31.3.08

«Público» de 30 Mar 08
PELOS VISTOS, apesar de o filme estar em exibição há mais de uma semana (e ontem a sala aonde o fui ver estava praticamente esgotada), só um dos quatro críticos do «Público» se deu, até agora, ao trabalho de o ver - ou, pelo menos, de o classificar.
Note-se que não comento o facto de eles poderem achar que o filme é bom, mau ou assim-assim. Não serei competente para tanto. O que acho é que, tratando-se de um filme que divulga (fazendo-o honestamente, a meu ver) uma obra-prima de um prémio-Nobel da literatura contemporânea, mereceria ser visto e classificado, quanto mais não fosse com uma bola preta.
Pelo menos, foi devido a ele que eu li o livro pela segunda vez (resolvi fazê-lo antes de ver o filme) - e só por isso já dei por bem gasto o tempo e o dinheiro.
*
NOTA: fica-se com a ideia que o filme perde um pouco por tentar ser fiel ao livro até aos mais pequenos pormenores (incluindo, no que toca aos diálogos, frases inteiras tal como foram escritas), faltando-lhe o tempo para tudo (o romance tem mais de 360 páginas); a dobragem em inglês também soa mal (todo o romance se passa na Colômbia), e na boca da "nossa" Fernanda Montenegro ainda pior.
De qualquer forma, acho que quem leu o livro não há-de desgostar de ver o filme e - mais importante ainda - o inverso também é capaz de ser verdade.
Finalmente: o trailer pode ser visto [aqui].

Etiquetas:

Passatempo-relâmpago

Em que país foi tirada esta foto?
O prémio, a atribuir ao primeiro leitor que der a resposta certa, será o livro «Passagem para o Passado», da Colecção Argonauta (2 vol.).
NOTA: à falta de melhor critério, a resposta que será considerada como certa será a que o autor da foto colocou na legenda - que aqui foi omitida, mas que será apresentada, se necessário.
Actualização-1: como as respostas tardam a aparecer, junta-se ao prémio oferecido (que já não era mau de todo...) um exemplar da obra «A Fronteira de Areia», de Claude Clément (Ed. Temas e Debates).
Actualização-2: o passatempo foi ganho por Pedro Amorim, a quem os livros já foram enviados.

Etiquetas: ,

Do Arquivo Humor Antigo - Ano de 1934 - n.º 8

30.3.08

A balbúrdia na escola

Por António Barreto
AS CENAS DE PANCADARIA NA ESCOLA têm comovido a opinião. A última em data, com especial relevo, ocorreu numa escola do Porto e foi devidamente filmada por um colega. Em poucas horas, o “clip” correu mundo através do YouTube. A partir daí, choveram as análises e os comentários. Toda a gente procura responsáveis, culpados e causas. Os arguidos são tantos quanto se possa imaginar: os jovens, os professores, os pais, o ministério e os políticos. E a sociedade em geral, evidentemente. As causas são também as mais diversas: a democracia, os costumes contemporâneos, a cultura jovem, o dinheiro, a televisão, a publicidade, a Internet, a permissividade, a falta de valores, os “bairros”, o “rap”, os imigrantes, a droga e o sexo. Para a oposição, a culpa é do governo. Para o governo, a culpa é do governo anterior. O trivial.
Deve haver um pouco disso tudo. O que torna as coisas mais complicadas. Sobretudo quando se pretende tomar medidas ou conter a vaga crescente de violência e balbúrdia. Se as causas são múltiplas, por onde começar? Mais repressão? Mais diálogo? Mais disciplina? Mais co-gestão? Há aqui matéria para a criação de várias comissões, a elaboração de um livro branco, a aprovação de novas leis e a realização de inúmeros estudos. Até às eleições, haverá alguns debates parlamentares sobre o tema. Não tenho a certeza, nem sequer a esperança, que o problema se resolva a breve prazo.
DE QUALQUER MANEIRA, a ocasião era calhada para voltar a ver a obra-prima do esforço legislativo nacional, o famoso “Estatuto do aluno”. A sua última versão entrou em vigor em finais de Janeiro, sendo uma correcção de outro diploma, da mesma natureza, de 2002. Trata-se de uma espécie de carta constitucional de direitos e deveres, a que não falta um regulamento disciplinar. Não se pode dizer que fecha a abóbada do edifício legal educativo, porque simplesmente tal edifício não existe. É mais um produto da enxurrada permanente de leis, normas e regras que se abate sobre as escolas e a sociedade. É um dos mais monstruosos documentos jamais produzidos pela Administração Pública portuguesa. Mal escrito, por vezes incompreensível, repete-se na afirmação de virtudes. Faz afirmações absolutamente disparatadas, como, por exemplo, quando considera que “a assiduidade (...) implica uma atitude de empenho intelectual e comportamental adequada...”! Cria deveres inéditos aos alunos, tais como o de se “empenhar na sua formação integral”; o de “guardar lealdade para com todos os membros da comunidade educativa”; ou o de “contribuir para a harmonia da convivência escolar”. E também os obriga a conhecer e cumprir este “estatuto do aluno”, naquele que deve ser o pior castigo de todos! Quanto aos direitos dos alunos, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar, incluindo os de participar na elaboração de regulamentos e na gestão e administração da escola, assim como de serem informados sobre os critérios da avaliação, os objectivos dos programas, dos cursos e das disciplinas, o modo de organização do plano de estudos, a matrícula, o abono de família e tudo o que seja possível inventar, incluindo as normas de segurança dos equipamentos e os planos de emergência!
TRATA-SE DE UM ESTATUTO burocrático, processual e confuso. O regime de faltas, que decreta, é infernal. Ninguém, normalmente constituído, o pode perceber ou aplicar. Os alunos que ultrapassem o número de faltas permitido podem recuperar tudo com uma prova. As faltas justificadas podem passar a injustificadas e vice-versa. As decisões sobre as faltas dos alunos e o seu comportamento sobem e descem do professor ao director de turma, deste ao conselho de turma, destes à direcção da escola e eventualmente ao conselho pedagógico. As decisões disciplinares são longas, morosas e processualmente complicadas, podendo sempre ser alteradas pelos sistemas de recurso ou de vaivém entre instâncias escolares. Concebem-se duas espécies de medidas disciplinares, as “correctivas” e as “sancionatórias”. Por vezes, as diferenças são imperceptíveis. Mas a sua aplicação, em respeito pelas normas processuais, torna inútil qualquer esforço. As medidas disciplinares são quase todas precedidas ou acompanhadas de processos complicados, verdadeiros dissuasores de todo o esforço disciplinar. As medidas disciplinares dependem de várias instâncias, do professor aos órgãos da turma, destes aos vários órgãos da escola e desta às direcções regionais. Os procedimentos disciplinares são relativos ao que tradicionalmente se designa por mau comportamento, perturbação de aula, agressão, roubo ou destruição de material, isto é, o dia-a-dia na escola. Mas a sua sanção é de tal modo complexa que deixará simplesmente de haver disciplina ou sanção.
O ESTATUTO cria um regime disciplinar em tudo semelhante ao que vigora, por exemplo, para a Administração Pública ou para as relações entre Administração e cidadãos. Pior ainda, é criado um regime disciplinar e sancionatório decalcado sobre os sistemas e os processos judiciais. Os autores deste estatuto revelam uma total e absoluta ignorância do que se passa nas escolas, do que são as escolas. Oscilando entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal, os legisladores do ministério da educação (deste ministério e dos anteriores) produziram uma monstruosidade: senil na concepção burocrática, administrativa e judicial; adolescente na ideologia; infantil na ambição. O estatuto não é a causa dos males educativos, até porque nem sequer está em vigor na maior parte das escolas. Também não é por causa do estatuto que há, ou não há, pancadaria nas escolas. O estatuto é a consequência de uma longa caminhada e será, de futuro, o responsável imediato pela impossibilidade de administrar a disciplina nas escolas. O estatuto não retira a autoridade na escola (aos professores, aos directores, aos conselhos escolares). Não! Apenas confirma o facto de já não a terem e de assim perderem as veleidades de voltar a ter. O processo educativo, essencialmente humano e pessoal, é transformado num processo “científico”, “técnico”, desumanizado, burocrático e administrativo que dissolve a autoridade e esbate as responsabilidades. Se for lido com atenção, este estatuto revela que a sua principal inspiração é a desconfiança dos professores. Quem fez este estatuto tinha uma única ideia na cabeça: é preciso defender os alunos dos professores que os podem agredir e oprimir. Mesmo que nada resolva, a sua revogação é um gesto de saúde mental pública.
«Retrato da Semana» - «Público» de 30 Mar 08

Etiquetas:

Problema com prémio

Clicar na imagem para a ampliar
Desta vez, o critério para atribuição do prémio (*) não será "ao primeiro leitor que der a resposta certa", mas sim ao que, até às 20h da próxima quarta-feira, dia 2 de Abril, "responder de forma mais correcta", em termos matemáticos (incluindo o resultado certo, obviamente...).
*
Para maior facilidade na comparação das respostas, sugere-se o uso das letras indicadas no gráfico e ainda as seguintes:
a ... a velocidade do carro de Andrade
b ... a velocidade do carro de Barros
c ... a velocidade do carro de Cardoso
-
(*) O prémio será um exemplar do CD que em cima se vê. Não me perguntem se é bom ou não, porque não sei - ainda está no envelope selado, e será enviado assim.
*
Actualização (2 Abr 08 / 9h10m): ver o que se propõe no comentário-6
*
Actualização (2 Abr 08 / 20h45m): depois de muito matutar, foi resolvido atribuir um exemplar do CD a cada um dos dois esforçados amigos - Pascoal e Luís Bonito. Pede-se-lhes, pois, que escrevam para sorumbatico@iol.pt, indicando morada para envio.

