2.5.26

Grande Angular - Penso rápido e ecrã de televisão

Por António Barreto

É este provavelmente o governo mais empenhado na propaganda. Desde sempre, até dos governos revolucionários que, sob a aparência de popularidade, ocupavam, como verdadeiros residentes, as primeiras páginas e a televisão. Só que, hoje, com tantos canais, com as redes sociais e com as transmissões pela NET, o esforço do “emissor”, isto é, do governo, é muito maior. Não existem, infelizmente, estatísticas fiáveis, mas há indícios de que nunca foi tão grande o número de assessores de imprensa, conselheiros de comunicação e consultores para as redes sociais. Nas Direcções-gerais e nos Institutos, nos gabinetes dos governantes e em contratos de consultoria com empresas privadas, cada vez em maior número, são muitas as centenas, talvez uns milhares de pessoas encarregadas destes interessantes exercícios: comunicar, informar e anunciar acções e intenções dos governantes. As regras são simples. Dizer o que o ministro fez. Revelar o que vai fazer. Anunciar o que quer fazer. Sugerir o que poderia ainda vir a fazer. Negar o que o anterior fez. E assegurar o que o anterior não fez. Este é o verdadeiro pão nosso da informação. A tal ponto que é fácil, em certos dias mais calhados, ver cinco a sete canais de televisão darem, ao mesmo tempo, a mesma notícia, os mesmos comunicados do ministro, a mesma deslocação do governante. Numa palavra, a mesma futilidade. Nem as guerras na Ucrânia e no Próximo Oriente conseguem sobrepor-se em importância e na hierarquia de alinhamento às comunicações do governante.

 

O Primeiro-ministro é o grande artista. E o principal protagonista. Sempre a falar, com microfone e câmara, tem matéria de manhã, à tarde e à noite. Cada vez mais rodeado de membros do governo, o que, em Portugal, é uma nova linguagem. Inaugurou a prática de se fazer fotografar e filmar com uma ou duas dezenas de membros de governo. São gabinetes completos para reunir, inaugurar, homenagear e tomar medidas. Até quando fazem aniversários de qualquer coisa, a começar pela sua própria existência. São impagáveis as caras dos senhores governantes que se prestam àquele espectáculo. Eles sabem que servem de figurantes e que não estão ali a fazer nada, a não ser isso mesmo, figurar. A maior parte afivela um doce sorriso de função, alguns já não conseguem disfarçar o tempo perdido e o papel menor a que são remetidos. É, aliás, uma solução inteligente: a melhor maneira de diminuir a importância de um ministro e de o reduzir ao papel de “executante” é a de lhe dar um papel insignificante e de o mostrar. Mas com o anonimato da equipa, de que se conhece sobretudo o chefe. É este o único que fala, que faz selfies e que, em posição central, com direito a microfone e peanha, dirige a orquestra ou, melhor dizendo, o coro.

O modo e o sítio como se processam estes actos de propaganda não variam muito. Em sala especialmente preparada para comunicações graves, com bandeiras de Portugal e da UE, micro e púlpito. Diante da desgraça, depois dos incêndios. Nos locais especiais, como sejam hospitais, escolas, quartéis de bombeiros, esquadras de polícia e fábricas. À saída de um qualquer acontecimento, que agora se diz “evento”, como se aí estivesse sem preparação, no fogo da acção, rodeado de pessoas e acompanhado de autoridades. Antigamente, usava-se o aeroporto, dava importância. Agora, não, os especialistas receiam que se pense que o governante viaja muito e gasta dinheiro.

 

Em qualquer ocasião ou oportunidade, com mais ou menos ministros, o Primeiro mostra-se sempre. Fala sempre. Distribui dinheiro, sempre. Anuncia medidas, sempre. Por vezes, as mesmas medidas, em diferentes oportunidades. Mas privilegia o dinheiro: recompensas, aumentos, subsídios, financiamentos, dádivas, investimentos, fundos perdidos, descontos, períodos de carência e reembolsos.

 

Além de distribuir dinheiro e de garantir que faz o que o anterior governo não fazia, o Primeiro é especialista em disfarce e folclore. Capacete para as obras. Bata branca para os queijos. Máscara para o hospital. Colete para o incêndio. Touca para a alta tecnologia. E boné para o barco. Não faltam aparições e inaugurações a propósito de tudo e nada. O que é preciso é que o Primeiro esteja ou tenha estado. Chama-se a isto “governo de proximidade”. A ideia central é conhecida. Dar a impressão de que se preocupam, que estão em cima do acontecimento, que sofrem e se emocionam com as pessoas e que acorrem sempre aonde são precisos os seus cuidados.

 

Não se dão conta dos efeitos negativos. Deveriam estar a trabalhar, não a dar nas vistas. Mostram que gastam na propaganda, quando deviam ser frugais. Exibem-se, quando deviam estar recolhidos. Confundem rituais com sentimentos. Trocam sorrisos por esgares. Quanto mais falam menos fazem. Prometem, mas não realizam. Aparecem e estão presentes, inundam as câmaras e afogam as redes, ocupam os jornalistas e amarram os encarregados da comunicação.

 

Poder-se-ia esperar que trabalhassem mais nos gabinetes. Que estudassem mais. Que planeassem mais. E que tivessem respostas tão desejadas. O que se fez com os dinheiros dos contribuintes usados para salvar bancos e banqueiros. O que os contribuintes gastaram com a TAP, o BES, a CP, o SIRESP, os KAMOV ou o CITIUS. O que ainda não se fez nas matas e nas casas ardidas ou destruídas em Pedrogão, na Lousã, em Leiria, na Pampilhosa, em Oliveira, em Piódão e tantos outros sítios. O que não se faz para evitar partos em ambulâncias ou à porta dos hospitais ou para diminuir os anos e meses de espera por consulta e cirurgia. O que não se faz para tratar da pior chaga de democracia que é a da justiça, com os casos famosos da Operação Marquês, da Face Oculta, da SPINUNVIVA, do INFLUENCER, do BES, do Maestro, do BPP, do LEX, do BPN e de outros tantos.

 

Governar em tempos de crise, como é hoje o caso e continuará a ser por uns anos, por causa das guerras, da energia, do comércio internacional e da crise das alianças militares, governar nestas circunstâncias exige muito trabalho, consciência, diálogo, autoridade e democracia. Não exige, não pede, é até incompatível com propaganda, encenações para a televisão e as redes, manifestações de charme e operações de divulgação de sentimentos e emoções.

 

O superficial e o fútil não tratam. Agravam.

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Público, 2.5.2026

 

 

 

 

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25.4.26

Grande Angular - Comparação e razão

Por António Barreto

Apesar do digno comportamento de José Pacheco Pereira, a batalha das vítimas e das malfeitorias continua. As comparações propostas por André Ventura escondem mentira e manipulação, mas são eficazes. Sobretudo perante muitas gerações que não viveram as situações e os casos referidos. Poucas pessoas se lembram, a não ser por ouvir dizer, das prisões salazaristas, da tortura da PIDE, dos crimes da polícia política, da censura permanente, da vigilância e da coacção. Também poucas pessoas viveram a tragédia da descolonização, os saneamentos, as prisões sem mandato judicial, as expropriações ilegais, as ocupações arbitrárias e as violências revolucionárias de todo o tipo. Por isso, muitas vezes, é fácil e tem êxito a expressão desbragada de comparações, mesmo ou sobretudo das desajustadas.

 

Não sei se André Ventura é mentiroso. Mas sei que tem jeito para a demagogia. Não se pode comparar dois anos de revolução com a esquerda ou a democracia. Como não faz sentido comparar dois anos de agitação com cinquenta de regime. Nem que se atribua à democracia o que aconteceu de negativo durante esse período. E também não é verdade que se esconda o que aconteceu durante os dois anos de revolução.

