17.8.18

O Comunismo do Post-Mortem

Por Joaquim Letria
O Cristianismo transformou o altruísmo através da virtude da caridade e fez dele o eixo do justo comportamento humano. Outras religiões e éticas também se equivaleram no reconhecimento dessa valia, mas sem dúvida que o pensamento cristão introduziu um conceito revolucionário, o qual é a igualdade universal diante da salvação.
É uma espécie de comunismo do post-mortemque contagiou o antigo mundo num momento em que as grandes massas, reduzidas ao sofrimento sem esperança duma sociedade cruel, aceitavam qualquer luz que lhes iluminasse a vida, mesmo que fosse para além da morte.
Assim, o vale de lágrimas desta vida não era mais do que o hallde entrada para a vida eterna a que chegaríamos mediante a Redenção depois de purgarmos pelo sofrimento o pecado original. Todo o foco da vida humana se desviou então para o seu final. Mas a lógica doutrinária da Igreja criou-lhe dificuldades na conciliação entre as exigências da prática religiosa com as necessidades da vida terrena.
Assim, o Cristianismo deixava de ser os estatutos duma empresa criada para durar e prosperar, fazendo o bem a todos aqueles que dela se aproximassem, para se converter na ordem de execução duma falência.
Quase todas as religiões fazem as suas exigências ao seu “staff”, aos seus clérigos. Mas o radicalismo cristão postulou a virtude terminal. O Juízo Final parecia então estar próximo. “Se queres seguir-Me , dá tudo o que tens aos pobres e acompanha-Me”. Se a Humanidade tivesse praticado a virtude deste despojamento, a sua presença na Terra teria sido abreviada. Ninguém perderia tempo a liquidar a factura do lado de cá.
O anunciado fim do mundo, sempre adiado, não chegou até agora. O maior receio dos tempos de hoje parece ser o dos perigosos e destrutivos vírus do software dos nossos smartphones, tablets e computadores. Que Deus, todo poderoso, os salve e tenha misericórdia de nós.     
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16.8.18

O regresso manso do fascismo

Por C. B. Esperança

Na caminhada para a presidência, a complacência de Donald Trump perante a violência nazi e a Ku Klux Klan (KKK) foi uma obscena vénia aos incómodos apoiantes, mas não foi o apoio dos extremistas violentos, que apoiaram o PR, que intimidou as democracias, foi a sua atitude que, na tibieza, silêncio ou cumplicidade, os estimulou.
Trump parece ser a referência de uma incubadora de lacraus: Putin, na Rússia, Xin, na China, Erdogan, na Turquia, Duterte nas Filipinas, Orbán, na Hungria, Al Sisi, no Egito e muitos outros que despontam, por todo o Planeta, alguns com rótulo de esquerda.
Curiosa e preocupante é a colisão entre dois autocratas agressivos, Putin e Erdogan, na ilustração da lei da Física, “polos do mesmo nome repelem-se”.
Em Espanha, a um conservador pragmático, Mariano Rajoy, sucedeu o mais reacionário dos candidatos, um franquista que exibe as habilitações académicas que recebeu de presente, com outras individualidades do PP, da Universidade Juan Carlos.
Salvini, na Itália, não é um caso isolado, é o paradigma dos fascistas do 3.º milénio que ascendem ao poder, com leves mudanças da linguagem e atitudes menos exuberantes.
De 1921 até à guerra de 1939/45 o nazi/fascismo não deixou de se robustecer, e foram vários os países onde a exaltação só esmoreceu com a destruição da guerra e a vitória dos Aliados. Antes, assistiu-se ao colapso das democracias parlamentares, aos abusos do poder, ao reforço da ordem e à orgia racista, enquanto os direitos e as liberdades fundamentais se esfumavam perante uma ideologia que fez soçobrar a civilização.
Hoje, assiste-se à derrocada dos valores civilizacionais com avatares desses fascistas de antanho, que tomaram sucessivamente o poder na Alemanha, Eslovénia, Croácia, Itália e outros países europeus com regras democráticas, enquanto a Espanha e Portugal, mais impacientes, se anteciparam pela via militar, dispensando as eleições. E mantiveram-se!
Hoje, também por meios democráticos, o fascismo pretende igualmente voltar ao poder, e está a voltar, com os mesmos tiques autoritários, apelos nacionalistas e igual desprezo pelos regimes que lhe permitem o acesso ao poder através do sufrágio. No maior país de língua portuguesa, um exuberante fascista tropical, Jair Bolsonaro, misógino, xenófobo, mitómano e homofóbico, pode tornar-se o próximo presidente brasileiro.
A Europa, em duas ou três gerações, esqueceu o passado e parece entusiasmada com os demagogos populistas de inspiração fascista que exploram o medo e o ressentimento de quem se alheou da participação cívica e foi criando horror à política.
Há uma amnésia coletiva que leva os cidadãos a julgar que as democracias são eternas e que se defendem sem democratas e sem luta política na sua defesa.


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11.8.18

É PRECISO ELEVAR A CULTURA GEOLÓGICA DOS PORTUGUESES

Por A. M. Galopim de Carvalho
Estamos a um mês do começo do novo ano lectivo e, antes de começar a editar textos visando matérias de ensino, como tem sido  minha preocupação de há anos, trago aqui, de novo, esta reflexão.
É preciso elevar a cultura geológica dos portugueses e isso começa na escola. De há muito que venho alertando, em textos escritos e em conversas públicas, para a ineficácia do ensino da Geologia em Portugal. Até parece que quem decide (leia-se o Ministério da Educação) sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, desconhece a real importância deste domínio da ciência na sociedade moderna. Assim, não se compreende a relativamente pouca importância desta disciplina nos nossos curricula de ensino. (...)
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Texto integral [AQUI

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Apontamentos de Lagos - No reino do absurdo

No "Correio de Lagos" deste mês, onde tenho a página 2

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10.8.18

A Cultura da Satisfação

Por Joaquim Letria
O Mundo vive hoje – e em boa verdade desde sempre – um período caracterizado pelo lucro rápido, a especulação e a desigual repartição da riqueza e do bem estar.

