1.5.21

Grande Angular - História e política

Por António Barreto

Belo discurso o do Presidente da República. Na forma, no conteúdo e na oportunidade. Desejando fugir aos temas mais desconfortáveis, poderia ter escolhido uma ladainha republicana. Como outros fizeram antes. Em vez disso, adoptou um tema difícil e polémico. O uso da história e das ciências sociais e o abuso das academias e do jornalismo têm servido para fortalecer e dar aparência de seriedade a campanhas políticas. A partir de feridas ainda abertas na sociedade portuguesa (a ditadura, a guerra, a descolonização, o retorno de portugueses e a descendência luso-africana), o Presidente mostrou o seu sereno orgulho em toda a história do país, os seus lados bons e maus, as suas glórias e as suas misérias.

O Presidente fez bem em falar de tudo isto. Podia ter-se refugiado na língua de pedra que é hoje o esperanto dos políticos, mas, em vez disso, elegeu matéria muito difícil, que tem até alguma carga de actualidade. O uso e o abuso da história, a condenação do passado, a reinvenção do passado e o aviltamento da história de Portugal com preconceitos e intuitos políticos: estes temas são difíceis e sugerem quase sempre, quando não abordados com seriedade, a demagogia barata.

Acusado de ter agradado a toda a gente, criticado por aceitar tudo, o Presidente, na verdade, não fez o jeito a ninguém. Nem sequer condenou explicitamente os que abusam da história: limitou-se a ignorá-los. O que permitiu ao Presidente fazer uma coisa destas? Para além da inteligência própria, que nada explica, foi o facto de o Presidente não estar a lutar pelo poder. Já não está a lutar pelo poder. E não quer lutar pelo poder. O que teve um efeito útil: o de demonstrar que quem usa e abusa da história, com ideologia e demagogia, não faz mais do que lutar pelo poder. Alguma direita nacionalista, a extrema-direita por grosso, muita esquerda radical, uns socialistas órfãos, um sem número de anti-racistas profissionais e boa quantidade de minorias fizeram dos “vendedores de pátrias”, da guerra colonial, da descolonização e do racismo “sistémico” e “estrutural”, temas de mera luta política, na esperança de tocar a alma do povo, o coração dos eleitores e a cabeça dos seguidores. Eles não querem apenas usar a história, querem apoderar-se dela para ganhar o poder. Sabem que o poder se ganha com armas ou votos, mas também com cultura, símbolos e semântica. O Presidente Marcelo tem o poder, não precisa de usar a história, pode dar-se ao luxo de ensinar e fazer pedagogia democrática junto dos que inventam ou reinventam, dos que papagueiam a história das glórias passadas e dos que macaqueiam a história dos amanhãs que cantam!

este propósito, temas de grande actualidade são os da história do ponto de vista dos vencedores e a história do ponto de vista dos vencidos. O que está na moda, actualmente, é deixar de fazer a história do ponto de vista dos vencedores e passar a fazer história do ponto de vista dos vencidos. O que se faz também com outras expressões. Assim, teríamos que se faz ou deveria fazer e ensinar a história (e a sociologia, a psicologia, a geografia, a filosofia e a ciência política…), não mais do ponto de vista dos ricos, mas do ponto de vista do povo. Não mais do ponto de vista dos poderosos, mas do ponto de vista dos trabalhadores. Não mais dos brancos, dos cristãos, dos católicos e dos europeus, mas do ponto de vista dos negros, dos muçulmanos, dos árabes, dos índios, dos escravos…

História dos vencedores e história dos vencidos! Ambas são legítimas. Ambas são ofensivas da inteligência e da cultura. Ambas são detestáveis. Mas ambas são interessantes, não pelo que dizem, mas pelo que traduzem. São histórias que falam dos seus autores, de si próprios, das suas pretensas glórias, dos seus heróis, das suas vitórias e dos modos como gostariam que fosse a sociedade.

Bons manuais de história de Portugal, do tempo do Salazarismo, de história de Espanha, do Franquismo, de história da Itália, de Mussolini, da História Chinesa, de hoje, de história da URSS, do seu tempo, de história de Angola, do MPLA, de história de Cuba, dos últimos cinquenta anos… São excelentes testemunhos do que é falso, do que uns gostariam que fosse, do que alguns querem que outros acreditem que é…

A comparação entre histórias programáticas dos vencedores e dos vencidos e histórias feitas por espíritos que procuram a liberdade e buscam a verdade é reveladora. Por um lado, o catecismo citado, a cassete, o simplismo enganador, a miopia deliberada, o ocultismo e a ocultação… Por outro, um exercício de busca e procura, uma tentativa de interpretação, um jogo inteligente de factos e de probabilidades… 

A História dos vencedores é odiosa. Detestável. Já a conhecemos. A história dos vencidos, dos trabalhadores, dos escravos, dos negros, dos judeus, dos árabes e dos chineses é tão má quanto a dos brancos, dos vencedores, dos cristãos e dos ricos. Uns querem manter poderes e privilégios, outros querem conquistar poderes e privilégios. Estas novas tendências não pretendem democratizar o saber, a história ou o poder: querem conquistá-los! Ambas negam o valor do esforço de rigor para alcançar, gradualmente, passo a passo, uma história isenta que procura a verdade, uma história feita por quem nada tem a ganhar com o que faz, nada tem a justificar, nada tem a defender, a não ser rigor e isenção.

A história que tanto condenámos durante décadas, a história que defendia estruturas de poder, que justificava opressões, que transformava em glória o que era também sofrimento, a que criava triunfos que esqueciam as vítimas… Essa história, de que estamos fartos, está gradualmente a ser substituída pela História dos que querem conquistar e que não trará mais verdade ou mais rigor. Substituir a história laudatória dos poderosos pela história militante dos activistas é um recuo, uma degradação do espírito! Fazer história para promover valores de negritude é tão patético e negativo quanto fazer o mesmo para engrandecer valores da cristandade. Ou da livre empresa. Ou do comércio livre. Ou do comunismo. Fazer história para defender a Inquisição é tão estúpido quanto fazer história para valorizar a Sharia.

Tudo o que pretenda ser história ou qualquer outra ciência social e que não se traduza num paciente e incansável esforço de procura da verdade, uma jornada sem repouso para compreender, é um passo atrás na civilização. Tudo o resto, o ponto de vista do vencido, a desconstrução da narrativa, a alternativa do submisso, a descolonização da história, a recriação do dependente e a afirmação do sem poder é falsidade de charlatão. É burlesco e é embuste.

Público, 1.5.2021

 

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30.4.21

Entrevistas e Entrevistadores

Por Joaquim Letria

Ao cabo de quase 60 anos de vida profissional creio ter feito centenas de entrevistas, para jornais, revistas, rádio e televisão. Além disso, como professor de Ciências da Comunicação este foi um género que sempre muito estudei, observando talvez milhares  de entrevistas e estudando centenas de entrevistadores.

Em Portugal, a entrevista é um género muito mal tratado. Muitos entrevistadores procuram apenas chamar a atenção para si próprios, outros querem mostrar a sua independência contrariando o entrevistado a todo o custo e o resultado é mau para o público a quem a entrevista deve ser dirigida no sentido de o esclarecer, acabando por se assistir a uma algazarra desagradável que não entretém e donde é difícil tirar informação.

