9.5.09

Das duas, uma

Por António-Pedro Vasconcelos
AINDA ESTÁ EM CARTAZ um filme português que é criminoso perder: trata-se da adaptação aos tempos modernos do clássico de Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição, a que o realizador Mário Barroso (MB) e o seu argumentista, Carlos Saboga (CS), acrescentaram o pronome indefinido, e que passou, por isso, a chamar-se Um Amor de Perdição.
(...) um filme que prolonga e aprofunda os temas que vinham de O Milagre Segundo Salomé: a tortura da paixão amorosa, o fascínio pela violência desesperada e suicidária do amor e a atracção pela inocência – essa «floresta obscura», de que fala Dante, e que serve de abertura e fecho a estes novos amores de perdição. (...)
Mas o que mais me surpreende neste filme admirável é, por um lado, a coragem de MB em contar esta história excessiva sem hesitações nem compromissos; e de o fazer com uma mestria a que não estamos habituados no cinema português. (...)
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27.3.09

Clint Eastwood

Por António-Pedro Vasconcelos

HÁ DUAS ESPÉCIES de criadores: os que se destacam por uma estreia fulgurante na juventude e, depois, se apagam ou abandonam (Rimbaud, Bob Dylan, Godard), e os que fazem pacientemente a sua obra, aprendendo com a vida e com os mestres (Verlaine, Tolstoi, Billy Wilder). Os primeiros, geralmente, esgotam-se cedo, porque não conseguem manter-se à altura das suas promessas. Clint Eastwood (CE) tem a marca dos últimos.

Descoberto como ‘autor’ desde que assinou Imperdoável, CE nunca mais desiludiu, enquanto outros, os da geração do Vietname (Friedkin, Scorsese, Coppola) ficaram pelo caminho, porque, a partir de certa altura, não tinham mais nada a dizer. (...)

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7.2.09

«A TROCA»

Por António-Pedro Vasconcelos
TODA A GENTE DEVIA tirar duas horas na sua vida para ir ver o último opus de Clint Eastwood (C.E.): “A Troca”. O antigo cow-boy dos filmes de Sergio Leone tornou-se o último grande autor do cinema americano - como Almodovar é o último grande autor do lado de cá do Atlântico. Há dias, escrevi nesta coluna um artigo onde questionava o que é um mestre. É altura de discorrer sobre o que é um autor. Não há mestres que não sejam autores, mas há autores que não são mestres. C.E. pode não ser um mestre; o seu estilo não se distingue em muito do estilo de Ford, que, juntamente com Hawks, fixou os códigos do clacissismo americano, ou mesmo de Don Siegel, com quem ele aprendeu a filmar. Mas C.E. é indiscutivelmente um autor, porque tem uma obra: cada filme é uma peça num conjunto a partir do qual é possível identificar um estilo e um discurso.
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