Na minha modesta opinião, o problema transcende fórmulas de economia e reside talvez naquilo a que se pode chamar de autocomplacência. Este conceito serviu para urdir uma trama perfeita em que assenta um novo tipo de dominação classista, assente no medo e na incerteza, inimiga do estado do bem-estar, ferozmente egoísta e destruidora de tudo quanto se possa assemelhar a solidariedade.
Este estado de complacência corresponde à ascensão ao poder de uma minoria de privilegiados que não tem outro interesse para além do curto prazo no que respeita aos seus projectos políticos e financeiros e se faz servir por hordas de sicários brutais, medíocres e desprezíveis.
Os resultados são temíveis.
Em nome da liberdade de mercado, o capitalismo está a destruir o próprio mercado e a mutilar-se a si próprio.
A tendência autodestrutiva do capitalismo moderno começa na grande empresa e acaba na perversão das finanças, nos destroços ecológicos, na exploração dos despojados, no abandono do investimento público, no crescimento do défice, na especulação e destruição da riqueza industrial, no desmoronamento do Estado-Previdência e, finalmente no desemprego endémico e no emprego frágil destinado à sub-classe dos desfavorecidos, dos imigrantes, dos desempregados, dos jovens e dos antigos operários.
A paisagem real é terrível: violência, drogas, guetos de miséria urbana e tráfico de seres humanos de um lado e, do outro, uma pequena minoria de privilegiados capaz de aforrar mais de metade do rendimento mundial.
A cultura da satisfação, ou da autocomplacência como lhe chamaram, converteu-se em sistema, com a sua antropologia, a sua moral própria, a sua filosofia apressada, os seus aparelhos políticos e as suas influências externas.
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9.8.18

A pena de morte e a Igreja católica

Por C. Barroco Esperança

A pena de morte é um anacronismo que persiste em sociedades ditas civilizadas, nódoa que a direita europeia de vocação fascizante se prepara para reintroduzir, à semelhança do que sucedeu em 1976 nos EUA, onde é aplicada em 34 dos 50 estados.
A aplicação, sem efeitos dissuasores, tem sido responsável pela execução de inocentes, por erros judiciais. Deveria bastar a irreversibilidade para fazer tremer a mão aos juízes humanistas, mas não faltam carrascos à crueldade, quando legalizada.
A Igreja católica, pressionada pela civilização europeia, condenou a pena de morte, mas com restrições, na última edição do seu catecismo.
O Papa Francisco limpou finalmente a nódoa do catecismo romano quando o facínora das Filipinas, PR católico, defende execuções sumárias para traficantes e drogados, e, como outros déspotas católicos europeus, se prepara para reintroduzir a pena de morte.
A decisão deste papa, rompe com dois milénios de tradição, credita-o como humanista e honra-o perante o mundo civilizado. Esperemos que, com este exemplo, as religiões não continuem ao serviço da tradição e dos interditos e se tornem aliadas da modernidade.
Foi de forma simples que revolucionou o Evangelho, um repositório da moral da Idade do Bronze: “A pena de morte é inadmissível porque é um ataque à inviolabilidade e dignidade da pessoa e ela [Igreja católica] trabalha com determinação para que seja abolida no mundo todo”.
Não posso deixar de me solidarizar com o papa católico que acaba de dignificar a Igreja e assumir o compromisso de se associar ao movimento abolicionista. Assim procedam os dignitários de outras religiões e das várias teocracias.
Recordando e alterando Neil Armstrong, ao pisar na lua: "Esse é um pequeno passo para a civilização, mas um enorme salto para o Vaticano".
Ponte Europa / Sorumbático

