20.10.12
Por Alice Vieira
AS NOVAS tecnologias têm isto de bom: quando
estamos longe e temos saudades dos amigos, elas se encarregam de nos aproximar.
De cada vez que eu estava fora do país, mandava um sms ao Manuel
António Pina. Porque normalmente estava em congresso, em encontro literário, em
escola ou biblioteca e queria trocar impressões, género “já cá estiveste?”, “O
que é isto?”, etc. Porque, normalmente, por razões daquilo que escrevíamos, eu
e o Pina andávamos pelos mesmos sítios.
Um dia — vá-se lá saber porquê…- eu aterrei na cidade francesa
de Périgueux, num Encontro de Literatura Gourmet!!!
Sms logo para o Pina: “o que é isto?”
Respondeu-me que também já lá tinha estado e até tinha gostado,
— e faz-me um estranho pedido: “por favor, vai à Rua tal, é uma rampa e mesmo
no fim, à esquina, há uma casa pequena, há de estar uma velha à porta com uma
gata castanha, diz-lhe que lhe mando um abraço.
Pensei que estava a brincar comigo mas, num intervalo do
congresso, lá fui.
Encontrei a rua, a rampa, a esquina, a casa, a velha, a gata.
Tudo como ele tinha dito.
Lá lhe expliquei a história (“sou portuguesa, e um escritor
português meu amigo pediu-me…” etc…) — e logo a velha se abre num enorme
sorriso: o Pina tinha estado em Périgueux há uns tempos e, nos seus passeios
pela cidade, tinha-a visto à porta com a gata. Parou no passeio, foi ter com ela
e ali tinham ficado tempos infindos, a conversarem…sobre gatos.
O Pina adorava gatos.
Espero que o céu esteja cheio deles.
NOTA
(CMR): procurando uma fotografia para ilustrar as palavras de Alice Vieira,
encontrei esta, [aqui]. Acho que fica bem…
19.10.12
O que escrever?
QUANDO me apercebi de que Manuel António Pina escrevia regularmente no Jornal de Notícias, não descansei enquanto não consegui contactá-lo. Já não sei quem foi o amigo comum que me deu o seu e-mail (terá sido a Alice Vieira?) mas o certo é que, assim que o apanhei, corri a escrever-lhe, pedindo-lhe autorização para afixar, aqui no Sorumbático, as suas saborosas e certeiras cinco crónicas semanais.
Qual não foi o meu espanto quando ele, 'na volta do correio', não só me disse que autorizava a transcrição, como ainda que se sentia muito honrado com o convite - já que era um leitor de longa data deste blogue!
Quanto eu teria dado para ouvir isso há mais tempo!
E foi assim que, a partir desse mesmo dia, os seus textos começaram a aparecer aqui, como "autor convidado" - uma referência limitativa que a breve trecho desapareceu; Manuel António Pina, para todos os efeitos, passou a ser um colaborador regular do blogue.
No Verão passado, no entanto, deixei de o ver no JN. Atribuí esse facto às férias, e esperei. Mas o tempo foi-se passando... e nada! Tentei, então, saber se ele se tinha sido afastado do jornal, mas em vão.
Decidi, então (já recentemente), escrever-lhe a perguntar se se passava alguma coisa, e dizendo-lhe (sem falsas lisonjas) que eu e muitos outros leitores/admiradores seus sentíamos a sua falta. Foi nessa altura, pela ausência de resposta (o que, com ele, nunca sucedera), que suspeitei que algo não ia bem. Hoje, ao fim da tarde, tive a pior confirmação possível.
E aqui estou eu, agora, a tentar escrever alguma coisa acerca de alguém que muito admirei mas com quem nunca falei pessoalmente - nem mesmo pelo telefone!
O Sorumbático põe todo o seu espaço à disposição de quem tenha conhecido, melhor do que eu, a pessoa e a obra de Manuel António Pina, para que seja possível que, aqui, fique algo mais do que as palavras de circunstância do costume: "este blogue ficou mais pobre a partir de hoje..."