Não me refiro a nenhuma entrevista nem a nenhum entrevistador em particular. Apenas reflicto sobre um estado geral dum género jornalístico muito mal tratado, a maior parte das vezes por impreparação e por falta de reflexão quanto ao que perguntar, o estilo a utilizar e a perda de vista do objectivo essencial que é informar o público.

Vi e estudei dezenas de entrevistadores, quer em Londres ao trabalhar para a BBC que além do mais nos dava cursos de formação, quer nos Estados Unidos e Brasil a trabalhar para a Associated  Press. E aprendi a distinguir os estilos de cada um e a comparar os resultados.

Desde Sir Robin Day, talvez o maior entrevistador, mais respeitado pelo público e pelos entrevistados que punha a Grã Bretanha a ver televisão quando anunciavam uma entrevista sua a Michael Parkinson com o seu modo simpático e envolvente a David Frost que era o mais duro, seco e cujas entrevistas eram consideradas um castigo a quem a elas se submetia.

Apreciei-os a todos antes de nos Estados Unidos ver Jonh Carson, Opprah Winfrey, Larry King, Susan Ammanpour, David Letterman, Walter Kronkite muito diferentes entre si, tal como diferentes eram Jay Leno, Stephen Colbert e Dick Cavett, assim como a equipa que hoje em dia alimenta o Hard Talk da BBC. Todos eles, de maneira diferente, visavam um objectivo quase sempre atingido: entreter, mas principalmente informar, esclarecer e fazerem aos entrevistados as perguntas que o público, de quem eram intermediários, gostaria de fazer se tivesse essa possibilidade. No Brasil, anos e anos a fio, Jo Soares fez um dos “talk Shows” mais interessantes do mundo, incluindo entrevistas das mais bem feitas que vi fazer. Curiosamente nenhuma desta gente era jornalista.

Não escrevo esta crónica motivado por alguma entrevista ou entrevistador em Portugal me darem esse pretexto. Temos, aliás, alguns bons entrevistadores que poderiam melhorar espectacularmente se estudassem e reflectissem mais, assim lhes dessem tempo para isso, como aconteceu no passado com Margarida Marante e Carlos Pinto Coelho. Apenas escolhi este tema para a minha crónica desta semana porque à minha volta ouço muita gente a dizer mal de entrevistas, muitas vezes sem motivo  para tal e outras vezes carregadinha de razão.

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29.4.21

Joe Biden e o PM japonês

Por C. B. Esperança

O primeiro-ministro japonês foi o líder estrangeiro a quem o PR dos EUA, Joe Biden, destinou a primeira receção em Washington.

É um acontecimento inédito da diplomacia americana onde o Canadá e o Reino Unido eram habituais na lista de cada novo presidente.

Em clima de tensão dos EUA com a Rússia e de guerra comercial com a China, assume significado especial a receção ao PM japonês. É a geoestratégia a deslocar-se para o Pacífico e Tóquio a substituir a Europa.

Num período de forte expansão da China para os mercados globais, o Japão tornou-se a potência escolhida pelos EUA, aproveitando a ancestral rivalidade chinesa com o Japão e a Índia.

Independentemente dos compromissos financeiros assumidos e do abordar de questões relacionadas com os direitos humanos, tema onde a diplomacia americana tem posições contraditórias, tratando-se de ditaduras amigas ou de países concorrentes, é relevante o compromisso japonês para trabalhar com os Estados Unidos em alternativas à rede 5G da empresa chinesa Huawei, empresa na vanguarda desta revolucionária tecnologia.

A pressão sobre a China vai continuar depois de os Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido e Canadá terem imposto sanções às autoridades chinesas por presumíveis abusos em Xinjiang, região autónoma chinesa. Não faltarão, aliás, bons pretextos com o fim do sonho democrático de Hong Kong e, menos notório, de Macau, onde a reforma eleitoral decidida em 11 de março, em Pequim, acabou com os sonhos democráticos da população de Hong Kong, habituada à liberdade de expressão.

O Japão há de certamente sentir-se encorajado a adotar uma postura dura em relação a Pequim, quando aumentam as atividades marítimas nos mares do leste e do sul da China e perto de Taiwan, a ilha maioritariamente interessada em defender a sua independência.

A China procura a hegemonia global, dispondo de colossais meios financeiros e de uma   população domesticada pela ditadura, e os EUA não deixarão pacificamente a liderança militar, económica e política que adquiriram com a guerra de 1939/45 e a posterior implosão da URSS.

A importância que o Japão assume na estratégia dos EUA passa pela subalternização da Europa, nomeadamente da União Europeia, no xadrez político internacional.

É de temer o declínio acentuado da Europa onde a população e o PIB, equivalentes aos EUA, não lhe permitem relevância na geoestratégia das duas maiores potências.

E, apesar de tudo, incluindo a pandemia, a Europa continua o maior espaço de liberdade e de bem-estar do Planeta.

Ponte Europa / Sorumbático

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DO GRANITO AO GRANITO



Por A. M. Galopim de Carvalho

Quando, no campo, olhamos para o granito num afloramento ou, na cidade, o pisamos, coeso e duro como pedra da calçada, podemos pensar que esta rocha sempre foi assim, mas não é essa a realidade. Podemos dizer, sem nos enganarmos, que são muitas as rochas que resultaram de outras e que o granito é uma delas. 

Por exemplo, quem diria que o granito, que se vê e explora em Trás-os-Montes, no Minho ou nas Beiras começou por ser um xisto, o mesmo que, com ele, forma o substrato destas províncias. Podemos dizer, no estilo que a linguagem literária consente, que o granito é filho do xisto, mas também não nos enganamos se dissermos o contrário, ou seja, que o granito é o pai (ou a mãe) do xisto.

A explicação desta realidade é simples se nos fixarmos nos aspectos mais gerais, deixando de parte pormenores, que aos especialistas dizem respeito, e a abordarmos por palavras que toda a gente entenda.

Como é sabido, os agentes atmosféricos “apodrecem” (alteram) as rochas e é essa alteração que gera a capa superficial do chão que pisamos no campo (de aspecto terroso) que, uma vez invadida pelas raízes das plantas e por toda a componente orgânica (viva e morta) associada, se transforma no solo. 

Continuando a pensar no granito que tomámos como exemplo, são o feldspato e a mica preta (biotite), próprios desta rocha, que sofrem o essencial dessa alteração. O primeiro, parcialmente, em minerais das argilas (barro), a segunda, libertando os óxidos de ferro que dão à rocha alterada, por vezes, o aspecto enferrujado. O quartzo, praticamente, não sofre qualquer alteração, o mesmo sucedendo à mica branca (moscovite) que apenas se divide em palhetas cada vez mais pequenas e delgadas. A alteração do feldspato permite que a rocha se vá desagregando (dizemos nós, arenizando) libertando os seus minerais.

Uns sob a forma de areias (os grãos de quartzo, os de feldspato que resistiram à alteração e a ou as micas) ou de partículas destes mesmos minerais, mas mais finas, a que os geólogos chamam silte (do inglês “silt”) e os pedólogos designam por limo (do latim “limus”) e, ainda, os ditos minerais das argilas.