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5.8.18

Pergunta de Algibeira

3.8.18

As Malhas que o Império Tece

Por Joaquim Letria
Os ingleses foram quem melhor soube fotografar e filmar aquilo a que chamamos império. Nós até nisso fomos e somos envergonhados. Pelo contrário, os ingleses dão-nos o seu império com a intenção do calor, dos cheiros, cheios de elefantes, capacetes coloniais, ventoinhas, linho irlandês, espingardas de culatra, mosquiteiros e nativos ora africanos ora orientais. Nós não passámos do “Chaimite” e quando quisemos recriar alguma coisa depois disso não fomos capazes de sair do Jardim Botânico ou da Estufa Fria.
Os franceses reconstituem o seu império em película à imagem de Catherine Deneuve, Alain Delon ou Jean Paul Belmondo. Desperdiçaram Jean Marais, Lino Ventura ou Jean Gabin. Friamente, com olhos sempre europeus, com o raciocínio francês, com a haute couture du faubourg , o caqui vincadinho, a preanunciar os trajes elegantes dos enviados especiais da TV ou do Paris Match. No entanto, seja nas areias do Beau Geste ou na selva de Dien Bien Phu há sangue e a crueldade que não enjeitam.
Os americanos tentam ainda libertar-se do clima e da humilhação do Vietnam à custa das barbaridades no Iraque e Afeganistão, depois de trocarem as matanças dos comanches pela selvajaria dos 'contra' na Nicarágua.
Os russos ainda estão a pensar que desmantelaram um dos grandes impérios do nosso tempo. Os alemães e flamengos não ultrapassaram os piratas das Caraíbas, por isso fazem de figurantes menores nos filmes onde são comerciantes, fregueses de bares, pianistas ou pisteiros para amantes dos safaris.
Honra lhes seja, os nossos irmãos espanhóis têm orgulho no seu passado e chamam “Conquista” à grande expansão, não se desculpando das crueldades que infligiram por esse mundo fora e com que conquistaram a sua grandeza.
Os holandeses, por seu turno, assobiam para o lado, não vá nenhum filme lembrar a sua parte activa na construção do “appartheid” e a origem das suas crias “afrikander”.
Os turcos já não se lembram que foram otomanos, os austríacos para esquecerem o 'anschluss' estão a redescobrir os húngaros, os suecos morrem de tédio com os dinamarqueses e noruegueses e os italianos nem querem ouvir falar na Abissínia. Hoje, afinal de contas, cada um teve o império que o cinema quis que merecesse.
Envergonhados, nós não tivemos nada, não queremos falar de descobrimentos, mas sim de achamento, porque éramos muito bonzinhos, fomos fazer vela e as correntes levaram-nos até outros povos com quem confraternizámos. E voltámos a bater os pezinhos de contentes, carregados com as riquezas que eles nos ofereceram só para cá acreditarem que tínhamos lá estado e o Reino começasse a organizar a CPLP.
Acabamos por ficar com um império estranho, com o Governador na Casa do Alentejo, as roças no Jardim do Tabaco, as minas no Jardim Colonial, a capital em Alcácer do Sal e os nativos no Jardim Zoológico. Se calhar até nem tivemos império nenhum…
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2.8.18

O criacionismo é uma crença perigosa

Por C. Barroco Esperança
Há quem confunda convicções e crenças e ignore que quem possui convicções fortes se mantém aberto ao contraditório, e quem perfilha crenças enjeita o que as possa abalar.
As crenças não exigem reflexão, basta-lhes a tradição e o ritual. As convicções obrigam à ponderação e à firme vigilância da realidade, que muda com os avanços da ciência.
Não há convicções que resistam aos factos ou que não sejam abaladas pela ciência, e as crenças resistem às evidências e recusam mudanças. A crença é a certeza sem provas, a obstinação que, perante a realidade que a contraria, lamenta que a realidade se engane.
O criacionismo é uma dessas crenças perfilhadas por quem pensa que a Idade do Bronze produziu verdades imutáveis transmitidas por um deus criado pelas comunidades tribais, dessa época, à imagem e semelhança dos seus patriarcas.
As pessoas de convicções firmes propõem as opiniões pela persuasão, as que perfilham crenças impõem-nas pela força. As primeiras são didáticas, as segundas são fanáticas. Umas sugerem, e veem adversários em quem diverge; outras recitam, e veem inimigos em quem discorda; num caso, há divergências; no outro, heresias.
As crenças conduzem ao proselitismo e são veículos de verdades únicas e imutáveis. As convicções são sugestões a debater, e suscetíveis de reavaliação.
As convicções baseiam-se na ciência e exigem método e objeto; as crenças prescindem do contraditório e não o toleram, dispensam o método, e o objetivo é a perpetuação.
Hoje vivemos num mundo que se deve à ciência, e que arrisca a sobrevivência por causa das crenças.
Pensar é mais difícil do que acreditar.
Ponte Europa / Sorumbático

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1.8.18

Apontamentos de Lagos

Rua José Afonso, 29 Jul 18

Rua Salgueiro Maia, 30 Jul 18

Praceta Ana Castro Osório, 30 Jul 18

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28.7.18

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27.7.18

O Mundo do Escaravelho

Por Joaquim Letria
Cesare Pavese escreveu: "O consolo de uma visão consiste em acreditar nela, não que ela se trate de algo real”. E acrescentava: “As coisas que se viam pela primeira vez eram bastantes para satisfazer, mas agora requerem outro significado”.
A imagem mais forte que guardo da Televisão é a dos primeiros negros a entrarem numa universidade americana protegidos pela Guarda Nacional. Não sei porquê, mas esta visão foi mais forte e ficou mais nítida do que a outra, às cinco da manhã, do Homem a pular, pela primeira vez, na Lua, a espetar uma bandeira no meio de muitas crateras.
Um velho com fome num barraco dum subúrbio tem carências, cem mil refugiados amontoados num campo miserável e a viverem em tendas, sem carne e pouco pão são estatística.
Os males colectivos perderam importância. Milhões com fome, epidemias, bombardeamentos de cidades, guerras sangrentas perderam significado. Hoje, o que importa é a ferida da facada, o atropelamento, o disparo de balas, um corpo despedaçado, tudo o suficiente para se anunciar que “as imagens que se seguem podem chocar os espectadores mais sensíveis”.
Dantes havia reféns. Os reféns eram excitantes, fossem fregueses dum supermercado, passageiros dum avião desviado, clientes dum banco assaltado. Os reféns passaram de moda. Dantes saíam a correr dos bancos, falavam com os olhos na câmara e um revólver na cabeça.
O que mais conta hoje são as desgraças individuais. Ouçam-nos, nos seus quinze minutos de fama e glória: ”A minha vida dava um filme” ou “Se eu lhe contasse tudo, vocês escrevia um livro”. Nada de males colectivos. Treze crianças felizmente salvas duma gruta da Tailândia dominam o mundo que esquece 800 à deriva no Mediterrâneo.
Desempregados são percentagens. Crianças africanas a chuparem tetas vazias não interessam nem ao menino Jesus. Um menino morto vale mais do que um orfanato despedaçado.  
Uma lágrima furtiva vale mais do que um rio poluído. Já alguém viu o buraco do ozono? Quem paga a Amnistia Internacional? E  o  Greenpeace?
A TV mente mas a História também. A diferença reside na velocidade de sedimentação.
Para um escaravelho, uma bola de excrementos é o seu mundo. Quando se movimenta arrasta-a consigo levando todo o seu mundo. Para o escaravelho não existem África, guerras, meninos, árvores de Natal, tanques de guerra nem órgãos de Estaline.
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26.7.18

