30.9.13

Os votos incómodos de que pouco ou nada se fala

NOTA 1: compare-se estes valores com as votações dos partidos e coligações - ver [aqui]
NOTA 2: em 2009, os valores foram, respectivamente, 94627 e 68907

E os vencedores são: nós, o PS e o PSD!

Por Ferreira Fernandes
GANHOU o PSD, ganhando um candidato a líder, Rui Rio, que ao fazer patinar Menezes, apoiando Rui Moreira, pôs luzes e sirenes em cima da ambulância com um magote de derrotados passistas. E ganhou o PS, ganhando um candidato a líder, António Costa, que obteve uma esmagadora vitória em Lisboa, a contraciclo da medíocre prestação dos socialistas. Eis o que há para concluir, de nacional, nas eleições de ontem. 
Claro que muitas outras coisas foram importantes, mas são de parabéns à prima. Parabéns a Rui Moreira, que soube interpretar as gentes do Porto. Parabéns ao PCP pela colheita a sul do Tejo (e pelo gostinho especial de ver o Bloco sem Salvaterra e órfão de câmaras). Parabéns ao CDS, que meteu lanças nas ilhas. E parabéns aos madeirenses, em geral. Parabéns a todos e à prima, são vitórias importantes. Mas, sem desprimor, Portugal é mais importante. E ontem ele esteve de parabéns. Era governado por um partido dirigido por um inepto, de quem talvez agora os militantes se deem conta do desmazelo. Ontem, o Porto mostrou-lhes uma alternativa. À desgraça de ser governado mal, Portugal juntava o azar de um pretendente a governante igualmente incapaz. Com essa parelha absurda, o País agonizava. Ontem, além da oferta do Porto para redimir a direita, Portugal recebeu de Lisboa um socialista, político a sério. 
São, por enquanto, duas meras luzes ao fundo do túnel. Se se concretizarem, houve ontem a mais importante das eleições.
«DN» de 30 Set 13

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29.9.13

«Como se combate a abstenção» ou «Como, em Lisboa, os deficientes motores são acarinhados»

 
23 Janeiro 2011
 29 Setembro 2013 (11h 35m)
Como, há 32 meses, se fazia o acesso de deficientes à Assembleia de Voto de Alvalade, e como se fez hoje, depois de 'resolvido o problema' da rampa empenada.

Luz - Barcelona, persianas nas Ramblas

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem para a ampliar
A fotografia falhou… A ideia era a de jogar com a ilusão e “despir” as meninas: retirar-lhes, com as persianas, os vestidos pretos. Mas o meu erro decorreu dos velhos hábitos. Quando se fotografa com máquina digital de ecrã a diferença de perspectiva relativamente à altura dos olhos é pequena, mas existe. Com as antigas máquinas, de visor, era mais seguro. Assim… as meninas ficam decentemente vestidas… (2012)

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O que é reflexão num país tão baço?

Por Ferreira Fernandes
ONTEM era dia para eu refletir, disse-me a Comissão Nacional de Eleições (CNE). Cumpri e hoje sentia-me especialmente preparado para cronicar. Mas a CNE deu-me outra ordem: hoje não posso dizer coisas! Valeu-me de muito ter pensado durante todo o dia de ontem... Os fins de semana de eleições estão cheios de ordens irrefletidas, acho eu. Se queriam que fosse uma jornada simples e útil pediam um "dia para pensar". Mas não, decidiram pôr os portugueses em desacordo: sabe-se que ortograficamente uns "refletem", outros "reflectem". Depois, o costume, atiraram logo com exigências exageradas. Refletir em superfícies espelhadas é fácil, mas tentam fazê-lo num país cada vez mais baço. E, já agora, porque estamos a falar da CNE que tem a mania que é isenta: "reflexão" não é a palavra adequada. Arriscam-se a que os presidentes de câmara que se recandidatam impugnem as eleições se a coisa lhes correr mal. Eles podem dizer que a CNE fez apelo a que se "retroceda, mudando da anterior direção", definição que todos os dicionários têm (também) para reflexão. Porque é que a CNE não deu ordens sem ambiguidades, como "pensem", "ponderem", "meditem à séria"? Acresce que "reflexivos", como nos pediram para estarmos hoje ao votar, é desnecessariamente próximo de "reflexos", que é reagir involuntariamente. A CNE sugere que é isso que vamos fazer: votar como o estertor de uma pata de rã? Há matéria para a CNE ser processada pelos eleitores.
«DN» de 29 Set 13

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Pedras-Talhas

Por A. M. Galopim de Carvalho
COM MAIS três anos do que eu, o Henrique Leonor Pina, aos dezassete anos, quando o conheci, a meados dos anos 40, era um jovem adulto, pleno de entusiasmo e energia, nos seus oitenta a noventa quilos de ossos e músculos. Meu condiscípulo no Liceu Nacional André de Gouveia, em Évora, viera de Montemor para continuar os estudos no antigo 6.º ano (actual 10.º), entrara eu no 4.º. Nesse tempo, o latim, associado à disciplina de Português, tinha lugar de relevo no ensino ao longo de três anos lectivos, entre os 4.º e 6.º anos. (...)
Texto integral [aqui]

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28.9.13

Qual dos dois líderes vai ganhar?

Por Ferreira Fernandes
APESAR de ser jornada de reflexão, considero que a Comissão Nacional de Eleições não pode impedir-me de dar esta opinião. Começo por dizer que estamos perante o confronto de duas lideranças. Nenhum dos dois líderes entra diretamente na disputa deste fim de semana, nenhum entra em campo, mas o resultado pode acabar por influenciar o destino de ambos. Como vimos por estes dias, durante a campanha, os dois não se eximiram de aparecer, de dar a sua opinião e de animar as respetivas hostes. Os comentadores chegaram a dizer que dramatizaram, a imprensa internacional deu eco disso... A verdade é que foram eles, os dois líderes, que tiveram o protagonismo. E vão continuar a tê-lo: o que nos interessa mais é quem, dos dois, vai ser dado como vencedor. O pretendente vai conseguir derrubar o outro? Ou, tão à portuguesa, tudo vai ficar mesma? O facto é que o nosso interesse e as nossas expectativas viraram-se para o topo do duelo. Um ou outro? Não vou evidentemente dizer por qual dos dois me inclino. Aliás, penso nunca votar nem por um nem por outro. Mas tenho uma certa vaidade, confesso, por os dois líderes portugueses terem saber, estarem sobejamente preparados para mandar e serem internacionalmente reconhecidos por isso. Repito: os dois líderes portugueses estão preparados. 
Chegado aqui, é notório que estou em pulgas por saber quem é melhor: André Villas-Boas ou José Mourinho (Tottenham-Chelsea, hoje)?
«DN» de 28 Set 13

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Passatempo com prémio

Estas são imagens de um fogo (de que já aqui falámos) e que era visível a vários quilómetros de distância (em cima: saída do IC19 para a A16).
A foto do meio mostra a chegada dos bombeiros (de 3 corporações). Estão a fazer manobras, porque viram-se impedidos de aceder de imediato ao local do fogo devido a uns pedregulhos propositadamente colocados na entrada para o terreno (imagem de baixo). Só algum tempo depois descobriram outro caminho para os carros lá chegarem.
Pergunta-se: sabendo-se que a cena teve lugar no passado dia 10 de Julho, em que data foram os pedregulhos retirados?
Quem, até às 20h de amanhã (*), mais se aproximar da resposta certa (pede-se que cada leitor dê apenas uma) receberá um exemplar do livro cuja capa em cima se vê.
(*) - O passatempo poderá terminar antes se, entretanto, for dada a resposta correcta.
Actualização:
O passatempo terminou, pois a resposta certa já foi dada - ver em "comentários".