Etiquetas: ,

Por detrás da cena

Nuno Brederode Santos
MAIS UMA IDA DO PRIMEIRO-MINISTRO, por "ordem" (ou convocação) da oposição, relançou a ponderação sobre as vantagens e inconvenientes, para o actual Governo, da reforma do Parlamento. Os observadores ainda não se refizeram da surpresa de ver, após décadas de um funcionamento concebido para sujeitar os governos aos mínimos olímpicos do pudor institucional em democracia, uma maioria parlamentar tomar a iniciativa de abdicar da esmagadora vantagem de que beneficiava e, em nome de um futuro em que também ela irá socorrer-se do estatuto de oposição, sujeitar o seu governo ao sistemático escrutínio de todos os deputados e o seu chefe a uma prestação de contas quinzenal. Eu fui dos que mais cedo e mais insistentemente escreveram sobre isso e também não estou ainda inteiramente refeito da surpresa que o bom desenlace me trouxe.
Esqueçamos, porém, a especulação subjectivista dos candidatos a biógrafos: o que pensou e quis Sócrates, ou Marques Mendes, ou Jerónimo, ou Louçã, ou Paulo Portas. E atenhamo-nos ao facto em si. A verdade é que, expondo mais os primeiros-ministros ao contraditório parlamentar e à crítica democrática, tirou-se-lhes a impunidade dos passeios triunfais, que faziam do interlocutor gato-sapato e do Parlamento o cenário de comunicações ao País: quase "conversas em família" do regime democrático, um exercício tão altaneiro do poder que apetecia lançar-lhes à cara o memento mori dos monges trapistas. Sujeitámo-los a uma prova mais equitativa, com os riscos inerentes à atenção vigil do eleitorado. Mas também se lhes valorizou - e muito - as vitórias que conseguirem averbar. Ali, sem rede e connosco a ver.
De tal modo a surpresa foi além da chinela, que logo começaram as ponderações sobre os efeitos e a valia da reforma. Ainda agora o DN ouviu dois investigadores do ICS (Marina Costa Lobo e António Costa Pinto) sobre a aplicação e a experiência da reforma - sendo que ambos globalmente a aprovavam, mesmo que com as naturais e previsíveis nuances na justificação. Ela salientando que "a hierarquia do Estado" valorizava mais a posição do primeiro-ministro, mas isso agora encontra-se nivelado; e sublinhando o ganho na imagem (eu prefiro o do papel) da Assembleia da República. Ele, admitindo o reforço da intervenção dos partidos mais pequenos, mas sobretudo assinalando o benefício global da instituição parlamentar.
E é neste benefício, em que ambos convergem, que reside o mais importante da reforma. Até por uma razão que considero a montante destas. É que, na surdina dos seus estudos académicos, os nossos constitucionalistas vão esgrimindo sensibilidades para a caracterização do regime em que vivemos. Emergem até, aos olhos de todos, quando um qualquer incidente da praxis constitucional lhes convoca a atenção. E debaterão ainda - e bem - por muitos anos a exacta configuração e a correcta catalogação da democracia portuguesa. Uns, defendendo uma melhor sustentação dos poderes presidenciais no quadro constitucional, outros sinalizando o fundo parlamentar desse mesmo quadro. Uma coisa, porém, parece certa. Não é transferindo mais poderes do Presidente para o Parlamento, nem procurando reforçá-los à custa deste, que alguma coisa se ganha, em termos de clareza, segurança e funcionalidade. É, sim, aprofundando a prática (que já não é escassa) de ambos e valorizando os poderes de cada qual. Em parte, tal caberá à relação entre os dois órgãos: e essa parte até não tem corrido mal. Noutra parte, caberá à capacidade que cada um tiver para esclarecer e enriquecer o seu estatuto e as suas competências. E isso só pode ser feito, com perspectivas de futuro, quando aquele que a tal procede tem a implantação e a aceitação social (e não meramente jurídica) que a paz institucional lhe confere e tem respeito político (e não meramente jurídico) pelo equilíbrio de poderes. Isto é, quando um poder entre poderes enverga de novo a toga inconsútil romana - que, na insegurança da História, a lenda manda prezar.
Por incertos que tenha tornado os dias parlamentares, por arriscados que tenha feito os improvisos, por tremenda e caprichosa que passe a ser a responsabilidade da palavra, é isto o que mais devemos à reforma com que o parlamento passou a melhor cumprir o seu papel.
«DN» de 30 Mar 08

Etiquetas:

29.3.08

Passatempo-relâmpago

Do Arquivo Humor Antigo - Ano de 1934 - n.º 6
Já que, no post anterior, tanto se falou de ditados, aqui fica uma pergunta com prémio: qual o teor do anexim português que esta anedota faz lembrar?
NOTA: dado que a resposta é muito simples, o prémio, a atribuir ao primeiro leitor que der a resposta certa, será um livro de Walt Disney.
Actualização: a resposta certa já foi dada por Jorge Freitas, a quem o prémio já foi enviado.

