20.10.18

Os robertos de Tancos

Por Antunes Ferreira
Uma opera buffa não conseguiria ser pior do que o famigerado caso do desaparecimento-aparecimento das armas de Tancos. Nem sequer uma tenda derobertos se poderia assemelhar ao folhetim estapafúrdio que pôs de rastos o Exército português. Pelo menos na minha meninice quando os saltimbancos armavam nos passeios as quatro varas sobre as quais estendiam os panos atrás dos quais moviam as marionetas rudimentares os putos que nós eramos divertíamo-nos com a algaraviada das personagens e pagámos os cinco tostões que era o preço que podíamos dar pelo espectáculo.
A instituição castrense não pode ser uma brincadeira e este tristíssimo caso infelizmente tem todas as características disso. Perante ele o público – ou seja os cidadãos –  parece estar a assistir a um filme cómico sem Charlot mas com militares e uns quantos civis todos no palco como diria o José Estebes “tudo à molhada e fé em Deus”. Só que aqui não se tratou do “Bamos lá, cambada”; bem pelo contrário foi uma encenação que devastou uma instituição cuja seriedade e galhardia não pode ser posta em causa. E foi.
Cada dia que passa vai acrescentando novos pormenores a este complicadíssimo assunto e agravando o que já era e é gravíssimo. As cabeças que já rolaram não servem de atenuante muito menos de exemplo. Um qualquer exército tem forçosamente que respeitar o princípio da hierarquia. É ela que está na base da sua organização. Subvertê-la é por si só um crime. Vão longe os sovietes de soldados e marinheiros da revolução russa de 1917 e viu-se o que isso deu. Não se pode repetir uma experiência tão amarga, ainda que se tentasse em vários países que isso acontecesse.
Este mirabolante toma lá dá cá de armamento veio acrescentar ao início do descrédito do Exército com o que acontecera no curso de comandos em 2016 com a morte dos soldados Hugo Abreu e Dylan da Silva um  preocupante criticismo da população sobre os militares. Não posso falar e ódio porque seria demasiado, mas quando a dúvida se instala tudo pode vir a acontecer.
Eu próprio estive nas fileiras como oficial miliciano cinco anos dezoito dias e umas quantas horas por motivos políticos.  Chamaram-me comunista, embora o não fosse (e se o fora não me cairiam os parentas na lama…) mas, por incrível que pareça foi oficial da PJM, a Polícia Judiciária Militar – que não tinha nada que ver com esta que agora está na merda.
Por isso me custa assistir a este episódio degradante. Na tropa aprendi uma série de virtudes e também de maldades. Não enjeito esse longo período em que tive que comandar homens e levá-los quem sabia se até à morte. Um morreu-me em plena mata nos meus braços. É experiência que não desejo a ninguém. Fiz amigos e entendi o que quer dizer solidariedade. 
O que está a acontecer é impossível – mas está a acontecer.  

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19.10.18

Ninguém é a voz dos pobres

Por Joaquim Letria
Esta é a minha crónica número 50 para o Minho Digital. Todas as semanas sem falhar. Mais meia dúzia e cumpro um ano a dizer coisas para os meus amigos do Alto Minho e não só. E não vou festejar esta crónica número 50, antes pelo contrário, eis-me aqui falando de impostos que muitos prefeririam que eu não lhos lembrasse por constituírem algo muito caro aos portugueses. Literalmente…
Devo confessar que não é pagar impostos que me penaliza. O que me custa é ver onde eles vão parar, como são desbaratados e como tanta felicidade que podiam ajudar a construir é tão impunemente desperdiçada.
O governo do Sócrates deixou-nos com o tutano à mostra e o anterior a este apertou-nos por todos os lados para alegria da troika e empenho dos ministros Gaspar e Maria Luís Albuquerque, que bem singraram na vida, quer olhando-nos do FMI, quer  trabalhando  em parte time e parte certa numa financeira bem agradecida.
Agora, vemos a receita aumentar graças aos impostos indirectos, que os directos António Costa prometeu baixar e pelo menos nisso está a cumprir. O problema é que os impostos indirectos são aqueles que os pobres pagam porque os directos são estipulados ao nível dos rendimentos. Embora o nosso imposto possa ser injusto, ele está focado no que a gente ganha, enquanto nós todos pagamos o indirecto sempre que compramos qualquer coisa.
Os ricos sempre souberam fugir dos impostos directos e os pobres pagavam-nos por não conseguirem fugir. Mas os impostos indirectos são ainda mais injustos. Esta solução é contra a justiça social porque são os impostos que somos levados a pagar sem darmos por isso.
Mas a esquerda não se queixa disso. Ela está cada vez mais centrada nas grandes multinacionais, mas também agarrada pelos sindicatos e pela função pública e pensionistas porque estes são os seus eleitores que lhe importa tratar bem para as eleições seguintes. Em Portugal os pobres e os imigrantes não têm voz, os chamados partidos de esquerda não os deixam falar e a Igreja anda distraída com outras coisas.
Portugal continua a ser o País mais desigual da Europa e também ninguém fala nisso. A história do salário mínimo é uma falácia. Ninguém que trabalhe no Estado recebe abaixo do salário mínimo. Logo, o aumento deste pouco ou nada custa ao Estado. Quem tem de subir os salários mínimos são as empresas. Verdade que muitas destas pagam miseravelmente, mas também muitas micro e pequenas empresas não aguentam esse aumento. E se estas tiverem de fechar as portas atiram com mais gente para o desemprego.
Ao se dizer que se deseja justiça e que se é a favor dos mais pobres pode estar-se a agravar ainda mais a situação dos mais necessitados. Muito cuidado com isso e não julguem – políticos e sindicatos – que o povo não percebe o que se passa. Topam-vos a milhas.
Publicado no Minho Digital

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18.10.18

O capitalismo, a justiça e a liberdade

Por C. Barroco Esperança

O capitalismo descobriu a liberdade, mas desinteressou-se da justiça e da igualdade. Há avanços que só o capitalismo permitiu, mas há retrocessos da liberdade que são fruto da genética capitalista. O fascismo é filho natural do capitalismo.
Um modelo condenado a crises cíclicas, e a superá-las através de guerras, consegue pela força a sobrevivência, indiferente ao sofrimento que produz, aos anticorpos que cria e ao desespero que gera nos pobres de que precisa para se perpetuar.
As empresas visam naturalmente o lucro, o que não parece errado, mas é a amoralidade que as torna cúmplices do sistema de que são filhas. Não interessa se o seu produto é ou não tóxico, basta que seja legal ou que esteja omisso no código penal.
O bando de Chicago, onde pontificou Milton Friedemann, influenciou de tal modo esta fase do capitalismo, graças à devoção dos seus devotos Reagan e Thatcher, que o deixou à solta, tendo como aliado João Paulo II, papa reacionário cuja santidade, em vida, era o apanágio da profissão e estado civil, e, depois de morto, um brinde do marketing pio.
A derrota dos mineiros ingleses na sua reivindicação justa, nem todas são, abandonados por outros trabalhadores e pelas centrais sindicais, alterou profundamente a correlação de forças a favor dos empreendedores, como ora se designam os detentores dos meios de produção. A vitória da Sr.ª Thatcher foi a derrota dos trabalhadores à escala global.
Mal se imaginaria então que, uma geração depois, o novo salto dialético seria dado por Trump, May e uma quantidade enorme de pequenos títeres que chegam ao poder por via democrática, sem o mais leve respeito por direitos dos trabalhadores nem, sequer, pelos direitos humanos.
Estamos a assistir ao assalto ao poder por uma horda de fascistas que, país após país, já transformaram as democracias em autocracias de vocação totalitária, com o domínio das redes sociais da Internet, da comunicação social tradicional e o apoio que a insegurança dos povos lhes confia.
São pessimistas as previsões do futuro onde a expansão do modelo chinês, sob a égide do líder do partido, dito comunista, promove um despudorado capitalismo e a extinção das liberdades que moldaram a cultura europeia e a sua civilização ora ameaçada.
Depois do fracasso do comunismo, e da implosão, o capitalismo esgotou-se e é urgente encontrar um novo paradigma.
Ponte Europa / Sorumbático

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17.10.18

Pergunta de Algibeira (Enviada por Jorge Oliveira)

Este boneco pretende ilustrar a ideia de uma "primeira mulher na Lua".
Mas há algo errado. O que é?