Etiquetas: MAP
1.8.12
Coisas sólidas e verdadeiras
Por Manuel António Pina
O LEITOR que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz
engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto
de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska,
"mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo
político". Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de
todos eles, da 'troika', do défice, da crise, de editoriais, de
analistas!
Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante:
nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já
suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos
ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada
actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa
sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles
em voo picado.
Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a
vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e
brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem
que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente
de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?"
Em breve
nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e
vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a
política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente,
daquilo a que chamamos impropriamente vida.
«JN» de 1 Ago 12 Etiquetas: MAP
31.7.12
"Viver sem dinheiro"
Por Manuel António Pina
A EX-PSICOTERAPEUTA alemã Heidemarie Schwermer, hoje com 69 anos,
tornou-se uma celebridade (um documentário sobre ela foi exibido nas TV
de 30 países) por viver há 16 anos "sem dinheiro". Pouco depois dos 50,
abandonou o emprego, doou o que tinha e passou a viver fazendo palestras
e outros trabalhos apenas a troco de tecto e comida, instalando-se em
casa de amigos ou de pessoas que vai conhecendo, que também lhe dão a
roupa que veste e lhe pagam tudo o resto, do cabeleireiro aos
transportes.
"Muitas pessoas têm problemas", explicou à BBC. "Eu escuto-as e
ajudo-as a pensar sobre as suas vidas". Isto é, continua a fazer
psicoterapia, só que, agora, é paga em géneros. Prescindiu do
intermediário geral das trocas e redescobriu a troca directa. E, assim,
terá encontrado - diz - a felicidade.
Claro que as coisas não são
tão simples: "Testemunho milagres diariamente. Por exemplo, no início,
encontrava comida. Pensava nas coisas e depois encontrava-as na rua ou
as pessoas traziam-mas". A psicoterapeuta acredita "que estes milagres
acontecem devido à força do pensamento".
O dinheiro não faz, já
se sabia, a felicidade. No entanto, é com dinheiro que se compram muitas
das coisas que fazem a felicidade. O segredo de Heidemarie é que
consegue, pelos vistos, obtê-las com "a força do pensamento". Ou então
com o dinheiro dos outros. O que, vendo bem, não é tão incomum quanto
isso.
«JN» de 31 Jul 12 Etiquetas: MAP
30.7.12
Constituição a pedido
Por Manuel António Pina
O PRESIDENTE do BPI, Fernando Ulrich, já classificara a decisão do TC
que confirmou a inconstitucionalidade dos confiscos dos subsídios de
férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas de "negativa",
"perigosa" e "inaceitável". Agora é o presidente do BCP, Nuno Amado, a
clamar que foi "uma decisão muitíssimo infeliz".
A banca (falta conhecer a opinião de Ricardo Salgado, do
omnipresente BES, para o ramalhete ficar completo) não só tem enormes
responsabilidades na crise como tem sido beneficiária da maior parte dos
sacrifícios que, a pretexto dela, vêm sendo impostos aos portugueses.
Mas a banca quer mais do que o seu financiamento com a "ajuda" que a
'troika' cobra ao país em desemprego, fome e miséria ou do que a
destruição do SNS que alimenta os seus negócios na Saúde, a banca quer
também uma Constituição "sua", já que a Constituição da República se
revela, pelos vistos, "negativa", "perigosa", "inaceitável" e
"muitíssimo infeliz" para os seus interesses.
Nem Ulrich nem Amado
o escondem: "É premente alguma revisão da Constituição" (Amado), e a
decisão do TC pode "justificar a discussão de uma revisão
constitucional, o que até seria positivo" (Ulrich).
Numa
democracia que cumprisse os serviços mínimos, os desejos de dois
banqueiros valeriam apenas dois votos. Não tardará que vejamos quanto
valem num regime do género "que se lixem as eleições".
«JN» de 30 Jul 12 Etiquetas: MAP
26.7.12
Pobres juízes
Por Manuel António Pina
A ASSOCIAÇÃO Nacional de Bombeiros anunciou na terça-feira, pela voz do seu presidente, Fernando Curto, que iria processar criminalmente Jardim por este ter considerado uma "estranha coincidência" que a eclosão dos incêndios na Madeira se tenha verificado após afirmações suas sobre existirem bombeiros a mais na Região. (Eu processá-lo-ia mais depressa por ter qualificado os incêndios de "dantescos", mas isso sou eu).
A ASSOCIAÇÃO Nacional de Bombeiros anunciou na terça-feira, pela voz do seu presidente, Fernando Curto, que iria processar criminalmente Jardim por este ter considerado uma "estranha coincidência" que a eclosão dos incêndios na Madeira se tenha verificado após afirmações suas sobre existirem bombeiros a mais na Região. (Eu processá-lo-ia mais depressa por ter qualificado os incêndios de "dantescos", mas isso sou eu).
Ontem, quarta, o Governo Regional da Madeira anunciou que irá,
por sua vez, processar Curto por este ter processado Jardim, vendo
insinuações nas suas inocentes palavras. Hoje, quinta, deverá ser Curto a
processar Jardim por este o ter processado e amanhã, sexta, Jardim a
processar de novo Curto por este o ter voltado a processar e assim em
"mise en abyme" até ao infinito como as latas de sopa Campbell.
Não
queria estar na pele do juiz que irá que julgar todos esses processos.
Nem do que julgará o processo que Cristiano Ronaldo apresentou, também
ontem, contra o CM, acusando o jornal de, ao publicar fotografias suas e
da família em férias, ter desrespeitado a sua "vida privada" (afinal,
contra todas as expectativas, parece que Cristiano Ronaldo tem vida
privada). E os que têm que julgar os processos que certos figurões
públicos põem contra jornais e jornalistas por ofensas ao seu bom nome
quando ninguém imaginaria que tivessem bom nome? Pobres juízes.
«JN» de 26 Jul 12 Etiquetas: MAP
25.7.12
A "paciência" terá limites?
Por Manuel António Pina
EM POUCOS dias, já são dois os bispos a sair da sacristia, onde era
suposto deverem estar confinados a tratar em dedicação exclusiva de
assuntos divinos, para apontar o dedo acusador a César,
responsabilizando-o pela tragédia social que se abateu sobre o país,
cuja verdadeira dimensão a Igreja, através da sua obra assistencial,
conhece provavelmente melhor do que ninguém.
E se D. Januário Torgal Ferreira falou, referindo-se a alguns
membros do actual Governo, de "tipos que lutam pelos seus interesses,
têm o seu gangue, têm o seu clube e pressionam a comunicação social", o
arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, fala de políticos para quem "muitas
vezes e quase sempre, vale apenas o [seu] bem-estar pessoal ou, quando
muito, do seu grupo ou partido".
Tudo indica que o
primeiro-ministro se terá precipitado quando agradeceu ao bom povo
português a "paciência" com que vem suportando as medidas de austeridade
impostas ao país pelo seu Governo, a pretexto de uma crise de que são
responsáveis e principais beneficiários os "interesses", "gangues",
"grupos" e "partidos" de que falam os bispos.
Talvez tenha sido
justamente esse agradecimento que, por soar excessivamente a hipocrisia,
terá feito saltar finalmente a tampa, já não digo do bom (e, a crer no
primeiro-ministro, "piegas") povo português, mas do povo de Deus ou,
pelo menos, dos seus representantes.
«JN» de 25 Jul 12 Etiquetas: MAP
24.7.12
O fato novo do Rei
Por Manuel António Pina
QUEM, como eu e a generalidade dos portugueses, não percebe nada de
Finanças nem consta que tenha biblioteca e ouve repetidamente dizer, ao
fim de um ano de inauditos sacrifícios, desemprego, miséria e fome, que
"estamos no bom caminho", acabando por descobrir que afinal, em Março, a
dívida pública portuguesa cresceu mais 26 mil milhões em relação a
Março de 2011 (reinava então Sócrates, cognominado pelo actual Governo
de "o Gastador"), perguntar-se-á legitimamente onde irá dar o "bom
caminho".
Mas talvez, quem sabe?, seja assim que se combate a dívida,
aumentando a dívida. Como o desemprego se combate facilitando e
embaratecendo os despedimentos e destruindo emprego.
