30.6.07

JOVEM OFERECENDO O SEU TALENTO

Por Ferreira Fernandes

SÃO PÁGINAS RECORRENTES da literatura americana, cenas de filme de Hollywood, a angústia do jovem mordido pela escrita que mandou o seu primeiro conto para a revista literária. A espera da carta anunciando que sim, vai ser publicado...
Ontem, li um pedido desses, um miúdo, também do Novo Mundo, mas do Brasil, expondo o seu talento, olhos redondos de esperança como deveria ter Hemingway quando se candidatou a The Kansas City Star. Modernaço, o meu brasileiro, mostrou-se em vídeo e sem caneta. Maycon Santana, 15 anos, dominando todos os estilos: sem sapatos, em toques subtis, com a camisola 14 entre tontos defesas, dançando em pelados como Fred Astaire sobre um sofá, tratando a bola como nunca Mia Couto fará com a língua.
O vídeo já foi lido por 80 mil pessoas, um Maracanã. Leio que a cartinha de resposta já chegou. O Flamengo - editora nobre que já publicou Zico e Romário - contratou Maycon. Estou mortinho por ler as suas obras completas em 90 minutos.
«DN» de 30 de Junho de 2007 - [PH]

NOTA: O vídeo referido na crónica deve ser este

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PEDRAS À SOLTA

Viagem de autocarro
Por Carlos B. Esperança
ONTEM, ENTREI NUM AUTOCARRO com um padre católico sentado no banco ao lado do meu, do outro lado da coxia.
Olhei aquele rosto triste de um homem de 70 anos, com o colar romano a apertar-lhe o pescoço como o cincho onde se estreita o queijo para extrair o soro. Há muito que não via tal adereço na via pública. O uso manteve-se com a resignada dedicação ao múnus.
Não pude deixar de apreciar aquele homem só, a caminho de uma casa da Igreja ou de um ritual que perdeu o sentido e de que a sociedade se desinteressou.
Que sofrimento ajudou a desenhar aquelas rugas? Quantos desejos reprimidos e quantos anos perdidos com o pescoço apertado por um colar e a lapela ornada com uma cruz?
Terá amado, teve sonhos, realizou-os? A meu lado um cidadão, sozinho, levava os olhos vazios e o ar de quem cumpriu a vida sem a viver.
Era preciso ser cínico ou mau para não sentir compaixão por quem dedicou o tempo e a juventude a uma quimera, perdeu a vida perseguindo o sonho do Paraíso e chega ao fim da estrada sem saber por que a percorreu.
Somos ambos da mesma massa. Com poucos anos de distância ensinaram-nos a ajoelhar e a rezar. Eu levantei-me, ele ficou de joelhos. Eu vivi a vida, amei e passei incógnito na estúrdia, sem um colar a que só falta a trela e sem a cruz a que não faltaram espinhos. Ele imolou a vida por um mito e esqueceu-se de si próprio por coisa nenhuma.
É injusto que aquele homem que sofreu o que eu não sofri, que trocou a vida por outra que não existe, tenha os mesmos sete palmos de terra à sua espera sem um filho que lhe recorde o nome ou guarde o retrato. Por um deus que inventaram para lhe tramar a vida.

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Como habitualmente aos sábados, aqui fica o post-aberto dos fins-de-semana, para quem o quiser utilizar.

29.6.07

Passatempo com prémio

Quem decifra esta charada?

1ª- O prémio será atribuído ao primeiro leitor que, em «Comentário», der a resposta certa mas - atenção! - só depois de o contador de visitas indicar o número 288.882.
Eventuais respostas dadas antes disso, não serão apagadas mas não darão direito a prémio.

2ª- O prémio será este romance histórico, acrescido de um segundo
livro, à escolha do vencedor de entre os indicados em «Comentário-1».
-oOo-
NOTA IMPORTANTE
Como se pode ver em «Comentários», a resposta certa já foi dada, e é de tal forma evidente que não faz muito sentido que seja dada mais vezes.
Assim, pede-se ao futuro visitante n.º 288.882 que envie o print-screen do contador-de-visitas para sorumbatico@iol.pt, com indicação de morada e do livro pretendido (além do que aqui se mostra, claro).
Pelo sim/pelo não (e porque às vezes há visitas automáticas - de motores de busca, p.ex.), sugere-se aos visitantes n.ºs 288 883-4 que façam também print-screens, e os guardem até se saber se o 288.882 aparece ou não.
-oOo-
O prémio foi ganho pelo leitor André Felício

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A QUADRATURA DO CIRCO

Crónicas da Arábia Inaudita
Por Pedro Barroso

OS AMIGOS DE BUSH usam saias.
Brancas, imaculadas. Como velas árabes ao vento do deserto.
Tal branco – alvo e sem mácula – contrasta com o pródigo chafurdar dos negócios de ouro negro. Mas o viscoso das explorações e poços não chega aos seus gabinetes e palácios. E encomendam mais um Rolls Royce pela manhã, tal como nós mandamos vir na pastelaria uma tosta mista.
Os amigos de Bush não têm alma. Rezam contudo diariamente a um deus de origem incertificada e distante – como todos os deuses, aliás – que lhes permite o luxo e a glória de mandar. Mas também o opróbrio de um povo entre o analfabeto e o estruturadamente controlado. Os amigos de Bush gostam do big brother, versão deserto.
Em tal deserto constroem sumptuosas e imprevisíveis surpresas, faraónicas construções, douradas casas de banho, mármores de Carrara (cuja pedreira já não existe há muito - são de Estremoz ou Borba mas enfim…) auto-estradas sem frequência previsível, até oásis artificiais onde se iludem nas areias generosas em cenários de Hollywood.
Não que precisassem.
Os amigos de Bush cobrem-se de ridículo com o fausto de embaixadas de 300 pessoas para acompanhar um qualquer principezinho de ar frágil e bexigoso. Se o médico lhe recomendar praia ele irá para Cannes, St Tropez, Nice. Se o príncipe tiver asma, ele avançará para a montanha, e os chalés em Aspen, St Moritz ou Chamonix vão esgotar com as suas comitivas de favoritas, massagistas pessoais, pedicuras e tutores variados para tão tutelada eminência.
Os amigos de Bush alugam o Tavares Rico completo, para não terem surpresas desagradáveis nem, supostamente, alarves comensais na mesa do lado, que possam não se saber comportar. E os talheres terão de ser de ouro certificado de origem. Não se sentarão nos aveludados cadeirões, sem que tudo tenha sido controlado, colocado, confeccionado e conferido por 30 guarda-costas, 20 cozinheiros, 10 camareiros e 40 mordomos.
Os amigos de Bush constroem piscinas para os seus cavalos nadarem e cientificamente muscularem os músculos ganhadores e milionários. Treinam as velhas e medievais artes da falcoaria. Imagem bela e cinematográfica de um país entre o mundo antigo e a história moderna. Entre o conflito eterno e vantajoso e o aliado forte que lhes tenta ocultar a exposição dos podres maiores de seu viver.
Porque os amigos de Bush tapam as mulheres, põem-lhes garrotes na opinião, tapam-lhes literalmente a boca, cobrem-nas da cabeça aos pés. Vestem-nas de negro nos 40º do deserto. Tudo em nome da moralidade. Da sua preservação. Da sua honra.
Vi uma médica ginecologista dar consultas e operar de cara tapada. Eu vi. Bem aventurados documentários que nos mostram para que não esqueçamos.
Mas os amigos de Bush são selectivamente civilizados.
Mandam os seus filhos estudar no ocidente. Em Oxford e Cambridge. Em Harvard. Em Paris. Eles querem o melhor para o seu país. Para o seu povo. Para as suas famílias. Para si. Oh, como os amigos de Bush são imaculados e generosos!
Os amigos de Bush usam saias. Brancas. E bigodes ou pêra adornante e regional.
Têm o culto de uma monarquia sem abertura, nem eleições, nem outra democracia que a eternização oligárquica e medieval. E de, ao mínimo detalhe, à mínima veleidade, ao mínimo desleixe informativo, imporem castração imediata a qualquer opinião contrária.
Os amigos de Bush não permitem que uma mulher conduza um carro. Não gostam sequer que ela trabalhe num emprego com outros homens. À face de sua visão, isso seria o descalabro do universo. A inversão do mundo. A autonomia pessoal das mulheres assusta-os. A sua inteligência também. Ao que parece, a sua própria boca lhes suscita eflúvios tais e urgências tais, que o melhor é tapá-las, não vá um homem não resistir a tamanha e tão exposta provocação.
Os amigos de Bush bebem chá e comem borrego. Culturalmente intocável.
Mas deixem-me ser mau.
Desconfiem sempre de um homem de saias brancas e antolhos viscerais, com uma corda na cabeça que vos surja a recusar um tinto de Pias, um Alvarinho gelado ou um Porto de cepa caseira.
Uma entremeada, um courato, uma carne de porco à alentejana, um paio de Barrancos.
Os amigos de Bush comem ouro às refeições e tapam as mulheres.
Eu gosto mais de ser… europeu.
Não sei se me entenderam.