Etiquetas: ,

Ditados a granel

Por Antunes Ferreira
UM HOMEM NÃO É DE PAU, diz rifão bem conhecido. Cuidado: os provérbios são, normalmente certíssimos. Não se podem desdenhar, absolutamente. De resto, também afirma o povo que quem desdenha quer comprar. A ser assim... Se um cidadão cai na zona demarcada de um adágio, está tramado. É um pouco como os vinhos, também originários de zonas equivalentes: quando se bebem em excesso, ou se vai dormir, ou há uma cena triste. Ou umas.
Ora bem: a luxúria que está na base da máxima popular é um dos sete pecados capitais, que, de acordo com a Wikipedia são uma classificação de vícios usada nos primeiros ensinamentos do catolicismo, para educar e esclarecer os crentes, de forma a compreender e controlar os instintos básicos. Não há, no entanto, registo dos sete pecados capitais na Bíblia. Mas são, para além da luxúria, a gula, a preguiça, a avareza, a ira, a soberba e a vaidade.
São Tomás de Aquino escreveu sobre eles. Mais faltaria que o não tivesse feito. Na sua doutrina sobre os pecados capitais - ou vícios capitais -, ele repensou a experiência acumulada sobre o homem ao longo de séculos. Sempre voltado para a experiência e para o fenómeno, é sobretudo, quando trata dos vícios que o seu pensamento mergulha no concreto, e, citando o sábio Dionísio, escreve que "malum autem contingit ex singularibus defectis", ou seja para conhecer o mal é necessário voltar-se para os modos concretos em que ele ocorre.
É bem sabido que o fruto proibido é sempre o mais apetecido. O pecado da carne é, quiçá, o melhor exemplo deste dito. Nos mandamentos está gravado que ninguém pode cobiçar a mulher alheia. Afirmação machista, há que o dizer. Então, se a mulher cobiçar o homem alheio não existe pecado? E se duas fêmeas se cobiçarem uma à outra? E se dois marmanjos procederem idem, idem, aspas, aspas? Vistas as coisas por este prisma, temos, realmente, o caldo entornado. O caldo da carne, evidentemente.
As sociedades humanas encaram os capitais de forma habitualmente severa. Sublinhe-se que umas mais do que outras. Não há forma de se encarar estas questões similarmente. Já não se usa o velho e obsoleto papel químico. (Ainda existe quem o faça, mas a ser assim, é um homem das cavernas, da pedra lascada). Porém, existem outros recursos. A ovelha Dolly foi o primeiro exemplo da clonagem animal. Mas isso são outros quinhentos mil réis, como dizia o Victor da Cunha Rêgo.
Daí que haja grupos mais puritanos do que outros, grupos mais liberais do que outros, grupos mais praticantes que outros, grupos mais condescendentes que outros, grupos, enfim, para todos os gostos e paladares, como os chupa-chupas da nossa infância. Aqui há uns anos, não tão longe quanto se possa pensar, as «coisas feias» não se faziam às claras, eram predominantemente às escuras. Onde vai isso?
Hoje, peca-se a céu aberto. Ouve-se que acabou a hipocrisia. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Hipócritas sempre houve, há e haverá. Nem mais. Por todo este Mundo desrazoado ela viceja, benza-a um qualquer deus. É pá, ganda intervenção no Parlamento, quer dizer, olha, filho, o teu discurso foi uma bosta. Sarzedas avançou, fintou um, fintou dois, tirou um terceiro da frente e chutou: um golaço, significa: o guarda-redes deu um frango maior do que uma avestruz, foi pura sorte, o gajo nunca mais marca um igual.
Mais exemplos – para quê? É tudo à vista de todos, nada de tentar fingir que não foi assim, que não é assim, que não será assim. A luxúria é, então, uma prática aberta, obviamente sem cobertura de qualquer qualidade? O desejo satisfaz-se na via pública, sem se dar atenção às placas de sentido proibido, nem de proibição de estacionamento? Depende.
Se há terra onde o falso puritanismo dita leis, ela é os Estados Unidos da América, EUA, USA, escolha-se. Advirta-se: há mais, evidentemente; mas por lá, exagera-se. Com hipocrisia q.b.. Práticas que se verificam à sorrelfa, vêm a público e toca a rebate. As mais das vezes, as coisas endireitam-se, honni soit qui mal y pense, mas quando saem à luz do dia é um vê-se-te-avias. A classe política é, disso, freguesa frequente.
Não se recue muito, basta recordar 1998, quando Bill Clinton se deparou com a «ingratidão» da Mónica Lewinsky. O caso da Sala Oval bradou aos céus. Caiu o Carmo-e-a-Trindade, mas não caiu o Presidente. No entanto, o escândalo correu o Mundo, as anedotas proliferaram, na net foi um corrupio. A vingança serve-se fria. Hoje, Hillary bate-se apenas para derrotar Obama? Ou para limpar o apelido?
Outros casos foram fatais para quem os interpretou. A esmo. Em 2004, o governador de New Jersey, Jim McGreevy, foi apeado por ter sido descoberto em prática homossexual. Ou por intenções de tal natureza. Mataram-no, óbvio que politicamente. Passou a fazer parte do time dos ex qualquer coisa. Corria o ano da graça de 2006, quando Mark Foley, deputado pela Flórida, integrou a equipa. O homem (que até presidia a uma comissão contra a pornografia infantil) andava a atirar-se a menores que estagiavam na Casa Branca.
Já no ano passado, o senador Lerry Craig, pelo Idaho, terá sido apanhado com a boca na botija, salvo seja, num aeroporto. Para mal dos seus pecados, kogo se havia de meter com um agente da autoridade, avesso a tais aproximações. Olho da rua. A sociedade norte-americana cobrava os dividendos que entendia, a moral pública não se permitia ofensas de tal quilate.
Agora, estala mais uma bomba. Começa pelo governador de Nova Iorque, melhor dizendo o ex-governador Eliot Spitzer. O senhor terá gasto uns largos milhares de dólares com umas raparigas mais complacentes. A última, já em Fevereiro, a miss Kristen, nome de guerra profissional, na realidade Ashley Alexandra Dupré deu à dica sobre um alegre convívio no Hotel Mayflower, nome histórico que também era marca de tabaco para cachimbo. Apagou-se. O cachimbo e o governador ex.
Vai daí, o seu número dois, o senhor David Paterson, que com ele integrava o ticket democrata vencedor, ascendeu ao posto. Uma novidade na política do tio Sam. Paterson é cego e negro. Algum dia isso podia acontecer. Foi agora. Mas, espanto dos espantos, o novo governador da Big Apple, logo no dia seguinte à posse, deu uma entrevista acompanhado da esposa amantíssima Michelle, durante a qual declararam ambos que se tinham corneado mutuamente. Os casamentos têm os seus maus momentos, afirmaram.
É o verdadeiro paradigma do pôr as barbas de molho. E duplamente, e ao quadrado. Não só porque foi o ilustre casal a contar os seus feitos extra-conjugais, mas também porque Mister Paterson usa... uma barba cinematográfica que lhe fica a matar. Continuando na senda dos ditados, o (ainda?) governador novaiorquino é como a pescada ou o vestido: antes de o serem já o eram.
Por causa das moscas, esta confissão da insigne parelha é uma antecipação a mais do que provável investigação jornalística que poderia resultar em parangonas criminosas. Resta saber se, quando esta crónica for publicada, ele ainda é governador, ou se já faz parte da sociedade dos ex. A vida dá muitas voltas.

Etiquetas:

28.3.08

Passatempo sem prémio

ESTA EXPERIÊNCIA, que pode também ser feita com uma agulha de tricot que atravesse duas rolhas de cortiça (nas quais se cravem duas lâminas de barbear) tem resultados quase evidentes:
Aquecendo suficientemente a peça de metal, deixando-a depois arrefecer, e repetindo o procedimento ao sabor da paciência que se tiver, a geringonça desata a subir, pois a forma assimétrica do denteado da serra impede-a de descer.
Passa-se o mesmo com o preço da gasolina (que sobe depressa sempre que aumenta o do barril de petróleo - mas não baixa com a mesma prontidão quando se dá o inverso), com os juros da banca, etc.
*
Pergunta sem prémio: tendo em conta que os preços subiram sempre que o IVA subiu, o que sucederá agora, com a sua descida?

Etiquetas:

A Quadratura do Circo

A coisa

Por Pedro Barroso

NA SAÍDA DE LISBOA existe uma coisa.
Chamo-lhe assim por manifesta incapacidade da minha parte de lhe chamar de outro modo.
Parece um mirante, mas é mais coisa. Parece um jardim, mas é mais coisa. Poderia ser um parque infantil, uma estufa, um mausoléu, jardins suspensos, quiosque, talvez monumento. Mas acho que, por enquanto, nada disso sendo, é apenas coisa.
Será a coisa inútil? A meio caminho entre o ser e o não ser?
Ora bem. Se funcionasse, poderia ser visitada e usufruída. Assim é apenas uma coisa.
Acontece que a coisa demorou tempo e custou dinheiro para ser feita.
A coisa era supostamente uma plataforma de grande beleza e modernidade. Teve projecto, paternidade e conflito para a sua concepção, como qualquer ser humano.
A coisa, suponho, era previsto ser um camarote sobre a Serra de Monsanto, estrategicamente sobranceira aos vapores da inefavelmente colocada ETAR, mesmo ali ao pé das narinas.
A Coisa era uma verdadeira sala de visitas de Lisboa, um camarote de convidados especiais.
Quando fôssemos visitados pelas mais altas e distintas figuras do Mundo, nós os levaríamos a ver a serra da coisa e a coisa da serra. Duas experiências inolvidáveis, obviamente.
As distintas figuras, nunca tendo visto nada de tão extraordinário, levariam que contar para suas atrasadas terras. Onde, está visto, coisas assim não acontecem.
A coisa incomodou o trânsito durante mais de um ano. Por estar a ser feita, sujou, desviou, atrapalhou e provocou acidentes.
A Dona Glória e o Sr. Saavedra tomaram-se de razões por causa de um toque nos seus carros, provocado pelas obras da coisa. Se a adrenalina deu em romance, por motivos de explicação mais difícil, creio que tal desenlace terá sido o único desenvolvimento positivo e capaz que a coisa terá provocado até hoje.
A coisa foi paga por nós, povo habitante do planeta coiso. Com o nosso dinheiro.
A coisa exige manutenção, jardinagem, rega, varredores, limpeza, vigilância, policiamento, talvez até um guia elucidado sobre a coisa, para nos explicar a função e o significado da coisa. Sim, porque a coisa está ferrugenta, mas é mesmo assim.
Sem tão doutas e urgentes explicações sobre a coisa, ninguém sabe ao certo para que serve, o que faz ali, quem pagou a quem, quando funcionará, ou se já recebeu a visita de extra terrestres, ocorrência muito adequada à sua função de coisa do outro mundo.
Eu gosto muito da coisa. Quase todos os dias vejo a coisa e vibro de admiração.
Lisboa não poderia viver sem a sua coisa. E eu ficaria mais pobre se ela um dia desaparecesse.
Espectáculo! Viva a coisa!

Etiquetas:

27.3.08

A impunidade, a excepção e a regra

11h 30 de uma 2ª feira de Março de 2008
QUANDO ALGUÉM se prepara para cometer uma infracção, compara as vantagens expectáveis com a penalidade correspondente.
Em seguida, associa o valor da penalização à probabilidade de ela ocorrer, e faz uma espécie de multiplicação de cabeça. No entanto, é bem sabido que, se a probabilidade for muito baixa, o facto de a penalidade ser elevada pouco adianta.
*
Hoje vi, da minha janela, a Polícia Municipal a bloquear carros. De manhã, era a EMEL que o fazia. De há algum tempo a esta parte, isso sucede todos os dias, de 2ª a 6ª feira. Então porque é que as pessoas continuam a estacionar assim (sujeitando-se a multas de largas dezenas de euros), quando - ainda por cima - há parques de estacionamento às moscas e lugares vagos, em volta, a partir de 0,25€?
É porque, apesar de tudo, ainda acham que a probabilidade de serem multadas é baixa, pelo que a infracção, a seu ver, vale a pena.
E é por isso que notícias como a da TSF (v. post anterior) me deixam muito céptico. Alguém acredita - seriamente - que, mesmo que haja as tão faladas punições exemplares, elas sejam algo mais do que a excepção que confirma a regra?