Em tempo de chuva, as partículas mais finas (areias mais finas, o silte e os minerais das argilas), canalizadas pelos rios até ao mar, acabam por atingir o oceano profundo onde, ao longo de milhões de anos, se acumulam em depósitos sedimentares, alguns com milhares de metros de espessura. 

Sempre que um oceano se fecha, porque dois continentes se aproximam e entram em colisão, toda a “capa” sedimentar acumulada no dito oceano é, por assim dizer, enrugada ou pregueada, gerando uma cadeia de montanhas com a suas raízes profundas (conhecemos raízes que ultrapassam os 70 km de profundidade). Neste processo, os ditos depósitos sedimentares vão ficando submetidos a temperaturas e pressões que aumentam com a profundidade. 

Começam aqui as transformações próprias do chamado metamorfismo. De entre os que se afundaram menos e que, portanto, sofreram um metamorfismo menos intenso, surge o xisto argiloso, rocha que qualificamos de metassedimentar porque está na fronteira entre as sedimentares e as metamórficas. Com o aumento da pressão e da temperatura, em profundidade, o xisto argiloso transforma-se noutros xistos de grau de metamorfismo mais elevado, a que os geólogos deram o nome de xistos luzentes ou filádios. No prosseguimento desta descida em profundidade e de transformação em transformação, surgem o micaxisto o gnaisse e o migmatito, rocha esta que se apelida de ultrametamórfica e que exemplifica a fronteira entre o metamorfismo e o magmatismo. 

Sem entrarmos em pormenores, podemos simplificar, dizendo que, mais abaixo, a profundidades na ordem das dezenas de quilómetros, a temperatura pode atingir os 800 oC e a pressão ultrapassar as 4000 atmosferas, condições ambientais que promovem a fusão destes materiais, dando nascimento ao magma que, uma vez, arrefecido, regenera o granito.

Dizemos agora que, uma vez o granito aflorado à superfície, o que acontece muitos milhões de anos depois (o tempo necessário para que a erosão arrase quilómetros de espessura de rochas, esventrando as montanhas) a alteração começa aquilo que sabe fazer, repetindo a mesma sucessão de processos, dando início a mais um ciclo. Dizemos mais um ciclo porque não sabemos exatamente quantos, mas sabemos que houve vários (com a duração de centenas de milhões de anos) desde, pelo menos, há 4000 milhões de anos.

O exemplo que aqui escrevemos de forma muito simplificada, mas que respeita o que julgamos ser o essencial deste processo, é apenas um daquilo a que os geólogos baptizaram de “Ciclo Petrogenético” ou “Ciclo Geoquímico da Rochas” que envolve todo o geodinamismo do planeta, o externo, envolvendo a alteração das rochas, a erosão, o transporte dos produtos erodidos e a sua sedimentação, e o interno, de que fazem parte o metamorfismo e o magmatismo.

24.4.21

Grande Angular - O cartel de Abril

Por António Barreto

Podíamos ter um Abril tranquilo, politicamente calmo, pelo menos, já que a doença nos retirou paz e sossego. Mas não temos. As vésperas de Abril criaram um novo problema. O debate sobre os festejos da liberdade tem tanto de desprezível quanto de perigoso. Mas também revelador. Mostra uma espécie de Cartel que decide quem comemora o 25 de Abril e festeja o Dia da Liberdade. Na verdade, que espera traçar as fronteiras da democracia.

A ideia de que uns festejos nacionais e populares, oficiais ou espontâneos, solenes ou pindéricos, têm responsáveis, proprietários e supervisores só atrai mesmo pessoas estranhas ou com estranhas intenções. Dentro de dias, a polémica vai ficar esquecida. Dentro de anos, nem as crianças vão acreditar que esta existiu. Mas, para já, envenenou os dias. É possível que os militares de Abril tenham sido, uma vez mais, utilizados. Também não faz mal, aprendem. Verdade é que os supervisores do Cartel não desistem.

Não sendo grave de consequências, estas vésperas sublinharam um vício da política portuguesa. Criou-se uma cultura, se assim se pode dizer, da democracia como património. Em poucas palavras: a democracia tem os seus autores que usufruem de direitos especiais; a democracia também tem os seus eleitos, uns mais genuínos do que outros, conforme a sua proximidade aos autores; os eleitos da democracia têm poderes e direitos, nomeadamente privilégios. São esses privilégios que definem o conteúdo patrimonial na representação popular ou eleitoral. Em poucas palavras: quem ganha eleições tem o direito e a legitimidade para nomear os seus, pagar aos seus, autorizar quem escolhe, licenciar quem prefere, empregar quem quer, designar todos os cargos e recompensar os seus. Eventualmente, enriquecer.

Cada partido gostaria evidentemente que fossem só dele os eleitos. Mas aceita fazer coligações para melhor distribuir. Com inflexões à esquerda (a dita Geringonça) à direita (a AD e a Troika) e ao centro (o Bloco Central), o conteúdo patrimonial da democracia, a distribuição de despojos e a repartição de conquistas foram sobretudo obra dos dois maiores partidos (PS e PSD) que ora se coligaram explicitamente, ora se aliaram tacitamente, ora se sucederam. O alargamento da Função Pública a limites impensáveis, a criação de instituições que nem a imaginação se atreveria, o aumento de privilégios aos funcionários em detrimento dos trabalhadores dos sectores privados e a nomeação de grandes, pequenos e médios dirigentes da Administração foram essencialmente seus feitos. Os grandes negócios, as grandes obras públicas e as parcerias público privadas foram igualmente criações suas. Para já não falar de grandes licenciamentos e pequenas autorizações.

Foi tudo corrupção? Não, evidentemente. Há um universo de gestos, decisões e nomeações que, não sendo verdadeira corrupção, traduz bem este espírito da democracia patrimonial. Uma miríade de cunhas, influências e oportunidades alimenta e facilita as decisões. Parentes, amigos, companheiros e camaradas usam e beneficiam deste sistema tão arreigado em certos países e em Portugal também. Tudo em nome da República e da democracia.

Parece um manto diáfano, mas é um véu opaco, este a que se chama a “Ética republicana”. É um mito e um embuste que permitem que o nepotismo e o favoritismo surjam como gestos normais da democracia e casos naturais da República. Resume-se em poucas palavras. Sem Deus, dinastia, sangue ou sabre, o cidadão é soberano. O soberano faz a República. A República tem os seus eleitos. Estes têm o dever de servir a República. E o direito de se servir dela. Quem são esses eleitos especiais? Formalmente, os que ganham eleições. Historicamente, entre nós, os dois grandes partidos PS e PSD.

É com este princípio que tantas pessoas incham o peito de patriotismo democrático. O melhor valor da ética republicana é o que diz que o povo soberano escolhe o governo, não o dinheiro, não deus, não o soldado e não o nome de família. O povo manda através do voto e escolhe os seus representantes. Os representantes exercem os cargos de presidente, deputado, governante e autarca. Para governar em República é necessário conquistar o poder. Quem vence as eleições governa. Quem governa tem o direito a utilizar os comandos de poder que conquistou. Quem vence as eleições nomeia livremente amigos e escolhe os que lutaram por conquistar o poder. Quem conquista o poder, quem vence as eleições, quem ganha nas urnas tem o direito de demitir os seus rivais, distribuir os cargos e encargos, dividir os despojos, adquirir os bens da república, gerir os bens colectivos, apropriar-se de alguns desses bens como recompensa. É essencial incentivar os que sabem guiar-se pela ética republicana. Isto não é de esquerda nem de direita.