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A fé e o suborno

Por C. Barroco Esperança
A mãe que reza um terço para que o filho passe no exame está a meter a cunha à santa para que influencie o júri que o há de avaliar.
O construtor civil que manda o cabaz de Natal ao engenheiro da Câmara, agradece o último andar do empreendimento, que não constava do projeto inicial.
O funcionário que promete ir a Fátima, se for promovido, quer apenas que a Senhora se lembre dele para a vaga que, por mérito, pertenceria a um colega.
O cordão de ouro que a minhota deixou no andor do Senhor dos Passos para que o seu homem abandonasse a galdéria que o transtornou e voltasse para ela, imagina que, sem a renúncia ao ouro, o Senhor não lhe levaria de volta o bandalho do marido.
Sempre que há promessas para obter do santo, especializado em certo tipo de subornos, um qualquer benefício, é a admissão do carácter venal da Providência. É o cabrito que se manda ao chefe na véspera das atualizações salariais.
Ao santo pede-se que interceda junto de Deus para fazer ao mendicante o que não faz a outros. Ao chefe solicita-se que trame o parceiro em benefício próprio.
Portugal é um país venal, de pequenas e vis corrupções, feito à imagem da religião que o formatou, espécie de marca que indica a ganadaria de origem e reparte os portugueses por paróquias e dioceses como animais da respetiva quinta.
Que pode esperar-se da Igreja do Papa JP2 que acreditou que a Virgem lhe dirigiu a bala por sítios não vitais poupando-o a ele sem dele poupar os crédulos?
A mentalidade beata cria gente que vê o empenho, suborno e compadrio como virtudes canónicas, que levam as pessoas a condutas que lhes ensinaram a ter com Deus.
Felizmente ainda há gente séria. O mesmo não se pode dizer da fauna mística que povoa o Paraíso, para onde se viaja através de agiotas, à custa de missas, terços, oferendas e da renúncia aos prazeres da vida.
A ligeireza ética é uma consequência da mentalidade autóctone, que nos remete para as “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, bem analisadas por esse grande vulto da cultura portuguesa, Antero de Quental, na 2.ª das históricas Conferências do Casino.

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24.7.18

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20.7.18

Pequenas Notícias

Por Joaquim Letria
No outro dia ouvi um director de jornal dizer na TV que directores e editores não têm hoje tempo para “notícias pequenas”. Que me perdoe, mas não posso estar mais em desacordo. Compreendo o que quer dizer, mas esquece-se que desde sempre as noticias verdadeiramente importantes começam por ser publicadas em meia dúzia de linhas e, muitas vezes, em páginas secundárias.
É em meia dúzia de linhas que ficamos a saber indícios do que o crime organizado se prepara para fazer. É em pequenas notícias que descobrimos as cumplicidades e as grandes corrupções, é cruzando a leitura duma local com as declarações dum político ou as revelações discretas dum empresário que melhor sabemos em que mundo vivemos.
Recordo-me de há anos atrás, quando eu era um simples repórter e se falava do êxodo dos grandes lagos, haver uma notícia de duas linhas no Libération de Paris contra Kabila e o Guardian de Inglaterra falava em “movimentações dos herdeiros dos Katangueses refugiados em Angola”, enquanto o  Die Welt de Hamburgo dava conta da contratação de mercenários ingleses, americanos, belgas e croatas para combaterem pelos “rebeldes zairenses”.
Só mês e meio depois destas notícias os ingleses escreviam duas linhas referindo a ajuda de Savimbi a Mobutu, enquanto igualmente pequenas notícias falavam de “escalas técnicas” dos dois em Rabat. Então, a visita de Hassan II a Washington e a do príncipe herdeiro a Madrid não tiveram igualmente mais de quatro linhas. Vejam lá a importância daquelas pequenas notícias.
Não concordo com aquele director de jornal. As grandes notícias começam muito antes das coisas grandes acontecerem  e começam sempre por uma notícia pequena. As manchetes para vender são outro negócio, hoje em dia.
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19.7.18