Actualização

O QUE SUCEDE tem uma explicação matemática, para a qual vou arbitrar alguns valores que não devem andar muito longe da realidade:
Imagine-se que, antes da actual vaga repressiva, as pessoas tinham a sensação de que a probabilidade de serem multadas era de - digamos - 1%.
Vamos supor que as autoridades aumentaram a sua acção para o dobro ou mesmo para o triplo.
O que sucedeu foi que a sensação de impunidade baixou de 99% para 97% - o que, em termos psicológicos, é rigorosamente o mesmo. E mesmo que os números não sejam esses, não andam muito longe.
De facto, ainda hoje vi as carrinhas bloqueadoras passarem por muitos carros em infracção sem fazerem nada.
Multam dois aqui, bloqueiam três mais à frente, rebocam numa base de "an-dó-li-tá", criando uma ideia (aliás, verdadeira!) de que só é penalizado quem tem azar.
*
Acrescem ainda outras realidades:
Muitos condutores vêm de outras zonas da cidade (ou do país) onde sabem que a probabilidade de serem multados é ZERO.
Outros, sabem que, se não pagarem as multas, não lhe acontece nada (30% das multas da EMEL ficam por pagar, e as da PSP prescrevem regular e oportunamente...).
A lei não é aplicada aos fins-de-semana, pelo que se podem ver carros a atafulhar passeios, passadeiras de peões, faixas BUS, estacionamentos para deficientes e paragens de autocarro, mesmo quando o estacionamento é gratuito e abundante.

*
O pior é que, nestes casos (como nos outros de que agora tanto se fala), a sensação de impunidade tem consequências, a prazo, muito para além do que está directamente em causa. Mas esse, como se sabe, é um problema devidamente MINIMIZADO...

Etiquetas:

Mi(ni)stério...

SE O TEMA é "escolas" e a notícia fala em "Ministério", a primeira ideia do leitor incauto é que se está a referir ao Ministério da Educação. Mas não; trata-se do Ministério Público que, para a TSF-online, é... um ministério.

Crime

Por João Paulo Guerra
Mas afinal de contas a criminalidade em Portugal tem vindo a descer ou a subir? Tem dias.
EM 2007 FORAM PARTICIPADOS às forças policiais portuguesas 391.611 casos criminais. Mais de mil crimes por dia. Mas para o Poder o que importa sublinhar é uma leitura estatística que contraria as páginas dos jornais e os sentimentos de insegurança dos cidadãos ao anunciar uma descida de 10,5 por cento da criminalidade grave e violenta. O que é que estes 10 virgula 5 por cento querem dizer? Querem dizer um simples número, com uma casa decimal para dar maior aparência de rigor. A leitura das estatísticas dá para tudo. Por exemplo: a criminalidade participada à PJ aumentou mais de 30 por cento. Mas o Governo tem uma explicação: trata-se dos efeitos de uma “mudança de metodologia”.
A apresentação das estatísticas é de geometria variável. Quando se trata de apresentar serviço ou de desculpar a inércia, o Poder apresenta os dados que descem. Quando a questão é justificar mais milhões para equipamentos e mais restrições à liberdade e privacidade dos cidadãos, exibem-se as estatísticas que sobem.
Para fazer frente ao aumento da criminalidade, que aliás diminuiu surpreendentemente nas estatísticas, o Governo diz que vai apostar no policiamento de proximidade e na cooperação com as autarquias. O primeiro item é um chavão repetido por quase todos os governos excepto por aqueles que defendem o chavão de sentido contrário. O segundo tresanda a “mudança de metodologia” para aligeirar futuras estatísticas.
De maneira que o cidadão comum que se veja ameaçado numa rua do País dos Brandos Costumes só tem que arremessar uma estatística aos assaltantes. Ou refugiar-se atrás de uma “mudança de metodologia”.
«DE» de 27 Mar 08 - c.a.a.

Etiquetas:

«ACONTECE...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho
A imagem mostra um novo recinto, em Portugal, com capacidade para acolher nove mil pessoas. Pergunta-se: onde fica?
NOTA: esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.
Actualização: o passatempo foi ganho por "Zoca", a quem já foi enviado o livro «A Fátima dos Inícios do Século XX».

Etiquetas: ,

Freguesias e concelhos

Por C. Barroco Esperança
NÃO SEI SE SE ENTREVÊ alguma folga orçamental para que os caciques tenham começado a movimentar-se na ânsia de aumentarem a fragmentação autárquica.
Há quem crie riqueza enquanto outros tentam capturá-la. Em vez da regionalização do País, aproveitando as cinco regiões para a indispensável reestruturação administrativa, há quem prefira regressar ao sistema feudal com pequenos enclaves para reinar.
Dissimulam a volúpia de dilacerar concelhos com a alegada tradição municipalista. Não descansam enquanto não regressarem ao número anterior a Mouzinho da Silveira. As freguesias cujas competências se confundem, em zonas urbanas, com as dos municípios, estão em expansão e até uma freguesia extinta, porque uma sentença judicial entregou a respectiva área ao proprietário, ficando deserta, permaneceu, transferida para localidade anexa, logo elevada a freguesia.
O PSD patrocina Sacavém como concelho e o CDS Vila Meã. Quanto às freguesias, o CDS ataca com Marmelar e Moinhos da Funcheira, o PS pugna por Vilarinho, Rapoula e Formoselha e o PSD bate-se por Oriente.
Às aldeias podem chamar-se vilas e a estas cidades. Um conjunto de duas casas pode ser elevado a vila que, dai, não vem mal ao país, mas criar concelhos é aumentar despesas, rotundas, empresas municipais e empregos parasitários para angariadores de votos, sem utilidade pública. O problema não reside na nomenclatura mas nos encargos supérfluos e nos bairrismos agressivos.
Se o Governo, este Governo, que teve coragem para fechar escolas sem alunos, lugares sem conteúdo e empresas públicas sem objectivo, não for capaz de resistir aos caciques que pretendem mais freguesias e concelhos, vamos assistir ao milagre da multiplicação das arruaças de outras Canas de Senhorim e novas Fátimas.
Há quem, por demagogia, maldade, insensatez ou tolice queira tornar inviável o país que a democracia resgatou do atraso secular e da herança fascista, não se contentando com 308 concelhos e 4261 freguesias que retalham o território nacional.

Etiquetas:

26.3.08

EM AGOSTO DE 1997, o «Expresso» publicava uma história, intitulada «IVA... e-vai-um» [v. aqui], em que um comerciante já defendia que o IVA devia ser de 20%, para facilitar as contas de cabeça...

Pacheco Pereira e a Guerra do Iraque

Por Alfredo Barroso

HÁ MAIS DUAS ‘VÍTIMAS’ da invasão do Iraque que até agora ainda não tinham sido contabilizadas e que só há poucos dias foram reveladas: os publicistas neoconservadores José Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes. Felizmente estão vivos, não foram alvo de bombardeamentos americanos nem de atentados da Al-Qaeda, mas é suposto terem sido vítimas dos ataques soezes de ‘uma pequena turba’ (de esquerda, claro!) que os acusa de um grave ‘delito de opinião’: ‘terem estado a favor da invasão do Iraque’.
Quem fez esta ‘revelação’ sensacional, em artigo dada à estampa no ‘Público’ de 22 de Março, foi precisamente uma dessas vítimas, o ilustre publicista José Pacheco Pereira. Sucede que ele continua a dar opiniões em tudo o que é órgão de comunicação social, desmentindo assim, sem se dar conta disso, os seus próprios receios de ‘prisão e banimento’, ‘ostracismo e incapacidade cívica’, ‘punição, censura, opróbrio, confissão pública do crime, rasgar das vestes’ e, até, suplícios num ‘pelourinho’ – para citar o que ele escreveu, porventura sob a influência pascal do ‘Evangelho Segundo S. João’.
Pacheco Pereira diz que foi acusado de cometer ‘delito de opinião’, mas não diz concretamente quem o acusou, como e quando. É claro que está a mentir, e não apenas a exagerar recorrendo a uma figura de retórica. O que ele pretende é apresentar-se como vítima e dar largas ao seu complexo de perseguição. Mas este é um problema recorrente de quem já foi da extrema-esquerda, decidiu passar-se para a direita e nunca mais pára, ao longo da vida, de exorcizar em público os fantasmas ideológicos do seu passado.
Pacheco Pereira quer apontar os ‘erros clamorosos da Administração Bush’, o ‘modo ingénuo, ignorante e incompetente como foi previsto o período de ocupação’ do Iraque, ‘a imprudência e a impreparação americanas’. Mas não admite que o confundam com a maioria, pouco ‘séria’, daqueles que sempre se manifestaram contra a invasão e a ocupação. Porque, escreve ele, ‘uma coisa é criticar os americanos pela sua ocupação do Iraque e outra é contestar a decisão de invadir’. Uma subtileza que escapou à ‘turba’.
O artigo em causa (que promete continuação) é um modelo de hipocrisia política e de desonestidade intelectual. É um atentado contra a inteligência do próprio autor, que dá provas de um anti-esquerdismo bem mais ‘primário’ do que o anti-americanismo de que tanto se queixa. A técnica adoptada por Pacheco Pereira é a da desqualificação dos adversários da invasão e da ocupação do Iraque, tratados como ‘uma pequena turba’ de débeis mentais cheios de ‘slogans’ tribunícios e ‘tiques’ ideológicos. A inexistência de armas de destruição maciça, tal como a inexistência de apoios de Saddam Hussein à Al-Qaeda, também são consideradas irrelevantes, com o claro propósito de desqualificar os protestos contra as mentiras de Bush, Blair, Aznar e Durão Barroso. Uma vergonha!
A tentativa de desqualificação dos que sempre foram contra a guerra, a peregrina tese do ‘irritante geral’ que era urgente erradicar, a incoerência dos argumentos a favor da invasão, os insultos à tão odiada esquerda e o ridículo papel de vítima que Pacheco Pereira assume, para não dar o braço a torcer, são simplesmente lamentáveis e chegam a ser patéticos. Convém que se diga que ele não é uma vaca sagrada, nem paira acima das ideologias, como quer fazer crer. Também ele tem uma tese e, aconteça o que acontecer, o que vale é a tese dele. Essa tese é uma visão do mundo assente numa única obsessão: um anti-esquerdismo militante por razões ideológicas, agravadas por um rancor pessoal. Formalmente, a tese de José Pacheco Pereira continua a ser omnisciente, intolerante e dogmática. Só o conteúdo é que mudou: dantes era de esquerda, agora é de direita.
«Sorumbático» - 26 Mar 08 e «Público» 27 Mar 08
-
Passatempo associado: o Sorumbático decidiu premiar o autor do melhor comentário que, até às 20h do próximo domingo, venha aqui a ser feito a esta crónica. Na impossibilidade de dispor do livro «Guerras Limpas», que está esgotado, o prémio será um exemplar (anotado) da obra de Chomsky cuja capa aqui se mostra.
*
Actualização: foi decidido atribuir o prémio a Mendonça, a quem o livro já foi enviado.

Etiquetas: ,

25.3.08

Mudança

Por João Paulo Guerra
O Diário de Notícias de ontem publicou uma interessante comparação entre a legislação laboral tal como os socialistas a defendiam, enquanto oposição ao governo PSD/CDS, e aquilo que o PS agora preconiza na qualidade de governo.
O QUE PODE CONCLUIR-SE da comparação é que diversas medidas do Código Laboral de Bagão Félix, então criticadas na declaração de voto dos socialistas, são agora ultrapassadas em diversos aspectos anti-laborais pelo próprio PS.
O que é que mudou nestes cinco anos? O carácter das relações entre o capital e o trabalho, as regras dominantes da economia, a relação entre poder económico e político? O que mudou foi o PS. Aliás, vários acontecimentos da vida política centraram-se nestes últimos cinco no supremo desígnio de liquidar o PS que havia.
Em muitas questões essenciais, o actual PS e o PSD são gémeos separados à nascença. Mas há um aspecto fulcral que os distingue: o PS tem mais facilidade em fazer a vida negra ao mundo do trabalho que a direita propriamente dita. Ou seja: o PS liquida direitos laborais em nome dos trabalhadores o que, por razões históricas e de registo de patente política, condiciona a contestação às suas políticas. Na oposição, o PS capitaliza a contestação às mesmíssimas políticas que, uma vez no governo, põe em prática. Esta regra teve um hiato excepcional durante a liderança de Eduardo Ferro Rodrigues, “ministro dos pobres” no governo e contestatário consequente da política laboral da direita na oposição. Arrumado politicamente Ferro Rodrigues, mais nenhum obstáculo se levantou a que o PS faça no governo igual ou pior que aquilo que critica à direita quando está na oposição. Chamem à mudança “cabala” ou outro palavrão qualquer.
«Diário Económico» de 25 Mar 08 - c.a.a.
NOTA (CMR): o referido texto do «DN» está disponível [aqui]

Etiquetas:

Etiquetas:

Noves-fora...

A notícia da esquerda é de 25 de Fevereiro 08, e a da direita é de hoje.
A PROPÓSITO destas e de outras tristes realidades semelhantes (em que a informatização deveria desempenhar um papel fulcral), tenho de confessar que depositei, durante muito tempo, bastante confiança no espírito modernizador de José de Magalhães, nomeadamente em assuntos como este, da DGV - dependente do MAI, onde ele é Secretário de Estado.
Passados estes anos todos, a opinião que hoje tenho leva-me a atribuir um exemplar deste seu «Roteiro Prático da Internet» ao primeiro leitor que afixe um comentário (seja de que teor for) cujo conjunto hora-minuto de afixação dê - por uma inevitável associação de ideias... - noves-fora... nada.
Como deve ser necessário fazer tentativas, cada leitor pode concorrer as vezes que entender.
NOTA: em Macau, pelo menos quando eu lá estive (em 1997), as multas de trânsito que os infractores não pagavam iam esperá-los nos postos de IPO, onde os carros só recebiam o selo depois de as terem regularizado.
Actualização: o passatempo foi ganho por Mr. Shankly, com o comentário das 04:05; o prémio já seguiu.

Etiquetas: ,

O Túnel da Matemática

Por Nuno Crato
DEPOIS DE DÉCADAS DE MAUS RESULTADOS, os Estados Unidos estão a ponderar uma inflexão no ensino da matemática.
Há dois anos, uma comissão nacional de matemáticos, psicólogos e educadores começou a trabalhar para produzir uma análise do estado do ensino e para distinguir as indicações pedagógicas que se fundamentam em dados científicos das que se baseiam apenas em profissões de fé românticas.
O estudo acaba de sair (www.ed.gov). Para além da sua seriedade e profundidade, destaca-se o respeito pelos dados e a consideração daquilo que a psico-pedagogia científica tem produzido. A comissão inclui críticos de longa data da chamada matemática vaga («fuzzy math»), como o matemático Hung-Hsi Wu, de Berkeley, psicólogos experimentais críticos do construtivismo, como David Geary, de Missouri e estudiosos que têm criticado o menosprezo dos conteúdos curriculares na formação de professores, como Liping Ma, da Carnegie Foundation. Mas inclui também educadores como Deborah Ball, de Michigan, e «Skipp» Fennell, presidente do National Council for Teaching of Mathematics (NCTM). Esta é uma organização que defendeu repetidamente métodos construtivistas radicais e insistiu no ensino centrado no aluno e na descoberta pelos estudantes, rejeitando amiúde a necessidade de memorização e de mecanização dos algoritmos tradicionais das operações.
Por tudo isto, sendo aprovadas por unanimidade, as conclusões do relatório final deste Painel são uma boa surpresa. O relatório insiste no ensino organizado, no esforço continuado e na destreza nas operações elementares.
O respeito pelos dados e pelos resultados científicos da psicologia acendeu uma luz ao fundo do túnel.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 21 Mar 08

Etiquetas:

ESTE LIVRO, da autoria de Antunes Ferreira, será lançado no próximo dia 15 de Abril, na FNAC do Colombo, em Lisboa, numa sessão para a qual, oportunamente, será aqui afixado o correspondente CONVITE.
Por hoje, trata-se apenas de lhe dar os parabéns! pelo destaque que, ontem, o «DN» deu - não só a este seu livro, como também à obra do autor, que já vai longa!

Não à Baixa do Botox

Por Manuel João Ramos
É EVIDENTE O CONTRASTE entre o sentimento de urgência que autarcas, urbanistas, comerciantes e promotores imobiliários têm em relação aos grandes projectos de “revitalização” da Baixa-Chiado e o desinteresse da grande maioria da população lisboeta em relação àquela zona da cidade.
“Reabilitar”, “revitalizar” e “requalificar” são termos recorrentes que se conjugam, num discurso tornado hegemónico, com fórmulas como “criar espaço comercial”, “promover o produto”, “fazer uma montra”. Os munícipes observam em silêncio submisso, despreocupado ou descrente, o património edificado da Baixa Pombalina ser invocado para justificar complexas operações financeiras e administrativas que o seu horizonte cognitivo não alcança.
Os prometidos planos de investimento no território urbano que o presidente da Câmara designou recentemente como a pérola da cidade têm como fundamento primordial o desígnio turístico da Baixa. “Recuperar” (ou seja, reconstruir) aquele conjunto pombalino e pós-pombalino, injectar habitantes em edifícios modernizados e gentrificados, salpicar o terreno com templos museológicos são passos de uma rotina planificadora já muito bem oleada noutras grandes cidades europeias, e que passa sobretudo pela necessidade imperiosa dos municípios de gerar receita através do imobiliário e da promoção turística, e pela ânsia do grande capital em investir na aquisição de pérolas.
O processo legitima-se por si mesmo, isto é, pelo facto de ter de ser assim porque se tem feito assim noutras cidades europeias. O modelo é este e não há que o questionar.
Mas não podemos mesmo questionar o modelo?
Durante dois séculos, todos aqueles que deixaram algo escrito sobre a Baixa coincidiram na opinião de que os edifícios pombalinos eram feios, monótonos, aborrecidos, sem qualquer monumentalidade. Fruto da mente e engenho de militares, os quarteirões da Baixa foram sempre vistos como peças de um aquartelamento. No meio século seguinte, o discurso mudou no sentido da sua patrimonialização. Mas, em simultâneo, o património arquitectónico e urbanístico da Baixa começou a ser intensamente vandalizado. Primeiro pela banca, depois pela fuga dos habitantes, pela ausência de manutenção e por esventramentos dos interiores, e finalmente pela decadência do comércio tradicional e pela construção de parques de estacionamento, de caves e de um túnel à boca do Terreiro do Paço que afectaram profundamente os fluxos hídricos subterrâneos e consequentemente as fundações dos imóveis.
O Património arquitectónico pombalino é hoje praticamente irrecuperável. O espaço é dificilmente revitalizável como espaço urbano orgânico. Mas é ainda cenarizável. Tratando-se de um casco moribundo e ainda por cima deserto, é mesmo particularmente apetitoso como brinquedo para urbanistas e promotores imobiliários.
Algo de semelhante aconteceu em Barcelona, a cidade que está hoje nas bocas do mundo como a nova Meca turística europeia. Barcelona é o modelo inquestionável e universalmente invejado de cidade de sucesso, de cidade-espectáculo, de cidade-fashion. Tanto mais que o Ayuntamiento tem fechado os seus balanços anuais de contas com superavit. Mas pergunte-se a qualquer barcelonês sobre o que é viver constantemente assaltado por turbas de turistas, chocado por dislates arquitectónicos e aborrecido por aventuras museológicas, e a resposta será sempre a mesma. Barcelona é uma cidade infernal. Boa para “unas copas” mas insuportável para viver.
Mas, se perguntarmos ao catalão (e ao castelhano e ao andaluz e aos outros) onde gostaria mesmo de passear, ele dirá que, sem sombra de dúvida, na Baixa de Lisboa. Como se prova todos os anos, por altura da Páscoa.
Porquê matar então, a golpes de “revitalização”, a galinha dos ovos de ouro? E, já agora, que conta a CML fazer à pequeníssima minoria de lisboetas que têm a sina e o privilégio de viver na Baixa? Dar-lhes um subsídio mensal e um trajo de gala para serem mostrados como seres exóticos a turistas low-cost e a condóminos high-brow?
«24 Horas» de 24 Mar 08

Etiquetas:

24.3.08

«...são muito bons a resolver os problemas que eles próprios criam»

VALE A PENA ler a primeira notícia: uma pessoa faz uma compra, de um bem ou de um serviço. A DGCI desconfia que o vendedor tenta fugir ao Fisco. Pode estar cheia de razão; mas quem é que vai começar por inspeccionar, incomodar e até multar? O comprador, pois claro!
Recentemente, fomos confrontados como uma situação igualmente absurda: alguém vende um carro a outrem e faz tudo o que lhe compete. O comprador, por seu turno, decide não fazer a sua parte e não procede ao registo. E quem é que o Estado vai importunar? Quem cumpriu, pois claro!
Actualização: um dos muitos autores convidados do Sorumbático é o Ferreira Fernandes. Normalmente, as suas crónicas são afixadas aqui em post próprio. No entanto, como a de hoje (dia 25) é sobre o assunto deste, aqui fica ela - uma vez sem exemplo - 'pendurada' neste post. Sei que ele não se vai importar...
*
Copo de água fria
Por Ferreira Fernandes
AGORA, A NOIVA fica logo a saber, no dia do casamento, que afinal havia outra: a Direcção-Geral de Contribuições e Impostos. E que a outra escreve cartinhas, assinando-as pelo diminutivo: DGCI. E que na cartinha ela pede informações, a viciosa, sobre o dia (e a noite) do casamento. Agora, o noivo fica logo a saber que ela teve um affaire com um tal Fisco. E que, como todos os affaires (em bom português, negócio), a coisa envolveu dinheiro. Agora, o padre, no dia de casamento, já não pode fazer o apelo tradicional: "Quem souber, fale agora, ou cale-se para sempre." Já não pode porque, se o fizer, arrisca-se a ver os noivos a rapar de formulários e a deitar-se, em plena capela, a preencher o que sabem no modelo 3 do IRS. Ou, pior, que os noivos se calem para sempre e ele, o padre, seja acusado de conivência na fuga ao fisco. Agora, logo no dia do casamento os noivos ficam a saber que têm um ménage à trois. E que o amante é que é protegido pela Lei (Geral Tributária).
«DN» de 25 Mar 08 - c.a.a.

Etiquetas: ,

Cães

Por João Paulo Guerra
O Governo foi verdadeiramente despachado a dar a volta às intenções de um despacho: menos de uma semana depois da divulgação de um despacho do Ministério da Agricultura com vista a proibir a importação, reprodução e criação de sete raças de cães consideradas perigosas, o próprio ministro veio dizer que não senhor, que houve um equívoco, que se tratava só de um projecto que alguém tirou da sua secretária e divulgou como despacho, etc.
PELO MEIO HOUVE VÁRIAS ASSOCIAÇÕES do sector canino que se manifestaram contra as intenções do Governo e, como é usual, a bazófia governamental esfumou-se. Mais alto ladram os interesses. O que é extraordinário no retrocesso é que as intenções drásticas do Ministério da Agricultura – fossem em modalidade de projecto ou na versão de despacho – alegavam com a sucessão de incidentes “gravíssimos” com cães perigosos que têm vindo a ocorrer em Portugal. Apesar de neste interim se terem registado mais dois “gravíssimos” incidentes, a bravata governamental perdeu gás face aos protestos das associações de canicultura em geral e dos proprietários de ‘rottweillers’ ou de ‘pit bulls’ em particular.
Ou seja: em Portugal, há centenas de milhar de desempregados e milhões de pobres, o passado de trabalho dos velhos não lhes dá mais que uma miséria no presente e o futuro dos jovens é uma incógnita angustiante, os direitos à saúde e à educação vão-se resumindo a letras mortas de uma Constituição que ninguém respeita, mas o Governo mantém-se inflexível perante todos os protestos. Fossem cães de raça, e perigosos, estes humanos que reclamam direitos elementares e mereceriam mais atenções e alguma consideração. Em Portugal, vida de cão têm os que vivem do trabalho.
«Diário Económico» de 24 Mar 08 - c.a.a.

Etiquetas:

É igual ao litro...

HÁ TRÊS ASPECTOS muito irritantes neste género de erros, em que a TSF-online é particularmente criativa:
Primeiro, não se trata de meras gralhas (como troca ou falta de letras); são erros primários, de quem ignora o significado das palavras que usa.
Depois, porque esses erros aparecem quase sempre nos destaques das notícias e não no seu desenvolvimento.
Finalmente, porque ninguém, por aquelas bandas, se dá ao trabalho de os corrigir (mesmo que para lá se escreva) - ficando ali, à vista e como um escarro, até ao fim dos tempos...

Passatempo com prémio

POR ACHAR que esta notícia (que se pode ler no «Público» de hoje) merece mais do que uma boa gargalhada, o Sorumbático oferecerá um exemplar do livro cuja capa aqui se vê ao autor do melhor comentário que, sobre o assunto, venha a ser feito até às 2oh do próximo dia 27, quinta-feira.
*
Actualização-1: calha aqui muito bem, 'pendurada' neste post, a crónica de um autor-convidado do Sorumbático, o João Miguel Tavares. Dado que o assunto é o mesmo, o prémio oferecido é extensível a quem, em vez da notícia do «Público», prefira comentar a crónica.
*
Nem anjos inocentes, nem geração rasca
Por João Miguel Tavares
HÁ UM ANO, ESTAVA NO CENTRO COMERCIAL Colombo e a minha filha mais velha desatou numa gritaria desalmada, já nem sei porquê, uma daquelas birras olímpicas que antes de termos os nossos filhos acreditamos ingenuamente que só acontecem aos filhos (mal-educados) dos outros. Tentei fazer como os árbitros de futebol: isolar o jogador para o punir disciplinarmente. Puxei-a para um canto, encostei-a à parede e tentei acalmá-la. Só que ela continuava a espernear e a gritar pela mãe, como se eu fosse o Jack Bauer em plena sessão de tortura, procurando saber a todo o custo onde estava a ogiva nuclear. Então, uma senhora dos seus 60 anos aproximou-se esbaforida, a berrar "você é mau pai, você é mau pai", dizendo-me para largar a criancinha e deixá-la ir ter com a mãe, senão chamava a polícia. A sério.
Entre pôr uma criança a trabalhar no campo aos seis anos e estar publicamente impedido de lhe estancar uma birra, é capaz de haver um meio-termo. E no entanto, cada vez parece mais difícil encontrá-lo. Veja-se o inacreditável vídeo do liceu do Porto. Tudo aquilo é impensável, claro, mas antes de voltarmos à velha conversa da geração rasca e às visões apocalípticas do mundo convém ver o que aquilo é: o registo de uma birra sem limites, aparentemente parecida com a da minha filha no Colombo. A diferença - e é uma grande diferença - é que na altura a minha filha tinha três anos. E a rapariga loucamente apaixonada pelo seu telemóvel tem 15. O problema da falta de autoridade dos professores é uma realidade preocupante, ninguém duvida disso, mas é em casa daquela miúda e na educação dos nossos filhos que em primeiro lugar devemos procurar as causas do seu comportamento.
Doses cavalares de mimo, desaparecimentos de Maddies e problemas de consciência de pais ausentes compõem uma fórmula de tal forma explosiva que as criancinhas se transformam em flores de jarra às quais parece mal tocar até com um dedo. O meu pai contou-me no outro dia que em miúdo levou um tabefe porque ao cumprimentar um adulto o tratou por "você" em vez de "senhor". Não é a este tempo que queremos voltar. Mas é preciso encontrar o equilíbrio entre distribuir sopapos por faltas de cortesia e não poder puxar uma criança para um canto sem se ser ameaçado com a polícia. Já é hora de acabar com o mito do bom rebelde. As crianças não são seres angélicos que o mundo corrompe. São bicharocos nem sempre encantadores, muitas vezes cruéis, que têm de ser educados para a vida e para se comportarem devidamente em sociedade. Alguém se esqueceu de fazer esse trabalho com aquela miúda do Porto, dez anos atrás. Tão simples - ou tão complicado - quanto isso.
«DN» de 25 Mar 08 - c.a.a.
*
Actualização-2: o passatempo foi ganho por "Olá!!", a quem já foi enviado o livro.