Não é verdade que só a direita é corrupta. Não. A esquerda também. Nem é verdade que só a esquerda é corrupta. Não. A direita também. E a melhor corrupção é a que consegue uma espécie de apólice de seguro de vida que é a convergência entre esquerda e direita.

É falso que a corrupção seja só da autoria dos políticos. Nem que só beneficie os políticos. A corrupção pode ser da autoria de muita gente e também beneficiar muita gente. Em todas as camadas sociais, profissionais e económicas. Mas podemos ter a certeza de que a corrupção beneficia poucos e prejudica muitos.

É errado pensar que a corrupção começa e acaba sempre em dinheiro, nos bolsos e nas contas offshore. Muito do que é essencial na corrupção inclui círculos de poder, autorizações, nomeações, concursos, parcerias, vantagens, privilégios, posição social, poder de decisão… Importância!

O Processo Marquês, mais os que o antecederam, teve um excepcional mérito já visível: revelou que a corrupção pode associar esquerda e direita, políticos e capitalistas, governantes e empresários, autarcas e gestores, economistas e advogados.

Há uma luta feroz em curso, que, a desenvolver-se, pode ser perigosa. É a que opõe dois campos antagónicos. De um lado, os que entendem que os políticos têm direitos especiais, que servem o povo e que devem como tal ser recompensados e respeitados. Do outro lado, os que pensam que os políticos são uns párias, vivem à custa dos outros e exercem o poder no seu exclusivo interesse. Estes dois campos estão bem presentes em Portugal, começam a dar sinais de vigor e envenenam o debate político. Evitá-los é urgente.

Público, 24.4.2021

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23.4.21

O PRÍNCIPE FELIPE, DUQUE DE EDIMBURGO

Por Joaquim Letria

Esta semana morreu o duque de Edimburgo, marido da Raínha Isabel II, que nunca aceitou ser príncipe consorte. De origem grega e dinamarquesa assumiu a linhagem dos Mountbatten, o que lhe não deixou grande popularidade. Faleceu aos 99 anos, completaria 100 anos em Junho, mais 5 anos do que Elizabeth II.

Conheci o príncipe Felipe, viajei com ele para e de Lisboa, fui testemunha do seu sentido de humor e por uma única vez encontrei-o com a Rainha a bordo do iate Brittania, quando Sua Majestade aí me conferiu o grau de Honorary Commander da Ordem de Victoria no curso da sua última viagem de Estado a Lisboa.

O Príncipe Felipe tinha muita graça e alguma desfaçatez. Na viagem em que o acompanhei, com mais jornalistas ingleses, a Lisboa, onde viera assinalar um aniversário da Aliança Luso- Britânica , ao nos aproximarmos de Lisboa, o avião da Royal Air Force em que voávamos, começou a ter um comportamento estranho o que me levou a perguntar ao major que fazia de hospedeira se havia problema. Ele riu-se e explicou-me:

--Não, é o príncipe que acha que é piloto. E pela porta semi fechada do “cockpit” lá vi o principe aos comandos do avião até os coronéis da RAF que comandavam a aeronave o despacharem para a cabine e pudéssemos aterrar em paz.

Mais tarde, numa recepção que concedeu no Palácio de Queluz, era apresentado a uma longa fila de personalidades portuguesas com que trocava palavras simpáticas. Ao parar face a Luis Lupi, director da Agência de notícias Lusitânia, que ostentava um grande emblema da Legião Portuguesa, o príncipe, apontando-lhe para a lapela, perguntou:

-O que é isto?

Lupi respondeu: - é o símbolo de uma organização anti comunista.

E o príncipe: Ah! E tem tido sucesso? (Have you been succseful?)

Penso que o príncipe ficará sepultado no Castelo de Windsor, onde aliás faleceu, não sendo levado para Londres. Assisti ali nos anos 70 ao funeral de Eduardo VIII.

Tudo isto só foi possível pelos anos que vivi em Londres e pelo tempo em que trabalhei para a BBC e, mais tarde ainda, pelas minhas funções de Porta-Voz do Presidente de Portugal, general Ramalho Eanes.

Nada de mais. De resto, só de tal aqui vos dou conta por me parecer poder ter um interesse relativo como mera curiosidade do domínio das memórias de quem já viveu uma vida preenchida.

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22.4.21

A castração de S. Sebastião em Coimbró (Crónica)

Por C. B. Esperança

O historiador Augusto José Monteiro, generoso amigo, enviou-me, para usar como me aprouvesse, uma história autêntica, extraída de um livrinho de 2007: “Lendas, contos e tradições do Alto Tâmega e Barroso”.

Aqui fica, na nudez da narração, à guisa de exórdio da crónica, a deliciosa história que o investigador exumou, a explicar a origem da devoção popular a uma santa, em Coimbró, aldeia perto de Boticas (Chaves): 

 «Os três santos de Coimbró

"Coimbró tinha como padroeiro São Sebastião. Só que era um santo muito pequenino, o que não agradava aos moradores da aldeia. Então um dia em que andavam zangados com Santa Marta, que era grande, disseram:

– Deixa, que nós vamos comprar um São Sebastião grande e vamos pô-lo no altar de Santa Marta.

Juntaram então dinheiro, com um peditório pela aldeia, e compraram um São Sebastião grande. Puseram-no no lugar de Santa Marta que foi para o lugar do São Sebastião pequeno.

Depois puseram-se a pensar o que haviam de fazer com o São Sebastião pequenino. Não iam ficar com dois santos iguais. E é então que um dos habitantes propõe: 

- Não há problema nenhum. Capamos o São Sebastião pequenino e fazemos dele uma Santa Quitéria. E ficamos assim com três santos diferentes.

Meu dito, meu feito. Nasceu então uma Santa Quitéria, que é uma santa pequenina que existe numa capelinha situada num monte próximo de Coimbró"».

Esta é a história que acrescentou uma santa à devoção da aldeia que hoje, por economia de meios, faz uma festa, com procissão, em 13 de agosto, a Santo Amaro e Nossa Senhora da Saúde, duas homenagens numa única manifestação de fé, 

mantendo as orações a Santa Quitéria, talvez esmorecida já a excitação pelo mártir S. Sebastião.

Coimbró criou a devoção a uma das nove irmãs gémeas, cujos estudos hagiográficos a situam no século II como jovem mártir, filha de um nobre pagão, que começou a obrar milagres e a ser venerada no séc. VIII, ainda que o martírio só aparecesse referido, pela primeira vez, no séc. XII, com direito a inscrição no Martirológio Romano, depois de citada em dois Flos Sanctorum, graças ao empenho dos jesuítas e à provada eficácia da defunta donzela como advogada de defesa contra a raiva. 

Nascida da remoção testicular do mártir trespassado de setas, Coimbró passou a venerar dois mártires, grande o varão e pequena a donzela, como mandou a fé e a anatomia dos géneros, num contexto a que não foi alheia a exaltada devoção a S. Sebastião.

