel Luís Goucha.
Para terminar, deixem-me que lhes diga que trabalhei anos com o Presidente Eanes, de quem fui porta-voz, e conheço alguma coisa da vida da Presidência da República. Não votei em Marcelo, de quem sou amigo pessoal, mas entendo que é um extraordinário e raro Chefe de Estado. E deixem-me acabar como comecei: a aula de Marcelo na Telescola foi uma aula magistral!
Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

25.6.20


Etiquetas:

O padre António Vieira e a iconoclastia

Por C. B. Esperança

O padre António Vieira, cuja vida percorreu quase todo o século XVII (1608/97), numa época em que a longevidade era rara, é um dos mais lídimos paladinos da língua portuguesa.
Os seus sermões constituem a apoteose do barroco na história da literatura portuguesa, o triunfo de um género a que o génio imprimiu a beleza, a coerência e a grandeza com que delicia os leitores, ainda hoje.

Vieira usou as palavras como Bernini o mármore e cinzelou-as com o fulgor da erudição e a força das convicções. Quem nunca leu Vieira não entenderá a grandeza do orador e o brilho do pensador que estendeu ao labor epistolar.
No campo das ideias, por mais difícil que seja entender como pensava um intelectual há quatro séculos, é consensual que foi defensor dos direitos humanos, na luta contra a exploração dos indígenas, e, mais tarde, contra a Inquisição, de que foi o alvo apetecido, salvo pela sorte e proteções pontifícia de que gozou.
Trouxe hoje à colação a figura ímpar do padre António Vieira pela vandalização da sua estátua, em Lisboa. Já em 2017 houve uma manifestação contra o ‘esclavagista seletivo’ junto à estátua que foi agora alvo da fúria mimética de quem possivelmente não leu um único sermão, uma só carta, e ignora a biografia do estatuído. Saberiam porventura tais imbecis que António Vieira defendeu os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos e a abolição da escravatura? Ou que foi um insigne diplomata?
Sou dos que aceito, no calor de uma Revolução, quando há vítimas do despotismo, as manifestações predatórias contra os símbolos da repressão. Entendo que, num contexto democrático, as estátuas dos ditadores e cúmplices deviam, por pudor, ser guardadas em vez de expostas, tal como os nomes dos facínoras exonerados da toponímia.
O que não pode, em período de normalidade democrática, é consentir-se a vandalização do património, o julgamento popular da iconografia, a delapidação dos símbolos de um passado, misérias e grandezas cuja história se procura reescrever em cada novo regime ou ao sabor de talibãs que se arvoram em defensores da virtude e dos bons costumes.
Não estão em causa opções políticas, são casos de polícia a exigir julgamento.
Claro que há estátuas afrontosas, como a do cónego Melo, em Braga, ou insólitas, como a do Papa João Paulo II, em Coimbra, mas não é na sua vandalização que se faz justiça, devendo a primeira ir para o arsenal da Câmara e a segunda trasladada para Fátima.
O que é válido para clérigos, a que me conduziu a figura do padre António Vieira, serve também para a iconografia de militares, políticos, escritores ou quaisquer outros onde o nosso país não é particularmente rico.
No caso em apreço senti repulsa e desprezo pelos energúmenos sem sensibilidade nem gabarito cultural ou ético para julgarem a escultura de que o padre António Vieira não precisava para ser um dos mais altos paladinos da língua portuguesa.

Etiquetas:

