16.12.10

Mail urgente para o CPC

Por Miguel Viqueira

Mon Prince!,

A MEIO do jantar ouvi dizer que tinhas morrido: mais uma das tuas, mon Chevalier, que não páras quieto nem no Natal...
Depois desataram a pingar as notícias: nos blogues, nas edições digitais. Claro que comecei a não achar piada à piada e aos poucos, fatalmente, não tive outro remédio senão acreditar primeiro, ir aceitando depois, que afinal se calhar tinhas mesmo morrido!
Duas questões: morreste mesmo?
Segunda: por ordem de quem? Mas isto agora é assim, morre-se sem dizer nada, de "repent", sem passar cartucho a ninguém...?
Mais uma, subsidiária e egoísta, de quem cá tem de ficar, com cara de parvo e um vazio do tamanho da noite: e agora? Com quem vou eu discutir, comentar, admirar, rir, e a quem vou mandar à fava de vez em quando?
Olha, Carlinhos, além de na morte e nos impostos (ter de os pagar...) só acredito noutras duas coisas, ambas por demonstrar empiricamente mas portadoras daquelas certezas certas do coração: acredito na imortalidade do espírito humano (alma ou como queiras chamar-lhe) e em que tudo, mas tudo, nesta vida de cá, é mistério. Mistério que tu agora já desvendaste, como todos nós faremos a seu tempo. Agora que já percebes tudo, já conheces tudo, já desmascaraste tudo, imagino o espanto e as gargalhadas...! A chatice é que não me podes contar! (Não podes mesmo?).
Fica contente pelo que deixas, mon Prince: família, amigos, o teu trabalho de décadas. Nós é que temos de nos agarrar à brocha, agora. Mas, por ti, fá-lo-emos sem pestanejar.
Bem sei que a este mail não vais responder: será o primeiro! E como também sei que gostas destas coisas, deixo-te, enfim, enfim, com um verso do Jorge de Sena que ainda ontem reli:
"O que nos mata é solidão povoada".
Pois é. Como a minha de agora, contigo cá dentro.
E assim acontece!
Até esse dia que tu já sabes qual é!

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13.6.10

Curtas-Letragens - GTB

Por Miguel Viqueira

DAS COISAS QUE FAÇO com prazer é falar dele, Gonzalo Torrente Ballester, o romancista que há exactamente cem anos, nesta manhã de Santo António, nascia no vale de Serantes, a dois passos do Ferrol (Galiza), e de quem tive a sorte de ser muito amigo. E o privilégio de aprender quanto sei de algumas coisas importantes para mim.

Diz-se que os artistas não têm biografia, têm obra. E que é melhor que assim seja porque as vidinhas deles soem ser um desastre humano de proporções insuspeitas, muito em particular as dos escritores. Neste caso está longe de ser verdade: a biografia de GTB faz jus à magnitude da sua obra, não pela quantidade nem a importância dos feitos mas pela qualidade humana com que se conduziu neste mundo, comportamento que fez dele talvez o último dos cavalheiros que eu conheci, uma pessoa cabal, um ser humano completo, inteligente e divertido, de rara compaixão, um exemplo humilde de rectidão moral e de bondade não contaminada. (...)

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24.12.09

Curtas-Letragens - «Natal...»

Por Miguel Viqueira

POIS, NATAL OUTRA VEZ... Para uns o pior é coleccionar os pares de peúgas que os mais velhos oferecem, impenitentes; para outros, arrumá-los. Para aquele seu conhecido, o pior do Natal é suportar os cunhados. O Natal, que perdeu o sentido religioso de antanho e se converteu na festa da família, ou na chatice da família, que diria o tal outro, para ele foi sempre época de melancolia, desde miúdo. E de saudade. Apetecia-lhe sempre estar com quem não podia e tinha saudades do impossível. Hoje lembra-se sempre de tipos e de coisas perdidos na noite dos seus dias, como aqueloutro desconhecido, de umas duas vezes a idade dele da altura, que se perfilava no meio da rua deserta cada anoitecer. Era uma álea de plátanos, lisa e direita, mal iluminada, algumas folhas outonais ainda no chão húmido de chuva recente teimando em não sucumbir ao inverno, ninguém por perto, o silêncio apenas quebrado pelo rumor da cidade que então parecia longínquo. (...)

