14.10.14

Personificações

Por Helena Matos
Tema do meu artigo de hoje (*) no Observador
Mais de quatro mil pessoas já morreram no recente surto de ébola. Não se sabe quantas mais morrerão. Alguém fez uma vigília por eles? O combate ao ébola está a levantar questões éticas decorrentes das proibições de deslocação para populações inteiras ou da necessidade de recorrer a tratamentos experimentais sem que se cumpram os procedimentos habituais. Quantos textos de reflexão já se leram sobre estas situações? 
Digamos que já não seria mau se estes humanos tivessem conseguido provocar uma onda de simpatia similar à gerada pela cadela de Teresa Romero, a auxiliar de enfermagem espanhola contaminada com ébola. Excalibur, assim se chamava a cadela, foi abatida por ordem das autoridades sanitárias, pois poderia ter contraído ébola. No passado sábado foram convocadas manifestações em 24 localidades de Espanha para mostrar indignação pelo destino de Excalibur. A operação de retirada da cadela da casa onde se encontrava transformou-se num circo, com os manifestantes tentando por vários meios que o animal não fosse levado. – A relação que mantemos com os animais, e sobretudo a relação que o mundo mediático mantém com os animais, é cada vez mais de sofá. Sofá no sentido urbano mas também psicanalítico do termo.
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(*) 12 Out 14

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3.10.14

Isto não está a acontecer

Por Helena Matos 
Na SIC N decorre a Quadratura do Círculo com o actual líder do PS lá sentado como se fosse a coisa mais natural do mundo o líder de um partido ser comentador político. A isto junta-se que António Costa ao ser confrontado com a sua liderança diz que não se comenta a si mesmo. Depois temos Pacheco Pereira que se deve ver a si mesmo como uma reencarnação de Oliver Cromwell em Lord Protector. Lobo Xavier recorda Sócrates e Costa reage Oh Oh e naturalmente não debate nada e faz um discurso declarativo. 
Costa é líder do PS e deve colocar-se a esse nível debatendo com outros líderes e não estar para ali a ouvir o Lobo Xavier a dizer “O António deve”, "O António sabe”.
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1.9.14

Muito nos conta, senhor vereador

Por Helena Matos 
Ao jornal "i" Sá Fernandes declara a propósito dos brasões: “Não iremos destruir nada, porque o tempo já se encarregou disso. Não iremos acabar com nada, porque há 20 anos que não existem ali brasões.” 
Ó almas santas, quer isso dizer que durante 20 anos os 130 jardineiros da CML mais as empresas privadas contratadas para cuidarem dos espaços verdes da cidade resolveram por sua conta e risco não tratar dos jardins da praça mais visitada da cidade? Ou resolveram não tratar de buxos e só cuidar das begónias? Ou só tratam de buxos com formas que lhes agradem? E ninguém na CML deu por isso? Ou foi a CML que resolveu que não se cuidasse daqueles buxos e determinava que rosas ao pé do marquês de Pombal sim senhor, mas os buxos do império nem vê-los e muito menos podá-los? 
Enfim a realidade é sempre supreendente. E na CML é mesmo um caso de literatura fantástica. 
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26.7.14

Uma tormentosa dúvida

Por Helena Matos
Alguém sabe se no conceito de animal doméstico maltratado cabe uma pessoa desfazer-se através de equipamento adequado de um ser igual, parecido ou similar ao da foto? Dirão que o animalzinho não cabe no conceito de animal doméstico que agora a nossa AR alegadamente veio proteger. Desculpem mas cabe: o animal em causa mostrou uma obstinação imensa em tornar-se doméstico numa arrecadação dos meus conhecimentos. Mais quando convidado a sair com palavras, gritos e gesticulação obstinou em manter-se na humana companhia. Por fim há pessoas que têm esses animaizinhos como domésticos logo não se pode dizer que os bichinhos não são domésticos. Em resumo aqui temos a causa fracturante dos próximos anos: o conceito de animal doméstico não pode ser definido pelos seres humanos. Há lá animal que queira sem mais doméstico que uma ratazana? Devemos deixar os animais decidir se querem ser domésticos: os ratinhos, as ratazanas e as baratas querem ser domésticos. Logo devemos aceitá-los na sua verdadeira identidade.
Obs. Para quem não tenha dado por isso os deputados da nação acharam por bem  equiparar as associações zoófilas a organizações não-governamentais ambientais, dando-lhes o direito a constituírem-se assistentes em processos e dispensadas do pagamento de custas judiciais.  E de caminho o projecto de lei estabelece que “quem, sem motivo legítimo, infligir dor, sofrimento ou quaisquer outros maus-tratos físicos a um animal de companhia é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até 120 dias”.  Está aberta a caça ao primeiro arguido num processo desse.
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16.7.14