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14.10.18

LAGOS E A LÓGICA ECOLÓGICA

«Controla o lixo, e controlarás a cidade»
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Conta-se que, nos anos 60 do século passado, um jornalista norte-americano se disfarçou de funcionário da limpeza urbana conseguindo, assim, apoderar-se do conteúdo do caixote do lixo do Presidente da República. Seguidamente, e do muito que ficou a saber acerca dos hábitos de Sua Exa., deu destaque ao facto de ele deitar fora os jornais ainda com as respectivas cintas — concluindo, com isso, que o homem mais poderoso do mundo não se preocupava muito em estar informado acerca do que nele se passava, e muito menos com a opinião pública ou publicada. Talvez essa conclusão fosse demagógica, mas a verdade é que o lixo diz quase tudo acerca de quem o produz; e, no que toca às urbes, até patenteia, e sem margem para dúvidas, o grau civilizacional das suas populações e de quem as dirige.
De facto, numa sociedade organizada, os cidadãos delegam nos poderes públicos a gestão do lixo (que, sem controlo, é um verdadeiro flagelo — veja-se Nápoles), e pagam-lhes para que o façam. Compete, pois, a estes, providenciar locais de deposição adequados, e àqueles respeitá-los; mas também neste último caso são os poderes públicos que têm de ter, ao seu serviço, fiscais competentes e em número suficiente, com funções dissuasoras e até repressivas, se necessário for. Finalmente, é ainda às autarquias que compete providenciar a remoção atempada dos resíduos, pelo que, tendo elas as funções decisivas em todo o ciclo que nos interessa, não podem eximir-se às suas responsabilidades, nomeadamente quando algo corre mal.
Dito isto, o que vemos em Lagos, especialmente nas chamadas “Ilhas ecológicas”, e nos últimos anos? Constatamos que muitos dos seus ecopontos estão, frequentemente, a abarrotar durante dias seguidos, tendo por fora o que devia estar dentro... mas já lá não cabe! Sendo assim, que moralidade tem, quem quer que seja, para nos exigir aquilo que, mesmo querendo, não podemos fazer? E que lógica tem disponibilizarem-nos as condições básicas para reciclagem, mas depois não darem seguimento aos esforços que fazemos para corresponder a esse imperativo cívico do nosso século? 
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O tema daria um livro, profusamente ilustrado com penosas imagens de Lagos (e também de lugares tão improváveis como o coração de Lisboa e o Parque Natural Sintra-Cascais), mas não é necessário, pois basta andar pelas nossas ruas para se esbarrar com a triste realidade que está diante dos olhos de QUEM QUER VER e (por vezes literalmente) debaixo dos pés, mesmo de quem não quer. Claro que não faltam os que desvalorizam o problema,nem os que apontam o dedo para o alvo errado — destacando-se os que recitam o mantra «As pessoas é que são porcas!». A estes, há que dizer que sim, que há pessoas porcas, e até muito porcas; só que isso qualquer criancinha sabe, pois é uma verdade de todos os tempos e de todas as latitudes. Mas nós também não pagamos à polícia para nos dizer que há criminosos, pois não?
Infelizmente, ainda há quem não entenda que tudo isto é muito mais grave do que uma fuga de água num jardim, pois configura uma tripla AGRESSÃO: um perigo real para a SAÚDE pública, a delapidação do nosso DINHEIRO e a degradação da IMAGEM da Cidade — com pesadas consequências para o TURISMO e, portanto, para a ECONOMIA local, que dele depende.
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Claro que seria simpático terminar este texto com palavras de optimismo mas, como tudo isto se arrasta há anos (e tem piorando nos últimos tempos), não consigo. Todavia, se alguém tiver por aí algumas disponíveis, mande-mas, que serão bem-vindas!
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Carlos Medina Ribeiro - "Correio de Lagos", Setembro de 2018

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13.10.18

Um velho "Manual de Boas Maneiras"

Erasmo de Roterdão (1466-1536)

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12.10.18

Manual de Boas Maneiras em Desuso

Por Joaquim Letria
Parece ser moda ninguém se apresentar nem apresentar quem o acompanha. Aquilo que nos ensinaram quando éramos crianças, que não se deve falar a estranhos,  teve contrato a termo certo e há muito que não está em vigor.
Mas reconheça-se que há alguns que fazem um esforço e julgam cumprir a mais elementar regra de boa educação apontando-nos a madama que trazem ao lado e proclamando “esta é a minha senhora”. Normalmente são aqueles que na ausência da “minha senhora” se referem a ela como “a minha esposa”.
Naturalmente que quem assim procede desconhece o ardil do plebeísmo em que está a cair, muito mais grave do que aquele que incorre quem quiser beijar uma amiga nas duas faces, porque se Jesus oferecia a outra face à bofetada, estas recusam o nosso segundo ósculo fraterno para parecerem – julgam elas – menos suburbanas. Nisto de saudações beijoqueiras sou adepto dos russos que continuam a dar quatro beijos, dos franceses que nunca desistiram dos três beijos e das nossas senhoras mais seniores ou do povo que são fiéis ao tradicional par de beijos, um em cada face.
Uma apresentação correcta não pode andar muito longe desta: ”João Silva, que é meu colega na empresa e a Julia que é a minha mulher”. É evidente que o ideal seria : “ Julia, conheces o João Silva que é meu colega na empresa?” Assim, ambos, Julia e João ficariam encantados e ninguém atropelava o bom gosto nem danificava as boas maneiras fossem de quem fossem.
Quem normalmente apresenta “a minha senhora” também nunca apresenta as pessoas com nome e apelido. “É a Vanessa e o Donald”. Mas nem a Vanessa nem o Donald em questão devem ser tão famosos que já ouviram falar de um e do outro a ponto de não necessitarem de sobrenome, a menos que se trate da Vanessa Redgrave e do Donald Trump, mas neste caso penso que ela não teria muito interesse em que lhe apresentassem o cavalheiro.
Diga-se em abono da verdade (verifico isto consultando os nomes das minhas alunas)  que as Vanessas agudizam o problema. Às Vanessas seguem-se as Tânias, as Carlas e as Sónias Cristinas, todas antes de uma lista mais completa de nomes em voga onde não poderiam deixar de figurar as Tâmaras, as Marisas, as Luanas e as Déboras.
Penso que a melhor maneira de castigar esta gente é deixar de lhe beijar a mão, o que não se aperceberão por este hábito estar em desuso. Hoje em dia só se beija as mãos aos padres e bispos. Mas não tenho dúvidas de que o desprezo social ensina mais do que um manual de boas maneiras.
Publicado no Minho Digital