24.6.20

No "Correio de Lagos" de Jun 20

Etiquetas: ,

22.6.20

No "Correio de Lagos" de Jun 20

Etiquetas: ,

Grande Angular - O Banco de Portugal e as tentações

Por António Barreto
Tanto foi dito e escrito! O caso parece estar arrumado. Mas não está. A saída de Centeno e a sua substituição no Ministério das Finanças, assim como a nomeação do futuro governador do Banco de Portugal, são assuntos de primeira importância transformados em querelas obscuras. É pena que assim seja. A questão é séria e o mistério criado traduz desprezo pela opinião pública. Era o momento adequado para discutir a questão das funções dos bancos centrais e de ver o que a política do euro fez de útil e o que não fez ou deu mau resultado. Era também o momento para ver melhor o comportamento do BCE, do Banco de Portugal e do governo em questões tão difíceis como as do BES, do BPN, do BANIF, de Angola, do Montepio, das PPP e da crise da dívida soberana. Mas não. Não aproveitámos a oportunidade e agora já é tarde.
É possível que a saída de Mário Centeno, em plena pandemia e no início de uma crise económica inevitável, tenha justificações. É possível mas não parece. Mário Centeno não se mostrou incompetente nem pusilânime a ponto de justificar o seu afastamento. Pelo contrário, revelou serenidade e competência.
Estranha-se que num período tão difícil como este o Primeiro-ministro dispense o contributo de um ministro com o prestígio internacional e a popularidade nacional deste. Não é fácil perceber que um governo não esteja interessado em manter o seu ministro como presidente do Eurogrupo. É verdade que estes cargos (Comissão, Banco central) muitas vezes prejudicam, mais do que favorecem, os países de origem dos titulares. Mas o desempenho por um nacional gera algum respeito.
Também não nos é dado perceber que um ministro, no auge da sua acção, solicite a demissão. A não ser que tenha perdido o apoio do Primeiro-ministro. Se há razões pessoais para esta demissão, não ficamos felizes com o facto, porque em boa parte muitas das razões pessoais são desprezíveis (inveja, ambição, receio…).
Como é evidente, um ministro que conseguiu o que Centeno conseguiu seria da maior utilidade nesta nova crise. Se a substituição foi motivada por razões pessoais aceitáveis, seria bom que tal se soubesse, mesmo sem desvendar o pormenor. Mas temos de reconhecer que tudo foi feito, por Costa e Centeno, de modo a afastar essas razões e a deixar intactas as suspeitas de que se trata de motivos inconfessáveis ou de razões políticas que nos deixam inquietos.
A hipotética ida de Centeno para o Banco de Portugal afasta razões pessoais e deixa intactas as políticas. Como elimina possíveis razões técnicas: na verdade, a liderança do Banco é tão exigente quanto a de um ministério. As reacções de certos sectores políticos eram de prever. Uns consideram incompatível a saída directa do ministério para o banco. Outros chegaram mesmo a elaborar uma proposta de lei para tal proibir. O que é estranho. Aprovar uma lei à lufa-lufa, dirigida a uma pessoa, é gesto condenável. Talvez mesmo inconstitucional. O que alguns deputados tentaram fazer contra Mário Centeno foi isso mesmo: um gesto de despeito político e de ignorância jurídica. O que impressiona é que haja tanta gente disponível para subscrever o disparate.