Isto tem mesmo de ser investigado

Por Helena Matos 
Dois doentes morreram enquanto esperavam por uma intervenção no Hospital Santa Cruz, alegadamente por falta de dispositivos médicos devida a «limitações administrativas», denunciou hoje a Ordem dos Médicos, com base na denúncia de clínicos da unidade de saúde. A última vez que tivemos uma onda de indignação nacional nestas matérias – O inferno de uma doente com cancro deixada na escadaria de uma igreja - nada era o que parecia De qualquer modo o caso será sempre grave e precisa de ser investigado: se tiver acontecido nestes termos é gravíssimo, se se tratar de uma denúncia que depois se percebe não ter sido bem assim antes pelo contrário grave continua a ser. 
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24.6.14

Já se percebeu

Por Helena Matos
O Élsio Menau vai fazer parte das nossas vidas. O dito Élsio fez como trabalho de fim de curso uma forca na qual dependurou, de cabeça para baixo, a bandeira portuguesa. O dito trabalho intitulado “Portugal na Forca” mereceu a classificação de 17 valores no curso de Artes Visuais na Universidade do Algarve (se um trabalho que teve 17 era isto o que serão os de 20). O trabalho de final de curso esteve exposto, durante dois dias, num terreno baldio às portas de Faro e valeu ao seu autor a acusação de crime de ultraje à bandeira nacional. O responsável por tão inusitada acusação devia ser ele mesmo levado a tribunal. Em primeiro lugar porque a acusação não tem ponta por onde se lhe pegue e depois porque uma vez mobilizado o circo de apoio ao artista censurado já se sabe que vamos ter Élsio para o resto da vida. Já estou a ver dezenas de rotundas com as obras do Élsio artista contestatário, mais o Élsio à beira Tejo artista inconformado, sem esquecer o Élsio no Padrão dos Descobrimentos artista da desconstrução do simbólico do Estado Novo apropriado pela Democracia. O Elsinho tem a vida garantida cá no burgo. 
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26.1.14

Ora aí está a próxima e urgentíssima questão

Por Helena Matos
É uma coisa horrível: a barra foi substituída pelos parêntesis!!!! Resoluções, directivas e declarações internacionais caem sobre as nossas cabeças. O PÚBLICO uma espécie de paladino das causas de género anuncia:  «No Plano Nacional para a Igualdade, o género feminino aparece entre parênteses. Inicialmente, na proposta de Plano Nacional, que começou por ser posta à discussão pública e que foi para consulta de vários especialistas na matéria, utilizavam-se expressões como “conselheiro/a…” — o que é um exemplo de “linguagem inclusiva”. Já a versão final, publicada em DR, contém expressões como “conselheiro(a)”. Qual a diferença? A barra deu origem a um parênteses. (…)  O Guia dá vários exemplos do que está correcto: “pai e mãe” em vez de “pais”; “trabalhadores e trabalhadoras estrangeiras”, em vez de apenas “trabalhadores estrangeiros”. O emprego de barras também é uma possibilidade, para economizar espaço: “o/a doente”, “o/a requerente”, “A/O Presidente”, “Os/As Estudantes”, “a/o funcionária/o”, “o/a aposentado/a”.»
Vamos deixar-nos de parvoíces: esta doideira tem de acabar. E uma vez alguém vai ter de explicar o óbvio: isto não interessa nada e é um rematado disparate. Logo a começar pelo próprio Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública que não só propõe disparates como “trabalhadores e trabalhadoras estrangeiras” que se pode interpretar como referindo trabalhadoras estrangeiras e trabalhadores não estrangeiros como uma vez adoptadas estas recomendações para que as frenéticas almas das questões de género e demais causa urgentes se apaziguem logo outros problemas surgirão como bem se anuncia aqui: depois de andarmos feitos parvinhos a indicar os géneros teremos de erradicar qualquer referência de género. Tanta maluqueira já cansa!
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7.11.13