Jesus e as autárquicas

Por Antunes Ferreira
NUMA SEMANA em o Tribunal Constitucional deu mais uma machadada na credibilidade do (des)Governo considerando inconstitucionais seis normas propostas por São Bento para alterar a Lei do Trabalho;
Numa semana em que o porta-voz do PSD, Marco António Costa, considerou que seria encontrada uma solução que torne viáveis as normas do Código do Trabalho declaradas inconstitucionais, que assinalou terem sido aprovadas "sem terem o voto contra do PS";
Numa semana em que terminou a campanha eleitoral para as autárquicas que decorrem neste domingo, 29 de Setembro, e na qual esta deliberação do TC veio servir de arma de arremesso para a esquerda e para a direita, o assunto mais falado em Portugal foi a situação de Jorge Jesus, o treinador do Sport Lisboa e Benfica. Isto exemplifica bem o pensamento dominante da população portuguesa. (...)
Texto integral [aqui]

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27.9.13

Apontamentos de Lisboa

Av. Pascoal de Melo

Tenho a solução para trazer Woody Allen

Por Ferreira Fernandes
NÃO SOU EU que volto a Woody Allen, é o noticiário. Depois de se saber que Paulo Portas contactara com Woody Allen para um filme em Portugal, o assunto saltou para a campanha eleitoral. Luís Filipe Menezes, candidato pelo Porto, puxou a brasa (esta imagem seria melhor se o realizador viesse com Scarlett Johansson) para a sua sardinha: "O filme deve ser no Norte!" 
Não acusem Menezes de manobra eleitoral porque com a sua proposta perdeu pelo menos um voto: o tripeiro Manoel Oliveira não lhe vai perdoar, e com alguma razão. Afinal, o filme Aniki Bóbó passa-se entre Gaia e a Ribeira portuense, percurso copiado por Menezes muitas décadas depois. Ingrato, Luís Filipe... A solução, digo eu, seria juntar os dois realizadores, o que poderia ficar até mais barato. No primeiro filme de Woody Allen (What's Up, Tiger Lily? - Que Se Passa, Tigresa?), de 1966, as imagens são quase todas de um filme japonês de espionagem, ao qual o americano só acrescentou algumas cenas e pôs diálogos que não tinham nada que ver com a história inicial. Lá está, pegava-se em Aniki Bóbó e só se pagava a Woody Allen, bem mais barato que um filme, os diálogos enviados de Nova Iorque. E até se podia acrescentar uma cenas com Menezes, como os garotos do Aniki Bóbó, a mergulhar da Ponte D. Luís. É certo que parecia um pouco Marcelo a mergulhar no Tejo, o que não lhe deu grande sorte eleitoral, mas eu só vim aqui para resolver o problema da falta de dinheiro.
«DN» de 27 Set 13

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26.9.13

Campanha assumida: voto no Flávio

Por Ferreira Fernandes
AS ELEIÇÕES autárquicas arrastam para a política pessoas não lhe conhecendo os truques, o que as põem em risco de serem gozadas. Esta campanha foi fértil em cartazes inadvertidamente mal feitos ou deliberadamente brejeiros que tiveram eco nacional e foram catalogados como "tesourinhos deprimentes". Há dias deixei, aqui, um outro olhar: "Os cartazes toscos são uma boa notícia", era o título e o resumo do que eu queria dizer. 
Na revista Sábado, Pacheco Pereira (que traz com ele duas condições raras em político português: não começou só ontem a ter respeito pelos de baixo e conservou esse respeito) também foi por aí. Para ele, as campanhas autárquicas são a mais "genuína [e] intensa participação de milhares de portugueses na democracia." 
Volto à questão porque ontem vi um vídeo de um desconhecido candidato de um pequeno partido. Flávio Nunes, de 18 anos, concorre à Câmara de Tomar pelo Movimento Partido da Terra e é menos célebre do que o ninja de Gaia. Ora Flávio não me comove só porque estrebucha civicamente onde tantos, inclusive eu, não participam. Mais do que isso, na sua primeira ação política (vai ser votado no primeiro ano em que vota), ele é muito bom. O seu vídeo (está no YouTube, chega-se lá com "autárquicas + Tomar + Flávio") é o mais perfeito material de propaganda desta campanha. E a sua jovem cara lavada redime-me das máscaras postiças dos dois ex-jotinhas que nos ensombram o destino. 
«DN» de 26 Set 13

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Presente no Futuro - Portugal europeu. E agora?

Por António Barreto
ESTE ENCONTRO anual ocupa um lugar especial nas actividades da Fundação. Com efeito, é uma tentativa, na qual queremos insistir, de discutir coisas sérias, mas de maneira aberta, com participação alargada e em tom acessível, isto é, de modo a que os que querem possam compreender. Por isso fugimos ao academismo excessivo, sem beliscar o rigor. Mas também por isso queremos evitar a linguagem codificada, o estilo tecnocrático, o lugar-comum político e a mera propaganda que tanto contribui para a desvalorização da inteligência e da democracia. (...)
Texto integral [aqui]

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Em que eleição é que podemos escolher os nossos autarcas? Será nas "europeias", nas "presidenciais" ou nas legislativas?

«...nas autárquicas, o PSD e o CDS vão ser penalizados pela sua governação».
José Sócrates

«Só um povo masoquista deixaria passar a oportunidade de ouro que são as eleições municipais do próximo domingo sem dar uma lição exemplar ao Governo que nos últimos dois anos sistematicamente traiu - a palavra, infelizmente, só pode ser esta - todas as promessas feitas e todos os compromissos assumidos. Por isso (...), o mais importante no próximo domingo é o retrato que as eleições vão dar do estado de espírito do País (...). Não haja dúvidas: a consequência mais importante das eleições autárquicas é o seu significado nacional. É o primeiro momento eleitoral desde junho de 2011, é a ocasião propícia para os portugueses dizerem o que pensam de que se passou nestes dois anos. (...)
Manuel Maria Carrilho
*
Há declarações semelhantes por parte do PCP e do BE, pelo menos. Ou seja: partidos que não conseguiram ganhar as eleições legislativas (onde - pensava eu... - se decide quem governa o país), aproveitam outras eleições (que se lhes afiguram favoráveis) para as adaptarem ao que pretendem.
É como se, nas eleições para o Grupo Desportivo do meu bairro (onde, decerto, há adeptos do SLB e do SCP), me dissessem que o meu voto ia ser usado para avaliar o desempenho dos corpos gerentes do Benfica ou do Sporting! 
No entanto, e como essa teoria já é imparável (é defendida por autarcas, jornalistas, políticos e comentadores - e muito possivelmente pelos eleitores, em geral), resta-me votar em branco, e esperar que os oportunistas, os chicos-espertos e os pescadores-de-águas-turvas (desta vez do quadrante oposto) não venham dizer que, afinal, votei em Aguiar Branco!

Passeando por Londres

Por C. Barroco Esperança
HÁ MAIS de duas décadas, vagueava por uma avenida londrina e ia esquecendo os pobres “sem-abrigo” que, àquela hora, começavam a acomodar-se em vãos de lojas, abrigos de ocasião, alheios à luz intensa da iluminação pública e à circulação de turistas ávidos de percorrerem a cidade. Alguns ainda mastigavam umas bolachas antes de adormecerem, tendo como travesseira os parcos pertences.
Via-os ajeitar cartões e jornais, para se cobrirem, às vezes cobertores puídos pelo uso e sujos pelas poeiras e restos de comida que denunciavam a função de toalha em outros horários. A frequência da miséria amolece a vigilância cívica e embota a sensibilidade. Eram drogados, deficientes, marginais incapazes de se adaptarem ao trabalho e às regras da sociedade, pensava eu, enquanto contemplava a arquitetura da cidade e percorria com o olhar a silhueta do palácio de Westminster e do Big Ben ou observava as margens do Tamisa. (...)
Texto integral [aqui]

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25.9.13

Apontamentos de Lisboa

Av. Frei Miguel Contreiras
21 Set 13
O curioso hábito lusitano de deixar colchões na via-pública, que dantes era particularmente visível nas bermas das estradas, parece estar a tomar de assalto Lisboa...

