Grande Angular - Revoluções
Por António Barreto
É o dia de ouro da Independência americana. 4 de Julho. É seguramente a mais longa comemoração persistente e intocada. Esta é certamente uma das melhores revoluções jamais feitas pela humanidade. Pelo menos nos últimos séculos.
Nos tempos que correm, a comparação é inevitável. Os campeonatos e as classificações fazem parte do quotidiano. Há poucas revoluções que mereçam realmente esse nome. Como em Inglaterra, a Gloriosa Revolução. Em França, La Révolution française. Na Rússia, a Revolução Russa ou bolchevista. Na China, talvez. Quem sabe se a do México. E a do 25 de Abril, para nós.
As que mais fizeram pela liberdade do género humano e pela democracia foram sem dúvida a inglesa, ainda no século XVII, e a americana, cem anos depois. As que mais mortos e vítimas fizeram foram de longe a francesa, a russa e a chinesa. Talvez também a mexicana, com mais de um milhão de mortos, numa população de dez! A mais doce foi a nossa, pequena e pobre como o país, a mais estranha e mais nobre, talvez a única que derrubou pacificamente a ditadura, gerou também pacificamente todos os perigos e corrigiu, uma vez mais pacificamente, os possíveis desvios de terror.
A revolução francesa, amada pelos europeus e adorada pelas esquerdas, provocou pelo menos um milhão de mortos. Incluindo 18.000 pessoas decapitadas na guilhotina e algumas dezenas de milhares executados sumariamente. Durante pouco mais de dez anos, guilhotina, execução com arma de fogo ou lâmina, afogamento, espancamento mortal e fogueira foram aos milhares, por todos os lados e todas as facções. Os efeitos duráveis da revolução francesa de 1789 não brilham pela solidez. Depois da revolução, podem contar-se pelo menos mais três revoluções, outras tantas monarquias, quatro repúblicas e dois impérios, além de uma capitulação diante de um poder estrangeiro e um regime fascista imposto e parcialmente tolerado.
Em Inglaterra, além do rei decapitado, o que não é pouco, a Gloriosa revolução fez menos vítimas. Talvez dez ou vinte mil mortos nas guerras que se seguiram, na Irlanda e na Escócia. Já a Revolução russa, amada como um ícone pelas esquerdas mundiais, foi, com 10 a 12 milhões de mortos nos primeiros dois ou três anos, mais dez milhões de vítimas na guerra civil de 1918 a 1922, uma das mais mortíferas. Talvez comparável à chinesa, cujos feitos e defeitos, aliás, nunca se saberão, como é próprio daquele país. Umas dezenas de milhões de mortos na revolução dos anos 1940, ninguém sabe quantos. Mais próxima da actualidade, a Revolução Cultural Chinesa, ídolo de tantos intelectuais europeus, terá provocado “entre cem mil e seis milhões de vítimas”, segundo as fontes. Este tão incerto intervalo é tipicamente chinês.
A atitude dos europeus, incluindo portugueses, perante as revoluções, é pelo menos estranha. Por romantismo, ignorância, militância ou preconceito, os europeus detestam a revolução americana, desprezam a inglesa, gostam da francesa e veneram a russa. Aos franceses e aos russos, os europeus e as esquerdas perdoam o Terror, a Fome negra, o Comunismo de guerra e a Colectivização. Aos chineses, perdoa-se tudo, até porque ficam muito longe. A americana foi sempre mal vista pelos europeus, detestada e desprezada pelas esquerdas. Também é verdade que estas últimas gostam mais das classes e dos grupos, dos Estados e das empresas, do que dos indivíduos. Sempre será estranho ver que os europeus não apreciam a revolução inglesa, a mais democrática desta parte, em todo o caso mil vezes mais democrática do que a francesa. Mesmo os horrores dos ingleses, que também tiveram, não chegam para contentar os europeus. Um rei decapitado (Carlos I), um Lord Protector (Cromwell) decapitado depois de morto com doença e um rei deposto (Jaime) não impressionam os europeus. Com rei e czar e respectivas mulheres e crianças, além de amigos e mais próximos parentes, todos assassinados, as revoluções russa e francesa correspondem bem mais ao apetite sanguinário europeu e de esquerda.
A “galeria de horrores” americana é longa e insuportável. Da escravatura à pena de morte, da criminalidade ao Macarthismo, do racismo ao imperialismo moderno, do Vietname a Guantánamo, não faltam feitos e exemplos. Mas o “álbum de glórias” não é menos impressionante. A democracia e a liberdade, a independência e a democracia das nações europeias em 1918 e 1945, o cinema e a literatura, a ciência e a indústria, a música e a exploração espacial, a informática e a medicina moderna, a lista é inesgotável. Se somos o que somos, na Europa em particular, no mundo em geral, em parte devemo-lo aos Estados Unidos.
O aniversário que se comemora hoje e nos próximos anos, da Declaração de Independência à Constituição, é momento alto na história política moderna. São 250 anos de confirmação de um destino universal. Que começam com a mais bela declaração constitucional ou jurídica que se pode imaginar: os direitos à vida, à liberdade e à “busca da felicidade”! A que não falta a igualdade entre todos os homens. Não se pode pedir mais e melhor.
Nem sequer as nuvens actuais são suficientes para dissipar esta formidável história de liberdade. O que Trump e a direita americana estão a fazer aos Estados Unidos pode destruir a América que conhecemos, ameaçar a democracia de que usufruímos e ferir a liberdade que cultivamos. É possível. Mas convém não esquecer as formidáveis forças que vivem na América e a importante liberdade que se cultiva no Atlântico e na Europa, com as suas possibilidades de retomar a iniciativa da democracia, da paz e da liberdade.
Trump e os seus amigos estão a fazer o pior que se pode fazer à democracia e à liberdade: a demonstração de que apenas a força, o poder e o dinheiro contam, a certeza de que o direito e a moral devem servir essas entidades e não o contrário. É detestável a ideia de que o direito e a moral são meros produtos da economia e do poder. A força da democracia e da liberdade reside justamente nessa realidade forjada pela história: a de que as convenções jurídicas e morais adquirem peso e valor por elas próprias e duram no tempo. Mesmo assim, até olhando para esta incerteza, é na história americana que se devem buscar as forças para combater as ameaças e os perigos americanos. Poderá a América corrigir os estragos feitos por Trump na Aliança Atlântica e na Europa? Questão em aberto.
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Público, 4.7.2026
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