Espanha – Pablo Casado, Franco e o PP

Por C. Barroco Esperança
O candidato mais reacionário dos que buscam suceder a Rajoy na liderança do PP é um digno herdeiro de Aznar, pétreo franquista ligado ao Opus Dei, pioneiro da decadência ética que atolou o partido na maior teia de corrupção dos partidos espanhóis, e mecenas da Fundação Franco, com dinheiros do Estado.
Pablo Casado merece ganhar o partido que Rajoy ainda procurou desviar do falangismo. É dissimulado e cínico. Afirma que não gastaria 1 € a exumar Franco, e que as famílias dos cerca de 100 mil desaparecidos em valas comuns, ‘assassinados pela ditadura’ (não usou estas palavras, mas foi a realidade), podem ser reclamados pelos familiares.
A trasladação do genocida Franco, do Vale dos Caídos, é o cumprimento da decisão que foi tomada por unanimidade parlamentar, por mais hipocrisia e vergonha com que o PP a tenha votado. Há aí muitos milhares de vítimas do franquismo em valas comuns, a que foi juntar-se o seu carrasco, com honras de Estado, guarda de honra, orações e missas solenes. Os mortos são indiferentes, mas os vivos que prematuramente os perderam não podem consentir tal infâmia.
A companhia do carrasco não é apenas uma ofensa à democracia, é uma homenagem ao fascismo que se perpetua e glorifica indefinidamente.
Pablo Casado fala da divisão dos espanhóis, como se a justiça pudesse consentir que um algoz permaneça símbolo do país e os crimes esquecidos. Tem a desfaçatez de dizer que “desde 1975 e 1978, qualquer familiar pode procurar os restos dos entes queridos com o apoio total” das autarquias, para os tirar das valas comuns, e acusa o Governo de Pedro Sánchez de “fraturar gravemente a sociedade” criando “questões desnecessárias" como a exumação dos restos do ditador e a ilegalização da sua Fundação. A justiça e a higiene cívica são irrelevantes para o avatar serôdio dos falangistas.
Imagine-se Hitler ou Mussolini a gozarem da mesma glória, ou o pérfido seminarista de Santa Comba a ter guarda de honra nos Jerónimos ou Pétain nos inválidos!
Um franquista nunca deixa de ser fascista, por mais que se dissimule. A Espanha corre o risco de ter no seu partido de direita democrática um líder com o coração na Falange e o pensamento no garrote, uma genuína tradição espanhola iniciada em 1820 e mantida por Franco, só abolida em 7 de julho de 1978, depois da morte do genocida.
Julgar o passado recente é um dever, para evitar a reincidência.

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18.7.18

Apontamentos de Lagos - No Reino do Absurdo

Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Jul 18 .

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13.7.18

Vamos pô-los a ler

Por Joaquim Letria
A imagem tem a responsabilidade de contribuir decisivamente para o declínio do interesse pela palavra, quer falada, quer escrita e lida. Neste mesmo mundo novo, instantâneo e visual, desenvolver a capacidade e o prazer da leitura e da conversa deveria ser uma imposição urgente.
Mitologias e histórias populares sobreviveram a muitas gerações e enriqueceram os séculos e até há bem pouco tempo a Bíblia era uma colorida fonte de experiência narrativa – Caim e Abel são personagens de um romance moderno.
A maioria das crianças de hoje apoia-se no filme, no vídeo, no tablet, no ipod e no iphone. A sua oferta pode ser inofensiva, mas transforma os receptores em sujeitos passivos. Se o tempo que hoje os jovens gastam frente a écrans fosse passado a ler, a população estaria melhor educada, mesmo se para tal se servisse dum kindle.
Ver uma história e assistir a um enredo, por muito que este ajuda a pensar, é um passatempo passivo. Ver uma história dramatizada é muito mais fácil do  que ler e indo inventando e descobrindo as personagens e a trama. A questão é que isto deixa para trás cada vez mais crianças que lêem mal e são incapazes de escrever correctamente.
Ler é essencial. Assim deve ser apresentada essa necessidade. Todos precisamos de histórias, de as ouvir, de as ler, de as desenvolver como faziam os antigos desde as cavernas do Paleolítico.
Que poderiam os pais e os professores fazer? Talvez criar um período diário de leitura obrigatória em silêncio, com a atenção presa e a concentração garantida, do qual se pudesse tirar prazer como se tira dos emails e sms.
Em tempos pensei que boas versões filmadas de livros apreciáveis estimulariam o desejo de ler e o prazer da leitura. Hoje, tenho dúvidas.
A ficção audiovisualizada está para a imaginação como os alimentos sem calorias estão para o estômago – substitui o apetite por verdadeiros alimentos. Mas seria muito bom que as crianças de hoje tivessem uma boa e racional alimentação de literatura e fizessem uma dieta bem equilibrada de leitura.

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12.7.18

A esquerda e a amnésia

Por C. Barroco Esperança

Quando o anterior Governo estava já em minoria na AR e o PR continuava a ser cúmplice para desmantelar o Estado, o país assistiu perplexo ao ressentimento e desespero da campanha de Belém, difundindo ameaças e instilando o medo, indiferente aos reflexos nos juros da dívida e à desconfiança internacional que provocava.
Foi o tempo em que um PR salazarista e o PM acidental entraram em desvario por não terem na AR o apoio necessário para manter o governo mais extremista que a democracia gerou.
É interessante verificar os tiques salazaristas de certa direita, que levam dirigentes partidários a considerarem aberrante e antidemocrático o governo suportado pelo PS, PCP, BE e PEV, sem que os partidos de esquerda tivessem alguma vez apelidado de antidemocráticas as coligações do PSD com o CDS, o PPM e outras irrelevâncias de origem duvidosa. Talvez se encontre aqui a forma de aferir o espírito democrático de cada partido, no respeito por todos os que emergem do voto popular.
Infelizmente, à curta memória do País junta-se o interesse eleitoral dos partidos que disputam as próximas eleições. Passada a ameaça da direita truculenta, que originou o atual Governo, já se digladiam entre si e perturbam a convergência que se revelou saudável para o País.
Numa altura em que a direita, apesar da forte campanha mediática, apoiada pelas associações patronais, bastonários e outras personalidades da sua área, não consegue derrubar o Governo, seria lamentável que os partidos que convergiram quando Cavaco e Passos Coelho ameaçavam subverter a democracia, desrespeitando a AR, se transformassem agora nos coveiros da mais rica e profícua experiência política das últimas quatro décadas.
A onda de agitação e de reivindicações sociais, algumas injustas, saídas de classes privilegiadas, perturbam o discernimento de partidos de esquerda e ajudam a direita, enquanto o Governo, incapaz de satisfazer as exigências e de proceder à consolidação orçamental a que é obrigado, abre espaço ao crescimento da direita. Todos parecem esquecer o governo anterior, e não se dão conta de que Rui Rio e Marcelo não são Passos Coelho e Cavaco. Destes já não há medo, o medo que levou à convergência dos vários partidos de esquerda.
É fácil imaginar o que vai suceder se não houver bom senso nos partidos que suportam o atual Governo, desde recriminações mútuas ao desalento do eleitorado apoiante. A abstenção será a primeira força a crescer e o desânimo afetará o eleitorado que se revê na solução em vigor.
A perceção dos eleitores da culpa de cada partido na eventual cisão da maioria que permitiu este governo decidirá o voto, mas não há ganhos que compensem o que o país perde.
Pela minha parte, apoiante entusiasta deste governo apoiado pelo PS, BE, PCP e PEV, e livre de compromissos partidários, sentir-me-ei traído.