«Dito & Feito»

Por José António Lima
HÁ LÍDERES políticos que saem mal, contrafeitos e ressentidos, dos seus temporários cargos de poder. E que se entregam, em seguida, a constantes e amargos ajustes de contas com o seu passado recente e com aqueles que consideram responsáveis pela ingratidão de que sentem ter sido vítimas. Manuela Ferreira Leite e José Sócrates constituem dois casos exemplares dessa síndrome de rejeição mal resolvida.
A ex-ministra das Finanças e ex-líder do PSD tornou-se uma opositora feroz do Governo do seu partido, espraiando-se em intervenções de tom inflamado e de um radicalismo que se confunde com o Bloco de Esquerda. Sobre a proposta de convergência das pensões públicas da CGA com as do sector privado, implicando cortes médios de 10%, Ferreira Leite veio agora clamar ao país que ela «é profundamente imoral», «verdadeiramente chocante», «uma agressão que provoca marcas irreversíveis nas pessoas», digna de «um Estado no qual não se pode confiar». Para concluir, já em delírio argumentativo, que «um Governo comunista não teria uma decisão muito diferente desta em relação aos reformados».
Ferreira Leite, que na sua passagem pelas Finanças ajudou a sobrecarregar a folha de custos da CGA com a inclusão de fundos de pensões e que cedeu 15 mil milhões de créditos fiscais e da Segurança Social ao Citigroup para disfarçar o défice, esquece-se de dizer uma coisa essencial: qual seria, neste momento, a sua alternativa para reduzir a incomportável despesa do Estado?
Já José Sócrates, que todos os domingos invoca o chumbo do PEC IV com uma lágrima ao canto do olho, como se falasse de um urso de peluche que lhe roubaram na infância, veio avisar o PS que «todas as eleições têm leituras nacionais» e assegurou ter «a certeza de que, nas autárquicas, o PSD e o CDS vão ser penalizados pela sua governação». Eis, como, sub-repticiamente, se baixam as expectativas de voto do PSD e do CDS. E se eleva ainda mais a fasquia eleitoral do PS e do seu líder.
Seguro não deixará de registar a simpatia de Sócrates. Tal como Passos Coelho não ficará indiferente à militante ajuda que Ferreira Leite lhe vem dando. 
«SOL» de 20 Set 13

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Portas, Woody Allen e a falta de dinheiro

Por Ferreira Fernandes
PAULO Portas falou com Woody Allen para ele fazer um filme em Portugal. Só falta dinheiro. Assim de repente eu só estava a ver a Unicer a patrocinar: o verdadeiro nome de W. A. é Allan Stewart Königsberg e a nossa cervejeira talvez entrasse com a massa se ele passasse a chamar Allan Stewart Super Bock. Mas, lá está, gerimos mal os negócios: o Paulo que tanto quer o filme inviabilizou-o ao ir buscar o Pires de Lima para o Governo. E assim estamos, nós sem dinheiro e o W. A. também. A fome juntou-se com a vontade de comer. 
O primeiro filme que ele realizou foi Take the Money and Run, passou por cá como Inimigo Público, mas o que interessa é a tradução literal: "Pega no Dinheiro e Pisga-Te". É a história de um tipo (interpretado pelo próprio W. A.) que começou por falhar na vida artística e acabou por mostrar que não tem jeito nenhum para as finanças. Parece a biografia de um mutante que começa por ser o Passos e acaba em Gaspar. E a coisa ainda fica mais paranoica quando a personagem assalta bancos. Não, não é o Oliveira Costa, no filme assalta-se de fora para dentro. E mal: assalta 16 bancos e é apanhado 16 vezes. É a história de um incompetente e trapalhão, que é condenado a 800 anos de cadeia e fica satisfeito: "Se me portar bem, talvez me reduzam a pena a metade." 
Olha, se calhar W. A. já fez um filme sobre Portugal... Sobre os portugueses é que já fez uma boa frase: "Só tenho uma queixa a fazer da vida: é eu não ser outra pessoa."
«DN» de 25 Set 13

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A política como negócio

Por Baptista-Bastos
PASSOS diz que talvez; Portas diz que sim; Maduro diz por conseguinte; Pires diz que não; Albuquerque diz que vamos ver. Nestas confusas afirmativas, as convicções evaporaram-se. Ninguém, no Governo, está de acordo com coisa alguma; ninguém nos convence e ninguém acredita. Surge o dr. Cavaco, o Presidente que não o sabe ser, e ressuscita a necessidade do "compromisso", cujo significado é uma amolgadela no sentido histórico da palavra. Impossível, no momento, qualquer associação entre o PSD e o PS. Já a houve, mas ambos os dirigentes dos dois partidos beneficiavam de condições pessoais que permitiam a união, e a época dirimia-se em turbulenta luta de classes. Nessa altura, chegou a falar-se na fusão do PS e do PSD, tal as semelhanças que os relacionavam.
Essa hipótese da comunidade de ideias, de projectos e de processos de poder, insinuada por alguns daqueles que, nos dois partidos, já se afeiçoavam às doutrinas neoliberais, suscitou um movimento de repulsa, e a ideia pulverizou-se. Mas deixou sementes, a atentar em alguns artigos e declarações públicas, embora evasivas e tímidas, de dirigentes, sobretudo do PS, a conceitos conservadores. A verdade é que, amiúde, as opções políticas do Partido Socialista se têm confundido com as do PSD, e as coligações com a Direita, ao longo dos anos, já não causam as perplexidades iniciais.
A sociedade política portuguesa é um mimetismo do que ocorre na Europa, e o extravio ideológico dos socialistas e dos sociais-democratas, acentuado com a queda do Muro, como símbolo, concorre e estimula para o distúrbio. O mundo acelera-se, e elide-se a resposta à crise com a afirmação de que a mudança é imperiosa e necessária. Não se trata, unicamente, de "mudança": sim da imposição brutal de um novo paradigma a que assistimos impotentes. A Europa social, fundamento da sua razão de ser, está a passar do normal ao patológico, provocando abismos dolorosos entre os povos e entre as nações.
A nova camada que dirige os destinos do nosso país resulta dessa "desincorporação" dos princípios e da ausência de uma Esquerda que não consegue enfrentar o que a Direita imputa. É confrangedor ouvir o que eles dizem, como é penoso assistir ao discurso da Esquerda, rotineiro e entediante.
Quando o Marcelo pede, dramático, que os governantes Maduro e Rosalino sejam suprimidos das funções que nulamente exercem, ele sabe, muito bem, o que distingue um pavão medíocre de um funcionário competente. Porém, os outros não são melhores. De um lado e do outro. A nossa desdita vai, certamente, dilatar-se. E os ventos que sopram da Alemanha não são de molde a ficarmos satisfeitos. As restrições aos países "periféricos", claramente asseguradas nos discursos de Merkel, não se fidelizam à solidariedade. A política deixou de ser missão e devoção para representar a face imunda do "negócio."
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)
«DN» de 25 Set 13

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24.9.13

Apontamentos de Lisboa

23 Set 13 - 11h54m
Bem pôde o motorista deste autocarro buzinar contra os que dificultavam o seu trabalho - o condutor do carro escuro devia andar às compras, e o da carrinha estava ocupadíssimo a ajudar Seara a "Sentir Lisboa"!

Viva o desejo do ministro Crato!

Por Ferreira Fernandes
UM DIA, Nuno Crato anuncia querer acabar com o inglês das Atividades de Enriquecimento Curricular - isto é, nas atividade fora do tempo de aula em que além de se aprender a conjugar o verbo to be se pode aprender a tocar ferrinhos. E, três dias depois, ontem, o mesmo Crato anuncia que afinal ele "deseja" que o inglês seja obrigatório no ensino básico. Quer dizer, não quer menos inglês, quer mais. "Deseja-o" até como disciplina curricular. Eu fico quase encantado que o ministro (o ministro desta semana, entenda-se) deseje que a aprendizagem do inglês seja no 1.º ciclo e ela seja obrigatória. Clap! Clap! Clap! Mas, aplausos entusiasmados dados, estou perplexo com o erro de comunicação do ministro. Por que razão, ao anunciar a decisão de acabar da semana passada, Crato não a explicou logo com a magna (apesar de só "desejada") decisão de ontem? 
Os cínicos dirão que não estando à espera de reação tão enérgica da opinião pública em defesa do ensino do inglês, o ministro teve de dar alguma volta ao prego. E, até, foi obrigado a compensar mais (embora só no domínio dos desejos) do que antes recuara. Essa versão não é muito laudatória sobre a coerência do ministro mas o que conta, aqui, é a boa vontade. Inglês mais cedo e obrigatório! Gosto, embora por enquanto seja tão ilusório. Lamento só que o ministro não vá mais longe que o desejo, e não reconheça que é gastando bem que se combatem os nossos défices - que não são só contas.
«DN» de 24 Set 13

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A propósito da crónica anterior

Durante muito tempo procurei, 'por todo o lado', um determinado objecto. Ora eis que, há dias, ao passar junto desta loja, vi que ela tinha exactamente o que eu queria! Pois... mas estava encerrada para férias. Já lá voltei mais vezes, e estava sempre fechada. Se tivessem acrescentado «Reabrimos em [...]», eu teria lá ido na data indicada. Assim, desisti - e em boa hora o fiz, pois acabei por - finalmente! - encontrar o que queria noutro lado.