 

Comparem-se cinquenta anos de democracia com outros tantos de ditadura salazarista. Todos os factos podem ser alinhados. Prisões, torturas, detenções, crimes, medidas de segurança”, censura, despedimentos e saneamentos, em poucas palavras, direitos fundamentais: faça-se a comparação entre períodos comparáveis. O resultado está aí. A superioridade da democracia é total. Nem três Salazares conseguiriam esconder a verdade, nem três Venturas seriam capazes de inventar factos.

 

Comparem-se os dois anos de revolução, adequadamente designados por “processo revolucionário em curso”, com qualquer outro período de igual duração. As conclusões são evidentes: despedimentos, perseguições, saneamentos, expropriações, expulsões, violência prisional e tortura foram certamente em número superior e em gravidade maior do que quaisquer dois anos do período anterior, o marcelismo. O que só permite condenar a revolução, não a democracia.

 

Pense-se na descolonização com o seu longo inventário de responsabilidades políticas e militares portuguesas, de desatenção aos portugueses abandonados e espoliados e de guerras civis que se seguiram nas colónias: políticos e militares dos últimos anos do Estado Novo, políticos e militares dos dois anos de revolução, sobretudo de esquerdas e de extrema-esquerda, são e foram responsáveis. A história já os culpou, a democracia também. Só a demagogia pode agora, para benefício próprio, tentar encontrar novos culpados. Não foi a democracia que fez a descolonização. Foi, isso sim, a revolução, com a ajuda da guerra colonial e do antigo regime.

 

André Ventura sabe isto tudo. Mas a verdade interessa-lhe pouco. Gosta é dos seus efeitos pessoais e dos benefícios que pode recolher. Como sabe também que muitos dos tios ou avós do Chega pouco fizeram para dominar os revolucionários do PREC, antes tentaram o terrorismo e esforçaram-se por actos violentos iguais aos da extrema-esquerda. Foram os democratas, a democracia, as eleições e as instituições democráticas que derrotaram a extrema-esquerda, não foi a direita, muito menos a extrema-direita. Nunca se viram os antepassados do Chega, tanto nos anos 1960 como em 1975 e 1976, nas lutas pela liberdade e pela democracia.

 

A melhor comparação faz-se em poucas palavras. A democracia deixa viver os amigos de Ventura e do Chega. Não é certo que os amigos de Ventura deixassem viver as esquerdas e os democratas.

 

Não sei se André Ventura é ignorante e desonesto, nem sei se é irresponsável e provocador. Mas sei que não é estúpido nem democrata. As suas intervenções a propósito das malfeitorias da democracia, em comparação com as benfeitorias de Estado Novo salazarista, são risíveis, mas eficazes. O Chega de Ventura foi derrotado nas últimas legislativas, mas teve o talento de proclamar vitória. O Ventura do Chega foi derrotado nas últimas presidenciais, mas já fez com que esse exercício fosse transformado em etapa para a vitória. 

 

Mas a falta de sentido político e a tentação oportunista do PSD de Montenegro, assim como a inconsistência derrotada do PS ajudam o Chega, mostram uma estranha fraqueza da democracia e assustam! A democracia ainda tem meios políticos e legais para vencer o Chega e as suas tentativas antidemocráticas. Como ainda tem condições para afastar a extrema-direita e os seus esforços de restauração. Ainda. E ainda. Mas as suas possibilidades começam a diminuir. Ou antes, as ameaças aumentam. Se os democratas e as instituições nacionais e locais não conseguirem secar as fontes da demagogia, então podemos crer que os demagogos passarão. Como se faz isso? Dando o exemplo. Sendo honesto. Melhorando as vidas das pessoas. Fazendo justiça pronta. Cuidando da saúde pública. Dialogando sempre, a fim de conseguir maiorias de governo. Garantindo a estabilidade política. Trabalhando, em concertação, para a estabilidade social. Controlando melhor os movimentos de população, designadamente a imigração. Legalizando os trabalhadores estrangeiros, os que fogem ao fisco e os que aldrabam a segurança social. Lutando contra os empresários do trabalho ilegal. Nomeando professores a tempo e horas. Colocando médicos nos hospitais segundo as necessidades. Combatendo os crimes contra as mulheres e as crianças.

 

Este é o catálogo. Longo. Complexo. Difícil. Por isso já deveriam ter começado, em vez de se dedicarem aos jogos florais das negociações ou ao simulacro do trabalho feito e do dever cumprido. Por isso também o diálogo sincero entre alguns partidos democráticos deveria estar adiantado, já próximo de acordos fundamentais. Podemos ter a certeza de que estes partidos não estão a destruir a democracia. Mas estão a deixar que a destruam. A presunção ardilosa do PSD e a superioridade fantasiosa do PS estão a fazer mal ao país e à democracia. Estão a deixar que os coveiros da liberdade se infiltrem nas instituições e se passeiem vistosamente pelas vielas da conspiração.

 

Nota. Os primeiros jacarandás estão aí! Sempre!

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Público, 25.4.2026 

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23.4.26

A propósito da última crónica de António Barreto

 


No "Correio de Lagos" de Janeiro de 2026
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Os Logos de Lagos

 

UM LOGÓTIPO é um símbolo gráfico que proporciona uma identificação visual, imediata e inequívoca, de algo ou alguém (produto, marca, fornecedor de bens ou serviços, etc.), podendo ser um simples desenho ou incluir algum texto; mas, destinando-se a ser reconhecido sem esforço, quanto mais simples for, mais eficaz será.

 

ALIÁS, nos casos mais bem-sucedidos, a imagem até pode dispensar o nome: basta pensar na estrela da Mercedes, na concha da SHELL, no coelhinho da PLAYBOY ou no boneco da Michelin. 

Outras vezes, é o próprio nome que, pela forma como é desenhado, se impõe como logótipo (casos da IBM, da GE-General Electric, da Coca-Cola…), existindo também exemplos particularmente felizes — como a Apple e a Mitsubishi —, cujas imagens coincidem com os próprios nomes, respectivamente “maçã” e “três losangos” (ou “diamantes”, como por vezes também é referido).

 

FINALMENTE, há os que, pelo seu grafismo inspirado, dispensam explicações adicionais e, até há pouco tempo, Lagos dispunha de um destes bons exemplos: um desenho estilizado, criado em CorelDRAW, que sintetizava o essencial — o sol, o mar, a areia e as muralhas — acompanhado da expressão “LAGOS dos Descobrimentos”.

 

POSTO isso, e considerando que, enquanto imagem de marca, um logótipo deve permanecer o mais estável possível (e o anterior já aparecia referido na página da autarquia em 2008), permitam-me a pergunta:


O que terá levado a nossa Câmara Municipal a alterar, não apenas a imagem, mas também o lema, que passou a ser Lagos “DE” Descobertas — e nem sequer “DAS” Descobertas, o que ainda se poderia entender?


Terá sido a nova moda de cultivar uma certa VERGONHA da palavra e do conceito DESCOBRIMENTOS? Palpita-me que sim, mas não sou o único a suspeitar, e garanto que estou muito bem acompanhado. Todavia, se estiver(mos) a ser injusto(s), queiram desculpar.

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18.4.26

Grande Angular - Liberdade, cultura e história

Por António Barreto

Palavras que combinam mal entre nós. Liberdade e cultura, por exemplo. Democracia e política cultural, também. Memória e cultura, ainda. Ou, para terminar, memória e liberdade. Os livros obrigatórios para o ensino são boa ilustração. Tal como os museus e as comemorações. Por exemplo, os museus do 25 de Abril, o dos Descobrimentos e o da Escravatura. 