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24.2.09

Curtas-letragens - “Carrnaváu”

Por Miguel Viqueira
“OLHA SÓ dona Marrta...!” era o remoque favorito a propósito de tudo e de nada da “faxinêra” da dona Marta, “nega” carioca de grande pandeiro, que mais que andar se contornava ao deslocar-se, risonha mesmo quando não ria, de grandes dentes alvos e olhar fundo debaixo do lenço atado na nuca e que passava o dia nestas e noutras lamentações que mais pareciam já uma cantilena amável, um traço de identidade inconfundível.
Um dia chegou acabrunhada, olha só dona Marrta, e não parou de se lamentar, a fazer tudo ainda em marcha mais lenta, até que para o fim do dia a dona Marta lhe arrancou o olha só. O pai estava doente, muito doente. E logo agora, vésperas do “carrnaváu”...! Conselhos, recomendações, promessas de que tudo se comporia, você vai ver, conseguiram arrebitar a “faxinêra” que voltou para a favela um pouco menos olha só dona Marrta. (...)
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20.1.09

Curtas-letragens - “Good luck, mister Gorki!”

Por Miguel Viqueira
CIRCULA POR AÍ esta história mas desconheço se chegou a ser escrita, e por quem. Como sempre a achei fascinante, quero assentar aqui o seu registo, para (boa) memória futura...
Concluído o histórico passeio lunar naquela noite mágica para a Humanidade, Neil Armstrong voltava para o módulo da Apolo XI seguindo Aldrin, e ao subir a escada, consciente ou não de que o micro continuava aberto, proferiu a frase mais misteriosa dos seguintes quarenta anos: “Good luck, mister Gorki!”. Em Houston foi primeiro o desconcerto, depois o pânico: quem demónios era esse tal Gorki, e, sobretudo, que ligações poderia ter com Armstrong, com a Nasa e em última análise com a segurança dos USA? O que estava afinal em jogo aqui? Seria o mais recente e maior herói do mundo um espião a soldo de Moscovo? Imaginem o que se terá passado com Armstrong logo após a apertada quarentena a que os três astronautas foram submetidos no regresso...
(...)
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29.12.08

Curtas-letragens - Prenda de Natal

Por Miguel Viqueira
ALGUÉM ME AVISOU que amanhã era véspera de Natal. Dei comigo a pensar na minha mãe velhinha, nas minhas irmãs, nos miúdos, a sós na humidade da província. Quando pude partir era já noite cerrada, chovia a cântaros, um desses temporais desfeitos que se abatem como a vingar-se de um pecado infame. O trânsito estava impossível, filas intermináveis à saída da cidade, luzes estilhaçadas no vidro em mil gotículas que me toldavam a visão, e subitamente um vulto, negro, espaventoso, que não atropelei por milagre. Estaquei o carro, descortinei um homem de braços abertos à minha frente mandando-me parar, com ar desesperado, e instintivamente abri a porta do passageiro. Antes de que pudesse dizer nada o homem entrava, esbaforido, de aspecto alucinado, ofegante, como a olhar para uma coisa que só ele pudesse ver. Estava tão encharcado que me salpicou quando se deixou cair no assento, o cabelo aciganado a escorrer-lhe pela testa e os olhos, a bichanar algo que me pareceu “que dia, que dia!”. Arrependi-me no mesmo instante mas já não havia nada a fazer, as buzinas protestavam atrás de mim, o trânsito arrancava, seguíamos agora na grande tarasca dos farolins vermelhos.
(...)
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26.7.07