O Meu Bairro

Por Maria Filomena Mónica
VIVO NUM BAIRRO, a Lapa, onde existe gente rica e gente pobre. Gosto da mistura, assim como gosto das casas, da vista sobre o Tejo e dos sinos da Basílica da Estrela. Habito aqui desde a Revolução, pelo tenho assistido a mudanças, mas nunca como agora. Há dez anos, ainda comprava fruta na mercearia do sr. Manuel, na rua da Bela Vista, e há dois, ainda ia à drogaria do sr. Fernando, na rua da Lapa. É verdade que a fruta do primeiro não era boa e que os produtos visíveis nas prateleiras do segundo (ganchos, pentes e redes de cabelo) datavam da II Grande Guerra, mas apreciava falar com o primeiro sobre a educação do filho – que, como o meu, frequentava o Liceu Pedro Nunes – e de ver o segundo, impecável na sua bata branca, todos os dias. 
Hoje, mais de metade das lojas estão fechadas ou mudaram de dono. A padaria, a ATM e a papelaria sumiram-se. A primeira continua fechada, o BANIF desapareceu e a papelaria foi substituída por uma loja de velharias. Por seu lado, a loja de antiguidades defronte da minha casa, onde gostava de comprar os presentes de Natal, deu origem ao mini-mercado do Abdul, um jovem do Sri Lanka que não tem bananas da Madeira. 
Na ex-mercearia do Sr. Vítor, instalou-se, há tempos, uma loja de vestuário ostentando, na montra, um cartaz dizendo Low Cost Women. Na drogaria do sr Fernando, cujo interior foi barbaramente destruído, apareceu uma mercearia, tendo, à frente um chinês. Dois meses depois, ambas faliram, como faliram o cabeleireiro, a loja de revelação de fotografias e o florista. Até o marco do correio da esquina Calçada da Estrela/ R. Almeida Brandão se sumiu. A esperança de vida das lojas do meu bairro é de cerca de três meses. 
Alguns estabelecimentos forneciam um serviço deficiente, mas outros não. De qualquer forma, faz-me pena ver os taipais corridos e, numa das lojas, a do vestuário barato da Rua da Lapa, uns manequins nus que parecem saídos de um quadro surrealista. Quando, nos jornais, leio títulos como «Pediram a insolvência 25 empresas por dia em 2012», sei do que se fala. Lisboa precisa de supermercados e de comércio de bairro: os primeiros não excluem os segundos. Além de aqui viver, era neste bairro que trabalhava. Devido à nova lei das rendas, um colega e eu tivemos de deixar o andar que o meu instituto, o ICS da Universidade de Lisboa, há muito arrendava na R. Miguel Lupi, onde, entre baratas e silêncio, trabalhávamos. Ainda hesitei em ir, como ele, para a Cidade Universitária, mas a visão dos títulos de uns seminários, que ali tiveram lugar, fez-me desistir. Em parceria com o ISCTE, o meu instituto organizou - e a FCT pagou - um Seminário sobre Gender, Sexuality and the Body: Critical Perspectives. O primeiro orador foi C. E. Foster, autor de Men´s Milk: A Cultural History of Sémen. Apesar de tudo, o meu bairro tem mais coisas para me oferecer do que a Sociologia. É por ele que lutarei, não por uma Universidade que só me dá desgostos. Por ora, vou limitar a minha energia à limpeza da fachada do meu prédio. Estou farta de desilusões.
«Expresso» de 21 Set 13

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23.9.13

«Dito & Feito»

Por José António Lima
NÃO HÁ MEIO de António José Seguro se afirmar perante o país nem, pior ainda, de impor a solidez da sua liderança no interior do PS.
Tendo perdido o discurso e a bandeira das eleições antecipadas com a resolução da crise política de Julho, Seguro decidiu radicalizar o tom das suas intervenções públicas, acabando por colar o PS à oratória e à imagem do Bloco de Esquerda.
É preciso cortar na despesa do Estado, dado que não há dinheiro para manter o insustentável nível de custos públicos? O PS fará «a mais firme oposição a mais cortes nas funções sociais do Estado». É inevitável reduzir em algumas centenas de milhões de euros os gastos do Estado com as pensões públicas, equiparando-as às do sector privado? O PS não só «assume o compromisso de acabar com os cortes nas pensões» como promete «repor os cortes quando chegar ao Governo». O país não está em condições de poder reduzir a curto prazo as receitas do Estado? O PS vai apresentar já quatro propostas para aumentar a despesa e diminuir a receita, que passam pela «diminuição do IVA na restauração, a redução do IMI, da taxa do IRC para 12,5% (para os primeiros 12.500 euros de lucros) e o apoio estatal às rendas dos idosos». Todo este facilitismo esquerdista apenas desacredita a seriedade do maior partido da oposição enquanto alternativa de Governo. Partido que, ainda há pouco mais de dois anos, forçou o país a pedir a ajuda da troika e assinou ele próprio um memorando de austeridade. O qual Seguro agora desdiz e renega em cada uma das medidas a que o PS se comprometeu e assinou por baixo.
Quanto às autárquicas de dia 29, Seguro reduz as expectativas ao mínimo. Ganhá-las, repete, «significa o PS ter mais votos que o segundo partido». Ora, isso já o PS teve e com grande margem nas autárquicas de 2009: somou mesmo mais 123 mil votos que o PSD (37,7% contra 35,4%).
Não tem o PS tudo a seu favor, na actual conjuntura política e social, para obter a maioria das câmaras do país, já que apenas preside a menos 7 do que o PSD? Seguro não quer arriscar, apesar de quase todo o partido lhe pedir esse objectivo. Não se admire, por isso, de ver os socratistas, como Augusto Santos Silva, a estenderem já o tapete da liderança do PS a António Costa. Quem é timorato e joga à defesa não vai longe. 
«SOL» de 13 Set 13

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O mordomo Passos e a festa do andar de cima

Por Ferreira Fernandes
ONTEM, no "downstairs", no andar da criadagem, ouvimos festa no "upstairs", nos salões dos senhores. Frau Angela tinha ganho não sei o quê. Rasgou-se um sorriso ao sr. Passos, o mordomo. 
Numa festa anterior, o sr. Passos cometera um erro, foi de suspensórios, de lederhose, calções bordados e de couro, e pôs-se a cantar uma ária bávara. Se fosse para o Filipe La Féria o mordomo tinha conseguido um lugar no Música no Coração, mas na família Merkel foi recebido com frieza. Fizeram-lhe saber que o traje não é o homem e só se chega a raça superior pelo sangue. O que tem de bom o sr. Passos é perceber depressa. Por isso, desta vez, só subiu com um contentamento genuíno e chapéu à altura do ventre, agarrado por ambas as mãos, humilde. 
Quando o sr. Passos desceu, nós estávamos todos à volta da grande mesa da cozinha. A Ricardina areava as pratas, a Maria batia a massa para bolos, a Glória metia lenha no fogão... O sr. Passos contou-nos que havia saudado os patrões e que a Senhora estava tão satisfeita que lhe dera um beijo na face. Até Herr Wolfgang Schäuble, o contabilista, o abraçou, apesar da cadeira de rodas. Era tanta a festa que o sr. Passos ousou lembrar um pedido da Glória: será que ela podia voltar a estudar inglês? Herr Schäuble foi cortante: "O único estrangeiro de que vocês precisam lá em baixo não é inglês, é: yawohl!" E acrescentou: "Isso é tabuada. Contas de diminuir..." O mordomo contou-nos isso com um sorriso.
«DN» de 23 Set 13

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Apontamentos de Lisboa

 22 Set 13
Não interessa muito saber-se a quem pertence este cartaz (até porque são todos iguais...), mas sim deixar um piedoso voto: que os nossos autarcas, uma vez eleitos, sejam tão eficazes a tapar os buracos que existem nas calçadas de Lisboa como o são a abri-los...