É preferível nomear um Governador sem responsabilidades políticas recentes, dado que tal garante talvez um pouco mais de independência. Mas esse trânsito não é crime. Nem inédito. Catorze Governadores (num total de dezassete) foram ministros ou secretários de Estado das Finanças, da Economia, da Agricultura, do Ultramar e dos Negócios Estrangeiros. Na Monarquia, na República, na Ditadura, no Estado Novo e na Democracia, só três não foram membros do Governo. Parece ser a regra, com poucas excepções. O actual governador, Carlos Costa, é mesmo um dos raros que não foram antes ministros de coisa nenhuma. A regra é a de ter sido ou vir a ser ministro. Ou as duas coisas, antes e depois.
Do sector público para o sector público: esta transferência parece aceitável. Ou pelo menos não é condenável imediatamente. O preferível é que não fosse um costume, que houvesse gente suficiente. Mas, com uma classe política tão curta e com dedicações exclusivas tão reduzidas, é inescapável que haja esta circulação. Esta é mil vezes preferível à porta giratória do Estado para a privada, do governo e da Assembleia para as empresas privadas.
A circulação entre Governos, bancos nacionais, Banco Central Europeu, Fundo Monetário e Banco Europeu de Investimento não parece muito inconveniente. Nada comparável às grandes circulações com as consultoras e as empresas financeiras mais famosas do mundo, que desempenharam papel importante em Portugal, que determinaram decisões, que deixaram passar da privada para a pública e vice-versa… Verdade é que há quem queira atacar Centeno pelo seu papel no governo e nas finanças públicas. Tenha ou não cometido erros, Centeno vai ficar na história das finanças públicas portuguesas.
Tal como ficará Carlos Costa, deixado sozinho durante os casos gravíssimos do BES, da Troika, da crise financeira internacional e da crise da dívida soberana, com governos a assobiar para o ar. O actual Governador, homem honrado, sai sem uma palavra de gratidão, merecida, dos poderes que o quiseram utilizar. Em condições de extrema dificuldade, foi um exemplo de serviço público. Um Alto Funcionário de integridade pessoal e institucional. Un Grand Commis d’État!
Há governadores de bancos centrais para todos os gostos, designados pelos governos, chefes de Estado, parlamentos e accionistas. E por combinação entre vários poderes. Cada país tem os seus costumes. Há mesmo quem faça concursos abertos e admita candidatos estrangeiros, como foi o caso do Banco de Inglaterra. O nosso sistema é o que é. Com a ajuda do Presidente e do Parlamento, é o governo que tem a palavra decisiva na nomeação. Mas a influência do Banco Central Europeu é grande. Depois de nomeado, o governador depende mais do BCE do que de qualquer entidade portuguesa. A ponto de se poder considerar que os bancos nacionais são sucursais do banco europeu.
Apesar de tudo, o Banco de Portugal é apetecível. Pode ser uma formidável arma de ameaça, vigilância ou cumplicidade com o sistema financeiro, a banca e a política monetária. Uma boa parte dessas esperanças são ilusórias, dado que, com o Euro, uma ingerência do governo no banco central paga-se caro.
A força das instituições cria-se com legislação que as preserve, com funcionários dedicados, com uma população que as respeite e com dirigentes à altura. O que dependia de Carlos Costa foi cumprido.
Público, 21.6.2020