Curtas-letragens

Férias
Por Miguel Viqueira
O BOM DO PRAXEDES arrematou duas assoalhadas lá para as bandas da costa sul alentejana e pôde enfim cumprir um sonho de muitos anos, férias de praia com a família toda. Lá foram os Praxedes no boguinhas de quarta mão, a patroa, a sogra, os putos, o tareco, o bobi e o pobre do periquito, a morrer de calor na sombra da gaiola.
Descer a falésia com o pessoal todo, a lancheira, o chapéu, as cadeiras, a bola e os baldes, o jornal e o bobi aos pinotes por ali abaixo, não foi nem fácil nem agradável. Mas quando chegaram àquela enseada paradisíaca, sem vivalma, que nem de encomenda para eles, aquele mar azul e transparente só para eles, o Praxedes ia desmaiando de puro gozo, oh maravilha, isto sim é vida! Praia e mar, mar e praia, sandochas, bejecas, bola e correrias e mais praia e mar, e o sol na pele morena e o regresso estafado à tardinha para se deixarem cair na cama.
Ao terceiro dia de paraíso na praia repararam que a sogra estava na mesma posição desde manhã. Ficara a olhar para o mar como se só ela o visse. Concluíram não sem desespero que a desgraçada se tinha finado ali mesmo. Depois de muito pranto e muito susto e muita dor, içá-la pela falésia acima, mais toda a parafernália costumeira, foi certamente um dos trabalhos de Hércules, mas o bom do Praxedes nunca saberia o que isso era. Pensaram – bem - que de nada lhes valia procurarem um hospital, esperar horas a fio para lhes certificarem o que já sabiam, mais depois um ror de papelada para a transladação e sem falar dos custos... O melhor era levá-la para a casita e amanhã, a todos os títulos infelizmente, regressariam a Lisboa pela fresquinha com a sogra morta.
Mas quem era capaz de levantar a sogra e dobrá-la sequer para a meter no carro no amanhecer seguinte, rígida como uma placa de betão? A patroa chorava desconsolada, os putos olhavam com medo, o Praxedes praguejava, até que improvisou um expediente dos seus. Procurou os ciganos da vila vizinha e comprou-lhes 3 x 2 metros de alcatifa. Só tinham da cara, paciência! Enrolaram a velha muito bem enroladinha, com muito cuidado para não ficarem de fora cabelos nem chinelos, ataram bem com cordéis, puseram o rolo no tejadilho e levantaram enfim o acampamento de férias. Para não atrair as atenções foram pela estrada antiga, devagarinho e cumprindo o código à risca. Os putos acabaram por impor a paragem numa venda para fazer xixi, já agora bebe-se uma bejeca e esticam-se as pernas, salvo seja!
De volta ao carro estacaram todos a olhar para ele, mãos na cabeça: o rolo da defunta sogra tinha desaparecido! Então foi o pranto desatado e as maldições sem temperança até que o sempre bom do Praxedes teve a intuição da sua vida: não longe dali havia uma pequena ravina e se os ladrões não fossem completamente estúpidos lá haveria de estar o embrulho... Todos a uma procuraram, e lá estava mesmo, desatado, assomando um tufo dos cabelos da morta.
Até Lisboa não pararam mais. Já bem de noite, no silêncio do quarto o Praxedes não dormia e tinha os olhos fixos no tecto. Amanhã o médico certificaria a defunção ocorrida durante o sono... Afinal tudo se compunha... Ah! nada como estar de regresso a casa!

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23.5.07

Curtas-letragens

Náufrago
Por Miguel Viqueira
O RAMALHOSA TINHA CINQUENTA E SETE ANOS quando de madrugada caiu ao mar durante o seu quarto de vigia ao largo da Namíbia. Acordou na água gélida como se uma chuva de punhais o despertasse e com horror viu o barco afastar-se no pavoroso silêncio da noite até se perderem no negrume as pálidas luzes de bordo. Um golpe de lucidez lembrou-lhe que os arrastões vão e vêm na mesma linha de rumo: poderia ser uma questão de tempo, de sangue frio e sorte...
Deixou-se então boiar no mesmo ponto onde caíra, combatendo o frio a esfregar os membros, movendo-se em pequenos círculos, com temperança, o indispensável para se manter à tona, para não queimar mais calorias que as indispensáveis. Ao amanhecer foi descoberto nas águas por uma bandada de gaivotas que sobre ele se abateram sem piedade e o atacaram em tropel com fúria de ratazanas, as ratazanas do mar.
Defendeu-se como pôde das bicadas raivosas que lhe procuravam os olhos e lhe retalhavam as mãos, e aos poucos, coberto de rasgões e cortes que sangravam e enfureciam mais ainda as gaivotas, foi perdendo as forças e a fé, engolindo água, afundando-se na espuma tingida do seu sangue. Quando se dava por perdido, quando julgava que ia mesmo morrer, as gaivotas de repente abrandaram os ataques, um remoinho nas águas à sua frente denunciou uma presença estranha que afastou as aves.
As gaivotas desapareceram, fugindo daquela massa escura que se aproximava. Com definitivo horror avistou então o Ramalhosa um grupo de leões marinhos que nadavam para ele grunhindo, presas em alto. Estremeceu, dando-se por morto e afrouxou os músculos, benzendo-se e encomendando-se a Deus e aos anjos, fechou os olhos e estendeu-se nas vagas, esperando inerte as arremetidas das feras.
Mas os leões rodearam-no sem agressividade nenhuma, antes com delicadeza. Um deles, o maior de todos, colocou-se atravessado contra a sua barriga, para que pudesse flutuar, e outros dois flanquearam-no sob os braços para o manter direito e lhe dar calor. Assim se mantiveram, imóveis, silenciosos, longo tempo, até que o Ramalhosa acabou por perder os sentidos, de exaustão e espanto.
Quando enfim acordou, meio-dia volvido, ainda aconchegado pelos leões, viu ao longe a proa do barco que se aproximava, ouviu gritos e vozes familiares, distinguiu acenos na distância. Os animais só o largaram quando foi finalmente içado para bordo. Deram ainda uma volta em redor do arrastão antes de que o Ramalhosa pudesse vê-los afastar-se com os seus grandes bigodes e as suas inconfundíveis presas, contentes no seu olhar terno de míopes.