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11.10.18

A violência contra as mulheres

Por C. Barroco Esperança

A ancestral misoginia, a perpetuação de preconceitos religiosos e os constrangimentos sociais são obstáculos à emancipação da mulher e uma forma de perpetuar a violência machista e reduzir metade da humanidade à subalternidade ou, mesmo, à escravidão.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos não é pacificamente aceite e respeitada. Toleram-se países e Estados que oprimem a mulher, em nome da diversidade cultural e do inaceitável respeito por crenças religiosas que são a matriz de Estados teocráticos.
Há jurisprudência portuguesa recente que envergonha quem a produziu, mas damo-nos conta da afronta, incompatível com o ordenamento jurídico do país laico que somos. Há países onde a discriminação é legal e a violência um direito do macho.
Não há regimes dignos, magistrados sensatos, sociedades sãs, religiões respeitáveis ou famílias dignas que discriminem em função do sexo.
Dito isto, não devemos permitir que os movimentos que se batem pela igualdade, tantas vezes com risco de vida dos seus membros, pactuem com atos de puro oportunismo, que visam a exibição de relações sexuais mutuamente consentidas e desejadas, às vezes com décadas de intervalo, invocando violência, real ou imaginária, para chantagem, vingança e/ou obtenção de vantagens patrimoniais.
Alimentar a voragem da comunicação social com descrições sórdidas e litigâncias que a morbidez popular consome, não é um combate pela libertação feminina, é um obstáculo à luta, em curso, contra a discriminação, que exige um permanente combate.
Há casos que contribuem para atrasar a igualdade que se promove e desacreditam a luta que se trava.
Os casos mediáticos estão frequentemente contaminados por vingança e oportunismo, e raramente conduzem à reparação da ignomínia ancestral à escala planetária, mas o pior que pode acontecer é a substituição da pena por mera indemnização pecuniária, dando a impressão de que os danos por violação, como nos acidentes, podem ser ressarcidos em numerário.
Exige-se discernimento nesta como em todas as lutas justas.
Ponte EuropaSorumbático

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10.10.18

17 SÉCULOS DE PENSAMENTO FILOSÓFICO ANTECEDEM AS PRIMEIRAS UNIVERSIDADES EUROPEIAS

Por A. M. Galopim de Carvalho
Foi nas colónias gregas da Ásia Menor, mais precisamente na Jónia, entre os séculos VII e VI a.C., que encontramos as primeiras manifestações de um pensamento dotado de exigência e compreensão racional.
Foi aqui que alguns dos seus habitantes mais letrados esboçaram as primeiras tentativas de explicar o mundo que os rodeava sem recorrerem à mitologia, o que era a prática comum da época. Só meio século depois, Pitágoras (circa 570-495 a.C.) deu o nome de “filosofia” a essa atitude mental.
Nascido em Mileto, cidade desta colónia, Thales (c. 623-546 a.C.) terá sido o primeiro pensador a afastar-se das crenças religiosas que conduziam a sociedade grega mais antiga e, como tal, o primeiro filósofo ocidental. Foi o surgir de um pensamento que virou costas à tradição mítica de deuses e heróis e começou a fundamentar-se nas realidades observadas no dia-a-dia. Pode dizer-se que, com ele, a experimentação quotidiana conduziu à laicização do conhecimento e à sua condução no caminho do racional.
Dentro deste espírito surgiram na Escola que fundou em Mileto e noutras, ao longo dos séculos VI e V a.C., as primeiras ideias, ditas filosóficas, como o embrião de uma ciência teórica, meramente especulativa, sem qualquer apoio experimental. Estas escolas foram comunidades de pensadores ditos pré-socráticos (Tales, Anaximandro, Anaxágoras e Heráclito, entre outros), cujas ideias, muitas vezes divergentes entre si, foram os primeiros passos na procura do conhecimento no mundo ocidental. Dizemos ocidental porque havia outros a oriente, não menos importantes, nomeadamente, na índia, na Mesopotâmia, na Pérsia e na China, pensamentos que, é preciso dizer, tiveram influência na cultura grega. 
Sócrates, Platão, Aristóteles e muitos, muitos outros, menos conhecidos do grande público, legaram-nos um pensamento despido de deuses e heróis, considerado o caldo das escolas e universidades medievais.
Esta vitória do pensamento laico sofreu grande retrocesso com o advento do catolicismo (do grego“catholikós”, universal), em especial pela influência de Agostinho de Hipona (354-430), mais conhecido por Santo Agostinho e um dos maiores teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo. Segundo este doutor da Igreja, a única verdade era a dos Santos Evangelhos.
Instituição da Idade Média, a Universidade nasceu como algo mais do que a Academia de Atenas, fundada por Platão, no século IV a. C. (nos jardins de Akademós, o herói da mitologia grega e, daí, o nome). Tanto nesta Academia como no Liceu fundado pelo seu discípulo, Aristóteles, os mestres limitavam-se a especular e debater com os discípulos as suas ideias. 
Durante, praticamente, toda a Idade Média, a Igreja Católica Romana deteve o monopólio da cultura e do pensamento. Daí, o ensino ser ministrado por eclesiásticos e os conteúdos e objectivos serem estabelecidos pela hierarquia religiosa, tanto nas Escolas (paroquiais, catedrais, monacais e palatinas), como nos Estudos Gerais e nas Universidades que, a partir deles, se formaram. Lembremos, a propósito, que a palavra “universidade” radica no latim “universum” (com o significado de “tudo junto” ou “tornado um”), de “unus”+”versus” (particípio passado do verbo “vertere”, tornar, verter). 
Enraizadas na Europa Ocidental, a partir de meados do século XII, no contexto do chamado “Renascimento do Século XII”, as “Universitas Magistrorum et Scholarium”, as verdadeiras Universidades foram comunidades de mestres e discípulos, procurando funcionar como centros de ensino, de pesquisa e produção de saber e, ainda, pólos de debates, não raras vezes, conflituosos. Como locais propícios ao desenvolvimento de ideias, sofreram intervenções de reis, ordens religiosas e, até mesmo, dos papas. O elevado valor já então atribuído ao conhecimento científico, entendido como um “dom de Deus”, proibia os professores de receberem honorários. Assim, estes viviam das dádivas dos alunos (vindos, sobretudo, da nobreza) sob a forna de colecta. 
Surgidas na Itália, na França e na Inglaterra, estas Universidades visavam o estudo do Direito, da Medicina e da Teologia, numa perspectiva do enobrecimento do espírito dos homens e na elevação das suas virtudes. Com raríssimas excepções, as mulheres não eram voltadas para essa educação. 
Um parêntese para dizer que, anteriormente a estas Universidades, fora criada em Bolonha, em 1088, uma estrutura afim, vocacionada para, ao mesmo tempo, ensinar a nível então tido por superior e investigar no sentido de inovar conhecimento. Lembrada por Universidade de Bolonha,caracterizou-se por procurar um ensino liberto das amarras da Igreja Católica. Esta não foi, porém, a mais antiga de todas. Antes dela surgira a Universidade de Al Quaraouiyine, em Fez (Marrocos), no ano de 859, a de Hunan (Changsha), na China, em 976, e a de Al-Azhar, no Cairo, Egipto, em 988.
No final da Idade Média, já em pleno Renascimento, as Universidades viram aumentar o número de estudantes filhos de uma burguesia em crescimento, exigentes de uma formação mais ampla, incluindo a de caráter técnico, abrindo-se às Artes, à Matemática, à Filosofia e à Arquitetura. Entre 1200 e 1500 foram fundadas, na Europa, cerca de 80 universidades, muitas delas por bulas emanadas de Roma. 
Entre elas, destacam-se:
Século XI – Bolonha e Oxford.
Século XII – Paris e Modena.
Século XIII – Cambridge, Salamanca, Montpellier, Pádua, Nápoles, Coimbra (1290)….
Seculo XIV - Lérida, Roma, Pisa…
Século XV – Turim, Leipzig, Poitiers, Lovaina…
Século XVI – Évora (Universidade do Espírito Santo)…

Foi o tempo da escolástica, a filosofia cristã colocada na base de todo o ensino, concebida como uma via para harmonizar a razão com a fé. Foram, porém e apesar de tudo, instituições de excelência internacional, consideradas os locais de ensino e de investigação mais prestigiados da Europa medieval. 