Mundo cão

Por Helena Matos
O que é mais importante: a morte de uma criança ou de um cão? Do cão, pelo menos a fazer fé nesta notícia do DN: «Mulher esfaqueou o seu cão por lhe matar a filha. Uma mulher inglesa esfaqueou, na terça-feira, o seu cão, numa tentativa de salvar a filha de quatro anos de ser fatalmente atacada pelo animal. No entanto, a menina, que acabou por ser atacada, morreu no hospital. Segundo as autoridades policiais, Jodie Hudson esfaqueou o seu cão Mulan, de cerca de oito anos, com uma faca de cozinha, após este ter atacado sua filha Lexi Branson, no apartamento onde viviam, em Mountsorrel, perto de Loughborough (Inglaterra). A menina, de quatro anos, acabou por morrer no hospital, devido aos ferimentos provocados pelo ataque do animal.» O destaque da notícia vai para o facto da mulher ter esfaqueado o cão. A morte da criança vem em segundo plano.
«Neste momento, estamos a investigar o caso para perceber toda a história do animal, o local de onde veio, como foi feita a sua inserção na família. E queremos, claro, entrar em contacto com o médico legista para perceber em que circunstâncias se deu a morte de Lexi”, disse Det Supt Sandall, em declarações ao site da BBC.» Da inserção da criança na família nem uma palavra. Sobre o facto de a família deixar a criança num apartamento ao pé do cão também nada. Vão investigar a morte do cão. Perceber toda a história do animal. E claro também falam com o médico legista para erceber como morreu a criança.
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9.7.13

2014: o ano em que o Bloco Central será visto com outros olhos

Por Helena Matos
O QUE até agora em momentos semelhantes ao actual foi visto como um problema entre Balsemão e Cavaco ou Soares e Freitas do Amaral acabou a transformar-se numa matéria convertível em milhões de euros de prejuízo a ser pago por todos. Ou seja, para azar dos políticos as crises deixaram de ser um assunto que lhes fique entregue exclusivamente. E por isso nem sempre o vencedor nos gabinetes pode ser o vencedor na rua como, no Domingo, Paulo Portas terá constatado quando na nave dos Jerónimos ouviu Passos ser brindado com uma ovação. Para lá de poder ter contribuído para dar de Passos uma imagem de estadista sereno, Paulo Portas, o líder que levou o CDS do táxi a integrar governos, o melhor orador da política portuguesa actual, deu também um forte contributo para que nos próximos tempos o Bloco Central volte a ser olhado em Portugal como uma alternativa não só credível mas também preferível, quer para o PSD quer para o PS.
«DE» de 9 de Jul 13

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16.5.13

A loucura em estado sólido!

Por Helena Matos 
PSD e CDS chumbam projecto que obriga os alunos a estudar a Constituição. PS pode dividir-se e esquerda vota a favor. O parlamento debate hoje se a Constituição deve ser ou não estudada nas escolas e o mais certo é a proposta ser inviabilizada com os votos contra do PSD e do CDS. O presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais, Fernando Negrão, defende, em declarações ao i, que “os alunos não devem ter nenhum contacto com esta Constituição”, já que faz mais sentido terem contacto com o conhecimento de “conteúdos de direito constitucional” que não estejam vinculados a ideais “de direita, nem de esquerda”. 
Esta posição do PSD e do CDS é mais do que um disparate: é um símbolo da areia que lhes preenche o lugar das convicções. Incapazes de defenderem uma alteração à Constituição optam por impedir o seu estudo. Por acaso essa atitude impede que essa Constituição condicione avida dos meninos que não a devem ler como se fosse um livro pornográfico? Esta ideia de que os alunos só devem estudar aquilo em que se revêem é perfeitamente totalitária e mais parece saída da cabeça do BE. Em Portugal existiu uma disciplina de Organização Política e Administrativa da Nação a que se seguiu a Introdução à Política. Em ambas os textos estudados eram de forte conteúdo político mas o mínimo que se espera é que os estudantes consigam ler criticamente os textos que estudam e que conheçam o texto fundamental do sistema que os rege. Se o texto não é aquele que devia ser mudem-no.
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9.5.13