Não foi maldade ao santo que tanto os fascinava, foi o horror ao desperdício da imagem pia, adicionado à dimensão da fé, onde sobra sempre lugar para mais uma devoção.

Esta história é uma deliciosa metáfora da religiosidade medieval dos meios rurais onde a ingenuidade e o apego ao divino seguiam a gestão criteriosa dos parcos haveres.

Coimbró foi buscar ao «Martirológio» – rol da Igreja católica que arrola todos os santos e beatos declarados desde o início da ICAR –, mais uma santa, enquanto centenas de povoações viram, em meados do século XX, exonerada Santa Filomena que cancelou festas, amargurou multidões de devotos e infligiu, na fé, feridas profundas que a benevolente reintegração da santa, recriada pelo papa João Paulo II, nunca cicatrizou.

Santa Quitéria é uma santa que resiste, ao contrário de S. Victor que, já neste século, foi exonerado, pela diocese de Braga, de patrono da paróquia e freguesia com o seu nome.

No séc. IV, o jovem Victor, segundo a tradição, fora condenado à morte por se recusar a participar numa cerimónia pagã, crimee castigo desmentidos dezasseis séculos depois, para amargura de 30 mil almas! Que importava a pequena mentira, em 2004, à diocese e à religião onde sobram prodígios?

Pelo sofrimento dos crentes da freguesia e paróquia de S. Victor, é fácil concluir o que padeceram os franceses quando o culto a S. Guinefort, cão e mártir, injustamente morto pelo dono, foi proibido, e o santo apeado dos altares e arrasado o templo em sua honra, por ser a santidade reservada a humanos, com Roma indiferente à tradição e ao martírio do quadrúpede.

De sinal contrário, foi o júbilo dos devotos de S. Sebastião, convictos de que a santidade se mede aos palmos, a ampliarem o taumaturgo que mais os atraía e a adicionarem uma peanha para Santa Quitéria, exposta à veneração dos paroquianos de Coimbró.

Eram assim as decisões expeditas em Terras do Barroso, muito semelhantes em todo o norte do País onde a fé criou raízes profundas e a os crentes nunca abdicaram de a gerir segundo os padrões profanos. 

Ponte Europa / Sorumbático

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17.4.21

Se bem me lembro...


EMBORA
já tenham passado quase três décadas, certamente não falta quem se lembre do programa de TV “O Juiz Decide”. Tratava-se de uma encenação, mas o facto de os figurantes serem desconhecidos e bons actores, tornava os “julgamentos” bem credíveis. 

Os casos eram conflitos do dia-a-dia, envolvendo quase sempre duas pessoas, e eram perfeitamente plausíveis (dizia-se que alguns eram mesmo reais), e os juízes (conhecemos dois) eram verdadeiros magistrados, embora jubilados.

Mas o que tornava o programa verdadeiramente aliciante era a sua imprevisibilidade.

Eu explico:

Quando acabavam os interrogatórios e as alegações, havia um intervalo, em que o público televisivo era convidado a dar, por telefone, o seu palpite acerca da sentença que havia de vir logo a seguir, podendo escolher apenas entre duas opções.

Pois bem; o que sucedia (sem apelo nem agravo — o locutor até dizia “O juiz decidiu, está decidido!”) era SEMPRE O OPOSTO daquilo que, ao cidadão-comum, parecia lógico e óbvio — e quase sempre por grande margem.

Claro que isso dá que pensar, pois, entre vários atributos que esperamos da Justiça, a lógica (a par da celeridade) está em primeiro lugar.

Aqui chegados, e tendo em conta “aquilo de que toda a gente fala”, partilho uma reflexão que muitas vezes fiz:

Dado que houve DOIS juízes, será que, se o mesmo julgamento tivesse sido feito pelo “outro”, o resultado teria sido diferente? Mas a questão não faz sentido, pois nunca havia sobreposição, nem no tempo nem nas causas julgadas, além de que a própria concepção do programa colocava completamente fora de causa que o juiz mais recente se pronunciasse sobre os casos que haviam sido julgados pelo anterior — mas, se calhar, era só por isso...

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Grande Angular - Escombros

Por António Barreto

Este não é tempo de heróis. É obra de vilões. 

Foi uma sequência meticulosamente encenada. Coreografada ao mais ínfimo pormenor. A pandemia e a distância social imprimiam drama ao espectáculo. A timidez calculada do protagonista trouxe a personagem à beira da inocência. Vultos de togas negras davam o tom da morbidez necessária a uma espécie de Juízo Final. As máscaras disfarçavam os embuçados que pareciam membros de um coro clássico. No fim desta estranha liturgia, sobraram os escombros. De que não nos livraremos antes de muitos anos.

Que pensar daquela encenação inédita? Como se explica que o longo solilóquio tivesse deixado o país suspenso? Será possível que um monocórdico despacho instrutório tenha provocado uma crise no país, na sociedade e no sistema democrático? É possível, sim, porque aconteceu. E foi possível porque se tratou de uma das mais sérias crises da nossa vida colectiva desde 1975.

Nunca imaginei que fosse possível assistir, em directo, ao quase suicídio de uma instituição. O que se passou nesta última semana andou muito perto disso, de um gesto sacrificial ou de uma descida aos infernos. A Justiça portuguesa nunca conseguirá, antes de muitos anos, recuperar uma parcela do prestígio perdido, que já era pouco, mas parecia recuperar gradualmente. Este espectáculo indecoroso foi na verdade o último acto de um folhetim.

Não há memória, em Portugal ou na Europa, de uma cena deste género. É difícil imaginar o que pensam os procuradores, os magistrados, os juízes, os oficiais de justiça, os conselheiros e os desembargadores… Todos foram afectados por estes episódios. De muitos se esperava uma reacção. Até agora, tem sido diminuta.

A confiança no Ministério Público e na Procuradoria-geral da República, assim como no Tribunal de Instrução, está hoje evidentemente no mais baixo de sempre. Desprestígio contagiante: outras instituições judiciárias, incluindo tribunais de primeira instância, Relações e Supremos, sem esquecer os Conselhos Superiores, o Ministério da Justiça, o Tribunal Constitucional … Ninguém escapa, podem crer!

Não é raro que haja instituições em guerra. Ou grupos em choque, dentro das mesmas instituições. Com certeza que há opiniões diferentes entre magistrados e entre instituições. Mas na Justiça não deve haver controvérsia e rivalidade. A actividade judiciária não é a actividade parlamentar. O confronto adversário entre deputados e a controvérsia partidária não são aqui a regra. Nem sequer deveriam ter significado. O que se está a passar é isso mesmo: a transformação da actividade judiciária num confronto de que os cidadãos só têm a sofrer… É natural que haja diferenças entre magistrados, mas não é natural que sejam os cidadãos a pagar. Nem que a Justiça passe a reger-se pelas normas da actividade parlamentar. A justiça partidária é tão má quanto a justiça popular, a justiça da rua e a justiça do governo.