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28.6.07

Um tetra-problema no País do Faz de Conta - Proposta de discussão

Esta notícia, publicada ontem em vários jornais, trata de um assunto de Lisboa. No entanto, como é paradigmática de uma certa forma - muito portuguesa - de actuar, aqui fica à consideração dos leitores:

Recapitulando:
1-Quando a CML decidiu colocar 21 radares em certas zonas da cidade, surgiu logo um primeiro problema: a DT da PSP não foi tida nem achada.
2-Pouco depois, surgiu um segundo problema: era preciso calibrá-los... Foram então retirados e mandados para calibração.
3-Entretanto, surgiu um terceiro problema: para que "a coisa" funcione legalmente, é preciso o parecer favorável da CNPD.
4-Como "a coisa" não anda nem desanda, a CML prepara-se para começar a emitir multas mesmo sem essa autorização, dando origem, como se está mesmo a ver, a um quarto problema: as coimas serão ilegais, e só as pagará quem quiser.
Pergunta-se:
Será, de facto, assim? Quem quer comentar este assunto?

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OS ENLEVOS PATRIÓTICOS

Por Baptista Bastos

O CASO DA LOCALIZAÇÃO do novo aeroporto de Lisboa parece uma batalha de tribos indocumentadas, sem nome e sem apelidos, porém muito preocupadas com o bem-estar da Nação. O negócio envolve milhões de milhões de milhões. E suscitou, imediatamente, a comoção patriótica dos bancos e da alta finança, sempre apoquentados com o nosso futuro e mortificados com as ameaças que pesam sobre a nossa qualidade de vida.
Alcochete e Portela+1 deixaram de ser hipóteses para se transformar em pretextos estucados por uma retórica absurda: não adiantam, não atrasam nem alteram a decisão. O Executivo Sócrates é nhurro. Desconhece que as vitórias são alcançadas com limitações, pluralidade e princípios. E o patético "jamais, jamais, jamais", do ministro Lino significa autoritarismo e soberba mas, também, imobilismo e desprezo.
O súbito arrebatamento patriótico de "grupos económicos", cuja natureza se ignora, mas de desígnios evidentes, representa a constante inventiva estilística do capitalismo. Todos os interessados no novo aeroporto declaram o seu extremado amor a Portugal e a estremecida ternura pelo povo. A celebração desses nobilíssimos sentimentos é feita através de um caudal de palavras e de acções, cuja força atordoa a nossa incipiente sabedoria.
Os estudos realizados implicam montantes consideráveis. Não se sabe quem os pagou. Mas esta gente escondida não é benemérita, não é bondosa, não é filantrópica. Vai receber algo em troca. O dr. Cavaco recebe representantes de uma alternativa, e começam todos a falar ao mesmo tempo de "interesse nacional", de "visibilidade no estrangeiro", de "urgência na modernidade". O "interesse nacional" e a "modernidade" servem para tudo: como o Freud e o Pessoa.
O português desespera: começa a compreender que não há convicções, nem esperança, nem felicidade - a não ser no céu, para os católicos; e no futuro, para os progressistas. Este é o País dos dez estádios, não o esqueçamos. Onde se encerram escolas, hospitais, serviços de saúde, maternidades, consulados. Onde se cerca a imprensa, se fecham serviços consulares, se ignora os emigrantes e se despreza os imigrados.
A questão está concentrada num só projecto, o que transforma a aparente discussão num assunto inútil, por irremediável. O aeroporto será na Ota.
NO MOMENTO: Aplausos para a intervenção de Luís Filipe Menezes, anteontem, no Frente-a-Frente, da SIC Notícias. Criticou a ofensiva contra o Sistema Nacional de Saúde, e a abstrusa destruição do subsistema dos jornalistas, com factos e números tão importantes como significativos.
«DN» de 27 de Junho de 2007- [PH]

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Humor antigo - Ano de 1931

27.6.07

JOE NO CCB, JOE NA PT, JOE NO BCP, JOE NO BENFICA. UAU, JOE

Por João Miguel Tavares
ADIVINHEM se forem capazes. Quem foi capa da última Visão? Tempo para pensar... Foi Joe Berardo. Quem foi capa da última revista Sábado? Resposta: Joe Berardo. Quem foi capa da última Tabu, a revista do semanário Sol? Pois bem: Joe Berardo. Quem foi capa da última NS, a revista que sai aos sábados com o DN e o JN? Pois é: Joe Berardo. E quem foi capa da última revista Única, do semanário Expresso? Eeeerhh... Por acaso foi a Angelina Jolie. Mas no interior havia 14 páginas dedicadas a Joe Berardo.
Nos últimos tempos, assim de repente, acho que Berardo não falhou um único acontecimento relevante ocorrido em Portugal. Eu próprio, nos meus sonhos, já me imagino a ser perseguido por um homem vestido de preto da sola dos sapatos até à gola, com um pin vermelho em forma de coração. Primeiro, foi a loooonga telenovela sobre o destino da sua colecção de arte contemporânea, que acabou albergada no CCB durante dez anos à custa do Estado português (Joe considera que fez um mau negócio, porque no final desses dez anos o País, a ressacar de aeroportos e TGV, vai evidentemente poder comprar-lhe a colecção por apenas 316 milhões de euros). Depois, foi a sua resistência a Belmiro na OPA da Sonae sobre a PT (Belmiro perdeu, Joe ganhou). A seguir, foi a contestação a Jardim Gonçalves no pós-OPA do BCP ao BPI (Jardim perdeu, Joe ganhou). Nos entretantos, assumiu-se como um dos patrocinadores no estudo da CIP que propôs Alcochete em vez da Ota como o sítio certo para construir o novo aeroporto (o Governo recuou, Joe avançou). Na última semana, apareceu a lançar uma OPA sobre 80% das acções do Benfica e a fazer directos em tudo o que era televisão (o Benfica engoliu, Joe sorriu). Parece aquela velha anedota: era um homem tão conhecido, tão conhecido, tão conhecido, que um dia foi ao Vaticano e as pessoas perguntavam: "Quem é aquele senhor de branco ao lado do Joe Berardo?"
Que Joe é mexido, não há dúvida. Mas esta avalanche mediática só é possível porque Portugal não chega a ser um jardim à beira-mar plantado: é mesmo uma caixita de fósforos, comprometida pela humidade. Basta um único homem com algum espírito de iniciativa, olho para o negócio e uns milhões no bolso para pôr os indígenas embasbacados e fazer parar metade do País. Reconheço-lhe o mérito e tiro-lhe o chapéu. Mas isto seria impensável em qualquer lugar realmente desenvolvido, com uma sociedade civil interventiva e uma classe empresarial pujante. Infelizmente, o sucesso de Berardo é a outra face da nossa pobreza. Ou, em forma de ditado popular: em terra de cegos quem tem olho é rei. Hey, Joe, lucky you.
«DN» de 26 de Junho de 2007 - [PH]

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Proposta de discussão

1 - Pode (ou deve) um autor de um blogue ser responsabilizado pelo teor dos comentários lá colocados pelos leitores?
2 - E supondo que sim: face a um comentário insultuoso para outrem, deverá haver alguma distinção entre um que é feito por um anónimo e outro cujo autor se identifica sem ambiguidades?
3 - Porque será que, quando começam a aparecer comentários insultuosos, eles terminam (quase sempre) no exacto momento em que se activa a opção «Apenas utilizadores registados» na caixa «Quem pode comentar»?

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Lamentação Peripatética

Por Manuel João Ramos

Há algumas almas ingénuas que pretendem reanimar o corpo da Universidade, convictas de que ela não está morta. Imaginam que há ainda algo para salvar e fizeram uma petição AQUI.
Se vos tranquiliza a consciência, podeis juntar a vossa voz ao coro. Na tragédia grega, este momento de lamentação lírica colectiva chamava-se kommós.

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26.6.07

Alguém quer discutir isto?