Infantilização

Por Helena Matos
O BEBÉ-adulto tema do meu artigo de hoje no no DE
Nas críticas aos exames que agora começam encontramos uma sociedade cujas famílias já acham que é obrigação do Estado transportar-lhes os filhos para tudo o que tenha a ver com a escola – se não fosse a crise ainda teríamos o direito ao transporte escolar para a festa de aniversário! – ou que se chocam muito porque se pede aos seus filhos que assinem um papel onde declaram que não têm consigo telemóveis nem qualquer outro equipamento de comunicação. Esta infantilização das crianças e dos jovens gerou uns perturbantes bebés adultos que aos 18 anos ainda vão à consulta de pediatria, pois a idade pediátrica estende-se agora até aos 18 anos, onde entre imagens de ursinhos e cegonhas recordarão as ressacas dos festivais de Verão ou as histórias macabras sobre as crescentes agressões nas escolas, como a sucedida recentemente na EB 2/3 Ruy Luís Gomes, no Laranjeiro, em Almada, em que uma aluna foi violada por cinco colegas. Ou que, numa versão mais crescida, continuam a beber e a divertir-se enquanto um seu colega foi assassinado. Se Marlon Correia tivesse morrido, não na sequência de um assalto, mas sim numa fuga à polícia os seus colegas estariam muito provavelmente hoje de luto e vivendo uma forte indignação. Assim foi apenas um azar e a festa com muita cerveja vai prosseguir.
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7.4.13

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Por Helena Matos
TEMOS o PM a falar às 18h 30m a que se seguem os comentários dos políticos que estão em aquecimento para o cargo de PR – Marcelo e Sócrates. Pelo meio ainda teremos um Seguro a ter de comentar o PM mais a ter de conter os danos do comentário de Sócrates que será interessante ouvir não apenas pelo teor das reflexões académicas sobre licenciaturas assim assim mas muito particularmente para se perceber o que tem a dizer sobre o entusiasmo dos soaristas com um governo que dizem de salvação nacional liderado por figuras como Silva Peneda ou Rui Vilar.
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6.4.13

Os tempos mudaram?

Por Helena Matos 
COMPARANDO o desfecho do caso da licenciatura de Relvas versus o que sucedeu com Sócrates dir-se-ia que sim. Mas nada mais falso: boa parte daqueles que se indignam com o modo como Relvas obteve o seu grau académico mantêm um profundo silêncio sobre o que se passou com a licenciatura de Sócrates. 
Relvas esperava que o país tivesse para com ele a indulgência que tivera com Sócrates. Mas para isso eram necessárias várias coisas. Por exemplo que Relvas fosse do PS e que não tivesse a pasta da RTP. E seria também necessário que um clone de Mariano Gago estivesse no Governo. Não estava. Felizmente o ministro chama-se Nuno Crato. Por fim aguardo com interesse e expectativa o comentário de José Sócrates a esta demissão.
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2.4.13