Etiquetas:

21.6.20

Etiquetas: ,

20.6.20

No "Correio de Lagos" de Jun 20


Etiquetas: ,

19.6.20

HÁ BASALTOS E BASALTOS - À atenção dos professores do Secundário.



Por A. M. Galopim de Carvalho
Talvez que, por obediência ao programa oficial, os alunos tenham de “saber dizer” o que é o basalto, o professor que os ensina deve saber muito mais. E esse muito mais é uma minúscula parcela do conhecimento científico ao nosso dispor.
Na Antiguidade, os gregos chamavam-lhe “basanites”, nome proposto por Teofrasto (372-287 a.C.), com raiz no termo “basanos” que, entre eles, referia toda a pedra negra, dura e compacta, usada pelos ourives como “pedra de toque”, de que é exemplo o lidito.
Um parêntese para dize que o lidito é uma rocha siliciosa microcristalina (como o sílex, conhecida entre os profissionais por cherte) negra, devida a impregnação de matéria carbonosa, descrita na região de Lydia, na Ásia Menor (Turquia). 
Na sua História Natural, o romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.) usou a versão “basaltes” para dar nome ao “mármore negro”, assim se designava vulgarmente o basalto, uma vez que toda a pedra usada em cantaria era, então, conhecida por “mármore”. Foi, pois, ao latim, que fomos buscar a nossa palavra “basalto”. Muito mais tarde, na Alemanha, Agricola (1494-1555), reconhecido pioneiro da mineralogia e da geologia, usou o termo “Basalt” para referir a pedra negra, compacta, de Stolpen, na região de Dresden, Alemanha. O termo “basaltóide”, criado por René Just Haüy, em 1822, para referir o basalto negro do Egipto, é hoje um nome geral atribuído às rochas vulcânicas afins do basalto.
Vocábulo antigo dos léxicos geográfico, naturalista e, mais tarde, geológico, “basalto” é, pois, o termo geral que designa o equivalente vulcânico do gabro, a rocha plutónica de composição máfica, rica em magnésio e ferro, e com baixo conteúdo em sílica (52 a 49%), pelo que uma e outra são qualificadas como básicas. 
Mais de 90% das rochas básicas são vulcânicas e, dentro delas, mais de 90% são basaltos, constituindo o essencial da crosta oceânica. No seu conjunto, os basaltos são as rochas magmáticas mais abundantes na crosta terrestre, onde ocupam cerca de 70% da superfície. Os granitos (em sentido lato, ou seja, os granitóides) ocupam os restantes 30%, confinados à crosta continental. 
Basalto é hoje um vocábulo petrográfico muito abrangente das rochas vulcânicas com as características químicas e acima definidas (conteúdo em sílica entre 52% e 49%). Aplica-se, não só àquelas cuja lava brota à superfície e aí arrefece e solidifica, como às que, no decurso desta actividade, solidificam a meio caminho da extrusão. É o caso dos chamados basaltos das soleiras, diques, chaminés e outros corpos intrusivos de relativamente pequena profundidade, muitos deles designados por doleritos
Tem sido usual, entre os petrólogos e petrógrafos, distinguir três tipos fundamentais de basaltos, com base nos valores da razão (Na2O+K2O)/SiO2:toleíticos, calco-alcalinos e alcalinos
BASALTOS TOLEÍTICOS, também conhecidos por toleítos (do nome da região de Tholey, no Sarre, Alemanha, onde foi descrito) são relativamente ricos em sílica e pobres em alcalis. Provêm da fusão parcial por descompressão dos peridotitos dos níveis mais elevados do manto superior. Este tipo de basaltos está bem representado nas dorsais meso-oceânicas e nas camadas superiores da crosta oceânica, em grande parte ocultos sob os sedimentos aí existentes. É igualmente a rocha dos trapps, palavra sueca que quer dizer escadaria, usada internacionalmente para referir os imensos e espessos empilhamentos de derrames sub-horizontais de lava, no interior dos continentes (vulcanismo intraplacas continentais), onde cobrem milhares de quilómetros quadrados de superfície, como são os da bacia do Paraná, no Brasil, da Sibéria, do Decão, na Índia, do Karoo e dos Libombos, no SE africano, da bacia do Rio Columbia, na América do Norte, de Madagáscar e da Austrália. São igualmente toleíticos os basaltos trazidos da Lua pelas missões Apollo.
BASALTOS CALCOALCALINOS – contêm plagioclase rica em cálcio (labradorite), geralmente acompanhada de minerais ferromagnesianos com cálcio, como augite e horneblenda. São característicos dos arcos insulares e das margens continentais activas onde há fusão parcial das rochas do manto devido à adição de fluidos aquosos provenientes da crosta subductada e contaminação do manto por materiais dessa mesma crosta. O vulcanismo associado a este tipo de rochas é, geralmente, explosivo, por vezes, com grande violência, devido à maior viscosidade do respectivo magma. É o que acontece no chamado Anel de Fogo do Pacífico. 
BASALTOS ALCALINOS – além dos minerais comuns no basalto, contêm feldspatóides, sendo, por isso, também conhecidos por basaltos feldspatóidicos. São provenientes de zonas peridotíticas do manto superior, 50 a 80 km mais profundas do que as que alimentam os basaltos toleíticos e em relação com plumas mantélicas.
Mas há ainda, relativamente a este tipo de rochas vulcânicas, outros nomes consagrados, mais descritivos das respectivas composições mineralógicas. Eis alguns.
ANCARAMITOdescrito em Ankaramy, Madagascar, em 1916, é um basalto alcalino, olivínico, muito escuro, rico em augite e pobre em plagioclase. 
BASANITO, basalto alcalino com olivina (>10%) e feldspatóides (leucite ou nefelina); o termo, proposto por Teofrasto (320 a.C.) radica em basanos, nome grego antigo, como se disse atrás, de toda a pedra negra dura e compacta, usada pelos ourives como “pedra de toque”. 
HAVAITO, descrito na Ilha de Havai, caracterizado pela sua riqueza em olivina.
OCEANITObasalto, rico em olivina, com alto teor de magnésio, gerado por acumulação gravítica da olivina em escoadas espessas ou em soleiras; o termo apresentado por Alfred Lacroix (1863-1948) para designar este tipo de basalto gerado por lavas das Ilha de Havai e Reunião.

TEFRITO, basalto alcalino com feldspatóides abundantes (leucite ou nefelina), plagioclase e, em menor quantidade, olivina (< 10%). O nome deriva do grego téfra, que significa cinza, em virtude da sua cor cinzenta. 

Etiquetas: