Açordas e migas
Etiquetas: GC
Etiquetas: GC
Etiquetas: GC
Relativamente ao clima, excepção feita à grande irregularidade verificada nos últimos anos, o Alentejo (e também o Algarve) caracteriza-se por um clima de características marcadamente mediterrâneas, onde a seara de trigo, o olival, a vinha e o porco alentejano, a “tetralogia mediterrânea”, no dizer de Alfredo Saramago, foram base de uma economia rudimentar, limitada ao todo nacional. Nas últimas décadas, desta tetralogia” apenas o azeite e o vinho têm alcançado desenvolvimentos, com importância considerável na economia nacional e expressão no mercado externo. O porco alentejano, de que falaremos mais tarde, tem uma importância bem mais modesta e a seara de trigo está em via de extinção.
É do domínio comum que a produção cerealífera no Alentejo, tem vindo decrescer substancialmente. Vivemos hoje de trigo importado, na ordem de mais de um milhão de toneladas/ano.
Em contrapartida, o olival, a vinha e, também, o amendoal (uma inovação no panorama agrícola local) ganharam lugares cimeiros na economia desta vasta região do país.
“Uma açorda comida por estes dias dificilmente será confecionada com pão de trigo alentejano. Em contrapartida, a possibilidade de ser temperada com azeite da região aumentou, e muito, nos últimos anos”.
Esta expressiva e feliz frase do jornalista Aníbal Fernandes, do Diário do Alentejo, tem o aroma dos poejos e diz, com palavras a condizer, uma realidade que estamos a viver.
Em aproveitamento da água da barragem do Alqueva, o maior lago artificial da Europa Ocidental, assegurando, em 2022, cerca de 120 mil hectares de regadio”, em crescimento, temos assistido, nos últimos anos, à substituição da “seara de pão”, não só pelo olival (ocupando mais de 70 mil hectares e em crescimento), como também por outras culturas de regadio, como o amendoal (com cerca de 20 mil hectares), o girassol, o milho, as pastagens e as forragens (azevém, luzerna e sorgo).
Falemos agora do olival
O olival de que falam Orlando Ribeiro e Alfredo Saramago é o que hoje chamamos de olival antigo. Antigo, porque há um novo, dito moderno. Em uma trintena de anos, passou-se de um trabalho tradicional, duro, da colheita manual no chão, feita no inverno, para uma colheita mecanizada, onde a azeitona é colhida em verde, sem ser batida, nem cair ao chão, permitindo a produção de azeites de alta qualidade.
Introduzido, na Península, por gregos e fenícios e alargado pelos invasores romano e árabe, o olival a que se referiram os citados autores, resiste, meio disperso na paisagem, com oliveiras, muitas vezes, centenárias e, algumas, milenárias. Foi durante séculos base de uma exploração de sequeiro, tradicional, e de uma indústria meio artesanal, incapazes de prover às necessidades de consumo nacional. Durante as três últimas décadas, o olival português transformou-se num olival de regadio, de exploração intensiva, elevando o Alentejo à região do país com maior produção de azeitona, na ordem das 10 a 12 toneladas por hectare. De país importador, Portugal passou a país exportador de azeite de qualidade superior que ganha prémios no estrangeiro.
Fala-se hoje deste olival moderno, como uma autêntica revolução no panorama agrícola nacional, graças ao “milagre” da água da Barragem do Alqueva. Vastas áreas do Alentejo são hoje um tapete verde, devido ao plantio superintensivo (no dizer dos ambientalistas) do olival de regadio. Os opositores a esta “revolução” falam de destruição de biodiversidade, de esgotamento de recursos hídricos e de poluição atmosférica. Do outro lado de interesses, os agricultores contrapõem que o olival moderno é responsável por mais de 85% do total da produção de azeite nacional, um valor em crescimento, uma vez que a área de plantio tem vindo a aumentar. Contrapõem, ainda, que é uma cultura com baixas exigências hídricas, que degrada menos o solo e que, pelo contrário, lhe aumenta a quantidade de matéria orgânica, que sequestra mais CO2 da atmosfera (presentemente estimada em cerca de 540 mil toneladas/ano), sendo, portanto, mais sustentável, havendo quem o defenda como o expoente máximo da tecnologia ao serviço da qualidade do azeite e da sustentabilidade ambiental.
Inclino-me para o lado dos ambientalista e duvido sempre das boas intenções destes superemprendimentos.
Etiquetas: GC
Etiquetas: AMB

- O nosso drama – prosseguiu a mulher – é que queremos dar ao restaurante um nome que não fuja muito ao habitual nesse género de estabelecimentos, mas que ao mesmo tempo esteja disponível no Registo de Sociedades.
E essa era a parte mais difícil pois, como muito bem sabe quem anda por esse país fora, há inúmeros restaurantes com nomes semelhantes, do género O Caldinho-da-Sogra, A Cozinha da Avó Torta, O Retiro do Lavrador Cansado, A Lareira da Velhota, O Sótão dos Petisquinhos, A Cave da Minha Açorda... e por aí adiante.
Pedi-lhes então, como habitualmente, que me dessem dois ou três dias para fazer as necessárias pesquisas, despedi-me deles, e voltei para casa; mas em breve tive de reconhecer que me havia enganado quando pensara que o assunto era fácil e que o resolveria em poucos minutos: por mais que puxasse pela cabeça a inventar nomes de restaurantes, o meu pesquisador favorito encontrava sempre algum já existente!
Como o tempo estava a passar e o prazo que eu havia pedido a chegar ao fim, resolvi pegar no meu computador portátil com ligação à Internet e ir até ao local do estabelecimento em busca de inspiração – talvez nas vizinhanças houvesse qualquer coisa que me pudesse dar uma ideia para um nome interessante... Sei lá!
Talvez uma árvore ou um charco de água, que pudessem justificar um nome como «O Restaurante do Sobreiro» ou «A Tasca do Lago»...
Infelizmente, quando lá cheguei, apercebi-me de que, além de não haver nada dessas coisas que me pudessem inspirar, o restaurante era apenas mais um dos inúmeros do mesmo género à beirada estrada.
Trânsito de camionistas havia com fartura, e freguesia, portanto, também não faltava – e era exactamente por isso que os meus clientes estavam impacientes para começar a facturar; praticamente, só faltava desencantar um nome... e – quem diria! – isso dependia de mim!
Arvorei então o meu melhor sorriso, entrei na casa com ar confiante, cumprimentei todos, a começar pelos trabalhadores que davam os últimos retoques na decoração, e escolhi uma mesa sossegada a um cantinho para abrir o meu computador.
Embora eu mostrasse um ar decidido, teclando para trás e para a frente como se estivesse em vias de descobrir grandes coisas, o certo é que não me aparecia nada e eu estava cada vez mais embaraçado...
E foi quando me viu a coçar a cabeça, já não conseguindo esconder o drama que me consumia, que a senhora se chegou ao pé de mim, com ar maternal, e me disse, querendo ajudar:
- Olhe, como passam por aqui muitos camionistas, lembrei-me de uma coisa. Veja aí na Internet se o nome está vago... Não acha que ficava bem «A Rota»?
(*) «Os patrocinadores»: http://sorumbatico.blogspot.com/2005/12/os-patrocinadores.html
Etiquetas: AMB
Etiquetas: GC