Ponte Europa Sorumbático

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7.7.18

AINDA A DEGRADAÇÃO DO ENSINO EM PORTUGAL

Por A. M. Galopim de Carvalho
Começo por dizer que não estou só nesta afirmação. Há pouco mais de um ano, o Primeiro Ministro António Costa, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, disse, preto no branco: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”. 
Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada”, entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos civismo, cultura democrática e cultura humanística. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a Educação. E, aqui, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.
As muitas dezenas de comentários, desencadeados pelos meus escritos no Facebook sobre este tema, suscitaram um muito interessante debate, que me ajudou a consolidar a minha opinião sobre um grave problema que nos atinge e que urge enfrentar. 
É, pois, minha convicção que:
Como no antigamente, a par de bons, muito bons e excelentes professores, muitos deles desmotivados, há outros, francamente maus, instalados na confortável situação de emprego garantido até à reforma. 
A preparação científica e pedagógica dos professores não pode deixar de ser devida e profundamente avaliada, através de processos de avaliação a sério, criteriosamente regulados, por avaliadores devidamente credenciados.
Os sindicatos, nivelando, por igual, os bons e os maus professores, têm grande responsabilidade numa parte importante da degradação do nosso ensino público.
Os professores têm de saber muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos manuais de ensino. 
Os professores necessitam absolutamente de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm. É, pois, essencial libertá-los de todas as tarefas que não sejam as de ensinar.
É necessário e urgente repor, como inerência de cargo, a dignificação e o respeito pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar.
É necessário e urgente que a Escola recupere todas as competências fundamentais à disciplina, aqui entendida como a obrigatoriedade de respeitar as normas estabelecidas democraticamente, o que evita o autoritarismo, conferindo a autoridade a quem a deve ter.
É necessário e urgente rever toda a política dos manuais de ensino, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e revisores.
É preciso repensar a política de exames, a começar pela creditação científica e pedagógica dos professores escolhidos para conceber e redigir os questionários.
É necessário resolver o gravíssimo problema da colocação de professores, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias;
A remuneração dos professores tem de ser compatível com a sua superior importância na sociedade.
É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos titulares, como nas respectivas dotações orçamentais.
É urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver vontade e força política (despida de constrangimentos partidários), ao estilo de um “ACORDO DE REGIME”, capaz de promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial”, poderosa e, de há muito, instalada.

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6.7.18

UM BOM MOTIVO PARA IR A MADRID

Por Joaquim Letria
O Museu do Prado, em Madrid, voltou a expor a milhares dos seus visitantes “O triunfo da Morte”, obra prima de Pieter Bruegel o Velho, um óleo com perto de 500 anos.
Após delicadíssimos trabalhos de restauro levados a cabo ao longo de mais de um ano pelos especialistas do museu, o quadro recuperou a sua nitidez, a sua cor e o brilho originais. O que mais impressionou Maria Antónia Lopez foi encontrar as impressões digitais do autor, marcadas na fina película que cobria a obra original. A restauradora, que tratou da pintura centímetro a centímetro, confessou que encontrar-se com essa marca foi o que mais a comoveu e marcou neste trabalho.
Um dos objectivos foi recuperar a transparência do fumo nas diferentes intensidades, bem como mostrar o reflexo da torre na água que esteve oculto durante anos. A obra mostra a inexorável vitória da morte sobre todas as coisas e pessoas. Era a única que o Prado possuía deste pintor até em 2011 ter comprado o “Vinho da Festa de São Martinho”, peça que acompanha com a sua beleza  a obra prima agora recuperada e exposta a milhares de visitantes que ali acorrem diariamente. É um quadro duma qualidade excepcional dum pintor essencial na história da arte europeia, ao mesmo nível de El Bosco. A peça reúne uma mistura rara das tradições medievais com uma imaginação espantosa. ´Pieter Bruegel começou a pintar tarde, na sua vida, quando de uma assentada pintou cerca de 40 quadros com uma maestria excepcional.
Embora fosse um pintor de elite e ortodoxo,  Bruegel era independente e contava histórias do dia a dia. No “Triunfo da Morte” aparecem cenas como um esqueleto meditando sobre a morte dum pássaro que jaz diante duns peixes grandes que comem outros mais pequenos. Há uma aldeia arrasada, um juízo final e um batalhão de esqueletos que marcha para o inevitável.
A obra recuperou o tom original, de amarelos e ocres, azuis e vermelhos e matizes que haviam sido esbatidos por grosseiras operações anteriores. O quadro mostra as grandes preocupações medievais , especialmente com a presença maciça da morte. Por outro lado reflecte a tradição retórica da sátira o que faz dele um quadro muito divertido, justificando plenamente um pretexto para um salto a Madrid, acompanhado de viño de verano e umas orchatas e uma breve memória das zarzuelas.Tudo motivos válidos para fugirmos dos turiastas de Lisboa e do Porto, que são muito simpáticos e deixam cá muitos euros mas que parecem moscas.
Publicado no Minho Digital