Nunca, como hoje, a desconfiança na justiça foi tão grande e tão pública. Toda a gente ficou com a certeza da fragilidade da acusação, de um relativo intento persecutório da instrução e da relativa incompetência do inquérito. Ficou nítido o desequilibrado, moroso e mal fundamentado processo do Ministério Público. Toda a gente ficou com enorme desconfiança do enviesamento do despacho instrutório, cujas debilidades e incongruências estão pelo menos ao mesmo nível que as do Ministério Público. É aterradora a hipótese, até agora não convincentemente desmentida, de manipulação dos sorteios de juízes, pelos vistos com tradição na Relação de Lisboa. Ficou-se mais uma vez com uma péssima impressão da justiça exibicionista e do despotismo de função. Seria bom que todos saibam: Rosário Teixeira, Carlos Alexandre e Ivo Rosa não ficam na fotografia melhor do que José Sócrates, Ricardo Salgado, Carlos Santos Silva e outros suspeitos.

Chocante, no caso presente, é o silêncio dos responsáveis, dos dirigentes políticos, dos protagonistas judiciais e de todos quanto desempenham funções de direcção, de orientação ou de associação. O silêncio do governo é o mais confrangedor. Nem sequer consegue exteriorizar uma preocupação, muito menos uma intenção. Não se aceita o silêncio do governo. Nem o dos socialistas, motivado pelo incómodo cúmplice de quem se envolveu nestes negócios e nestes processos. Os socialistas sabem que é muito fácil ser incluído nas culpas e na desconfiança. Eles sabem que é muito difícil afirmar que não estavam lá e que nada sabiam. Sócrates não estava sozinho. Nunca esteve.

Nestas questões de crises e de reformas políticas e institucionais, uma questão essencial é a da sua responsabilidade principal. Quem pode orientar, dirigir e cuidar de tais reformas? Que partido, que instituição, que poderes ou que grupos sociais podem definir objectivos e estratégias e são capazes de executar tais reformas? Em poucas palavras, quem lidera e quem é responsável?

O cepticismo, no caso da justiça, vê-se confirmado todos os dias. Discute-se, há anos, há décadas, a crise e a reforma da justiça. Os resultados têm sido magros, muito magros. Agora, estamos à beira de apenas ficar com escombros. E infelizmente não se vislumbra quem possa assegurar a liderança das reformas necessárias. Em todo este episódio, o silêncio tem sido medonho. Do Presidente da República, do Governo, do Primeiro-ministro, dos ministros, dos deputados, do Parlamento, dos partidos políticos, dos Conselhos Superiores das magistraturas, dos Supremos tribunais, das associações profissionais e da Academia…

Curioso é que os argumentos dos responsáveis pelo silêncio são o da não interferência nas questões da justiça e o da separação de poderes. Conhecem-se as expressões mais frequentes. “Não se deve interferir na justiça”. “A justiça deve seguir o seu curso”. “A justiça tem as suas regras que a população não percebe bem”. “Os políticos não se devem meter com a justiça”. “À política o que é da política, à justiça o que é da justiça”. É o que se diz. É o que fica bem dizer. É aquilo com que muitos se defendem. Mas é errado! É o argumento que utilizam os covardes. A justiça é o que há de mais importante. Como alguém disse, a minha liberdade depende da urna de voto e do tribunal. Sobre a justiça, todos devemos falar e pensar. Em casos concretos e em casos gerais. Se a política não se ocupa disto, ocupa-se de quê? Não há nada mais importante.

Público, 17.4.2021 

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16.4.21

AS ANTIGAS REDES SOCIAIS

Por Joaquim Letria

Lisboa tem nomes de ruas que não lembra ao careca, como dizia um professor meu. Outras tem nomes muito sonantes que podemos julgar tratarem-se de gente importante, que foi útil à cidade, ao País ou mesmo à humanidade. Mas isso de ter o nome numa rua pode ser um problema. Principalmente quando alguém diz (e há muita gente que o faz):

-- Oh pá, quem era este gajo?

Quando não o tratam por um substantivo pior, dando-se ainda o caso de ninguém saber quem era.

Porém, houve ruas e vielas com nomes bonitos que os toponímicos das sucessivas gerações e vereadores de outras tantas vereações acabaram por extinguir sem justificação nem darem satisfações a ninguém. Um caso exemplar do que estou a dizer era a Rua das Palavras, que descia junto ao Pátio das Damas Castelhanas do Palácio da Ajuda e ia por aí abaixo até junto daquilo que hoje é um hospital militar.

Ao contrário das outras que têm placa mas não sabemos de quem são, a Rua das Palavras nunca teve placa nem nome escrito. Era uma espécie de menina filha de pai incógnito… mas o povo assim lhe chhamava e alguns velhos explicaram-me que se chamava assim porque era ali que as pessoas se juntavam para conversarem, de assuntos sérios a histórias ligeiras e divertidas sem se esquecerem de muito mal dizer e de algumas intrigas.

Assim como acabaram com a Rua das Palavras, também mais tarde a disseminação de agências bancárias por toda a Lisboa exterminou muitos cafés e bares que eram centros de encontro, de tertúlias, de convívio onde se dizia bem ou mal, se trocava informações, se criavam grupos políticos, se discutia cultura e onde nasciam sérias correntes artísticas e filosóficas, além de servirem de escritório para onde era possível pedir para chamar alguém ao telefone ou de onde se podia fazer uma chamada.

No fundo, a Rua das Palavras e os bares e cafés desaparecidos eram as nossas redes sociais daquelas épocas. A polícia política escutava e vigiava uns e outros mas também todos sabíamos e precavínhamo-nos. Hoje é muito diferente. Mas talvez não tenha a mesma piada.

Publicado no "Minho Digital"

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15.4.21

Erdogan – O execrável proto-califa misógino

Por C. B. Esperança


O mais grave incidente diplomático surgido com a União Europeia, nos últimos tempos, foi desvalorizado pela ocorrência de outras notícias relevantes e pela benevolência com que a abominável misoginia islâmica é tolerad
em nome da liberdade religiosa.

Numa deslocação do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a Ancara, só o anfitrião, Recep Tayyip Erdogan, e Charles Michel tiveram direito a sentar-se em cadeiras. Este facto repulsivo merece ser execrado. À alta dirigente da UE foi reservado um lugar à distância tolerada pela pudicícia do Irmão Muçulmano.

Independentemente do comportamento de Charles Michel, conformado com a situação e cuja cobardia o torna indigno do cargo que ocupa, a ofensa a Ursula von der Leyen teve na beata misoginia islâmica a origem da ofensa à mulher, à dignidade do seu cargo, à civilização e aos direitos humanos.

Não há razões de Estado que permitam tolerar a discriminação da mulher, as ofensas de trogloditas às conquistas do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa, os preconceitos religiosos que colidam com a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Tal como um Presidente da República humilha o seu País quando se genuflete e oscula o anelão de um bispo ou do Papa, também, e de forma mais gravosa, um biltre de uma religião concorrente ofende a civilização e a decência quando desvaloriza as mulheres.

Os abjetos beatos só existem porque tiveram mãe, mas o veneno vertido num manual da Idade do Bronze, por um analfabeto amoral, continua tolerado com a desculpa do respeito à religião.

A União Europeia foi deliberadamente rebaixada pelo biltre misógino que, em idênticas situações anteriores, quando os dois representantes da UE eram machos, dispunha de três cadeiras. 