 

Pobre Saramago! Já é a segunda ou terceira vez que o homem se transforma em causa de guerra e motivo de discórdia! Deve ser por ser comunista. Uns senhores bem-pensantes, defensores de uma qualquer herança nacional, ou de uma doutrina política de combate, atiram a matar contra Saramago. Tanto em vida, como depois da morte. Gostemos ou não, a obra e o seu valor intrínseco, o seu relevo na cultura portuguesa, a sua projecção internacional e o número de edições e de traduções: todos estes argumentos mais do que justificam a atenção dada a este autor e escritor nos programas de língua e literatura. E sobretudo que os professores que o apreciam falem dele nas aulas, aconselhem e motivem os alunos para o ler, seja o Memorial, seja o Evangelho, seja O ano da morte. Uns, peritos ou políticos, incluem Saramago na lista dos livros obrigatórios. Outros, igualmente peritos ou políticos, excluem-no da lista e substituem-no por outro. O problema, todavia, é mais grave: consiste em tornar Saramago obrigatório ou decretar a sua exclusão! Saramago e qualquer outro, Vieira ou Torga.

 

O que está errado é que haja leituras obrigatórias ou algo que se pareça com isso. Não seria mais aceitável que houvesse recomendações ou sugestões de leituras a serem administradas e adaptadas por cada escola, cada turma, cada professor, cada encarregado de educação? Não seria muito mais importante afastar ou condenar (sem qualquer sentido de obrigatoriedade ou de proibição) o uso de livros resumidos, de romances sinópticos e de versões sintéticas que desnaturam a cultura, a história e a formação intelectual? O ponto essencial nesta discussão é que não deveria haver leituras obrigatórias! Em nome da cultura e da liberdade, pura e simplesmente não! Os Maias, O Memorial do Convento, O Amor de Perdição, Os Lusíadas, O Auto da Barca, A Sibila ou A Mensagem cabem em qualquer lista, obrigatórios é que não. De livre escolha, sim. Integrais, sim. Ao contrário de tantos que vivem bem com o facto de haver “versões curtas” de todos os livros, sobretudo os obrigatórios, de Camões a Eça, de Camilo a Agustina. 

 

Também estar a ser polémica a criação de um Museu do 25 de Abril, da Liberdade, da Democracia ou de qualquer outra denominação similar. Parece que as decisões oficiais foram tomadas, em tempos. Já foram alteradas. Depois renovadas. E agora novamente modificadas, parecendo que as entidades oficiais (Governo? Ministério? Outras instituições?) já não concordam nem dispõem dos locais e dos recursos necessários. É evidente que fazer um museu dedicado ao 25 de Abril tem que se lhe diga, pelo menos simbolicamente. Há uma ironia ácida em colocar num museu o 25 de Abril ou a liberdade. Fazer um museu com essa data ou qualquer outra designação pode ser de mau gosto. Tanto quanto a ridícula denominação modernista que tem sido preferida, a de “Centro Interpretativo”. Mas parece evidente também que organizar uma qualquer iniciativa que preste homenagem ao 25 de Abril e aos seus autores, assim como ao regime político democrático que se criou ou até à liberdade que tudo inspirou, parece de bom sentido, de bom gosto e de utilidade segura. Desde que não seja uma pastelada de mau gosto ou uma catequese da má liberdade. Mas a polémica está instalada, nem sempre pelas boas razões. Os pontos de vista enunciados têm origem na utilidade ou na conveniência actuais, mais do que no conteúdo e na inspiração.

 

Museus, aliás, que têm uma sina triste entre nós. O indispensável, útil, necessário e orgulhoso Museu dos Descobrimentos é proposto há anos e décadas por muita gente, incluindo académicos e intelectuais. O projecto já várias vezes foi aceite pelos poderes do dia, outras tantas afastado, por vezes simples e covardemente esquecido. Motivos políticos e financeiros são invocados para justificar esta abstenção. É dos raros temas da história de Portugal que merece museu, ensino, história, estudo, crítica e orgulho. Há contexto, meios e sítios (a Casa da Cordoaria ficaria mesmo a calhar!). Há interesse, estudiosos e investigadores. Já várias autoridades decidiram e aceitaram fazer, já outras tantas recusaram ou negaram. Ou debilmente esqueceram e afastaram. Para já, tal Museu está novamente morto e enterrado, naquela que é uma miserável atitude dos poderes oficiais. Há razões longas para esta situação: desinteresse, falta de cultura ou outros projectos com mais retorno eleitoral. Uma, no entanto, sobressai actualmente: a praga do anticolonialismo, do anti-racismo e de outras causas afins que pretendem apagar os Descobrimentos, encobri-los com a escravatura e a conquista e refazer a história. É mais uma vil posição das autoridades.

 

Contra o Museu dos Descobrimentos, um dos grandes argumentos reside na necessidade de combater e denunciar as malfeitorias dos portugueses nas sete partidas do mundo. Outro está na urgência, para uns, de fazer um museu ou algo parecido que estude, critique e condene a escravatura, o colonialismo e a conquista. Como parece evidente, este “museu” tem também a sua razão de ser, desde que o outro não seja assim substituído. Pode até mesmo conceber-se um só museu que cubra toda a realidade, ou antes, que inclua uma dimensão crítica dos acontecimentos e dos objectos de estudo e de exibição. Um “memorial” sobre a escravatura, que tanto representou na história de Portugal, também tem todo o sentido. Desde que, evidentemente, o museu dos Descobrimentos não seja substituído pela demagogia contemporânea. 

 

Falta de liberdade e de cultura na definição e na prática de livros obrigatórios. Falta de liberdade e de orgulho na negação de uma instituição comemorativa da democracia e do 25 de Abril. Falta de liberdade e de sentido da história na recusa do Museu dos Descobrimentos. Falta de coragem e de sentido humano no afastamento da ideia de construção de um memorial dedicado à escravatura. Os portugueses, ou antes, as autoridades não saem bem desta história. 

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Público, 18.4.2026

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11.4.26

Grande Angular - Momento ideal

Por António Barreto

Sabemos que os próximos tempos vão ser difíceis. A situação na Europa, no Próximo Oriente, na Ucrânia e na Rússia, para já não falar da África, é de horror e terror. Economias de rastos. Custo de vida explosivo. Os piores conflitos armados desde há décadas. As duas grandes potências militares, Estados Unidos e Rússia, envolvidas em terríveis guerras. Crise de energia sem dúvida. Crise nas bolsas, no comércio e nos transportes internacionais. Fome e guerra civil em África. Movimentos militares em vários continentes. Há muitas décadas que não se via nada parecido.

 

Esperam-nos, por isso, anos difíceis, sem que deles sejamos responsáveis. O problema é que não estamos preparados para os enfrentar, nem se vê que as autoridades estejam convencidas dos perigos que nos esperam. Os poderes públicos parecem alertados, mas as suas reacções revelam um estranho à-vontade. Até à data, descontos, subsídios, isenções e doações parecem ser as únicas soluções ao alcance do governo.

 

Vem aí aumento do custo de vida com valores desconhecidos. Talvez alguma crise de energia. É de esperar um crescimento inédito da despesa com a defesa, dada a crise internacional e tendo em conta o que pode acontecer à NATO e aos Estados Unidos. Haverá despesas consideráveis, além de revisões políticas de fundo.

 

A luta de classes parece estar a preparar-se para algum desenvolvimento. O governo procura atacar as questões laborais. O mundo sindical reage mal. Salários ressentem-se do custo de vida. A paz social e a paz do trabalho não parecem estar à beira do caminho.