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9.10.18

JUÍZES A REFRESCAR

Por Joaquim Letria
O novo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, quarta figura na hierarquia do Estado, disse, quase a par da Associação de Apoio à Vítima, que os juízes deviam refrescar os seus conhecimentos sobre os crimes sexuais e actualizar as suas ideias quanto às diferenças de género. Deus os ouça! 
Dantes, um magistrado para chegar a juiz passava anos como acusador público, devia percorrer as comarcas, das menores às mais importantes, prestar provas e ser, finalmente, juiz de Direito. Hoje, para se dizer que se é juiz, basta um daqueles cursos da tanga, dessas chamadas universidades que há por aí, comprar o Código  de Direito Penal, melhorar o aspecto com duas demãos do verniz  do Centro de Estudos Judiciários e, aplicando leis enviesadas, pôr-se a mandar inocentes para a cadeia e a deixar culpados cá fora, dizendo disparates a torto e a direito. 
Diga-se, em abono da verdade, que na sua grande maioria os juízes são sérios e competentes, nem todos vendem sentenças ou batem na mulher. Mas agora, que se fala em os mandar aprender certas coisas, que se aproveite para lhes ensinar o resto que lhes falta. Para que haja menos Direito e mais Justiça.
Publicado no Pasquim da Vila

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6.10.18

LAGOS E A CRISE DO TURISMO

«As maiores descidas nos hotéis do Algarve, em Junho, verificaram-se em Lagos e Sagres (menos 14,1%). Mas nas zonas de Vilamoura, Quarteira e Quinta do Lago houve subidas turísticas de 7,1%».
in Jornal do Algarve, 5 de Julho de 2018
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Certo dia, em conversa com um coronel da Força Aérea, ouvi-lhe dizer uma coisa que nunca mais esquecerei: “Salvo em casos excepcionais, um avião nunca cai por UM único motivo. Há sempre VÁRIOS, simultâneos ou em cadeia, que concorrem para o desastre”.
Lembrei-me dessa afirmação a propósito dos maus resultados do turismo do concelho, pois, também nessa queda, as causas são muitas e variadas, valendo a pena distinguir três tipos de problemas:
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- Aqueles contra os quais NADA SE PODE fazer; 
- Aqueles que poderão ser RESOLVIDOS — não pelos lacobrigenses, mas pelos poderes públicos;
- Aqueles em que PODEMOS INTERVIR activamente.
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No primeiro caso, a principal condicionante é a nossa situação geográfica: olhe-se para o mapa da Europa, e veja-se a que distância estão as fontes de turistas estrangeiros. Diria La Palice que “para que eles venham para cá, é preciso que não vão para outros lados”, uma verdade que nos obriga a concorrer com destinos de alta relação qualidade/preço, incluindo países que superaram, ultimamente, problemas de segurança interna que os afastavam.
Mas, em Portugal, Lagos (tal como a referida Sagres) ainda tem de competir num outro “campeonato”, nomeadamente contra Porto e Lisboa, estando, para mais, no extremo sudoeste do país. Como podemos trazer mais gente com um aeroporto a 80 km, uma A22 com portagens absurdas, uma 125 inenarrável e um comboio ao melhor nível da arqueologia industrial?
Tal como sucede com o nosso Hospital, as últimas três realidades não dependem dos lacobrigenses. São problemas estruturais (que exigem soluções de prazo variável), mas podemos pressionar os nossos políticos para que ajam em nosso favor — onde, quando e como puderem... e já não será pouco!
Também somos impotentes contra o Brexit e a desvalorização da libra, mas há muitas coisas que poderemos fazer; e é uma reflexão séria e desapaixonada acerca disso que se torna urgente... e já vai sendo tarde.
De facto, não está nas nossas mãos ir buscar os turistas e trazê-los para cá. Mas podemos fazer com que VOLTEM, nunca esquecendo que “O Homem é um animal de hábitos”, e o turista é-o, acima de tudo.
Sucede, porém, que isso obriga a ter em conta uma grande quantidade de problemas (todos bem conhecidos); mas a forma como eles são abordados entre nós nem sempre é isenta, despartidarizada e pacífica.
A juntar a isso, muita gente parece pensar e agir como se estivéssemos nos Anos 60 do século passado, quando sol, praia e bares chegavam e sobravam para manter o turismo algarvio florescente e de boa saúde.
Mas esse tempo acabou e não volta: o turista moderno, especialmente aquele com poder de compra, tornou-se muito mais exigente, até porque alternativas não lhe faltam por esse mundo fora.
Esse turista é sensível, pela negativa, a praias descaracterizadas, a ruas porcas ou esburacadas, a passeios atafulhados de carros, a paredes e monumentos grafitados, a ecopontos a transbordar de lixo (convocando gaivotas, ratos e baratas), a barulho sem horário nem regras, a indivíduos a urinar nas ruas, a árvores cortadas sem motivo, a casas-de-banho encerradas, sujas ou com horários absurdos, a ruas sem passeios dignos desse nome...
Porém, uma vez identificados os problemas resolúveis (assim haja vontade cívica e política para tal), Lagos poderá superar (ou pelo menos minorar) a crise que lhe está a bater à porta, mostrando ser um destino turístico de primeira qualidade, à altura dos desafios colocados por uma sociedade moderna e um turismo exigente.
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Carlos Medina Ribeiro - "Correio de Lagos", Agosto de 2018

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5.10.18

Dívidas, Financeiros e Má Fama

Por Joaquim Letria
Passamos a vida importunados pela dívida e com os nossos bem amados dirigentes a zurrarem-nos que a culpa é nossa porque vivemos acima das nossas possibilidades, por mais precários que sejam os nossos empregos e exíguos os salários vergonhosos que nos pagam e com que nos metem medo. Mas nada disto é novo e eles devem-no saber, a menos que na sua gloriosa incompetência tal ignorem. Mas podemos lembrar-lhes algumas coisas ao mesmo tempo que aliviamos o nosso complexo de culpa.
Olhamos a Idade Média e vemos os empréstimos contraídos pelos monarcas, quase sempre de maneira disfarçada, uma vez que a condenação canónica da usura atingia, também, esta modalidade de crédito. Vemos, ao mesmo tempo, a actividade do financeiro perseguida e tendencionalmente confinada aos judeus, sendo os usurários ameaçados com a excomunhão e as penas do inferno por venderem um bem – o tempo – que só a Deus pertence.
No Deuterónimo estava expresso o mandamento “não exigirás do teu irmão juro nenhum nem por dinheiro nem por víveres, nem por qualquer outra coisa que se preste ao pagamento de juros.” Os pregadores medievais tornaram este tema dominante nos seus sermões, com o usurário inevitavelmente destinado ao Inferno. Alguns, “in extremis”, tentavam a salvação com a entrega a obras pias dos lucros acumulados, sem que tenham chegado até nós notícias do êxito de semelhantes iniciativas.
Alguns historiadores fizeram o delicioso levantamento das peças e das penas do Inferno que, inevitavelmente, aguardavam os usurários no imaginário difundido. Em alguns deles podemos mesmo encontrar as descrições das justificações com que a doutrina católica procurará corresponder às crescentes necessidades de aceitar uma prática que, na realidade, se difundia e seria fundamental para o aparecimento do Estado moderno. Muito mais tarde Benjamin Franklin soltaria a famosa frase “time is money” sintetizando uma nova ética do capitalismo.
Neste lento processo acabou por surgir a figura dos financeiros que normalmente indica uma classe de pessoas ligada ao dinheiro público, quer através de funções políticas ou como prestamistas do Estado. Ao mesmo tempo, os Estados foram aperfeiçoando a disciplina jurídica do endividamento bem como os mecanismos de gestão da dívida pública.
Da má fama não escapam nem uns nem outros, nem a dívida nem os financeiros. Importa que o Estado saiba usar a dívida com virtude e virtuosismo e que os financeiros aceitem regras adequadas que os afastem das penas do Inferno previstas pelos cânones.
E já agora que Deus lhes dê virtude a ponto de serem capazes de nos deixarem em paz sem nos fustigar cada vez mais intensamente, sempre a gritarem na sua imoralidade que a culpa é inteiramente nossa.
Publicado no Minho Digital

