7.12.17

A difícil catarse da guerra colonial



Por C. Barroco Esperança
Quarenta e três anos depois da derrota política, militar e moral, Portugal não conseguiu fazer ainda a catarse da tragédia para que a ditadura nos arrastou, nem compreender que, após o fim dos outros impérios coloniais, era insustentável manter a mística de um país ‘do Minho a Timor’.
Juntam-se na mórbida nostalgia do “nosso Ultramar, infelizmente perdido”, a desolação de quem perdeu os bens de uma vida e a vida de familiares, os dramas de um regresso traumático, os saudosistas da ditadura, e quase 500 mil ex-militares que não aceitam que a guerra em que participaram fosse um crime, de um exército de ocupação contra povos coloniais. A síndrome de Estocolmo tornou-se o lenitivo para a dor de uma causa inútil, injusta e criminosa.
Poucos compreendem que o ato heroico do 25 de Abril foi o fim de uma descolonização que começou em Dadrá e Nagar-Aveli e continuou no ato demencial de incendiar o Forte de S. João Batista de Ajudá, para prosseguir em Goa, Damão e Diu, e acabar, fatal e tardiamente, em Angola, Moçambique e Guiné. Alguns nunca pensaram que Portugal era o único país que negava o direito dos povos coloniais à autodeterminação e que cada dia de guerra prolongava o sofrimento inútil e a perda de vidas, de quem lutava por uma causa justa e de quem era obrigado a opor-se-lhe.
José Vilhena, o caricaturista desassombrado e brilhante humorista, definiu um ‘patriota’ como ‘o que ama a sua pátria’, para logo acrescentar: “não confundir com nacionalista, que ama também a Pátria dos outros”.
Foi o nacionalismo fascista o responsável pelo atraso do nosso país e pela guerra levada aos países de outros, quando a moral, o direito e a comunidade internacional já tinham condenado o colonialismo.
Defender hoje o que já então era uma insana obsessão do salazarismo, que a cobardia de Marcelo Caetano prolongou, é um ato pouco abonatório dos defensores. Respeito os que creem na bondade da guerra colonial, bem como os que ainda peregrinam de camuflado, a agradecerem anualmente à Sr.ª de Fátima um milagre negado a 9.553 jovens, mortos, amputados ou paraplégicos, e aos incontáveis traumatizados de guerra. Crenças!
É tempo, dos que não se reveem no branqueamento do colonialismo, de testemunharem a guerra que transportam, e o que viram e souberam no teatro de guerra onde tombaram militares portugueses e guerrilheiros e familiares dos combatentes da independência dos seus povos.
A falsificação da história não honra os militares portugueses da minha geração, dignos de melhor causa, e que não mereciam os horrores que sofreram e infligiram.

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3.8.17

Venezuela e os países a sul dos EUA

Por C. Barroco Esperança
É preciso andar muito distraído para ignorar as forças que procuram derrubar os regimes progressistas, sufragados em eleições livres, na América do Sul ou Central. É a tradição, que levou um político a desabafar que estavam longe de Deus e perto dos EUA.
O que se passa no Brasil, sem ignorar os altos níveis de corrupção entre políticos, e sem garantias de que não exista entre magistrados, deve merecer uma séria reflexão quanto às perseguições dirigidas a líderes progressistas. Quando se destituiu a presidente da República, sem qualquer acusação de corrupção, e se entregou o poder a um corrupto provado, que a traiu, é preciso refletir e desconfiar.
É inadmissível que os juízes capturem o poder político brasileiro, onde não há provas de que estejam ao abrigo da corrupção que lhes serviu de pretexto para o assalto ao poder político, a glória mediática e a chantagem sobre a democracia.
Sendo perigosa a previsível ditadura dos juízes brasileiros não o é menos a do governo da Venezuela que usa o aparelho de Estado para controlar o poder judicial e reprimir os adversários, ainda que possam ser minoritários. A democracia não é apenas o exercício do poder pelas maiorias, é também, conjuntamente, o respeito pelas minorias.

Não há ditaduras boas ou más, consoante os objetivos que prosseguem. São todas más, e a sua defesa é inaceitável. Há exemplos históricos hediondos, à esquerda e à direita.
Na Venezuela o presidente Nicolás Maduro foi eleito democraticamente, mas, perdida a confiança popular, recorre a truques para manter o poder, prende adversários e reprime. Em cada dia que passa, perde a legitimidade e esgota o regime.
O autoritarismo e a repressão são o caminho aberto de uma ditadura para outra de sinal contrário e potencialmente sangrenta.
Estou certo de que Saramago repetiria agora, em relação à Venezuela, “até aqui cheguei…”.
Eu não cheguei tão longe.

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15.6.17

O DN e o embaixador Martins da Cruz

Por C. Barroco Esperança
No dia 10 de junho, o DN ocupou as páginas 12 e 13 com uma entrevista ao embaixador Martins da Cruz cujo interesse e conteúdo cabem ao jornal definir.
 A razão da minha estupefação resulta da reincidência do DN em apresentar, no perfil do diplomata, a insólita afirmação, a negrito, «António Martins da Cruz, com menos de 30 anos, foi abrir a embaixada de Portugal em Maputo», afirmação que repete da anterior entrevista do DN (11-02-2017).
 Não surpreende a omissão biográfica da demissão de MNE de Durão Barroso, de quem é compadre, na sequência do escândalo da portaria feita à medida da filha, Diana, para a entrada em Medicina, escândalo que tornou insustentável a sua permanência no governo e a do ministro do Ensino Superior, Pedro Lynce, autor da Portaria.
 Admito que, para as duas entrevistas, fosse irrelevante ter sido administrador da Afinsa (numismática e filatelia), a terceira maior empresa mundial de ativos não financeiros, logo a seguir à Sotheby's e à Christie's, falida após a mega fraude dos selos vendidos.
 Sobre a personalidade que mereceu duas entrevistas ao DN, no espaço de quatro meses, talvez fosse aliciante saber que, depois de demitido de MNE, foi ele, com Mário David, que negociou, nos bastidores, a ida para presidente da CE de Durão Barroso, enquanto este, dissimulado, insistia estar empenhado na candidatura do ex-comissário europeu António Vitorino.
 (O eurodeputado do PSD, Mário David, notabilizou-se ao ter manifestado vergonha por Saramago ser seu compatriota, e viria a ser o mandatário da candidatura de última hora, para desesperadamente tentar impedir Guterres de ascender o secretário-geral da ONU).
 Esqueçamos o homem de negócios, bem relacionado nos serviços secretos europeus e defensor entusiasta da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, e voltemos ao jovem que “com menos de 30 anos, foi abrir a embaixada de Portugal em Maputo”. A embaixada, sob o ponto de vista físico, pode ser aberta pelo porteiro, mas em termos diplomáticos só por um embaixador ou, no mínimo, um ministro plenipotenciário.
 Reincidir em que Martins da Cruz abriu a embaixada de Maputo ofende o embaixador Albertino de Almeida, impoluto e corajoso magistrado que Melo Antunes convidou para primeiro embaixador de Portugal em Moçambique.
 Martins da Cruz não o refere no currículo, mas Samora Machel expulsou-o de Maputo. A estima e consideração pelo embaixador Albertino de Almeida mantiveram-se intensas e recíprocas até à morte do primeiro, por acidente aéreo, em território sul-africano. 
 Ponte Europa / Sorumbático

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