 

A tensão com a imigração mantém-se ou desenvolve-se em clima de incerteza. Os preconceitos, nestes momentos, têm tendência a multiplicar-se e a tornar tudo ainda mais difícil. Neste clima internacional, é provável que haja mais candidatos a imigrante a bater à porta.

 

Se as questões sociais e económicas de Portugal são complexas, as políticas ainda mais. O governo minoritário não tem poder, nem aceitação, nem sequer benefício da dúvida, para tratar deste pesado caderno de encargos. O Chega tudo fará para abrir crise e arranjar via, qualquer via, para integrar ou comandar o governo. O Partido Socialista vive em dilema absoluto, bem-comportado para ser credível ao centro, malcomportado para segurar o apoio das esquerdas. O Partido Social Democrata espera que os outros cometam erros, nada fará para encontrar soluções duráveis. O governo tem enorme esperança em continuar mais três anos como minoritário, na atitude mais adolescente da nossa vida política, que consiste em não acreditar na realidade.

 

Motivo de boa esperança no horizonte: o Presidente da República parece dar sinais de favor perante soluções equilibradas, governos de legislatura, quem sabe se maioria de segurança. Também parece ter dado sinais de não se querer deixar limitar numa atitude passiva, à espera dos acontecimentos. Os seus primeiros passos sugerem que os partidos não vão ter descanso, nem vão poder entregar-se com deleite às suas manobras coreográficas habituais.

 

Em conclusão, estamos a viver um momento excepcional de possibilidade e de necessidade. Nem sempre estas duas se conjugam. Agora, parece evidente. Necessidade de estabilidade, de esfoço comum durável, de planificação estratégica, de acção imediata e de coragem política. Possibilidade de encontrar meios políticos, condições financeiras, apoio popular, condições de diálogo e convergência de algumas orientações doutrinárias.

 

Enquanto o governo, minoritário, estiver à mercê da chantagem e das provocações do Chega, os portugueses não terão descanso. O governo não terá paz. As instituições não terão confiança. Os empresários terão receio. Os sindicatos não terão segurança. Os funcionários públicos não terão tranquilidade.

 

Os dois grandes partidos centrais, PSD e PS, não têm vida fácil. Enquanto derem sinais de hesitação e de falta de determinação, sentirão os seus eleitorados potenciais a olhar para o lado. A população não parece interessada em especular, nas esplanadas e nos ecrãs de televisão, sobre as possibilidades mirabolantes do Chega, sobre os planos inteligentes e abstractos do PS e sobre as tácticas maquiavélicas do PSD. Hoje pretende-se que haja serena autoridade, jeito para a acção, sensibilidade para compreender os que sofrem e inteligência para perceber as ameaças. Já não se espera nem pensa no divertimento que se retira da berraria parlamentar, das graças do Chega, das beatitudes dos socialistas ou da inocência culposa dos sociais-democratas.

 

É possível encontrar uma via de conversa e negociação entre os socialistas e os sociais-democratas a fim de criar uma base programática comum. É possível definir as metas de um governo de união para os anos que faltam para completar a legislatura. É possível diminuir consideravelmente as lutas caricatas que se desenrolam na praça pública e que têm apenas como objectivo incomodar os rivais, aprofundar a instabilidade e dificultar a governação. Actualmente, as ridículas actuações dos principais partidos têm como exclusivos objectivos os de diminuir os outros e de tornar difícil qualquer acção ou legislação.

 

O comportamento do Chega, o mais assustador de todos, tem origem e causa na debilidade do PSD e do Governo. O comportamento do PS, o mais imprevisível de todos, tem uma razão: uma esquizofrenia fundamental que procura a estabilidade e o seu contrário. O comportamento do PSD, o mais perigoso de todos, tem a sua fonte no desejo de destroçar os rivais e de por eles ser derrubado em atitude descabelada.

 

Com algum recato, sem pressas, mas com determinação, os dois partidos centrais têm um raro momento nas suas vidas: podem entender-se sobre o essencial, não existem obstáculos doutrinários nem pessoais absolutos. Conseguem, se quiserem, definir programas comuns suficientes para dois ou três anos. Têm, talvez, a simpatia do Presidente da República. Podem apoiar-se num eleitorado consistente e de dimensões suficientes. Dão confiança às empresas e às instituições. Podem tranquilizar os sindicatos. Se o PSD se dispuser ao diálogo, pode ficar descansado que não será acusado de oportunismo ou de covardia. Se o PS estiver disponível para a negociação, não será apontado como traidor ou pedinte.

 

É esta a conjugação rara. A necessidade dos portugueses e a possibilidade dos partidos. É uma combinação vencedora!

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Público, 11.4.2026

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7.4.26

Grande Angular - Feia, mas boa!

Por António Barreto

O aniversário da Constituição comove! Tal como o dia da eleição da Assembleia Constituinte, a 25 de Abril de 1975. O da sua primeira reunião, a 2 de Junho de 1975. E o da aprovação final do texto, a 2 de Abril de 1976. Estas datas foram precedidas ou seguidas de outras não menos decisivas. O 25 de Novembro de 1975. As primeiras eleições legislativas, a 25 de Abril de 1976. A eleição do Presidente da República, a 27 de Junho de 1976. E a posse do primeiro governo democrático, a 23 de Julho de 1976. Tudo isto, no meio de acontecimentos inesquecíveis. Para quem os viveu, foram alguns dos mais belos dias da sua vida. Foram estas datas, mais a de 25 de Abril de 1974, que fizeram a liberdade.

 

Mas este aniversário, o 50º, ficou ensombrado por uma querela cheia de significado, mas inútil. Parece ser sobre um tema, mas, na verdade, é sobre outro, oculto. A revisão da Constituição cumpre as exigências do que é uma polémica portuguesa. Com muito significado, mas não é disso que se trata, é de um pretexto para outros ajustes de contas. É a revisão que se discute com ferocidade, sem sequer conhecer propostas. É o poder que está em causa. É uma acção de guerrilha. A provável fragilidade do PSD faz com que o assunto seja falado. Fazer esta revisão é prestar serviço aos acrobatas populistas que querem espaço, páginas de jornal, canais de televisão, entrevistas e redes sociais, assim como enfraquecer o PSD. Também não é preciso muito para ver o PSD débil, sem acreditar no que quer que seja, disponível e indisponível tanto faz.

 

A Constituição é evidentemente rude, mal escrita, excessiva, processual e metediça. Tantas vezes adolescente, ou mesmo infantil, ao julgar que basta dizer para que as coisas aconteçam. A Constituição é feia e grande. Foi feita por um número excessivo de advogados e juristas, candidatos a déspotas, gente decidida a organizar a vida dos outros em vez de deixar viver. Foi muito negociada. Como aqueles animais desenhados, às cegas, por várias pessoas. Não é zebra, não é girafa. Nem ocapi ou rinoceronte. É assim uma coisa. Defende ideias do capitalismo e do socialismo. É corporativista e liberal. Comunistas e socialistas revêem-se nela. Sociais democratas têm dias. Confusa e contraditória. Incapaz de lirismo, mesmo na versão constitucional. Um verdadeiro “cadavre exquis”, na definição dos Surrealistas dos anos 1920.

 

Mas foi um milagre. Salvou a democracia. Conservou o melhor da revolução. Mostrou os encantos do capitalismo social democrata. Afastou os tristonhos do corporativismo e manteve à distância os soturnos do comunismo. Os democratas olhavam para ela como se fosse a muralha da liberdade que manteria revolucionários à distância. Os revolucionários consideravam-na a mais segura defesa das conquistas de revolução. Foi este mal-entendido que constituiu o acordo que salvou a democracia. A tal ponto que, muito anos depois, após várias revisões, com a extracção do Conselho da Revolução, a reversão das nacionalizações e a abertura dos sectores de economia, depois disso tudo que retirou o fio de prumo da revolução, ainda os revolucionários a defendem, juntando-se aos socialistas e a alguns sociais democratas.