Dica: «Por que razão têm de ser os consumidores a reclamar a caução? Muitos, lembram-se lá disso! As empresas sim, sabem a quem cobraram. Nada mais simples do que devolver, ou em dinheiro ou como abatimento nas próximas facturas»

PASSEIO ALEATÓRIO

Abaixo as aspas!
Por Nuno Crato
NA LINGUAGEM CIENTÍFICA não há nada pior do que a ambiguidade. Em jornalismo também. As ideias devem ser transmitidas de forma directa, simples e o menos ambígua possível. Essa é, aliás, uma regra quase geral: convém falar claro!
Nos textos que nos rodeiam, contudo, desde algumas peças de mau jornalismo a inúmeros exemplos de literatice opinativa, abundam os subentendidos. Uma das manifestações mais frequentes da falta de clareza é o uso generalizado das aspas. No fim-de-semana passado, visitando um museu dos arredores de Lisboa, li que a vila «adquiriu um novo ‘rosto’ com a reconstrução efectuada». Tropeça-se na palavra e fica-se na dúvida: porque se encontra «rosto» entre aspas? Imagina o autor que alguém pensaria que as vilas têm cara — cara com olhos, nariz e boca — e resolveu por isso explicitar que não era desses rostos que se tratava? Então para que servem as aspas?
Regressado a casa e lendo um texto encontrado na página do Ministério da Educação, voltei a surpreender-me. Sempre ou quase sempre que falava do sucesso dos alunos, a palavra aparecia enquadrada por aspas. Como neste extracto: «aqueles que têm ‘sucesso’ não precisam muito do professor nem abonam muito acerca do sucesso da escola.» Alguém percebe o que quer o autor dizer? Quer lançar descrédito sobre avaliação dos estudantes, negando pois a capacidade de exames e outros instrumentos para medir o êxito dos alunos? E quer dizer que o trabalho da escola não se pode medir pelos resultados dos seus alunos? Mas não tem a coragem de o dizer explicitamente. São aspas ao serviço da ambiguidade.
Adaptado do «Expresso»

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25.6.07

Passatempo da semana (com prémio quádruplo)

Desafia-se os leitores a substituir os 5 asteriscos seguintes por letras, por forma a completar um provérbio: «A má vizinha empresta a agulha e guarda a *****».
A resposta deverá ser dada em «Comentário», mas só depois de o contador-de-visitas indicar o valor 285285.
O prémio, a atribuir ao 1º leitor que der a resposta certa, será o livro «HISTÓRIA MARAVILHOSA DO PAÍS BIMBO», de Pedro Barroso (autografado pelo autor), e ainda dois outros, à escolha do vencedor, de entre os seguintes:
«A Pegada» - (2 Vol) (Larry Niven e Jerry Pournelle); «Quem Nasce Torto» (Warren Murphy); «Uns Comem os Figos» (Warren Murphy); «Um Dia no Verão» (J. L. Carr); «A Lição do Mestre» (Yehudi Menuhin); «O Génio» (Dieter Eisfeld); «A Metodologia da Economia» (Mark Blaug); «Vamos ao Médico» (T. Berry Brazelton); «Assassínio Involuntário» (Emma Lathen); «A Prostituta de Deus» (Carla van Raay); «O Ferrão da Morte» (Ruth Rendell); «O Tesouro de D. Sebastião» (Pedro Beltrão); «O Lobo de Hilgard» (M. Zimmer Bradley), «Aprender a Viver» (José António Marina»); «Beijos de Chocolate» (Alice Vaara); «A Nova Coventry» (sue Townsend); «O Detective Global» (Toby Clemens), «O Último Ritual» (Yrsa Sigurdardóttir); «Os Fantasmas de Goya» (J.C.Carrière - Milos Forman).
Última hora: aos dois livros atrás referidos, haverá a acrescentar um 4º, a escolher entre os seguintes:
«O Tigre Macabro» (Rex Stout/policial), «O Sono da Morte» (Rex Stout/policial), «O Homem Invisível» (H. G. Wells - versão BD), «A Revolta na Bounty» (William Bligh - versão BD), «O Último Moicano» (J. Fenimore Cooper - versão BD), «Lobos do Mar» (Rudyard Kipling - versão BD), «Pato Donald» (Walt Disney - BD), «O Clube dos Inventores-Parte I» (CMR/brochura).
-oOo-
A resposta certa foi dada pelo leitor Rui F. às 22h 23m

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Shrek - Alguém quer comentar?

Ao contrário do que sucede, p. ex., com os «Piratas das Caraíbas-3», o «Shrek-3», actualmente em exibição, pode perfeitamente ser visto independentemente dos anteriores. De qualquer forma, aqui fica o trailer triplo.

NOTA: ter em conta que o filme é para maiores de 4 anos, pelo que, se se quiser ver o filme com algum sossego, convém escolher uma sala e/ou uma hora em que haja poucos miúdos na assistência.

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Mau sinal...

http://jn.sapo.pt/2007/06/25/nacional/corrupcao_novo_adiada.html
O título da notícia é, talvez, um pouco optimista; é que a corrupção, que se saiba, não foi adiada...
Mas o certo é que notícias como esta, pelo "sinal" que dão à sociedade, ajudam a compreender realidades como a do penúltimo post, acerca das casas clandestinas que, devido ao que se sabe e ao que se imagina, se reproduzem como cogumelos em esterco.

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Hummm...

«(...) A minha posição pessoal é contrária, por princípio, ao instituto do referendo. Não lhe reconheço nenhum ganho político e só é sintoma da crise do sistema parlamentar. (...) O referendo só é um instrumento legítimo e adequado para as questões menores».
Sérgio Sousa Pinto, Eurodeputado do PS, ao «DN»

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Se perguntar não ofende...

Por C. Medina Ribeiro
«Destak» 22 Mai 07
EMBORA SEJA PENOSO AFIRMÁ-LO, não tenho muito a objectar contra a demolição de casas clandestinas, especialmente quando quem as constrói já sabe que isso vai suceder. Além do mais, uma eventual tolerância das autoridades não faria mais do que, a breve trecho, tornar a situação incontrolável e sem resolver o problema de fundo.
Posto isso, não posso deixar de fazer a comparação escandalosa com outros casos (as segundas habitações/casas de férias e de fim-de-semana), de que aqui refiro apenas três:
No sábado passado, passei pela Fonte da Telha e não resisti a descer até lá abaixo, apenas para constatar que as casas clandestinas (construídas em domínio público!) lá estão e, à primeira vista, continuam a nascer mais, como se nada fosse.
Quanto à Ria Formosa, o «Público» de ontem dá-nos conta que o número de casas que deveriam ser demolidas ultrapassa o milhar, uma conversa que ouvimos há anos e anos. Mas... não há verba para isso! Desculpem a pergunta: mas quem tem de pagar as demolições não devem ser os donos das casas - acrescidas de uma renda por, durante tantos anos, terem usado um terreno que pertence ao povo português? Se forem pobrezinhos, os autarcas e as autoridades que pactuaram, por omissão, com tudo isso, poderão dar uma ajudinha, não?
E o que se passa com as famosas casas da Arrábida, de que tanto se falou no tempo de Nobre Guedes? Já lá não estão?
-oOo-
Perguntas finais: Como é que organismos como a EDP, a PT e os SMAS fornecem electricidade, telefone, água e esgotos a casas clandestinas? Que documentos legais (?) apresentam os donos para que isso seja possível, dado que têm de fazer contratos formais? O fornecimento desses serviços não constitui, de facto, um reconhecimento tácito de uma espécie de legalidade?
E o que se passa em relação ao IMI?
Recentemente, moradores de duas casas clandestinas que - excepcionalmente! - foram derrubadas argumentaram com os direitos adquiridos e o usucapião...