Dir-se-á que
nem eu nem os portugueses mais pobres cuja existência tem sido imolada
no altar da dívida, somos economistas, do mesmo modo que o menino que
não conseguiu ver a fatiota invisível do Rei e gritou "O Rei vai nu" não
era, obviamente, alfaiate. Mas quem escute as homilias diárias dos
alfaiates da política de austeridade demonstrando, mediante equações só
acessíveis a pessoas inteligentíssimas e com vastas bibliotecas, que
"não há alternativa", esperaria ver o Rei, já não digo com sapatos
novos, mas ao menos um pouco mais apresentáveis do que há um ano.
Sobretudo
depois de, em Janeiro, o alfaiate-mor ter anunciado no Parlamento que
2012 seria o "ano de viragem económica para o país".
«JN» de 24 Jul 12 Etiquetas: MAP
20.7.12
Bica, bagaço & factura
Por Manuel António Pina
ESPERO que o Ministério das Finanças não deixe de patentear a rede de
pesca fiscal que laboriosamente desde há um ano vem tecendo, de trama
dir-se-ia fisicamente impossível: apanha sardinha miúda e carapau do
gato e deixa passar o peixe graúdo. O segredo está no material usado,
inteiramente de concepção neoliberal nacional: uma legislação fiscal
labiríntica e imune a investidas débeis e desorganizadas mas que
facilmente dá de si quando o "investidor" é de peso.
Agora, depois de, com o fim das deduções de despesas de saúde em
sede de IRS, ter poupado os consultórios médicos privados à maçada da
passagem de recibos, o Governo assesta as armas pesadas para o pequeno
café da esquina, a cabeleireira de bairro, o biscateiro do fim da rua.
Imagino que Passos Coelho tenha, numa das suas saídas pelas traseiras,
entrado em alguma tasca de vão de escada para tomar uma bica, observando
à saída, indignado, a Vítor Gaspar: "Viste que a velha não me passou
factura? Agora como vou meter os 50 cêntimos nas despesas?".
Assim,
a partir de 2013, ou a velha passa factura ou pagará 3000 euros de
multa. Toda a gente, até a velha, consideraria isso mais que justo se
processos de milhões como os de Américo Amorim ou Soares dos Santos não
se arrastassem nos tribunais fiscais sem fim à vista ou se as Finanças
não se tivessem desinteressado de colectar as luvas do "caso dos
submarinos".
«JN» de 20 Jul 12 Etiquetas: MAP
19.7.12
D. Januário e os outros
Por Manuel António Pina
QUE, como há 50 anos, um bispo tenha de novo erguido a voz, fazendo
"política" em vez de se remeter à sacristia, eis o escândalo que agita
hoje esta espécie de tempos democráticos e de liberdade de expressão em
que vivemos.
Também em 1958 a Igreja institucional se demarcou da carta do
bispo do Porto a Salazar. Revelaria mais tarde D. António que até "da
Cúria vaticana alguém [lhe] disse: "Bem sabemos que isso é doutrina da
Igreja; mas se, de um lado e de outro sabemos isso, para que estar a
pregá-lo?".
Em muitos aspectos, essa carta é hoje de novo
singularmente actual: voltaram à rua o "mendigo, o pé-descalço, o
maltrapilho, o farrapo (...), os subalimentados"; e o "financismo 'à
outrance'", o "economismo despótico", o "benefício dos grandes contra os
pequenos", o "ciclo da miséria" são outra vez "o centro da Nação".
Por
isso, mais actuais que nunca são também os versos de Sophia: "Porque os
outros se mascaram mas tu não/ Porque os outros usam a virtude/ Para
comprar o que não tem perdão./ Porque os outros têm medo mas tu não./
Porque os outros são os túmulos caiados/ Onde germina calada a
podridão./ Porque os outros se calam mas tu não./ Porque os outros se
compram e se vendem/ E os seus gestos dão sempre dividendo./ Porque os
outros são hábeis mas tu não./ Porque os outros vão à sombra dos
abrigos/ E tu vais de mãos dadas com os perigos./ Porque os outros
calculam mas tu não".