 

Rever a Constituição agora, nas actuais circunstâncias, sob chantagem do Chega, sem um longo prazo de reflexão e de participação, não é crime, nem propriamente um golpe de Estado. Seria uma derrota da democracia. Para o Chega, a maior vitória desde que nasceu. Mas era um acto de covardia do PSD, de fraqueza para além do admissível, sem cabeça nem moral. Se o PSD ceder, na que seria a sua maior derrota, o recado fica dado aos eleitores: é melhor votar directamente no Chega e não por procuração do PSD.

 

Nos países democráticos, são raras as revisões constitucionais. Muitas vezes, trata-se de apenas um artigo, uma emenda, uma breve inserção. Quando são de vulto, uma revisão pode durar meses ou anos de reflexão e discussão pública. De participação das forças sociais, da academia e dos cidadãos. Só regimes autoritários fazem revisões à bruta, impostas, a despachar, para ter vitórias demagógicas de curto prazo.

 

A nossa Constituição necessita de revisão? Não parece. Pode ser revista? Seguramente. Deve ser revista? Com certeza, desde que com todas as condições de participação, com todo o tempo necessário, com vontade e receptividade popular. Se o Chega forçar a revisão, com óbvios intuitos de demagogia, o PSD deve recusar a chantagem. Se o PSD ceder, muitos dos seus deputados podem e devem não a votar. Aliás, o voto individual serve para isso, para proteger a liberdade.

 

Há opções que poderiam um dia ser tratadas e discutidas com proveito, mas sem histeria nem demagogia. Por exemplo, a eleição do Presidente da República e os seus poderes. A sua eleição indirecta seria talvez um progresso do sistema político. A regionalização é outro exemplo. O que actualmente lá se diz sobre esse assunto nunca foi respeitado nem posto em prática, mas já foi condenado pela ausência de vontade política e por um referendo. Também o sistema eleitoral uninominal poderia ser debatido.

 

E mais poderia ser feito, se o fosse honestamente, sem demagogia. Sobre a Justiça e sobre os grandes sistemas públicos de saúde e de educação. Sobre a descentralização e a Administração Pública. Mas tudo isso deveria ser feito com serenidade e conhecimento prévio dos projectos de revisão pelos cidadãos. Ao longo de meses ou anos. Não com métodos velhacos de volúpia duvidosa, de vontade de dar nas vistas, de vingança ou de oportunismo, coisas em que o Chega é especialista. Sobretudo quando percebe que o PSD se deixa tentar.

 

Rever a Constituição agora, nestas circunstâncias, sem preparação nem debate público, não é crime! Não é sequer um golpe de Estado, mas é um favor prestado ao populismo. Se o Chega ou quem quer que seja apresentar um projecto de revisão que seja uma armadilha, se não houver uma vasta divulgação dos textos e das propostas, se não houver tempo para que haja uma discussão pública fundamentada, se não houver acordos prévios discutidos e se a tudo isto faltar sensatez e sobrar espalhafato, os restantes partidos têm uma boa solução: deixem o Chega falar sozinho, debater com ele próprio e votar solitariamente! Assistam à cena, porque deve valer a pena, mas não participem nela! A democracia fica a ganhar!

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Público, 4.4.2026

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28.3.26

Grande Angular - A pesada mão invisível

Por António Barreto

O Tribunal Constitucional está incompleto, espera… O Conselho de Estado, incompleto, talvez paralisado, espera… Os Conselhos Superiores das magistraturas, inacabados, esperam… O Provedor de Justiça, inexistente, espera…. Várias entidades reguladoras esperam…. Diversos organismos de fiscalização esperam…. Todos esperamos. Estamos perante um início, um vulto de crise das instituições. A causa está no Parlamento, que não cumpre os seus deveres. A responsabilidade está nos partidos, que não desempenham com lealdade as suas funções.

 

O Governo do PSD não se decide. Quer sol e chuva. Governar ora com o Chega, ora com o PS, ora com ninguém, à espera de drama que o favoreça. Procura voluptuosamente o ponto de crise, a ruptura que lhe permita ser derrubado, culpando os outros. Esta não é uma maneira de servir o país.

 

O PS, em crise de letargia unânime, não consegue optar entre a oposição, a neutralidade ou a situação. Queria ser chamado, mas não é. Gostava de ser designado como principal oposição, mas não foi. Não consegue escolher entre social-democracia e liberalismo, nem entre América e Europa, muito menos entre esquerda e direita. Caminha, como um sonâmbulo, para a sua irrelevância.

 

O Chega limita-se a fazer aquilo que sempre fez: provocar. Envenena os outros, esperando. Quer conquistar lugares. Mas age como se não quisesse. Sabe que a sua importância depende do facto de estar cá fora a perturbar. Sabe que se for integrado no sistema perderá o balanço e a mola. Exige lugares, mas, se não lhos derem, ganha duas vezes, exige e queixa-se.

 

Os partidos não se dão conta de que o tempo corre contra eles. A impressão crescente é a de que não são capazes de resolver. Pior ainda: a sensação é a de que é por sua culpa que as coisas correm mal. Não conseguem eleger os seus representantes? É porque há gato. Há interesses inconfessáveis. Há manobras perversas que explicam. Há ambições ilegítimas que dominam.

 

Até o lado partidocrata do sistema político está em causa. Quando se diz que a Assembleia da República vota, deve dizer-se os partidos votam, não a Assembleia. Isto é, os dirigentes partidários, não os deputados. Quando os partidos tiverem decidido quem querem eleger para os órgãos em falta, os deputados, mesmo em voto secreto, votam de acordo com os seus chefes. Já aconteceu, mas são raras as vezes em que os deputados agem livremente em voto secreto. Geralmente, a disciplina reina. O voto, dentro de duas ou três semanas, será um revelador do estado de saúde dos partidos. O Chega reclama a representatividade. O PS invoca um pretenso equilíbrio político.

 

A concepção socialista deste “equilíbrio” é estranha. Ao reclamar contra a eventual eleição de um juiz do Chega, com os favores do PSD, os socialistas dizem que se rompe o equilíbrio, que se trata quase de um golpe constitucional. Dado o actual panorama, bem vista a composição do Parlamento, não parece insensato que haja uma inclinação à direita. Ora, o PS já denunciou a quebra do equilíbrio instaurado há anos e que repartia os juízes equitativamente entre o PSD e o PS. Não se percebe a noção que os socialistas têm desse equilíbrio. É uma “mão invisível” que ordena a vida política desde há quarenta anos? São “direitos adquiridos” do PS, válidos em qualquer evolução eleitoral? É um “sopro divino” que trata o PS com especial favor?

 

Como se faz um equilíbrio democrático sem critérios verificáveis? Como se estabelece esse equilíbrio sem os votos dos cidadãos? Quando o PS ou o PSD tiverem 10% dos votos, o equilíbrio mantém-se? Mesmo se outros partidos tiverem 40%? O nascimento deste “equilíbrio” não tem origem em acordo de cavalheiros ou em altruísmo político. Foi um tratado puro e duro, no mútuo interesse, numa altura em que vingava uma espécie de “bipartidarismo”. Este deixou de existir. É patético tentar mantê-lo, quase constitucionalmente, sem os votos soberanos. Aliás, esse equilíbrio invisível foi desrespeitado quando se tratou de derrubar governos minoritários ou quando se criou a “geringonça”.