22.9.13

Um estranho amor pela loucura

Por Ferreira Fernandes
O ROMANCE 'On the Beach' ('Na Praia', de Nevil Shute) chama-se assim porque da praia parte-se, na praia vê-se chegar: os australianos, no Hemisfério Sul, esperavam a morte. Uma sucessão de acasos arrasara os países do norte com a guerra nuclear e a poeira assassina chegaria inexoravelmente. Um dia, a esperança: de San Diego, na costa californiana, vieram estranhos sinais de Morse. Os australianos enviaram um submarino, não tanto para socorrer alguém mas para confirmar a hipótese das radiações terem diminuído e a Austrália poder salvar-se. Desilusão, em San Diego havia só uma janela partida que a brisa fazia tocar no teclado de um telégrafo... Desse romance desolador, o realizador Stanley Kramer fez um filme em 1959. Em 1964, outro realizador, Stanley Kubrick, pegou no romance 'Red Alert' ('Alerta Vermelho', de Peter George) e fez o filme 'Dr. Estranho Amor': outra sucessão de acasos levara à guerra nuclear. Rimo-nos muito até à última cena, quando um oficial louco cavalga, como um texano, a bomba brilhante como mil sóis. 
Ontem soubemos que entre a tristeza de 'On the Beach' e o humor negro de 'Dr. Strangelove', e sempre dentro do mesmo assunto, passámos uma tangente à realidade. Em 1963, um bombardeiro da US Air Force deixou cair duas bombas nucleares na Carolina do Norte. E só um pequenito acaso - um interruptor de baixa voltagem não funcionou - impediu que Washington e Nova Iorque fossem arrasadas. Somos uma espécie destinada aos acasos. 
«DN» de 22 Set 13

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Luz - Finca cafetera, perto de Pereira, Colômbia

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Uma quinta produtora de café. Fica numa região chamada El eje cafetero. Foi aqui que se produziu e desenvolveu a cultura do café. Foram estas terras que fizeram da Colômbia um dos principais produtores de café do mundo. Foi aqui que se produziu uma das importantes riquezas da Colômbia (café, ouro, esmeraldas, petróleo e droga). Durante duas horas, os guias da “finca” ensinam os turistas a plantar, cultivar, colher, secar, moer, preparar e beber café. Tem que se lhe diga. É mais complexo do que a breve bica ou o inocente cimbalino! (2013)

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No rigor e na beleza das palavras

Por A. M. Galopim de Carvalho
GEÓGRAFO tradicional, de elevada craveira nos domínios das geografias física e humana, com uma notável preparação geológica, Orlando Ribeiro (1911-1997) foi um humanista igualmente reconhecido a nível nacional e internacional. Renovador da Geografia em Portugal, o Prof. Orlando (era assim que o tratávamos), foi senhor de muitos saberes em diversas áreas, como as da História, da Antropologia, da Etnografia e outras, saberes que expunha numa linguagem falada e escrita de invulgar correcção, não raras vezes poética. (...)
Texto integral [aqui]

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O fim do Mundo e o cozido à portuguesa

Por Antunes Ferreira
OS HUMANOS - com as características que hoje temos - sempre se preocuparam com o fim do Mundo e muitos dentre eles previram e anunciaram como isso ia acontecer e, sobretudo, quando. Essas “profecias” continuamente indicaram a data fatal e fizeram-no para que a Humanidade se preparasse a fim de se precaver contra o cataclismo universal.
Aproveitando mais um falhanço da “previsão” do pastor protestante Harold Camping, que pela segunda vez pressagiava o dia da ocorrência final, a Times publicou em 2011 um curioso trabalho em que alinhavava as dez mais importantes conjecturas alinhadas ao longo da História. Trabalho complexo, simultamente de compilação e de motivo de ironia.(...)
Texto integral [aqui]

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21.9.13

Apontamentos de Lisboa

Campo Pequeno
Às 16h10m de uma sexta-feira

Pequenos sinais grandes mudanças

Por Ferreira Fernandes
NO GERAL talvez esteja menos fácil de entender, mas o mundo tornou-se mais simples, aqui e ali. Ontem, o embaixador americano em Madrid apresentou as suas credenciais a Espanha. Os quadros clássicos mostram como esse ato era de grandioso cerimonial. Na National Gallery, em Londres, está exposto Os Embaixadores, uma pintura de Holbein (1533), sobre dois embaixadores que a França mandou a Henrique VIII, o oficial e o bispo, porque a preocupação com o rei inglês era, além da guerra, a religião. Aparecia no centro do quadro um objeto musical como símbolo da perfeição, um alaúde, mas com o ainda maior simbolismo de ter uma corda partida (que era o que os franceses não queriam que fosse Henrique VIII, que se afastava do catolicismo...) 
Ontem, o embaixador James Costos apresentou-se de forma previsível, vinda dele, ex-executivo da cadeia televisiva HBO: mostrou-se em vídeo a dizer quanto gosta de Espanha. Mostrou-se a comer paella e a ver dançar flamenco, a passear pelas praças espanholas. A dizer que veio de Los Angeles, cidade criada pela "misione" do padre espanhol Junípero Serra... 
Hoje, as credenciais entregam-se assim, de forma direta como quem apresenta uma série televisiva. O embaixador americano disse também que vão ambos gostar de continuar a descobrir Espanha - ambos, ele e "o meu companheiro Michael", o louro que aparece a seu lado no vídeo. É o que eu vos dizia, há coisas simples que já se dizem simplesmente.
«DN» de 21 Set 13

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20.9.13

Alguém viu e quer comentar?

E se não formos ratinhos brancos?

Por Ferreira Fernandes
ONTEM irritei-me por ser tratado como ratinho de laboratório. Os do FMI tinham chegado cá e desataram a cortar. Corta, corta, corta. Com claquetes e a realizar filmes, pode ser engraçado. Na vida real, dói. E a dor tornou-se insuportável quando até eles próprios, no FMI, se puseram a fazer relatórios sobre o prejudicial que era fazer tanto corte. 
Senti-me ratinho de laboratório, disse ontem. Mas talvez tenha errado na imagem. Ratinho de laboratório é nos laboratório com experiências. Vamos cortar aqui, a ver o que isto dá... Humm, diminuamos (ou aumentemos) a dose... Isso, sim, era um laboratório, com sábios com dúvidas e passos hesitantes. E, nele, seríamos as cobaias, infeliz papel, mas, ao menos, ao serviço da ciência. Ora essa minha análise de ontem talvez visse demasiado em grande. 
Talvez nós estejamos abaixo do patamar de ratinhos de laboratório porque não há laboratórios nem sábios testando a sociedade portuguesa. Há só funcionários que aviam uma receita - os cortes nunca foram a procura de uma solução, mas só um preconceito engatilhado (os funcionários mudarão de receita quando lhes soprar outro preconceito). Esta hipótese talvez não seja mais certa do que a de ontem, mas tem uma vantagem: dizer não a funcionários errados é mais fácil do que a errados professores de laboratório. Não precisamos de desenvolver teses alternativas, basta dizer: "Não, não vamos por aí." O que é o mínimo a dizer quando à frente está o precipício.
«DN» de 20 Set 13

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19.9.13

Apontamentos de Lisboa

As árvores que aqui existiam foram derrubadas no temporal do dia 19 de Janeiro deste ano. Estas fotos foram tiradas agora, exactamente 8 meses depois...