«JN» de 19 Jul 12 Etiquetas: MAP
18.7.12
O bispo que não se esconde
Por Manuel António Pina
O QUE o bispo D. Januário disse na TVI não foi, como clama o jornalismo de "soundbyte", que "este Governo é profundamente corrupto". Disse que "há jogos atrás da cortina, habilidades e corrupção, este Governo é profundamente corrupto nestas atitudes a que estamos a assistir". Há uma diferença essencial. E há uma desonestidade igualmente essencial quando se retiram da frase algumas palavras omitindo o resto.
Por coincidência, no mesmo dia o vice-presidente da Transparência Internacional afirmava que os envolvidos nas privatizações da EDP e da REN devem ser chamados a responder pelo que se terá passado "atrás da cortina". E, no dia anterior, fora noticiado que a PJ e o DCIAP fizeram buscas nos bancos ligados a essas privatizações, não decerto por estarem seguros de que tudo se terá passado sem as "habilidades" ou sem a "corrupção" de que fala o bispo.
A reacção do ministro Aguiar-Branco, tomando as dores dos "alguns" a quem D. Januário insistentemente se reporta, traiu-o: mandou o bispo escolher entre "ser bispo (...) e ser comentador político". O mesmo que Salazar queria que D. António Ferreira Gomes fizesse.
E imagino o que diria Aguiar-Branco se D. Januário também tivesse, como o bispo do Porto, condenado o "financismo 'à outrance'", o "economismo despótico", o "benefício dos grandes contra os pequenos", a "opressão dos pobres" e o "ciclo da miséria" hoje promovidos pelo Governo.
«JN» de 18 Jul 12Etiquetas: MAP
17.7.12
Quais "portugueses"?
Por Manuel António Pina
QUANDO ontem aqui escrevi que Cavaco Silva terá dito a um jornal
holandês que [os portugueses] foram "demasiado negligentes" e estão hoje
a sofrer as consequências de "uma vida fácil", negligente fui eu, que
me fiquei pelo "lead" da notícia da RR sobre a entrevista ao
"Financieele Dagblad". Na verdade, Cavaco falou de "negligência" a
propósito de não terem sido devidamente avaliados os efeitos de o país
deixar de ter política cambial própria com a adesão ao euro; e de "vida
fácil" a propósito do excessivo investimento em bens não
transaccionáveis após essa adesão.
A questão central, no entanto, permanece: a facilidade com que os
políticos, Cavaco incluído, afirmam "os portugueses isto", "os
portugueses aquilo", omitindo a que portugueses se referem. Ora quem foi
"demasiado negligente" e quem viveu e vive "uma vida fácil" não foram
"os" portugueses, foram as elites político-partidárias do PSD, PS e CDS
que governaram e governam o país, saltando entre o Governo e a
administração de grandes empresas, com as quais não raro, no Governo,
previamente subscrevem contratos de milhões ruinosos para o Estado.
E
quem, por imposição dessas mesmas elites, está a pagar a sua
negligência e a sua vida fácil são os "outros" portugueses,
principalmente os pobres e as classes médias, cuja vida nunca foi
"fácil" e se tornou hoje ainda mais difícil, quando não impossível, de
viver.
«JN» de 17 Jul 12 Etiquetas: MAP
16.7.12
A "vida fácil" dos outros
Por Manuel António Pina
OS NÚMEROS são relativos a 2010, ainda antes do PEC 1, PEC 2 e PEC 3,
do memorando da "troika" e do Governo PSD/CDS: 18% dos portugueses,
segundo o INE, e 25,3%, segundo o Eurostat, estavam em "risco de
pobreza", eufemismo estatístico que significa que viviam com menos de
421 euros/mês, ou seja, que eram pobres.