Faz falta um Salazar ou outro 25 de Abril

Por Helena Matos
DEVE SER sina: ao menor sinal de crise lá vem a verbalização do desejo de um Salazar a que agora se juntou o de um golpe e, como não podia deixar de ser neste reino velho que tantas dificuldades tem em emendar-se, o de um governo de não políticos.
Entende-se por esta última solução uma espécie de junta de salvação nacional constituída por gente boa que o PCP e afins transfiguram em governo patriótico para escamotear que só os comunistas e seus clones caberiam em tal conceito de patriotismo. Ou então é aquilo que o centrão apresenta como uma plêiade de tecnocratas que mais não seriam que políticos maioritariamente maçónicos e não sujeitos a escrutínio. O que os apologistas destas soluções nunca explicam é como de um momento para o outro as medidas difíceis desapareceriam ou, tendo de ser implementadas, como não mais seriam contestadas. E sobretudo ilude-se a principal questão: donde viria a legitimidade deste tipo de governo? 
Esta apologia de medidas autoritárias é justificada com a excepcionalidade dos tempos, como se a democracia fosse um regime para os dias felizes e não o regime que nos permite fazer escolhas precisamente quando essas são difíceis. Mas o pior de tudo é quando os apologistas destas soluções, tentam explicar o carácter autoritário das suas propostas, invocando o horror dos tempos que nos coube viver como se nunca se tivesse passado por nada semelhante. De repente tornámo-nos num desses quadros ‘naïfs' em que à falta de perspectiva as pessoas são maiores do que os prédios. Contudo convirá lembrar que um desempregado vive hoje melhor em Portugal do que muitos trabalhadores dos anos 50 ou 60. E como é óbvio um desempregado em qualquer país da UE usufrui de condições de vida muito superiores à de outros países, nomeadamente de grande parte daqueles que agora apresentam grande crescimento económico e que até nos emprestam dinheiro. Por fim mas não por último, boa parte dos portugueses arrepender-se-ia de ter posto o pé fora deste rectângulo se um azar do destino os levasse aos hospitais onde são tratados os cidadãos comuns de Angola, Rússia, Brasil, para já não falar da China. E politicamente falando basta recuarmos 35 anos para percebermos como falharam algumas das soluções que agora nos propõem como moralmente superiores - Em 1978, tivemos três governos, tendo durado um deles, o de Nobre da Costa, um executivo tecnocrata de notória competência, três escassos meses. Internacionalmente, se se tiver em conta que no mesmo ano a Itália tinha o seu primeiro-ministro sequestrado, percebe-se que o enredo político que aquele país actualmente vive está longe de ser o pior que já lhe aconteceu. 
Podia encher páginas e páginas deste jornal dando exemplos de como esta não é certamente a pior crise, nem a maior crise nem a derradeira das crises. Aliás esta perda de noção da realidade e da História é em si mesma sintomática do egocentrismo infantil que enquanto sociedade decadente nos assombra. Se trocássemos as elucubrações sobre revoluções e golpes de Estado pelo estudo da queda do Império Romano talvez percebêssemos que para lá da espuma dos dias a nossa verdadeira crise é de identidade e não de economia. E nesses domínios, o da cultura e o da identidade, a nossa queda já começou. 
«DE» de 2 Abr 13

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26.3.13

Drama

Por Helena Matos
PORTUGAL é governado à vez por dois partidos: um, o PSD, não sabe o que é. O outro, o PS, não quer saber o que faz e muito menos o que fez. Esta particular circunstância leva a que o PSD não tenha um discurso de poder e muito menos seja encarado pelo eleitorado como tendo verdadeira legitimidade. 
Desde Cavaco Silva que o PSD não ganha eleições por si mesmo mas sim porque o PS as perde. Os próprios dirigentes do PSD comportam-se como se reconhecessem uma espécie de superioridade moral nas propostas da esquerda em geral e nas do PS em particular: é como se eles, sociais-democratas, apenas não fossem socialistas porque, com aquela obsessão pelo ‘deficit', vivessem convencidos de que não existe dinheiro para tal. Mas claro que quando existir eles serão ainda mais socialistas que os socialistas.
Já o PS assume-se naturalmente como o partido do poder em Portugal. É assim que se sente e é assim que se apresenta. Esta relação do PS com o poder é um extraordinário trunfo quando é governo e em boa verdade é também um factor de tranquilidade para o País pois mesmo que a CGTP peça a demissão de um qualquer ministro a ninguém de bom senso ocorrerá pôr em causa a legitimidade quer do ministro visado quer do Governo no seu todo. A isto acresce que em países como Portugal, França e Espanha o socialismo passou de ideologia a ‘password' que pode validar uma coisa e o seu contrário. Nesse sentido, o PS é o partido ideal para reformar o Estado pois aquilo que num ministro do PSD é um sinal de insensibilidade social num ministro do PS é um gesto de coragem em defesa do Estado Social: foi preciso uma ministra da ala esquerda do PS, Ana Jorge, para que por uma vez se dissesse o óbvio sobre as crianças com fome nas escolas sem que meio País não desmaiasse com o choque: "Apelo às crianças e famílias que aproveitem a necessidade de contenção para fazerem sopa em casa, por forma a não gastarem em ‘fast-food' que, para além de fazer mal, é mais caro".
A bem do nosso sossego, da razoabilidade do País e para especial gosto de muitos barões do PSD, o ideal seria que o PS fosse invariavelmente governo não se desse a circunstância de boa parte do PS considerar que esta indiscutível superioridade política do partido implica uma superioridade face à lei e sobretudo face à moral. Casos como o fax de Macau, a reacção ao escândalo Casa Pia que terminou naquela inenarrável recepção a Paulo Pedroso na Assembleia da República, o Freeport ou a tentativa de silenciamento da TVI poderiam acontecer com o PSD. 
O que só o PS consegue é apresentar tudo isso como o resultado de cabalas e urdiduras. Nesta particular relação com o seu passado, parte do PS quer agora que António José Seguro assuma a defesa do chamado legado de Sócrates. Ou seja parte do PS pretende como linha para o partido o alargamento ao âmbito da política da atitude que os notáveis do PS, à excepção de Guterres, adoptaram nos casos em que surgiam os nomes de alguns dirigentes socialistas: não se pensa, não se avalia, não se questiona. Acusa-se. 
A curto prazo esta transformação do PS numa máquina de defesa da imagem de pretéritos líderes, a que se junta o horror do PSD à ideologia, podem transformar Portugal num local infrequentável.
«DE» de 26 Mar 13