Etiquetas: ,

Conferência e Debate com o Prof. Hung-Hsi Wu, Berkeley, membro do National Math Advisory Panel, que acabou de difundir o debatido relatório sobre a experiência americana. Com a participação de Cândida Palma, Professora do Ensino Secundário, e de Nuno Crato, Professor do ISEG - em Português e Inglês.
ISEG - Auditório III (Ed. Quelhas)
25 Mar 08 - às 11h 30m
A experiência dos Estados Unidos na democratização do ensino superior tem um século. Na Europa, pretende-se também generalizar o accesso às universidades, tendo alguns países obtido sucesso nesse esforço e outros não. Com o processo de Bolonha e a uniformização do 1º ciclo universitário, criam-se novas condições de acesso à universidade. No entanto, a formação pré-universitária de muitos estudantes tem deficiências graves e as universidades não têm sabido enfrentar esse problema. As taxas de insucesso nas cadeiras iniciais de matemática são dramáticas. Que podem as universidades fazer para reduzir as taxas de insucesso sem esquecer a formação necessariamente exigente nessa importante disciplina?

Etiquetas:

23.3.08

Saúde e política

Por António Barreto
ESTA SEMANA, José Sócrates prestou um serviço a todos os que estudam, analisam e comentam a vida política portuguesa. Fez o previsível. Fez o que muitos profetizavam. Fez o que a lógica mandava esperar. Mas fez também o que, por ser tão previsível, todos pensavam que não fizesse. Na verdade, o Primeiro-ministro surpreendeu com o previsível. Ao mesmo tempo, contribuiu para o enriquecimento empírico dos que estudam. Não basta, na verdade, afirmar que os políticos, alguns políticos, muitos políticos, marcam com demagogia o início das campanhas eleitorais. É preciso provar. Já não convence ninguém garantir, sem factos, que os políticos, alguns políticos, tomam decisões fúteis de esquerda (ou de direita), quando têm uma política consistente de direita (ou de esquerda), a fim de compensar eleitorados e recompensar sensibilidades no próprio partido. É também preciso demonstrar com factos. José Sócrates fez tudo isso. Fez demagogia. Embasbacou a esquerda parlamentar, de quem obteve aplausos. Calou a esquerda do seu partido, de quem recebeu abraços e sorrisos. Prometeu muito e deu pouco. Retirou um hospital público à gestão privada e diminuiu o número dos que, no futuro, teriam igualmente gestão privada. Nacionalizou a gestão do hospital de Amadora-Sintra e de facto nacionalizou a gestão dos que estavam na calha para serem postos a concurso. Cessou o contrato de gestão no Amadora com um grupo privado, mas confirmou o contrato do futuro hospital de Braga, o maior do país, com o mesmo grupo! Quase liquidou as parcerias públicas e privadas de alguns hospitais, baixando de dez para quatro o número de hospitais abrangidos e diminuindo os prazos de trinta para dez anos nos hospitais já em concurso. Reduziu parcialmente uma parte da minoria das taxas moderadoras de alguns idosos ricos ou remediados, dando inicialmente a entender que se tratava de todos os idosos, sobretudo dos pobres que, veio depois a saber-se, já estavam isentos. Alterou assim o rumo político da saúde, tal como este vinha sendo seguido por Correia de Campos e pelo próprio Sócrates durante três anos. Recuou politicamente. Mudou com oportunismo, a pensar nas eleições e nas dificuldades que tem encontrado no seu partido. Como se diz, tomou umas medidas de esquerda, que aliás espera continuar, paulatinamente, até às eleições de 2009.
OS SOCIALISTAS, estes socialistas que governam, já quase nada têm que os distinga, que lhes seja próprio, que lhes pertença como património político. São gestores, aliás, com poucas excepções, medianos ou medíocres. Mas há dois ou três temas políticos que os fazem gemer e tremer e que deixam as plateias dos comícios e os corredores das secções em estado de choque. Um deles é o Serviço Nacional de Saúde. Não querem saber se dá prejuízo ou não. Se está bem gerido ou não. Se salva ou mata doentes. Se atende depressa ou se multiplica filas de espera. Se mantém ou não elevados níveis de humanização nos serviços de atendimento e de internamento. Se desperdiça recursos ou é poupado. Se recompensa quem trabalha ou dá prémios aos absentistas. Se permite ou não o enriquecimento indevido de médicos e fornecedores. Se fecha ou não os olhos à acumulação ilegal de funções por parte dos funcionários. Se incita ou não à promiscuidade entre sectores públicos e privados. Se fica refém dos fornecedores ou se compra bem. Se gasta, com um doente, mais ou menos do que um hospital privado, convencionado ou não. Se os indicadores revelam, por parte dos utentes, satisfação ou descontentamento. Se há ou não sinais de desigualdade social nos hospitais e nos centros públicos. Se paga às farmácias, aos analistas, aos médicos e aos fabricantes de equipamentos com ou sem pontualidade. Se gasta ou não milhões de euros com juros por atrasos nos pagamentos. Se as parcerias públicas privadas permitiram ou não a redução de custos de construção, equipamento e gestão dos hospitais. Se a construção, pelo Estado, de novos hospitais vai ter ou não custos muito superiores aos que obtêm os privados. Se os riscos do investimento são do sector privado ou do sector público. Tudo isso é razoavelmente indiferente aos socialistas que acusam de “economicismo” todos os que desejam fazer contas, verificar, avaliar e comparar. Como não querem saber se o governo cumpre os seus deveres e os prazos de concurso, de adjudicação, de pagamento, de inspecção e de avaliação. Nem pretendem saber se foram criados conhecimentos e experiência de gestão privada de hospitais que podem fornecer serviços públicos. Querem lá eles saber! O importante é não tocar no Serviço Nacional de Saúde, dizem com emoção! Foi por causa deles (e dos comunistas) que Sócrates anunciou as suas medidas de oportunidade. Foi para compensar o alarido dos professores que o governo mudou a política de saúde. Acredita tanto no que acaba de fazer como no seu contrário. Não fundamentou as suas decisões. Não explicou em que medida a gestão pública era melhor para os doentes ou para o Estado. Não demonstrou a superioridade da gestão pública. Não forneceu indicadores de eficiência e de humanidade. Tudo isso lhe é também indiferente. O que lhe interessa realmente são o alarido e os aplausos.
OS MESMOS GOVERNOS, os mesmos primeiros-ministros e os mesmos partidos têm políticas de saúde diferentes. Tudo depende. Quase trinta ministros da saúde em pouco mais de trinta anos dão estes resultados. Como também se tem visto na educação. As guinadas políticas dos governantes têm o mesmo efeito, ou pior, do que as reviravoltas a que se assiste cada vez que há mudança de governo ou de maioria parlamentar. Em menos de dez anos, já se experimentaram três ou quatro modelos diferentes para a gestão hospitalar. Não é possível obter ou manter níveis de satisfação, de eficiência, de poupança e de contenção, já para não dizer também de honestidade, quando um sector de actividade como este é abalado periodicamente por alterações tão fundamentais. É assim que se oferecem recompensas e estímulos irrecusáveis aos oportunistas e aos comerciantes da consulta, da análise, do equipamento e dos medicamentos. É assim que se desmoralizam os operadores económicos e os profissionais sérios. É assim, sobretudo, que se prejudica os utentes e os cidadãos.
«Retrato da Semana» - «Público» de 23 Mar 08

Etiquetas:

A fugir do Victor Mature

Por Nuno Brederode Santos
DE HÁ MUITO QUE A PÁSCOA me encurrala contra a parede dos piores receios. Porque ainda não estou seguro de passá-la incólume. Por entre as ameaças de rever, pela infamante enésima vez, o Quo Vadis, o Ben Hur e A Túnica, renascem esses pavores antiquíssimos de dar de caras com o Victor Mature. Já nem sei onde ou quando ele aparece. É um terror antigo, que eu só esconjuro com os lençóis a taparem-me a cabeça. À geração que o não sofreu, só posso dizer que era um cepo muito grande e desajeitado, que exibia um fácies imune à circunstância envolvente, no qual apenas uma sobrancelha bailarina se esforçava por revelar quaisquer manifestações de uma nunca provada vida interior. Para ser clemente, admitirei que terá feito um "Doc" Holliday aceitável. Mas só depois de estragar boa parte da cinematografia do seu tempo - com destaque para as superproduções em deslumbrante technicolor, onde milhares de figurantes, vestidos fora de moda, perseguiam objectivos místicos - é que ele recolheu aos curros que a todos, afinal, aguardam. Hoje, estaria justissimamente esquecido, não fosse uma pérfida tecnologia que não esquece nem perdoa um fotograma que alguma vez viu a luz.
Digo isto para que as minhas elocubrações pascais mereçam alguma tolerância. E para que me perdoem todos aqueles cujas palavras ou actos me possam ter remetido para as estranhas declarações que se seguem. Nas minhas horas de terror pessoal, é a desconversar que a gente se entende.
Olho para trás, para o lado bom dos tempos do Victor Mature. Mas aqui, ao pé da porta.