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4.10.18

Escândalos e política

Por C. Barroco Esperança

No escândalo da Universidade Moderna, onde a direita se atolou, a falência fraudulenta da empresa de sondagens ‘Amostra’ não teve arguidos e a montanha de acusações pariu a prisão de dois ratos sem relevo político e acusações injuriosas ao censor Sousa Lara.
Valeu o processo Casa Pia para fingir que a pedofilia é uma patologia do PS e os crimes sexuais uma preferência da esquerda, para fazer esquecer o atoleiro em que se afundava a direita que agora mostra as garras em tristes gorjeios de Cavaco ou uiva em artigos de opinião do Observador, onde a chancela de Passos Coelho está disponível.
Enquanto os Papéis do Panamá permanecem confiados a órgãos de comunicação social, sem divulgação dos segredos que lhes cabia revelar, o País verifica que se perderam os documentos dos submarinos, estão por inquirir autarcas do PSD que a Visão investigou, e passaram a irrelevantes os casos BPN, Vistos Gold, Banif, Tecnoforma e BES.
Às vezes, por ignorância das leis, acusam-se juízes levianamente. É o caso da proibição de escutas a Luís Filipe Meneses, um dos autarcas de quem Marco António foi cúmplice na funesta administração do município de Gaia. É evidente que Meneses não podia ser escutado quando conselheiro de Estado, não como Dias Loureiro, dileto do PR Cavaco, mas por indicação do PSD de Passos Coelho.
O que não se entende é o esquecimento da PGR das suspeitas que levaram o Ministério Público a pedir autorização das escutas, que o juiz impediu – e bem –, depois de perder o privilégio de que gozam os membros do órgão consultivo do PR.
São estes esquecimentos que radicalizam posições contra beneficiários de estatuto cujas funções o legitimam, porque se eternizam e só voltam ao conhecimento público, quando voltam, depois de arquivados os processos por terem excedido os prazos.
Ainda é possível investigar a denúncia da Visão se, caso se confirme, julgar os alegados corruptos da teia autárquica que se descreve nas 20 páginas da Visão.

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29.9.18

Crimes e investigações

Por Antunes Ferreira
De repente apareceram pessoas a matar pessoas com requintes de malvadez, premeditadamente, com sangue frio q.b. crimes quem sabe se copiados e ou pelo menos inspirados em séries policiais de canais televisivos do tipo AXN. Será que uma vez mais o que falta de imaginação a nós, portugueses, terá de vir de fora, terá de ser importado? Já se sabia que a balança de pagamentos era usualmente deficitária. Mas pelo andar da carruagem agora a balança criminal também começa a sê-lo…
Há uns tempos o meu amigo e também jornalista Nicolau Santos (que muito admiro) escreveu um artigo em que enumerava as alíneas demonstrativas de que não somos um país pequeno. Arquivei-o mas no meio da desordem desarquivada que pratico não o consigo reproduzir aqui o que é uma contrariedade – e das grandes, ainda que s contrariedades não se devam quantificar. Mas, perdoem-me, sou assim e não é aos 77 anos que vou mudar. Burro velho…
Mas voltando à vaca fria (como diz o povo)  estes crimes passionais abrem um fosso profundo entre aqueles a que nos habituámos através das páginas de pasquins apelidados de jornais como é o caso do “Correio da Manha”, oops, “Manhã” e nos audiovisuais da sua CMTV. A TVI bem se esforça por integrar o pelotão mas não consegue, ainda que por vezes consiga atingir alguns objectivos.
O caso do matutino é paradigmático: as suas equipas de “reportagem” chegam sempre antes das polícias que vão averiguar as ocorrências. É um mistério que me tem vindo a deixar muitíssimo intrigado, mas que creio fácil de resolver: saber quem informa o “Correio” antes de alertar as autoridades. Facílimo. O busílis é saber quem e quem…
Estes dois últimos casos o da senhora abatida pela filha adoptiva e genro e do triatleta assassinado pelo amante da esposa e por esta revestem-se de duas características que há que ressaltar: por um lado a desfaçatez e a  ironia de serem os próprios criminosos a alertarem as autoridades para os “desaparecimentos misteriosos” dos que já tinham eliminado.
Por outro a proficiência, a paciência e o profissionalismo dos investigadores portugueses que passo a passo,  cuidadosamente, foram tecendo as teias em que os matadores se enredaram. Descendo as mínimos pormenores, sem dar nas vistas, paulatina e perseverantemente quais cães de fila atrás do cheiro, de uma pista. Nós, os portugueses, temos de lhes agradecer, pois estamos entregues em boas mãos.
Mas, infelizmente, neste contexto da investigação toda a rosa tem os seus espinhos. Os casos de Tancos são vergonhas a que o Exército não pode escapar. Quando o chefe máximo da Polícia Judiciária Militar fica em prisão preventiva, depois da sua instituição ter andado a “brincar às escondidas” com a sua partenaire civil há forçosamente que citar Shakespeare quando Hamlet diz que “Algo está podre no reino da Dinamarca”. Pelos vistos algo está podre no reino da investigação em Portugal..

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28.9.18

Jovens & Velhos

Por Joaquim Letria
Nesta euforia situacionista que Portugal vive esquecemos muitas vezes duas importantes realidades. Uma é a do mundo das dificuldades que Jovens & Velhos têm de enfrentar para fazerem face à vida que desejam viver hoje; a outra é o reconhecimento de que, apesar de todos os defeitos e desperdícios, escândalos e poucas vergonhas, o País mudou, com uma vida melhor para as populações, uma melhor saúde pública, uma velhice mais digna e prolongada, mais modernidade em algumas infra-estruturas, mais liberdade e melhor dia-a-dia, educação aberta para todos os que souberem lutar contra as dificuldades e forem capazes de agarrar as oportunidades.
Não podemos ignorar o modo como os nossos cientistas, investigadores, poetas, romancistas, actores, dramaturgos, realizadores, arquitectos, desportistas, pintores e músicos nos enchem de orgulho, cá dentro e lá fora, com a sua criatividade, a sua preparação e a sua qualidade. A vida cultural que Portugal hoje oferece aproxima-se do nível de outros países mais ricos e desenvolvidos e não nos envergonha em nada. Mas por tudo isto não podemos negar ajuda, compreensão e oportunidades a tantos que lutam por uma possibilidade de demonstrar o seu talento.
Há uma música dos Deolinda que vale a pena ouvirmos de vez em quando, para lhes darmos razão e ajudarmos a que a verdade amarga de que nos fala deixe de ser assim, para tantos. Reza assim essa canção:
“Sou da geração sem remuneração
E não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
Já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.” 
Pois é… temos de conseguir construir uma sociedade capaz de criar espaço para que quem sai da universidade possa ter o lugar a que tem direito pelo seu conhecimento e pelo seu esforço. Na minha modesta opinião competiria às universidades auxiliar-nos mais a construir esse espaço.
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27.9.18

Rui Rio e o esgoto que corre contra ele

Por C. Barroco Esperança
A família política de Rui Rio não é a minha, mas não posso deixar de denunciar os seus adversários, aqueles vermes que circulam nos esgotos do neossalazarismo e desaguaram nas alfurjas do PSD. São os mais ressentidos reacionários os que mais o contestam.