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28.2.13

Psiquiatria de pacotilha

Por Helena Matos
Apesar da crise, Portugal e Espanha estão a escapar a aumento do suicídio - A SOCIO-PSIQUIATRIA de pacotilha que reina nas redacções levou anos a impingir-nos a tese do suicídio enquanto maleita dos ricos. Nesta cosmovisão do mundo os povos do norte da Europa suicidavam-se porque não tinham razões para lutar pela vida. Agora temos o suicídio enquanto consequência da crise. O suicídio é um assunto demasiado sério para ser tratado nesta espécie de jogo de causas e consequências entre a pobreza e a  riqueza.
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22.2.13

Distinguir é preciso

Por Helena Matos 
D. JANUÁRIO, que andava calado há muito tempo, voltou desta vez não para falar de guerras civis, revoluções e tumultos [mas] para se pronunciar sobre as acusações a D. Carlos Azevedo: 
“Em declarações à TSF, D. Januário Torgal Ferreira disse que já há muito ouviu acusações de que D. Carlos Azevedo «tinha tido um comportamento homossexual».”  
Que D. Januário padece de óbvias confusões é público e notório, e esta é apenas mais uma, mas convém lembrar que o facto de se ser homossexual ou heterossexual não é chamado para o caso. Qualquer homossexual ou heterossexual pode ser acusado de factos da natureza daqueles que agora imputam a D. Carlos Azevedo.
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19.2.13