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5.7.18

A Associação Sindical de Juízes (ASJP) e a democracia

Por C. Barroco Esperança
Quem viveu na ditadura fascista e recorda os Tribunais Plenários, uma extensão da Pide, com juízes escolhidos e venais que cruzaram incólumes a consolidação da democracia, não pode deixar de se regozijar com a independência dos Tribunais, sem a qual não há Estado de Direito.
Procedeu bem a democracia na independência que outorgou ao poder judicial e mal na forma como esqueceu os cúmplices da ditadura ou consentiu a exótica Associação Sindical de Juízes, que não passa de um mero sindicato para a defesa de interesses corporativos.
É tão injusto confundir os sindicalistas da ASJ com a maioria dos juízes como estender o labéu da infâmia dos titulares dos Tribunais Plenários aos honrados juízes desse tempo, quando um juiz, depois de percorrida a carreira do MP, começava com vencimento a Chefe de Repartição, um Desembargador era equiparado a diretor-geral, catedrático ou general de 3 estrelas, e um Conselheiro a oficial-general de 4 estrelas, Diretor do Laboratório Nacional de Energia Nuclear ou do LNEC.
Se o poder executivo subjuga os juízes, arruína o Estado de Direito, e se os juízes chantageiam o poder executivo, abdicam do respeito que lhes é devido e traem a democracia.
Não é lícito que o Governo constranja os juízes, mas não se lhe exija ou permita que ceda a chantagens. Cabe aos cidadãos julgar todos os órgãos da soberania, especialmente o único não submetido ao escrutínio eleitoral.
A recente notícia veiculada inicialmente pelo JN, através do jornalista Nelson Morais, de que os «Juízes ameaçam com greve inédita para exigir mais dinheiro», não é apenas o delírio perigoso de sindicalistas, é, na minha opinião, um atentado ao Estado de Direito, e uma perigosa deriva sindical de quem se sabe impune e despreza a opinião pública.
Para já, é importante saber se o vencimento dos juízes portugueses corresponde à média dos seus homólogos da UE, face ao PIB de cada país, bitola que devia ser usada para os servidores públicos, pagos por todos os cidadãos, desde o PR aos funcionários de mais modesta categoria.
Se, acaso, não estão negativamente discriminados, situação que seria urgente rever, qualquer cedência é uma ofensa a quem ganha salários mínimos ou se encontra na sua proximidade.
O novo Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, Manuel Soares, ao fazer uma ameaça que indigna os cidadãos a quem não cabe fazer justiça, mas que a exigem, sabe que a dignidade do cargo de quem diz representar, é incompatível com a postura que é apanágio dos sindicalistas, que arriscam o posto de trabalho dos associados e a retaliação patronal.
Sexta-feira, a AR apreciará o Estatuto dos Magistrados Judiciais, i.e., o estatuto remuneratório dos senhores juízes, sob ameaça de greve de membros de outro órgão de soberania, avisado de que «o Governo está a comprar uma guerra como nunca viu». A um leigo parece surreal a situação e de almocreve a advertência.
E se a AR não ceder? Os senhores juízes fazem greve, como ameaçam?
Perante tal despautério, é aceitável proceder à requisição civil dos juízes e encerrar a ASJP.

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4.7.18

Lagos na TVI (2 Jul 18)




Mais uma vez, o nosso amigo Joaquim Letria abordou problemas de Lagos — desta vez 3 casos relativamente graves, pois trata-se de equipamentos urbanos que, em 1960 e em 2009 sumiram sem deixar rasto:
Um coreto (!!!) mais de 1000 m2 de calçada portuguesa (padrão "Mar Largo") e uma boa centena de letras de metal (com a famosa frase de Fernando Pessoa).
Infelizmente, não consigo afixar aqui o link para o vídeo que, no entanto, pode ser visto em tvi.iol.pt, procurando o programa "A Tarde é Sua".