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13.3.07

Curtas-letragens

Paixão

JOHN ANTHONY O’NIEL conheceu a urgência da paixão aos quatro anos de idade. Nas férias grandes entrou com a mãe numa loja de artesanato e um segundo depois fixou os olhos azuis nos olhos azuis de uma Alexandra portuguesa da mesma idade, da mesma estatura, de iguais cabelos louros encaracolados sobre a tez branca. Desprendeu-se da mão que o levava e tomou a mão que o recebeu, para não mais a soltar em toda a tarde. Falavam sem pausa, segredavam, riam, entendiam-se, sabe Deus como, nessa linguagem buliçosa e indecifrável das crianças felizes. A mãe dele e o pai dela acharam graça, combinaram deixá-los juntos por mais umas horas não sem antes ficar este com o passaporte da senhora enquanto não voltasse para devolver a filha.
O resto da tarde, entre compra e compra, os dois viveram um paraíso de brincadeira e gargalhada, de correrias e gritos, esse mesmo que a vida mais tarde lhes roubará para sempre. Incansáveis, incombustíveis, determinados, regressaram enfim à loja, mãos dadas. De repente grave porque assim o aconselhavam as circunstâncias, John Anthony puxou a saia da mãe e declarou num tom inquestionável: “levamo-la para casa”.
Muito se riram os pais com a solenidade do desplante mas ele não achou piada nenhuma: puxando de novo a saia, repetiu a declaraçâo, um tudo-nada mais alto e mais sério. A mãe tentou explicar-lhe entre sorrisos e argumentos desconchavados a impossibilidade de tal desejo, sem êxito. Então o pai da pequena Alexandra sentiu-se na obrigaçâo de terçar na matéria e portuguesmente puxou ao sentimento, olhando-o nos olhos: o que seria dele sem a sua pequenita, sem a sua alegria, sem o seu carinho, a tristeza lá em casa, as saudades... e John Anthony, sem perceber patavina do que aquele senhor falava, entendia muito bem as inflexões da voz e os arroubos, os gestos empolados desenhando súplicas no vácuo, os ares tão dramáticos de sofrimento paterno. Quanto mais o senhor falava mais ele apertava a mãozita da Alexandra e enrolava os dedos na saia da mãe...
Vencido finalmente por tanto e tão expressivo parlapié, mas não convencido, tornou a puxar a saia da mãe, esta vez com determinação última. Ergueu a cabeça para ela com ar de fastio e condescendeu sem convicção, contrariado, no seu inglês macarrónico: “Tá bom, levamos o pai dela também”.

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2.2.07

Curtas-letragens

Justiça poética com telemóvel no bolso

Para o José Figueiredo e os seus maus hábitos.
NÃO GOSTO DE VENDEDORES ESPERTOS que nos tratam como se não soubéssemos patavina do que vamos comprar, como se fôssemos uns beócios à procura da maneira mais estúpida de gastar o dinheiro que aparentamos e se calhar não temos. Não gosto de vendedores que nos atendem por favor, dispensando-nos o seu tempo com displicência e um ponto de irritação porque não somos a Paris Hilton ou a Lili Caneças. Não gosto de maus vendedores e muito menos de maus vendedores que vestem blazer azul marinho como o meu e abusam do telemóvel para dizer ‘estou aqui’ ou ‘o que é que estás a fazer?’: aquele vendedor reunia em si e de uma vez todas estas qualidades.