Carta aberta a uns pedaços de merda

Por Ferreira Fernandes
OLÁ, AMIGUINHOS do FMI. Eu sou o ratinho branco. Desculpem estar a incomodar-vos agora que vocês estão com stress pós-traumático por terem lixado isto tudo. Concluíram vocês, depois do leite derramado: "A austeridade pode ser autodestrutiva." E: "O que fizemos foi contraproducente." 
Quem sou eu para desmentir, eu que, no fundo, só fiquei com o canto dos lábios caídos, sem esperança? O que é isso comparado com a vossa dor?! Eu só estiquei o pernil ou apanhei três tipos de cancro, mas é para isso que servimos nos laboratório: somos baratos e dóceis. Já vocês não têm esses estados de alma (ficar sem emprego, que mau gosto...), vocês são deuses com fatos de alpaca e gravata vermelha como esses três novos que acabam de desembarcar para nos analisar os reflexos. 
"Corre, ratinho branco!", e eu corro. Vocês cortam-me as patas: "Corre, ratinho branco!", e eu não corro. E vocês apontam nos vossos canhenhos sábios: "Os ratos sem pernas ficam surdos." 
Como vocês são sábios! E humildes. Fizeram-nos uma experiência que falhou e fazem um relatório: olha, falhou. Que lição de profissionalismo, deixam-nos na merda e assumem. Assumir quer dizer "vamos mudar-lhes as doses", não é? E, amanhã, se falhar, outro relatório: olha, falhou. 
O vosso destino, amiguinhos do FMI, eu compreendo. Vocês são aves de arribação, falham aqui, partem para ali. Entendo menos o dos vossos kapos locais: em falhando e ficando, porque continuam seguros no laboratório?
«DN» de 19 Set 13

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Entrevista ao 'Público' em 1 Set 13

NOTA (CMR): Dado não ter sido possível afixar aqui a entrevista completa, a mesma será enviada, em formato PDF (tamanho 3,2 Mega), a quem o solicitar. Bastará mandar um e-mail para medina.ribeiro@gmail.com indicando, em assunto, entrevista ao 'Público'.

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As palavras que escondem e enganam

Por C. Barroco Esperança 
HÁ PALAVRAS que deviam queimar os lábios de quem as profere, palavras que, em vez de esclarecer, escondem, e não exprimem o que parece, ocultam o contrário do que dizem. 
«Liberdade de escolha» não é um pensamento, é uma armadilha; não é um programa, é uma habilidade; não é liberdade e, muito menos, escolha. É mero slogan para capturar o ensino público, privatizar a saúde e engolir a segurança social, na insaciável voragem de seguradoras, bancos e outras empresas privadas. É uma forma capciosa de espoliação do que é de todos, através do Estado, para todos dependermos apenas de alguns. 
Texto integral [aqui]

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18.9.13

De recuo em recuo até ao tapado geral

Por Ferreira Fernandes
HÁ ALGUNS anos, escrevi uma crónica em que exagerei, deliberadamente exagerei. O que eu queria dizer era: ainda não chegámos a este ponto, mas que vamos para lá, vamos... A crónica era sobre dois talibãs que desembarcaram numa praia algarvia e anunciaram a guerra santa. Exército, força aérea e fuzileiros cercaram os invasores, que ameaçavam com uma espingarda enferrujada e um canivete. Negociações. Horas depois, um oficial anunciou a vitória da democracia: os talibãs recuaram nas exigências! Eles tinham começado por querer que as mulheres portuguesas usassem burca. Mas chegou-se a um compromisso, suspirou de alívio o nosso oficial: "A burca só será usada a sul do Mondego. Conseguimos que, a norte, a medida fosse adiada por cinco anos..." 
Ontem lembrei-me dessa crónica exagerada. O Daily Express contou um julgamento em Londres. A ré apareceu de niqab - vestes negras da cabeça aos pés, luvas e só uma nesga nos olhos. O juiz começou por dizer que ela tinha de tirar toda aquela ausência de identidade. Ela negou-se. O juiz aceitou que ela fosse a uma salinha para uma funcionária confirmar que era bem ela. Ela voltou e vai poder ficar tapada durante as audiências: só quando prestar declarações é que tem de mostrar a cara ao juiz e ao júri... O advogado dela vai recorrer. Fez mal em precipitar-se, se ele conseguir aguentar o julgamento durante cinco anos, também aquele norte do Mondego já estará conquistado.
«DN» de 18 Set 13

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Pergunta de algibeira

Alguém sabe o que estão estes homens a fazer?
Não se indica ainda o blogue onde a foto foi "pescada", pois a resposta está lá também. Tal será feito quando for afixada essa 2ª imagem.
Actualização:
 Fotos do blogue Cidadania Lx

A baderna

Por Baptista-Bastos
IRADO, inesperadamente fora do sorriso habitual, o Marcelo exclamou: "Façam desaparecer Maduro e Rosalino, que não se perde nada!" Pelos vistos, o Marcelo quer mandar eliminar pessoas, cuja competência põe em causa, e não encontra punição mais exemplar que não seja o "desaparecimento."
" Entende-se o desespero cáustico do professor. Ele vê, nas proposições do primeiro e nas precipitações tagarelas do segundo o mesmo espinoteante tolejo. Adicionando a esta confusão de cabecinhas doidas, a disparidade dos discursos produzidos por Passos, que diz uma coisa; de Portas, que diz outra; e de Maria Luís, que balbucia uma terceira, nada mais resta ao Marcelo do que invectivar quem assim pensa, comunica e age.
Mais ainda: acusa de soberba para com os portugueses, este Executivo fanado e estático, gastador e de comportamento caótico e casual. Só o primeiro-ministro (digo eu, agora) dispõe de um arsenal de gente, que surpreende não apenas pelo número como pela obscura natureza das ocupações. Vejamos: um chefe de gabinete, dez assessores, sete adjuntos, quatro técnicos especialistas, dez secretárias pessoais, uma coordenadora, treze técnicos administrativos, nove elementos para apoio auxiliar, doze motoristas. Não entra, neste ameno grupo, o avultado grupo de "gorilas" que o protege de eventuais percalços. Este pessoal custa, por mês, ao Estado, 149 486 76 euros.
É este senhorito que se prepara para aumentar ainda mais os impostos, cortar outra vez nas reformas e nas pensões, aumentar o número de desempregados, dilatar o nosso infortúnio, desprezar o futuro dos mais novos e ignorar o desespero sem saída dos mais velhos. É ele.
A baderna prossegue. O dr. Cavaco, dito Presidente da República, mas não se dá por isso, pediu à troika, numa patética declaração, sensatez nas decisões. Os funcionários para aqui mandados são fiscais de contas, sem poder decisório porque esse pertence ao FMI, ao Banco Central Europeu e à Comissão Europeia. O dr. Cavaco parece ignorar que os burocratas que nos visitam, a fim de verificar se obedecemos às regras impostas, são paus-mandados, e eles próprios atendem ao que lhes impõem os directores daquelas três instituições, as quais são coordenadas friamente pela Alemanha.
Ignoram a História, a cultura, as características, as idiossincrasias dos povos por onde passam, em curto ou ampliado tempo. Pouco se importam se humilham ou desdenham das nações em que foram encarregados de proceder aos seus varejos. Os vexames a que têm sujeitado o povo grego são das situações mais ignóbeis verificadas no nosso tempo, e possuem as distintivas particulares de um sórdido ajuste de contas. O que a Alemanha não conseguiu, com duas guerras mundiais, está a obtê-lo agora, com a mediocridade ultrajante, a cumplicidade servil e a sevandijice nojenta dos dirigentes políticos europeus.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
«DN» de 18 Set 13