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Retrato da Semana

OPA sobre o país
Por António Barreto

NÃO. Não se trata do lançamento de mais uma OPA sobre empresa ou clube desportivo. É, simplesmente, a tentativa visível e crescente de o governo tomar conta, orientar e vigiar. Quer saber tudo sobre todos. Quer controlar.
Quando o governo de Sócrates iniciou as suas funções, percebeu-se imediatamente que a afirmação da autoridade política era uma preocupação prioritária. Depois de anos de hesitação, de adiamentos e de muita demagogia, o novo Primeiro-ministro parecia disposto a mudar os hábitos locais. Devo dizer que a intenção não era desagradável. Merecia consideração. A democracia portuguesa necessita de autoridade, sem a qual está condenada. Lentamente, o esforço foi ganhando contornos. Mas, gradualmente também, foi-se percebendo que essa afirmação de autoridade recorria a métodos que muito deixavam a desejar. Sócrates irrita-se facilmente, não gosta de ser contrariado. Ninguém gosta, pois claro, mas há quem não se importe e ache mesmo que seja inevitável. O Primeiro-ministro importa-se e pensa que tal pode ser evitado. Quanto mais não seja colocando as pessoas em situação de fragilidade, de receio ou de ameaça.
Vale a pena recordar, sumariamente, alguns dos instrumentos utilizados. A lei das chefias da Administração Pública, ditas de “confiança política” e cujos mandatos cessam com novas eleições, foi um gesto fundador. O bilhete de identidade “quase único” foi um sinal revelador. O governo queria construir, paulatinamente, os mecanismos de controlo e informação. E quis significar à opinião que, nesse propósito, não brincava. A criação de um órgão de coordenação de todas as polícias parecia ser uma medida meramente técnica, mas percebeu-se que não era só isso. A colocação de tal organismo sob a tutela directa do Primeiro-ministro veio esclarecer dúvidas. A revisão e reforma do estatuto do jornalista e da Entidade Reguladora para a Comunicação confirmaram um espírito. A exposição pública dos nomes de alguns devedores fiscais inscrevia-se nesta linha de conduta. Os apelos à delação de funcionários ultrapassaram as fronteiras da decência. O processo disciplinar instaurado contra um professor que terá “desabafado” ou “insultado” o Primeiro-ministro mostrou intranquilidade e crispação, o que não é particularmente grave, mas é sobretudo um aviso e, talvez, o primeiro de uma série cujo âmbito se desconhece ainda. A criação, anunciada esta semana, de um ficheiro dos funcionários públicos com cruzamento de todas as informações relativas a esses cidadãos, incluindo pormenores da vida privada dos próprios e dos seus filhos, agrava e concretiza um plano inadmissível de ingerência do Estado na vida dos cidadãos. Finalmente, o processo que Sócrates intentou agora contra um “bloguista” que, há anos, iniciou o episódio dos “diplomas” universitários do Primeiro-ministro, é mais um passo numa construção que ainda não tem nome.
Não se trata de imperícia. Se fosse, já o rumo teria sido corrigido. Não são ventos de loucura. Se fossem, teriam sido como tal denunciados. Nem são caprichos. É uma intenção, é uma estratégia, é um plano minuciosamente preparado e meticulosamente posto em prática. Passo a passo. Com ordem de prioridades. Primeiro os instrumentos, depois as leis, a seguir as medidas práticas, finalmente os gestos. E toda a vida pública será abrangida. Não serão apenas a liberdade individual, os direitos e garantias dos cidadãos ou a liberdade de expressão que são atingidos. Serão também as políticas de toda a espécie, as financeiras e as de investimento, como as da saúde, da educação, administrativas e todas as outras. O que se passou com a OTA é bem significativo. Só o Presidente da República e as sondagens de opinião puseram termo, provisoriamente, note-se, a uma teimosia que se transformara numa pura irracionalidade. No país, já nem se discutem os méritos da questão em termos técnicos, sociais e económicos. O mesmo está em vias de acontecer com o TGV. E não se pense que o governo não sabe explicar ou que mostra deficiências na sua política de comunicação. Não. O governo, pelo contrário, sabe muito bem comunicar. Sabe falar com quem o ouve, gosta de informar quem o acata. Aprecia a companhia dos seus seguidores, do banqueiro de Estado e dos patrícios das empresas participadas. Só explica o que quer. Não explica o que não quer. E só informa sobre o que lhe convém, quando convém.
É verdade que o clima se agravou com o tempo. Nem tudo estava assim há dois anos. A aura de determinação cobria as deficiências de temperamento e as intenções de carácter. Mas dois conjuntos de factos precipitaram tudo. O caso dos diplomas e da Universidade Independente, a exibir uma extraordinária falta de maturidade. E o novo aeroporto de Lisboa, cujo atamancado processo de decisão e de informação deixou perplexo meio país. A posição angélica e imperial do Primeiro-ministro determinado e firme abriu brechas. Seguiu-se o desassossego, para o qual temos agora uma moratória, não precisamente a concedida aos estudos do aeroporto, mas a indispensável ao exercício da presidência da União Europeia.
De qualquer modo, nada, nem sequer este plano de tutela dos direitos e da informação, justifica que quase todos os jornais, de referência ou não, dêem a notícia de que “o professor de Sócrates” foi pronunciado ou arguido ou acusado de corrupção ou do que quer que seja. Em título, em manchete ou em primeira página, foi esta a regra seguida pela maior parte da imprensa! Quando as redacções dos jornais não resistem à demagogia velhaca e sensacionalista, quase dão razão a quem pretende colocá-las sob tutela...
«Público» de 24 de Junho de 2007 - [PH]
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NOTA: As crónicas de António Barreto regressam ao «Sorumbático» em Setembro ou Outubro

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24.6.07

Um "site" curioso

No quadro do lado direito, escolhe-se o país cuja hora se pretende saber. O quadro do meio indica as principais cidades que têm a mesma hora - que se vê no relógio digital do lado esquerdo.
Também podemos mover, com o rato, a barra do fuso horário. Uma experiência curiosa consiste em levá-la até à chamada linha de mudança de data, situada na zona da longitude 180º: de ambos os lados dela a hora é a mesma... mas o dia é diferente.

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COMETI UM ATENTADO CONTRA A HONRA DE DOIS GATUNOS

Por Ferreira Fernandes
UM CARRO ABANDONADO numa auto-estrada. Dois motociclistas param, um tira o capacete, rebenta com um vidro, retira alguma coisa de dentro e arrancam, os dois. Como classificá-los, aos motociclistas? Classificá-los, digo, da maneira mais simples: bons ou maus?
Pois é relativo. Anteontem, li as notícias do carro da ETA com explosivos, na A-49 espanhola a caminho do Algarve, abandonado porque o condutor fora alertado de que havia uma operação stop. O condutor é recolhido por um cúmplice e fogem. Pouco depois (dizem as notícias), aparecem dois motociclistas e acontece a cena acima contada. Nas notícias, os motociclistas eram apresentados como tipos da ETA que tinham vindo recolher alguma coisa importante. Anteontem, se me tivessem perguntado "como classificá-los, aos motociclistas?", eu teria respondido: "Maus."
Tenho de me penitenciar. Rapazes das motas, sei que fugiram em direcção a Sevilha e quem me dera estar aí para vos pagar uns pavías de pescado ou tão-só um copo de amontillado. Vocês são bons rapazes e eu, em pensamentos, insultei-vos. Gostaria de me passear com vocês pelo casco viejo de Sevilha, dizendo a quem nos cruzasse: "Estes meus amigos são simples gatunos. Gente boa!"
Tudo é relativo. Notícias de ontem, mudaram completamente a minha opinião sobre os dois motociclistas. Segundo a polícia espanhola, os dois motociclistas eram gatunos que passavam pela auto-estrada, viram um carro parado, assaltaram e roubaram. Gente comum, como eu. Eu não parto vidros de carros estacionados nem roubo mas no essencial sou como aqueles gatunos. O mundo está dividido em duas partes: os da ETA (e os que estão com ela), os canalhas, de um lado; do outro, os outros.
O meu coração aperta-se-me só de pensar que com a pancada do capacete no vidro do carro juntava-se o tal nitrato de amónio e o alumínio, abanavam-se os detonadores e ia tudo pelos ares... Por favor, especialistas, não me escrevam a dizer que era impossível, que o amonal não explode assim, com pancadas de capacete. Em assunto que meta a ETA não preciso de explicações. Sou contra.
E há outra coisa. Estou envergonhado pelo dia inteiro em que andei a insultar os dois rapazes pensando-os da ETA. Foi aquele "pouco depois" (ver acima) que me levou ao engano. Na verdade, foi duas horas depois de o carro ter sido abandonado que apareceram os motociclistas. É verdade que a polícia encontrou um computador no carro, deixado na precipitação da fuga dos terroristas, e estes podiam ter voltado para o recuperar. Mas voltar duas horas depois revelava coragem. Os dois motociclistas não podiam, pois, ser da ETA. Perdão, rapazes.
«DN» de 24 de Junho de 2007 - [PH]

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Qual é o espanto?

Numa altura em que, a propósito do caso PORTUCALE, se volta a falar do Espírito Santo, era de prever que o padre pudesse ter problemas quando começasse a dizer que agia em nome dele...