Entretanto, Passos Coelho
chegou a primeiro-ministro, clamando que "os portugueses não podem
suportar mais sacrifícios". Afinal, podiam: em pouco mais de um ano, o
desemprego subiu de 10,8% para 15,2%, foram drasticamente reduzidas as
prestações sociais, confiscados, contra todas as promessas eleitorais,
os subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas e
aumentado o IVA para 23%, subiram para valores incomportáveis as taxas
moderadoras no SNS, reduziram-se até à irrelevância as deduções no IRS e
IRC e as isenções no IMI, aumentaram brutalmente os transportes, a
electricidade e o gás, despedir tornou-se fácil e barato, multiplicou-se
o trabalho precário e sem direitos, regressou o trabalho infantil...
Hoje
há 1,4 milhões de pensionistas a viver com menos de 500 euros/mês, 550
mil trabalhadores com 485 euros (431,6 após os descontos) e 416 mil
desempregados não recebem subsídio de desemprego. Tudo isto, como
explicou Cavaco Silva a um jornal holandês, porque foram "demasiado
negligentes e estão hoje a sofrer as consequências de "uma vida fácil".
«JN» de 16 Jul 12Etiquetas: MAP
13.7.12
O "mercado" universitário
Por Manuel António Pina
ONTEM fui atendido numa caixa de supermercado por uma licenciada em
Engenharia, área em que parece não faltar emprego. O seu problema,
explicou-me resignada, era a universidade que lhe atribuíra o diploma...
Muitas escolas de ensino superior privado são hoje apenas
negócios (e sem departamentos de pós-venda). Comercializam diplomas de
"dr", de "mestre" e de "doutor por extenso" como poderiam comercializar
frutas ou legumes. Com uma diferença: o sector das frutas e legumes é
mais fiscalizado e os seus consumidores mais protegidos do que os do
"sector" do ensino superior.
As universidades públicas, apesar do
"salve-se quem puder" orçamental para que foram empurradas, vão
sobrevivendo ao naufrágio. E o mesmo se diga de algumas universidades
privadas, que mantêm cotação de exigência e rigor. (Uma sugestão ao ME:
já que o ensino superior é uma actividade empresarial "liberalizada",
por que não uma Bolsa de Valores Universitária? Assim, os alunos
saberiam o que compram ao matricular-se em certas universidades. Um
"outlet" para diplomas inúteis ou com defeito também não seria má
ideia.)
Há muita hipocrisia em tudo isto. Porque não "liberaliza" o
ME também os cursos de Medicina? Talvez porque, parafraseando Harold
Bloom a propósito da política de quotas nos EUA, o ministro não queira
ser um dia operado ao cérebro por um turbolicenciado à bolonhesa ou por
um mestre ou doutor "equivalentes".
«JN» de 13 Jul 12Etiquetas: MAP
12.7.12
A Bordúria "abre-se"
Por Manuel António Pina
ANUNCIOU a televisão estatal (na verdade, "a"
televisão) norte-coreana que o líder supremo do Partido, do Estado e do
Exército, "Kim Jong-un, tem um plano grandioso para fazer uma mudança
considerável no campo de literatura e artes".
A primeira etapa de
tal "plano grandioso" (na Coreia do Norte, os planos e ideias do
supremo líder são sempre "grandiosos") foi um grandioso "show" realizado
sexta-feira na capital do país, Pyongyang, em que, entusiasticamente
aplaudidos de pé, actores dançaram para as cúpulas do regime, incluindo o
próprio Kim Jong-un, vestidos de personagens da Disney: Mickey, Minnie,
Winnie-the-Pooh, Branca de Neve, Dumbo, etc.. Alguém devia ter
informado Kim Jong-un que Mickey é agente da CIA...
Alguns media
ocidentais vibraram com tal sinal de "abertura", embora os EUA, pela voz
do Tio Patinhas, tenham lamentado que os norte-coreanos não tivessem
pago os direitos de autor.
"Abertura" seria um "show" em Pyongyang
com as personagens, já não digo de Crumb, Shelton ou até de Al Capp,
mas, ao menos, os de "L'affaire Tournesol", de Hergé, em que Tintin
conhece um país, a Bordúria, que, mais estrela menos bigode na bandeira,
é decerto familiar do povo norte-coreano: um partido único, um líder
supremo com estátuas por todo o lado, uma tenebrosa polícia política, um
Estado militarizado e uma sociedade infantilizada cantando hinos de
louvor aos seus carcereiros.