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17.9.13

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A rapariga e a bicicleta


Por Ferreira Fernandes
ELA TELEFONA-ME de longe: "Pai, tens de ir ver Wadjda!" É um filme. O enredo vocês já conhecem: um homem primitivo, brandindo um osso, descobre uma ferramenta... Não, esse é o 2001, Odisseia no Espaço. Desculpem, agora é que é: Wadjda é sobre uma garota saudita cujo sonho era ter uma bicicleta. No fundo, é o que eu vos dizia, vai dar ao mesmo, é a história de uma redenção. Uma pequena pedalada de uma miúda, mas um grande salto para a humanidade. É o primeiro filme todo feito na Arábia Saudita, pela sua única realizadora, Haifaa al Mansour, num país que não tem nenhuma sala de cinema. Claro que não, como dar ensejo a meter numa sala escura homens e mulheres? Para não causar distúrbios, as cenas públicas foram filmadas com as câmaras num camião. Evidentemente, Haifaa al Mansour estava atenta às câmaras e não a conduzir o camião - o que, aliás, não podia; as sauditas não têm direito a carta de condução. 
Pelo que veem, o filme podia abrir com a trilha sonora do 2001: Odisseia no Espaço, a dramática Assim Falava Zaratustra, de Richard Strauss - é da salvação das trevas que aquele país precisa. Mas, para ir mais direto, o que a música devia ser, mesmo, era La Bicyclette, cantada por Yves Montand. Fala de Paulette, a filha do carteiro, que andava de bicicleta e apaixonava todos os rapazes da aldeia. Tão simples. E Wadjda, o filme, podia cumprir o seu destino: ajudar a que essa simplicidade chegue a mais um país na Terra
«DN» de 17 Set 13

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16.9.13

A propósito da crónica anterior

Pode muito bem suceder que os cartazes transmitam uma mensagem bastante diferente daquela que os seus autores pretendem. 
Repare-se neste caso:
Vários blogues que abordam os problemas de Lisboa têm-se manifestado contra a ocupação excessiva (para não dizer abusiva) do espaço público da cidade com os outdoors da campanha eleitoral em curso. Um dos casos mais referidos tem sido a Alameda D. Afonso Henriques, com os seus cartazes do 'PS e aliados', do 'PSD+CDS', do BE e de uns independentes.
Durante algum tempo, ainda pensei que, para marcar a diferença, a CDU se abstivesse de fazer o mesmo. Que ilusão! Embora com atraso em relação aos outros, lá está agora o respectivo trambolho, e ainda mais intrusivo (dado que está bem no eixo Leste-Oeste da Alameda) do que os outros cinco...

Os cartazes toscos são uma boa notícia

Por Ferreira Fernandes
LEIO que os partidos têm menos para gastar nas eleições. Leio também que a ingenuidade dos cartazes tem animado esta campanha autárquica. Junto a com b: a crise aguçou - mesmo que por vezes de forma ridícula - o engenho. Acontece isto quando a tecnologia facilita a feitura da propaganda. Alguns resultados têm sido iguais aos da velhota espanhola de Borja que "restaurou" uma pintura de Cristo: artisticamente, um desastre, mas todos falaram disso... 
Como a propaganda eleitoral é exatamente para que se fale, vivemos talvez um momento feliz. Em Torre de Moncorvo, Carla Neves, candidata a uma das freguesias, abrilhantou um dos cartazes com uma foto - vestido rosa tomara que caia e cabelo armado - parecendo de baile de debutante. Ela própria admitiu no Facebook que a foto era "horrível", mas, graças a ela, passou a ser "a pessoa mais amada do meu querido Portugal." Exagero, talvez, mas que o eco (ou pelo menos a photoshop da candidata) chegou longe, chegou. 
A conclusão essencial a tirar é que a crise descentralizou as campanhas eleitorais e que os candidatos locais podem ver nisso uma janela (ou cartaz) de oportunidades. Os soberbos catalogam os cartazes de "tesourinhos deprimentes". Mas estes podem ser a devolução aos candidatos da sua condição de nos convencerem. Por mais toscos que sejam os de hoje, são mais democráticos do que as resmas mandadas pela sede do partido, com fotos perfeitas e palavras de ordem não discutidas. 
«DN» de 16 SEt 13

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15.9.13

Título na capa do «Expresso-Economia» de ontem

Luz - Bogotá, Museo del Oro

Fotografias de António Barreto- APPh

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Só atrás desta vitrina, estão centenas de peças em ouro maciço. Este museu é mesmo especial. Tudo anda à volta do ouro, antigo e moderno, mas sobretudo o antigo, dos tempos pré-colombianos. São milhares e milhares de peças em ouro, pequenas, médias e grandes, altares, figuras humanas e animais, moedas e imagens sagradas, há de tudo em quantidades a perder de vista e de conta. Só de pensar que a maior parte dos artefactos de ouro tenha sido saqueada pelos colonos espanhóis e outros! Foi por causa deste ouro que os conquistadores e futuros colonos procuraram toda a América Latina e liquidaram inteiras civilizações, como as dos Incas, dos Azetecas ou dos Maias. Andavam à procura de um reino mítico, El Dorado ou Eldorado, onde tudo era de ouro… (2013)

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Irei esmifrar-te até ao túmulo

Por Ferreira Fernandes
GOTA que fez transbordar o copo... Estou assim. E o abuso que sinto é este: 90 anos. Diz o governamental Rosalino das pensões: antigo funcionário que, com 90 anos, ganhe 1050 euros vai ter um corte de dez por cento. A medida não é de perseguição aos nonagenários, é geral, para baixar as pensões da função pública, estamos com a corda na garganta - dizem eles, e eu calado, estou cansado e não me apetece alimentar mais uma discussão. E é então que é dito: quem aos 90 anos ganha 1050 euros vai ter um corte de dez por cento. 
Reparem, já antes fora dito que, a aposentado de 70 anos que ganha 601 euros, a miséria de 20 euros por dia, lhe vão apagar três dias de vida. Os dados soavam-me difusos, os últimos três anos de crise anestesiaram-me para discussões com números. 
Continuaram com a lengalenga dos cortes e que aos 80, quem ganha 751 euros, tiram-lhe 75. E eu calado. Foi então que o Rosalino das pensões disse: "E aos 90 anos..." Saltou-me a tampa e o Rosalino passou a ser de pensão rasca e sem águas correntes. Não, não se pode tocar nos de 90 anos! Porque não, porque tudo tem um limite. Nenhum contabilista tem o direito de assustar um homem de 90 anos e dizer-lhe que os seus 1050 euros são demais e tem de ficar sem 105 euros. Nenhum contabilista, sobretudo um Hélder Rosalino que, passado o Governo, volta para o seu Banco de Portugal, onde se especializou naquilo que esse hotel de 5 estrelas tem de melhor, os seus planos de pensões.
«DN» de 15 Set 13

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Idade do Gelo

Por A. M. Galopim de Carvalho
IDADE do Gelo é a expressão habitualmente usada para designar o último período geológico de arrefecimento da superfície e atmosfera terrestres, marcado pela expansão das calotes glaciárias (inlandsis) polares bem como das geleiras ou glaciares de vale, nas montanhas. (...) 
Texto integral [aqui]

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Uma lei imoral

Por Antunes Ferreira
COMO dizem os Brasileiros - no que respeita à lei que estabelece a convergência das pensões entre o sector público e o sector privado, e que reduz 10% as pensões dos reformados do Estado de valor superior a 600 euros - a coisa está preta. E está. A antiga líder do PSD, e ministra das Finanças e da Educação do Governo chefiado por Cavaco Silva, afirmou no seu comentário habitual no programa Política Mesmo da TVI24 que essa lei é “imoral”. (...)
Texto integral [aqui]

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14.9.13

Só nós temos tomates

Por Ferreira Fernandes
O RIVAL eleitoral de Angela Merkel, Peer Steinbrück, apareceu na capa de uma revista com o dedo médio estendido, fazendo o célebre gesto obsceno. O escândalo é bom para lembrar uma das poucas, mas tesas, superioridades lusas. Reparem no alemão: estende o médio, numa mão onde os outros dedos se limitam a encolher... Quase todo o mundo faz o gesto da mesma forma mole. A peineta espanhola, o doigt d"honneur francês, o rude finger inglês são todos como o agora famigerado Stinkfinger do político alemão: preguiçoso. 
A linguagem gestual devia ser mais respeitada, afinal foi a mão e a forma dos dedos humanos que nos permitiram evoluir. Mas só os portugueses fazem aquele gesto de forma impecável. Há agora a mania de, ao falar, fazer aspas com os dedos, como que pedindo desculpa: "Não é bem isso que queremos dizer..." Ora quando se estende o dedo médio a alguém aquilo que queremos dizer é mesmo aquilo, mostrar um sexo masculino. Sendo sempre mal-criado, ao menos que o digamos de forma clara - e isso só os portugueses fazem. O nosso dedo médio estendido é como o dos outros, universal. Mas só os portugueses dão um toque de classe, erguem as falanges dos dedos indicador e anelar, enroladas com as falanginhas e as falangetas, fazendo duas rodas onde se apoia, como o cano de um canhão, o dedo médio. O simbolismo da artilharia fica claro, a solidariedade dos dedos é notável. E querem os alemães dar-nos lições de organização e qualidade...
«DN» de 14 Set 13