 

É natural que o Chega queira aproveitar, mesmo se detesta a Constituição. É natural que o PSD hesite entre essa ou a outra solução, a do PS. O problema é que não se trata de questão constitucional ou de espírito transcendente. Na verdade, é uma pura questão de escolha. Dado que compete ao PSD escolher, é a esse partido que incumbe o ónus de optar. Quer uma aliança séria, com conteúdo, prioridades, participação no governo e responsabilidades nas instituições, com o Chega ou com o PS? À direita ou à esquerda? Quer um bloco central? Quer uma coligação do centro democrático? Ou quer toda a direita? Com quem quer partilhar responsabilidades nacionais? Conforme a escolha, faz todo o sentido que um acordo desse género inclua convergência de esforços nas eleições de representantes do Parlamento nas instituições. Em qualquer caso, compete ao PSD tomar a iniciativa.

 

Se o PSD decidir ficar sozinho e prosseguir esta via de oportunismo manso e de inocência manhosa que consiste em fazer maioria ora com uns, ora com outros, na esperança de os acusar de serem as forças de bloqueio e os travões às suas reformas, se for esta a sua escolha, terá de pagar a factura. Quando o Chega e o PS perceberem de vez que estão a ser manipulados e que já não há esperança de ver o PSD convertido a uma variedade do interesse nacional, então nessa altura cairão governo e parlamento. O que se seguirá? Já sabemos. Eleições, dissolução, instabilidade.

 

A democracia é assim: escolhem-se os parceiros com quem se fazem maiorias, governos e políticas. Se houver acordo entre o PSD e o Chega, que seja de política geral e inclua governo. Da mesma maneira, se for entre o PSD e o PS. A alternativa é simples: ou um ou outro, com governo e legislatura. Não há volta a dar. O resto é oportunismo. É mau governo. É mau serviço prestado ao país. Os três, PSD, Chega e PS, precisam de se olhar melhor ao espelho. Eles não sabem, não se dão conta do mal que estão a fazer ao país e à liberdade.

 

Parece evidente que a melhor solução é a da maioria formada pelos PSD e PS, com partilha de governo, comunidade de questões constitucionais, coesão política e união de objectivos. Estes dois partidos conhecem-se bem. Ambos querem genuína estabilidade. Nenhum tem qualquer ideia subversiva. Mesmo o seu histórico de aproveitamento partidário é conhecido por ambos, o que ajuda.

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Público, 28.3.2026

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25.3.26

VULCANOLOGIA PARA JOVENS EXPLORADORES


Uma pérola no domínio da vulcanologia, ao serviço dos professores e alunos,

Escrita e ilustrada por quem sabe.

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23.3.26

Acerca do cinismo...

 

Portanto, ao mesmo tempo que Portugal ajuda a Ucrânia a defender-se da Rússia,  dá dinheiro a esta para atacar aquela...
Mas o absurdo não termina aqui: dos 2 gasodutos construídos para alimentar a Europa a partir da Rússia, o submarino foi sabotado, mas o outro continua a funcionar... e atravessa a Ucrânia...
Aliás, a mesma Europa já fez saber que está a tratar de ficar independente energicamente da Rússia, mas isso só acontecerá lá para 2028...
Os EUA, por sua vez, continuam a comprar combustível nuclear aos russos, numa percentagem de, pelo menos, 25% (António Vidigal refere mesmo 70%)... 

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21.3.26

Grande Angular - Os amigos e os outros

Por António Barreto

O estudo da “Action for Democracy” e o trabalho do Público e de Pedro Guerreiro são estímulos à reflexão, sobretudo quando as coisas estão difíceis. Estes trabalhos fornecem comparações muitos interessantes e ajudam a responder a perguntas necessárias. Quem são os nossos amigos? Os democratas têm sempre razão?

 

Os “meus amigos”, aqueles com quem gosto de conviver e com os quais posso ter alianças, são os países ou Estados democráticos. Onde há liberdade. E respeito pelas pessoas e seus direitos. Não hesito, nem tenho dúvidas. Mas sei que até os meus amigos fazem disparates e coisas inadmissíveis. Como o governo americano, sob Trump, como o governo israelita, com Netanyahu. Como, aliás, cuidadas as proporções, o governo português, com Montenegro, Passos Coelho ou Costa. Não é por fazerem certas opções que deixam de fazer parte do grupo dos “amigos”. Os que não são “amigos”, que poderão ser “inimigos” ou “adversários”, podem até ter razão uma vez, não é por isso que passam a ser amigos.

 

O mundo está dividido. Entre democracias e não democracias (autocracias, ditaduras, teocracias, plutocracias…). Tudo somado, tenho a percepção de que as democracias são cada vez menos. E que, nestas, o número de não democratas é cada vez maior. Lamento que nos últimos anos as democracias estejam a perder. Porque alguns deixaram de o ser. Porque outros deixaram de o desejar. Porque outros tentam aproximar-se de ditaduras. E porque mesmo dentro das democracias antigas, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália, apareceram movimentos e aventureiros antidemocráticos. Tal como no meu próprio país.

 

Muitos que vivem em democracia ficam complacentes com todas as formas de antidemocracia que vigoram. Olham para as questões de género, de raça, de cultura, de nacionalidade e de etnia seja com desprezo reaccionário, seja com indulgência covarde. Observam, com atávico respeito, os Estados muçulmanos, nunca democráticos, sempre machistas, geralmente autoritários e muitas vezes fanáticos. Olham para o mundo abdicando dos seus valores, porque assim acham mais confortável: o russo cruel e conquistador, o americano imperialista e bélico e o israelita vingativo são admirados ou perdoados. Finalmente, criticam a uns o que desculpam a outros. O que se detesta na Rússia, admira-se em Israel. O que se critica em Gaza, perdoa-se na Ucrânia. O que se aceita na China, critica-se nos Estados Unidos. “Dois pesos e duas medidas” é a fórmula mais simples para caracterizar a abdicação de tanta gente na Europa.

 

A ideia de que o império russo poderá um dia ser democrático e pacífico é uma ilusão. Imaginar os regimes islâmicos como entidades democráticas e respeitadoras dos direitos humanos é miopia. Considerar que o império chinês é democrático é estrabismo mental. Os valores orientais, as tradições chinesas, a herança cultural africana, as crenças islamistas, os usos indianos e os costumes ameríndios têm as suas grandezas, a sua beleza e o seu direito à existência. Mas, das suas tradições, não fazem parte os direitos dos cidadãos. Podem ter importância estética, religiosa, até humana, mas deles não vem a democracia. Esta é europeia e ocidental e está sob ameaça.

 

Muitos democratas portugueses erram… Quando consideram progresso ceder à ordem civilizacional de Estados não democráticos. Quando imaginam que o afastamento de estrangeiros pode ser via de progresso. Enganam-se quando aderem ao fascínio pelo poderoso e anafado. Enganam-se quando imaginam que é progresso aderir aos valores cruéis dos povos que desprezam mulheres, maltratam crianças, odeiam velhos e detestam opiniões livres. Enganam-se quando aderem aos costumes dos povos opressores. Enganam-se quando desprezam a cultura ocidental por a considerar mãe dos defeitos humanos. Como se enganam os que são incapazes de criticar os americanos quando estes desprezam os aliados. Enganam-se os que criticam ferozmente os americanos pelas intervenções militares e desculpam ou aceitam as intervenções militares russas, iranianas…. Enganam-se, mas é exactamente o que pensam.