Para compensar sempre gostara daquele carro: formas inusuais, atrevidas, redondas, um espaço insólito e um ou dois detalhes de grande carro a preço de funcionário público. E o meu era comprovadamente uma porcaria: caro, gastador, sem força e com excessiva fama do contrário. Já me havia arrependido vezes sem conta de o ter comprado e nada mais me restava senão esperar pela sua morte natural.

De tempos a tempos, sempre em dias de especial irritação, jurava a mim mesmo vendê-lo na primeira oportunidade a quem quer que fosse e a qualquer preço, sob pena de o abandonar no primeiro semáforo em vermelho que me barrasse o caminho. Estava eu num destes amáveis dias quando dei por mim a entrar no centro comercial sem razão aparente, embora sendo eu do tipo que não dá ponto sem nó excepto quando a irritação me inunda, como era o caso. Ao dobrar uma esquina vi-o exposto no átrio, brilhante, tentador, como à espera de um acto heróico da minha parte. Fui direito a ele, abri a porta, passei a mão no estofo, meti a cabeça no habitáculo para apreciar uma vez mais o espaço insólito num carrito utilitário, tão simpático, quando dois dedos me bateram nas costas. ‘Desculpe, é favor não tocar’. Era o mau vendedor de blazer azul como o meu. Em vez de o admoestar pela sua fraca prestação (seria por vestir eu um blazer igual ao dele?) fui direito ao assunto. ‘Tenho ali um carro de que não gosto e é capaz de valer mais do que este. Não mo quer avaliar? Se calhar aindo o troco por este’ Ficou a olhar para mim como se lhe tivesse feito uma proposta indecente. ‘Isto é um carro novo’ ‘Mas o meu é melhor e mais caro’ ‘Isso agora…’ ‘Está bem, mas não quer dar uma olhadela e dizer-me mais ou menos quanto pode valer neste momento?’ ‘É que eu estou aqui em serviço, sabe’ ‘São dois minutos, o carro está ali mesmo à porta…’ e o diálogo de surdos prosseguiu nestes termos por mais umas frases, comigo a dominar o impulso de lhe pregar uma chapada de mão aberta e insulto fácil.

Não poupou um único defeito, olhou para tudo e tocou em tudo no meu carro com a inclemência de um sucateiro que nos vai fazer o favor de ficar com um monte de chapa que outrora foi um carro, e ainda por cima pagar. De nada valeram os meus contra-argumentos exaltando as qualidades que apesar de tudo o meu carro ainda tinha. Estava calor e eu tomei a iniciativa de despir o blazer, o que ele imitou sem cerimónia e sem agradecer o meu gesto, ignorando que eu o fizera com o desígnio de prolongar o regateio por mais uns minutos, não desisto facilmente de despachar o meu carro a um mau vendedor e em dia de irritação.

Em vão. Despediu-se dando-me dois ou três conselhos daqueles óbvios, de chapada directa, vestiu o blazer e desapareceu no interior do centro comercial como regressado de uma visita relâmpago ao inferno.

Voltei para casa ainda mais irritado do que já estava, por fortuna para o meu carro sem encontrar um único sinal vermelho. Entrei pesadamente, quase a arrastar o blazer, e quando o fui pendurar notei algo estranho, um acréscimo de peso que até para o meu blazer era excessivo. Apalpei os bolsos, continham a habitual feira da ladra que transporto sempre nas entranhas dos meus casacos, mas continuei a achar demasiado, afinal o cansaço não era assim tanto, logo ali havia qualquer coisa que não batia certo.

Pendurei o blazer e meti as mãos nos bolsos. A direita tocou um objecto denso, compacto e pesado: era o telemóvel do mau vendedor e pior comprador do blazer azul marinho como o meu. Desenhou-se-me um sorriso maléfico de orelha a orelha, as sobrancelhas arquearam-se duas ou três vezes muito rapidamente, qual Coiote à espera do Bip-Bip.

Comprovei que o aparelho estava em nome da companhia empregadora, fiz um par de diligências que me eximo de detalhar, e a placidez mais doce varreu a irritação do meu dia tão aziago. Ainda pensei telefonar ao sujeito a informá-lo de que nunca mais usaria aquele telemóvel, mas compreendi que seria impossível.