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13.9.13

Pergunta de algibeira

Para encaminhar os visitantes, a IKEA utiliza, nos pavimentos das suas lojas (pelo menos na de Alfragide, onde estas fotos foram tiradas), setas pretas e brancas, que são reposicionadas quando há alterações na disposição dos artigos.
A pergunta que se coloca é: porque é que as setas brancas são muito mais fáceis de alterar do que as pretas? 
Aqui fica uma dica, no que respeita às primeiras.
(A resposta será dada acompanhada de outra foto)

Aqui fica a resposta: 
As setas pretas são autocolantes postas no chão, enquanto as brancas são imagens projectadas, como mostra a foto seguinte.

Putin ainda acaba Nobel da Paz

Por Ferreira Fernandes
VLADIMIR Putin costumava ser visto como o tipo de homem que nos tranquiliza se formos à caça com ele. Mas agora ele apareceu-nos como mestre da palavra, papel raro para um líder político russo (embora um seu antecessor, Leonid Brejnev, tenha sido Prémio Lenine de Literatura...) 
Anteontem, Putin assinou uma coluna de opinião com notável articulação de argumentos, feita no momento certo e publicada no lugar ainda mais certo, The New York Times. Desde o título ("Um apelo de prudência vindo da Rússia"), o artigo é cheio de bom senso. Na frase de entrada, Putin foi frontal: "Os recentes acontecimentos na Síria levaram-me a falar diretamente ao povo americano." No fio de todo o texto, relembrou o óbvio: "Um ataque [à Síria] desataria uma nova onda de terrorismo." O contexto foi definido: "Na Síria não há uma batalha pela democracia, mas um conflito armado entre o governo e a oposição num país multirreligioso. Há poucos campeões da democracia na Síria." Sobre a incoerência americana, Putin foi ao ponto: "O Departamento de Estado americano designou Al Nusra [o principal grupo rebelde] como terrorista." No remate, picou a soberba da América: "Não nos devemos esquecer que Deus nos criou todos iguais"... 
O balanço é evidente: Putin apagou Obama na agenda síria. Com esta crueldade suplementar: Obama ainda lhe deve agradecer por o livrar da asneira de um ataque. Nobel da Paz para Putin? Seria abuso, mas Obama recebeu-o por menos.
«DN» de 13 Set 13

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Apontamentos de Lisboa

Em 2002, acompanhei um grupo de estrangeiros numa visita ao Douro. A camioneta seguia, vagarosa, ao longo da margem esquerda, e os passageiros iam largando «Ah!»s e «Oh!»s, comentando o que iam observando.
Só que o faziam em dois tons, conforme se maravilhavam com a paisagem, ou se horrorizavam com o lixo que ornamentava a berma da estrada - e este era, fundamentalmente, constituído por sucatas de automóveis, frigoríficos e colchões...
Talvez já não seja assim - pelo menos os colchões parecem ter emigrado para Lisboa... embora não tenham sido encaminhados para quem, nas ruas, mais precisa deles.
Fotos, de cima para baixo: Campo Pequeno, Rua Infante D. Pedro, Av. Pascoal de Melo, Rua do Forte, Martim Moniz e Praça da Figueira.

12.9.13

«Dito & Feito»

Por José António Lima
SÃO, NO MÍNIMO, curiosas as reacções dissonantes de Passos Coelho e de Paulo Portas ao mais recente chumbo do Tribunal Constitucional.
O primeiro-ministro foi duro no tom: salientou que o problema não é da Constituição, mas «da interpretação que os juízes do TC fazem da Constituição», acrescentou que «é preciso é bom senso» e alertou que as soluções alternativas de redução da despesa do Estado que o Governo se vê obrigado a encontrar «têm sempre um preço e esse preço é sempre mais elevado». Não se esquecendo de avisar que esta decisão do TC tornou mais negro o cenário de negociações com a troika da 8.ª e 9.ª avaliações regulares: «Parto para essa conversa com mais dificuldade». Já o vice-primeiro-ministro desdramatizou o acórdão do TC e prometeu dar uma resposta «pragmática, realista e construtiva», assegurando que «o Governo se deve empenhar em encontrar uma solução que permitirá ter uma leitura constitucional adequada».
Pensava-se que era uma regra das boas práticas políticas ser o ‘número dois’ dos governos a assumir as respostas mais contundentes e os confrontos mais complicados, por forma a evitar ao ‘número um’ o ónus da conflitualidade e um excesso de desgaste político. Aqui, com o Governo PSD/CDS, curiosamente, não acontece assim. Passa-se mesmo o contrário. O vice-primeiro-ministro faz o papel de bom da fita, compreensivo e cheio de moderação. Enquanto o papel de mau fica para o primeiro-ministro, que dá o corpo às balas e passa por intolerante. É o mundo, à portuguesa, de pernas para o ar.
Não deixa, por outro lado, de ser um pouco perplexizante ver Paulo Portas neste papel de grande apaziguador. Ele que fez uma cena de caixão à cova com a TSU, que se vergastou com as subidas de impostos mas não apresentou medidas que as substituíssem, que colocou uma linha vermelha no corte de pensões mas vai caucionar o das pensões públicas, que se demitiu por causa da linha de continuidade Gaspar-Albuquerque nas Finanças e voltou com a palavra atrás, que não encontrou ainda maneira de concretizar o guião da reforma do Estado. Agora, diz que é só facilidades e soluções alternativas aos chumbos do TC. Alguém o levará a sério?
«SOL» de 6 Set 13

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Apontamentos de Lisboa

Há cada nome!

Papa Francisco volta a atacar

Por Ferreira Fernandes
OS LÍDERES têm gestos naturais (ou que são entendidos pelos seus como tal). Não olhem à volta, por cá é uma pobreza franciscana. 
Por falar nisso, mas em sentido oposto, o Papa Francisco é cada vez mais um caso. Quando foi eleito, o cardeal brasileiro Cláudio Hummes pediu-lhe: "Não se esqueça dos pobres." O argentino fez-lhe a vontade e fez-se chamar Francisco, como o santo de Assis, Il Poverello, O Pobrezinho. Mas podia ser só demão, como o "camauro", o gorro púrpura de Bento XVI que pretendia sublinhar a tradição e não foi entendido. Já o Papa Francisco colou-se à ideia dos pobres. Esta semana foi ver emigrantes, disse uma palavra, "solidariedade" (palavra que em polaco, solidarnosc, já fez uma revolução), e lembrou que os conventos vazios das ordens religiosas "não são nossos", dos religiosos. São dos "últimos", os desapossados de tudo. 
Os líderes com gestos naturais podem usar estes termos excessivos sem cair no ridículo. E por que estão vazios tantos conventos? Por falta de vocações. Pietro Parolin, o novo secretário de Estado do Vaticano, apontou ontem uma das razões dessa falta: o celibato obrigatório dos padres. E disse que o celibato não é dogma. O cardeal Hummes quando chegou a um cargo no Vaticano, em 2006, dissera o mesmo. Marginalizaram-no. Desta vez, Parolin foi escutado. O Papa Francisco é conservador e líder natural. Eis duas condições para revolucionar as instituições milenárias.
«DN» de 12 Set 13

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Pergunta de algibeira

Num aldeamento turístico próximo de Albufeira, pode ver-se, logo à entrada, um grande mapa mural das instalações, completado com uma rosa-dos-ventos que em baixo se vê.
Em relação a esta, pergunta-se: há algo de errado nela? Ou será que nem sempre o que parece é?
Actualização:
Trata-se de Norden, Süden, Osten e Westen.