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A REFORMA DO PARLAMENTO

Por Nuno Brederode Santos
"OS DEPUTADOS EXERCEM LIVREMENTE o seu mandato, sendo-lhes garantidas condições adequadas ao eficaz exercício das suas funções", proclama a Constituição. Que acrescenta, entre os poderes dos deputados, "apresentar projectos de lei, de Regimento ou de resolução". Mas nem um pastorinho veria nisto um bom retrato da condição parlamentar. Porque a prática veio reduzindo estes preceitos à mais cândida retórica.
De facto, submetidos a uma disciplina (partidária e de bancada) rígida e nada conforme a um estatuto de partilha da soberania do Parlamento, os deputados não têm condições para arriscar essa conciliação, que lhes compete, entre a interpretação que fazem do mandato para que foram eleitos e as decorrências de o terem sido integrados em listas partidárias. Não têm condições objectivas e hoje já muitos não as têm subjectivas. Submeteram-se. Alguns apagaram-se até. E, cada vez mais, quem não quer tal condição foge de ser deputado, convergindo com a tendência das direcções partidárias para passarem a preferir, aos melhores, os incondicionais. Os silenciosos backbenchers, que já só sabem fazer número a troco do silêncio dos figurantes.
Ao longo do tempo, sempre a ideia de alterar esta realidade morreu no ovo das piedosas intenções. Mudar isto requeria a força de uma maioria absoluta, monopartidária ou não. Mas a realidade foi mostrando que as maiorias nunca estavam dispostas à abdicação das vantagens que a situação lhes trazia.
Este enguiço só podia ser quebrado consagrando-se o agendamento automático das iniciativas legislativas de todo e qualquer deputado. Aceitando-se, é claro, a maçada de ter de arrasar pelo voto os projectos de "dia do cão" ou outros, porventura ainda mais bizarros. Mas só assim se poderia reinstalar o estatuto que a Constituição quis conferir ao deputado. Um estatuto de liberdade, mas também de responsabilidade, pois ao eleitorado caberá julgar, a seu tempo, os que atravancarem os trabalhos parlamentares com ninharias inúteis.
Esta é, por certo, a mais importante recomendação das 95 constantes do relatório da "comissão Seguro" ao grupo parlamentar socialista. Que estarão a ser passadas ao crivo da bancada para serem presentes a debate entre todos os partidos. Segundo a imprensa menos dada a optimismos, o crivo não terá descaracterizado o documento. E o próprio líder partidário declarou, nas recentes jornadas parlamentares do PS, ter acompanhado desde a origem os trabalhos da comissão. Mas, a confirmar-se tudo isto, resta ainda ver qual a posição que vai ser tomada pelos restantes partidos num debate anunciado para Julho.
Entre os outros aspectos salientes da reforma, contam-se o reforço das competências fiscalizadoras da Assembleia. Devendo isso traduzir-se em maior frequência das interpelações ao Governo e das comparências do primeiro-ministro e numa maior sujeição dos ministros ao esclarecimento da Assembleia. Mas, sobretudo, numa reabilitação dos trabalhos em comissão, que é condição da dignificação do debate político em Plenário. O que um deputado que é angariador de seguros tem em comum com outro que é monge trapista é que ambos são políticos. É, pois, no Plenário e no terreno da política que eles deverão confrontar-se - e não nas questões técnicas e adjectivas, as quais melhor se debatem e negoceiam na comissão onde se encontram os mais vocacionados para a matéria.
Esta é a oportunidade que em Julho se vai jogar. A oportunidade para uma auto-regeneração do que vai mal na vida parlamentar e para a reafirmação da centralidade da Assembleia da República no regime constitucional em que vivemos. Julgo que não será optimismo - mas, se o for, é um optimismo de sobrevivência - pensar que o que resta de opinião popular interessada na coisa pública não perdoará facilmente que ela seja desperdiçada. Como se fosse da fria vontade dos políticos em geral manter inalteradas as causas, tantas vezes comprovadas, do desprestígio das instituições, do afastamento de muitos quadros e da desmotivação do eleitorado.
«DN» de 24 de Junho de 2007

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Pergunta de algibeira


Em «Humor Antigo» - Ano de 1925
Esta história tem duas incorrecções, por sinal relacionadas uma com a outra.
Quais são?

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23.6.07

Até que a morte nos separe

Por leitora devidamente identificada
UMA JUNTA MÉDICA DA CAIXA GERAL DE APOSENTAÇÕES obrigou uma professora, de 63 anos de idade e mais de 30 de ensino, doente de leucemia, a interromper o seu atestado médico e a retomar o trabalho, durante “31 dias de agonia, entre vómitos e desmaios em plena aula”, como testemunha o seu colega J. Sousa Dias (Público, 16 /06/07), vindo a morrer pouco depois.
A decisão desta Junta Médica da Caixa Geral de Aposentações, fazendo tábua rasa dos documentos, relatórios e atestados de outros médicos e especialistas – prática generalizada e constante deste organismo –, pela sua desumanidade, repugnante e criminosa, veio mostrar com toda a crueza o procedimento brutal e arbitrário a que centenas de profissionais são sujeitos, mas que tem tido pouca visibilidade por se passar na privacidade de um gabinete, entre o doente (que está sozinho e vulnerável) e os três médicos que compõem a Junta.
Conhecendo todos os dados profissionais do requerente e o historial da sua doença ou incapacidade, comprovada por relatórios e atestados médicos exigidos, a decisão da Junta deve ser tomada a partir dessas informações, segundo uma “tabela” oficial que quantifica o grau de incapacidade do doente, tabela reformulada há pouco tempo de modo a dificultar ao mais alto grau, a aposentação por motivos de doença.
Conheço apenas um caso com um final feliz, porém abundam as histórias de muitos colegas que, tal como eu, foram tratados como vigaristas, insultados e humilhados por essas Juntas, em alguns casos com tal grosseria e brutalidade que mais parecia estar o doente num interrogatório de torcionários, do que diante de médicos que fizeram um juramento humanitário. O processo, o método e a postura destes profissionais parece obedecer a um esquema encenado – há um que não fala, outro que insulta e o terceiro que ri.
Com 62 anos de idade e 34 de descontos e de profissão devotada integralmente ao ensino e aos alunos, com um currículo que tem pouco a invejar seja a quem for e, tendo dado à escola, durante anos a fio, incontáveis horas de trabalho extra não remuneradas, além do meu horário, com raríssimas faltas e sem poupar energias, nem saúde, agravando a minha deficiência, porém insistindo e perseverando até ao limite das minhas capacidades, quando já não posso exercer esse trabalho com um mínimo de dignidade, sou confrontada com uma espécie de tribunal de acusação que me trata como criminosa e aos meus médicos, profissionais seríssimos (assim como aos médicos das Juntas da DREL que confirmaram a incapacidade), como vigaristas fraudulentos.
Desconhecerá a Ordem dos Médicos o que se passa nestes gabinetes, à porta fechada? Tendo os médicos da Junta o poder absoluto de recusar a aposentação, se não dizem sequer em presença do doente qual é sua decisão, porque se empenham então neste acto gratuito de humilhação? Por sadismo ou sensação mesquinha de poder? Por ordens superiores, a fim de desencorajar os pedidos?
Tratar-se-á de uma nova estratégia economicista do Governo, em que os velhos e doentes vão ser forçados a trabalhar até à morte, para o Estado não ter de lhes pagar a reforma? Peço, então, que se ponha na lei o direito à eutanásia e ao suicídio assistido, como alternativa.
Aposentação? Só quando a morte nos separe.

Língua caprichosa e traiçoeira...

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ABAIXO A IGUALDADE


Por Carlos Fiolhais

Minha crónica de ontem do jornal "Público". Nem de propósito: a prova de Física de ontem tinha um erro que o Ministério da Educação reconheceu (ao contrário de outras vezes). Os exames deviam ser feitos com mais cuidado!

ESTAVA O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO EM CURSO quando uma reunião geral de alunos exigiu a um professor universitário a divulgação do modelo do exame. Ele assim fez, escarrapachando nas vitrinas não só uma série de problemas como também a respectiva resolução. Divulgados os resultados, um aluno viu o seu nome na pauta com um rotundo R à frente. Ficou tão espantado que correu a pedir uma justificação ao professor. Os enunciados eram os mesmos e ele tinha respondido tal e qual estava afixado... O professor mostrou-lhe então a prova. O aluno, que não gostava de exames, tinha simplesmente decorado (ou copiado?) tudo o que estava na vitrina, sem reparar que os valores numéricos dos problemas tinham sido alterados.

É natural que os alunos não gostem de exames. Os professores também não. Mas os exames, aqui ou em qualquer parte do mundo, são necessários. Mais: são indispensáveis para ver o que é que se aprendeu. No nosso ensino superior temos exames a mais. Em contraste, no nosso ensino básico e secundário, temos decididamente exames a menos. Os exames nacionais têm estado quase reduzidos aos do 12º ano (as chamadas “provas de aferição” não são exames: eram feitas apenas por amostragem, são anónimas e não contam para o percurso escolar do aluno; e os exames do 9º ano são muito limitados, contando só 30% para a nota). E, o que é pior, os poucos exames que há têm sido mal concebidos: às vezes não passam de meras charadas e chegam a conter erros grosseiros (o mais famoso ocorreu num exame de geometria descritiva, no qual uma recta só poderia ser tangente a uma circunferência com o auxílio de um “lápis grosso”!). Em resultado dessa escada com um só degrau, os alunos chegam ao ensino superior sem o traquejo que apenas pode ser dado por um sistema de avaliação progressivo e rigoroso. Como podem jovens que não fizeram treinos nem suficientes nem suficientemente árduos entrar de repente em jogos de alta competição?