A injúria é ainda mais grave por acontecer após o abandono pela Turquia da Convenção de Istambul, que obriga à defesa da igualdade de género, pouco tempo antes da reunião que deu origem a este incidente diplomático. Foi agravada por ser Ursula von der Leyen uma tenaz defensora da igualdade de género, como se exige a homens e mulheres civilizados, e por ter ocorrido quando se pretendia discutir matérias relacionadas com os direitos das mulheres na Turquia, a par da ocupação ilegal de parte do território da República de Chipre pela Turquia e dos refugiados das guerras retidos por Erdogan a troco de pingues pagamentos da UE.

Desprezo qualquer religião, ideologia ou partido político que ameace a igualdade entre homens e mulheres.

Em nome da liberdade, da civilização e da decência, por amor à mãe que me criou, à mulher que tenho, à filha que fiz e às netas que vieram, hei de anatematizar todas as religiões, partidos políticos e tradições que discriminem a mulher, e sentirei aversão por homens e mulheres que defendam ou se conformem com tão abominável tradição.

O fascismo islâmico até a cabeça das mulheres perturba, como se vê pelas declarações da mulher de Erdogan, há dois anos:

Ponte Europa / Sorumbático

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12.4.21

No "Correio de Lagos" de Mar 21

 

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Ao menos, aqui em Lagos...!

Parece que, finalmente, alguém no PSD deu um murro na mesa! 

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11.4.21

Na “Nova Costa de Oiro” de Mar 21


LEMBRO-ME
bem de quando o meu velho amigo Filipe colocou à venda no OLX um vistoso jarrão de porcelana, simultaneamente com os 15 volumes da obra completa de Eça de Queirós, numa luxuosa Edição do Centenário; e também de quando, num dia em que eu estava em sua casa, bateu à porta o comprador, cavalheiro dos seus 45 anos, barrigudo, impecavelmente vestido, barbeado e penteado, acabado de chegar num magnífico carro topo-de-gama que estacionara em cima do passeio.

Quando ele entrou, deixei que o Filipe fizesse as honras da casa e depois, para não interferir na previsível discussão do preço, despedi-me delicadamente e fui apanhar sol para a varanda; mas nem por isso deixei de acompanhar a conversa, porque o homem falava alto, distribuindo generosamente a sua voz por todo o espaço em redor.
Por fim, e depois de muita e animada conversa, a transacção, que já estava apalavrada anteriormente, lá se concluiu; e enquanto o Filipe acondicionava o jarrão e os livros em caixas que já preparara para o efeito, apercebi-me de que o outro, cirandando pela sala, se detivera em frente à estante dos livros, pelo que tive de reprimir uma gargalhada quando ele proferiu a inevitável pergunta:
— Você já os leu todos? — não esperando pela resposta para completar... — Pois olhe, eu nunca li um único, na minha vida!
Como é típico dos semi-analfabetos, ele não se referia à sua incultura com vergonha nem tristeza, mas sim gabando-se dela, adivinhando-se que gostaria de acrescentar «... e não precisei de livros para chegar onde cheguei!», pelo que fiquei com curiosidade de saber "até onde é que tinha chegado"; e vim a ter a resposta quando ele saiu:
— Sabes quem é este figurão? — perguntou-me o Filipe, rindo — É o Presidente da Junta de Freguesia de (...), e o que lhe vendi, a começar pelos livros que nunca irá abrir, é para enfeitar o novo gabinete. Mudou recentemente para o partido certo, e já está na calha para concorrer a Presidente da Câmara. E depois é só dar tempo ao tempo, para tentar fazer como tantos outros, que usaram o cargo como trampolim para ministros, ou mesmo PM ou PR, e não seria o primeiro a sair-se bem da acrobacia.
Dei-lhe razão, e fiz até um pequeno acrescento acerca da possibilidade de ele vir a ser eleito deputado; mas o meu anfitrião afastou essa ideia com o seco comentário de que “isso seria tudo menos subir”.

E foi dessa patusca personagem que me lembrei quando o Governo achou por bem proibir a venda de livros — embora, curiosamente, eu tenha encomendado um no ‘site’ da FNAC, que mais tarde levantei na loja — sim, na MESMA onde, ao alcance da mão, estavam os livros vedados com fitas!
Mas, já depois disso, Marcelo Rebelo de Sousa — que deve ler, num mês, mais livros do que os nossos governantes na vida toda — obteve uma meia-vitória para a cultura, conseguindo que os filhos de Gutenberg fossem brindados com uma espécie de “liberdade condicional”; triste vitória, porém, pois os livros apenas podem ver a luz do dia em lojas que vendam outras coisas!
E é assim que, à data em que escrevo, somos confrontados com o absurdo de ver os CTT, as bombas de gasolina e as grandes superfícies a venderem livros, enquanto as livrarias estão proibidas de o fazer... a menos que arranjem um cantinho para vender outras coisas — quiçá cuecas ou galos de Barcelos Made in China!
Por sinal, e nesse mesmo dia, Marcelo também se dirigiu à AR para que se alterasse a lei do ruído, no intuito de proporcionar sossego a quem está em teletrabalho ou envolvido em aulas à distância. Mas ainda bem que não foi atendido, pois, assim, eu e os meus vizinhos pudemos ser brindados (e em três dias seguidos!) com concertos matinais de motosserras da CML, que achou que o período de confinamento era o mais apropriado para “podar” (?) árvores e dar alguma animação ao bairro — uma gentileza que os moradores, se forem gratos, saberão retribuir lá para o final do ano.

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10.4.21

Grande Angular - Justiça e violência

Por António Barreto

justiça é um tema de permanente discussão. Ainda bem. Mesmo se por vezes temos um forte sentimento de impotência: fala-se, fala-se, fala-se e pouco se avança.

Nos últimos anos, a “questão da justiça” tem estado sempre ligada à corrupção. Quando se reclama melhor e mais justiça, é quase sempre com a corrupção em mente. Ou então pensa-se na morosidade, facto indesmentível, e na parcialidade, problema complexo.

Para além da crise de morosidade e da corrupção, há uma justiça que falta fazer. A justiça do crime de violência doméstica! A recente publicação do “Relatório anual de segurança interna” faz-nos recordar que em Portugal se cometem cerca de 300 000 crimes por ano. Um pouco mais de 800 por dia. Em comparações europeias, geralmente difíceis por causa dos conceitos e dos contextos, há casos em que Portugal está entre os mais violentos, outros a meio da tabela, outros ainda entre os mais pacíficos. Mas a violência doméstica tem muito especial incidência entre nós.

Segundo a tipologia oficial, os 23.000 casos de violência doméstica constituem o primeiro dos crimes, seguido de furto em automóvel, da burla informática e da ofensa à integridade física. São mais de 60 crimes de violência doméstica por dia! Crimes denunciados, sublinhe-se, que não incluem as pancadarias silenciadas, as agressões escondidas e os maus-tratos que todos os dias homens infligem às mulheres e com que adultos entendem educar filhos.

Em dez dos dezoito distritos do país, a violência doméstica é o primeiro crime denunciado. A pior violência é evidentemente o homicídio. São assassinadas, por ano, em Portugal, mais de 30 mulheres, em contexto de relações íntimas. Em quinze anos, são mais de 550 assassínios e mais de 600 tentativas. Sempre em contexto familiar.