A decadência ética do partido acelerou quando o cavaquismo se tornou a sua referência e Passos Coelho a escolha de Miguel Relvas e Marco António. Sá Carneiro, Magalhães Mota e Pinto Balsemão desapareceram da memória coletiva do PSD e deram lugar aos adversários da Constituição, seduzidos pelos ventos reacionários que sopram da Europa.
O exemplo húngaro e polaco são o desígnio oculto dessa oposição interna que rejubilou com a eleição de Pablo Casado para a liderança do PP espanhol. Velhos militantes do MRPP e neossalazaristas engrossam as fileiras da oposição a Rui Rio, tendo no Observador o órgão oficioso e na generalidade da imprensa os almocreves de serviço.
Quando um partido se sente órfão do ora catedrático Passos Coelho e não permite que o economista Rui Rio o substitua, talvez porque pagou sempre o que devia à Segurança Social e ao Fisco, não arrecadou fundos europeus para uso fraudulento e não tem títulos académicos oferecidos, é porque é infecto o ar da Rua de S. Caetano, à Lapa, e suspeitos os que querem assaltar a liderança. Não são políticos que defendam causas, são piratas ávidos do poder.
O Observador exumou o vereador de Loures, André Ventura, um professor universitário fascista que teve o apoio expresso de Passos Coelho para candidato à autarquia e cujas posições xenófobas e extremistas levaram o CDS, por cálculo ou vergonha, a abandonar a coligação que tinha sido firmada. É ele o atual adversário de Rui Rio.

O primata, professor de direito, defensor da pena de morte, do trabalho obrigatório para reclusos e da castração química de pedófilos, é o académico erudito, com conhecimento aprofundado de hebraico e arábico, que apoia Luís Montenegro para substituir Rui Rio.

Para já, tem tempo de antena e propõe-se arranjar o número de assinaturas necessárias a um congresso extraordinário para afastar Rui Rio. Ao pé dele, até Nuno Melo e João de Almeida, do CDS, parecem democratas, e a Dr.ª Cristas uma estadista.
Com o afastamento do menino guerreiro à procura de gente para o seu novo partido, não faltam guerreiros nas hostes de Passos Coelho cujo regresso aguardam para a batalha de Alcácer-Quibir onde soçobrará o que resta do PSD.
Talvez Marcelo lhe dê a mão e resgate o partido da infâmia deixando ao CDS o trabalho sujo contra o Estado de Direito.

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21.9.18

Vistas largas roupas curtas

Por Joaquim Letria
Rendo-me com surpresa ao êxito da minha crónica “A Sociologia dos Saltos Altos”. No fim de contas, não tenho por onde estranhar. Os homens gostam que lhes falem de mulheres e de erotismo e as mulheres também, mas além disso apreciam ver como há quem goste de lhes mexer nos seus trapinhos.
Explorando o sucesso, como Clausewitz diria na sua estratégia militar, eis-me a regressar ao tema, ainda que me colocando noutra posição de modo a poder ver a infantaria, cavalaria e artilharia desta tropa que finge não existir mas espreita, disfarçadamente, os avanços dos que ousam intrometer-se nas suas posições de batalha.
Penso que os fantasistas, e são muitos estes militantes dos prazeres secretos, apreciam silenciosamente aqueles utensílios de comodidade ou embelezamento que as mulheres usam junto às suas partes mais íntimas.
O “soutien gorge”, as cuequinhas, os sapatos de salto alto são as três grandes peças do fetichismo masculino que a mulher sabe utilizar a seu favor com inteligência e sensualidade. Há quem considere estes minúsculos instrumentos da comodidade ou elegância femininas objectos de tal arte que, em conhecidos casos extremos, chegam a guindar-se ao posto de troféus de batalha. Mas vamos por partes.
A cuequinha é o grande fetiche. Trapinho de seda, renda ou cetim tem por lugar as profundezas mais íntimas e perfumadas, sendo por isso o epílogo de romances de altanaria, ou o prólogo do que vai na alma duma mulher, podendo converter-se para o macho no mais apetecível prémio, obstáculo último a vencer, o qual se pode tornar numa barreira intransponível se o coração ou o ânimo dela lhe fizer soltar o monossílabo “não”!
Enfim, depois dos sobressaltos da Primavera - Verão sucedem-se os sombrios Outono – Inverno e no anúncio de cada uma destas colecções há sempre o receio de mais trabalho quer em vesti-las mas também em despi-las. E resta ainda o recurso, que intencionalmente deixei de fora, do perfume. O perfume tem um corpo vivo, note-se, é muito mais do que um frasco de duas onças.
Seja como for que as mulheres se apresentem, não as temamos. Dêmos-lhes o seu valor, admiremos a sua inteligência, apreciemos a sua consciência, reconheçamos a sua força, rendamo-nos à sua infinita competência, desfrutemos a sua beleza e aceitemo-las nuas e cruas ou como elas se nos quiserem apresentar.
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20.9.18

Jurisprudência perturbadora

Por C. Barroco Esperança
É difícil conciliar a defesa das liberdades individuais, que perfilho, com limitações que considero irrevogáveis. Quem consiga ser coerente e justo, ao mesmo tempo, que atire a primeira pedra.
Aceito, como sucede na Alemanha, que a liberdade de expressão não se compadeça com o negacionismo em relação ao holocausto. Aceito, e exijo, a obrigatoriedade do ensino, das vacinas, do respeito da lei e da submissão aos valores civilizacionais.
Serve o preâmbulo para manifestar perplexidade perante uma sentença recente, referida na comunicação social, e logo esquecida, como tema que não merecesse ser escrutinado pelos cidadãos.
Uma juíza entendeu dispensar da frequência escolar uma menor que considerava ter as competências escolares básicas para as suas necessidades, e “não demonstrar motivação para frequentar a escola e ajudar a mãe nas tarefas domésticas”, aliada ao facto de ser “de etnia cigana e de cumprir com as suas tradições” o que a levava “a considerar que não necessita de frequentar a escola”. Entendeu ainda a juíza que o desenvolvimento dos jovens para uma vida digna passa, por vezes, “por caminhos diversos e igualmente recompensadores que não simplesmente a frequência da escolaridade até à maioridade”.
Esta sentença trouxe-me à memória um miúdo cigano, que foi meu aluno, inteligente e simpático, que procurei diversas vezes no bairro da Musgueira, para convencer os pais a deixá-lo frequentar a escola onde era um bom aluno, apesar do absentismo frequente.
Consegui que fosse mais algumas vezes, mas acabou por desaparecer, ele e os pais. Foi um sentimento de frustração que me ficou daquele miúdo encantador que podia e devia ter prosseguido os estudos, quando era apenas obrigatória a 4.ª classe, que não concluiu.
No caso desta menina, acredito que a juíza não podia dar-lhe a motivação, que a família desencorajava, nem garantir a assiduidade sem coação policial, mas aceitar a tradição como justificação e fazer jurisprudência legitimando o comunitarismo contra a integração cidadã, parece-me um precedente particularmente grave.
Uma sentença diferente teria provavelmente efeitos iguais para a jovem, mas legitimar a desigualdade de oportunidades com base na tradição, ofende a igualdade dos cidadãos perante a lei e privilegia os preconceitos. Não há, aliás, uma única iniquidade, desde o esclavagismo à desigualdade de sexo, do racismo à xenofobia, da homofobia à misoginia, da tortura à pena de morte, em que não pudesse ser alegada a tradição.
Seria preferível a desobediência, sempre passível de repressão, do que a legitimação de uma opção que reproduz o ciclo de pobreza, marginalidade e submissão da mulher.
A sentença em causa é jurisprudência que urge ser revogada por um tribunal superior. A igualdade dos cidadãos perante a lei é essencial para a igualdade de oportunidades que o Estado deve defender.