A revolução de há 33 anos ainda não deu, na educação, frutos que nos contentem. O sistema educativo mantido pelos sucessivos governos não gosta nada de exames, de provas bem feitas que permitam a selecção dos melhores. Não gosta sequer da palavra avaliação. Mas, se todos nós temos iguais direitos (incluindo o direito à educação de qualidade), não somos de modo nenhum iguais. Os exames permitem apurar as diferenças. Uns, porque se esforçaram mais, aprenderam mais, ao passo que outros aprenderam menos. Claro que não conta só o esforço, mas também a capacidade. E não são só os alunos que são diferentes: os professores e as escolas também são. É justo que o mérito individual ou colectivo seja recompensado.

O actual governo tem-se agitado na área da educação, mas não tem sido capaz de alterar substancialmente o sistema educativo arreigado. Lá conseguiu manter umas tímidas provas nacionais no 9º ano vindas do governo anterior (este ano muito fáceis, para benefício das estatísticas), mas não se atreveu a criar exames antes disso. Meteu os pés pelas mãos nas provas de Física e Química do final do secundário no ano passado, pois foi logo evidente que muitos alunos tinham sido discriminados. Diminuiu o papel regulador e certificador dos exames nacionais do 12º ano (veja-se o caso da Filosofia). De facto, pouca gente se apercebeu que os exames nacionais no fim dos estudos secundários estão a desaparecer, uma vez que essas provas vão servir apenas para o acesso ao ensino superior. Quer dizer, como outros antes dele, o actual Ministério da Educação deu umas no cravo e muitas na ferradura.

Porque é que não há mudanças de fundo, nomeadamente no sentido de implantar uma avaliação consequente? Pior do que não gostar, a máquina do ministério abomina os exames. Ela tem muita gente que, tal como o aluno cábula, teria sido reprovada em qualquer exame sério (veja-se o caso da senhora à frente da DREN). A maior parte dessa gente alimentará talvez a doce ilusão de que somos todos iguais. Ora eu não quero ser igual a eles! E tenho a certeza de que não estou sozinho...

«Público» de 22 de Junho de 2007 - [PH]

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Como habitualmente, aos sábados,...


...aqui fica o post-aberto dos fins-de-semana, para quem o quiser utilizar.






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22.6.07

A QUADRATURA DO CIRCO

Gente séria
Por Pedro Barroso
HÁ NESTE PAÍS uma plêiade de homens e mulheres que nunca acreditou, acreditando.
Gosto deles. São gente determinada, mas sem agressividade; gentil, sem ser passiva; corajosa, mas sem perder o sentido das coisas. Gente entusiasta, sem ser lunática.
Resistem – como a incrível aldeia gaulesa – ainda e sempre ao invasor.
Entenda-se, neste caso, por invasor, o mau gosto, o nepotismo, a gestão caótica, o clientelismo, a corrupção, a incultura, a mentira institucional, o pequeno e grande roubo (o fiscal e o outro), as prepotências de Estado, a chicoespertice, o desarranjo de entulhos e vadiagens várias, as floribelas televisivas, a deseducação geral, a imbecilidade galopante.
Sabem calar, ler os sinais, falar. Aprenderam o conjuntivo e praticam-no. Têm ideias e discutem-nas. Talvez abusem da perifrástica. Talvez alguns sejam gongóricos e prolixos, mas exercitando a língua, nela se revêem, nela evoluem, nela se confirmam. Intelectuais? Não sei. Nada teria contra. Digamos que pensam antes de falar.
Convivem, observam, conversam. Mantêm tertúlias onde se procura fazer sobreviver a inteligência, nem que seja em suas próprias casas. Alguns reportam memórias de uma vida, em tempos de outra valência e pundonor cultural. E tornam-se testemunhos vivos que relatam. Consciência colectiva. Atenção.
São – um pouco à imagem do filme Fahrenheit não sei quantos – cada um, um livro, uma lição, um documentário honesto e sensível do seu viver e experiência.
Ao pé desta gente aprende-se e convive-se. Sente-se o sentido crítico, sem cairmos no criticismo barato de autocarro, nem na maledicência de mercado e galinheiro.
Aprenderam a acreditar, eu disse, nunca acreditando demais. São gente independente e informada. Atenta. Saturada de prendas, ofertas e seduções que nunca se confirmam.
E movem-se ainda. Têm ainda a energia de afirmar o sonho independente e impoluto.
E de dar testemunho das memórias que são memento, história corrente, testemunho transitado, vontade de lutar. Consciência vigilante.
Acreditaram muito, pouco, ou nada, em tudo e todos durante as últimas décadas da nossa história recente. Integraram desígnios colectivos por paixão e lealdade. Subscreveram abaixo-assinados. Entraram com pureza e candura em projectos que deixaram, quando, em consciência, os constataram eivados de vícios na forma e no conteúdo. Aprenderam em 30 anos a filtrar, dirigir e seleccionar prioridades.
Não se revêem hoje necessariamente nem em Partidos, nem em direcções de capacidade superior e estratégias florentinas de clareza duvidosa. Dizer isto é perigoso. Eu sei. Cada clientela partidária acha que a sua bandeira é sempre a mais justificada, a mais generosa, a única admissível. Mas há muitos milhares em Portugal que cansaram demais.
Nada os faz repudiar a abnegada e aguerrida vida partidária, com suas sequelas, diatribes e compensações. Mas gostam de pensar por si. Kremlin, Secretariado ou Directório pleno ao alcance de uma fácil reunião consigo próprios.
Reflexão directa e opção tranquila; sem peias nem indicações controversas ou interesseiras naquilo e naqueles que acreditarem.
Nada terão esses homens e mulheres contra os utilíssimos Partidos, esses inefáveis paladinos da democracia e da liberdade. Mas noto-lhes um discreto cansaço em relação à quadratura deste circo. Mantendo a observação serena e atenta.
Aos discursos velhos, pretensamente inovadores. Aos discursos inovadores, irremediavelmente velhos. Aos discursos. Às pessoas. À fiabilidade e seriedade de propósitos dos políticos profissionais.
Eu gosto de cidadãos independentes. Posso errar. Mas gosto. Gosto até de poder ser socialista, comunista ou liberal se, naquele momento, essa for a cruzada que acredito. O caminho que repute mais correcto para a resolução pragmática de um problema.
Ou turco, chinês, judeu, árabe, bielorusso. Tanto me faz.
Apenas quero que o chafariz funcione. O hospital. A estrada. O Prazer e o Belo. A água e a paisagem. O Ensino e a Justiça. A lei e a sombra. O sonho. Para todos.
Revejo-me por isso em candidaturas livres, corajosas e válidas.
Por isso mesmo, sem ser católico, estive com Maria de Lourdes Pintassilgo. E desde então nunca me curei. Aprendi a tolerância. A sedução pela competência, o diálogo, a inteligência, a reflexão sobre os assuntos.
A importância imensa de uma sociedade vigil.
Acredito até em ajudar o mérito a conseguir o lugar exacto onde prevaleça e seja útil. Acredito que há gente dentro e fora dos Partidos capaz desse exercício saudável de cidadania e inteligência. Acredito em homens e mulheres bons, que desejem a memória de um país viva e o seu progresso e evolução sinceros, em liberdade.
Gosto desta gente boa que se reúne nestas ocasiões e que ainda é capaz de vibrar por uma causa. Mas, se calhar, o acto maior é o de nos revermos e constatarmos. Mais velhos, mas teimosos. Acreditando, sem acreditar. Corpos cansados de tanta luta.
Mas ainda jogando a cartada, lançando opinião. Incomodando.
Eu gosto desta gente que ninguém compra. Traz na memória um povo de Abril sem calendário certo para o futuro. Bebemos na injustiça e dela construímos Liberdade.
Quando este neo-socialismo trepa pelas paredes da delação, processa opinião e se torna uma agência de injustiças, gosto de pensar que ainda existe, impoluta e provavelmente digna, essa reserva silente da Nação.
Gente que nada deve a ninguém. Que está profundamente descontente e atenta, dentro ou fora de todos os partidos da paleta democrática.
Gente que está incomodada e revoltada.
Gente séria. Que contém memória de um trajecto de liberdade que nunca esqueceu.
E que, cada vez que se encontra e se abraça, se vai interrogando baixinho e entre dentes:
- Será possível?!

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Pergunta de algibeira

Ontem foi o solstício de Verão.
O que é que este senhor (Eratóstenes, de seu nome) fez de importante relacionado com esse dia?

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Já sucedeu a alguém?