 

Tanto os nossos amigos como os outros: todos devem ser criticados. Os Governos americano, israelita, russo e iraniano devem ser criticados, nenhum merece perdão. Mesmo se uns pertencem ao mundo das democracias. Os governos destes últimos Estados amigos passarão e, um dia, reencontraremos as democracias com as quais partilhamos valores. Quanto aos outros, que também passarão, não é provável que dêem lugar a Estados democráticos. Há povos, países e Estados assim: quase nunca aspiraram à democracia, sempre tiveram aversão pelas sociedades livres, detestam as políticas liberais, não conhecem os direitos dos cidadãos e abominam a cultura livre.  Por isso, nunca compreendi que um “progressista” pudesse reservar as suas fúrias para a crítica aos americanos e aos europeus, deixando em silêncio Estados que militam contra a democracia em qualquer parte do mundo.

 

O Presidente Trump tem dado mostras de comportamento imperialista. Além de desencadear guerras perigosas, despreza os aliados, desrespeita o direito internacional e prepara-se para destruir o que sobra da NATO. Por pior que seja, não basta para considerar os Estados Unidos da América uma ditadura ou um inimigo. A seu tempo, o povo americano dirá o que pretende a seguir. A Grã-Bretanha saiu da União Europeia, a Hungria aproxima-se da Rússia e a Espanha prefere fazer caminho solitário. O que precede enfraquece o campo da democracia, mas não é suficiente para que os países em questão deixem de ser nossos amigos.

 

Netanyahu, Trump, Orbán, Erdogan, Putin ou Xi não erram, são o que são. Põem deliberadamente em causa o direito internacional e procuram estabelecer novas relações de força. Uns fazem parte do mundo democrático, outros não. Uns podem ser postos na rua pelos seus povos, outros não. Todos merecem ser criticados. Mas não se pode confundir quem vive na liberdade dos seus povos com quem a suprime. É por isso que, mau grado críticas e contestação, uns são amigos, outros não.

 

Há ricos e pobres. Brancos e negros. Cristãos e muçulmanos. Judeus e gentios. Hindus e budistas. Cosmopolitas e nacionalistas. Imperialistas e submissos. Capitalistas e trabalhadores. Desenvolvidos e atrasados. Um sem fim de diferenças e divisões. Mas há uma divisão que se sobrepõe a todas: entre democratas e não democratas. Entre quem vive em liberdade e quem vive em ditadura. Entre quem elege os seus governantes e quem os sofre. Entre quem tem liberdade de expressão e quem vive na censura. Esta é a divisão que me importa mais do que todas.

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Público, 21.3.2026

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20.3.26

Pergunta de algibeira

 

Há aqui alguma coisa que não está bem. O que é?

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14.3.26

Grande Angular - Inevitável

 Por António Barreto

Há palavras proibidas em política. Pela simples razão de que falham quase sempre no seu propósito. Inevitável é uma delas. Tal como impossível, inescapável e infalível. Além de outras. Mas o sentido é o mesmo. Quando tudo leva a crer que vai ser assim, não é. Quando é certo e sabido que não pode acontecer, vai ser. Na verdade, são termos usados para reforçar as nossas esperanças, não as nossas certezas. São palavras que servem para reforçar a nossas previsões, não para garantir a profecia. Com essas expressões, queremos contribuir para que sejam verdadeiras ou mesmo o contrário, para assustar e fazer com que não o venham a ser. 

 

Tudo isto para sublinhar uma afirmação simples: é inevitável que este governo chegue ao fim antes do prazo; que haja eleições antecipadas; ou que haja novo governo com o Parlamento actual; ou finalmente que haja uma coligação capaz de governar o país com maioria e eficácia.

 

O Presidente Seguro disse, logo na tomada de posse, que esperava ou desejava que não houvesse eleições legislativas antes de tempo, isto é, antecipadas. Gostaria, pelos vistos, que a legislatura terminasse dentro do prazo. Fez muito bem. Tem toda a razão, apesar de sabermos que não depende só dele. Mas noto que ele não disse que gostaria que este governo durasse até lá. Ficou em aberto a hipótese de, com este parlamento, se organizar um governo diferente, nomeadamente um governo de coligação.

 

Um governo minoritário é sempre errado. É ou tem ar de provisório. Destina-se em geral a ser demitido, na esperança de que novas eleições tragam uma maioria. O PSD e o PS que o digam, pois navegaram por essas águas, às vezes com proveito. A grande esperança de um governo minoritário é a de, depois de gastar tudo, ser “injustamente” derrubado, caminhar para novas eleições e então ganhar a maioria. O governo minoritário é o de quem não quer partilhar ou dividir, quer tudo para si e seus apaniguados. Serve para incomodar os adversários, para fazer de vítima das oposições e para permitir gastar o erário público prestando poucas contas. Tem como beneficiários ou destinatários os seus militantes e os seus simpatizantes, tudo menos reformar com peso e medida, pensar a prazo e tomar conta das necessidades do país. Apesar de já ter tido boas opiniões e sinceros defensores, mas inexperientes, o governo minoritário foi sempre engano ou falsidade. É geralmente hipócrita e cínico. Nunca deixa de ser malandrice habilidosa. É um disfarce de serviço e sacrifico, é mera artimanha. Destina-se a obter vantagens próprias e exclusivas. É tudo, menos serviço ao país e ao povo.

 

Muitos portugueses, uma grande quantidade de jornalistas e quase todos os comentadores têm uma afeição especial pelos governos minoritários, eventualmente a prazo. É a sua vida. Calcular, fazer cenários, estudar as artes e as manhas dos políticos. Prever as tácticas possíveis, tropelias e alçapões, são actividades lúdicas, por vezes interessantes, geralmente irresponsáveis e diletantes. Mas é infelizmente muito de que vive a política. E a política de governo minoritário nem se fala!

 

Considerar a bondade e a utilidade de um governo minoritário, hoje, em Portugal, é incompreensível. Só mesmo por ganância e ambição. Nem se fala da situação internacional. A Europa tem estado a perder pontos, tanto militares como políticos, económicos, sociais e culturais. Pior ainda, o mundo ocidental tem estado a perder. Primeiro, porque a divisão entre Estados Unidos e Europa é perigosa, mas aparentemente irreversível. Segundo, porque o mundo democrático, tanto o real como o fictício (o que aspira, mas não é) tem estado a recuar, em força e segurança, mas também como modelo para outros povos. Terceiro, porque a crise económica e financeira, incluindo a dos preços da energia, está para ficar e afecta países como o nosso de modo radical. Quarto e finalmente, porque os perigos de enormes guerras regionais ou multinacionais são cada vez maiores, dividem o mundo, antagonizam países e destroem o direito internacional: o bastante para que cada país reforce os seus meios de estabilidade, defesa e segurança. Tudo isto, que nos escapa, mas nos fere, recomenda ao fortalecimento da democracia, dos direitos dos cidadãos, da consolidação das instituições e da coesão política e nacional. Nada disto aconselha aos jogos florais da política caseira nem às palhaçadas de bairro que tanto animam muitos políticos. Nunca, como hoje e desde há oitenta anos, vivemos com tão grandes ameaças, tão próximos dos desastres e de suas consequências. Mesmo que se evite o pior, o que aí vem não se recomenda. 

 

Nem é preciso invocar a situação internacional e os iminentes perigos. A situação nacional e as suas debilidades são suficientes para exigir, das autoridades, dos partidos, das instituições e das empresas, um esforço especial de clarividência e de cooperação. Apesar de progressos localizados ou passageiros, Portugal tem dado sinais crescentes de fragilidade e de declínio. A vida nas cidades, a qualidade do espaço público e o uso de transportes colectivos transformam-se em pesadelos. A segregação entre ricos e pobres aumenta. O falhanço dos serviços públicos, nomeadamente da saúde, com especial sofrimento dos pobres e das classes médias e trabalhadoras, é abominável. Portugal dos fogos e dos incêndios, dos vendavais e das inundações, é o nosso Portugal de hoje, frágil, inquieto e temeroso. O ambiente moral tem-se degradado, com a ascensão dos ricos e dos favorecidos, em detrimento de todos os outros. A proliferação do populismo mais demagógico e irracional que se pode imaginar não é antídoto, antes faz parte desta espécie de crise deslizante.