«JN» de 12 Jul 12 Etiquetas: MAP
11.7.12
Um adjunto para a adjunta
TODA a minha simpatia para a subsecretária de Estado adjunta dos Negócios
Estrangeiros, que parece ter percebido perfeitamente o sentido do
discurso da urgência de descolonizar o Estado dos partidos por que tanto
se tem batido o "seu" ministro, Paulo Portas.
Apesar da sua tenra
idade, igualmente parece ter percebido, honra lhe seja feita, que os
manifestos eleitorais são para eleitor ver. E que, quando o do seu
partido fala em "independência [das nomeações] face ao clientelismo" ou
proclama o princípio de que "não podendo ninguém ser prejudicado por ser
membro de um partido, grave é que ter cartão partidário dispense ou
substitua o currículo e o mérito", é preciso atender não só à letra mas,
principalmente, ao espírito da coisa, àquilo que em Direito (a
subsecretária é jurista) se chama de "ratio legis".
Assim, num
gesto de desassombro cada vez mais raro em política, nomeou para adjunto
do seu gabinete de subsecretária adjunta "o licenciado João Paulo da
Silva Carvalho, do partido político CDS-PP", anexando ao despacho de
nomeação o currículo de mérito que recomenda o nomeado: dois anos de
"funções como administrativo em empresa de prestação de serviços" e
"desde 2000 a exercer funções no CDS-PP". Faltou-lhe acrescentar que o
nomeado é arguido no processo Portucale (também conhecido por "processo
Jacinto Leite Capelo Rego"), mas não podia, naturalmente, lembrar-se de
tudo.
«JN» de 11 Jul 12 Etiquetas: MAP
10.7.12
O valor das palavras
Por Manuel António Pina
OS JOVENS candidatos a "boys" do PSD ouviram da boca do homem que
assegurou, jurou, afiançou, afirmou, asseverou, prometeu, garantiu que
não aumentaria o IVA e que "do nosso lado, não contem com mais impostos"
e ainda que acusá-lo de tencionar confiscar os subsídios de férias e
Natal era um "disparate", que é "perverso" "o recurso à via do trabalho
temporário para resolver necessidades permanentes" do SNS e que o país
não pode aceitar a "proletarização da juventude portuguesa baseada em
recibos verdes, em que as pessoas são obrigadas a pagar com os recibos
verdes aquilo que as entidades que as contratam não estão disponíveis
para pagar".
As afirmações foram proferidas por Passos Coelho na
festa do 38.º aniversário da JSD em resposta a uma questão do presidente
desta estrutura, Duarte Marques, sobre o caso dos enfermeiros do SNS
contratados a empresas de trabalho temporário a 3,96 euros por hora.
Fixemos
este nome, Duarte Marques, porque, com tal capacidade para dar, no
momento certo, a deixa certa para que o líder possa dizer o que os
eleitores querem ouvir, o rapaz irá decerto longe.
Os futuros
"boys" aprenderam ainda uma lição fundamental: em política faz-se o que
se quer mas diz-se o que, em cada momento, convém. Se for necessário
até, como o mestre, que "precisamos de valorizar a palavra para que,
quando ela é proferida, possamos acreditar nela".
«JN» de 10 Jul 12Etiquetas: MAP
9.7.12
A letra escarlate
Por Manuel António Pina
QUIS o acaso objectivo que o debate na AR de uma petição da chamada
Federação Portuguesa pela Vida tenha sido marcado para dias antes da
data de nascimento de Calvino. E a Fé Reformada que anima hoje a
desamparada social-democracia que sobrevive no nome do PSD não se fez
rogada à predestinada coincidência.
Por insondável determinação divina (se não do próprio Calvino),
foi a deputada Conceição Ruão a eleita para ser a voz da Verdade Moral
no Parlamento: às mulheres levadas a abortar deve ser imposta a
"obrigatoriedade da assinatura da ecografia da idade do feto"
(pressupõe-se que depois de obrigadas também a olhar longamente a
ecografia repetindo "minha culpa, minha tão grande culpa", enquanto no
sistema áudio do hospital se escutam hinos religiosos e "slogans" da tal
Federação pela Vida). Tudo indica que Deus terá assim querido castigar
as mulheres que abortam com a pior das humilhações: receber lições de
moral do PSD.