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16.9.18

Obrigado, Joaquim Letria!

"Correio de Lagos" deste mês

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14.9.18

A sociologia do salto alto

Por Joaquim Letria
Depois das botifarras Doc Martens, tipo bota da tropa, que há tempos as jovens tanto gostavam, a moda do salto alto não desaparece e até se agudiza à finura do salto–agulha de 15 ou 17 centímetros. Tenho algumas amigas a quem, para lhes oscular o rosto com amizade, quase tenho de trepar para um banquinho de modo a ficar à altura.
Colin McDowell, um filósofo do calçado e da sensualidade, no seu tratado "Shoes, Fashion and Fantasy" (Thames & Hudson) não hesita em escrever que as mulheres nunca dispensarão o salto alto pela simples razão de que lhes evidenciam as ancas, favorecem os tornozelos e fazem parecer que têm as pernas mais longas.
McDowell concorda com a sua colega Beatrice Faust, autora de “Mulheres, Sexo e Pornografia”, que escreve que os saltos altos não só fazem as mulheres parecerem sexy  “mas também fazem que se sintam sexy”. Ambos ignoram, mas todos nós também sabemos que assim é, que os saltos altos fazem as crianças sentir-se adultas, ainda que por efémeros momentos, daí qualquer menina tomar de empréstimo os sapatos da mãe e com eles tarocar pela casa fora ou simplesmente se ver e admirar ao espelho.
Evidentemente que no fetichismo do calçado, o salto alto é associado ao poder, à dor e à dominação, pois não se vê filmes ou erótica em geral sem uma mulher vestida de latex a desfrutar da crueldade e a infligir o prazer da dor, brandindo o chicote e pisando o comparsa de saltos rasos.
Claro que a cor também é muito importante. O vermelho e o negro são as cores mais importantes e hoje até a sola vermelha é uma imagem de marca como Christian Loubotin pode comprovar de modo indesmentível.
Como aqui fica demonstrado, os sapatos de saltos altos das minhas amigas bem podem levar-nos muito longe, sem termos de chegar aos mocassins vermelhos do papa Bento XVI que o cardeal Ratzzinger não se dispensou de impor com a sua meia branca. Nem temos de recordar o padecimento das jovens chinesas que viviam num doloroso aperto para ficarem com pés minúsculos, com os quais davam o seus curtos e graciosos passos que as faziam parecer avezinhas esvoaçando em redor dos seus senhores.
Lamento é que exportando nós tanto e tão bom calçado, algum até usurpado por marcas de renome suíças, inglesas e italianas, não tenhamos um único sociólogo ou um psicólogo a ajudarem os estilistas e fabricantes portugueses. E quando estes académicos  se debruçam sobre o calçado é para irem ao tempo da outra senhora e nos falarem das botas que chegaram a justificar a alcunha  do Dr. Oliveira Salazar.
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13.9.18

Espanha a caminho de um Estado laico

Por C. Barroco Esperança
Numerosos espanhóis ignoram a lei franquista de 1944, que permitiu aos bispos registar em nome das dioceses o património público que lhes aprouvesse, sem necessidade de justificar a legitimidade. Tinham outorgadas funções de notários e registavam os bens de que quisessem apropriar-se. Foram muitos os bens públicos que saciaram a gula episcopal e, às vezes, privados, cuja indemnização aos proprietários foi imposta ao Estado espanhol pelo Tribunal de Estrasburgo.
A lei iníqua, que Aznar, ligado ao Opus Dei, ampliou em 1998, só caducou em 2015. A voracidade eclesiástica registou templos, praças públicas, fontes, monumentos, vinhas, cumes de montes e outros bens, numa dimensão que está agora a ser averiguada. Em declarações à comunicação social, no ano passado, o representante da Conferência Episcopal admitiu serem 30 a 40 mil propriedades.
Como exemplo, e por ser o caso mais escandaloso, a Mesquita de Córdova, património da Humanidade desde 1984, foi registada pela Igreja, em 2006, com o valor patrimonial de 30 euros, e a diocese cobra 10 euros por cada entrada na «sua Catedral», que é o 3.º monumento mais visitado de Espanha, e com direito a impedir o culto islâmico.
Embora a Igreja ameace o Governo por exigir os bens públicos que os bispos e párocos puseram em seu nome, o ministério da Justiça está a ultimar a lista de propriedades que o clero registou ao abrigo da lei franquista, talvez em pagamento da cumplicidade e do silêncio no genocídio que o ditador levou a cabo.
Até há pouco, com a cumplicidade dos governos de direita, que obtinham votos com os privilégios concedidos à Igreja católica, era tarefa difícil, ou impossível, investigar os bens piedosamente recetados.
O que apavora os dignitários religiosos é que se torne pública a imensa riqueza de que a Igreja se apropriou de forma indigna. Nem a severa advertência da sentença (junho de 2017) do Tribunal de Justiça da UE contra os Acordos de 1979 do Estado Espanhol com a Santa Sé, que declarou contrárias ao direito europeu as bonificações e isenções fiscais concedidas, parece ter abalado tanto o episcopado espanhol.
O nacional catolicismo permitiu à Igreja católica a apropriação de todos os templos, quer fossem igrejas, mesquitas ou sinagogas, e de palácios, largos públicos, casas de habitação, vinhedos, olivais, quintas agrícolas e picos de montes, onde uma cruz romana marca a propriedade como o ferro em brasa ao gado dos ganadeiros.
A Conferência Episcopal argumenta que a Igreja cumpriu sempre as leis em vigor, leis de que devia envergonhar-se, e nota-se o incómodo que a divulgação da apropriação de bens públicos lhe causa. A “inmatriculación” (1.º registo), permitia-lhe registar os bens públicos que o Estado não tivesse inscritos.
Bem-vinda, laicidade. As almas do Purgatório abdicam das caixas que recebem o óbolo, mas o clero anda possesso com a concorrência que reclama privilégios iguais, sobretudo 0,7% do IRPF (IRS português) dos seus crentes e as ajudas públicas que a vigência da Constituição tornou ilegais e continuam ao abrigo do escrutínio do Tribunal de Contas.
O Governo exigirá os bens que a Igreja pôs em seu nome e o paraíso judicial e fiscal em que vive a Igreja católica, de que a “Europa Laica” acusa o Governo, acabará por razões de justiça e salubridade democrática.

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11.9.18

"Correio da Manhã" de hoje
NOTA: Tem um erro. O nome da Biblioteca era de um tio avô

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SOBRE O GRANITO E A SUA ORIGEM, NUMA CONVERSA TERRA-A-TERRA.