Escassos foram, durante a ditadura, os que arriscaram alguma coisa a combatê-la. É, de resto, sempre assim. Os resistentes não são conquistadores precisamente porque são minoritários. E, se as ditaduras reprimem as minorias que as combatem, é para se assegurarem da omissão amedrontada da maioria que submetem. Nesta reside a chave (ou, se quiserem moralizar), a culpa. É, afinal, com essa amarga maioria que os ditadores governam, ainda que o façam também contra ela. E é no dia em que se prova que a resistência já é, ou pode tornar-se, maioritária, e que o medo e o desespero cedem perante a coragem e a vontade, que a ditadura deixa de ditar e a oportunidade da liberdade acontece.
É claro que, logo após a manhã libertadora, ninguém diria que as coisas foram assim. A vida de quem foi livre antes do tempo é banalizada pelas biografias de ficção dos que só se libertaram do medo quando já não havia razões para ele. E é precisamente por estes serem maioritários (e submergirem os outros) que "as revoluções devoram os seus próprios filhos". A menos que haja, da parte destes, o realismo - outros dirão a "sensatez" - de abdicarem dos seus pergaminhos e aceitarem um código do esquecimento. Então, sim, a História poderá ser reescrita de modo a circunscrever a explicação do alfa e ómega de um regime num chefe, mais umas centenas de legionários e uns milhares de agentes da polícia política - que é como explicar a treva generalizada por uma lâmpada fundida. Os que se ficaram pela omissão, os que voluntariamente se tornaram prisioneiros de projectos de uma vida medíocre, aconchegada e sem risco, reclamarão agora para si um novo passado. Desenganem-se os indignados: ainda que em legítima defesa, a democracia transigirá com esses, permitindo-lhes reinventar uma vida inteira. Porque ela própria só faz sentido e só subsiste enquanto regime maioritário.
Em consequência, não fica bem aos donos de um passado ilustre - que o é porque foi devotado aos outros - reivindicarem agora tal sangue azul contra os demais. Se o querem merecer, a devoção e o desinteresse devem continuar a guiá-los e reivindicar privilégios não é decerto o melhor modo de o fazer. Aguentem-se com as comendas morais e com o que a memória salvar. Mas pior fica, aos que primaram por prudência, silêncio e omissão durante os tempos difíceis, virem agora servir-se do esquecimento pactuado e quererem impor aos novos as fantasias e jactâncias que lhes podem conferir currículo e "moralidade". Porque estes abusam do pacto. E contra eles é legítimo desenterrar todas as verdades.
«DN» de 23 Mar 08

Etiquetas:

Arquivo Humor Antigo - Ano de 1934 - n.º 5

22.3.08

O que é que este texto tem de especial?

This is an unusual paragraph. I'm curious how quickly you can find out what is so unusual about it. You probably won't, at first, find anything particularly odd or unusual or in any way dissimilar to any ordinary composition. It looks so plain you would think nothing was wrong with it. In fact, nothing is wrong with it! But it is unusual. Why? Study it, and think about it, but you still may not find anything odd. But if you work at it a bit, you might find out! Try to do so without any coaching! No doubt, if you work at it for long, it may dawn on you. Who knows? Go to work and try your skill. Good luck.
*
Ao primeiro leitor que der a resposta certa a este desafio (proposto por Jorge Oliveira), o SORUMBÁTICO oferece o habitual prémio: um livro.
Actualização-1: o passatempo foi ganho por 'Marco', a quem já foi enviado o livro que, entretanto, escolheu.
Sugere-se que, a propósito desse assunto, se veja o espantoso caso referido [aqui]. Para saber mais acerca de tal bizarria, procure-se na Web em Lipogram.
Actualização-2: Luís Correia aproveitou a maré e propôs, no comentário-3, alguns desafios adicionais.

Etiquetas: ,

As bases da civilidade

NESTA OBRA, que já conta uns bons 5 séculos, referem-se as bases de uma educação infantil considerada adequada para os padrões da época, tendo sido escrita para ajudar os encarregados de educação a fazer aquilo que essa designação pressupõe: educar.
Ora o espantoso é que, passados tantos anos, a grande maioria daquilo a que chamamos normas de convivência, de civilidade ou, mais comummente, de boa educação, lá referidas, estão perfeitamente actuais.
São coisas como «não escarrar para o chão; não fazer ruído ao assoar-se; não mastigar com a boca aberta; não rapar o molho da travessa; não pôr os cotovelos em cima da mesa; fazer as necessidades recatadamente; exprimir-se com moderação; ceder o lugar aos mais necessitados; respeitar os idosos; acatar as ordens dos mestres...», etc., etc.
A única falha a apontar é a ausência de um capítulo sobre o uso de telemóveis - mas ninguém é perfeito...

Etiquetas:

Tibete

Não sou jornalista.
Acrescento sempre palavras ao que vejo. E guardo outras, num recanto do meu egoísmo. Não acreditem no que escrevo, pensem apenas. Porque pode ser verdade.
Quem é que nunca sentiu a surpresa de uma notícia? Ou o susto de uma bomba de Carnaval? Ou encontrou um conhecido num lugar improvável? Ou se queimou, se arrependeu, pisou um buraco? Momentos… momentos… momentos… em que não temos tempo para controlar a parte de dentro do corpo. Era dia 10 de Março. E o maior desses momentos aconteceu. Descíamos a rua do Mosteiro de Drepung, com dezenas de monges, em debates e amizades criadas pelo puro acaso durante todo esse dia. Um falava sobre a importância da data, outro de liberdade, da vida, de estarem a um passo de ter voz. Apenas voz. Nem cabíamos dentro da pele. Os únicos diferentes do meio, mas no meio. Entre sorrisos vermelhos e vestidos de confiança, faláv… Sinto um braço a puxar-me, a rua bloqueada, e tanta gente. Polícias de choque, militares, camiões, um barulho confuso a impedir o caminho para Lassa. E um braço. A insistir, a puxar-me. Num segundo levou-nos para o outro lado da rua. Vi que era um polícia. Não podem estar aqui. Continuem a andar. Do outro lado os monges, num silêncio cada vez mais afastado. Mais carros, e homens, e carros, e homens. Sem farda. Fecharam as lojas, fecharam as casas. Voltaram. Tiraram as pessoas das casas. Continuem a andar. Ninguém olhava para trás. O medo envolvia os corpos. O que se passa? Responderam-nos: um fogo; exercícios… duas vozes fardadas. Queríamos voltar para trás. Já não conseguíamos ver as caras, apenas roupas vermelhas abafadas por uma força violenta. Armada.
Foi o início. Sabemos que muitos desses monges morreram no final desse dia.
Após quilómetros a andar por estradas de terra não batida, a tentar inventar ruelas que nos levassem a testemunhar a prepotência militar e policial sobre pessoas desarmadas, descobrimos o pior. A nossa impotência. O bloqueio estendia-se ao inimaginável, até nenhum som vindo do Mosteiro se conseguir ouvir. Máquinas fotográficas inspeccionadas ao milímetro, questionados ao milímetro, desde esse instante, controlados ao milímetro. Telefones, internet, conversas, gestos e decisões. Tínhamos sido as únicas testemunhas do início, da violência utilizada sem justificações de defesa, da experiência que demonstraram, da rapidez com que limparam o local de olhos e provas, da postura silenciosa daqueles monges. Os sete dias até à chegada ao Nepal, por terra, a dormir em pequenas aldeias no meio dos Himalaias, ficaram marcados pela tentativa de criar medo. Presos nos quartos, revistados, identificação constantemente exigida na estrada e após a única consulta do e-mail, horas passadas na fronteira… Mas não foi o que mais me assustou. Foi a certeza do que vi: o controlo do povo chinês e tibetano levado ao extremo por violência e impunidade; a quantidade sem fim de agentes à paisana ou pessoas que a troco de uns sapatos novos falam do que se passa na casa ao lado; o medo; a propaganda; a confissão assustada de que a falta de direitos humanos ultrapassa o não ter pão. Aqui morre-se por ter opinião.
Tudo o resto que vivi no Tibete ultrapassa um texto legível… por enquanto. Mas tenho voz. E não me esqueço.
-
Crónica enviada do Nepal por Clara Piçarra; transcrita do blogue Miniscente