 

O que tem de se fazer na legislação laboral, na reorganização do Serviço Nacional de Saúde e na recuperação e desenvolvimento dos transportes públicos, não é compatível com as minas e armadilhas dos governos minoritários. O que se deve fazer para reformar a Justiça não é simplesmente possível sem uma corajosa legislação e uma ousada colaboração com magistrados e advogados, impossíveis de se encontrar com governos de brincar. Tudo o que é importante e urgente exige governo maioritário e responsável, empenho do Parlamento, sintonia do Presidente da República e colaboração das instituições. Com todo o respeito pelos direitos dos cidadãos e das oposições. Nem mais. Nem menos.

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Público, 14.3.2026

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7.3.26

Grande Angular - Crise: fonte e remédios

Por António Barreto

É inquietante este ambiente de crise que se vive em Portugal. O espectro da instabilidade paira sobre o país. No seu bairro, os cidadãos sentem-se inseguros, ou antes, sem certezas. A falta de esperança parece residir em cada rua. Todos parecem acreditar em que o governo volta a cair em breve, que haverá talvez eleições, quem sabe se delas alguma coisa resulta, tal como nas últimas. Um Presidente da República tem vontade, mas não tem poder. O Parlamento está insuportável de baixa qualidade de debates e de falta de produtividade legislativa. E, quando parece trabalhar muito, trabalha mal e aos berros. O poder actual, social democrata, está ameaçado por si próprio. O Primeiro Ministro pede ansiosamente três anos e meio, para o que nada faz. O poder alternativo, socialista, está débil. O poder contra o sistema, populista, é ele próprio crise e instabilidade, é esse o seu programa. A três, não se entendem. A dois, não conseguem. A um, não vence.  Vai haver crise? Talvez. Quando? Não se sabe, mas brevemente. Porquê? Esta é a questão.

 

Estamos, pois, instalados na crise ou nas suas vésperas. Será crise social e económica? Não é. A emigração para o estrangeiro voltou a funcionar como válvula de segurança, até por excesso, dado que faltam centenas de milhares de trabalhadores. Os imigrantes, apesar das dificuldades, suas e nossas, são fonte de acalmia, não há pressão salarial, não há tensão sindical, não há ambiente de greve. O poder de compra tem subido, pouco, muito pouco, mas alguma coisa. O emprego está no máximo. Não faltam os abastecimentos. Os preços sobem muito, mas aguentam-se, assim se vivendo pior, talvez, mas não tão mal como isso. Os serviços públicos (transportes, saúde, educação, atendimento publico, habitação) estão em péssimo estado, talvez mesmo em degradação, mas a esses os portugueses estão infelizmente habituados.

 

A demografia também não está muito bem, mas não parece ser causa de crise política. Cresce o número de idosos, ainda por cima mal tratados e mal protegidos. Há crianças a menos, o que não tem efeitos políticos a curto prazo. Há muitos estrangeiros, com problemas, mas sem força. Há muitos portugueses emigrantes, o que retira força e mobilização. As comunidades urbanas desfazem-se a olhos vistos, com a degradação imobiliária, os custos absurdos da habitação e a fuga para as periferias sem identidade nem coesão. Os bairros e os centros históricos entraram em declínio, entre o abandono, o desleixo e o turismo errático. Tudo isto faz uma má sociedade e um país triste, mas não faz uma crise política.

 

A economia não está assim tão mal. Poderia estar melhor. Poderia ter salários superiores. Mais investimento externo. Mais empresários portugueses. Mais inovação. Mais acção e menos “estratégias”. Mas emprego, rendimentos e oportunidades não estão em crise verdadeira. Não há rivalidades e contradições sociais, nacionais, regionais e de classe que justifiquem crise. Não há os ingredientes clássicos, os representantes do grande capital, os dos monopólios, os da pequena burguesia, os das classes médias, os das classes trabalhadoras e os do mundo rural. 

 

As actuais crises sociais são terríveis e de efeitos arrasadores. Alimentam-se da droga e da corrupção para as quais a política do presente não tem solução. Residem na falta de segurança crescente, apesar de ainda não alarmante. São evidentes na habitação e no alojamento. Nas condições de vida dos ilegais e dos imigrantes. Na saúde desorganizada. Nas cidades devastadas, desleixadas, desconfortáveis, sujas, agressivas, desmazeladas e fúteis. Mas nenhuma destas se transforma em crise política e esta última em solução, em batalha eleitoral com sentido e futuro, em acordo entre partidos. 

 

Porquê, então, este sentimento de crise? Este ambiente depressivo que gera pessimismo e percepção da inutilidade do debate e da democracia? Porquê esta sensação de que não há estabilidade, não há propósito, não há substância e conteúdo e só há táctica, estratégia e cálculo?

 

O clima de crise política, mais uma vez, não tem origem na sociedade, na economia, na luta das classes, em conflitos regionais ou nacionais. Também não parece ter origem nas mais gritantes chagas da sociedade portuguesa actual, a corrupção, a justiça, a saúde e os serviços públicos. Nem sequer decorre da crise europeia e mundial de guerra, de fragmentação e de alteração de alianças. Não! O ambiente de crise reside na falta de maioria parlamentar e na aparência de eleições permanentes. Traduz-se na impressão de que a democracia é inútil. Mora nos agentes políticos, nos três principais partidos e nos seus dirigentes, nos deputados e nos governantes. Resulta da tensão pessoal dos dirigentes, presentes, passados e futuros. É efeito da intenção central dos dirigentes do sistema, mas também dos candidatos e dirigentes anti-sistema. Ventura é tão responsável por esta situação quanto Montenegro ou Carneiro e respectivas equipas dirigentes. O Chega é um produto da crise, não um remédio. Um sinal da crise, não uma luz.

 

Porquê então esta certeza de que a situação social dos pobres, dos remediados, das classes trabalhadoras, das classes médias baixas, dos doentes e dos idosos é a última preocupação das autoridades políticas? Talvez mesmo a preocupação que vem depois da última? Porque os projectos dos líderes e dirigentes, a ambição, a falta de maioria parlamentar e a ausência de determinação na procura de estabilidade vivem deste mito ou deste fantasma que é o da certeza de que a crise de todos é a nossa riqueza, o inferno dos outros é o nosso paraíso, a queda dos nossos rivais é a nossa ascensão.

 

Entrámos na era da segunda democracia. Com nova vida. Mas ainda é possível aprender ou recordar qualquer coisa. O primeiro mandato de Marcelo Rebelo de Sousa ficará talvez na história como a mais útil e sábia concepção das funções presidenciais: apoiar as instituições, ajudar os governos, suportar o parlamento, fomentar maiorias e ajudar à governabilidade. Na verdade, para lá da letra da Constituição, a função do PR não é a de ser mais uma instituição, mais um equilíbrio, mais um contrapeso, mais um fiscal e mais um supervisor. No nosso sistema, bom ou mau, bem e mal, as funções do Presidente da República deveriam sempre ser entendidas como apoio às instituições, não como substituto, rival ou adversário das instituições! São certamente as que melhor ficam na folha de serviços de um Presidente. E na nossa vida.

 

Público, 7.3.2026

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