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8.1.07

Na morte de um aluno

Para o Bruno, porque é muito mais tarde do que julgamos
Em Private Ryan Spielberg conta a história, inspirada em factos reais, do resgate de um soldado de infantaria durante a Segunda Guerra Mundial cujos três irmãos tinham morrido já em combate. O Presidente Roosevelt, alertado pelas autoridades militares, ordena procurar o quarto irmão e mandá-lo para casa. Destaca-se um pelotão ad hoc (oito homens comandados por um oficial) para localizar o soldado no teatro de guerra europeu, semanas depois do desembarque aliado na Normandia. Os meios de informação disponíveis eram muito deficientes e ninguém sabia onde andava o soldado Ryan, nem sequer se estaria vivo, desaparecido ou prisioneiro dos alemães. O filme narra com mestria todas as situações, terrivelmente dramáticas e perigosas, pelas quais estes oito homens vão passando enquanto percorrem palmo a palmo os campos em guerra e neles procuram o soldado desaparecido. Um a um vão sendo mortos em inevitáveis acções de guerra. Quando finalmente dão com ele, a situação militar é tão grave que os sobreviventes do pelotão, e o próprio soldado Ryan, vêem-se obrigados a lutar em desespero pela vida antes de poderem completar a missão e regressar a casa. Nessa última acção tombam todos, menos Ryan. O último a morrer é o capitão Miller, que comandou o pelotão. Malferido, momentos antes de expirar diz a Ryan que os seus sete homens, e ele próprio, morreram para que ele pudesse viver. E remata com uma terrível sentença: “merece-o” (“earn it!”).
Uma tragédia absurda ceifou a vida do Bruno aos seus vinte e dois anos, quando tudo lhe estava por fazer, quando tudo tinha pela frente... não se costuma pensar na morte até bem mais adiante na vida; não se tem, na primeira juventude, a noção de que a vida é um bem precioso, uma dádiva especial mas frágil, tão frágil quanto a asa de uma borboleta, pendente de um fio finíssimo e invisível nos invisíveis dedos do Destino; ignora-se a noção de que, afinal, “todos queremos o bem dos nossos filhos, todos habitamos o mesmo planeta e somos todos mortais”, que um dia tão bem sintetizou o Presidente Kennedy. Só mais tarde se aprende que há apenas duas realidades absolutas na vida: pagar impostos e morrer. E que tudo o resto são acidentes do caminho que há que andar. Até muito mais tarde não aprendemos em carne própria (que é como se aprendem as lições difíceis) que não se deve contar a vida em meses e anos, nem sequer em dias. Mas que há que contá-la em horas, em minutos, até em segundos, e que todos eles passam e passam, inexoráveis, e nunca por nunca regressam: todas as manhãs do mundo são irrepetíveis, todas as nossas manhãs são irrepetíveis. Até muito mais tarde não sabemos que há que merecer cada instante das nossas vidas, e vivê-lo a fundo, como se fosse o último, porque pode ser o último. Vivamos pois a vida com intensidade, com verdade, com paixão. Mereçamo-la. Mesmo que seja só por aqueles que já nunca mais poderão fazê-lo.
Ninguém pode saber onde estará agora o Bruno, nem se está melhor, se pior ou igual. Nem sequer se está: a fé de cada qual, as suas crenças, que o digam a cada um... Mas o que é certo é que ninguém morre enquanto o recordarem: enquanto houver uma única pessoa neste mundo que recorde o Bruno, o Bruno viverá sempre entre nós.