No passado domingo, ao abrir o meu Outlook Express, tive uma desagradável surpresa:
Todos os mails que tinha na caixa A Receber e nos Itens Eliminados haviam desaparecido totalmente, como se tivessem sido aspirados!
No entanto, mensagens que tenho arquivadas noutras pastas não foram afectadas - só as referidas.
Tenho o Panda actualizado e a Firewall do Windows activada.
Pergunto: alguém já teve esse problema?

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Proposta de discussão - Alguém quer comentar?

O TÉCNICO DA ELECTRÓNICA

AQUELE QUE MAIS IMPRESSÃO LHE CAUSAVA era o empregado de café, não lhe conhecia bem a história, mas sabia aquela que corria e conversava com ele todos os dias. Durante horas seguidas, o rapaz era normal, correcto, simpático, inteligente, divertido. De repente, sem pré-aviso, ora por fracções de escassos minutos, ora por períodos longos, a cabeça disparava-se-Ihe.
-... E fiquei assim porque a rapariga me deitou uns pozinhos no café e mos deu a beber. A minha mãe é que tinha razão e bem me avisou. E logo ela vem ver-me e traz-me cigarros. E enquanto não vem, deixa-me a fumar um dos seus...
De repente, sem alteração de voz ou de expressão, normalizava e falava com ponderação e vivacidade de todas e quaisquer coisas do nosso mundo.
Havia, também, a menina dos cosméticos. Durante todo o dia, pintava-se, vendo-se num espelho minúsculo, vestia e despia pequenos e miseráveis casacos de malha, e devagar, saracoteando-se, passeava pelo jardim ou pelo pátio, como se fosse uma miúda, caricaturando uma mulher provocante. Também lhe falava e, normalmente, ela dirigia-se-Ihe quase sempre com uma pergunta a que acabara por se habituar:
- Queres ser meu namorado?
Fingia que não percebia e entregava-se, afincadamente ao seu trabalho técnico, montando a máquina electrónica que a sua empresa lhe mandara pôr a funcionar naquele manicómio.
Distraía-se, também, do seu trabalho para observar o bailarino. Velho, calvo, com o cabelo que lhe restava, muito preto das tintas, e caindo em farripas sobre os ombros. Com os olhos cheios de rímel e a boca em coração de bâton, passeava pelo recreio tomando balanço para se lançar em sucessões de piruetas e de tesouras que o seu corpo pesado falhava, sem que os movimentos correspondessem aos passos que a sua imaginação persistia em criar, sem par, nem palco, nem público, e sem alguém que se preocupasse com ele, velho bailarino, retirado, perdido e patético no meio de pacíficos tontos entretidos com as suas coisinhas.
Detestava os velhos. Pareciam um quadro. Esquálidos, mal vestidos, sentados em bancos, batiam com os pratos de alumínio nas mesas dos refeitórios ou ficavam horas perdidas balançando os corpos para trás e para a frente, num vaivém absorto, com um olhar de quem não está cá.
Sentiu-se estranho, pela primeira vez, ao terceiro dia. Montara fios e mais fios, experimentara uma secção da máquina electrónica de cuja firma era técnico, tivera o seu tempo de observação dos loucos, saíra para tomar café ali próximo e sentia aquela angustiosa confusão, quedando triste e acabrunhado durante o resto do dia. Na rua, onde ao redor do hospital passeavam os mais inofensivos, descobrira a sua incapacidade de distinguir entre loucos e sãos. À medida que se afastava do hospital, ia fazendo esse teste. Fixava esta ou aquela pessoa e não conseguia distinguir a diferença dela para aqueles com quem passava o dia.
Nessa noite não conseguiu dormir.
Um enfermeiro desafiou-o a acompanhá-Io ao pavilhão de segurança:
- Venha ver um gajo que matou a mãe e os três irmãos.
Sentado no catre, em pijama, era um menino forte e louro, simpático e inofensivo.
- Estrangulou todos. A mãe, matou-a na cozinha. Os irmãos mais pequenos, na cama – explicou o enfermeiro.
Não conseguiu trabalhar mais nessa tarde. A cena do rapaz louro e louco a assassinar a família não o abandonou. Nem as piruetas do bailarino ou as provocações da menina dos cosméticos ou as conversas do empregado do café o distraíram. À noite, quando depois de jantar fixou a mulher, sem falar também, não encontrou qualquer diferença entre ela e as mulheres que durante o dia passavam por ele no hospital. Quando se despiu para se deitarem ele não estranhou estar na cama a observar e à espera do corpo da menina dos cosméticos.
Foi um grande dia no hospital. Dois ministros, dois, visitavam aquilo que persistem em classificar de complexo, inaugurando os melhoramentos naquilo que não desistem de descrever como estabelecimento hospitalar. Eram melhoramentos várias vezes inaugurados, mas que estes dois ministros, dois, não desistiam de reivindicar para o seu Governo.
O director guiava a visita, mostrando os aparelhos, explicando as secções, descrevendo sumariamente um caso ou outro.
Estavam, agora, no pavilhão de segurança. Com curiosidade mal disfarçada, espreitavam o menino que matara a família. E, de longe, riam-se da menina dos cosméticos que alguém se esquecera de fechar e que insistia em provocar tão Iuzida comitiva.
- E agora – disse o director – um caso interessantíssimo. Um homem que enlouqueceu aqui. Matou um enfermeiro e deixara a mulher estrangulada na cama. Era o técnico de electrónica que estava a montar a máquina que voscelências viram há momentos. De pijama, com os pés nus a baloiçar, sem tocar no chão, sentado de través no catre, sorriu para os olhos que se sucederam no óculo da porta. Era, de facto, impossível dizer a diferença.
Lisboa, 1987

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21.6.07

Bonita... mas "mais ou menos" falsa (*)

Esta imagem circula na Internet com a seguinte legenda:
«Esta foto foi enviada pelo administrador de uma plataforma petrolífera da Global Marine Drilling, situada em St. Johns, Newfoundland. Estes marinheiros encarregam-se de alterar a direcção dos icebergues, utilizando rebocadores, para evitar que choquem contra as plataformas.
Neste caso, o mar estava tranquilo, a água cristalina e o Sol iluminava quase directamente o icebergue, de forma que um mergulhador conseguiu obter esta foto admirável. O peso estimado deste icebergue é de 300 milhões de toneladas. (...)»
(Enviado por Óscar Soares)
__________
(*) Ver a informação dada no «Comentário-1» e link lá indicado.
Pelos vistos, a imagem é uma montagem, embora feita a partir de outras, verdadeiras - o que já não é mau de todo...

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Será do solstício?


Recentemente, falou-se muito da obrigatoriedade de declarar ao Fisco doações superiores a € 500, mesmo as que são entre pais e filhos.
E, enquanto uns se agarravam à barriga, a rir, Miguel Sousa Tavares, no «Expresso», apelava à desobediência civil! Gostaria de lhe perguntar: para quê esse trabalho?! Qual é a pessoa que, no seu perfeito juízo, acredita que um pai dá uma mesada ao filho e vai, todos os meses, às Finanças declará-la?!
A abolição dessa Lei-da-Treta só mostra como tinha razão uma famosa consultora internacional quando sentenciou que «Os gestores (e políticos) portugueses são muito bons a resolver os problemas que eles próprios criam».

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OS “DEZ MANDAMENTOS” E O PECADO DA CONDUÇÃO AGRESSIVA

Por Manuel João Ramos
EM MARÇO PASSADO, a ACA-M enviou a Sua Santidade o Papa Benedicto XVI uma carta alertando para a necessidade de um posicionamento urgente e claro da hierarquia da Igreja Católica sobre o comportamento rodoviário agressivo como grave pecado, a propósito do “padre tuner” de Santa Comba Dão (*). Essa carta foi, na ocasião, amplamente divulgada na comunicação social internacional (**).
A ACA-M e as suas congéneres europeias da FEVR – Federação Europeia de Vítimas da Estrada – têm entretanto reclamado junto das autoridades eclesiásticas e políticas mundiais a necessidade de criação dos 10 Mandamentos da Cortesia ao Volante.
Na sequência da carta e das iniciativas da FEVR, o Vaticano emitiu ontem um comunicado divulgando os Dez Mandamentos da Condução. Nele se observa que a condução pode ser uma ocasião para o pecado, insurgindo-se contra a condução agressiva e alertando para a gravidade da tragédia rodoviária mundial.
A ACA-M congratula-se e congratula todos os Portugueses com este acontecimento histórico. Fica evidente o empenho da Igreja Católica (a maior religião em Portugal) no combate a um dos maiores flagelos da nossa época: a sinistralidade rodoviária.
Sentimos ter sido assim recompensado o nosso esforço de sensibilização, a nível internacional. Enviámos já uma mensagem de calorosas saudações a S. S. o Papa Benedicto XVI.