Por A. M. Galopim de Carvalho
Já dissemos que não há um, mas sim, vários tipos de rochas a que o vulgo dá o nome de granito
Deixando este tema para outras conversas, comecemos agora por dizer que o termo granito, em sentido restrito, designa uma rocha plutónica (gerada em profundidade, na crosta), granular, rica em sílica (mais de 70%), com quartzo essencial, expresso e abundante (20 a 40%), e feldspato alcalino (ortoclase, microclina, albite). Como mineral ferromagnesiano contém, geralmente, biotite, sendo raros os granitos com anfíbolas ou piroxenas. Entre os seus minerais acessórios, destacam-se moscovite, apatite, zircão e magnetite. Esta rocha corresponde ao que, numa linguagem mais rigorosa, se designa por “granito alcalino”. O termo granito, atribuído ao italiano Andrea Caesalpino, surgiu em 1596, e radica no latim granum, que significa grão.
Imagine o leitor uma paisagem como a do norte de Portugal, essencialmente formada por granitos, xistos argilosos e grauvaques, na margem ocidental da placa litosférica euroasiática, à beira de um oceano (o Atlântico) que a separa de uma outra placa (a Americana). Como é sabido, os agentes atmosféricos (a humidade, a água da chuva, o oxigénio e o dióxido de carbono do ar e as variações de temperatura) alteram (“apodrecem”) as rochas e é essa alteração, ou meteorização, que gera a capa superficial (rególito) que dá origem ao solo.
— E quais são os materiais desta capa de alteração e do respectivo solo? – Pergunta-se.
Restringindo a resposta ao local em questão, aos principais minerais destas rochas, e à situação climática que aqui exerce a sua influência, diremos, de um modo muito esquemático, mas que aponta o essencial da questão, que:
(1) No granito, o feldspato altera-se, transformando-se parcial e, de início, superficialmente, em argila. Alterando-se o feldspato, os restantes grãos minerais descolam-se uns dos outros e a rocha perde coesão (esboroa-se entre os dedos). Os grãos de biotite (uma mica contendo ferro) também se alteram e dessa alteração resulta o seu aspecto “enferrujado”, o que confere à rocha exposta as cores de castanho-amarelado, que contrasta com a cor da rocha sã, acabada de cortar. O quartzo não sofre qualquer alteração, o mesmo sucedendo à mica branca (moscovite) que apenas se divide em palhetas cada vez mais pequenas e delgadas.
(2) No xisto argiloso, que além de argila tem quartzo em grãos finíssimos, microscópicos (ao nível de poeiras), tem lugar a perda de coesão destes materiais.
(3) No grauvaque acontece outro tanto, com a libertação dos seus componentes arenosos (os mesmos do granito, mas muito mais finos). 
Podemos agora dizer que os rególitos e os solos desta região de Portugal têm uma fracção arenosa com quartzo abundante, algum feldspato, micas e um fracção argilosa ou barrenta que faz o pó dos caminhos, em tempo seco, e a lama, em tempo de chuva. Podemos igualmente dizer que, quando chove com certa intensidade, as águas de escorrência arrastam estes materiais, com suficiente visibilidade na componente argilosa em suspensão. Isso vê-se frequentemente nas enxurradas, nas águas barrentas dos rios e, até, no mar, frente às fozes desses rios.
As pedras (cascalho) vão ficando, em parte, pelo caminho, outras atingem o litoral e não passam daí. As areias enchem as praias, as dunas e o fundo rochoso da plataforma continental. As areias mais finas e as argilas, incapazes de se depositarem em mar de pequena profundidade, constantemente agitado pela ondulação, progridem no sentido do largo, indo depositar-se na vertente continental (onde ficam em situação instável). As muitíssimo mais finas, essencialmente argilosas, vão imobilizar-se mais longe, no fundo oceânico. Sempre que, por exemplo, um sismo abala a região, os sedimentos em situação de depósito  instável na vertente desprendem-se, indo decantar sobre os já acamados no dito fundo.
Imaginemos que este processo (alteração das rochas, erosão, transporte e acumulação no mar) se repete ao longo de milhões de anos e que dele resultam alguns milhares de metros de espessura deste tipo de sedimentos. Imaginemos, ainda, que o mesmo se passa do lado de lá do Atlântico.
A tectónica global ensina-nos que este oceano, como todos os outros, ao longo da história da Terra, irá fechar-se. Isso terá como resultado o encurtamento do espaço coberto pelos ditos sedimentos que, à semelhança de um papel que amarrotamos entre as mãos, sofrerão enrugamentos, com “dobras” que vêm para cima, formado novas montanhas, e outras que vão para baixo, formando as “raízes” dessas montanhas.
É sabido que a Terra conserva grandes quantidades de calor no seu interior e que a temperatura aumenta com a profundidade, o mesmo sucedendo com pressão (dita litostática). Assim, dos sedimentos envolvidos nas citadas “raízes”, os mais superficiais ficarão sujeitos a pressões e temperaturas relativamente baixas, sofrendo ligeiríssima transformação (anquimetamorfismo), dando origem a rochas na fronteira entre as sedimentares e as metamórficas, como são o xisto argiloso, o grauvaque e, um pouco mais abaixo, a ardósia. Continuando em profundidade, com o aumento da pressão e da temperatura, mas sempre com transformações no estado sólido, formar-se-ão outras rochas francamente metamórficas, de graus progressivamente mais elevados, expressas na sequência: filádios ou xistos luzentes (uma vez que a componente argilosa se transformou em minerais que têm brilhos característicos, ”luzentes”, como a sericite, a clorite ou o talco), xistos porfiroblásticos, micaxistos e, ainda mais abaixo, gnaisses (estes representando o grau mais elevado).
A profundidades na ordem dos 30 quilómetros, a temperatura pode atingir os 800C, e a pressão ultrapassar as 4000 atmosferas. Neste ambiente e na presença de água (toda a contida na composição das argilas) terá lugar a fusão dos minerais menos refractários (quartzo e feldspatos). Entra-se aqui no domínio do chamado ultrametamorfismo e o processo toma o nome de anatexia (do grego “aná”, novo, e “teptikós”, fundir), ou palingénese (do grego “pálin”, de novo, e “génesis”, geração), dando origem a migmatitos. 
Logo que a fusão seja total, entra-se no domínio do magmatismo, com a formação de um magma que, dados os materiais envolvidos, só pode ser de composição granítica, magmaque, uma vez arrefecido e solidificado, gerará um novo granito. 
A história que acabámos de descrever nesta espécie de antevisão é a que julgamos saber contar relativamente à que, há pouco mais de 300 milhões de anos, deu origem à orogenia hercínica ou varisca e ao granito, ao xisto e ao grauvaque que nela se geraram e que marcam a paisagem do norte de Portugal. Do mesmo modo, esta história conta a de todas as paisagens afins do planeta, desde as mais antigas, com mais de 4000 milhões de anos, às mais recentes com escassos milhões.
Relativamente ao granito, a mais importante rocha magmática que forma a “ossatura” dos continentes, sabemos que o primeiro resultou de um processo de diferenciação, lenta e complexa, de uma crosta primitiva, de natureza próxima da do basalto. Sabemos também que qualquer geração de granito tem, atrás de si, outro granito e que, muitos milhões de anos  depois (400 a 500, em média), renascerá numa nova geração de granito.
Esta história é, afinal, a expressão (reconhecível ao nível das paisagens da Terra) do conhecido Ciclo de Wilson (do geólogo canadiano John Tuzo Wilson (1909-1993), relativo às sucessivas aberturas e fechos dos oceanos da Terra.
Notas: 
Grauvaque – rocha sedimentar arenítica e coesa, gerada nos grandes fundos marinhos, a par dos xistos argilosos. Contém, sobretudo, quartzo (20 a 50%), feldspatos e micas. O termo foi Introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Lasius, e radica no alemão grauwacke, que significa pedra cinzenta.
Migmatito –rocha ultrametamórfica, gerada por anatexia, de que resulta uma composição granitóide, na qual uma parte foi fundida e outra, mais refractária, permaneceu no estado sólido. Situa-se na passagem das rochas metamórficas da catazona (como é o gnaisse) ao granito franco.
Abaixo da zona dos gnaisses a temperatura e a pressão permitem a fusão dos elementos

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