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27.12.06

Curtas-letragens

Amanhecer

CHEGOU AOS OITENTA sem maiores problemas que os sobressaltos habituais da vida e então o cérebro decidiu fechar-se ao mundo e repousar. João dos Santos caiu num estranho coma e daí se recusou a sair. Os esforços clínicos ao longo de semanas revelaram-se vãos, nenhum tratamento parecia recuperar e nem sequer estimular o cérebro adormecido, até que os médicos aconselharam enfim desligar a máquina de vida mecânica que o assistia e aceitar, com humildade, o destino: a cama e as atenções eram necessárias para outros. A família dividiu-se em opiniões antagónicas, as discussões por vezes azedas substituíram o empenho, a solidariedade, a fé de todos eles na recuperação. No limite foi Dª Ângela que pôs termo às desavenças e aceitou a responsabilidade de o trazer de volta, de lá onde João estivesse.
As visitas dos familiares à casa-mãe sucederam-se a bom ritmo e sem desfalecimentos durante meses, sempre às mesmas horas, sempre com a mesma duração, uma réstia de esperança na despedida, no beijo lançado e perdido entre os cabelos brancos de Ângela. Depois, as visitas foram paulatinamente espaçando-se, encurtando-se, surgindo as desculpas e as impossibilidades, reduzindo as hipóteses de João à presença constante e inabalável de Dª Ângela.
Nunca disse a ninguém o que fazia para além da rotina sanitária e higiénica com o enfermo, como passava as horas debruadas a silêncio e quietude, como as enchia junto do seu João. Era um segredo que ela guardava tão ciosamente como a intimidade mais sagrada dos seus pensamentos: temia, talvez, que se rissem, ou pior, que a forçassem a desistir e a ter de tomar a decisão última que jamais tomaria por si só. E era um belo segredo.
Começou por Camões, os sonetos e as rimas; Sá de Miranda depois, mais tarde os românticos, depois os modernos. Lia-lhe os poemas em voz baixa, ritmo pausado, como se os pensasse antes de ler, só para ele e mais ninguém. O rosto de João permanecia sereno, em paz, como se dormisse uma interminável sesta. Quando Ângela esgotou a modesta biblioteca caseira, repetiu as leituras, escolhendo aqueles poemas de amor que mais a tocavam: e João dormia. Quando finalmente uma sombra de dúvida se instalou por trás do olhar de Ângela, teve a inspiração definitiva: foi ao cofre das cartas, desatou o laço, abriu uma por uma até que encontrou o poema escrito por João para ela cinquenta anos atrás. Sentou-se junto dele, bem perto do rosto sereno, e leu. Leu como nunca, com emoção contida, a tremer de amor. No fim, o seu João moveu os lábios e com um fio de voz pediu: ‘lê-mo outra vez’.

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26.12.06

Curta-letragem (©) de Natal (*)

TODO O ANO suportou as piadas dos colegas e as chalaças dos amigotes. Fê-lo em silêncio, com a obstinação surda do ousado, sem se importar do aspecto redondo que os muitos quilos a mais iam tomando no corpo nem da longa barba já branca que o aparente desleixo trouxera. Quando o apanhavam bem disposto defendia-se dizendo que não era gordo, era baixo: com aquele peso todo devia era medir mais um metro, e afastava-se deixando-os a rir-se dele, de tudo nele. A muito custo foi juntando retalhos de pano vermelho, surripiados aqui e além, e esfalfando-se para comprar prendinhas nos chineses. E a maior custo ainda convenceu a costureirinha da cave esquerda a ir cosendo-lhos aos poucos até que o fato completo o obrigou a inventar uma história qualquer. O barrete debruado a branco foi a cereja coroando a tarte que conseguiu arrancar-lhe o sorriso que em meses não se permitira. Onde vais tu, ó Pereira, mascarado de pai natal? Ele sabia muito bem aonde. Salva as crianças e salvas o mundo! Esperou pela noitinha, fria e cravada de estrelas sem vivalma nas ruas, e meteu-se a caminho daquele bairro onde nem a polícia entra no pino do dia. As ricas têm de tudo, as remediadas remedeiam-se com qualquer coisa... agora aquelas! Aquelas crianças não têm nada mesmo, nem a esperança. E nâo há nada mais belo do que o olhar cintilante de uma criança que espera. Parado no meio da rua sinistra, saco ao ombro, olhando os casebres onde adivinhava o palpitar infantil, ganhou a última coragem e começou por ali mesmo, batendo àquela primeira porta. Mas a miséria é desconfiada e fecharam-lha na cara. Na segunda, mais do mesmo. Na terceira houve gritos e quando fugiu da quarta sem conseguir dar uma única prenda viu-se de repente cercado de sombras ameaçadoras saídas do nada. A primeira paulada deitou-o ao chão. A segunda deixou-o inconsciente. E a terceira matou-o. Arrastaram-no então rua fora e atiraram-no pela ravina dos lobos, como um boneco gigante de trapo. Lá em baixo estavam à espera dele os anjos.
(*) Conto de Miguel Viqueira oferecido ao «SORUMBÁTICO»

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