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PEDRAS À SOLTA

A intolerância religiosa
Por Carlos Barroco Esperança

JOÃO CÉSAR DAS NEVES (JCN) parece um clérigo saído do Concílio de Trento a defender a pureza da fé e a zurzir os infiéis. É a versão romana dos talibãs, um mullah para quem a verdade é um detalhe que não deve atrapalhar o proselitismo.
Ao acusar a República portuguesa de perseguição religiosa, por ignorância ou má fé, esquece os caceteiros de Paiva Couceiro e o clero ultramontano que nunca perdoaram ao regime a lei do divórcio, a do Registo Civil obrigatório e, sobretudo, a da separação da Igreja e do Estado.
JCN pensa que os portugueses são cegos. Ao afirmar na sua homilia de segunda-feira passada que, em Portugal, «a expressão religiosa é possível, mas deve ser privada, e as manifestações da civilização cristã são silenciadas ou distorcidas» vê-se que não assiste à missa dominical pela televisão pública, perde as cerimónias de Fátima em directo, não acompanha o terço na rádio Renascença e não vê as reportagens das viagens papais nem a mensagem de Natal do patriarca Policarpo.
A RTP, na sua dedicação à causa da fé, tem avençado um sacerdote católico na RTP1, de manhã, onde é presença regular. Haverá, pois, alguma honestidade na queixa de JCN?
Há uma justificação plausível para o delírio mitómano de JCN nas suas próprias palavras:
«Quem se afunda no deboche e sofre as suas dramáticas consequências sente a necessidade de descarregar os remorsos».

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20.6.07

Amanhã, quinta-feira...

Como habitualmente às quintas-feiras, amanhã será aqui afixada mais uma crónica das «Pedras à Solta», de Carlos B. Esperança. Teremos, ainda, «OS “DEZ MANDAMENTOS” E O PECADO DA CONDUÇÃO AGRESSIVA», por Manuel João Ramos.

O mensageiro, o idiota e a Lua

EM TEMPOS que já lá vão, era frequente matar-se o mensageiro quando ele era portador de más notícias, pelo que se imagina facilmente a angústia dos desgraçados a quem incumbia tal tarefa.
Na realidade, ainda hoje (embora assumindo formas mais subtis como, p. ex., a ameaça com os tribunais) esse fenómeno é frequente - e de tal forma o é, que a expressão "síndrome do mensageiro", que surgiu por causa dele, continua a ser usada, e mais vezes do que seria desejável numa sociedade sã.Um corolário dessa aberração consiste em anatematizar quem aponta realidades que não agradam. Para os imbecis que a praticam, os chineses criaram um certeiro provérbio: «Quando alguém aponta para a Lua, o idiota fica a olhar para o dedo».
E mais não digo, pois os tempos estão a ficar perigosos...
Publicado no «Público» de 23 Jun 07 e no «Destak» de 25

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AS SIMPLES COISAS DA MEMÓRIA

Por Baptista-Bastos
A LOJA DAS MEIAS era o espaço dos ricos e a montra dos pobres. Vai fechar no final de Agosto. O Rossio está lentamente a desaparecer, tal como o conhecemos. E o halo romântico que conferia à praça o encanto contagiante de ser um lugar de encontro tornou-se pálido e difuso.
N' O Cavalo Espantado, belo romance de Alves Redol, o Rossio é-nos narrado como uma espécie de território de liberdade, para os judeus fugidos do nazismo. E os miúdos dos bairros, atraídos pelos esplendores do proibido, por ali passeavam os seus assombros, observando as pernas e os decotes dessas mulheres que vinham de longe, desenvoltas e soberbas, a fumar e a conversar na esplanada da Suíça.
Do outro lado, no Nicola, velhos republicanos murmuravam terríveis maldições a Salazar. Chamavam ao local a Fronteira do Cuspo, alusão sarcástica a quem conspirava, apenas de frase feita. Lembro-me de ali ver o jornalista Carlos Ferrão, o lendário capitão Vilhena, o comandante Augusto Aragão, o tenente-coronel Ribeiro da Fonseca, outros, que desenhavam o perfil de uma oposição formal, dispersa, absurda e confusa. Porém, gostava de os ver: sentia, na sua presença, a contida força da antiga honra.
Nos 1.º de Maio e nos 5 de Outubro, o Rossio instituía a hipótese momentânea de que a liberdade não era uma ruína sem solução. Dava-se, a essas datas, o sinal de um protesto inconformado, na ideia de que, convergindo para ali os melhores de nós, o ar ficava mais limpo e as tardes mais formosas. A polícia cercava os protestatários, e as fugas e os morras ao fascismo eram sublinhados com espancamentos e prisões. Regressávamos a casa com nódoas negras, tingidos pela tinta azul dos canhões-tanques, mas sentíamo-nos nítidos, inteiros e definitivos.
Na esquina onde, há mais de cem anos, houve nome de Loja das Meias, conversou Fialho d' Almeida com a sua matula. A literatura cultivou, no Rossio, os seus afectos: cafés lendários deram guarida a poetas, jornalistas, pintores, prosadores neo e surrealistas.
Nunca entrei na Loja das Meias: os preços ultrapassavam, de longe, as módicas possibilidades do chefe nominal, que sou, de uma família numerosa e irremediavelmente empobrecida. Porém, contemplava as montras, e espreitava as suas empregadas, belas raparigas decididas, multicores e joviais. A morte daquela loja é sinónimo da lenta e dolorosa degradação da Baixa, à qual Maria José Nogueira Pinto queria obstar, com um plano de revitalização que li e me pareceu forte de convicções e humaníssimo de arrojo.
Não é, somente, um estabelecimento que desaparece. É um nome que vai ser apagado da toponímia da memória lisboeta.
«DN» de 20 de Junho de 2007 - [PH]

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Preocupante (cont.)

http://doportugalprofundo.blogspot.com/

COMO JÁ SE REFERIU, em finais de Fevereiro de 2005 questionei [aqui] se José Sócrates era, de facto, engenheiro - pergunta essa sem segundas intenções, pois apenas se me afigurava interessante ter novamente um colega como primeiro-ministro, como já sucedera com António Guterres. Nesse seguimento, um leitor esclareceu que a questão estava a ser abordada no blogue DO PORTUGAL PROFUNDO, cujo endereço indiquei no mesmo post - e não pensei muito mais no assunto.
No entanto, quando, recentemente, o tema passou para as primeiras páginas, voltei a esse blogue e comecei a acompanhá-lo com frequência.
Naturalmente, não li tudo o que António Balbino Caldeira escreveu nos últimos 28 meses mas, no que toca aos posts mais recentes, posso garantir que os textos se dividem apenas em dois tipos:
Os que divulgam factos que são do domínio público, e os que colocam questões pertinentes.
Assim, e apesar de não o conhecer pessoalmente, ofereci-me hoje mesmo como testemunha de defesa do seu autor.
NOTA: além de testemunha, posso ser consultado pelo tribunal como perito, pois sou engenheiro desde 1970 (e membro da respectiva Ordem) e sinto-me habilitado a pronunciar-me acerca de todos os tipos de engenheiros: os verdadeiros, os falsos e os flutuantes.

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19.6.07

Amanhã, quarta-feira,...

... teremos aqui as habituais tiras de BD do simpático Van Dog.

Atenção, visitante n.º 282282!

Mantendo a tradição de atribuir um prémio semanalmente, o SORUMBÁTICO oferecerá, ao visitante n.º 282282, um dos livros em baixo indicados. Para o receber, apenas será preciso enviar o print-screen do contador-de-visitas para sorumbatico@iol.pt, indicando qual a obra pretendida e morada para envio. Até já, e boa sorte!
«A Pegada» - (2 Vol) (Larry Niven e Jerry Pournelle); «Quem Nasce Torto» (Warren Murphy); «Uns Comem os Figos» (Warren Murphy); «Um Dia no Verão» (J. L. Carr); «À Flor da Pele» (Nicola Barker); «A Lição do Mestre» (Yehudi Menuhin); «O Génio» (Dieter Eisfeld); «A Metodologia da Economia» (Mark Blaug); «Vamos ao Médico» (T. Berry Brazelton); « «Assassínio Involuntário» (Emma Lathen); «A Prostituta de Deus» (Carla van Raay); «O Ferrão da Morte» (Ruth Rendell); «O Tesouro de D. Sebastião» (Pedro Beltrão); «O Lobo de Hilgard» (M. Zimmer Bradley), «Aprender a Viver» (José António Marina»); «Beijos de Chocolate» (Alice Vaara); «A Nova Coventry» (Sue Townsend); «O Detective Global» (Toby Clemens), «O Último Ritual» (Yrsa Sigurdardóttir); «Os Fantasmas de Goya» (J.C.Carrière - Milos Forman)
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O prémio vai ser entregue ao leitor Rui Palma

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