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1.7.18

AINDA A DEGRADAÇÃO DO NOSSO ENSINO (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho
A todos, e foram muitas dezenas, os que me honrarem com os seus comentários, apoiando, contraditando, sugerindo, emendando, acrescentando ou melhorando o meu texto de ontem (27.06.2018, no Facebook)  aqui fica, para os que tiverem interesse nisso, a nova versão do mesmo, reformulado com base nos referidos comentários
NOVA VERSÃO
Na minha capacidade de análise, que vale o que vale, o problema da degradação dos nossos ensinos básico e secundário reside, sobretudo, na classe política, onde, a par de gente capaz e honesta, se instalaram arranjistas e corruptos, como em todo o lado.
Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada”, entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos civismo, cultura democrática e cultura humanística. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a Educação. E, aqui, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.
O mundial de futebol, a crise no Sporting, as buscas da PJ no Benfica e noutros clubes e, agora, em algumas autarquias, à falta de incêndios florestais, enchem os noticiários à exaustão. Parece que andamos esquecidos do gravíssimo problema subjacente à greve dos Professores, em curso, mas ele existe. É bem maia amplo e está latente. E nestes dias em que tudo efervesce neste sector da vida nacional, o  senhor Ministro da tutela (talvez com o argumento de que “carrega” com o fardo do desporto), foi a Moscovo, no passado dia 20, ver o Portugal-Marrocos e, cinco dias depois, a Saransk, assistir ao Portugal-Irão. Estou para ver se irá, de novo, à Rússia, no próximo Sábado, desta vez a Sochi,para presenciar o Portugal-Uruguai.
Os saberes acumulados ao longo de uma vida de muitos anos, sempre em contacto com o ensino a todos os níveis, a liberdade que me assiste como cidadão político consciente e não “amarrado” aos aparelhos dos partidos políticos e a lucidez que ainda julgo manter, permitem-me dizer ou voltar a dizer, “preto no branco”: 
1 - Tendo sido o Centro e a Direita a governarem-nos há mais de quarenta e dois anos, há que imputar a estes, os do chamado “arco do poder”, a maior parte da responsabilidade de uma tal degradação. A Esquerda só esteve no poder dois anos e dois meses (com os governos provisórios”), mas tem nos sindicatos valiosas correias de transmissão, pelo que também manda, e muito, nestes graus de ensino. Não podemos, pois, ignorar a sua responsabilidade neste grave problema que, se não for resolvido, irá DESTRUIR O FUTURO dos nossos filhos e netos.
2 – A SER VERDADE que a luta dos professores (em proporções nunca vistas) visa o cumprimento de uma promessa do governo, estou a 100% do lado de todos eles, dos bons, dos menos bons e dos maus. Todos! E isto apenas porque, também para mim, a “palavra dada, palavra honrada”, parafraseando o Primeiro Ministro. Insisto na expressão “a ser verdade” porque, nestes conflitos e como é sabido, cada uma das partes tem o seu discurso;
3 - A par de BONS, MUITO BONS E EXCELENTESprofessores, há outros, sem preparação suficiente, que fazem do ensino um emprego, não uma profissão e, muito menos, uma missão, e outros, ainda, francamente maus. 
4 - Os VERGONHOSOS RESULTADOS escolares em Portugal falam por si. E aos que me respondem, lembrando que alunos das nossas escolas marcam pontos lá fora, em competições internacionais (o que é um facto honroso e indesmentível), respondo dizendo que esses são alunos excepcionais, oriundos de famílias mais bem ou mais mal estruturadas, mas sempre preparados por muito bons professores. Ponto final;
5 - A sistemática RECUSA ÀS AVALIAÇÕES, por parte de muitos professores (os jornais têm falado em milhares), com o fortíssimo apoio dos sindicatos, face às diversas propostas feitas pelos diferentes governos, ao longo de mais de uma dezena de anos, é responsável pela permanência dos incompetentes à frente dos nossos filhos e netos. Não são os bons professores que temem ser avaliados, são os outros, e não são assim tão poucos;
6 – As avaliações que têm sido feitas bem como a escolha e a COMPETÊNCIA DOS AVALIADORES são temas a terem lugar numa verdadeira reflexão que urge fazer;
7 - Os sindicatos,NIVELANDO, POR IGUAL, os bons, os menos bons e os maus professores e, ao apoiarem os que se opõem às ditas avaliações, exigindo promoções automáticas ditadas pelo tempo de serviço,têm grande responsabilidade numa parte importante da degradação do ensino público;
8 - A tradicional e endémica FALTA DE VERBA atribuída à Educação é parte substancial desta mesma degradação;
9 - A “BALDA” que se estabeleceu nas Universidades, a seguir à revolução de 1974, com os “aptos”, as “passagens administrativas” e a interferência dos estudantes nas decisões pedagógicas, ao estilo de “cada cabeça um voto”,  também tem de ser tida em conta nesta reflexão;
10 - O NÍVEL SÓCIOCULTURAL de milhares de famílias carentes de tudo determina que a Escola obvie a esta realidade, chamando a si uma tarefa educativa complementar;
11 – Finalmente, a PREPARAÇÃO CIENTÍFICA E PEDAGÓGICA dos professores não pode deixar de ser devida e profundamente analisada.
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É minha convicção que: 

1- Os professores devem SABER MUITO MAIS do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos manuais de ensino. Para tal, os professores necessitam de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm;
2 - É necessário e urgente fomentar, como inerência de cargo, a DIGNIFICAÇÃO E O RESPEITO pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar;
3 – É essencial LIBERTÁ-LOS DAS TAREFAS que não sejam as de ensinar;
4 – Há que criar CURSOS DE ACTUALIZAÇÃO e de melhoria de conhecimentos e/ou outras acções com o mesmo propósito;
5 – É necessário e urgente que a Escola recupere todas as competênciasfundamentais à DISCIPLINA, aqui entendida como a obrigatoriedade de respeitar as normas estabelecidas democraticamente, o que evita o autoritarismo, conferindo a autoridade a quem a deve ter;
6 – É necessário e urgente rever toda a política dos MANUAIS DE ENSINO, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e revisores.
7 – É preciso repensar a POLÍTICA DE EXAMES, a começar pela creditação científica e pedagógica dos professores escolhidos para conceber e redigir os questionários.
8 – É necessário resolver o gravíssimo problema da COLOCAÇÃO DE PROFESSORES, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias;
9 - A REMUNERAÇÃO DOS PROFESSORES tem de ser compatível com a sua real importância na sociedade. Um professor universitário (que é avaliado, pelo menos, três vezes ao longo da carreira) não é nem mais nem menos importante do que um do ensino secundário ou do básico, a quem, no correspondente patamar, se exige idêntico rigor;
10 - É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na ESCOLHA DOS TITULARES, como nas respectivas dotações orçamentais.
11 - É urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver vontade e força política (despida de constrangimentos partidários), ao estilo de um “ACORDO DE REGIME”, capaz de promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial”, poderosa e, de há muito, instalada. 

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