Seguir-se-á a letra "A" de "Aborto" bordada a
vermelho no peito, para os mesmos elevados fins morais do "A" de
"Adúltera" do romance de Hawthorne.
Obviamente, a
auto-estigmatização das mulheres defendida pelo PSD aplica-se às que
recorrem ao SNS e a médicos e enfermeiros pagos a 4 euros à hora (na sua
grande maioria, segundo as estatísticas, trabalhadoras fabris,
camponesas ou desempregadas) e não às que recorrem a médicos privados e
clínicas de luxo.
«JN» de 9 Jul 12 Etiquetas: MAP
6.7.12
Parentes pouco recomendáveis
Por Manuel António Pina
A MAIOR parte dos "partidos irmãos" que sobraram da família ideológica
do PCP depois do desmoronamento da URSS e do Bloco de Leste é daquele
tipo de parentes que as famílias comuns se recusam a receber em casa e
de quem nem querem ouvir falar.
O Partido Comunista da China era, em vida da URSS, um parente de
quem o PCP activamente se envergonhava. Mas família é família e os laços
de sangue acabam por falar mais forte, sobretudo em situações de
orfandade. O PCP tem feito tudo para preservar as relações "fraternais"
com o PCC, esticando além dos limites do tolerável o conceito de
"assuntos internos" (para não falar do de "construção do socialismo") e
apoiando acriticamente na China o capitalismo selvagem e sem regras que
condena em Portugal.
Pensar-se-ia que os rasgados elogios agora
feitos pelo vice-primeiro-ministro, Li Keqiang e pelo ministro dos
Negócios Estrangeiros, Yang Jiechi, à política de austeridade em
Portugal e ao "exemplar cumprimento" pelo governo português daquilo que o
PCP justificadamente chama "pacto de agressão" merecessem algum
comentário, mesmo que tímido, do PCP.
Não mereceram. Nem isso nem
as relações bilaterais recentemente formalizadas entre PCC e CDS/PP.
Trata-se de relações mais saudáveis e transparentes do que as fundadas
numa oportunística consanguinidade ideológica. Ao menos CDS e PCC
defendem a mesma coisa, independentemente das latitudes.
O autor escreve segundo a antiga ortografia«JN» de 6 Jul 12
Etiquetas: MAP
5.7.12
De super a mini num ano
Por Manuel António Pina
O
MINISTÉRIO da Economia e Emprego é uma espécie de pedreira em que todos
os outros ministérios vêm há um ano escavando competências, de tal modo
que o "super-ministério" que, segundo um deslumbrado Álvaro Santos
Pereira, equivalia a "dois ministérios e meio" já a pouco mais equivale
hoje que a meio ministério.
Primeiro foram-se as privatizações e
as PPP para o omnipresente Borges; depois o emprego jovem para Relvas;
depois a economia externa para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e
Paulo Portas; depois as verbas do QREN para o Ministério das Finanças...
Agora,
quando as réplicas do terramoto pareciam ter finalmente, uff!,
terminado, Álvaro vê-se a contas com novo sismo (ou novo cisma): o longo
braço de Vítor Gaspar volta a entrar-lhe casa dentro e fica-lhe com
mais um dossiê: o do concurso para escolha do prestador do serviço
universal de telecomunicações, e ainda o do respectivo fundo de
compensação e das negociações com a PT.
Não tarda que as
competências do ministro Álvaro fiquem reduzidas ao dossiê dos pastéis
de nata (isto enquanto Passos Coelho não concluir que os pastéis de nata
são também coisa importante de mais para continuarem ao seu cuidado).
Não será altura de o ex-super-ministro, agora miniministro, considerar
se os contribuintes devem continuar a pagar o super-salário da sua, como
ele dizia, "super chefe de gabinete"?
«JN» de 5 Jul 12 Etiquetas: MAP