Bater nas mulheres: é costume insuportável de muitos portugueses. Não é fácil encontrar estatísticas europeias. Também não interessa muito. O que temos é suficientemente mau. Quando se fala de violência doméstica, há várias especialidades. Conforme quem bate e quem apanha. Mas o principal caso é o dos homens e maridos que batem nas suas mulheres, namoradas e companheiras. Depois disso, pais que batem nos filhos ou nos velhos. Marginalmente, também se bate em homens, o que interessa muito os “voyeurs”, mas não tem significado estatístico. Homem que bate em homem, mulher que bate em mulher ou mulher que bate em homem: são casos residuais.

Tanto ou mais do que as causas do crime ou do que a protecção das vítimas, importa olhar para a justiça. Esta tem dado exemplos escabrosos de complacência com os homens violentos em casa, de benevolência com os agressores e de piedade para com os que batem nas mulheres. Há muitos magistrados preparados para desculpar os homens que perdem a cabeça. Como há até os que pensam que “elas estavam a pedi-las”… Ou os que acreditam que “bem lá no fundo, algumas gostam”… Entre nós, a justiça não está preparada para castigar os maridos ciumentos e os viciados na violência masculina. Grande parte da justiça portuguesa olha com condescendência e bom humor para os homens violentos.

Como se pode imaginar, o problema recusa simplicidades. As causas são muitas. As consequências também. As circunstâncias são variadas, os métodos e os procedimentos também. O que quer dizer que a luta contra a violência doméstica e em particular a violência masculina contra mulheres e crianças exige o concurso de disciplinas várias, de processos complexos e de aproximações sofisticadas.

Importa a educação, dirão uns. Educar desde o berço. Educar para a igualdade. Educar com doçura. Muito bem. Tudo isso é verdade. Quanto tempo demora? Até quando teremos que conviver com esta violência impune? Reformar as mentalidades, dirão outros. É a mais banal das orientações. Quando alguém não sabe o que pensar nem o que fazer, conclui que é necessário reformar as mentalidades. Sobretudo depois de estabelecer que se trata de “problema cultural”. Os autores de tais opiniões esquecem-se de dizer o que é exactamente a reforma de mentalidades, como se faz e, mais difícil ainda, quem são os reformadores que vão reformar as mentalidades dos outros!

Só se vê uma maneira com eventuais resultados visíveis a prazo: através da justiça. As leis vigentes são débeis. As políticas em vigor são tímidas. Os magistrados são frequentemente machistas. Os tribunais cultivam fantasias inadmissíveis. Sem esperar pela reforma de mentalidade e pela formação de um “homem novo”, é na justiça e com a justiça que se pode agir.

É verdade que se deve proteger as vítimas batidas, abrigar as mulheres violadas ou ameaçadas, recolher as crianças maltratadas, apoiar os velhos atemorizados… Tudo isso é verdade, mas o essencial é não deixar o criminoso à solta, não permitir que o violador se passeie pela cidade, não conceder facilidades de vida ao homicida, não tolerar o assassinato, não premiar o agressor…

Pode fazer-se muito. Já. Em primeiro lugar, aprovar leis positivas, duras, sem margens para interpretações e variações poéticas. Segundo, aplicar leis punitivas com prisão firme, sem os remorsos da “severidade excessiva” e sobretudo sem pena suspensa, mal endémico de grande parte da justiça portuguesa. Como é sabido, é frequentemente mais castigado o roubo de uma sande num supermercado do que uma carga de pancada na mulher ou um braço quebrado no avô. Terceiro, multas elevadas aos prevaricadores, muito sensíveis na carteira. Quarto, aplicar castigos duros relativamente à condição profissional. Não custaria nada ver que um assassino, violador ou agressor de mulheres e crianças fosse expulso da função pública, não tivesse acesso a empregos nas áreas públicas e não fosse admitido em instituições de educação ou formação. Quinto, exigir do Conselho Superior de Magistratura uma atitude mais activa, legalmente mais firme e moralmente mais aceitável relativamente aos magistrados que cultivam devaneios sobre o “macho latino”, o “ciúme masculino”, a “dignidade viril” e a “auto-estima ferida” que supostamente fariam parte da bagagem cultural dos homens portugueses. Ao Parlamento e ao Governo compete ainda declarar, nas suas competências de elaboração de politicas e de formulação de estratégias, que a luta contra a violência doméstica e a violação seja considerada prioritária.

Se há domínio em que a bondade é inútil, é bem este.

Público, 10.4.2021

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Didáctico... e oportuno.

 

9.4.21

UMA CIDADE GARRIDA COM UM SOL ÚNICO

Por Joaquim Letria

Portugal nasceu no Norte mas hoje é aqui, neste coração imperfeito, que alastra a sua vocação universal, de onde saíram caravelas, lugres, barcas, barcarolas e navios que se espalharam por onde hoje se estende a identidade  europeia desta cidade asiática, africana, indiana, mundial.

Lisboa é uma caldeirada de culturas, ponto de partida para a rota da vadiagem dum povo, prenhe de gente branca, escura, castanha, amarela e negra a vender especiarias e essências que podemos encontrar por toda a parte, a começar pela fascinante Rua do Bem Formoso, na Mouraria, onde se come apetecíveis petiscos chineses, indianos, vietnamitas, do Bangaladesh ou do Paquistão. Por aqui se convive com gente que escapou dos desesperos das suas terras para se refugiar neste porto antigo e abrigado de galegos, aguadeiros, carvoeiros e carroceiros, hoje cheia destes seus descendentes, ainda herdeiros dos sarracenos e dos judeus.

Abrigando tanta gente desta, Lisboa não poderia ser branca. Uma cidade como esta não pode ter a alvura das cidades das arábias ou do Norte de África. Terá de ser castanha, escura e colorida, mas nunca branca. Penso que esta insistência em lhe chamarem cidade branca, há inclusivamente um filme estrangeiro que assim a designa, vem não das suas cores mas de outra coisa muito importante e, a certas horas e em certos dias, absolutamente inigualável: a sua luminosidade, o seu sol único, a luz de Lisboa.

Todavia, lá por ser morena e escura, Lisboa não deixa de se apresentar garrida. Inegáveis as suas cores diversas, espalhadas por pincéis langorosos, que se estendem ao longo dum Tejo largo, longo e sensual. Podemos facilmente ver e sermos relembrados de tudo isso ao passear pelas suas ruas, ao ficarmos suspensos do lilás dos seus jacarandás que encontramos nos pincéis de Nikia Skapinakis, para depois nos perdermos em passeio pela policromia de Vieira da Silva, nos espantarmos com as telas de amarelos doces de Arpad e ficarmos presos aos rosas pálidos de Carlos Botelho, ou agarrados pelo azul turquesa de Pavia.  Lisboa é uma enorme paleta de múltiplos grandes artistas.

Adoro o verde do Minho, o murmúrio dos seus rios, a frescura das suas sombras e o riso das suas gentes, tal como respeito e amo a planura do Alentejo, o cantar das suas cigarras, o canto dorido e belo das suas gentes. Mas nasci e cresci em Lisboa, apesar de passar anos longe dela roído de saudades de Portugal. Mas foi de Lisboa e do bairro onde nasci e cresci que mais falta senti.

Publicado no Minho Digital

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