O suspeito

Por Helena Matos
Se assaltarmos alguém e lhe roubarmos quatro mil euros seremos sempre alegados assaltantes que praticaram um alegado furto, que quiçá alegadamente agrediram a alegada vítima e teremos direito a defesa oficiosa e a muitas explicações psico-antropológicas sobre o que nos levou ao acto que alegadamente praticámos.
REGRA geral, as culpas pelos alegados actos vão para a "sociedade actual", eterna suspeita, ou desde que, para azar das mulheres, Freud descobriu o divã, para aquilo que as nossas mães fizeram quando dávamos os primeiros passos. Mas se, enquanto empresários ou trabalhadores por conta própria, devermos mais de 3500 euros à Segurança Social podemos acabar na prisão. E, como é óbvio, no universo do contribuinte não há alegados. Apenas criminosos.
Ninguém é inocente até prova em contrário mas sim naturalmente culpado. Primeiro paga-se. Depois contesta-se. Sem psicologias nem sociologias. E muito menos sem os garantismos do Direito porque em matéria de justiça tributária e contestação fiscal apenas os muito ricos conseguem não ser tratados à partida como culpados.
A polémica em torno da obrigatoriedade das facturas apenas evidenciou este facto consumado: vivemos numa sociedade que tem uma retórica de crescentes direitos para o cidadão, sujeito activo de direitos, cujo reverso implica uma tirania para o contribuinte, sujeito passivo de deveres. Aos imprescindíveis direitos à vida, à liberdade, à propriedade, ao trabalho... foram-se juntando outros direitos que em vez de garantirem que cada um podia fazer com a sua vida o que quisesse independentemente da sua cor, sexo ou religião, procuraram garantir uma panóplia de bens e serviços de que entre nós ficará como símbolo o cheque-bebé.
A política tornou-se num catálogo de promoções: a esquerda mais radical depois de prometer económicos amanhãs cantantes na pátria socialista passou a defender o dispendioso investimento público e o tudo gratuito para todos nas terras do nefando capitalismo. A direita para não ficar atrás no ofertório prometia, piedosa, um País sem pobres e o centrão, cheio de complexos de culpa por não prometer tanto, ia prometendo o que não podia e garantindo que amanhã ainda podia prometer mais. Enquanto esta girândola rodava uma figura foi-se agigantando até atravancar por completo as nossas vidas: o contribuinte de cujos bolsos sai aquilo que os políticos dizem que dão e também o dinheiro para sustentar essa máquina redistributiva que cada vez distribui menos porque gasta tudo consigo e que dá pelo nome de Estado.
Hoje em dia cada um de nós é uma espécie de Olívia costureira versus Olívia patroa, número criado por Ivone Silva para dar conta dos paradoxos vividos nos tempos em que a luta de classes era o motor da História. Agora a luta de classes está no museu e a luta trava-se entre o cidadão que perde direitos e o contribuinte que não consegue pagar mais. Desgraçadamente um e outro são a mesma pessoa.
«DE» de 19 Fev 13

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18.12.12

Cidade proibida

Por Helena Matos 
LEMBRAM-SE do espião Silva Carvalho? O tal que era da maçonaria e passara do SIS para a Ongoing? E que falava com Relvas? Foi um tumulto na pátria por causa do espião Silva Carvalho. Invocaram-se leis já feita e a fazer sobre os impedimentos que deveriam travar a passagem do SIS para uma empresa privada e vice-versa. 
Pois agora José Luciano Correia de Oliveira, número dois do SIS, responsável pelo plano de segurança económica e não um simples e megalómano funcionário dos ditos serviços, foi contratado pelas autoridades chinesas para o Governo de Macau e o assunto passa quase entre os pingos da chuva.
In Blasfemias.Net

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29.11.12

Esta, aquela e a outra

Por Helena Matos
DE REPENTE, o antigamente denominado pronome demonstrativo esta entrou na agenda política. Os emissores (quando o Valete encontrar o Chomsky no tal túnel há-de perguntar-lhe se esta é a formulação mais correcta) pronunciam esta com particular ênfase: declaram esta política, às vezes também esta Europa, e depois concluem falhou.  Esta teogonia (ou mais correctamente mistério da fé) tem como dogma o esta.
Os crentes do esta política vivem na convicção profunda que Passos Coelho é o único político do mundo que se obstina em não experimentar aquela política de crescimento que nos poucos segundos em que deixam de dizer esta, esta apresentam como a solução para os nossos males e que, vá lá saber-se porquê, quiçá por  tara, perfídia ou obediência ao 4.º segredo de Fátima, Passos não aplica em Portugal.  
Basta dizer esta, naquele tom similar ao eu acredito, para que o emissor-prosélito fique revestido de aura de santidade e sobretudo  dispensado de explicar o que defende em alternativa ao esta
Tendo tido nós anos e anos daquela, e acabando a falhar como falhámos - o pedido de ajuda externa foi feito sob risco do país falir  -, o que defendem os fiéis do  esta política  falhou? Defendem aquela que tinha tanta mensagem, tanta visão, tanta sensibilidade, tanta modernidade e que nos trouxe à falência? Ou defendem outra?
O interessante nos pronomes é que eles estão em vez de nomes. Logo, é altura de se começar a dizer o nome que está atrás dos pronomes. Assim fica tudo mais claro.
Blasfemias.Net de 29 Nov 12

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